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História

A Jornada do Alabê de Jerusalém

História de: Altay Veloso
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Infância em São Gonçalo, sempre teve influência musical e de suas origens africanas. Guitarrista inspirado em nomes do cenário musical dos Estados Unidos da América, em especial do jazz. Compositor com muitas músicas gravadas por famosos. Seu maior trabalho foi escrever O Alabê de Jerusalém, ópera que conta a história de um homem do Egito

História completa

• Projeto Memória Unimed - Rio • Realização Instituto Museu da Pessoa.Net • Entrevista de Altay Veloso • Entrevistado por Carla Abdal e Roberta Gonçalves • Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2005 • Código: UMRJ_HV018 • Transcrito por: Thais Biazioli de Oliveira • Revisado por: Gabriela Viana P/1 – Começar, pedindo desculpas, já gravando, para ficar registrado que a gente é educado, pelo nosso pequeno atraso. A gente costuma pedir, Altay, que as pessoas se identifiquem dizendo: o nome completo, a data e o local de nascimento. R – Meu nome é Altay Veloso, eu sou músico, nasci dia 26 de fevereiro de 1951. P/1 – Você nasceu aonde? R – Na cidade de São Gonçalo, vizinha do Rio de Janeiro, cidadezinha que ainda hoje tem uma coisa assim meio provinciana, que eu gosto muito. P/1 – Seus pais, o nome deles? R – Meu pai é falecido, Aguilar Veloso, uma pessoa que foi extremamente importante na minha vida, porque era um grande guerreiro, muito forte, muito correto, muito sério e minha mãe é uma senhora chamada Isolina Silva Veloso, uma mulher também que é especial, como toda mãe, mas esta realmente é uma coisa especial, não só na minha vida, como na dos meus familiares todos, primos, uma mulher que cuida da vida espiritual da gente. P/1 – A sua família muito tempo viveu em São Gonçalo, eles sempre se fixaram lá, como é que era isso? R – Pois é, minha mãe nasceu em São Gonçalo também e eu nasci no terreno que eu moro, que foi comprado na verdade pelo meu avô, depois o meu pai comprou parte desse terreno, eu nasci neste terreno e meus filhos também nasceram todos ali, eu estou ali há 54 anos, meus filhos, o mais velho tem 24 anos de idade, também nasceu ali, acredito que vai ficar, por mais que a gente possa ir morar em outro lugar, daquele lugar a gente não se desfaz, porque ali estão as nossas raízes, as nossas referências. P/1 – Você tem irmãos? R – Se eu tenho irmãos? Muitos irmãos, por esse mundo afora aí, mas de sangue não. P/1 – Você é filho único. R – Sou filho único, muitos irmãos porque tenho amigos que ocupam esse espaço, que me dão esse afeto de irmão que a gente precisa, mas sou filho único. P/1 – Então você cresceu num núcleo familiar quase comunitário, né, com os avós por perto, como eram os seus avós, como eles se chamavam? R – Minha avó é a pessoa mais... meu avô está sempre falando dela, desse meu povo todo, principalmente das mulheres da minha vida. Minha avó, posso dizer, que foi das pessoas mais bondosas, era especial, matriarca, morreu com 96 anos de idade. Nesse período os homens morriam mais cedo e as mulheres ficavam mais tempo, ainda é um pouco assim, e por conta disso eu fui meio criado pelas mulheres: minha mãe, minha tia, minha avó, são essas pessoas que me educaram, então foi sempre muito assim, ali todo mundo viveu muito junto, o terreno é muito grande, então essa referência que eu tenho de família é muito forte e graças a Deus a gente está passando isso para os filhos também. P/1 – Que tipo de criança foi o Altay? R – Muito feliz, toda vez que lembro da minha infância lembro com muita felicidade, porque acho que fiz todas as coisas, soltei muita “cafifa”, como faço ainda hoje, a brincadeira