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História

A magia do cinema

História de: José Luiz Zagati
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2021

Sinopse

Nesta entrevista, feita em 2004, José Luiz Zagati nos conta sobre sua vida, sua paixão pelo cinema desde a infância e como conseguiu criar o Mini Cine Tupy, em que são projetados filmes para a comunidade local. 

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História completa

P/1 – Zagati, pra começar, fale pra gente seu nome completo, cidade de nascimento e data.  


R – Meu nome é José Luiz Zagati. Tenho 54 anos...

P/1 – Nasceu quando? Qual a data?

R – Nasci no dia 6 de outubro de 1950.

P/1 – Em que cidade?

R – Na cidade de Guariba, [no] interior de São Paulo, na região de Ribeirão Preto.

P/1 – Quais os nomes dos seus pais?

R – O nome de meu pai é José Zagati e minha mãe, Maria Aparecida Bastos Zagati.  

P/1 – O que seu pai fazia?

R – Meu pai foi laminador, foi pedreiro aqui em São Paulo. No interior, ele foi boia-fria, sempre trabalhou na roça.

P/1 – E sua mãe?

R – Também. Minha mãe, no interior, também trabalhou na roça [em] corte da cana, colheita de café. E aqui em São Paulo - nós viemos pra São Paulo em 1955 - ela trabalhou... Pra criar a gente, ela começou trabalhando no Jockey Clube, lavando capa de cavalos, essas coisas. E meu pai entrou na Vigor, [a] fábrica de leite. Depois, um bom tempo depois, [ele trabalhou] numa empresa de laminações de ferro. Depois trabalhou na construção da Cidade Universitária e por aí.  

P/1 – O que você lembra da época em que vocês moravam no interior de São Paulo, em Guariba? Qual é a sua memória da cidade? Você veio pequeno aqui pra São Paulo?  

R – Eu vim pra cá em 1950… Viemos pra cá em 55. Eu tinha cinco anos e o que eu lembro muito da cidade é o cinema. Foi o cinema, o cinema onde eu fui. A gente foi… Eu era tão pequeno! Minha irmã mais velha me levou ao cinema. A recordação maior que ficou gravada foi naquele momento, naquele dia, quando a gente foi ao cinema. Foi aí a lembrança que eu tenho da cidade: a gente entrando no cinema.  

P/1 – No cinema de Guariba.

R – É, Guariba.

P/1 – E aí vocês vieram pra São Paulo. O senhor tem irmãos?

R – Eu tenho, nós somos sete irmãos.

P/1 – Quando vieram pra São Paulo, vocês já eram em sete?

R – [Éramos] Em seis. Nasceu uma menina, a caçula nasceu aqui.

P/1 – Quando vocês vieram, foram pra qual bairro?

R – Viemos pra Vila Sônia. Meu pai tinha um irmão que morava na Vila Sônia, então viemos morar num cômodo no fundo da casa dele. Em seguida, meu pai correu lá pro Jardim Maria Sampaio, que fica em Taboão da Serra, [na] divisa [de] São Paulo com Taboão, mas considerando mais Taboão. Ele comprou o terreno e pediu pra que o dono do loteamento, o dono da olaria - era o seu Hélio Sampaio, filho da dona Maria Sampaio. O Jardim é Maria Sampaio...

Ele precisava de uma casa pra morar lá perto e conseguiu uma das casas da olaria pra nós. Ele comprou um terreno do Hélio Sampaio - a olaria Hélio Sampaio, [no] Jardim Maria Sampaio. Ele precisava de uma casa pra morar porque precisava sair da casa do meu tio, entregar [a casa]. Nós fomos pra lá porque ele comprou o terreno. Comprou o tijolo na própria olaria, emprestaram uma casa pra a gente ir morando até ele construir a nossa casa. A gente começou por aí.

P/1 – Certo. E como era a sua vivência na infância aqui, já em São Paulo? O que o senhor fazia quando era criança, tinha amizades na região onde você morava? Do que brincava? Como foi sua infância?

R – Normal, né? Antigamente, anos 50, era bem diferente de agora. A gente tinha brincadeiras normais: jogar bola, bolinha, ir pra escola. Aquela vida de interior. Hoje é bem diferente, bem mudado do que era aquela época na região. Puxa vida… [Tinha] muita olaria, mato, não tinha água encanada, não tinha asfalto, não tinha luz, era tudo na lamparina. Foi muito bom. E outra... Engraçado é que por eu ter ido ao cinema lá no interior pela primeira vez, ficou gravado na minha cabeça aquilo, a gente no colo, entrando no cinema. A gente, lá em Taboão da Serra, naquela época, tudo fazia pro lado de Pinheiros, Santo Amaro. Resolvia as coisas só pra cá, porque lá não tinha nada - era mato, olaria, chácaras, essas coisas. Só que no Centro de Taboão da Serra existia um cinema...

P/1 – Naquela época, já.

R – Já naquela época, em 55. O Cine Tupy. Ele já existia em Taboão da Serra,  ficava ali no centro, no largo de Taboão da Serra. Como condução só era até ali, ônibus só era até aquele ponto, então era praticamente o último bonde, onde o pessoal que morava lá pras quiçaças, que ia pra São Paulo, descia. O resto era na caminhada pra aquela região do [Jardim] Pirajussara, aquelas quebradas, então eles paravam muito ali; era ponto de encontro porque era ponto final de ônibus, todo mundo se reunia ali.

Tinha a Padaria Celeste, que é a mais antiga de Taboão, e o cinema, o Cine Tupy ao lado. E a gente estava sempre com meu pai ali, eu pequenininho, seis, sete, oito anos, passei vendo aquilo. Enquanto meu pai estava no bar, na frente, na padaria, eu estava em frente ao cinema. Eu ficava namorando aquela entrada do cinema. Parecia que eu estava lá no interior ainda, eu me via lá no interior, quando eu entrei no colo da irmã. Eu me lembrava, parecia uma coisa só.

P/1 – O senhor se identificava.

R – Identificava muito. Eu digo sempre que fui muito feliz por ter vindo logo pra Taboão da Serra porque tinha o Cine Tupy naquele lugar. E eu ficava vendo aquilo. Interessante, eu tenho recordações muito boas. Eu estou te falando agora, eu tenho 54 anos, mas eu lembro como… Eu estou te falando e me vejo ainda lá, pequenininho, ali na frente daquele cinema, olhando os cartazes da entrada. Eu não podia entrar no cinema, era muito pequeno.

P/1 – O senhor é o filho mais velho, é o do meio?

R – Do meu pai, sou o mais velho. Minha mãe, quando ela se casou com meu pai... Aliás, se casaram em Taboão. Eles vieram do interior, ainda não eram casados; se casaram em Taboão, na igreja ali. Do meu pai sou o primeiro, minha mãe já tinha um casal de filhos de um outro casamento.

P/1 – E como era a relação do senhor com seus irmãos nessa época de infância, com tantas crianças junto?

R – Normal, foi muito feliz. Pai e mãe trabalhadores, honestos - quer dizer, não tinham recursos, mas eram trabalhadores. Fizeram o que puderam pra criar a gente. E trabalharam. Foi muito bom, não tenho do que me queixar, não.

P/2 – O senhor lembra qual foi o filme que o senhor viu no interior com a sua irmã?

R – Olha, estou me lembrando. Eu lembro sempre como se estivesse vendo a tela em preto e branco, ali do lado direito e eu via a luz, o facho de luz seguindo pro monitor. Eu fiquei olhando aquilo e o filme era Durango Kid. Era um filme com cavalo, um filme de bang-bang, então era o filme Durango Kid.

P/1 – Isso em Guariba?

R – Lá em Guariba. E o tempo foi passando. Nos meus tempos, além das outras brincadeiras, eu brincava muito de cinema. Eu brincava muito... Na minha vida era o que eu mais gostava... Eu brinquei sempre de fazer, não produzir, mas montar o cinema, uma tela, passando um filme. Essas histórias em quadrinhos, as revistas, fotonovela que tinha, muitas fotonovelas. Minha irmã era maior, mais mocinha, então ela já conseguia a revista de fotonovela. Eu recortava aquelas fotonovelas, aqueles quadrinhos, e eu colava numa tábua com sabão. Eu colava aquilo, pra mim eu estava fazendo meu cinema. Eu brinquei muito disso, era meu brinquedo favorito - brincar com uma tela, a imagem ali, numa tela.

