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História

A memória como uma fita de máquina

História de: Domenico Iozzi
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Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância em Ripi. Segunda guerra Mundial. Vinda de navio para o Brasil. Moradia em São Caetano do Sul. Trabalho nas Indústrias Matarazzo. Hidrelétrica de Salto Grande. Trabalho na Hidrelétrica de Barra Bonita. Ingresso na unidade de Usina do França, da CBA, como Subchefe. Mudança para Juquitiba. Estudo dos filhos.

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História completa

P/1 - Senhor Domenico, inicialmente eu queria saber o seu nome completo.

 

R - Domenico Iozzi.

 

P/1 - Onde o senhor nasceu?

 

R - Em Ripi, Itália.

 

P/1 - Qual a data?

 

R - Quatro do seis de trinta e quatro.

 

P/1 - Seus pais são de onde, senhor Domenico?

 

R - Ripi, Itália, também.

 

P/1 - Quando o senhor veio para o Brasil?

 

R - Eu saí da Itália em 25 de janeiro e cheguei no Brasil em 12 de fevereiro de 1953.

 

P/1 - E o senhor passou a sua infância... 

 

R - Uma parte em Ripi, até os 14 anos. Depois dos 14 anos, eu fui em (Fratoccio?), uma região perto, a 18 quilômetros de Roma.

 

P/1 - Como era Ripi nessa época? O que o senhor se lembra?

 

R - Era uma cidade pequena. Foi logo depois da guerra, a gente não tinha emprego, estrada quebrada, escola que não tinha. Então, foi difícil.

 

P/1 - Como era o cotidiano na sua casa? Como era a vida do senhor? O que os pais do senhor faziam?

 

R - Eles eram agricultores. Eles trabalhavam dia a dia, para sustentar a família.

 

P/1 - E o senhor chegava a ajudá-los?

 

R - Ah, cheguei a ajudá-los. Mesmo pequeno, mas eu trabalhava.

 

P/1 - Como era o dia a dia na casa do senhor? O que vocês faziam?

 

R - Ah, na época não tinha televisão, não tinha nada. Foi logo depois da guerra. Era aquele dia de camponês mesmo, não tinha muita coisa.

 

P/1 - E como era o dia a dia de camponês?

 

R - Ah, levanta de manhã, trabalha... (risos) Termina o dia, bate um papo com a família e vai dormir.

 

P/1 - E tinha amigos por perto?

 

R - Ah, tinha. Tinha família perto, a gente tinha os amigos. Começava a jogar futebol. Naquele tempo era uma bola muito precária. (risos)

 

P/1 - Quantos irmãos o senhor tinha?

 

R - Eu só tenho uma irmã. Tinha uma irmã.

 

P/1 - O senhor saiu de Ripi aos 14 anos. O senhor foi para onde?

 

R - Eu fui em Fratoccio, 18 quilômetros de Roma. Meu pai comprou uma pequena propriedade, fez uma casa e a gente mudou para lá. Mas assim mesmo lá não tinha serviço, na época. Então, a gente, naquela influência, a gente novo, 18 anos, era para mim ter ido na Austrália. Mas depois, não sei por quê, não deu certo. Tinha outros colegas meus: “Vamos para o Brasil”. A gente tinha 18 anos, minha mãe, meu pai, não queriam que a gente viesse para o Brasil. Mas a gente, de tanto insistir, eles autorizaram para a gente vir para o Brasil. 

 

P/1 - E o senhor já tinha ouvido falar no Brasil nessa época?

 

R - Eu já havia falado, mas muito pouco. Porque o Brasil, que eu lembre, não era muito divulgado ainda. Só se ouvia falar do Brasil em alguma partida de futebol, na copa do mundo, mais nada. Não tinha muita comunicação.

 

P/1 - E o senhor chega a imaginar de onde surgiu essa idéia de vir para o Brasil?

 

R - A gente vem aqui com a intenção de que no Brasil vamos trabalhar, que no Brasil tem emprego. Muitos colegas já haviam chegado aqui no Brasil há uns meses, anos, um ano antes. E a gente veio aqui no Brasil.

 

P/1 - E logo quando o senhor chegou no Brasil, para onde o senhor foi?