que eu mais gosto. Joguei muito futebol, levei umas surras boas também, da minha mãe, mas nada que fosse, só aqueles “castiguinhos”, não mais, mas foi uma infância muito boa, muitos amigos na escola, muito boa, nunca nos faltou absolutamente nada, nada demais, mas tudo que achava que era necessário; foi gostosa, as lembranças são muito gostosas. P/1 – Esse São Gonçalo da tua infância, você tem memórias, imagens que te marcaram? R – Tem, principalmente as do tempo da escola. Eu moro, como disse, na mesma casa em que nasci, no mesmo terreno que nasci, é claro que ali foram se construindo outras casas, aumenta daqui, aumenta dali, à medida que a família foi crescendo e que fui fazendo a minha família também, mas tem um lugar, por exemplo, que eu visito quase que todos os domingos, que é a praça de São Gonçalo, onde tem o colégio onde eu estudei o ginásio, quase todos os domingos eu vou lá, eu preciso disso, dessa relação com essas minhas referências da juventude, do período de infância, eu quase sempre vou por ali. A lembrança de São Gonçalo é muito boa, São Gonçalo do meu tempo de moleque é muito boa, a cidade já não é mais como era, a cidade perdeu muito daquele encanto, do cuidado que o Estado não tem, pena. P/1 – Você começou a frequentar a escola com quantos anos? R – Eu lembro que eu estudei o jardim de infância, do lado da minha casa, pertinho da minha casa, eu lembro de mamãe me levando para a escola, mas não estudei durante muito tempo, quer dizer, devo ter parado, não lembro, mas acho que completei o ginásio no máximo, porque muito cedo comecei a lidar com música. Meu pai era um cantador de Jongo do Espírito Santo, meu avô por parte de mãe um sanfoneiro e violonista que vivia tocando sempre, ele tinha outra profissão mas ele tocava, ganhava dinheiro também tocando, meu tio, irmão da minha mãe, também era compositor de escola de samba e eu comecei com a música, tendo o incentivo deles todos, muito cedo eu comecei a tocar o meu instrumento, eu tinha 15 anos de idade e eles todos me incentivaram e por fim eu fui estudar música seriamente, e colégio não dava mais tempo de ir [risos]. P/1 – [risos] Foi para outra formação. R – Me dediquei à música e acho que fiz muito bem. P/1 – Mas esse ambiente musical tinha uma produção do seu pai, quer dizer o seu pai no Jongo, o avô sanfoneiro, o que vocês ouviam dentro de casa, como que a música estava no cotidiano da tua casa? R – Meu avô, eu sempre ouvia ele tocando sanfona, me chamava para tocar para mim, mostrar as coisinha dele e tal, meu pai de vez em quando cantava alguma coisa do Jongo, que já há muito tempo ele não participava, porque ele era jongueiro do Espírito Santo, o Jongo do Espírito Santo é diferente do Jongo do Rio de Janeiro, mas ele cantava, em casa volta e meia apareciam as irmãs dele e eles cantavam juntos. Isso tudo foi ficando, eu percebo que isso foi extremamente importante para a minha música hoje, quando a gente vai buscar, essas coisas todas vêm, eu sei do valor dessas coisas antigas que eu ouvia, antes não, antes vocês está muito influenciado por tudo que você está ouvindo, que faz parte da tua geração, da tua história, de toda a música que o mundo manda para cá. Eu cresci num período onde eu ouvia a melhor música que o Brasil já fez, a grande história da música, um momento maravilhoso de Milton Nascimento, Chico Buarque de Holanda, essas pessoas são um pouco assim, uns oito, dez anos mais velhas do que eu e eu ouvia essas pessoas. Depois de um certo tempo, em um período já de ditadura, foi uma enxurrada de coisas de fora aqui no Brasil, o Brasil perdeu um pouco dessa sua personalidade, dessa música, e eu tocava em conjunto de baile, eu tocava essa música que a gente importava