P/1 – Desde pequeno.

R – Desde pequeno. E foi assim...

P/1 – Em Taboão, o senhor foi pra escola?

R – Fui pra escola.

P/1 – E como era essa convivência na escola? Como era o período escolar?

R – Foi legal. Puxa vida! Foi muito bom, caramba. Eu costumo lembrar os fatos  todos da vida. Parece que eu fui filmando isso tudo, muito interessante. Graças a Deus, por conta disso está pra virar livro essa história, um filme longo no ano que vem. Por isso que deu… Eu tenho um roteiro, pra você ver, dá pra sair livro. Os detalhes que eu vivi, uma coisa muito complicada...

P/1 – Seu Zagati...

R – Até me perco...

P/1 – Esse livro que o senhor está falando, fazer um filme, um longa, é da sua vida? O senhor quer fazer um filme da sua vida?

R – É. Por isso que eu digo, nós vamos falar muita coisa até chegarmos nesse ponto.

Bom, fui crescendo, vou falar assim, né? O tempo foi passando e eu consegui nos meus tempos de criança, com uns doze anos, um pedaço de filme; fiz um projetor de caixotinho, com um farolete, uma pilha. Eu já montava meu cineminha. A minha intenção era botar um projetor pra funcionar e fazer plateia, público. É isso que eu sempre quis fazer, é o que hoje estou conseguindo fazer, graças a Deus.

E fui levando a vida, eu fui levando. Trabalhei em tanta coisa, engraçado. E o tempo passando. Fui crescendo e eu passei a frequentar o Cine Tupy, puxa vida. Hoje eu tenho, a gente sabe... Eu sinto que chegou em Taboão da Serra em 53. Eu conheci o dono, eu era criança e conheci o Seu Juca. O Cine Tupy chegou em Taboão da Serra em 53, por isso que eu vim pra cá, o Cine já tinha dois anos ali. E foi assim.

Eu trabalhei a vida inteira. Eu ia pro cinema, eu não tinha como fazer… A gente não tinha dinheiro, mas eu peguei idade, dez anos, doze, eu passei a frequentar o Cine Tupy. Todo sábado eu vinha pro cinema, eu vinha de lá a pé. Eu arrumava minha roupa. Eu lembro até que um certo dia, eu passava minha roupa antes de ir pro cinema. Eu não via a hora de chegar o sábado pra vir pro cinema. Eu vinha nos sábados. Eu passava minha roupa com aquele ferro de brasa, arrumava minha roupa. Era sagrado o sábado, eu ia pro Cine Tupy. Não precisava de dinheiro de ônibus, eu vinha a pé. Eu vinha só com o dinheiro da entrada e um dinheiro pra comprar umas balas Toffe que tinha vendendo numa bomboniere do cinema. Era um prazer comprar um pouquinho de bala Toffe, entrar pro cinema e sentar. E foi assim.  

P/2 – Qual foi o primeiro filme que o senhor assistiu no Cinema Tupy, o senhor se lembra?

R – Não lembro. Eu não lembro o primeiro, não, mas eu assisti de tudo ali. Eu assisti muitos filmes de Mazzaropi, o “Meu Pé de Laranja Lima”, esse filme do Zé Vasconcelos, eu assisti a esse filme e outros mais. Eu não ia ao cinema só pra assistir determinado filme, não. [Não] vou lá porque está passando tal filme, não. Eu vou ao cinema. Eu nunca fui desse tipo. Não tenho preferência por filme, eu gosto do cinema.

P/1 – O senhor, com dez, doze anos, já entrando na adolescência, qual foi o seu primeiro trabalho?

R – Meu primeiro trabalho? Pra eu ter dinheiro pra ir ao cinema, eu enchia a caixa d'água das pessoas. [Onde] a gente morava, todo mundo tinha um poço de água - naquela época não tinha água encanada nem luz. Todo mundo tinha um poço: comprava um terreno e a primeira coisa que fazia era um poço pra ter água pra fazer a casa. E então tinha os comerciantes, os portugueses. Já tinha vendas, então eles tinham um melhor poder aquisitivo, tinham uma casa bem montada com bomba de poço, aquela bomba manual, caixa d'água. A maioria, quase todo mundo, não. Era na carretilha, tirava no balde a água. Mas o pessoal já tinha uma caixa d'água.

O que é que eu tinha? Tinha dois portugueses… Duas famílias de portugueses e eles tinham venda, esses tinham caixa d'água. Eu era contratado dessas portuguesas pra encher a caixa d'água, por isso eu tinha dinheiro todo final de semana. Além de engraxar sapato.

P/1 – Então essas foram as duas primeiras...

R – Quando eu engraxava sapato, fazia um dinheirinho, eu guardava. Eu podia gastar o dinheiro porque durante a semana eu era chamado pra essas casas pra encher a caixa d'água e garantia aquele dinheiro do cinema, por isso. Eu tinha certeza… Eu enchia a casa d'água da dona Maria, por exemplo, eu podia até comprar um pouco, gastar esse dinheiro no começo da semana. Até podia comprar doces - eu gostava muito de comprar uns pirulitos, uma chupetona de açúcar, sabe? Eu gostava muito de comprar aquilo. E eu podia, eu falava: "Eu vou gastar esse dinheirinho porque a água vai acabar de novo e ela vai me chamar pra eu encher de novo. Então na próxima vez eu guardo, que é pro cinema".

E engraxei sapato, como eu lhe falei. Lá não dava muito freguês, mas eu cheguei a vir engraxar sapato aqui em Pinheiros, na frente da igreja, com dez anos. Eu lembro ainda, a gente vinha no bonde que virava ali ainda. Eu me lembro, eu olho e recordo muito quando passo ali. Eu me lembro quando o bonde fazia o balão ali, subia a Teodoro Sampaio, subia, descia. Eu engraxava sapato ali. Então foi assim, foi uma luta, sempre preocupado em ter o dinheiro pra ir ao cinema. E eu consegui, trabalhei ali: enchi caixa d'água, engraxei sapato.

Serviço é difícil ali na região. Por exemplo, fazer poço, era sempre aquela vida, então tinha muito "poceiro", eles contratavam. O cara comprava o terreno, ele era contratado pra fazer um poço, então ele contratava alguém pra tirar terra. A gente trabalhava muito, por isso que hoje, às vezes, quando a gente está em algum lugar... Por exemplo, você vai participar de um filme, e você está lá, que nem a gente estava outro dia, [no] sol quente. O pessoal vem com “bronzeador”, aí a gente fala: "Não, pra mim não precisa disso porque já passei tanto a vida no sol, me ralei muito, né? Não adianta mais". Eu falo: "Não precisa isso, não, já tomei muito sol na vida”. Muito sol e poeira, firmeza mesmo. Mas valeu muito a pena.

P/1 – Nesse trabalho de fazer poços você já era maior, você estava com mais idade?

R – Mais idade, mas nem tanto: quatorze anos. A gente já estava fazendo poço, tirando areia nos rios pro pessoal, para os patrões que nos contratavam. Até antes de ir pra escola eu tirava areia no rio. Eu saía com a carroça e vendia. Uma história, né?

P/1 – E durante a sua adolescência, o seu principal divertimento ainda foi o cinema ou o senhor já ia para os bailes? Continuou sendo o cinema?

R – Não. Nunca eu gostei de baile, festa. Não, até hoje. Não faz a minha natureza. Só o cinema, a magia do cinema. Eu sempre quis montar uma sala de exibição, sempre quis montar um cinema. Durante toda a vida trabalhando, fazia poço, trabalhei de servente, trabalhei de pedreiro. Não aquele pedreiro, mas dava pra... E o que mais? Eu trabalhei de borracheiro, depois trabalhei de ajudante de mecânico, trabalhei depois de montador de bateria. Foi no que eu quase me especializei, porque trabalhei tantos anos com aquilo. E eu me considerava especialista em bateria porque conhecia muito bem o que era uma bateria de carro. E agora a gente não está atualizado porque essa bateria que não precisa colocar água tem água ali dentro, alguma coisa que tem pra não secar essa água com a caloria.