 

R - Eu fui em São Caetano, na Rua Pirela.

 

P/1 - O senhor foi morar nessa rua?

 

R - Fui morar nessa rua.

 

P/1 - E como era o seu cotidiano? Qual foi a primeira impressão que o senhor teve na cidade?

 

R - (risos) A primeira impressão que eu tive da cidade foi boa, porque, nos dias do carnaval, perto do carnaval. Então, eu fui morar perto de um clube. Então tinha aquele barulho, que a gente não conhecia carnaval lá na Itália igual aqui. E eu ouvia aquele barulho, a gente não dormia a noite inteira. (risos) Mas a gente gostou. Era gente nova, 18 anos, tudo é bom. (risos)

 

P/1 - E o senhor chegou a ir nesse baile?

 

R - Não, não cheguei a ir nesse baile.

 

P/1 - E onde o senhor foi trabalhar, logo que o senhor chegou?

 

R - Logo que eu cheguei em São Caetano, numa indústria na Ermelino Matarazzo.

 

P/1 - E como era o cotidiano nas Indústrias Matarazzo?

 

R - A gente ia lá, trabalhava, era uma oficina, e a gente trabalhava na oficina.

 

P/1 - Tinha muitos estrangeiros nessa época?

 

R - Ah, tinha. A maioria, 70% era italiano.

 

P/1 - Como o senhor chegou a ir trabalhar nessa empresa?

 

R - Por intermédio de colega. A gente ia lá, tinha muito serviço, ia lá, arrumava fácil serviço.

 

P/1 - E havia uma boa relação entre a comunidade italiana...?

 

R - Ah, sim. Havia uma boa relação.

 

P/1 - Senhor Domenico, eu gostaria de voltar um pouquinho atrás para perguntar para o senhor: quando o senhor começou a estudar, em que momento da sua vida?

 

R - Eu comecei a estudar em 1940, 1941. 

 

P/1 - Que memória o senhor tem do período escolar?

 

R - Ah, foi difícil, uma memória difícil. Tempo de guerra, tudo era difícil. Quando a gente ia na escola, tocava a sirene, a gente precisava correr dentro da aula e se esconder fora. Foi um tempo... Não foi muito agradável.

 

P/1 - Bom, o senhor acabou falando... A própria questão da sirene, a própria questão do medo. Como é viver num país em guerra?

 

R - É difícil, só passando para acreditar. Depois, na guerra também, eu tenho uma lembrança ruim, que eu perdi quatro primos num acidente de guerra. Perto de casa, que eles trabalhavam no campo, acho que dois aviões, americano e alemão, para descarregar o peso, por acaso jogaram umas bombas lá. E pegou os quatro primos meus. Morreram na hora. Minha tia perdeu quatro filhos nesse acidente. Dois ficaram feridos e um estava prisioneiro na Alemanha. Ela ficou desnorteada. Uma lembrança muito triste.

 

P/1 - Quando o senhor chegou ao Brasil, como foi para o senhor aprender português? Foi difícil?

 

R - Não foi difícil porque muitas palavras soam igual ao português. E não foi muito difícil. É claro que as pessoas acham até engraçado, os colegas de serviço, mas era interessante. Porque tudo derivado do latim, muitas palavras são iguais.

 

P/1 - Como era a juventude na época do senhor? Onde vocês iam, na Itália?

 

R - Na Itália, praticamente não ia a lugar nenhum.

 

P/1 - Não tinha muita diversão?

 

R - Não tinha muita diversão naquela época, pelo menos para mim.

 

P/1 - Não tinha por quê?

 

R - Não tinha possibilidade, a gente nessa época não tinha quase nada. 

 

P/1 - O senhor saiu da Itália aos 18 anos. O senhor chegou como no Brasil? Qual foi o meio de transporte que o senhor utilizou?

 

R - Foi navio. Um navio (Cistrer?) que chama. Eu embarquei dia 25 de janeiro, em Nápoles, e cheguei aqui dia 12 de fevereiro. Foram 17 dias de viagem. É cansativo também.

 

P/1 - E o senhor tem alguma imagem dessa partida da Itália, que ficou gravada?