para cá, importava não, que empurravam aqui dentro da gente, nas nossas rádios tocava essa música, depois de 40 anos é que eu fui ver que eu tinha na verdade um tesouro da minha alma que não usava, que eram essas coisas que eu tinha aprendido com meu avô, com meu pai, com minha mãe, que é sacerdotisa de cultos africanos, eu cresci ouvindo os tambores nos terreiros, então de um certo tempo para cá que eu fui ver a medida da importância disso. P/1 – Sua mãe cantava cantigas para você? R – Minha mãe sempre gostou de cantar, sempre gostou de cantar, mas eu ouvia mais era os tambores mesmo nas sessões espirituais e os terreiros, minha mãe é de Umbanda, então os tambores começavam a roncar por volta de sete horas da noite, só paravam três, quatro horas da manhã, então eu aí via toda aquela cantoria, aquilo tudo, hoje na minha música todas essas coisas estão muito presente. P/1 – Como era esse seu convívio com esse universo espiritual da sua mãe? R – Mais contemplativo, gostava, via e tal, olhava, mas eu não participava como hoje participo, talvez não como deveria, mas sou um pouco mais próximo disso, mas a minha vida sempre foi muito orientada por essas coisas, os conselhos da minha mãe, pelas observações da minha mãe, pelas orientações dos orixás, dela, eu me lembro de ter ido ao médico acho que uma vez na minha vida, depois de homem, né, mas nunca mais eu fui, porque toda coisa lá em casa é meio assim, dos chás da minha vó, é uma medicina caseira, meus filhos, o mais velho tem 24 anos de idade, nunca foi ao médico, são saudáveis, são muito cuidados pela preta velha, toda essa coisa espiritual tem sido muito importante na vida. P/1 – Isso de certa forma também baliza a questão dos vínculos com a cultura afro, né? R - ___________ africana. P/1 – A sua família como que ela..., ela tinha uma militância na tua infância? Como que eram esses costumes que a gente, Brasil, tão miscigenado deixou de lado e ainda deixa de lado, como era essa presença na tua casa? R – Eu não percebia muito isso, não, eu sabia que a vida não tinha muito o que explicar, era aquilo ali, eu via aquelas coisa do terreiro, não sabia de onde que isso vinha, não sabia a importância social, política, absolutamente nada, fui ter uma noção em relação a isso bem mais tarde, depois, estava com uns 25 anos. Antes era uma coisa normal, a vida da gente era assim, tinha tambor, tinha sempre muita gente. A casa de minha vó era sempre muita gente, os irmãos dela, sobrinhos, todos que moravam longe, em Macaé, por exemplo, e vinham para arrumar trabalho ou senão para estudar, moravam na casa da minha vó, sempre lembro da casa da minha vó sempre com muita gente, muita gente morando, era uma casa que ia sempre aumentando os cômodos e tal e sempre com muita festa, meu avô no tempo que ele tocava sanfona tinha sempre baile na minha casa, o meu pai adorava baile, eu lembro de um dia que ele assoalhou o quintal todo com madeira e botou uma banda de jazz, no dia do meu aniversário, eu fiz sete anos, botou uma banda de jazz tocando, que eram amigos dele, que meu pai viveu muito tempo aqui em Botafogo então ele freqüentava a música, então tinha uma banda de jazz tocando, eu lembro de um cara tocando trombone, com um copo assim na boca do trombone, sabe, fazendo aquela coisa da surdina, então todo mundo foi muito musical, o meu mundo foi muito musical. P/1 – E o carnaval nesse mundo musical? R – Não só um instantinho, deixa eu tossir [tosse]. Posso parar para tomar um pouquinho de água? P/1 – Lógico. A gente vai perguntando, se você não falar “parem” [risos]. Você estava falando dessa festa que seu pai assoalhou com jazz, quer dizer, fantástico isso, né? R – É. P/1 – Essa influência veio desse convívio