Trabalhei muito com isso, me dediquei muito às neguinhas - eu chamava as baterias de neguinhas. Eu gostava muito, amava aquilo que eu fazia. Mas eu não conseguia montar o cinema. Eu não conseguia, sonhando como que... Sonhava mesmo, a vida inteira sonhando aquilo. Eu via na TV o carretel de um projetor na sessão de cinema, quando... Nossa, aquela maravilha, eu ficava... E sempre, qualquer coisa de cinema no jornal, na revista, sempre lendo, guardando aquilo. Eu consegui, então...

Fiquei desempregado em 1990, 92, mais ou menos. Fiquei desempregado [com] quarenta anos, quarenta e poucos, não arrumava mais emprego. A porca começou a torcer o rabo. Pensei… Puxa, eu via papel e ferro pra todo lado. Papel, papelão jogado e os ferros velhos comprando. Eu falei: "Espera aí, vou fazer um carrinho e vou trabalhar". Eu precisava ganhar alguma coisa. Graças a Deus, Deus me iluminou e eu falei: "Já tenho uma saída". Comecei a trabalhar na rua, com o carrinho. Eu tirava o sustento da casa e acabei conseguindo colocar em prática o sonho de montar o cinema porque acabei encontrando uma carcaça de um projetor. E através...

P/1 – Foi assim que começou.

R – Exato. Eu encontrei uma carcaça de um projetor de filmes. Aqui em São Paulo tinha muita demolição, muita limpeza, então aqueles caminhões jogavam muita coisa no mato e a gente ia procurar coisa. Eu acabava encontrando pedaço de filme e acabei encontrando esse pedaço de projetor. Uma carcaça que faltava muita coisa dentro, mas tinha uma caixa, tinha o mecanismo. Eu acabei então tentando dar um jeito naquela caixa. Eu coloquei ali um motorzinho, adaptei um motorzinho de limpador de para-brisa e com esses pedaços de filme comecei a fazer um teste. Foi onde apareceu, uma pessoa me viu mexendo com aquilo e falou: "Eu tenho um projetor". Foi mais ou menos assim.

P/1 – E quem foi essa pessoa?

R – Essa pessoa é um pastor de uma igreja. Eu estava mexendo com esse projetor um dia, ele passou lá em frente. Ele: "Eu tenho um projetor de cinema desse modelo, desse tipo aí". Eu fiquei curioso, precisava ver aquele projetor, como funcionava. Pedi pra ele me mostrar. Ele falou: "Vá na minha casa, leva alguns filmes". Eu levei um pedaço de filme à noite, fui lá e perguntei a ele se não queria vender. Ele falou que não vendia porque ganhava dinheiro com aquele projetor. Ele é pastor de uma igreja, então fazia apresentações de filmes bíblicos na igreja. Dava sempre um dinheiro porque na igreja... "Olha, hoje nós vamos passar “A Cruz e a Espada”, um filme com tema bíblico", então os irmãos davam dinheiro. Ele pagava o aluguel do filme, sobrava [dinheiro] pra ele; ele não vendia aquele projetor por isso. Perguntei onde podia comprar um. Ele falou: "Ah, tem um amigo meu que sempre tem pra vender", mas ele não me falou, não. Ele não quis falar onde era.

Passado algum tempo, ele me procurou em casa de novo. Ele precisava fazer um serviço no carro dele, precisava trocar uma suspensão. E ele propôs... Eu já tinha trabalhado como mecânico, então tinha ferramenta, tudo. Ele me falou: "Olha, você me ajuda que eu te ajudo". Eu entendi o que ele quis me dizer, porque quando eu perguntei: "Onde eu posso comprar um projetor como esse?", ele não quis me falar, ele segurou, mas naquele dia me procurou; ele fez uma chantagem.

Ele precisava trocar a suspensão. Eu falei: "Puxa vida, dá um trabalho danado". Era suspensão de uma Caravan, trabalhosa. Eu falei: "Tudo bem, você pode trazer". Eu precisava saber onde comprava um projetor. Ele trouxe o carro de manhã, no sábado. Eu trabalhei - não era num galpão coberto - eu trabalhei na rua pra trocar a suspensão. E naquele dia, choveu o dia inteiro. Amanheceu chovendo, eu troquei a suspensão na chuva. Eu precisava retirar aquela suspensão, colocar outra e entregar o carro pro cara. E eu fiz porque precisava saber onde poderia comprar aquele projetor. [Quando] Terminou, eu fui na casa dele. E ele não encontrou o endereço [de onde comprar o projetor]; falou pra mim mais ou menos onde era: "Você vai ali no bairro Santa Ifigênia, na Rua dos Andradas, é por ali."  "Tá bom, pelo menos eu já sei onde é".

Depois, passado algum tempo, eu tirei um dia pra ir lá procurar. Andei, andei e não encontrava. Parei o carrinho, falei: "Hoje eu vou pra cidade procurar" - a cidade que eu falo é São Paulo. Andei o dia, estava já desanimado, aí eu fui numa loja. Lá tinha muita coisa usada pra vender. Entrei numa loja pequenininha, estreita e comprida. Olhei nas prateleiras, no chão, um monte de coisa. Olhando pra cima, fui lá no fundo da loja. Tinha um senhor lá e perguntei pra ele: "Eu estou procurando um projetor de cinema, será que tem?". Ele falou: "Tem um no seu pé, aqui". Ele estava no balcão, no chão, em pé; eu não vi porque fui olhando pra cima. Era pra acontecer. Estava no chão, no pé do balcão. Eu falei: "Quanto custa?" Ele falou: "Custa oitenta reais." "Quanto?" "Oitenta reais, moço".

Por que eu perguntei quanto? Eu me espantei quando ele falou oitenta porque esse dinheiro é o que eu tinha em casa. Eu tinha uma parte, era meu aniversário e meu filho me deu trinta. Não sei se eu tinha cinquenta ou se tinha trinta. Eu sei que tinha, por exemplo, cinquenta e o meu filho me deu trinta reais pra comprar um presente pra mim. Ele falou: "Compre o que você quiser", então eu guardei aquele dinheiro;  tinha oitenta paus embaixo do armário, guardado.

Quando vim pra cidade, eu não trouxe o dinheiro. Eu falei: "Eu vou procurar, mas não sei se vou encontrar, se vai custar quinhentos reais, mil, setecentos. Não sei nem se vou encontrar". Por isso que eu não levei, não trouxe o dinheiro. Eu só vim com o dinheiro do ônibus, tomar um café. Deixei o dinheiro guardado. Por isso que eu me espantei quando ele falou oitenta reais.

Eu falei: "Olha, você me espera. Eu moro em Taboão da Serra, vou buscar o dinheiro". E foi o que eu fiz. Peguei o ônibus lá na Estação da Luz, rápido. Pra encurtar, eu podia ter pego o ônibus na Estação da Luz, descido e pegado o ônibus aqui em Pinheiros, porque Taboão da Serra não tem ônibus direto pra São Paulo, pro centro. Tem que vir até Pinheiros e pegar outro aqui ou na [Avenida] Francisco Morato.

Eu peguei na Estação da Luz um ônibus chamado Jardim Macedônia, que passa dentro do município de São Paulo, mas beirando Taboão da Serra. Eu falei: "É mais rápido, aí eu desço aqui, saio correndo e vou em casa, no município de Taboão da Serra. Atravesso a divisa, o córrego e vou pra casa pra não ter que descer e pegar outro ônibus". Aí eu fiz isso. Fui correndo em casa, subi, peguei o dinheiro, desci rápido, voltei pra pegar o ônibus de novo e vim pra cidade.

P/2 – O senhor fez tudo isso no mesmo dia?

R – Rápido, no mesmo dia. Eu, com pressa… Foi o único [projetor] que eu encontrei. E se eu demoro muito e quando eu chegar o homem já vendeu pra alguém? Estava lá ainda, peguei o projetor e levei pra casa.

P/2 – Vamos voltar um pouquinho e aí a gente volta pra esse momento. Quando o senhor trocou a suspensão do carro, ele não pagou nada?