 

R - Ah, eu lembro. Os colegas que vinham despedir da gente, a gente lembra como se fosse hoje. Não é muito bom. Que depois eu demorei para voltar para a Itália.

 

P/1 - E como foi a viagem de navio?

 

R - Tem um período do navio que tem muito problema de balanço. A gente, que não estava acostumado, faz mal. Mas depois de uns dias, especialmente quando nós passamos no estreito de Sibliter, então o navio fazia muito movimento, então a gente se sentia mal. Eu falava assim: “O dia que eu voltar para a Itália só vou querer voltar de avião”. (risos) E deu certo, que eu fiquei muitos anos lá, e quando voltei, voltei de avião. 

 

P/1 - E quando o senhor chegou aqui em São Paulo, qual era a diversão?

 

R - Na época que eu cheguei aqui, mais era cinema. Cinema quase todo dia.

 

P/1 - E o senhor se lembra de algum filme dessa época que tenha...?

 

R - Ah, lembro. Arroz Amargo... Qual é o outro? Não lembro muito o nome, mas...

 

P/1 - O senhor chegava a ver filme, por exemplo, de Fellini, Antonioni?

 

R - Via. Quando passava filme italiano, era infalível. (risos)

 

P/1 - Isso retomava a memória?

 

R - Retomava a memória, a nostalgia que a gente tinha. Matava um pouco a nostalgia.

 

P/1 - Quando o senhor chegou aqui no Brasil... Bom, o senhor vem de um país europeu, um país que tinha acabado de terminar uma guerra. Como era o Brasil dessa época? O que o senhor apreendeu dessa época? Teve alguma coisa que espantou o senhor, o comportamento?

 

R - Não, até foi bom. Desde quando eu cheguei no Brasil, eu sempre me dei bem aqui. Foi uma terra que a gente gostou, porque tinha muito descendente italiano. Eu achei o Brasil um ótimo lugar para a gente viver.

 

P/1 - Como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R - Eu fui trabalhar em Barra Bonita, na hidrelétrica de Barra Bonita. E eu conheci a minha esposa num clube. 

 

P/1 - Clube de esportes?

 

R - Não, clube...

 

P/1 - E como foi esse encontro, o senhor se lembra?

 

R - A gente era novo. (risos) A gente se encontrava, que a gente ia no cinema também, lá. E a gente se encontrou, bateu um papo, e assim começou o namoro.

 

P/1 – Para chegar até o casamento, o senhor foi até Barra Bonita. O senhor chegou e foi ficar em São Caetano. Como foi essa transferência de São Caetano para Barra Bonita? Quais foram os caminhos que o senhor fez?

 

R - Primeiro, de São Caetano, eu morava, fui trabalhar em Salto Grande. Em Salto Grande trabalhei um certo tempo, três anos, depois eu passei em Barra Bonita. Estava começando a obra de Barra Bonita. E eu preenchi uma ficha. E voltei em São Paulo, trabalhei na Laminação Nacional de Metal. Trabalhei mais uns seis meses, e recebi um telegrama, porque estava começando o serviço e a minha ficha tinha sido aceita. E eu voltei lá para Barra Bonita.

 

P/1 - Inicialmente, em Salto Grande, o senhor foi trabalhar no quê?

 

R - Na usina hidrelétrica.

 

P/1 - O senhor já tinha essa experiência com usina hidrelétrica?

 

R - Não, a primeira usina hidrelétrica foi em Salto Grande. 

 

P/1 - O senhor tinha alguma formação? Em qual área o senhor tinha formação?

 

R - Eu tinha feito uma escola técnica, uma por correspondência. Fiz desenho mecânico.

 

P/1 - E como foi para o senhor já iniciar a sua carreira numa usina hidroelétrica?

 

R - Ah, foi... Porque eu também encontrei colaboradores, gente que tinha... Meu chefe era um francês, que era o responsável pela montagem da turbina. E a gente acho que se destacou, e ele ajudou bastante a gente, ensinou muita coisa. E eu, desde lá, já me formei um líder, com cinco, seis pessoas, me deram uma certa parte para eu fazer a montagem, mas com a fiscalização do meu chefe. E acho que me destaquei e fui indo.  

