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História

A lida com moedas e cédulas

História de: Pedro Antônio Duarte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Infância no interior da Bahia e trabalho familiar na lavoura e criação de animais. Comercialização de produtos alimentícios em feiras livres e início da coleção de moedas antigas. Migração para São Paulo. Trabalho em empreiteira e em indústria de refrigeradores. Trabalho de mascate na compra de ouro e prata e venda de joias. Trabalho como ambulante no comércio de moedas e cédulas, no Largo São Francisco. Problemas enfrentados com a fiscalização. Relação com os fregueses e fornecedores. Peculiaridades das moedas e cédulas. Prazer no trabalho com o público.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Pedro Antônio Duarte. Eu nasci no dia 29 de junho de 1918, em Engenheiro Franca, estado da Bahia. Meu pai é Florentino José Duarte e minha mãe, Maria Donata de Jesus. Ambos nasceram na mesma cidade, Engenheiro Franca, na Bahia.

TRABALHO DOS PAIS

O meu pai naquele tempo trabalhava de mascate. A pessoa comprava corte de tecido e saía vendendo. Ele trabalhava com malas e malas daquilo e vendia de porta em porta. Minha mãe era da lavoura. Plantava e colhia café, plantava feijão, arroz. Levava a vida da lavoura, do interior.

INFÂNCIA E TRABALHO

Eu não tive infância. Com sete anos de idade eu já puxava o cabo da enxada e era obrigado a trabalhar. Então posso dizer que não tive infância. Nasci no serviço e estou até hoje. Meu serviço era carpir o mato, era plantar, era limpar, cultivar a terra. Quando amadurecia, tinha que colher. E era essa a vida, toda a vida. E também criar. Nós criávamos porco, criava galinha, perus, coisas da roça, do interior. Nós trabalhávamos com tudo isso também.

INFÂNCIA E IRMÃOS

Eu tinha nove irmãos por parte de mãe. Minha finada mãe casou-se antes, mas ela não se deu bem com o marido, que era muito mulherengo, jogador, isso e aquilo, bêbado. Então se separaram. E depois dessa separação ela começou a namorar com meu pai. O meu pai, falecido, era solteiro. E do namoro dos dois veio eu e outro irmão: dois irmãos gêmeos . Mas quase que não tinha tempo de brincar. Aquele tempo era de trabalhar. Brincadeira era dia de domingo, dia de sábado. Era pegar um estilingue pra ir caçar passarinho, era aquilo só, não tinha negócio. Quase a gente não tinha tempo pra aquilo. Hoje os nossos filhos saem e chegam em casa meia noite. Os pais vão falar, acham ruim. E naquele tempo, fui criado da seguinte forma: se nós saíssemos pra uma brincadeira e desse 7 horas e nós não estivéssemos em casa, a hora que chegava o coro comia . É, e não era mole não, era pra bater mesmo. No dia de domingo, às vezes o almoço era mais tarde. Na hora do almoço todos os filhos tinham que estar ali. Não tinha esse negócio de chegou agora e vai almoçar mais tarde. Se fosse por precisão e ele chegasse mais tarde, ele almoçava. Mas na hora do almoço se ele não estava ali pra todo mundo almoçar junto e ele chegasse depois, ele ia jantar às 7 horas da noite. Não tinha essa moleza que tem hoje, carinho... Como eu mesmo criei minhas filhas e crio meus netos.

TRABALHO NO COMÉRCIO

Com a idade de 16 anos eu comecei a trabalhar. Tocava a lavoura e tinha um fazendeiro lá que ele me alugava seis burros pra carga. Então eu comprava o café, comprava o feijão, comprava o arroz e a farinha e levava pra vender na cidade. Daí na cidade, naqueles grandes armazéns, eu comprava também sabão, açúcar e jabá, a carne seca, como nós chamamos, e ia revender naquelas vendas do interior, nos sítios. Eu levava coisas da lavoura pra vender na feira e comprava da cidade pra vender pra eles no sítio. Também era uma vida dura. Tinha vez que dava 1 hora, 2 horas da madrugada e eu estava no deserto, no meio do mato, com o burro atolado dentro do barro. Era uma vida cruel.

