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História

A luta contra o esquecimento

História de: Otacília Pereira da Paixão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/04/2009

Sinopse

Em seu depoimento, Otacília Pereira Paixão nos conta sobre sua relação difícil com os pais e como ficou doente no dia de um eclipse. Fala de como fugiu com o namorado aos 15 anos e teve 14 filhos. Aborda seu trabalho na roça e na Ação Griô, onde ensina a cultura musical e religiosa de seu tempo para crianças, organizando eventos para manter as tradições.

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História completa

Nasci no arraial que se chama Areia Branca. Saí de Areia Branca com 13 anos de idade. Porque meu pai se deixou da minha mãe e se casou com outra. Aí eu fiquei com a minha mãe. Eu acabei de me criar com meu pai. Meu pai. era lavrador, trabalhava de roça, carvão, piaçava. Cortava areia de metro. A vida dele era isso. Fazia mais carvão. Mas adoeci, então meu pai veio me buscar pra acabar de me criar. Meu pai tinha mais condições que a minha mãe. Eu fiquei com ele.

Eu fiquei doente. Estava no mato tirando piaçava, no tempo de verão, tempo de janeiro. Acho que vocês não se lembram daquela época que o dia virou noite – vocês não eram nascidas, não –, o dia virou noite mesmo. Virou noite, ficou tudo escuro. O dia virou noite, teve que acender velas. A mãe acendeu vela pra clarear tudo. A galinha subiu pro poleiro. Procure no mapa que tem isso. Acontecia que o mundo ia se acabar. Mas o mundo ia se acabar no dia que o dia virou noite. Diziam que o mundo ia se acabar.

Tinha que sair pro mato pra comer coco verde. Trabalhando, batalhando pra tirar coco verde pra comer. Ainda esse dia deu essa chuvarada. Eu estava com galho de piaçava na cabeça, tentando ir embora pra casa. Quando a gente chegou em casa, estava trovejando e relampeando bastante. Joguei o carrego da piaçava lá e joguei a cabeça debaixo da torneira. Quer dizer, como o calor da piaçava, a tintura, eu ali debaixo falei: “Deixa eu por minha cabeça”. Meu cabelo era cumpridão, era nega mesmo, o cabelo batia aqui embaixo. Caiu todo, todo, todo. Eu fiquei em cima da cama mais de dois meses.

Meu pai me levou pra casa. E graças a Deus. Me deu muito remédio, purgante aguardente, Alemanha. Tomei três purgantes aguardente Alemanha. Tomei um mês, tomei outro, um mês tomei outro, então Deus me ajudou que eu melhorei. Mas meu cabelo nunca mais ficou bom. Ficou assim limpo, limpo, limpinho. Caiu todo, meu cabelo era bonito. E comecei a minha vida.

Eu gostava de cantar roda. Meu pai era aquele meio carrasco, meio bravo um pouquinho, não deixava a gente ir pra lugar nenhum, a brincadeira era ali. É menina com menina. É brincar de roda, brincar de boneca. Nunca me botou pra estudar e se eu fosse estudar eu ia fazer carta pro namorado. Hoje em dia eu estou precisando de uma leitura e não tenho. Culpa dos meus pais.

As minhas irmãs moravam tudo em casa, uma se casou, outra se casou e ficou eu sozinha. Ficou eu só. Depois que meu pai morreu, um foi pra um lado, outro foi pra outro. A minha madastra foi morar com o filho dela. A minha irmã foi morar em Camaçari, depois foi embora pra São Paulo. E eu fiquei sozinha por aí, com meu marido. Estando com meus filhos, todo ano tem um filho. E Deus abençoou, graças a Deus. Eu não vou dizer que foi mau, nem que foi bem, levou meu marido e ficou eu sozinha pra acabar de criar os filhos. Com ele eu tive 14 filhos.

Quando eu e meu marido fugimos, eu tinha uns 15 anos. Morando com ele, trabalhava piaçando. Era ir pro mato tirar piaçava, chegava pra limpar e pesar. Pesava as arrobas. Vendia pro rapaz lá mesmo, do Coqueiro. Chamava seu José. Fazia vassoura de piaçava. Trabalhava com aquilo. Vendia pra ele, ele vendia pra outra indústria que já fazia a vassoura.

Carvão era cortar as madeiras, aquele bocado mesmo vamos fazer aquela uma. Pegava uma enxada aí cavando o estradão, botava mesmo na parede assim até chegar em cima, de um lado e de outro. Em cima jogar palha, ou folha velha mesmo, jogar terra ali em cima e botar fogo. Bota fogo, queima, quando queima, sai o carvão. Vendia, ensacar no saco pra vender. Trabalhei muito, até hoje trabalho. É muito duro.

Na Ação Griô, eu ensino, o dia que é pra brincar, vamos embora brincar. Eles não sabem, então eu começo. O baile na casa das minhas cunhadas, a gente se trata como irmã. Só tenho eu e ela, que ela não tem irmã e eu não tenho irmã. Mas ela não sabe quase nada, que tudo sou eu que indico pra fazer. Como é que canta, como é que são os versos, como é pra queimar, no dia que vai queimar. Como é que vai, como é a roupa que vão botar as pastoras . Sou eu que sou a mestre de fazer aquilo tudo. 

Eu aprendi as canções com a minha sogra. Ela amarrava a lapinha. Ela tinha lapinha. Eu era pastora dela. Comecei a bailar atrás das outras pastoras, depois fui aprendendo por conta de passar pra frente. Na frente são duas pastoras. Uma de um lado e outra do outro. São doze no total. Mais se tiver mais põe, mas são doze no total. Aprendi com ela. Antes dela morrer, ela já estava velha, entregou pra mim. E até hoje eu tenho ele.

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