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A luta pelo estudo

História de: Hilda Almeida dos Santos
Autor: Coleção Alagados
Publicado em: 29/07/2020

Sinopse

Hilda narra sobre as adversidades encontradas em sua luta pelo estudo, dentre elas, a distância de sua casa para a escola, e a resistência do próprio pai.

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História completa

Acho que desde quando eu nasci, a gente fica... as vezes a gente não entende as coisas que acontecem com a gente e a gente só vai entender muitos anos depois, lá na frente quando você faz uma memória, faz uma recordação. Eu sou a filha mais velha de 10 filhos né, então sou a mais velha. Meus pais se separam e eu que tive que criar os meus irmãos. Aliás não, ajudar meu pai a nos criar né. Por conta disso, a gente morava numa cidadezinha, num povoadozinho pequenininho, chamado Mapele, lá no “interiorzinho” de Simões Filho. Eu digo assim, que lá é onde o vento faz a curva (risos). Porque lá não tem saída, você vai e tem que voltar pelo mesmo lugar, não tem jeito. Aí, lá eu nasci, lá eu me criei até os quinze anos, dezoito anos e eu tive que ajudar o meu pai a criar os meus irmãos. Minha mãe foi embora para São Paulo, eu fiquei. Eu sou a mais velha, então eu fiquei com doze anos, cuidando. Ai foi uma escadinha. A minha irmã caçula, tinha três meses, três, quatro meses. Aí eu fui obrigada a criar meus irmãos, mas eu tinha a minha avó né, depois minha avó morreu, aí então quando minha avó morreu, dançou que era eu mesmo. E aí eu fiquei. Queria estudar mas... meu pai dizia que não que, quem era que iria tomar conta dos meninos? Porque ele era pescador, ele saía pra pescar (...) Então quem ia cuidar dos irmãos? Dos meninos, das crianças, comida, roupa? (...) Depois de mim vem meu irmão (...) depois vem uma mulher, depois vem um homem, depois vem um outro homem e depois outra menina, depois outra menina... Aí, bom. Mas mesmo assim eu fugia pra estudar né (...) Quando ele ia pescar eu ia para o colégio (risos). Era, eu já sabia o horário que ele ia e voltava (...) Eu ia para o colégio, daí a professora já sabia também que ele não queria que estudasse (...) [ela, a professora] Dava as fardas, dava os livros, dava tudo, e quando não dava eu ia sem mesmo né? Depois eu tirei, depois eu terminei o primário, ainda repeti mais um ano porque ele disse que não precisava estudar pra ir para o ginásio, que aí tinha que fazer admissão, aquela coisa toda. Aí eu não fui um ano, e fiquei sem estudar. Quer dizer, sem ir para o ginásio. Porque de Mapele para Simões Filho são 10 quilômetros. Dez pra ir e dez pra voltar, e não tinha o transporte. Eu ia andando (risos). Mas aí eu fui pra me matricular, pedi à professora pra me matricular assim mesmo escondido. Aí ela “não, porque você é de menor, não pode, tem que falar com seu pai, ele que tem que ir”. Aí eu disse: “- Não ‘pro’ eu vou, a senhora me matricula que eu vou. Aí ela: “- Não”, não deixou. Aí eu: “- E o que precisa pra me matricular?” Aí ela disse: “- Certidão de nascimento, não sei o quê.” Eu não tinha nada disso, nem eu e nem meus irmãos! Aí eu fui, eu mesmo tirei. Cheguei lá no cartório, o homem era conhecido da família né. Eu disse, levei o nome de todo mundo, escrevi o nome de todo mundo, anotei num papel. Cheguei lá e disse: “Pai disse que é pra você registrar”. Aí ele registrou direitinho, e aí tinha a certidão de nascimento, aí eu fui e me matriculei no ginásio, não foi fácil, mas eu consegui. Perturbei tanto o homem, o padre que era o diretor do ginásio (...) Aí, depois da admissão eu fiquei, estudei. E aí agora pra dizer a pai que eu ia para o ginásio? E ainda ia pra Simões Filho, não era nem Mapele. 8 quilômetros pra ir e 8 quilômetros pra.. ia andando e ainda voltava andando. Quando eu disse a ele, não fui nem eu que disse, foi a professora que disse. “Ah, ela não vai estudar não” “- Oh Leonel, eu queria lhe dizer que ela já se matriculou” “- Não, não, mas não tem, como é que ela vai pra Simões Filho?” “Como todo mundo vai” “Não, filha minha não” (...) Aí.. Ele não deixou não. Disse que não, mas eu fui! (...) Eu fazia comida cedo, dava banho em todo mundo, deixava tudo. Dete que era a terceira, ela era bem.. eu dizia como é que fazia. Eu dizia: “- Se eu chegar e encontrar tudo errado eu dou porrada em todo mundo!” (risos). E batia mesmo! Aí eu apanhava, mas também eu batia. Eu apanhava porque fazia, eu ia escondido mesmo pro colégio e quando eu chegava em casa eu dizia: “- Eu quero estudar e vai ser assim”. Um ano inteiro foi assim. Depois ele viu que não tinha jeito, deixou né. Mas, graças a Deus eu consegui encarar todos esses desafios, estudei. Depois serviu né porque ai eu fui ajudar ele.

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