 

P/1 - O senhor se lembra alguma coisa do cotidiano, nessa usina?

 

R - Eu sei que a gente trabalhava bastante. (risos) Trabalhava das sete às cinco, às seis, com o intervalo do almoço. Depois, lá chamava “fazer o serão”, tinha uma hora de descanso, e ia até às dez horas. Mais ou menos, foi quase uns três anos que eu trabalhei lá.

 

P/1 - Bom, no início de carreira, quais os problemas que o senhor mais enfrentava na usina?

 

R - Problema eu acho que eu não tive.

 

P/1 - Em termos técnicos?

 

R - Não, porque a gente tinha cobertura do meu chefe. Então, tinha qualquer problema, a gente pedia ajuda.

 

P/1 - E saindo de Salto Grande, o senhor passa um período em uma outra empresa?

 

R - Não, na mesma empresa, saindo de Salto Grande, eu fui para Flórida Paulista, trabalhei um tempinho. Depois eu fui trabalhar na Etroclore em Ribeirão Pires, mas foi pouco tempo. De lá que eu fui trabalhar na Laminação Nacional de Metais.  De lá que eu fui para Barra Bonita.

 

P/1 - Onde o senhor conheceu a sua esposa. O senhor se lembra como foi o casamento?

 

R - Ah, foi um casamento simples. A minha família é uma família simples também, a família da minha esposa. Mas gente honesta. Foi ótimo.

 

P/1 - Os pais do senhor chegaram a vir aqui para o Brasil?

 

R - Não, não chegaram.

 

P/1 - Qual a maior lembrança que o senhor guarda desse período, desde a saída da Itália, até o seu início profissional na área de usinagem? Alguma coisa que de vez em quando o senhor pensa, sente saudade?

 

R - Quando a gente trabalhava lá em Barra Bonita, a gente sente saudade. Ainda era solteiro, tinha bastante colega. Então a gente sente aquela saudade, eu lembro ainda dos colegas.

 

P/1 - E os filhos do senhor? Algum seguiu a sua carreira?

 

R - Bom, os dois homens fizeram Engenharia Mecânica. Uma filha fez Letras, aqui no Brasil, em Assis, na Universidade de Assis, depois foi fazer um aperfeiçoamento na Itália, em Florença, ficou 18 meses lá. Depois ela voltou. E a outra filha fez escola de Desenho Industrial, aqui no Mackenzie, em São Paulo.

 

P/1 - Então o senhor construiu uma belíssima família.

 

R - Graças a Deus! (risos) Foi ótimo. É um orgulho que a gente sente, que consegui, ter os quatro filhos ótimos. É uma coisa que deixa os pais contentes.

 

P/1 - Senhor Domenico, quando o senhor começou a trabalhar na Votorantim?

 

R - Foi em 22 de julho de 1966.

 

P/1 - Em qual unidade o senhor começou a trabalhar?

 

R - Na unidade de Usina do França.

 

P/1 - A Usina do França está ligada a qual empresa?

 

R - A CBA.

 

P/1 - O senhor já tinha ouvido falar do Grupo Votorantim alguma vez?

 

R - Não, eu não tinha ouvido, tinha ouvido falar da CBA. Que tinha um colega que trabalhava comigo, e ele veio fazer uma revisão na CBA, aqui na Usina do França. E ele falava que era difícil na Usina do França, porque não existia... A BR-116 era difícil o transporte, eles andavam de carro em estrada ruim. Então eles pegavam o trem em Aldeinha, perto de Itapecerica da Serra, para eles virem em São Paulo. Mas nunca pensei que fosse trabalhar na CBA. Nesse tempo, um colega meu veio trabalhar na CBA, e ele me convidou. Depois de um ano e meio que ele era funcionário. E eu vim aqui. A primeira filha minha tinha dois meses. Ela nasceu em 15 de junho, e eu fui lá 22 de julho. Então ela foi lá com mais ou menos dois meses. E onde começou a família. (risos)

 

P/1 - Qual foi a primeira impressão do senhor com relação a Usina do França, o primeiro dia de trabalho nesse espaço?