COLEÇÃO DE MOEDAS

A feira era grande, então ali todo mundo vendia o que tinha pra vender. Naquele tempo eu vendia carne de sol também, eu vendia de tudo. Aí o pessoal chegava com aquelas moedas de prata grande, mas aquilo já tinha saído de circulação (como saiu o nosso dinheiro agora). Então eu avisava naquelas barracas: “Quando chegar essas pessoas com essas moedas de prata grande, pode mandar lá que eu dou o mesmo dinheiro pra eles, eu troco pra eles”. Às vezes aqueles coitados chegavam do interior com aqueles saquinhos de moeda pra comprar e ouviam “Não, ninguém quer isso aqui não. Esse dinheiro não vale nada, não quero.” Então eu avisava nas barracas e eles falavam: "Vai naquela banca, naquela barraca lá. O Pedro Louco paga pra vocês”. Eles me chamavam de Pedro Louco . "É o Pedro Louco que dá dinheiro bom por esses que ninguém quer mais. Eu não quero isso não, vai falar com ele lá." Naquela época eu ainda não colecionava moedas, mas eu guardava porque achava elas bonitas. Então os caras chegavam lá: "É o senhor que compra, que troca essas moedas?" "Quanto tem?" "Tem tanto." Eu pagava, trocava o dinheiro. Os coitadinhos saíam tão alegre pra ir fazer a compra deles! . Então eles me chamavam de Pedro Louco. Até saiu isso naquela entrevista do jornal.

MUDANÇA PARA SÃO PAULO

Quando eu vim aqui pra São Paulo eu trouxe um saco com 14 quilos de moedas. Mas tinha muitos níqueis, não era tudo prata. Eu morava numa pensão aqui no Brás, na Rua Maria Joaquina, e guardava aquele saco de moedas lá em cima do guarda-roupa, numa mala. Eu mexia com aquela mala e perguntaram: "Escuta, o que é que você tem nessa mala com um peso desgraçado desse?" "Isso é ferramenta de pedreiro, eu trabalho de ajudante de pedreiro e é ferramenta que eu tenho aí." Mas não tinha nada, era só um saco de moedas. Se me mandar fazer uma massa de pedreiro eu não sei nem como é que faz aquilo . Mas um belo dia eu caí do cavalo. A dona da pensão, aquela velha que era uma mãe pros 14 rapazes pensionistas que ela tinha e era tudo na vida pra nós, teve um serviço fazer lá na pensão e o pedreiro não tinha ferramenta. Ela veio me falar: "Seu Pedro, eu queria que o senhor me emprestasse as suas ferramentas pro pedreiro fazer o serviço lá no quintal.” "Pois não, Dona Hipólita, daqui a pouco eu falo com a senhora." Tinha uma porção de colegas no quarto que não sabiam o que tinha lá. Quando saíram, eu disse: "Ô Dona Hipólita, isso aqui não tem nada de ferramenta não. Eu nem sei fazer massa pra pedreiro." Aí eu abri a mala e mostrei: "Isso aqui é um saco de moeda, quase tudo de prata, que eu trouxe do Norte, mas eu falo que é ferramenta porque daí ninguém vai mexer lá. Agora que foi descoberto a senhora vai guardar isso pra mim." "Então trás aí." Levei e ela guardou aquilo no quarto dela. Ficou uns oito anos lá e quando eu saí, fui eu que peguei . Isso está naquela entrevista daquele jornal, O Estado. Eu vim pra São Paulo em 1950 porque, como dizem lá, todo mundo procura um meio melhor de viver. E quase todo mundo tem a vontade de vir pra São Paulo porque o poder aquisitivo é melhor, é melhor pra emprego, é mais fácil. Pelo menos era o que a gente pensava lá, naquela época. Mas quando eu cheguei aqui sofri muito. Uma que, arrumar emprego aqui não era brincadeira pra um nortista! Eu vim sozinho, eu e Deus. Vim num daqueles caminhão que pegavam a gente lá e trazia para São Paulo. Logo que eu cheguei fiquei no Brás, no Hotel Queiroz, ali na Almeida Lima. A gente pagava a passagem e vinha. Mas a gente não sabia que já saía de lá contratado. Foi quando eles pegaram a gente, puseram dentro de um caminhão baú e nós sumimos nesse mundo. Nem sabia onde que nós íamos, nem onde estava, nem pra onde ia.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – SIDERÚRGICA ALIPERTI

