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História

A Maré tem muita vida

História de: Jaqueline Souza de Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2021

Sinopse

Jaqueline Souza de Andrade nascida em 16/03/1986, na Penha (RJ),  Filha de Marcília e Sérgio de Andrade, fala que os pais se conheceram, ainda jovens, na Maré, e que ela cresceu na Vila do Pinheiro junto com os avós e os tios maternos, e que mais velha, foi morar na Nova Holanda junto com os pais. Ela trata sobre as dificuldades de adaptação nessa mudança de moradia, e como foram importantes esses conflitos para sua formação e para a construção de um convívio acolhedor junto aos seus pais. Sobre a escola, Jaqueline traz a dura realidade do preconceito por ser negra e  que “Ninguém nunca deixou esquecer isso, inclusive na escola'' e o que significa ser uma menina negra em uma sociedade patriarcal e “branca”, onde “- a gente nunca era escolhida para ser nada de ninguém na festa junina”. Janaina também relata sobre ser lésbica e como foi trazer isso para os seus pais, a aceitação de ambos. Jaqueline conversa sobre a sua inserção no teatro, conta sobre os estudos feitos para a realização de cada espetáculo, como a relação com a comunidade é importante para a democratização da arte. Por fim ela fala sobre a importância de ter se tornado assistente social e como é importante exercer sua profissão na Maré.


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História completa

O nome do meu pai é Sérgio, Sérgio de Andrade, o nome da minha mãe é Marcília Souza de Andrade, eles ficaram juntos uns 38 anos, até ele falecer esse ano, eles conheceram aqui na Maré. Eles começaram a namorar muito cedo, acho que minha mãe me teve com 22 anos, meu pai deveria ter uns 27 quando eu nasci e eles ficaram juntos a vida inteira, casaram no papel há pouco tempo, há uns 12 anos atrás, teve casamento, teve festa, jogou buquê, eu peguei o buquê. Está difícil falar porque tem muito pouco tempo que ele faleceu, a gente ainda está muito triste.

 

Eu morava com a minha avó, com meu avô e com meus dois tios. Meu tio que é o irmão mais novo da minha mãe e um outro tio, o meu tio Keké, a gente tem uns apelido engraçado, e meu tio Inho morava com os dois, mas a minha avó e o meu avô.

 

Quando eu vim para cá, eu vim porque eu passei, eu vim para o ensino médio e antigamente tinha que escolher várias escolas, e eu lembro que eu escolhi várias escolas que não era o GP, e eu fui sendo recusada em todas as escolas, não tinha vaga, não tinha mais vaga, eu acabei parando aqui,mas foi importantíssimo ter vindo para cá, acho que se não tivesse vindo para o CDP, eu seria triste, só assim, porque eu não teria vindo morar aqui com a minha mãe possivelmente.

 

Foi bem difícil no início, a adaptação dos dois lados, bem difícil porque eu sempre fui muito independente, eu fazia as coisas do meu jeito sempre, e quando eu chego aqui meu pai tinha aquela coisa que ele queria. O teatro de início ele não ficou feliz. Depois ele virou todo fã.

 

Aí eu procurei um curso aqui na Rede, de Hip Hop, não de teatro, e aí eu vi que abriu o curso de teatro e eu era muito tímida, muito, muito, muito, muito, muito tímida e na minha cabeça teatro ia tirar minha timidez, só que eu não podia fazer teatro porque eu já estava fazendo hip-hop, e eu saí da Sede meio decepcionada. Aí o coordenador me viu saindo, me chamou, falou “olha vou abrir uma exceção, vou te botar, vou te inscrever na aula”.

 

Depois de um tempo você vai percebendo que enquanto uma mulher negra, uma menina negra, você tem que entender o que é timidez e o que é racismo, sabe? Eu estava entendendo que a minha timidez estava passando, mas na verdade agora uma adulta eu consigo perceber essas situações todas. Desde pequenininha eu sabia que eu era preta. Nunca tive dúvidas sobre isso, confusão sobre isso. Ninguém nunca deixou esquecer isso, inclusive na escola. A gente nunca era escolhida para ser nada de ninguém na festa junina,, eu passei por isso na escola, eu ensaiei todo um processo com o menino quando chegou no dia ele não quis se apresentar comigo, e eu lembro que depois eu bati nele na escola porque eu fiquei bem fula da vida, e aí um outro menino dançou comigo, e ele não quis dançar, simplesmente ele se negou, ele ensaiou comigo o tempo inteiro, no dia da apresentação ele se negou a dançar comigo.

 

Então acho que quando eu beijei pela primeira vez, devia ter uns 11 anos, mas não foi uma coisa que aconteceu de novo, até os 18 anos eu fiquei com pouquíssimas pessoas assim, mas todo mundo sabia com que eu ficava, não era escondido, o que seria se fosse com uma menina, eu precisaria esconder. Então, eu fiz escolhas muito conscientes, nesse sentido. Eu escolhi com 18 anos eu ia abrir meu número para mulher, porque eu sabia que eu queria ficar com mulher, eu tinha certeza absoluta, não precisava fazer para saber e eu falei -com 18 anos eu vou.