 

R - Foi bom, porque eu já estava acostumado na usina, tinha esse colega que era chefe da usina. Só que o lugar era meio difícil, não tinha nada. Eu lembro que quando passava um carro na estrada, o pessoal corria para ver o carro. (risos) Porque não passava. O único carro que tinha era da CBA, uma caminhonete só. Nós tivemos dificuldade de outras coisas, de padaria, não tinha açougue. Nós fazíamos compra em Itapecerica, mais ou menos 60 quilômetros de onde nós morávamos.

 

P/1 - Logo que o senhor entrou para trabalhar na usina hidrelétrica da CBA, na Usina do França, o senhor já mudou? Essa usina fica localizada onde?

 

R - Na Cachoeira do França, em Juquitiba.

 

P/1 - O senhor já mudou para essa região, ou o senhor permaneceu...?

 

R - Depois de dois meses, eu mudei.

 

P/1 - E onde o senhor estava antes de ir para lá?

 

R - Estava em Bariri.

 

P/1 - Como foi o início da vida em Juquitiba?

 

R - Foi precário, porque era difícil. Ainda hoje é difícil e naquele tempo não tinha nada. Só tinha uma escolinha que a CBA mantinha. E a gente falava: “Depois que os filhos crescem a gente tem que ir embora”. Mas depois foi melhorando. A gente fez o primário no lugar da usina, depois fez o colegial numa cidade perto, que é Juquitiba, a 18 quilômetros, e depois precisava sair para fora. E a dificuldade que foi, é que a gente sempre viveu longe dos filhos. Vinha toda semana, às vezes a cada 15 dias. Mas eles estudavam aqui em São Paulo. Então para a gente é difícil, fica aquela preocupação, os filhos eram novos, nunca tinham saído. Mas graças a Deus, deu tudo certo.

 

P/1 - A casa que o senhor foi morar era a casa que pertencia a CBA?

 

R - Sempre foi casa da CBA, que pertence a CBA.

 

P/1 - E como são essas casas?

 

R - São ótimas. São umas casas ótimas. A CBA dá todo o respaldo, ótima casa. Inclusive de todos os funcionários, ótima casa. 

 

P/1 - Quando o senhor entrou para trabalhar na Usina do França, qual era a sua função?

 

R - Subchefe da usina.

 

P/1 - E o que o subchefe fazia naquela época?

 

R - Fazia manutenção. Numa usina sempre tem serviço. Tinha o chefe e eu era o subchefe. Na ausência dele a gente mantinha a usina em ordem. Porque naquele tempo também era mais difícil, porque a usina não tinha facilidade de parar - porque a energia para a CBA era pouca. E a gente, às vezes, precisava trabalhar 24 horas. E a gente sempre foi em frente. 

 

P/1 - Senhor Domenico, o senhor entrou em um ponto que eu acho que é bastante interessante. Como funciona uma usina hidrelétrica? Aquilo que o senhor se lembra. 

 

R - Bom, a usina tem a represa. A Usina de Cachoeira do França é uma usina subterrânea. Então desce a água a 112 metros, e vira a turbina lá no... Subterrânea. Essa água turbinada pega outro túnel de 800 metros, onde pega o leito do rio outra vez, que logo depois pega a represa da Cachoeira da Fumaça. 

 

P/1 - Essa energia é destinada só para a CBA?

 

R - Só para a CBA. Só para a Fábrica de Alumínio, em Mairinque.

 

P/1 - Nesses anos de trabalho junto ao Grupo Votorantim, junto à Usina do França, quais seriam os avanços tecnológicos nessa área que o senhor indicaria que revolucionaram o seu trabalho? Teve muitas mudanças nessa área?

 

R - Teve muitas mudanças. Agora tem uma escola mais avançada, mas já mudou bastante.

 

P/1 - E como o senhor foi acompanhando isso?

 

R - É uma usina sem, como fala, uma usina simples. E a gente está acostumado, já com muitos anos de experiência, a gente fez a manutenção direito, não teve problema nenhum.

 

P/1 - E o senhor, ao longo desses anos que o senhor trabalha na usina, o senhor chegou a fazer cursos fora do país, receber cursos aqui, até mesmo dar cursos?