R – Não.

P/2 – E falou o endereço mais ou menos.

R – Mais ou menos. Ele falou mais ou menos onde era porque não encontrou o endereço. "Vai nesse amigo", ele falou, mais ou menos. Mas não foi por dinheiro, é porque eu precisava saber onde ia encontrar aquele projetor. Então ele usou isso, ele sabia. Ele viu meu interesse, eu precisava muito saber. Fiz aquilo não por dinheiro, só pra ele me falar onde...

P/2 – Seu Zagati, quantos filhos o senhor tem?

R – Eu tenho nove.

P/2 – Quantos anos tem o mais velho?

R – Vinte... Ele tem 26.

P/2 – E o mais novo?

R – O mais novo, é um casal de gêmeos, estão com oito.

P/1 – O senhor conheceu sua mulher onde?

R – Ô, meu Deus... Não foi no cinema, engraçado (risos). A gente se conheceu numa casa de um irmão. A gente foi sem querer e tinha um pessoal lá. Ela estava ali com a família, as irmãs, aí pronto, foi assim.

P/1 – Isso com quantos anos?

R – Nossa! Eu tinha 27 e ela tinha 15.

P/1 – E aí começaram a namorar?

R – É.

P/1 – E aí namorando, acabou casando.

R – Ficamos, estamos até agora. Não casamos não, viu? Se nós tivéssemos casado, talvez não estivéssemos juntos.

P/2 – Ela gosta de cinema também?

R – Interessante [é] que ela nunca tinha ido ao cinema. Nunca foi, quer dizer, acabou indo agora. Com essa história, ela acabou conhecendo o cinema com a gente. Deu até desentendimento na nossa vida por conta disso - a história é muito grande.

Depois do projetor… Eu comprei o projetor. Eu já havia encontrado uns pedaços de filme, já vinha guardando os meus. Eu comecei passando isso lá em Taboão da Serra, na periferia, na região do [Jardim] Pirajussara naquela época, mas aí já não tinha o Cine Tupy. O Cine Tupy já tinha fechado em 70, não tinha mais cinema em Taboão. Na Vila Sônia tinha o Palladium, não tinha mais. [Do] Cinema, o pessoal vai esquecendo.   

P/2 – E o senhor ia assistir filme em que cinema?

R – Depois do Cine Tupy, eu fui ao Cine Palladium algumas vezes, uma vez só ao Cine Goiás e nunca mais.

P/2 – E onde era o Cine Goiás?

R – O Goiás era aqui na Rua Butantã. E o Palladium era na Vila Sônia, onde eu ia algumas vezes, mas o meu cinema predileto era o Cine Tupy, onde eu tinha mania de identificar a ação muito grande, porque eu era criança e me sentava ali.

Eu comecei a passar na rua, com esse projetor, os primeiros pedaços de fita que eu tinha encontrado, colado com durex. Eu ia emendando e guardando os primeiros pedaços de fita que tinha encontrado; ia emendando e guardando. Aquela coisa do Totó do Cinema Paradiso, eu ia fazendo aquilo. Comecei a passar os filmes na nossa região, pedaços de filme. De um, de outro, um preto e branco, outro sem som... Mas pra quem nunca tinha visto cinema ali, era impressionante já aquilo, de noite. Imagine você colocar um lençol numa cerca, pegar aquele projetor: "Seu Zagati, o que é isso?" "É cinema". O pessoal nunca tinha visto, veio ali: "Interessante." Vinham pra cá, iam para lá, viam o pano: "Mas não tem nada aqui, como é?"

Então continuou a história. Cuidar da vida, trabalhar. Num certo dia, eu falei: "Vou pra São Paulo agora, vou pro centro procurar filme". Um dia, tirava só pra aquilo. “Amanhã eu vou sair e vou pra cidade". Aí eu durmo tranquilo.

Pra vir aqui, eu ontem estava com um problema, não sabia como é que eu viria. Falei pra Bárbara: "Não, amanhã eu vou. Dei minha palavra, eu deixo já, eu vou dormir tranquilo. Eu sei o que vou fazer amanhã".

Fui pra cidade procurar fita. E vai daqui, vai dali e não tinha, não tem... Eu precisava comprar, né? E eu pedi doação, qualquer coisa. Foi indo, alguém foi indicando; de vez em quando alguém dava atenção, a maioria não. Na maioria das vezes, as pessoas não dão muita atenção. Aquela coisa, pobre não tem... Você chega: "Olha, eu sou catador de papel, precisava de..." "Não".

Um cidadão numa loja, ali pro centro da cidade me falou: "Você vai ali na Rua do Triunfo, você procura a Polifilmes". Fui na Rua do Triunfo, procurei a Polifilmes. O cara foi até gentil demais, falou: "Olha, a Polifilmes fica do lado direito. Ela não tem placa, não tem nada. Mas você olha do lado direito, tem uma lojinha chamada Fernando. Você pergunta por Fernando, é em frente". Eu fui perguntando por Fernando e achei. Fui lá, entrei e falei: "Meu nome é José Luiz Zagati, moro em Taboão da Serra e eu preciso... Eu tenho um projetor de cinema em casa, sou catador de papelão e eu tenho um projetor. Eu preciso de alguns filmes pra passar lá na periferia". Aí o seu Geraldo da Polifilmes falou: "Não, a gente não pode... A gente só aluga filmes aqui. Se você quiser, tem aqui. Mas a gente só loca, só aluga. Mas tomas aqui um cartão, você procura esse cidadão aqui, do Cineclube Ipiranga, o Seu Arquimedes Lombardi, que é o presidente da Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes em dezesseis Milímetros. Fica no Ipiranga, à Rua Cisplatina, 505, Biblioteca Municipal Genésio de Almeida Moura". Levei o cartão - bom, meio caminho andado.

Fui pra casa, dei mais um tempo. Eu tinha que trabalhar. Num determinado dia, eu estava ouvindo o rádio. Sábado à noite, “São Paulo em Todos os Tempos” na Rádio Eldorado, aquele programa. Tinha um cidadão falando de cinema, de um livro; era lançamento de um livro. Falou de cinema, dos filmes que se perderam em São Paulo. Ele, criado em São Paulo, viu em aterros muitos filmes jogados fora. Ele precisava fazer um livro com a história do Mazzaropi, mas achou dificuldades porque tinha que encontrar parentes pra autorizar. Aí ele resolveu fazer um resumo, então fez uma grande pesquisa pra conseguir... Ele fez um livro que chama “Astros e estrelas do cinema brasileiro”. Foi uma pesquisa muito grande, muita gente colaborou. Ele fez um resumo, não fez só Mazzaropi.

Era o Antônio Leão da Silva Neto. Ele, no final da entrevista, falou do Cineclube Ipiranga. Aí eu falei: "Puxa, eu tenho esse endereço, vou ter que ir lá mesmo". Eu sabia que lá fazia exibição todos os sábados, onde se reuniam ratos de cinema, só colecionadores. Um dia eu fui pra lá, tirei um sábado. Fui procurar a biblioteca, fui com calma, com tempo; eu sabia que ia ter de procurar, de repente podia demorar. [Quando] Eu cheguei, encontrei a biblioteca. Esperei abrir, ela estava fechada. Lá para as quatro horas da tarde, eu vi que tinha chegado um carro; desceu um camarada lá, um cidadão. Abriu o porta-malas e começou a colocar umas coisas de cinema, um projetor, um rolo de filmes. Eu fui e me apresentei; era o Seu Arquimedes Lombardi. Ele é o presidente; sempre chega primeiro na biblioteca, pra montar. Conversei com o Seu Arquimedes, fomos lá pra dentro, sentamos. Fui logo contando: "Sou catador de papel, tenho um projetor e eu preciso de algumas coisas..." Assisti ao filme, ele me atendeu muito bem e ficamos amigos.

Eu passei então a frequentar o Cineclube Ipiranga. Não é que eu fui lá no primeiro dia e ele falou “leva um filme”, não. Eu passei a frequentar o Cineclube Ipiranga, todos os sábados eu ia pra lá. Eu precisava porque ali só tinha colecionador, ‘rato de cinema’, só falam nisso, então ali era o lugar.