que ele tinha, que você falou, de Botafogo, quem eram essas pessoas? R – Ele conhecia muito músico, ele conhecia cantores da noite, tem um cantor que era um sujeito famoso, agora eu não estou lembrando o nome, eu lembro dele ter ido lá em casa, ele cantava uma música: [entrevistado canta] “Eu sonhei que tu estavas tão linda...” Uma voz lindíssima, Carlos Galhardo! P/1 – Nossa! R – Papai era amigo de Carlos Galhardo, então ele foi num desses meus aniversários, ele foi lá em casa e papai gostava dessa coisa do jazz, um sujeito interessante meu velho pai. P/1 – E o carnaval ? O avô fazia... R – Meu tio... P/1 – O tio fazia. R – Fazia samba para as escolas, mas papai também era carnavalesco, mas era mais de sair em dia de carnaval, sair pulando e tal, sempre ele botava uma fantasia, ele gostava que eu me vestisse de cowboy. P/1 – [risos] R - Que mais que ele... pirata, né, carnaval sempre tinha uma fantasia dessa. Eu nunca fui um homem muito carnavalesco, adoro carnaval, adoro ver o carnaval, mesmo que quando moleque ainda ia para os clubes, mamãe me levava para os clubes, ficava rodando dentro do clube, dançando e tudo, pulando, mas depois, mais tarde, eu nunca fui muito carnavalesco. Não, hoje não, hoje eu saio na minha escola de samba, que é a escola de samba da minha terra, do meu bairro, que é a Porto da Pedra, lá eu sou padrinho da ala dos compositores, então todos os anos eu saio ali, mas é só isso mesmo, minha participação no carnaval é isso, e olhar. P/1 – A maravilha, sempre uma maravilha! R – É maravilhoso! Não sou um carnavalesco daqueles, sabe, não isso eu não sou, não. P/1 – E a cidade do Rio, você estava lá em São Gonçalo, vivendo lá, mas você frequentava o Rio de Janeiro, frequentava esse Rio exportação, que é o Rio onde estava acontecendo a tua juventude, uma parte dela, você estava no meio de um Brasil de repressão, mas também de efervescência cultural, dos festivais, quer dizer você ainda era meio garoto, mas depois a gente teve até a década de 70 os festivais, você frequentou esse mundo, você participou desse processo? R – Não, muito de longe, porque eu ficava muito lá em Niterói, lá em São Gonçalo, lá em Niterói, quando eu vinha pro Rio, era para tocar mesmo, eu tocava em grupos de baile, toda semana estava tocando em algum lugar, em final de semana estava tocando em algum lugar aqui no Rio, principalmente no subúrbio do Rio, acabei tocando em Campo Grande, Bangu, Padre Miguel, eu tocava por esse lugares todos. P/1 – Vocês faziam cover, não? R – Cover. P/1 – De quem? R – Eu toquei em bandas que foram maravilhosas, então a gente tocava muita coisa do Kool & the Gang, que é uma “bandassa” americana, do Earth, Wind & Fire, no meu período final de baile, do Chicago Transit Authority, que era uma “bandassa”, e foi ali que eu aprendi a tocar, eu sou guitarrista, né, ali que eu desenvolvi a minha coisa com a guitarra, porque tem o guitarrista do Blood Sweat and Tears, por exemplo, tocava muito, a gente tocava coisas do Carlos Santana, coisa do Hendrix, o baile para mim foi extremamente importante por conta disso e ao mesmo tempo tocava: [entrevistado canta] “Ponta de areia, ponto final...”, sabe. P/1 – Clube da Esquina. R – É, misturava essa coisa toda, a minha coisa no Rio era mais isso, eu vinha nos finais de semana, mas em Niterói e São Gonçalo essa coisa política era também efervescente, principalmente Niterói, a gente se juntava, geralmente terça, quarta-feira e tinha encontro dentro das universidades, né, de músicos, compositores, para mostrar as suas coisas, seus protestos falando contra a ditadura, contra aquele momento, de uma certa forma participei, disso aí, foi muito bom. P/1 – E quando foi que você compôs a sua primeira