 

R - Não fiz nenhum curso.

 

P/1 - Tudo vem de uma formação...?

 

R - Da gente mesmo.

 

P/1 - Senhor Domenico, nesses anos de Votorantim muitas coisas aconteceram. Eu gostaria de saber qual foi a maior dificuldade para o senhor dentro do Grupo Votorantim.

 

R - Eu não tive dificuldade. Não tive nenhuma dificuldade.

 

P/1 - E qual foi a maior conquista que o senhor acredita que o senhor fez dentro do Grupo Votorantim?

 

R - A maior conquista que eu fiz na CBA foi que eu tive condição de estudar os meus quatro filhos, todos os quatro fizeram a escola superior. Isso acho que foi uma conquista, que talvez em outros lugares poderia ser mais difícil. E na CBA não foi difícil. Foi difícil o lugar para mim. Mas sempre tive um salário pronto, você poderia tomar um compromisso e a gente conseguia, que a CBA nunca atrasou um pagamento. E a gente, na hora que precisa de algum apoio, na minha chefia, me deram apoio.

 

P/1 - Em algum momento a CBA custeou o estudo dos filhos do senhor?

 

R - Não. 

 

P/1 - O Grupo Votorantim é um grupo calcado em alguns valores. Quais são os valores que o senhor percebe que existe no Grupo Votorantim, e na CBA, a que o senhor está ligado diretamente, que o senhor trouxe para a sua vida?

 

R - Trabalhador honesto, que tem de bom na CBA. Se você for bom trabalhador e honesto... Não sei se eu entendi a pergunta... A gente tem valor.

 

P/1 - O senhor acredita que um jovem que entrasse hoje, na mesma função que o senhor entrou, dentro da Usina do França, teria as mesmas oportunidades que o senhor teve de crescimento?

 

R - Às vezes tem, sim. Mas não sei se hoje... É claro que hoje a dificuldade que tem lá, como eu me prontifiquei a ficar lá, deixei a família estudar em São Paulo, uma outra pessoa hoje não sei se vai se sujeitar, por via da esposa que não está acostumada, ou das crianças, que estão na escola. Não sei. Eu acho que não respondi bem a pergunta. (risos)

 

P/1 – Respondeu, sim. O senhor toca em um assunto que parece ser uma coisa recorrente, que é a distância dos seus filhos em alguns instantes, devido aos estudos. O senhor tem alguma história para narrar, relacionada a esse fato da distância dos filhos, que tenha marcado o senhor?

 

R - Marca, porque a gente mora longe. E eu tive um filho, esse filho Enrico, ele estudava na FEI, e ele era estagiário da Papaiz Cadeado, lá em Diadema. Um dia que ele saiu do estágio para ir na escola, foi assaltado. Ele tinha pouco mais que 18 anos. E a gente naquela apavoração, isso é uma coisa que marca, que a gente não pode ficar junto. E ele estava com uma blusa, tiraram a blusa do rapaz, duas pessoas, e ainda falaram para o rapaz, que ele foi buscar os livros, que deixaram derrubar os livros: “Anda logo, anda logo!” E a gente fica preocupado, são coisas que marcam. Daí em diante, a gente fica preocupado que os filhos estão longe, não dá para dar aquela assistência igual a quando estão perto da gente.

 

P/1 - Se o senhor tivesse que... Suponhamos que nós pudéssemos voltar atrás, o senhor escolheria novamente o Brasil para morar?

 

R - Depois de tanto tempo, acho que escolheria.

 

P/1 - O senhor já pensou em voltar para a Itália? 

 

R - Não, para mim não dá, porque a minha família agora é aqui no Brasil. Eu sou mais brasileiro que italiano. Quer dizer, aqui no Brasil eu fiquei... Vim com 18, agora tenho 69, fiquei bem mais aqui no Brasil do que na Itália. A minha família, os meus filhos nasceram todos aqui no Brasil. Nem teria condições. Eu gosto de ir na Itália para passear. Mas eu escolheria o Brasil de novo.

 

P/1 - O senhor falou, em algum momento da nossa entrevista, do retorno que o senhor fez à Itália. Como foi esse retorno? 