 

Contar para os meus pais foi muito engraçado, falei - senta aqui rapidinho, chamei ela para o quarto e falei - vou falar com vocês, eu nunca assumi, eu nunca levei namorado nenhum em casa, eu tinha 23 anos, nunca levei um namorado em casa, namorada eu já levei várias namoradas, tudo minhas amigas, aí falei - porque eu estou namorando, meu pai me abriu um sorriso, minha mãe então abriu um sorrisão, eu ia com uma menina, aí meu pai “eu não tinha falei”, e deu uma cutucada nela, “não te falei”, eu olhei - por acaso vocês estavam falando sobre isso? “Claro que a gente estava falando sobre isso”.Claro que tinha essas questões, essa coisa de achar que você vai se transformar em uma outra pessoa porque você gosta de mulher, de “você não vai ter filhos, você vai viver uma vida sozinha”, tem essas coisas que são pensadas, são dita nas entrelinhas, mas nada que atrapalhasse a construção da minha vinda enquanto uma mulher lésbica.

 

O nosso primeiro espetáculo apesar de não ser, é um espetáculo que preza pela territorialidade mesmo, porque é uma homenagem à Nova Holanda. Então como que esse território fala com a gente? Como que ele diz pra gente que elas estão aqui? A travesti está aqui, a mulher preta está aqui, o homem preto está aqui, o nordestino está aqui. Aqui é um lugar completamente cortado por tudo quanto é tipo de gente. Aqui tem muita gente, aqui tem muita vida, a Maré tem muita vida.

 

O segundo espetáculo é o Olili que é de 2011, ele é um espetáculo que fala sobre o sistema carcerário, só que não a partir do porquê que essas pessoas foram presas, mas de como essas pessoas vivenciam esse cerceamento da liberdade. Como que elas entendem a liberdade dentro de um processo de cárcere. É sobre isso que o Olili se trata, e é Olili porque sempre que uma pessoa ganha a liberdade, os presos batem na grade gritando o Lili, o Lili, o Lili, por isso o nome do espetáculo é Olili, é uma menção a esse momento de liberdade física.

 

O terceiro é o Em Trânsito, queria falar sobre as odisseias urbanas. Então como que esse trabalhador brasileiro carioca que sai domingo de manhã, vive essa odisseia do transporte público para chegar até o seu trabalho. Essa peça ela aconteceu na malha ferroviária, então ela começava na Central do Brasil, na estação de trem da Central do Brasil e vinha até Bom Sucesso, na estação de trem de Bom Sucesso. Mas foi um espetáculo muito intenso falando sobre essa questão do transporte público enquanto um fardo, para pessoas que precisam dele, como que é cruel fazer parte disso.

 

Em 2015 A Marcia Zanelatto convida a gente para encenar Eles não usam Tênis Nike, é uma peça que ela escreveu no início dos anos 2000, e é um espetáculo que trata sobre o encontro entre um pai e uma filha, e esse pai que ele era traficante, ele sai da favela e essa filha está virando traficante, e ele volta como uma espécie de homem que vai resgatar essa mulher desse contexto, e o espetáculo se baseia nesse grande atrito entre o Santo e a Rose. E como era um texto estava bem datado, ele é isso no ano 2000, 98 por aí, a gente atualizou o texto para um contexto atual, que era o contexto do exército aqui dentro, a mineralização, do exército aqui dentro, das UPPS já em decadência, então como que a gente atualiza esse debate que é sobre o tráfego que ela trazia no texto dela, para os dias de hoje que era 2015.

 

A gente tem um trabalho de construção de público, sempre que a gente vai fazer um espetáculo, a gente preza para que as pessoas da Maré estejam presentes nesse espetáculo, isso é super importante porque faz parte da nossa missão que é de democratização da arte, entender que a arte é para todo mundo, não só para poucos, que a arte não é um privilégio, ela é um direito, assim como a saúde, assim como a educação, a assistência, a arte é um direito que todo mundo precisa acessar, deve, merece acessar.

 

Tem o nosso último espetáculo, que é o Hoje não Saio Daqui, que é um espetáculo falando sobre refúgio, mas como a Maré é um refúgio para a população angolana, a gente começa a falar dessa questão desse processo migratório, que a Maré é a segunda maior comunidade angolana do Brasil. A gente encena, faz essa encenação na mata que é o parque ecológico aqui da Maré, as pessoas que nasceram em Angola, tinha uma referência muito forte com o lugar, a mata lembrava a Angola.



Eu estou como assistente social, eu comecei a trabalhar no centro de cidadania  LGBT da Maré, eu acho que para mim é muito importante retornar para atuação em serviço social, eu acho que é muito importante ser na Maré, porque aqui é o meu lugar, é o meu refúgio, é onde minha mãe mora ainda, é onde meu irmão mora, minha avó mora, minhas primas moram aqui, é o meu lugar, minha casa, a Maré é minha casa, e é para cá estou querendo devolver o que eu acredito que eu tenho de melhor, como no teatro a gente sempre quer apresentar aqui, quando a gente estreia fora, a gente precisa apresentar aqui.Então estar aqui como assistente social, dentro do centro de referência, é voltar para casa e olhar para mim, e acolher o outro, mas também é me acolher, é me dar a oportunidade de fazer um trabalho que não é só por mim, é por tantos, é me dar essa oportunidade, me dar essa chance, e fazer algo que eu possa me orgulhar muito também.


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