Então, nós fomos parar lá em São Lourenço, dentro da mata da Companhia Siderúrgica Aliperti. Nós fomos trabalhar pra eles lá dentro do mato. Eles tinha aqueles barracos no meio da mata e era cada um com aquele saco, aquela trouxa de roupa. As roupas éramos nós mesmos quem lavava. Trabalhávamos de dia e, quando era de noite, a gente via as onça andando em cima das madeira. E aqueles barraco que eles faziam pra gente morar tinha uma distância de quase dois dedos de largura no espaço de uma tábua pra outra. E a gente dormia como um fogo enorme no meio da casa. Mas quando foi um belo dia aquele fogo apagou e por aquela fresta da tábua a onça meteu a unha aqui em minha costela. Só vendo. Se me pega firme na costela tinha me rasgado todinho! Eu sei que pegou no cobertor. Aí eu gritei e voei lá pro meio da casa e a turma toda levantou, acendeu lamparina e saiu fora, mas tava tudo normal. Fiquei mais ou menos uns dois meses nesse trabalho. Acho que nem chegou a isso. Era um serviço pesado, mas a gente estava muito satisfeito. O salário mínimo aqui era 1.290 cruzeiros: uma nota de 1000 cruzeiros, uma de 200 e mais 90 cruzeiros. Lá a gente tirava 70, 80 cruzeiros por dia, no cabo do machado. Foi quando nós terminamos a empreitada, o empreiteiro fez a conta e tiramos um saldo até bom. Aí a gente ia correr mais mato pra pegar outra empreitada. E nós dizíamos um pro outro: “Nós trabalhamos aqui uns seis meses e vamos bonito pra Bahia!” Eu tinha vontade de voltar pra Bahia com dinheiro. A gente veio pra ganhar dinheiro e voltar, a intenção nossa era essa. Aí um belo dia a gente tava lá e chegaram seis jipes da Polícia Florestal, lotado de arma até a tampa. “Daqui não tira mais nada!”. O Estado tinha contrato com a Companhia Siderúrgica Aliperti: eles tiravam madeira e tinham que plantar eucalipto. Mas naquilo tinha muitos mil hectares que eles já tinham tirado só a madeira e de eucalipto não tinham plantado nem um pé. Então, embargaram tudo. “Não tem mais serviço!”. Nosso empreiteiro fez a nossa conta, tudo direitinho. “Vocês vão pra São Paulo receber." Aí pegou o envelope de pagamento, deu pra nós com a carta que era pra gente receber aqui na Praça da Bandeira. Então fomos pra sede da fazenda. A gente não sabia de nada mas aquilo já era tudo combinado com empreiteira e os outros. Eles perguntaram pra nós: "Escuta, o Alvim pagou pra vocês?” Alvim era o nosso empreiteiro. "Não, ele fez a conta.” “E como é que vocês vão?” “Ele deu a carta pra gente receber lá em São Paulo." “Vocês? Receber? Dr. Juliano vai pagar pro Alvim? O Alvim deve não sei quantos milhão pra firma! Enquanto ele não pagar ele não recebe um tostão. Vocês vão pra lá, mas não vão receber nada e é arriscado vocês serem até presos! Essa carta não vale nada!" E cada um de nós falava “Mas essa carta é de Alvim." Apareceu o capataz lá, aquele que traiu Cristo, e disse: "Sabe de uma coisa, vocês falam com Martim Preto que ele paga esse dinheiro pra vocês." "Quem é esse Martim Preto?" "É o feitor aqui da fazenda, ele tem muito dinheiro. Ele vai querer juros. E vocês irem com essa carta é cadeia na certa pra vocês." Coitado! Eu nem sabia que diabo era cadeia e nem queria saber. Ele continuou “Ainda mais Dr. Juliano, é cadeia..." E aí veio o Martim Preto: "É, com essa carta lá vocês não recebe nada não." Aí olhou o total do dinheiro e disse: "É, é uma nota boa, uma nota boa... E vocês queriam o que, receber?" "É, falaram pra falar com o senhor, que o senhor..." "É, eu pago isso aí pra vocês, mas eu desconto 30% na hora, no ato." Olhamos um pro outro como quem diz “O que é que se faz?” Então eu disse: "Nós vamos preso. Eu vim trabalhar e ir pra cadeia!” Ele disse “É jogo ruim, né?" "É...". Aí ele fez a conta “É, você tem tanto, você tem tanto, você tem tanto...”. Aí saiu e depois voltou com um maço de dinheiro: "Esse é seu, esse é seu, pode conferir, tirei 30% de cada um, hein!" "Tá bom." Pegamos esse dinheiro e nos mandamos pra aqui pra São Paulo.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – ISNARD COMPANHIA