 

R - Eu voltei para a Itália, para visitar meus pais, e não foi muito agradável. Porque quando fui a primeira vez, eu encontrei meu pai, e poucos dias antes de eu chegar na Itália, ele teve um derrame. Fiquei um mês lá. Eu voltei aqui no Brasil no dia 14, e ele veio a falecer dia 21, sete dias depois. Um negócio... Depois eu voltei, a minha mãe depois de uns tempos faleceu também. Voltei o ano retrasado, fui lá, cheguei dia 4 de junho, dia do meu aniversário, minha irmã me fez a festinha, tudo, aí ela veio a falecer terça-feira. Agora não tem mãe, não tem pai, não tem irmã. Tem minha sobrinha, que ela já veio duas vezes aqui no Brasil, ela com a família, com o marido e o filho. E eles pedem: “Como é, tio? O senhor não vai voltar na Itália?” (risos) Não tem jeito.

 

P/1 - Domenico, eu tenho uma curiosidade: o senhor mantém muito forte o sotaque do italiano. Isso é um traço interessante, porque mostra o quanto você está ligado à cultura italiana, o quanto a língua ainda marca a sua vida. Mas como é o relacionamento cotidiano com as pessoas?

 

R - Onde eu moro tem poucas pessoas, algum visitante, alguma coisa, que é italiano. Mas, é muito difícil. A ligação que eu tenho são os colegas que eu deixei aqui em São Paulo. Alguma vez que estou de folga, ou em São Bernardo, onde tem meu filho, vou visitar meus filhos, eu tenho meus colegas italianos, então a gente fala um pouco italiano. Além disso tem minha filha, que é professora de língua italiana. 

 

P/1 - Seus filhos fizeram questão de aprender italiano? Todos falam italiano?

 

R - Eles não falam corretamente, mas todos eles falam um pouco. Não falam bem, entendem.

 

P/1 - Eles chegavam a perguntar por que o senhor não falava português?

 

R - Não, só de gozação. (risos) Porque eu tenho sotaque. Eles: “Mas, pai! 50 anos que está aqui no Brasil, ainda não aprendeu a falar português!” (risos) Em brincadeira.

 

P/1 - Eu queria falar um pouco sobre a questão de valores da Votorantim. Como, por exemplo, você que é um funcionário do Grupo Votorantim, e está há quase quatro décadas ligado a esse grupo, você acha que o Grupo Votorantim investe nos seus funcionários?

 

R - Eu acho que agora está investindo bem no funcionário.

 

P/1 - Em algum momento você sentiu essa ausência?

 

R - Na época, era mais difícil. A CBA ia investir o que em mim? Não tinha condição. A gente era funcionário, que devia exercer a função lá. Mas em outros lugares sempre ajudaram, investiam no funcionário. 

 

P/1 - A área em que você atua é uma área muito estratégica. Houve alguma crise grande que em algum instante te desanimou? Por exemplo, no final do século XX, em 1999, nós tivemos o apagão, que já era uma coisa que estava sendo meio que antevista por alguns especialistas. Como isso chegou até você?

 

R - Na prática, no finalzinho, não tivemos apagão. Não sei se é a pergunta que eu entendi. E sempre a gente leu alguma coisa, que sempre se referiu a isso, que o governo em si deveria fazer mais usina. Que a energia é tudo, a indústria do mundo. E ele sempre combateu isso, desde que ele tem uma usina. E já faz muitos anos, não deixaram construir.

 

P/1 - Você já estava no Grupo Votorantim?

 

R - Já. Faz questão de dez, quinze anos. 

 

P/1 - Em termos de crise, o senhor consegue indicar alguma que houve, que acabou pegando o Grupo Votorantim?

 

R - Não, eu não sei, porque a gente fica na usina, e não...

 

P/1 - O que você poderia dizer da atuação do Grupo Votorantim na área social? Tem algum trabalho que você se lembre que o Grupo Votorantim realiza ou realizou, que você achou profundamente importante?

 

R - Ah, eles dão curso para o pessoal da CBA, especialmente nos mais novos. E ajuda bem.

 

P/1 - Domenico, qual o seu maior sonho?