Um bom tempo depois, Seu Arquimedes trouxe pra mim um filme chamado “Cruéis Dominadores”, o primeiro longa-metragem que a gente exibiu lá no Taboão. À noite, ele me trouxe, falou: "Zagati, eu trouxe aqui o filme “Cruéis Dominadores", [de] 1955, parece. Eu levei… Nossa, assisti ao filme... Naquele dia eu levei o rolo à noite, cheguei em casa quase uma hora da manhã, porque duas conduções, uma até Pinheiros, depois a outra. No outro dia, domingo de manhã, eu falei: "Hoje nós vamos ter cinema porque já não vão ser pedaços. É um filme com começo, meio e fim". De manhã, peguei o projetor, coloquei o filme e projetei na parede. Tirei os dados ali, tirei ali o elenco, alguma coisa, o nome do diretor que tem no começo, né? Fui numa papelaria, comprei uma cartolina e fiz: “Hoje, “Cruéis Dominadores””, com o elenco, direção, ano. Colei e fui preparando… Naquele domingo, fiquei vivendo desde de manhã a sessão do cinema. Preparando - montei a tela, um pano, um lençol grande, já montei... Não tinha tela ainda...

P/1 – Onde o senhor montou?

R – Lá no bairro Sítio das Madres, na região do Pirajussara, Taboão da Serra.

P/1 – Numa praça?

R – Não, numa rua. Coloquei o lençol, montei. Coloquei o cartaz já cedo, fiz logo de manhã para o pessoal passar e ver aquilo, os moradores verem aquilo. E olhavam: "Cinema hoje, “Cruéis Dominadores"”. À noitinha, eu liguei o quadrilho, botei o projetor direitinho. E a turma veio, vieram mesmo. O pessoal foi chegando, e a criançada. No início, [quando] eu passava o filme, não tinha começo, não tinha fim. Era  adoidado, só pra mostrar mesmo.

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa para senhor porque eu não entendi. O projetor também tem som? O som sai do próprio projetor?

R – Tem.  

P/1 – Sai imagem e som na mesma...

R – Sai imagem; tem o amplificador, que é caixa. Eu já tinha, tem som.

P/1 – E veio muita gente?

R – Veio. Foi no dia 16 de agosto de 1998.

P/1 – O senhor se lembra da data.

R – É, isso. Aquela sessão transcorreu normal, sem problemas. Foi muito emocionante. Imagina, na rua, um filme com começo, entrando aqueles créditos de início, som. E o pessoal... Num domingo à tarde, imagina. O pessoal foi chegando, foi sentando. As crianças trazendo bloco, tijolo, uma tábua; faziam um bando desse tamanho, sentavam todos, traziam uma cadeira, a mãe já trazia uma cadeira, encheu a rua.

Passei o filme “Cruéis Dominadores” e terminei... Quando terminou o filme, foi um sucesso, rapaz. Na rua tinha um barzinho, do Seu Barriga - era um barrigudo que a gente chamava [de] Seu Barriga... O barzinho dele não vende quase nada, pouca coisa, mas naquele dia foi um sucesso de venda porque o pessoal se concentrou ali na rua pra ver o cinema. O bar teve movimento, foi um bom movimento naquele dia.

Puxa vida, um longa-metragem. O primeiro rolo, depois tive que tirar esse rolo pra passar a segunda parte, que o filme vem... Por exemplo, um dezesseis milímetros, de 90 minutos mais ou menos, são dois rolos ‘desse tamanho’; primeira parte, depois tira e a segunda parte. [Quando] a primeira parte terminou, o pessoal foi pro barzinho tomar refrigerante, comprar salgadinho, a criançada então... Seu Barriga só vendendo. Depois terminamos a segunda parte.

Quando deu "FIM", eu fiquei muito contente. Eu comemorei, fiz uma festa comigo, porque eu, sozinho... Eu fiz uma festa porque consegui fazer um filme com começo e fim. Então onde eu fiz, eu havia já pensado, eu estava esperando acontecer. Veio na hora a ideia: está inaugurado o Mini-cine Tupy, em homenagem ao Cine Tupy. Então eu fiz assim comigo: eu fiz, inaugurei... Dei o nome de Mini-cine Tupy em homenagem ao Cine Tupy.

P/1 – Que era o cinema de Taboão?

R – É. Fiquei muito feliz.

P/1 – Foi uma vitória pra região ter um cinema de novo.

R – Eu fiquei muito feliz.

P/2 – Os seus vizinhos gostaram?

R – Gostaram, aí continuei.

P/1 – Foram tendo outros filmes?

R – Sempre.

P/1 – E o intermediário foi o Seu Arquimedes?

R – Sempre Seu Arquimedes. Então, esse filme, depois...

P/1 – Fale o nome de alguns filmes que passaram no Mini-cine Tupy.

R – Nossa, dezesseis... É o seguinte: eu ia pro Cineclube Ipiranga, então de vez em quando ele me levava um filme: "Oh, Zagati..." Uns ele me vendia, outros ele me dava. Não grandes, mas… Puxa vida! Deixa eu lembrar...

P/2 – Quanto custava um filme quando ele vendia para o senhor?

R – Ele vendia barato: por cinquenta, oitenta, outras vezes ele me dava. Ele me deu também, muitos. Às vezes, ele chegava lá: "Zagati, está aqui o filme. Dê-me 50 reais." Ele me trouxe um filme colorido: "Oh, Zagati, esse aqui é 80 reais. Um filme colorido, é “Sangue Ardente”. Esse filme tem..." "Ah, seu Arquimedes, eu não tenho dinheiro." "Depois você paga." E eu demorava para pagar, ele sabia que eu catava, que eu tinha que trabalhar na rua como catador de papel, manter minha família, mas sempre reservando um pouquinho pra sessão de domingo. Eu tinha de reservar dinheiro pro Arquimedes, pra trazer o filme. Deixar um pouquinho de dinheiro pra pipoca, porque cinema tem que ter pipoca. Eu tinha que fazer tudo isso, tinha que pensar tudo isso. O filme, mas também comprar o milho, o saquinho pra botar. Porque já desde o primeiro dia, a gente já fez a pipoca. Eu mesmo corria em casa, fritava a pipoca, pegava o saquinho, crianças me ajudando. Eu colocava na bacia os saquinhos e na plateia saía distribuindo. Até hoje eu faço assim, eu começo a passar o filme e depois eu vou distribuir a pipoca.

P/1 – E as pessoas colaboravam financeiramente pro filme?

R – Não, nunca, por isso que era difícil. Ainda é difícil, mas era bem mais. Eu tirava… Eu trabalho na rua, mas é trabalhar de acordo, meu filho. Não é pegar esse carrinho de ferro velho e papelão e sair na rua, catar o dinheiro. Qualquer dinheiro que pegar, gastar com a bebida - muita gente faz isso, não aproveita. Eu não, eu tirava da minha família, pra despesa. Por exemplo, eu fiz dez reais: oito eu pego e dois eu separo. Oito são pra casa e dois são pro cinema.

Eu fazia o dinheiro pro cinema, pra pipoca, pra condução, comprar o filme, juntar e pagar o Seu Arquimedes, que me vendia: "Depois você me paga". Eu demorava pra pagar, mas juntava e pagava a ele. Foram bastantes filmes, agora a minha família nunca... Nessa de eu ir pro Ipiranga, trazer o filme, chegar de madrugada com o filme pra passar [no] domingo, eles não achavam bom porque achavam que eu gastava dinheiro com isso. Eu tirava, mas nunca...

P/2 – E nenhum dos seus filhos gosta de cinema?  

R – Não. Interessante essa coisa, não ligam, não. Eu preciso de ajuda, mas é complicado. Eu não tinha aquela euforia, pois já imaginava vir de noite lá do Ipiranga, uma hora da manhã. [Quando] Chegava do Ipiranga: "Olha o filme que eu trouxe pra passar amanhã!" "Pra que isso?" Era triste pra mim, eu chegava... Nossa, aquilo pra mim, trazer aqueles dois rolos de filmes dentro da lata: "Olha, vou passar esse filme aqui amanhã!" Eles olham... A gente vai ficando sem graça, né? Chegou num ponto que eu já chegava e guardava, deixava: "Amanhã eu vou cuidar disso". Isso até agora.

