Busca avançada



Criar

História

A lapidação do ser e não só do ter

História de: Maria Rosana Ferreira Navarro
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/06/2021

Sinopse

Arquiteta e urbanista. Superação da dicotomia campo/cidade e respeito à geomorfologia. Criação do Instituto Memória Viva para preservação da memória do folclore e artesanato urbano. Memória contém um passado, um presente e a projeção do futuro. Ciclovia alternativa sustentável. Pesquisa sobre recuperação de fundo dos vales urbanos. Preservação ainda encontra resistência, individual e coletiva.

História completa

Projeto Instituto Ethos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Maria Rosana Ferreira Navarro Entrevistado por Julia Basso São Paulo, 30 de maio de 2008 Código: ETH_CB39 Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva Revisado por Esalba Silveira P/1 – Rosana, para começar eu quero que você me fale o seu nome completo, a data e o local onde você nasceu. R – Bom, eu sou Maria Rosana Ferreira Navarro. A minha idade? P/1 – Você nasceu... R – Eu nasci em São Paulo, em 30 de setembro de 1962. P/1 – E você é formada em quê? R – Eu sou arquiteta e urbanista. P/1 – E como que esse tema da sustentabilidade, da responsabilidade social apareceu na sua vida? R – Olha, eu sou preservacionista assim, acho que, por essência, né? Porque eu sempre fui apaixonada por arte, por história. Então na arquitetura fui desenvolvendo trabalhos na questão da memória, e do real, do imaginário. Então acabei sempre voltada com trabalho de mexer um pouco com restauro, com recuperação de áreas degradadas. Sempre mexendo com a recuperação, com o resgate. Sempre preocupada com a questão da memória, [risos] interessante. P/1 – Bacana, né? Que encontro bom. R – É. Achei bastante interessante quando você me falou da memória. Inclusive em 2000 nós montamos um instituto chamado Instituto Memória Viva. Ele é pequeno, mas com profissionais de diversas áreas. Mas que a gente, justamente, trabalha sobre isso, sobre o resgate da memória. Inclusive sobre a questão do artesanato, do folclore. De algumas coisas que com essa massificação muito grande elas foram sendo postergadas. Então, na verdade, a gente acaba buscando resgatá-las, justamente isso. P/1 – E como que é a sua atuação cotidiana nessa área, da ONG, da memória? R - Bom, na verdade a gente começou com a questão dos artesãos. A gente tem um projeto que a gente... aí já foi, assim, é muito complicado ONG. Porque você busca, você negocia, você fica tempos e tempos. Muitas vezes acaba num fiozinho não se concretizando. Então um dos nossos...das nossas metas é justamente implementar um local para os artesãos. Porque eles fazem parte da história, têm uma relação muito regional. E existe ainda muito preconceito do artesanato. P/1 – E em que região você busca essas pessoas? R - A gente já fez um trabalho que a gente buscou, inclusive com uma festa, com uns artesãos lá da frente do Itautec, lá da Estação Conceição, um trabalho interessante. E muitos artesãos estão, inclusive, fazendo um trabalho com reciclagem, que é o artesão urbano. Então é muito interessante esse trabalho. Então buscar resgatá-los, buscar com que eles sejam tratados com respeito. Então o trabalho manufatureiro, também o resgate do trabalho manufatureiro... Porque a indústria, tem a indústria manufatureira que normalmente fala: "Ah, é artesanato..." É uma industrialização, só que não é uma industrialização, é uma industrialização manufatureira. Então a indústria é uma produção. Ela está vinculada a uma produtividade. E as pessoas, às vezes essas terminologias elas acabam mudando realmente o seu significado. Então eu acho importante que se resgate: "Olha, isso aqui também é um trabalho, também é uma produção." Ou seja, tem uma confecção em cima. Muitas vezes um estudo, um processo de técnicas. Então é um resgate também de técnicas antigas. P/1 – Você se lembra de alguma situação que você viveu com esses artesãos assim, que te marcou? Algum deles, alguma fala, não sei, um episódio? R – Sim, não...Assim, um trabalho que eu achei muito interessante, tem vários, mas um é aquele que mexe com meia, meia de seda. Faz um trabalho muito bonito. Faz flores, faz borboletas. Faz todo um