Então eu trabalhei em diversas firmas por aqui e a última foi na Isnard Companhia. Eu ia completar cinco anos quando eles me mandaram embora. Eu trabalhava na seção de teste de refrigeração nas geladeiras Climax, da Indústria Pereira Lopes. Então nós era ajudante: tinha o técnico, que ficava na máquina, e nós fazia a ligação, abria e ligava toda aquela geladeira pra ele testar tudinho. Se uma dava um defeito nós já tirava aquela geladeira dali e punha outra. Aquele defeito que tinha nós tinha que marcar na placa e anotar o defeito e tudo. Mas nós trabalhava, às vezes, das 7 horas da manhã às 11 da noite, fazendo hora extra. Foi quando um belo dia eles modificaram o motor daquela geladeira e não dava defeito. Aí, em 100 geladeiras, só quatro ou cinco davam defeitos. Então foi parando, foi acabando o serviço nosso lá. Então eles foram chamando a turma pra fazer acordo, pra ir embora e eu lá, sossegado. Até que chegou a carta pra eu vir no escritório central, aqui na Avenida São João, 1.400. Nós sabíamos que a firma estava nadando em dinheiro. Pra isso já tinha tido dissídio de um milhão. "Todos que nós chamamos aqui fez acordo com nós e conto que o senhor coopere com a gente." Eu digo: "É, seu Dirceu? É o seguinte, desses que o senhor fez o acordo, tem pessoas que dá graças a Deus de ser mandado embora. Mas o que eu não quero é ser mandado embora. Eu prefiro estar trabalhando e chegar o fim do mês eu sei que tem meu ordenado pra receber, do que eu ir embora e ficar desempregado. Não senhor, acordo eu não faço, não seu Dirceu." "Vai mais um cigarrinho, seu Duarte, mais um cafezinho?" "Pois não." Naquela altura ele não sabia que eu fui sócio do Sindicato dos Metalúrgicos por muitos anos. Mas eu fui. Cansei de ir. Uma quarta-feira sim, outra não, tinha a reunião dos advogados do Sindicato dos Metalúrgicos e lá eles explicavam tudo pra nós: quando o empregado tinha razão, quando o empregado perdia o direito e dava razão pro patrão. Ele não sabia que eu sabia tudo aquilo lá. E aí, quando não teve mais jeito mesmo, ele disse: "É, então o senhor vai pra casa, vê o que o senhor vai fazer. O acordo que o senhor achar que está bom o senhor fala pro Mário, o caixa." “Não senhor. O acordo, seu Dirceu, é esse mesmo: eu não vou fazer acordo de jeito nenhum. Pra ficar desempregado ou comprar uma carta da firma? Não." Aí ele desceu do sétimo andar comigo até o térreo. Chegamos na calçada ele falou: "Não resolveu nada?" "Não, não." Quando ele desenganou: "Então, lá pras 2 e meia, 3 horas, o senhor vem receber seus direitos."