letra, como é que foi isso? R – Foi quando eu quis conquistar de uma vez por todas, o coração de uma namorada, que é a minha mulher, então a primeira música que eu fiz na verdade foi para ela, eu falei: “Pô, está faltando alguma coisa para acabar de fechar esse negócio aqui.”, então aí fiz a minha primeira canção, foi para ela, foi aí que eu descobri. Na verdade talvez eu buscasse uma outra profissão, talvez eu fosse músico, mas fizesse alguma outra coisa, se eu não tivesse descoberto essa minha veia com a composição, esse dom para composição, quando eu compus, comecei a compor e mostrar para as pessoas, para os amigos, eu falei, agora tudo bem, agora eu tenho uma profissão, é música mesmo. E como compositor sei que vou poder viver do meu trabalho, foi a composição que me deu essa certeza, porque eu toco razoavelmente bem. Hoje já talvez nem tanto, porque não me dediquei ao instrumento como deveria, mas eu ouvia George Benson tocar e sabia, para poder viver mesmo tem que tocar igual esses cara, eu não vou conseguir tocar nunca [risos] que nem esses caras, porque não sou um sujeito que tenho essa disciplina, essa possibilidade de quatro, cinco horas por dia, não tenho. Eu tenho a minha própria disciplina, eu tenho a minha regra, mas eu não teria como obedecer certos modelos e tal, e aí naturalmente não me transformaria num músico que tocasse do jeito que tocam os músicos que eu admiro. Agora como compositor não, aí eu tenho, se possível, o dia inteiro, aí já é a paixão, eu me dedico, eu tenho disciplina para isso, nada me distrai mais, me alegra mais, do que compor, eu gosto dessa relação com a música, dessa forma. P/1 – Quem te influenciou enquanto compositor, ou “quens”, né? R – É “quens”, porque você ouvia música. Dei sorte, cresci, ouvia a música do Chico Buarque de Holanda, para mim é o maior do mundo, eu ouvia música do Milton Nascimento, eu ouvia música do pessoal de Minas que para mim é... A música de Minas eu acho um negócio especial, no planeta, eu ouvia lá em casa, minha mãe ouvia nas rádios a música do Vicente Celestino, que eu gostava demais, as novelas antigamente, novela de rádio, elas eram meio embalada por músicas eruditas, então você ouvia: Noturno de Chopin, você ouvia concerto de Tchaikovsky, sabe, você ouvia Debussy, então foram essas coisas todas, os Boleros que eu ouvi também, isso tudo, essas coisas todas, que me influenciaram e mais, claro, os tambores da minha casa, as cantorias do meu pai, o meu avô. P/1 – Você teve relações com a... quer dizer o compositor é sempre um leitor, né, um leitor do mundo e um leitor do texto, você teve uma relação com a literatura? R – Tive, mas eu nunca fui, não sou um leitor como gostaria de ser, porque aprendo muito vendo e ouvindo, então gosto muito de viajar, conversar com as pessoas fora daqui, fora do país, assim que desenvolve mais as minhas coisas. Mas eu li alguns livros, não muitos, mas posso contar nos dedos da mão e do pé, dá para contar o número de livros que li, que li inteiros, alguns eu dei umas folheadas, mas acho que li todos os de Gibran. Kahlil Gibran é a minha grande paixão, li algumas coisas e gosto muito do Nietzsche, alguma literatura brasileira, que é Jorge Amado, eu li muita coisa do Jorge Amado e poesia do Manuel Bandeira, também acho que sou apaixonado, foram essas coisinhas. Mas o Gibran, Kahlil Gibran esse é o grande amor da minha vida, um dos grandes amores da minha vida, sou muito grato a tudo que aprendi no contato com o que ele escreveu. P/1 Qual foi a sua primeira música que alguém gravou? R – Foi Vanderléia. P/1 – Como é que foi isso? R – Foi Vanderléia, eu depois de um certo tempo eu passei, já como guitarrista, tocar com a Vanderléia, numa segunda fase, depois