trabalho com meia de seda, que é uma coisa urbana. Então essa coisa do artesanato com a reciclagem, que é um material descartado, e produzindo arte. P/1 – Bacana. E como que você conheceu o Instituto Ethos? R – Pela internet. P/1 – E de onde veio essa sua vontade? Você pesquisou? R – Sobre o Instituto Ethos? P/1 – É. R – Ah, eu acho assim que como eles estão sempre desenvolvendo diversos projetos, ligados à área sustentável, normalmente clicando eles aparecem. P/1 – Então você foi atrás do tema? R – Do tema. P/1 – E como que esse tema, então, você descobriu que era importante para você? R – Eu acho assim, que a questão da preservação sempre foi muito importante para mim. Desde pequena sempre fui apaixonada por vegetação, por tudo que era natural. P/1 – Pelo meio-ambiente. R – Sim, pelo meio-ambiente. Então, tanto é que eu fiz uma pesquisa sobre a recuperação dos fundos de vale. A importância do resgate dos fundos de vale, mesmo dos cursos d'água no meio urbano. Com o resgate do bucólico dentro desse local tão construído. Então ela retornaria, e faria aquela dicotomia que eu sou tão apaixonada: campo-cidade. Que é uma coisa que, na verdade, as cidades, elas foram se adensando de tal forma que ela foi atropelando toda essa questão da geomorfologia da cidade. Essas colinas bonitas, ou seja, todos esses espaços, esses elementos naturais que são elementos de forte identificação. Existe aquela coisa da identidade ambiental dentro, que você marca. Não é só um referencial urbano no sentido de um prédio ou uma casa. Você também tem essa relação com aquela colina, com uma árvore, aquela figueira. Existe toda essa, mesmo um rio. Acho que ele é um elemento muito marcante dentro da paisagem, e ele é um resgate muito importante, inclusive para o refazimento da pessoa. A pessoa normalmente é muito estressada com essa vida urbana, essa vida corrida. Então esses elementos naturais, eles servem como um alívio, como um recarregar de baterias. Eu acho que ela é muito importante. P/1 – E como que a sua ONG se relaciona com o Instituto Ethos, ela tem alguma relação? R – Não, não temos. Talvez, quem sabe um dia, né? P/1 – Hum, hum. Então, nesses 10 anos de existência do Instituto Ethos, você ouviu falar pela mídia, com bastante coisas que foram veiculadas, foi o seu tempo de pesquisa também, de ir atrás desse tema da sustentabilidade do meio-ambiente. Olhando um pouco agora, fazendo uma retrospectiva para 1998, o que é que você acha que marcou na atuação ou do Instituto Ethos ou de alguma ação em relação à sustentabilidade nesses 10 anos. Tem alguma coisa que você acha que é um marco, que foi imprescindível nessa história? R – Olha, eu estava vendo todo o decorrer do estudo, eu acho que ela foi marcante em todos os momentos. Todo o trabalho que ela foi desenvolvendo, ela teve um papel preponderante. Mesmo na questão da cidadania, na questão do combate à fome. Essa questão da cobrança da responsabilidade social das empresas. Eu acho que ela tem um percurso grande. Vi que às vezes num ano só ela fez dois, três eventos muito importantes sobre o trabalho da mulher, o trabalho da questão tanto étnica como de gênero. Eu acho que todos os temas foram muito importantes. Inclusive a questão da, da questão ética tanto das empresas quanto a questão da administração pública. Que eu vi daqueles amigos de Ribeirão. Eu não lembro o nome certo dessa associação, mas muito interessante. Porque foram criando elos e se fortalecendo dentro de uma discussão tão ampla quanto todos os temas com que ela _____. P/1 – E você, como funcionária pública, você vê o impacto dessas ações dentro do estado? Você acha que chega lá? R – Olha, é muito complicado. Porque assim, eu acho assim, eu sou apaixonada pelo que eu faço, adoro. Mas assim, existem muitas resistências. Eu acho que existem muitas resistências não só dos funcionários públicos, mas também muito mais daqueles que administram. Porque muitos não conseguem assimilar isso, entende? Não conseguem. Eu acho que é muito complicado. Porque a gente conversa, e quando se coloca algumas coisas, existem muitas resistências. P/1 – Você já tentou debater lá? R – Sem dúvida, muito. E é muito complicado. Porque assim, por isso que acabei indo, voltando, montando uma