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História

A luta pela mudança

História de: Adriana de Souza Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/12/2020

Sinopse

Nascida em São Paulo, capital. Separação dos pais. Relacionamentos na adolescência. Falecimento de um namorado. Relacionamento abusivo. Trabalhos na área de hotelaria. Intercâmbio para a Irlanda. Mudança de carreira. Empreendedorismo socioambiental. Moda sustentável. Bolsas sustentáveis. Aprendizados e desafios no empreendedorismo. Pandemia.


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História completa

Eu me chamo Adriana Costa, tenho 34 anos, nascida no dia seis de março de 1986, em São Paulo, capital.

Comecei a empreender por uma insatisfação pessoal com o mercado de trabalho, de tentar me reconectar comigo mesma e com a minha mãe, com as mulheres da minha família, e conseguir entender que a vida podia ter um outro significado que não só aquele que todo mundo dizia: “Você tem que se formar e trabalhar para alguém”, quando eu saí do trabalho e fui empreender, muita gente me chamou de louca, mas muita gente: “Como assim você vai sair de um trabalho que você tem a sua estabilidade, que tem um emprego fixo, para ir se aventurar”, eu falei: “Não, eu não estou me aventurando”. Assim como a segurança para mim é uma utopia, nada é seguro. E no trabalho muito menos, você tem sim uma estabilidade, que você imagina que tem, mas a qualquer momento também podem te mandar embora, aí essa estabilidade cai, então foi um momento, assim, de muito, muito aprendizado. 

 No meio do caminho... Eu desde criança, sempre fiz artesanato, atividades manuais, sempre gostei, e a minha mãe, minha vó, minha tia, sempre costuraram, minha mãe, inclusive, trabalhou como costureira uma época. E aí eu fui lembrar disso, de ver fotos da minha mãe costurando e eu perto, lembrando que eu podia fazer de um hobby até então, um negócio. Na época o meu noivo, que é super companheiro e sempre fez muito parte dessas mudanças, ele comprou um curso para mim que falava sobre foco, porque eu queria fazer tudo ao mesmo tempo, e aí eu fiz esse curso e saí do curso já sabendo o que eu queria, já com o nome da empresa e tudo mais. E aí pedi para que eles me mandassem embora do trabalho, eles me mandaram embora e antes disso até, do lado do hotel onde eu trabalhava, tinha uma mulher que uma vez eu estava indo embora, ela jogou muitos sacos de tecidos fora, e eu estava saindo e cruzei com ela e perguntei para ela o que era aquilo, ela falou que eram tecidos de coleção passada e que ela não usava mais, ela era representante comercial de uma indústria têxtil. Eu falei: “Nossa, eu já costuro”, a primeira coisa que veio na minha cabeça foi: “Tenho matéria-prima gratuita aqui sei lá por quanto tempo”. E peguei o contato, fiquei usando os tecidos para costurar. E aí pedi para ser mandada embora e fui pesquisando mais sobre foco, e entendendo mais sobre empreendedorismo, estudando um pouco mais, e nesse tempo falei: “Não, eu acho que eu consigo fazer do que era um hobby, um negócio”. E fui metendo as caras. Estudei muito, muito, porque para ser empreendedora você precisa saber de todas as áreas de uma empresa, e tem área para caramba dentro de uma empresa, então não é só a parte da produção, é a parte administrativa, de venda, de marketing, enfim. 

A Ágama é uma marca de bolsas que eu utilizo resíduo têxtil para a confecção das peças. Ela começou, como eu falei, com essa mulher, a Luciene, que dava os tecidos, e aí eu aproveitada aquilo que tinha e então, às vezes, era retalho pequeno, fazia peça pequena, às vezes era grande, fazia maior, quando era maior ainda e não tinha um tecido grande, eu tinha que juntar um tecido no outro. Então eu precisava fazer uma curadoria de estampas que se conectavam, porque era tudo estampado. E aí comecei a mudar os produtos, que na época parecia ser mais fácil, conheci o banco de tecidos, que é um lugar muito bacana também, que é de troca de tecidos, então você deposita e saca tecido como se fosse dinheiro, moeda corrente, então eu pude colocar todos os tecidos estampados que eu tinha e pegar tecidos lisos para confeccionar. E toda confecção é 100% feita com tecido de reuso, desde o tecido externo ao tecido interno, no forro. Aí depois passou muito tempo, fui fazendo mentoria, aí entrei na moda sustentável e conhecendo pessoas da moda sustentável que iam me dando dicas de como fazer melhor, de como fazer durar, entender que uma empresa precisa ter os seus pilares, precisa ter os valores, então a Ágama tem vários pilares, e eu fui entendendo que em alguns momentos em quis separar, ai a Adriana é uma coisa, a Ágama é outra, mas no final é a mesma coisa, o coração é o mesmo, a Ágama não vive se a Adriana não vive. E aí eu fui entendendo quais eram os meus valores, me reconectar novamente desde a primeira vez. Hoje a Ágama tem seis anos, e aí me reconectei para entender qual rumo que eu queria dar para a Ágama. Então eu entendi os valores não só da sustentabilidade, ambiente, mas a social, de incluir e valorizar as mulheres da periferia, me vi como uma mulher periférica, como uma pessoa periférica que por mais que eu viva na periferia, que a gente sabe na geografia da periferia, que eu moro em um bairro periférico, por ser uma mulher branca, tendo os seus privilégios, eu não me reconhecia como uma mulher periférica. Então de me reconhecer como uma mulher que sim, quem mora na periferia tem as suas dificuldades, não é conversinha. Eu tive uma mentora que falou: “Da ponte para cá, o negócio é mais louco”, então realmente é mais difícil de oportunidades, de distância, então sim, valorizar isso, de dar preferência para as mulheres, por todas as questões que as mulheres vivem num país e num sistema patriarcal, então valorizar as mulheres em tudo que eu posso, sempre apoio, e não é um papo de sororidade para marketing, é um papo real.