P/1 – O senhor tem guardados todos os filmes até hoje?

R – Tenho, tenho todos.

P/1 – E não tem perigo de queimar? Dizem que filme pega fogo, autocombustão... Nunca aconteceu isso?

R – Não. Ainda não. Ele pode estragar por causa da umidade, molhar. Já perdi sim, já perdi bastante filme por conta de não ter onde guardar nesse tempo todo. Eu sofri muito, eu perdi muita coisa. Eu vou à luta pra arrumar. As cadeiras do cinema, eu ganhei muitas e perdi em chuva, coberto com lona... Mas eu não tinha, não consegui apoio da Prefeitura de Taboão. Eu não consegui nada. Eu, hoje...

P/2 – O senhor agora passa o cinema na sua casa, não é?

R – É. No domingo em casa e por aí, pela Grande São Paulo.

P/2 – Em quais bairros o senhor vai?  

R – Quais os bairros que eu vou? A gente vai pra... No Taboão da Serra, eu me sinto peão; [foi] onde eu lutei esses dois anos pra construir o meu salão. Eu inaugurei no dia 21 de dezembro, quer dizer, de lá pra cá fizemos o filme, o cinema... Eu nunca parei, o cinema sempre aconteceu. Nunca parei, todos os domingos, nunca parou. É sempre lá, sempre coberto pelas estrelas, sempre ao ar livre. Nos dois anos últimos, eu lutei pra construir um salão. Um salão de quatro por onze metros de comprimento, pequeno, tem 54 lugares. E construí a telinha, é onde ele funciona até agora. Mas foram duros esses dois anos, [foi] muito difícil.

P/2 – O senhor continua sozinho, não tem ajuda de ninguém?

R – Sim. Agora, nesses últimos seis meses, um cidadão apareceu lá em casa. Ele passou pra oferecer uma mão de massa nas paredes, porque está sem reboco as paredes, ainda. Desde dezembro a gente conseguiu fazer a estreia, mas de lá pra cá não consegui melhorar.

P/1 – E a prefeitura?

R – Não, neca. Aconteceu... A imprensa entrou, porque como a imprensa entrou... Eu ouvia, fazia sempre esse cinema como a gente faz na periferia. Tinha dia que eu andava na rua com meu carrinho de ferro velho, trabalhando. Eu passava numa favela, já ficava olhando a rua pouco larga, muita criança… "Puxa, aqui dá pra passar um filme".

Eu falava com as pessoas: "Olha, eu tenho um cineminha..." Eu parava o meu carrinho. O pessoal ficava estranhando: um catador! "Eu tenho, vocês querem assistir um filme?" O pessoal já [pergunta]: "Mas como é?" "Eu tenho um projetor, a gente traz o filme, põe ali. Só preciso de ajuda, eu preciso que alguém me empreste a tomada pra ligar a extensão, o barzinho..." "Ah, pode ligar aqui, põe a tela ali..." Não tinha problema, a gente levava o filme. No domingo, eu estava lá. Eu precisava de ajuda, o pessoal ajudava: vinha com escada, pregava, trazia martelo até a gente arrumar aquilo.

P/1 – Em que lugares o senhor fez isso?

R – Em vários lugares.

P/2 – E como a imprensa descobriu o senhor?

R – A semana inteira eu trabalhava, eu me preparava: ia ao cinema lá no Arquimedes, trazia o filme, o lugar marcado. A semana inteira [fazia] um sol bonito, quando chegava sábado o tempo virava, chuva. Já estava tudo preparado pra passar o filme, chovia no domingo. Eu ainda tentava muitas vezes, ia lá, estava trovejando, escurecendo. "Vamos montar, quem sabe a gente consegue passar o filme e não chove". Então, dava esse problema: chuva. Às vezes, a gente estava tentando passar o filme; [quando] começava o filme, chovia. A gente tinha que guardar tudo e sair correndo, era difícil.

Às vezes, a gente olhava uma escola fechada. Uma escola fechada nos finais de semana! Foi por isso que eu acabei indo procurar: "Eu preciso pedir uma escola emprestada. Mas pra que? Eu preciso ir na prefeitura. Com quem eu devo falar?" Era muito triste pra mim não conseguir fazer por causa da chuva. Eu via escola fechada e falava: "Não é possível. Lá dentro tem cadeira, tem banheiro, tem água, tem tudo e nós não conseguimos fazer porque chove". Eu ficava doente: se eu estivesse lá dentro, nós estávamos normais.

Um dia, eu estava ali no Pirajussara trabalhando; encontrei um jornal, peguei o jornal. Vi no jornal: “Associação dos Profissionais Públicos Moradores de Taboão da Serra”. Peguei o telefone, o endereço e o telefone da Secretaria de Cultura do município. Peguei o carrinho, fui no orelhão e liguei pra secretaria que tinha no jornal. Eu falei: "Eu quero falar com o secretário de cultura". E a moça: "Do que se trata?". Eu quis explicar, falar do meu jeito, de repente eu consigo falar direito, né? Ela falou: "Não, você tem que mandar..." Eu falei: "O que eu tenho que fazer?". Ela falou: "Você tem que enviar ofício". Eu falei: "Nossa, é complicado assim? Tá bom". Fui pra casa e falei: "Não, eu vou até a Secretaria de Cultura". Fui lá, cheguei na porta e falei com o guarda: "Eu quero falar com o secretário." "Não é assim. É difícil." Eu insisti: "Eu quero falar com o secretário, eu quero pedir uma escola emprestada", era só isso que eu queria.

Foi difícil. Eu subi, esperei ele aceitar. O secretário conversou com a assessora da Secretaria de Cultura - não o secretário, o funcionário da Secretaria de Cultura. Ele foi lá e me falou: "Só tem uma coisa. Tem que ser rápido porque ela é muito ocupada". Eu falei com a Dona Rose Funari, ela é assessora do secretário.   

P/2 – E quem é o secretário?

R – O secretário é João Medeiros, lá em Taboão da Serra. Naquele tempo o professor Fenólio era o secretário em Taboão da Serra, mas eu não sabia. Eu fui saber porque era época de campanha eleitoral e o secretário, o professor Fenólio, estava concorrendo. Ele era candidato a vereador, então teve que sair. Aí ele nomeou o João Medeiros.

P/2 – Em que ano foi isso, Seu Zagati?

R – Em que ano? Ai, meu Deus...

P/2 – 2000?

R – 2000? É, acho que mais ou menos por aí. Eu não consigo lembrar agora.

Então eu fui, consegui falar com dona Rose Funari. "Do que se trata?" Aí eu comecei a falar: "Bom, se eu tenho que ser rápido, porque ela é muito ocupada, não vai dar." Eu comecei meio engasgado e ela achou interessante, ela é da cultura! Ela achou legal e começou a perguntar, eu fiquei mais à vontade: "Como é que você faz? Como é essa história?". Eu fui contando.

Eu fui lá pedir, eu só queria pedir a escola emprestada. Ela achou interessante, pediu que eu fizesse uma demonstração numa escola e eu fiz. Marcou um dia e eu fui pra escola fazer. Terminamos, voltei pra casa.

Durante o dia, estava na rua, trabalhando. [Quando] Cheguei em casa, me falaram: "A prefeitura esteve aqui, tome o telefone. É pra você ligar imediatamente pra lá". Eu liguei, eles me deram então... Eles entenderam o seguinte: fizeram uma homenagem. Em vez de me dar... Lá em Taboão da Serra tem o CEMUR, sabe? É o teatro de Taboão da Serra, lá no centro, onde todos os eventos grandes ocorrem. Chama-se CEMUR - Centro Municipal de Recreação Carlos Drummond de Andrade.

Então a Cristina Aguilera, jornalista em Taboão da Serra - ela me dá uma força muito grande - ficou encarregada de botar isso no jornal. Ela foi até em casa, viu o que eu tinha de material, fez a primeira nota do jornal. Saiu assim: “Taboão terá a primeira mostra de cinema”.

