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A mangueira e eu

História de: Fernando
Autor: Fernando
Publicado em: 29/05/2016

Sinopse

Como NÃO subir num pé de manga: uma aventura ignorante de gente jovem.

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História completa

Com que idade comecei a subir em árvores, não sei.

De memória, foi primeiro num pé de caqui, depois num pé sem fruta comestível da rua. Em seguida foram mangueiras, pé de abacate, carambola, goiaba, jabuticaba...

Mas a vez que me marcou de verdade foi quando decidi subir num certo pé de manga - na época eu devia ter 16 anos, caminhando para 17. Calor forte do norte de Minas, que só na sombra dá a ilusão de refresco. A vontade de subir é a mesma que embala qualquer aventura: a sensação que vem antes, durante e depois é muito boa - se for bem-sucedido, claro, e só por isso é aventura.

Antes de subir, você pensa: vamos lá, eu consigo. Enquanto escala: estou conseguindo, que ótimo! E depois: chupar mangas deliciosas e ainda quentes do sol!

Mas essa mangueira em especial, antiga e cheia de líquen, estava escorregadia, pois havia chovido nos dias anteriores, e qualquer pessoa um pouco a par das coisas saberia que não deveria subir ali... qualquer pessoa, menos um arteiro rapaz.

E assim me lancei na empreitada, sem escada nem nada. Dei um pulo, agarrei no primeiro galho horizontal, pelejei e subi nele. E fui subindo.

O maior problema é que, na medida em que eu ia subindo, não via vantagem: dali eu não alcançava nenhuma manga! Não é possível que eu subi à toa. Quando subi o máximo que dava, a uns 4 ou 5 metros do chão, o que fiz rapidinho, vi que era então melhor descer. Ah... Como descer? Na primeira pisada, com as mãos agarradas no galho forte de cima, o pé escorregou que eu quase perdi o equilíbrio. Comecei a suar. Percebi que tinha me metido numa fria das boas. Tinha volta?

Meu irmão, mais velho, vendo tudo, desde o começo, mas se eu chamasse nosso pai, a bronca seria a pior parte. Realmente eu estava fazendo arte de criança e merecia escutar. Por isso, chamá-lo era a última alternativa, nem me passava pela cabeça. Pensei: melhor me sujar do que me estropiar. Então pus meu pé de novo, desta feita com muito cuidado, no galho de baixo, o que consegui com sorte, e comecei a abraçar - ABRAÇAR - tudo quanto é galho que me aguentasse, pois não tinha jeito de a mão se firmar em nenhum ali não. Foi com muito suor e tensão, e muita sujeira do tronco pregada na roupa, que consegui chegar ao chão, e ali mesmo fiz uma jura na frente do meu irmão: nunca mais subo em pé molhado!

Ele riu da molecagem, passada a preocupação, quando me viu em apuros e suando frio. Aterrissei sujo, descabelado, com olhar selvagem de quem se safa e tem mil coisas na cabeça - a primeira, óbvio, é a felicidade de ter salvo o próprio couro. Claro que ele ficou feliz que saí inteiro, e eu mais ainda!

Meu pai perguntou da roupa suja, e quando lhe contei o que tinha acontecido, só me alertou que aquilo não se fazia: tinha notícia de muita gente que caíra com muito mais experiência e precaução do que eu tivera. Gente sabida.

Vi que seu rosto estava sério, e hoje já ouvi muita história de gente que se acidentou caçando manga igual moleque. Por que um adulto faz isso? Ora, se estamos vivos... vamos nos fingir de mortos? Morrer por causa de uma manga pode parecer infantilidade ou falta de inteligência, mas qual é a morte nobre e sábia, tirando heróis de Hollywood?

Estava rindo estes dias, porque, por sinal, quebrei minha jura, após tantos anos em que fui firme nela...

Aproveito e pergunto: aventura tem cura?

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