O empreender para mim foi muito mais uma coisa de me ligar como ser humano nas formações e nos valores que eu gostaria de ter para mim e para as pessoas que me cercam, porque eu sempre fui a chata, hoje eu sou a eco-chata e sou a eco-chata com orgulho, sabe, eu já me apresento para as pessoas como eco-chata. [O feminismo e o veganismo] são um dos pilares [da Ágama]. Pensar no meio ambiente e no social foi muito intrínseco, porque já veio. Eu não consigo lembrar de um momento onde eu falei: “Não tem que ser isso”, ela já nasceu assim. Eu só escolhi um dia para a Ágama nascer, mas a Ágama sempre esteve dentro de mim, eu escolhi um dia de fundação e escolhi um nome para ela, mas ela sempre esteve ali. 

E hoje quando eu penso que empreender de forma sustentável é dificílimo por várias questões, por padronização de peças, por exemplo, por questão de preço, de matéria-prima, quando eu penso em fazer uma coisa que seja diferente disso, eu travo, eu não consigo, porque, financeiramente talvez seja mais rentável, mas descaracteriza. Então quando penso nesse contexto, não tem como ser diferente. Sim, uma moda sustentável é mais cara, é mais difícil, ela é mais cara para executar, automaticamente fica mais cara na hora de vender. Mas aí eu penso, o que é o caro? Para quem isso é caro? Se você pensa no social, onde a maioria das roupas são fabricadas em países asiáticos, na Índia, onde não sei se você sabe, mas existe um movimento que chama Fashion Revolution, que ele começou por conta de um acidente - diz acidente - em Bangladesh, que foi um prédio com não sei quantas pessoas, costureiras e costureiros dentro desse prédio que ruiu, ele já vivia em situação de calamidade, o prédio ruiu, porque estava ali vivendo e trabalhando em situação análoga à escravidão. Tudo bem, você não precisa ir em Bangladesh para ver isso, você vai na região do Brás onde tem um monte de Boliviano que, infelizmente, acaba se submetendo por isso. Eu vou fechar o olho só porque não é comigo? Não, morreram vidas lá, eram famílias. Então não tem como ser de outra forma. Alguém vai pagar por isso, se não é você que vai comprar uma bolsa que custa duzentos reais porque está trabalhando de forma legal, tanto social, quanto sustentável, você vai pagar vinte reais e alguém vai pagar com a vida, então eu não vejo muito sentido em fazer coisas… Também tem uma outra questão que é assim, a gente vive em um país desigual. Ponto. O país é desigual. Então se eu chegar hoje e falar: “Todo mundo tem duzentos reais para comprar uma bolsa”, eu estou mentindo, não é. Não é todo mundo que tem duzentos reais. Tem uma mãe que mora na periferia, que tem cinco filhos, é mãe solo, trabalha como empregada doméstica, por mais que ela queira ter uma bolsa de duzentos reais, ela não vai poder, porque ela vai pensar em trocentas mil coisas antes de dar duzentos numa bolsa, então quando ela precisar de uma bolsa vai pagar vinte em uma que veio da China. E tudo bem, o que vou fazer? Não posso julgar essa mulher, porque ela vive numa situação completamente diferente das outras que tem lá os seus privilégios e que tem mais conhecimento. Então o que eu sempre indico nesses casos? Começa do jeito que dá. Se hoje você não pode, pensando nessa mulher que eu citei agora, se hoje você não pode comprar uma bolsa nesse sentido, faz o que você consegue, separa o lixo orgânico do reciclado, dá os primeiros passos. Tenta diminuir o consumo de plástico na sua casa, economia de água, tudo que de uma maneira ou de outra a gente consiga impactar menos.

A minha linha de raciocínio é: Está no bairro? É mulher? É dela, entendeu? É negra? É dela também. É de uma mulher gorda? É dela também. Eu sempre penso na oportunidade como fortalecimento, como apoio, O meu dinheiro significa muito para aquela pessoa que está precisando de dinheiro, seja o valor que for, e para além do valor monetário, ele está para o valor do apoio mesmo, ele está para além do preço, ele está no valor, no significado da valorização. 

[O momento mais marcante nessa trajetória de mulher empreendedora] eu acho que é quando eu ponho a prova que eu sou capaz, e isso é muito além de empreender. Quando você vê que é capaz de fazer qualquer coisa, vindo da minha história, onde eu cresci sozinha, digamos, pai e mãe ausentes, passei por um relacionamento super conturbado, um morre, o outro vai preso, então quando você vê que você consegue, que você é capaz e que sim, apoio é importante, mas que sozinha você também consegue, é um pouco mais difícil, um pouco mais doloroso, mas que você consegue, essa para mim foi a maior prova de que empreender também dá certo.

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