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO - OURO E PRATA

Naquele tempo era uma nota muito boa. Deu 114 mil e poucos cruzeiros. E em 1959 isso era um dinheirinho mais ou menos. Aí eu peguei aquilo e disse: "Sabe, eu vou por esse interior comprar prata, ouro, isso e aquilo, o que eu achar." Vivia aí por esse interior de São Paulo, ia pra Minas... Então eu vi que aquilo estava melhorando mais do que quando era empregado. Aí eu não procurei mais emprego. E fiquei nisso muitos anos. Eu morava aqui na Pompéia, mas saía pro interior, de porta em porta, comprando prata, ouro, cordão de ouro, o que aparecia eu comprava, antigüidade era comigo. Às vezes chegava em fazenda ou em casas, às vezes tinha um casal que tinha uma filha que estava namorando ou ia ficar noiva: "Já tem aliança?" "Não." "Então eu faço pra senhora ou pro senhor." Ou era Bodas de Prata, ou um rapaz: "Você não vai fazer o anel de formatura? Eu faço, eu trago." "Mas como?" "O senhor me dá a prata e me dá o ouro, o senhor só vai pagar o feitio." Eu tinha a prata e o ouro, eles me davam. E eu só cobrava o feitio que eu pagava pro ourives fazer. Com aquilo eu arrumei muita amizade nesse interior. Tinha casa que eu chegava e diziam “Você está aonde? Está em que hotel? Não senhor, vai buscar a sua pasta! Você fica aí e só vai embora o dia que você quiser ir embora. Mas que ficar em hotel o quê!" Eu fazia anel e tudo que eles queria. Precisava eu fazia. Chegava lá, eu almoçava, às vezes dormia, não cobravam nada. O pessoal diz que o interior tem caipira, mas caipira tem aqui, que não sabe tratar ninguém. No interior eles trata a gente direito, você vê. E aquilo é o mesmo que estar em casa. Você chega ali eles tratam a gente como se fosse um da família. Então me dei muito bem com essa gente. O ourives ficava ali na Roberto Simonsen, número 13. E ele fazia toda espécie de jóia que eu precisava que ele fizesse. Eu não tinha mostruário, só vendia por encomenda. Eu tinha a medida, tinha tudo. Só tirava, anotava e mandava fazer. Agora, o meu era só comprar prata e ouro. Às vezes falava com aqueles caipiras: "Se você souber quem tem moeda de prata e de ouro e que queira vender..." Tinha vez que eu estava por lá, chegava em casa e tinha duas, três, quatro cartas: "Olha em tal lugar tem, você vem aqui que o pessoal tem muita moeda e nota pra vender." Eu desisti desse ramo por causa de uma passagem que me aconteceu em Minas. Na Copa de 70, quando o Brasil foi disputar com o Peru, eu estava em Sete Lagoas. Lá tinha uma pensão que, quando eu chegava lá, era como estar em casa. Quando estive lá as primeiras vezes tive que fazer ficha. Depois que a dona da pensão passou a me conhecer direito, eu chegava com a mala cheia de dinheiro e procurava um quarto sozinho. Um dia falei pra dona: “Dona Leninha, é o seguinte, eu trabalho nesse ramo assim e assim..." Então, quando eu chegava lá ela arrumava um quarto pra mim, pegava a minha pasta e guardava. Quando eu precisava de dinheiro, pedia a ela. Ali eu almoçava, tomava café e jantava, no meio de toda família. Só no dia em que eu ia embora ela dizia: "O dia de o senhor ir embora, o senhor procura sua conta, mas do contrário, o senhor vai lá, pega café, toma o café que a casa é do senhor." Um belo dia eu estou lá e digo: "Sabe, eu vou em Ouro Preto, lugar antigo, deve ter muita coisa boa." Então peguei o ônibus e fui pra Ouro Preto. Cheguei lá e não achei nada. Fui pra Mariana e também nada. Aí me orientaram: "Onde tem muita moeda é em Itabirito.". Era uma cidadezinha perto, eu fui pra lá. Quando cheguei na cidade fui num hotel, aluguei um quarto e tal e fui localizar a casa do cidadão. Cheguei lá, era uma loja de calçados e ele tinha muita moeda. Mas a coleção de moedas boas que ele tinha estava tudo em casa. E eu passei a tarde com ele lá. Depois eu disse que ia prro hotel e ele: “Quando for mais tarde eu venho e deixo isso aqui. A minha patroa está em Belo Horizonte e ela vai chegar lá pras 7 horas. Antes dela não posso fazer nada.” Aí eu saí. Cheguei na praça, tinha um barzinho lá em cima, subindo as escadas. Eu subi aquilo lá, mandei fazer um churrasco e pedi uma brahmazinha gelada porque estava muito quente. E quando eu ia saindo, escutei a voz: “Ele já vem saindo.” Quando