Já pensou? Pra quem estava em dificuldade… Você está na rua, com uma dificuldade tão grande. Muito simples, o nosso trabalho. De repente, você... A prefeitura, então, foi em casa com aquele caminhão, pegou algum material que a gente usava e algum material ficou no saguão, na exposição: projetores, livros antigos, coisa de cinema. Fiquei lá segunda, terça e quarta, foram três dias. Durante o dia a prefeitura entrou naquele... As crianças iam pro cinema. Foi período integral, o dia todo. E à noite, os adultos.

Nós corremos até o MIS [Museu da Imagem e do Som], conseguimos... Não deu pra pegar o que eles propuseram, queriam pegar uns longa-metragens nacionais, mas não foi possível, estava em cima da hora. Pegamos uns quatro, cinco curtas e quase nem usamos porque eu levei o meu material pra gente usar lá. Isso foi segunda, terça e quarta. Mas na terça-feira... A jornalista Cristina Aguilera é amiga da Patrícia Gomes, tinha feito faculdade de jornalismo com ela, eu acho. Amiga dela e trabalhava no canal 21. Ela convidou a Patrícia Gomes, que fez a primeira matéria. Foi difícil a primeira vez, acertar... Eu tinha uma responsabilidade muito grande porque o teatro lá é grande, é bem grande. E de repente, você tem que colocar o filme, tem que fazer aquele trabalho. Foi muito grande o peso, muito difícil, mas eu encarei, fazia durante o dia para as crianças da escola, à noite para o público adulto.

Depois, à noite, veio a televisão. A Patrícia Gomes fez a primeira matéria no canal 21. Foi difícil, eu suo bastante e naquele dia, pior ainda. [Com] a câmara em cima e público lotado, você tem que ficar concentrado ali no projetor, porque [para projetar] filme de dezesseis milímetros, você tem que estar perto. Às vezes tem defeito naqueles furinhos, você tem que estar dando toque, tem que estar cuidando. Rapaz do céu! Mas consegui.

Aí terminou, isso foi terça. [Na] Quarta-feira terminamos. A prefeitura levou tudo pra casa. Eu voltei à minha vida, voltei pra rua. Dois dias depois, eu estou na rua trabalhando: "Eu te vi na televisão". Eu falei: "É? Que legal". E foi assim.  

P/2 – E depois dessa sua aparição na televisão, o senhor não teve ajuda de ninguém?

R – Olha, ajuda, televisão... É engraçado, né? Começou o canal 21, Bandeirantes, Record, televisão, jornal, revista, foi direto, até que chegou ao conhecimento do ex-secretário de cultura, o Marcos Mendonça. Ele pediu para um funcionário me procurar e me levou até a Secretaria de Cultura. Eu fui conversar com o Marcos Mendonça. Sabendo da minha história, um catador de papel, ele me falou o seguinte: "Quanto você ganha por dia?" Eu falei: "Se eu sair de manhã, eu tenho que ganhar pelo menos dez reais. Depois que eu ganhar dez reais, se eu ganhar mais dez, mais cinco, é extra." Ele falou: "Eu vou te dar trezentos reais. Todo mês eu vou te dar esse dinheiro". E foi ficando assim.

Dei uma entrevista pra Revista Cultural com a Veja. Fui passar o filme lá, fazer as fotografias. Mandaram o carro, eu fui lá no prédio da secretaria, lá no estacionamento nós montamos… Eu tenho até a revista aí, eu montei lá para a moça fazer a foto pra sair na entrevista. Dei a entrevista e saiu na revista.

Depois de um mês, me ligaram pra eu ir lá na Secretaria. [Quando] Cheguei lá, estava numa gaveta o envelope, mas eles fizeram uma inscrição, demorou um tempo. Saiu no Diário Oficial - tive que assumir o cargo de secretário, porque eu sou secretário, é um cargo. Sou secretário, quer dizer, tem um contrato. Ainda ontem eu estive lá pra fazer novamente, volta e meia tenho que dar uma renovadinha.

A doutora Claudia Coutinho, eu não conheço ela. Estou fazendo muita coisa, porque já de imediato, já de início, o secretário Marcos Mendonça pediu que eu fizesse um trabalho em São Paulo. Nós fomos fazer na Favela Alba e na Favela Campo Grande. Foram quatro finais de semana. Alugamos filme na Polifilmes, eles alugaram quatro filmes do Mazzaropi, tudo em rolo. Eu passava filme na Favela Alba no sábado e na Favela Campo Grande no domingo. Na semana seguinte, outro filme Alba, Campo Grande, até fechar o mês com o projeto. E foi bacana, começou por ali. Os municípios da grande São Paulo mandam ofício pra lá, volta e meia estamos indo pra fora.    

P/2 – Então agora o senhor só trabalha com isso? O senhor não pega...

R – É, não fez... Infelizmente, porque eu sinto uma falta danada, porque daí que veio tudo. E eu não tenho vergonha, muito pelo contrário. O Brasil inteiro, eu posso falar, o Brasil inteiro sabe, o catador de lixo cata, até o exterior sabe disso.

P/1 – Isso é um orgulho!

R – É. Porque eu soube trabalhar, eu dei valor. Eu dei valor, porque o catador de papelão é... É só saber aproveitar, ele é muito importante. Esses dias eu fui numa palestra e falei: "O catador de sucata não sabe o valor que tem porque, além de tirar o sustento, ele ajuda a limpar e contribui com a ecologia. Porque limpa a rua, recicla". Quer dizer, um negócio interessante.

Não é você pegar tudo que ganhar e gastar com bebida, não faz, não… Ficar sempre dormindo na rua. Eu nunca precisei porque, graças a Deus, eu tenho casa. Eu agradeço a Deus. Posso não ter nada, mas Deus dirige a minha cabeça pra saber o que é certo.

P/2 – Seu Zagati, esse salão que o senhor construiu lá em Taboão... Alguém ajudou o senhor ou o senhor construiu sozinho, com o seu dinheiro?

R – Minha filha, é uma coisa, é uma história tão grande! Eu, sozinho. Eu morava no Sítio das Madres, onde a gente começou a passar o filme na rua, sempre na rua. Um dia, minha mulher viu um caminhão que jogou umas cadeiras no lixão. Eu cheguei, ela falou: "Olha, veio um caminhão e jogou um monte cadeira fora. Parece tudo cadeira de cinema".

Eu falei: "Meu Deus, aonde é?" Corri lá, cheguei e já tinham levado as cadeiras, eram cadeiras de cinema. Só tinha sobrado as que não prestavam mais. Eu peguei, falei: "Puxa vida, cheguei atrasado". Peguei um encosto, um lado, um encosto, um assento. Falei: "Eu monto com essa, parafuso com essa". Fiz um jogo: dezesseis lugares. Eu levei pra casa, comprei os parafusos e fui montando, fui pegando: essa aqui, uma perna, com essa aqui, eu parafuso aqui... Fiz um jogo assim. Eu botei aquelas dezesseis cadeiras, aí eu pensei: "Bom, agora eu vou botar na minha garagem", porque eu não tinha cadeira, eu fazia na rua.

"Bom, agora eu tenho dezesseis cadeiras, eu preciso colocar aí dentro". Tirei as minhas ferramentas da minha garagem e botei tudo ali dentro. Eu já fiz logo a tela, que é essa que está até hoje lá. Eu peguei uma madeira, uma lona, eu fiz a tela e coloquei na parede. E botei o cinema, as dezesseis cadeiras ali e vamos lá! Todos os domingos o cinema ali. Não sei se vocês chegaram a ver o cinema lá na garagem.

Eu usava o projetor do outro lado da rua, porque o projetor precisa de uma distância de mais ou menos doze metros pra encher a tela, por isso que o projetor fica sempre do outro lado da rua, montava ali. E assim foi indo. A imprensa foi...

