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A Lapinha

História de: Ianarema Oliveira
Autor: Ianarema Oliveira
Publicado em: 13/07/2021

Sinopse

A lapinha foi uma das comemorações que mais marcaram a minha infância. Na época eu nem sabia que se tratava do natal.

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História completa

Todo ano lá na roça, montávamos a lapinha. Em um canto da sala ou em cima de algum móvel, as pessoas montavam as suas lapinhas. Na minha casa, ela sempre era montada no chão da sala, em um lugar onde não atrapalhasse o percurso de entrada e saída. Espalhava-se areia no chão e iam-se colocando sobre ela os adornos, que eram os bois, os carneiros e ovelhas, jumentinho, a manjedoura e dentro a imagem do menino Jesus. Também havia, Maria, José, os três reis magos e uma armação com telhado de palha aonde ficava o pequeno bebê santíssimo e ali, mamãe colocava uma linda estrela de vidro brilhante cor de ouro, bem no topo da cobertura. Espalhava pelo chão também, pedrinhas que formavam um caminho até o pequeno bercinho. Essa era a nossa lapinha. Coisa mais linda de se ver! Era de encher os olhos de tanta reluzente beleza. Durante esse episódio, todos faziam novenas ou rezas como muitos chamavam. Reuníamos-nos uns na casa dos outros nos finais de semana, fazendo um trajeto de orações cantadas, com velas acesas nas mãos e extenso cordão de pessoas da comunidade. Quando chegávamos na casa escolhida naquele dia, para o encontro da novena, as crianças espalhavam-se pelo terreiro a traquinar, mais ansiosos com a hora dos bolos e doces que seriam servidos, após as ladainhas. Eu, particularmente, amava observar as lapinhas de cada casa. Todas eram lindas e encantadas! Cada um um criava seu modo de expressar e interpretar a sua lapinha. No ar pairava o delicioso cheiro do licor de Genipapo, que eu já mencionei em outro capítulo e também o cheiro do gostoso licor de Cambucá. Pena que às crianças, não era permitido nem mesmo uma provinha. Mas os bolos e quitutes saborosos que eram servidos depois desses encontros, faziam sentir-sem mais acolhidos ainda, à todas as pessoas do povoado. Tudo era sabor de felicidade infinita. Para completar essa minha felicidade, eu sempre ajudava a minha mãe a confeccionar um outro enfeite. Esse, enfeitava a estante de blocos e tábuas que alegrava a nossa sala. Uma vela grande e grossa, com seu corpo coberto por papel laminado dourado, ou verde, ou vermelho, cada ano a cor variava, acendia-se o seu pavio para que derramasse sobre o papel, parafina da vela, para dar a impressão de estar acesa, viva. Em sua base, um quadradinho de madeira, recoberto também com papel laminado ou in natura mesmo, adornado com folhas secas e verdes, algodão, sementes e galhos secos e ainda algumas pequenas bolas de vidro coloridas, presas por uma fita com um belo laço. Para dar o toque final e majestoso, um pingo de luz de vidro, em formato de vela, era fixado bem no meio da vela, dando a impressão de ser a sua chama. Não me lembro de troca de presentes, também, nem precisava. Não havia presente maior que todo esse encantamento, que acompanhava a preparação do antes e durante da lapinha.

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