da Jovem Guarda, e ela acabou gravando um disco, então eu participei desse disco, que foi fantástico. Foi uma produção do Egberto Gismonti, foi um negócio maravilhoso, você vê duas coisas completamente diferentes fazendo isso assim, né [estalo de dedos], se fundindo, com Robertinho tocando “batera”, sabe, eu tocando guitarra, Léia cantando, a Vanderléia, aí nesse disco chamado: Vamos que eu já vou, a Vanderléia gravou as minhas primeiras músicas, foram três músicas que ela gravou nesse disco, inclui aí a música que dá título ao disco, que é: Vamos que eu já vou. Depois Vanusa gravou algumas coisas, aí de lá para cá veio, eu gravei alguns discos também, acho que gravei cinco discos, ainda do tempo do vinil gravei três, depois acho que gravei dois discos em CD. Mas eu parei, porque eu talvez até cante direito e tudo, mas eu não tenho a vocação, eu posso até ter o talento, mas não tenho a vocação para ser um cantor, sair por aí dorme em São Paulo, acorda em Minas e janta em Goiás, entendeu, e eu não sou muito assim, não tenho muito como fazer isso e preciso do tempo só, sozinho, o tempo da composição. Então eu parei de cantar e me dediquei única e exclusivamente a composição. Mas você me perguntou uma outra coisa, que eu saí esticando por aí. P/1 – Não eu perguntei da primeira composição, aí você já foi falando da Vanderléia, da junção da Vanderléia. R – Ah, da Vanderléia! P/1 – Mas como que foi, eu vou gravar você, como é isso... R – A Léia, a Vanderléia, gravou? P/1 – É. Como é que foi a primeira vez que você gravou, como é que isso te tocou? R – Não, é uma felicidade, a certeza de que estava no caminho certo e muito feliz de ver o meu nome escrito na capa de um disco, né, porque foi um longo tempo da primeira composição até chegar a esse resultado, a certeza de que eu poderia continuar, que eu tinha uma profissão como compositor, até porque os outros artistas, amigos da Léia, né, da Vanderléia, adoraram a música. Logo depois Vanusa vai e me pede música, Jair Rodrigues, nessa fase também gravou coisa, aí fiquei um espaço sem compor para essas pessoas, o espaço que eu me dediquei aos meus discos. P/1 – Ahã. R – Aí depois parei e daí para a frente tenho me dedicado só a composição de músicas para outras pessoas, tem sido muito bom. P/1 – E é um grupo grande, né? R – Aí, de uma ponta a outra, Selma Reis, Alcione, Wando, Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo, Daniel, Só pra Contrariar, Negritude Jr., Alexandre Pires, Emilio Santiago, Nana Caymmi, meio que um passeio por essas coisas todas, porque eu gosto um pouco de tudo. Eu digo, eu ouvia os tambores tocando lá em casa, ouvia as músicas eruditas na rádio com a minha mãe, ouvia música americana, toquei as músicas americanas nos bares, ouvia as toadas do meu avô tocando, papai cantou o Jongo, então juntou isso tudo, né, aí eu faço um pouquinho de cada coisa, é o que eu mais gosto, essa diversidade, essa coisa de você poder passear sem preconceitos por todas as formas, por todos os formatos, isso é muito bom. P/1 – Altay, como é esse seu processo criativo, como é que você compõe, você tem uma metodologia de trabalho? R – Tem, todos os dias eu estou com o instrumento disposto a compor alguma coisa, então eu sento e toco, começo a tocar e a composição começa a vir naturalmente, não tem um momento de inspiração, não tem absolutamente nada disso. Parece que a música sabe que eu sou uma ferramenta, essa é a minha sensação, então ela vem lá para casa porque ela sabe que eu estou disponível, entendeu, e eu tenho sempre a sensação que ela está passando e se eu não estiver pronto, com o instrumento na mão, ela vai embora, para a casa de alguém, ela sabe que eu estou ali, então todas as noites