ONG, justamente por essa dificuldade muito grande. Quer dizer, funcionários de carreira querendo fazer o melhor e os administradores que vêm, que surgem com a sua própria eleição, eles próprios são reticentes. P/1 – Você estava falando agora um pouco de expectativa e das dificuldades, eu queria saber alguma coisa que você observa, qual é seu maior desafio você acha, daqui para a frente? Uma coisa que você observa, você identifica como uma coisa que você não gostaria que acontecesse, mas que você ainda não conseguiu resolver, que você não viu resolvida? Pode ser no plano da sua vida como também num plano maior, da sociedade civil em geral. Ou do próprio Instituto Ethos. R – Eu acho, assim, que já caminhou bastante. Eu já tenho observado bastante que as pessoas estão mais solidárias, estão mais educadas. Assim, como um processo gradativo, lento, mas faz parte de uma mudança de cultura, de comportamento, de hábitos. Isso é natural. Mas assim, uma das coisas que eu percebo é que ainda existem muito individualismo e muito consumismo. Melhorou já bastante, mas eu acho que ainda é uma coisa que precisa se conscientizar mais: do ser e não o ter. E de que existem, ou seja, não ficar só em torno de si próprio, que existe todo um grupo. Ou seja, o que é bom para mim é bom para ele, é bom para, sabe? Ou seja, essa coisa de compartilhamento mesmo. Que as pessoas ainda são bastante egocêntricas. Eu acho que isso é uma coisa que... Bom, isso é uma questão de espiritualidade, né? Que as pessoas vão se atendo. E faz parte de, faz parte do seu processo de lapidação. P/1 – E, Rosana, tem alguma coisa que veio à sua cabeça, que a gente não tocou no assunto, mas que você lembrou no meio da conversa e que você queira falar, queira deixar registrado? R – Ah... Eu sou bastante entusiasta sobre a questão das ciclovias. Eu acho assim, até fui já numa audiência pública dar umas sugestões. Porque, ah, eu acho que tem mesmo que diminuir os veículos. Precisa, realmente, ter mais vias, mais árvores, com que os percursos se tornem mais agradáveis. Esse conjunto todo vai diminuindo: a poluição, quer dizer, a cidade acaba voltando à sua função mesmo social. P/1 – E teve algum episódio assim, você como entusiasta e como, você é ciclista? R - Ah, eu assim, é o que eu falo, eu sou, dentro das sugestões [risos] eu coloquei as diversas possibilidades, inclusive, aquela com três rodas. Ou aquela, aquele táxi com uma pessoa lá, duas cadeirinhas atrás. Porque têm pessoas que não sabem pedalar, ou têm dificuldade, ou são deficientes, ou são idosos, ou com criança mesmo. As diversas possibilidades. Porque assim, eu ando de bicicleta, mas eu não sou uma ciclista, não. Eu caio bastante, sabe [risos]? Mas eu gosto. P/1 – É gostoso. Ah, bacana. Então, tá. Você quer deixar uma mensagem, não sei, para esse futuro próximo, assim? Alguma coisa que você gostaria de dizer, que você falaria para as pessoas? R – Olha, eu acho que a educação, né? É um processo de mudança de conduta, né, que se consolida pela tradição. Por essa cultura muito importante que deve permanecer sempre estimulada. Porque a memória existe porque ela tem um passado, um presente, e a imaginação do futuro. Então nós estamos em, como se fosse andando em três dimensões. Porque a memória você retorna ao passado pela própria memória, você resgata. Você vivencia e você projeta o futuro. Então eu acho que todo esse processo educativo ele vai trabalhando esses três tempos, eu acredito que para formar uma civilização melhor. P/1 – Hum, hum. Falando em memória, o que é que você achou então de deixar aqui um pouquinho dessa, compartilhar com a gente um pouquinho da sua vida, da sua memória, da sua narrativa? R – Interessante [risos]. Porque eu achei até muito... como é que eu vou dizer? Falar sobre a memória, eu sendo uma pessoa apaixonada por essa questão da memória fiquei bastante surpresa, eu fiquei surpresa, eu achei surpreendente. E agradeço a participação. Porque a contribuição que minimamente eu possa dar, será dada com muito carinho. P/1 – Nós é que agradecemos por você compartilhar com a gente isso. Obrigadão. Obrigada mesmo. R – Eu também, obrigada. ---------------FIM DA ENTREVISTA------------
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+