Eu tenho essa ajuda do secretário de cultura. Tem mês que eu não faço nada pra eles, não tem nada pra fazer, só vou lá, marco meu ponto e vou receber. Isso tem me ajudado, não é muito, mas é o que aconteceu. E o município de Taboão da Serra não viu isso, portanto, quando aconteceu, quando eu fui chamado pra vir aí na Secretaria, o pessoal lá de Taboão da Serra falou: "Nossa, perdemos o Zagati pra São Paulo". Mas não perdeu. Por que eles não me chamaram antes? "Zagati, você vai ganhar um salário mínimo pra ficar varrendo a porta da escola, mas é pra você dar continuidade pro seu trabalho." Eles não fizeram isso, né? Então eu agradeço muito, sempre eu falo. Quando tenho oportunidade, falo sempre que a gente tem esse contrato. Não sei até quando a gente vai, mas está aí. Essa semana mesmo, eu estive lá pra fazer novamente...  

P/1 – O contrato?

R – É. E está funcionando, agora no dia 19 de setembro vamos em Embu-guaçu. Mas tem os asilos em São Paulo. O ano... [Em] Maio, junho e julho, participamos do Projeto Viver em três asilos em São Paulo. Toda terça-feira e quarta. Era pra recomeçar em setembro, mas... Era pra levar o cinema aos asilos, a gente vai também, três asilos por dia. Uma coisa que valeu muito.

Ontem me ligaram, acho que era da Secretaria de Cultura de São Paulo, eu não perguntei se era da prefeitura. Deve ser da prefeitura, porque do Estado... "Aqui é da Secretaria de Cultura", eu falei: "De onde?" "Secretaria de Cultura de São Paulo".  Deve ser da prefeitura, porque acontece muito isso, perguntando dos asilos. Eu achei diferente, foi ótimo. Você imagina, pensar em levar o cinema pra dentro dos asilos, nossa! Não dá nem pra explicar como é bom estar ali dentro. Os velhinhos ali, você chega, monta o cinema. Todos sentadinhos, você monta aquilo e passa o filme. Não dá pra explicar, só sei sentir mesmo, não sei nem explicar como vale a pena. Você ver que aquilo que se propôs a fazer, como está tendo valor, está sendo bastante útil. Nós fizemos no asilo; agora em setembro deu uma paradinha, era pra voltar. Parou de agosto para setembro por causa do [evento] Revelando São Paulo. Só depois do Revelando São Paulo a gente vai voltar a fazer nos asilos de novo, aqui em São Paulo.

P/1 – E esse projeto de filme que o senhor falou no começo da entrevista, sobre o roteiro, sobre o filme que estão fazendo. Como é?

R – Sim. É o seguinte: a imprensa, o jornal, televisão, foram levando isso. Fui levando minha vida como até hoje, não parei. Amanhã é domingo, continua. Isso foi sendo divulgado, sendo falado, aí apareceram cineastas; apareceu primeiramente um cineasta, Ivo Branco. Era pra fazer esse documentário… Demorou, Nossa Senhora! Bem antes disso, já tinha vindo o pessoal lá do Rio de Janeiro, o Marquinhos, que é da Abbas Filmes, junto com o Sérgio Bloch: "Oh, Zagati, será possível, dá pra gente vir aqui? Eu tenho um projeto, foi aprovado..." “Tá, beleza.” Ivo Branco apareceu também. Ficou correndo atrás de recursos, demorou muito.  

Veio o Eduardo ‘Feliste’ [Felistoque] e Nereu Cerdeira, ________ de uma produtora; tinham feito um longa-metragem chamado “Soluços e Soluções”. Eles tinham sido premiados e correram atrás. "Vamos fazer um documentário". Vieram numa terça-feira e no sábado vieram gravar. Contei algumas coisinhas... "Na terça-feira, a gente está com a equipe aqui." Aí vieram fazer. "Zagati, nós te daremos mil reais." Beleza, pra catador de papel, mil reais ajuda muito. No sábado a equipe chegou de manhãzinha, eu preparei tudo e saí pra rua. "Mas é um documentário, você vai sair pra trabalhar mesmo, normal?" Eu já tinha puxado carrinho pra televisão muitas vezes mesmo, [é] normal. Pra fazer aquilo ali, não deu outra... Então nós gravamos o documentário “Zagati”, [no] sábado e domingo.

Enquanto eles estavam montando, o Sérgio Bloch aparece. Um tempo antes do Edu, dessa produtora, o Marquinhos tinha um projeto pra fazer um filme chamado “Lixolatria”, lá no Rio de Janeiro. Tinha o projeto, mas eles estavam esperando... É por isso que o Marquinhos veio aqui pra São Paulo me procurar: "Zagati, é assim, assim... A gente tem um projeto. Se for aprovado, a gente pode fazer umas imagens?". Eu falei: "Pode, tudo bem". Foi embora.

Eu gravei o “Zagati”. Quando estava pronto, a Alice Lanari - estudante de jornalismo no Rio de Janeiro, porque a faculdade estava em greve naquela época - veio pra São Paulo me procurar pra fazer uma coisinha. Enquanto era greve, a faculdade estava parada, ela veio fazer uma coisa pra faculdade. Só que, quando ela chegou aqui em São Paulo, ligaram pra ela: "Olha, você está aí em São Paulo, você procura o Zagati, porque o projeto do Marquinho foi aprovado", aí ‘tesourou’ ela.  "O projeto do Marquinho foi aprovado". Aí o contrato, tudo bem. O pessoal veio lá do Rio de janeiro, a equipe veio de lá mesmo. O Sérgio Bloch, né? Fizeram o documentário, o “Mini-cine Tupy”. Até parece muito com o “Zagati”, porque documentário pra cinema, vocês devem saber, ele é bastante real, bem complicado. Ele não tem nada de criação, pra cinema é bem diferente. Pra televisão, eles criam alguma coisa: "Olha, você faz assim". O cinema deixa você fazer, mesmo. Então por isso que parece bastante.

O “Zagati” estava sendo montado, o Sérgio Bloch fez o “Mini-cine Tupy”, que é o nome do cinema. O outro é o “Zagati”, que sou eu. E por toda essa história que eu estou contando pra vocês, desde os cinco anos até agora, a gente vai lembrando, por isso que deu o roteiro pro longa. Foi feito o primeiro... Conversei com o Edu, dois dias depois ele falou: "Zagati, aqui o primeiro tratamento do roteiro". Eu falei: "Tá". Tem alguma ficção, mas é baseado nessa história até hoje. E por isso que foi feito, faz dois anos, eu autorizei a filmagem dessa biografia, foi assinado em cartório, foi mandado o projeto pra Brasília, foi aprovado há três ou quatro meses. Agora estou atrás de recurso pra fazer. Inclusive, foi feito o primeiro tratamento agora há pouco.

Assim que o projeto foi aprovado, eles contrataram o Rogério Moura, que é um cineasta; é quem está fazendo agora, gravando o filme “Bom dia, eternidade”. Eu até participei desse filme; fiz figuração nesse filme, ele me convidou. Contrataram o Rogério Moura pra que ele fizesse o roteiro, o segundo tratamento. Ele esteve em casa, esteve comigo no hospital. Até o ano passado eu estava passando filme no Hospital do Servidor e ele foi até lá num dos dias. Então foi feito o segundo tratamento do roteiro, poderá ter um terceiro ou um quarto ainda. Tomara que não, porque o projeto foi aprovado. A produtora que fez o “Zagati” agora já está atrás de recurso pra fazer o longa. Inclusive, o produtor desse filme “Bom dia, eternidade” que está sendo gravado agora, o Farid [Tavares], vai ser o produtor executivo desse longa. Quer dizer, está pra rodar no ano que vem.

P/1 – Vamos aguardar, então. Zagati, em toda a sua trajetória, lá de Guariba até agora, você acha que você mudaria alguma coisa se você tivesse essa oportunidade? Ou você faria tudo do mesmo jeito?

R – Não ia mudar nada, não. Tem que ser do jeito que valeu a pena. Quantas vezes fosse pra eu viver essa vida, não ia querer mudar nada.

P/1 – Faria tudo igual?

R – Tudo igual. Quantas vezes fosse preciso, faria tudo igual porque valeu. Eu sou muito feliz, graças a Deus.

P/1 – Então muito obrigado pela sua entrevista. Boa sorte nos projetos futuros, nas projeções que você vai continuar fazendo e também nos filmes.

P/2 – Muito sucesso!

R – Muito obrigado, viu?

P/2 – Queremos ver o seu longa quando sair.

R – Joia! Tá bom.


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