 

R - (risos) Ver meus netos, os filhos dos meus filhos, ver tudo bem.

 

P/1 - O senhor é um homem muito ligado à família, não é?

 

R - Graças a Deus. E a família também muito ligada na gente, que acho que já é... Como fala? O que se planta, colhe.

 

P/1 - O senhor já tem netos?

 

R - Eu tenho uma netinha, de três meses.

 

P/1 - Como ela chama?

 

R - Luísa.

 

P/1 - É filha de qual?

 

R - Do Enrico.

 

P/1 - Como é o seu cotidiano atualmente?

 

R - Meu cotidiano hoje é, como estou falando, a usina, a gente trabalha todo dia, às sete horas está na usina, depois fica à disposição (risos). Quer dizer, a gente trabalha numa usina, fica 24 horas ligado na usina. E nós temos uma semana sim, outra não, uma folga. A gente às vezes vai visitar os filhos, vai aqui em São Paulo fazer alguma compra. Casa e trabalho.

 

P/1 - Nesses anos de trabalho na Usina do França, teve alguma história que te chamou a atenção?

 

R - Não.

 

P/1 - Acontecem coisas engraçadas no cotidiano, dentro da usina?

 

R - Não, é um lugar pequeno. Acho que não...

 

P/1 - Quantos funcionários trabalham, em média?

 

R - 36 pessoas, funcionários.

 

P/1 - E você coordena essas 36?

 

R - É. E tenho mais 32 na Fumaça.

 

P/1 - Você tem um grupo bastante grande... E como é o seu relacionamento com esses funcionários?

 

R - Eu acho que é bom. Não sou inimigo de ninguém, os funcionários acho que tudo... Acho que é bom.

 

P/1 - Domenico, o que você achou de estar participando desse projeto Votorantim 85 Anos: Nossa Gente Faz História, contando a sua história para a gente?

 

R - Ah, foi ótimo, para a gente expor o que a gente fez, o que faz na CBA, o que conseguiu na CBA.

 

P/1 - Você falou uma frase lá fora para mim, que eu achei muito bonita, que é a questão da memória como uma fita de máquina.

 

R - (risos) A memória como uma fita de máquina. Porque a gente, coisa de 50 anos atrás, hoje lembra nitidamente, e coisa que aconteceu há seis meses atrás, às vezes, tem dificuldade de lembrar. Então, a memória deve ser igual uma fita, vai apagando. (risos) Então, é mais difícil.

 

P/1 - Domenico, a gente está chegando nos momentos finais do nosso depoimento. Eu gostaria de saber se você gostaria de deixar alguma mensagem para o Grupo Votorantim, para a CBA, para os seus funcionários ali na Usina do França, para os seus filhos?

 

R - Eu não tenho jeito para a coisa. Mensagem que eles continuem trabalhando, sendo honestos com a CBA, que a CBA e o Grupo Votorantim é uma empresa que dá futuro. E sendo sempre trabalhador e honesto, que a gente colhe o resultado. 

 

P/1 - Qual a sua opinião sobre o resgate da memória do Grupo Votorantin? Você acha que tem coisas a serem resgatadas por esse grupo? Você acha que essas histórias que vocês estão contando são importantes?

 

R - Eu acho que são importantes.

 

P/1 - E, chegando mesmo no final, eu queria te perguntar: se você pudesse mudar alguma coisa dentro da sua trajetória no Grupo Votorantim, o que você mudaria? 

 

R - Acho que não mudaria nada. Para falar assim, eu acho que tenho dificuldade para me expressar. (risos)

 

P/1 - Olha, Domenico, eu quero te agradecer imensamente, primeiramente em nome do Grupo Votorantim, por você ter vindo até aqui, ter disponibilizado um tempo para a gente. E agradecer em nome do Museu da Pessoa. Eu gostaria de saber, dentro desses agradecimentos, se houve alguma pergunta que o senhor gostaria de ter respondido e eu acabei não fazendo?

 

R - Não, eu gostei das perguntas que foram feitas. E eu fico muito grato também, que você me deixou à vontade. E agradeço muito também, em meu nome e em nome da Votorantim, também. 

 

P/1 - Obrigado.

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