eu olhei, eram dois caras mal-encarados que estavam lá no pé da escada. Um bem vestido e um mal vestido. Aí eu voltei pra dentro do bar e fiquei ali. Pedi mais meia cerveja, paguei logo para o homem e fiquei naquele meio. De lá eu via pelo vitrô que um colega daqueles chamaram eles e eles desceram. Mas um desceu e outro ficou. Naquele meio o outro saiu, foi lá numa banca de jornal. Eu peguei uma pastazinha e saí numa desembalada, saí doido. Cheguei na praça logo que subi a escada e fui para o hotel. O meu quarto tinha janela pra rua. Quando cheguei que abri a janela, veio os dois caras, um do lado da rua e outro de outro lado. Um entra num estabelecimento e o outro me procurando. E eu de lá, olhando. Daquele dia eu tomei medo. Abandonei esse ramo e nunca mais viajei pra canto nenhum. E dou graças a Deus que quantas vezes com a pasta cheia de dinheiro e moeda de ouro e eu procurando: "Tem ouro pra vender, tem prata?" O nego dizia: "Está com dinheiro..." Dei graças a Deus de nunca ter sido roubado. Mas naquele dia eu tomei medo e abandonei isso daí.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – MOEDAS Aí foi quando eu resolvi trabalhar assim na rua, no Largo São Francisco, onde estou há uns 27 anos. Um dia cheguei ali e disse: "Ah, eu vou por umas moedas aqui." Cheguei, pus um papel no chão e pus as moedas. Chega o fiscal: "Que é isso aqui?" "Não, é as moedas que..." "Aqui? Recolhe isso aqui senão eu carrego tudinho, nesse instante!" Eu tinha aquelas pataca, aquelas moedas grandes de cobre que eu tinha comprado .... "Não, não, tem que tirar, aqui não!" Então eu conversei com ele: "Olha moço, paciência, eu preciso trabalhar estou desempregado, tenho mulher e filho pra dar de comer, a coisa está ruim, na minha idade nego não dá emprego...” O fiscal, que chamava Tonhão, me disse: "Então, você põe uma bancazinha e forra direitinho, mas no chão assim, não." E eu consegui, fiquei lá. Fiz uma bancazinha, fiz um tabuleirozinho. E quando vinham perguntar “Que é isso aí, moço?" "O Tonhão falou que podia." "Ah, se o Tonhão já falou com você, está bom." Quando foi um dia eu falei: "Quer saber? Eu vou pagar a licença disso que é melhor". Aí fui pra prefeitura, fiz a inscrição, fiz tudo ali. E comecei a pagar a licença. Fui pro INPS, comecei a pagar o carnê do INPS. Aí fui para o sindicato: "Você tem que pagar um dia do sindicato todo ano." "Está certo." Então pagava tudo ali. Então um belo dia o fiscal chegou lá, pra juntar aquele tabuleiro. "O senhor vai levar as minhas moedas pra onde? Não senhor, não pode. O senhor já viu meus documentos aqui?" "Que documento?" Então quando ele me viu com aquela pasta, imposto sindical pago, prefeitura paga, INPS, inscrição e tudo mais, o outro chamou: "Escuta o cidadão aqui, não pode levar ele! Se ele paga tudo que é direito, paga os impostos... Então não pode mexer com ele!" E com isso eu estou aí. Quando o Jânio Quadros entrou, aquilo levava meio mundo, mas comigo não. Nunca me levou nada. E ali eu estou até hoje, me divertindo com meus fregueses. Brinco com um, brinco com outro, é velho, é novo, é isso, é aquilo. Eu brinco se você me compra, por exemplo, cinco real. Você me dá dez. "Está certo!" "Está certo como?" "É que eu não conheço bem o dinheiro, eu pensei que essa nota de dez era cinco." "Dá meu troco pra cá! Você está querendo me embrulhar o que. Dá meu troco!" "Ah, a senhora me desculpe, é que eu não conheço..." "O que? Um rato que trabalha com dinheiro e não conhece dinheiro?" E assim eu levo a vida, brinco com Deus e o mundo todinho! CLIENTES Tem diversos tipos de fregueses. Ali tem gerentes de bancos. Hoje a coisa está muito ruim, mas eu tinha freguês que era juiz de direito, era promotor. Esse ramo aí era quase de gente mais ou menos. Às vezes naquele tempo aparecia nota de 30, 50, 100 cruzeiros. O que vive de salário, o operário, não pode comprar. Quando eu pegava uma moeda rara, ia no telefone: "Ô doutor fulano de tal, olha, tem tal moeda da data tal, isso e aquilo. O senhor já tem?" "Não, Pedrinho, guarda pra mim que eu já vou aí agora". E em pouca hora ele estava lá. Ainda hoje tem muitos fregueses que, quando aparece uma coisa boa, eu telefono e ele vai buscar ou diz: "Trás aqui, Pedrinho." Tem muitos colecionadores.

