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História

A menina de Pelotas

História de: Sirley da Silva Amaro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/03/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Sirlei da Silva Amaro fala sobre sua infância e suas brincadeiras com as vizinhas nas festas e na rua, além da discriminação social que sofria naquele tempo. Conta sobre sua longa experiência com a culinária e a do seu próprio pai como cozinheiro. Aborda sua extensa participação na comunidade com as escolas e as festividades, até entrar na Ação Griô, onde conta sobre a cultura de sua época pela oralidade.

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História completa

Meu nome é Sirlei da Silva Amaro. Nasci em Pelotas em 12 de janeiro de 1936. Meus pais se chamam João Xavier da Silva e Ambrosina Soares. E nasci em casa. Naquele tempo os nascimentos, a maioria, eram em casa. A parteira vinha em casa pra ajudar. O meu pai eu conheci ele toda vida como cozinheiro. Consta uma tia dele que me contou que ele arrumou um serviço num navio. Não sei por que nem em que época voltou pra Pelotas com essa experiência. E em Pelotas tem um hotel que chamou-se Hotel dos Estrangeiros. Então ele arrumou trabalho, as pessoas que chegavam já eram indicadas pra esse hotel e a pessoa vai ficando procurada pra fazer.

A minha mãe ela veio parar em Pelotas, também pelo que ela sempre me colocou, vinda de Canguçu. Canguçu é uma cidade que fica, mais ou menos, a uma hora e meia de Pelotas. Mas hoje eu ligo os fatos: em Canguçu tinha muitos negros, então as famílias gostavam de empregadas conhecidas. Era sempre: “Ah, preciso de uma empregada, preciso de uma negra lá em Canguçu!” Quer dizer que ela foi buscada e veio para Pelotas para ser babá na época em que as famílias traziam uma babá pra cada criança.

Só que as coisas foram mudando, lá pelas tantas quando essas crianças estavam grandes, elas não puderam. Porque a minha mãe conheceu o meu pai nessa casa, tinha um cozinheiro que eu não sei lá pelas tantas adoeceu, saiu, e indicaram meu pai, foi aí que eles se conheceram. E quando o meu pai namorou a minha mãe, e anunciou que a minha mãe estava grávida de mim, a minha mãe ficou muito preocupada  e disse pra ele, porque a minha mãe imitava a minha madrinha, ela disse: “João, como é tu, Ambrósia é uma moça.” Porque quando a minha mãe veio de fora ela veio viúva e chegou a ter uma filha que tinha falecido já, e a minha mãe disse que a madrinha: “Eu tenho responsabilidades porque ela veio pra nossa família, então tu procura aqui por perto uma casa pra alugar pra ganhar essa criança mas ela vai continuar aqui conosco.” Ela não era empregada assim fixa, mas ela ia pra fazer, ajudar.

E muito interessante também as discriminações daquela época, defronte a minha casa tinha a casa da Durvalina, Seu Artur que tinha três filhos: a Marli, a Vilma e o Vilmar. Essa Durvalina naquele tempo tinha umas discriminações muito interessantes. Era uma discriminação social, porque tinha separado assim: clube dos brancos mais ricos, clube dos brancos que eram menos. Porque essa Durvalina conseguiu frequentar o clube dos brancos mais ou menos, não era nem dos riscos, mas ela se achava a tal, então ela não queria que eu me aproximasse das crianças.

Uma coisa que eu gostava muito de fazer era olhar pro céu, eu tinha uma... Eu ficava tão transtornada porque, até estudando um pouco mais e a gente ia muito em cinema, a diversão daquela época, que eu olhava: “Como é que esse sol” Primeiro nós ficava conversando. “Será que esse sol dá pro mundo inteiro? Mas não pode existir vários sóis dentro da... E a lua também, as estrelas”. Nós gostávamos muito de contar, a iluminação era pouca, hoje a gente quase não vê as estrelas.

Na década de 80, eu trabalhava numa escola e um dia eu cheguei pra trabalhar e tinha uma notícia, um bilhete, que uma amiga minha de infância tinha chegado do Rio estava em Pelotas de novo. De repente fui morar na Cohab Lindóia sendo que ela já morava lá.

Na verdade, analisando uma resposta eu te respondo assim: eu acho que eu sempre quis ser atriz, mas na verdade agora como eu, que esse projeto me deu de presente eu fui atriz toda a vida e pelo teatro do oprimido todos nós somos artistas. Porque eu fui convidada pra esse projeto, se hoje eu estou aqui dando essa entrevista pra vocês é porque desde a infância carnavalesca, me vi sempre participando de manifestações principalmente da cultura negra em Pelotas e em vários lugares.

Em Pelotas tem um grupo afro que chama-se Grupo Odara que foi uma das coisas da comunidade negra que eu consegui vingar, e eles até consideram que eu seja uma das que botou água na raiz. Porque a nossa cultura negra ela custou muito a ter voz, a ser valorizada, a gente poder começar a mostrar a dança, não ficar só, porque durante muitos anos ficou que o negro era só jogador de futebol ou pra fazer carnaval.

Tentei já duas vezes fazer esse trabalho comunitário e não fui muito feliz porque uma vez me arrumaram uma escola de samba, um local, umas meninas, mas eram umas meninas muito sem orientação familiar, muito de andar pedindo na rua. Eram 11, não tiveram paciência, não sabiam enfiar uma linha na agulha. Eu me lembro que eu fiquei tão feliz na primeira aula que elas nunca tinham enfiado uma agulha, levaram horas enfiando a linha. E na outra aula eu já ensinei a pregar um botão, fazer um bainhazinha, eu levava todo o material. Eu falei pro Dilermando. No ano passadon ele disse: “Ah, dona Sirlei, trabalhando muito?” “Ah, Dilermando, eu estou quase parando”. E o Odara é padrinho da Casa das Meninas em Pelotas, que é uma casa que recolhe meninas e atende meninos, essas meninas que são muito agredidas, que infelizmente hoje são abusadas, e tem uma casa que recolhe, elas são orientadas, algumas adotadas, elas passam por trabalho psicológico. E o Grupo Odara faz oficina lá com elas pra auto-estima.      

Eu ouvi uma entrevista do Dilermando e ele me disse: “Olha, dona Sirlei, pra trabalhar na Casa das Meninas passa num concurso na prefeitura a senhora tem que se informar”, ele disse: “Mas tem um projeto aí no Ministério da Cultura eu acho que muito próprio pras pessoas de mais de 70 anos, um projeto que já está acontecendo e custou aqui pra chegar pra nós no Sul que é a Ação Griô.

E eu conversei com ele uma coisa muito interessante que tinha acontecido há uns três anos, eu entrei pro meu grupo de idosas da Universidade Católica, acho que 2003, e a Baronesa foi recuperada, a Casa da Baronesa em Pelotas, e o pessoal da área da história resolveu fazerestágio dentro do museu e criar uma tarde da terceira idade todas as quartas-feiras dentro do museu e o grupo que foi inaugurar foi o nosso.

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