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A menina da quebrada

História de: Jucileide Macedo Dias (Ju Dias)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/07/2020

Sinopse

O depoimento de Ju Dias mostra a ascensão de uma menina “da quebrada”, como ela diz em entrevista, de garota da xerox em uma multinacional a dona da sua própria agência especializada em comunicação para a periferia chamada Bora Lá.

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História completa

[Onde eu morava] não tinha asfalto, tinha muita violência na rua, ali nos anos 80, 90, pensando que a gente está no território distrito Jardim Ângela, que foi um dos lugares mais violentos do mundo na época.

Eu saí de casa com 21 anos, quando eu comecei a trabalhar. Eu comecei a trabalhar muito cedo, lá em casa a gente era assim, dava 15 anos e a gente já tinha que trabalhar para ajudar em casa.

Foi difícil crescer nesse ambiente, nós tínhamos muito essa questão de não ficar até tarde, assim, a gente tinha uma liberdade, mas também não podia exagerar. Eu lembro de algumas fases assim, onde, para nós crianças, a brincadeira, às vezes, era ir ver corpos. O cara foi morto ali, nós íamos lá, escondido das mães porque as mães não deixavam, ver alguém que foi baleado em tal lugar. Tem um campinho perto da casa da minha mãe onde teve uma manhã que amanheceu dois mortos, né? Aí o pessoal começou a brincar falando que eram os goleiros do time que foram assassinados ali.

[Na adolescência], uma amiga me indicou um curso chamado Camping, que é tipo um menor aprendiz hoje, onde você aprende lá, eu aprendi a passar fax, gente, fax, nem existe mais! Mas, enfim, passar fax, tirar xerox, atender telefone.

Então eu comecei a fazer algumas entrevistas e não passava nas entrevistas, a minha mãe perguntava: “Você deve estar falando alguma coisa nessas entrevistas que você não passa” como ela já me conhecia por eu ser uma pessoa bocuda, respondona, questionadora, ela achava que eu me comportava mal nas entrevistas. Até que eu fui chamada para uma entrevista de uma empresa multinacional francesa. Era engraçado, porque no curso a pessoa falava: “Ah, leva um livro para se mostrar intelectual”. Eu levei um livro que acho que eu nunca nem tinha lido, que era esses livros de vestibular, acho que era José de Alencar, não sei, um livro muito chato, que eu nunca li. Na entrevista, a pessoa falou: “Ah, que legal, você gosta de ler” e era tudo mentira. Acabou que eu passei, demorou a resposta dessa entrevista, mas eu passei.

Eu comecei a trabalhar nesse lugar, o que foi uma abertura muito grande, né? De mundos e de universo. Era uma empresa de luxo, que eles falam, mercado de luxo e era uma disparidade de onde eu vinha para onde eu ia todos os dias. Eu fui a menina da xerox por três anos, então eu fazia compra de material de almoxarifado ali gerais e cuidava das xeroxes.

[Lá conheci uma colega de trabalho, a Sheila], ela me falou que seria importante fazer uma faculdade, eu falei: “Nossa, imagina, eu nunca tinha pensado em fazer uma faculdade na vida”. Não era uma realidade, porque na época não existia Prouni (Programa Universidade para Todos), não existia nenhum programa público para incentivar o pessoal da periferia a fazer uma universidade. Eu falei: “Não, eu não consigo”, ela falou: “A empresa pode pagar uma parte da sua faculdade, você tem que escolher um curso, vai ser importante para você continuar aqui”. Eu não tinha muita saída, eu fui fazer.
Eu fiz Comunicação, Propaganda e Marketing, porque a Sheila falou: “Ah, eu acho que você tem esse olhar mais estético, mais essa pegada de comunicação social”. Dali eu fui, passei, fiz a Anhembi Morumbi, a empresa pagava 70%, eu pagava o resto e mesmo assim era difícil, então eu terminei a faculdade devendo um ano ainda, foi bem pesado.

Nessa marca, que eu trabalhei eu fiquei uns seis anos, mais ou menos, que ali era da parte que eu fui assistente, eu fiquei um bom tempo.
(...)

Eu fui chamada para uma empresa que só tinha fora do Brasil, uma grande marca de maquiagem, a Sephora. A marca estava chegando no Brasil e a primeira loja foi ali no JK, que é naquele shopping classe A. A diretora, que era americana, também me conheceu no grupo que eu trabalhei lá atrás, falou: “Ju, a gente está trazendo essa marca para o Brasil e eu queria alguém para cuidar da parte de visual merchandising, ponto de comunicação, ponto de venda. E eu queria que fosse você”.

Essa parte de ponto de vendas, assim, começou a abrir outras lojas em outros estados, eu viajava, enfim, era um processo de trabalho, muito trabalho, muito trabalho. Era isso: tinha que trocar vitrine em tal data, você tinha que trocar em todas as lojas ao mesmo tempo, organizar equipe de troca, fornecedor tem que mandar RG, você tem que contatar o shopping, aí [quando] não dava certo, era aquele estresse. Por consequência, eu comecei a adoecer nesse processo, de criar uma síndrome do pânico, comecei a ficar deprimida.

(...)

[Um tempo depois], surgiu essa ideia, a minha irmã mesmo falou assim: “Ah, você é tão boa no que você faz, que é comunicação, porque você não pensa nisso com um propósito?”, porque isso ainda me trazia angústia, me trazia ansiedade, eu comecei associar Comunicação com algo que me deixava doente, então eu não via muito essa coisa de saída, de pensar, de viver daquilo, né? Eu estava procurando uma saída para esquecer toda a bagagem que eu tinha, porque eu fiquei doente nesse processo. [Foi aí que pensei que] a quebrada precisa, a periferia, você pode pegar tudo que você aprendeu, toda essa bagagem, transformar aquilo e fazer algo que você se identifica, ressignificar isso, né? Foi nesse processo que surgiu a Bora Lá, em maio de 2017.

A ideia é atender empreendimentos, negócios sociais e culturais da periferia, mas não só da periferia, então tenho clientes que são de Pinheiros ou que eram de Pinheiros agora estão no centro, mas que querem comunicar com a periferia. Essa ideia de ser acessível, de ser uma coisa que aproxima, de você querer ouvir aquela pessoa e o que ela pensa realmente, né? É isso e nada mais. Você vai pegar aquilo e transformar visualmente para aquilo que a pessoa espera.

A Bora Lá já tem mais de 120 clientes que atendi nesses três anos, eu acho que uma coisa que eu valorizo muito é o comprometimento com os trabalhos, desses 120 clientes que eu atendi, foram todos indicações, que veio de um, que veio de outro. Eu imagino que ela vai ter vida própria, eu penso em um futuro que ela caminhe com as próprias pernas e eu não tenho essa coisa de ser muito apegada, assim. Eu acho que ela vai crescer, a ideia, que seja, enfim.
Hoje o [meu] maior sonho é me manter viva e militante, atuando de alguma forma para melhorar a situação do nosso país.

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