O NEGÓCIO

Moedas é mais fácil. Às vezes você tem moeda em casa que seu pai deixou: "Ah, o senhor trabalha com isso, o senhor compra moeda, compra nota?” ou “Ah, lá em casa tem uma caixa, que meus pais me deixou, então o senhor compra?”. Outros dizem “Escuta, pelo acaso, não dá para o senhor ir lá em casa não?" Quando não é muito longe, eu vou: “Pois não, é só me dá o endereço e eu vou lá." Então ele me dá o endereço, tudo direitinho, marco a hora e eu vou. Eu prefiro dia de sábado, porque meio de semana eu perco freguês. "Pode ser dia de sábado, está bom? Dia de domingo?" "Pois não, seu Pedro." E é do que eu vivo ali. Tanto eu vou a domicílio quanto eles levam lá e eu compro. Com as notas é mesma coisa. Tanto eu compro particular, como às vezes eu venho na República e têm muitos colecionadores que vêm de fora e eu compro deles ali. Têm outros que vêm dos Estados Unidos e trazem pra revender aqui também. E quando é nota boa, eles compram muito da gente também. Ontem fez oito dias que teve uma convenção no Hotel Danúbio e fui pra lá. Essa nota que você está vendo ali,foi comprada tudo lá na convenção. Não tem moeda ou nota que dá mais lucro, depende da compra. Às vezes você pega uma moeda rara e compra mais barato na mão de um particular . Essa então dá lucro. Mas às vezes tem uma moeda que vale um fortuna, mas você já compra na mão de um colecionador e que já sabe o valor dela, ele te dá pouca chance de ganhar. Então você empata um dinheirão pra ganhar um nada. Mexo com moedas e notas de toda parte do mundo. Mas tem muita moeda rara nossa, brasileira. Tem muita moeda e notas de mil réis que custam muito dinheiro. Como tem nota de 30 mil réis, 25 mil réis, 40 mil réis, algumas delas vale ouro. Quando a nota é conhecida no Brasil e é importante pra um colecionador, a gente diz que a gente vende por quanto quer. Mas no geral a nacional nossa tem pouco valor hoje. É melhor só moeda de prata ou só de ouro. Mas essas moedas de 400 réis, 200 réis, isso se compra por quilo porque tem quantidades enormes. Como essas moedas amarela de cruzeiros, isso e aquilo, isso não vale. Tem pessoas que tem caixa daquilo em casa e acha que tem uma fortuna porque ficou dos avôs ou do pai, mas vai lá ver e não vale quase nada. Aquilo é por quilo. Mas tem moeda que às vezes a pessoa não o dá valor. Está lá dentro de uma caixa de moeda que o pai deixou, que às vezes nem é grande, é uma moedinha que ninguém não dá nada, e vale dois, três, quatro, cinco milhão. E tem outras sem valor por antigüidade. Eu tenho um catálogo que tem tudo desses valores, todas as moedas e toda cunhagem do Brasil: de prata, de ouro e de cobre, tem tudo. A gente tem catálogos que tem até a primeira moeda cunhada no Brasil. E eu tenho quase tudo aquilo de cor, na cabeça. De tão poucos dias que eu trabalho, se eu vejo uma moeda rara na sua mão assim, eu olho e digo: "Olha, você não quer vender, essa moeda é boa." A gente não pode falar, claro, pro freguês que vale tantos milhão, ele é capaz de cair de costas... . E não vende pra mim. Tem que maneirar: "É uma peçazinha boa, mais ou menos." "Mas mais ou menos quanto, seu Pedro?" Se ela vale 10 mil, digo: "Essa peça vale cinco, seis mil.” Porque se vale dez e eu digo: "Vale dez", às vezes você tá precisando do dinheiro e não me vende porque você pensa: "Se ele diz que vale 10 é porque vale 100.” Então você tem que dizer uma média e, quando não é assim, você mostra o catálogo. A gente tem cem réis de 1872 que hoje vale mais ou menos uns 30 a 50 mil real. É um tostão, cem réis de níquel que foi cunhado na quantidade de apenas 100 moedas na época. E é a quantidade de cunhagem que faz a moeda ser rara e ter muito valor. A gente tem uma peça de ouro do Brasil que é a peça da coroação do Brasil. É 640 de ouro, de 1822. Aquilo foi feito pelo Dom Pedro pra um cartão postal, um cartão de visitas. Na época eles cunharam 200 moedas daquele tipo e que só foi distribuída 64.