que eu sento, alguma coisa eu faço. P/1 – Você é aquele compositor clássico, né, você trabalha a melodia e a letra... R – Quase que junto. P/1 – Quase que junto. É difícil! R – Eu faço também da outra forma, às vezes faço uma música e depois faço a letra, nunca ao contrário, nunca primeiro a letra depois a música, isso não consigo fazer, e quando trabalho com parceiros, com Paulo César Feital, que é o meu parceiro mais constante, eu faço a música, ou a gente senta junto para escrever a letra, ou então ele escreve sozinho a letra. P/1 – Mas você não tem aquela coisa assim, não, hoje eu vou compor uma música sobre: isto? R – Não. P/1 – Não é canalizador mesmo. R – É, hoje eu vou compor uma música para a Alcione, isso tem. P/1 – Tem. R – Hoje eu vou compor uma música para Leni Andrade, isso tem, hoje eu vou compor uma música para Selma Reis. P/1 – E como é isso de compor para alguém, você pegar uma maravilhosa que nem a Leni e hoje eu tenho que fazer uma música para a Leni, como que é esse caminho? R – Veja bem, por mais técnico que eu for, vou dizer que é esse negócio a inspiração é fundamental e é... P/1 – Lógico. R – A Leni eu sei que: primeiro que são amigos, então a gente toca junto, eu sei o que a Leni gosta de ouvir, que tipos de harmonias, que passeios de harmonia, que conjunções de acordes que ela gosta, então eu já sei aquilo ali, eu sei o que uma mulher como aquela, quer dizer, com aquela energia toda, com aquele saber, tudo, o que ela quer dizer, o que ela tem vontade de dizer, o que ela gosta de dizer, escrevo. E sempre escrevo alguma coisa que eu acredito, porque na maioria dessas pessoas, eu e a Leni por exemplo, a gente fica noites e mais noites conversando e a gente tem muita coisa que a gente é parecido, muita coisa que a gente pensa junto, igual, um trabalho de partir disso aí. E a música vai me surpreendendo, e a letra vai me surpreendendo, o tempo todo, eu nunca sei exatamente como é o final dessa história, eu nunca sei, ela vai me surpreendendo, acho que é isso que eu mais gosto na composição, a surpresa que ela me proporciona, parece que tem alguém me dizendo alguma coisa, parece que é eu trazendo para o consciente o que o inconsciente sabe, mas que o consciente ainda não se tocou. P/1 – Interessante isso, não é algo que você... muitos compositores têm um processo que ele sabe como ele quer começar e como ele quer terminar e vai criando um grande recheio e você faz o processo sequencial mesmo. R – Sequencial, 90% das vezes, vai rolando, a coisa vai vindo de tal forma e tal, às vezes dá oito horas da manhã, porque quem me avisa, lá no meu estúdio, tem um lugarzinho que entra luz, então eu já sei “Ih, caramba, o sol já está chegando”, aí está na hora de parar. Mas tem dias, “pô”, não tem como parar, está tão bom, está vindo, se eu parar será que amanhã eu pego daqui, será que vai vir, porque tem dia de uma intensidade tão grande, uma sensação de felicidade tão grande, você fala meu Deus, você fica do tamanho do ambiente e você não pode desperdiçar isso, aí eu fico, às vezes vou até nove, dez horas da manhã. P/1 – Você se emociona? R – Muito, se não tivesse a emoção não dedicaria tanto tempo a essa coisa, a relação com isso, é uma emoção que me segura ali, porque acho que é o que mais me interessa, essa sensação desse êxtase controlado, um êxtase que você tem domínio sobre ele. P/1 – O que você aprendeu com essa música? R – Tudo, por causa da música que a gente está aqui conversando, música me deu, tem me dado tudo e me dará muito mais, porque me parece que ela confia em mim, ela gosta de mim e acredita em mim. Então ela me deu os amigos todos, as pessoas que eu conheço, todas as viagens que eu andei pelo mundo, que uma coisa que