MERCADO DESVALORIZADO NO BRASIL

Mas a maioria dessas moedas está mais na Suíça do que aqui no Brasil. Nosso próprio colecionador, quando vai vender uma coleção, não vende aqui, vende lá fora, faz leilão na Suíça ou num outro canto. Há uns quatro anos mais ou menos morreu um cidadão aí que tinha peças raríssimas e em grande quantidade (eu mesmo vendi muita peça rara pra ele). Mas aqui ele não vendeu. Por conta dos impostos aqui, teve colecionador que, se quis comprar, foi comprar na Suíça. Podiam ser vendidos aqui, né? Mas foram vendidas e leiloadas lá por coisa de 10 milhão de cruzeiro. Enquanto só uma moeda foi vendida por 50 mil libras. A mesma coisa acontece com nosso ouro. O português fala: "O ouro bom é português!". Mas, português, todo nosso ouro foi pra lá, não é isso? . Enfim, muitos não dão valor ao que é nosso. E outros, pra não pagar imposto, fazem isso: leiloam lá fora, ninguém viu e pronto. Naquela entrevista do jornal dizem assim: “Por que colecionar dinheiro?" Eu digo: "Nosso dinheiro ainda nem bem saiu de circulação, já recolheu, ficou antigo." E esse dinheiro é muito difícil, recolhido pelo Tesouro Nacional. E nós mesmos fazemos isso. O dinheiro está em circulação, nós pega o dinheiro e guarda. Como a moeda é difícil de guardar, pega e enche uma caixa. Aí, quando sai de circulação, o Banco Central ainda avisa que tem tanto tempo pra trocar, mas ninguém vai lá. E quando perde o valor de tudo, aí aparece por quilo pra vender. Nego tem 20, 30, 50 quilo pra vender e aparece com caixas enormes de notas. "É, mas isso não tem mais troco não vale mais nada. Mas, o senhor troca pra mim? Quanto o senhor dá?" E é assim. Então o nosso dinheiro é o que dá lucro pro Governo e prejuízo pra gente. O Governo lança aquele dinheiro na praça, muitos milhões. Com dois ou três meses no máximo, já recolhem aquele dinheiro. Mas a maioria não vai lá no banco trocar. Às vezes o cara não tem dinheiro pra pagar o ônibus. Mas quando acaba o prazo, ele chega com pacotes e pacotes de notas de 100, de 200, de 500 que ele não trocou no banco e deveria ter trocado. E tem notas nossa, de valores e que às vezes é queimada. Olha uma coisa: aquela nota de 50, da baiana, aquela roxinha. Sabe quanto está uma nota daquela agora? Está 40, 45 real. E é bem poucos que tem. NOTAS NOVAS E USADAS Podem ser colecionadas notas novas e usadas. Mas pra coleção ela só tem valor se for nova. Por exemplo, você tem uma nota que vale 500 real. Se ela está novinha, vale aquilo. Se ela está dobrada no meio, você não acha a metade. Ela perde o valor. Tanto que quando eu vendo pro freguês eu ponho dentro do envelope direitinho e digo: "Não dobra a nota." Têm muitos pais que traz criança e compra coleção de notas, já explico tanto pra criança como pro pai: "Não deixa eles dobrar a nota que perde o valor." Falo pra aquele garoto: "Se você mostra pra um colega ou uma colega, antes dele pegar em sua nota, você avisa pra ele não dobrar a nota." Já aconteceu caso de eu vender e, por isso ou por aquilo, o colecionador se apertar por dinheiro e querer se desfazer das notas pra comprar outra coisa: "Ah, seu Pedro, eu comprei tanto do senhor e agora eu resolvi desfazer porque eu quero comprar outra coisa". Mas ele traz aquela nota toda dobrada. Eu digo: “Infelizmente eu sei que o senhor comprou de mim, mas quando eu lhe vendi, eu vendi as notas todas inteiras. Agora que o senhor dobrou, pra mim não me interessa, eu não posso comprar porque eu não tenho pra quem vender.” Às vezes tem deles que ficam até mal satisfeitos. Mas isso é um ramo que a turma embrulha a gente e na hora de comprar vale tanto, mas quando é pra vender... Mas quando a gente vende é a nota inteira, novinha, como as que eu tenho aqui. “Agora o senhor não tem cuidado, dobra a nota todinha. Se eu fosse vender essa nota dobrada, o senhor não compraria de mim, comprava?”. Uns se conforma, outros não. Então é obrigado a explicar direitinho. A mesma coisa tem a moeda. É uma moeda de prata, uma moeda de ouro, ela tem um grande valor, é uma peça rara. Você não pode deixar ela cair. Se ela bater numa pedra ou num cimento e amassar, se ela vale 1 milhão, passa a valer 500 mil. Eu compro notas e moedas ali onde eu trabalho. Muitos colecionadores vêm até mim. Até americanos. Tenho muitos conhecidos lá de fora que vêm. Tem o Peter, que traz notas que é uma infinidade de diversos países. E tem muitos aí que às vezes tem escritório também de compra e venda de nota estrangeira. Tem comércios, tem escritórios montados na Barão de Itapetininga, na 24 de Maio e diversos outros lugares.

RELAÇÃO COM O RAMO DE ATUAÇÃO Sabe, eu gosto de tudo no meu trabalho porque é um gosto que eu tenho. Eu gosto quando me aparece uma nota muito bonita, uma nota rara ou uma moeda rara, que eu compro aquilo. Pra mim é um prazer. Se aquilo é uma nota rara, ou uma moeda rara, eu tenho aquele prazer de oferecer pra um colecionador, um freguês meu. E apertar ele um pouco, porque ele não tem... Aí eu gosto de ver ele chorar um pouco: "Não Pedro, é caro!" “É caro mas o senhor não tem, né? Isso aí eu paguei caro, eu sei que o senhor não tem." "Não tenho mesmo, Pedro, mas está muito, Pedro!” Então a gente gosta de ter aquele bate papo muito legal. Eu trabalho nisso, mas não dou valor a mentira, nem gosto de mentir. Mas a única coisa do negócio é a mentira. Aí a gente é obrigado a mentir. Se eu paguei 100, eu digo que paguei 130 ou 150, porque se eu disser que eu paguei 100, ele quer me dar 110 . Nós é que temos que adular ele pra comprar da gente. Agora, quando é uma coisa rara, eles é que têm que bajular a gente pra poder comprar. E a gente já conhece, já é malandro velho, a gente encosta eles e diz: “Não, quero tanto. O senhor não quer não? Eu vou telefonar pra fulano..” . Quem sabe se um não quer, o outro quer.

REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Escuta, pra mim, como experiência, é um grande prazer na minha vida. Com 77 anos, isso pra mim é uma beleza... . Eu gostaria que minhas filhas vissem, minhas filhas gostam muito disso: “Pai, o senhor também não tem jeito..." Eu acho muito, muito importante deixar esse registro e agradeço muito a vocês por isso.

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