gosto muito, viajar, todos os desafios foi muito através da música. A confiança, a autoconfiança, que ainda não tenho como deveria, mas a que tenho devo à música, o respeito pelos criadores devo à música. O respeito pela criação devo à música, o respeito pela natureza devo á música, devo à música o alimento, a manutenção da minha casa, a escola dos meus filhos, a educação dos meus filhos, tudo, devo tudo isso à música. Eu tenho na minha casa um santuário, onde tenho coisas budistas, coisas africanas, coisas indianas, tem coisas egípcias, tem coisas de tudo quanto é canto e tem uma bela clave de sol, como símbolo da música e eu rezo ela, é como se fosse uma deusa também, a música para mim é um ser. P/1 – Eu rezo ela, é bonito isso, hein?! R – É, eu rezo, eu rezo sim. “Oh, neguinha, estou aí, obrigado e continua confiando, pode mandar.” Então tem sido assim, sabe, ela me dá, sempre a música me deu tudo, é a minha profissão. Eu acho que na verdade cada pessoa tem lá a sua profissão e o que vai acompanhar a pessoa durante a vida é a profissão, né? Os amores você troca, os companheiros, mas a tua profissão, ela vai te ajudar, ela vai estar com você durante a tua vida, se você não se realiza através dela, se ela não te dá, você pode não ser feliz, ela é que te traz os desafios, ela te renova, ela te obriga a andar, a aprender, a crescer, obriga a se aperfeiçoar, só através dela que você vai descobrir exatamente qual a tua potencialidade. Na dedicação à profissão você vai acordar um monte de coisas que você poderia viver 90 anos e ficariam adormecidas, se não fosse a tua profissão, então a música é a minha profissão, ela me deu tudo mesmo, tem me dado. P/1 – Você falou que gosta de viajar o mundo, né, e a música do mundo, qual é essa música que te alimenta também? R – Ah, eu gosto da música de tudo quanto é… A música americana foi uma música que eu cresci ouvindo, uma música fantástica, você pega os grandes ali, ouvir Ray Charles cantar é um negócio muito sério, o que é isso! Ouvir George Benson tocar guitarra, John McLaughlin tocar guitarra é um negócio muito sério, mas ouvir Ravi Shankar é um negócio também que... Astor Piazzolla, meu Deus do céu, aquele, eu tenho pelo menos uns dez discos do Astor Piazzolla, é impressionante como aquele homem consegue passar uma carga tão profunda de energia e de força e de emoção naquele instrumento extremamente difícil de tocar, tem pouca gente que toca aquilo ali. P/1 – Coloca ele ainda com o Mulligan, aí o negócio fica sério [risos]. R – Pois é, com Gerry Mulligan, é um negócio muito sério, então você tem essa música do mundo, você tem os artistas africanos, o (Sarife?), você tem um monte deles que estão aparecendo agora, que o mundo está começando a conhecer, então me interessa essa mistura. Eu tenho amigos fora do Brasil, eu tenho um amigo no Canadá Jean-Pierre Zanella, que é um saxofonista, número um do Canadá, toca muito, e é apaixonado pela música brasileira, todos os anos ele vem ao Brasil e eu de vez em quando vou... faz tempo que eu não vou para participar do Festival de Jazz, mas eu participava sempre do Festival de Jazz de Montreal, levado por ele, e eu tenho ido lá agora para fazer outras coisas, coisas muito bonitas, que me deu muito orgulho.Fui ano passado para tocar, para cantar, fazer um espetáculo com ele só com música do Villa Lobos, uma coisa que você não tem como fazer muito por aqui, o teatro estava lotado lá, a gente tocando só música do Villa Lobos, um negócio muito bonito, tinha franceses na banda, os outros canadense e eu brasileiro, e eu cantando as várias músicas do Villa Lobos. P/1 – Você cantou?! R – Cantei. [entrevistado canta] “Ira-ri-raá in-dó-in-dê-ró-in-dó-ri-dó á-ria-ria-raraá, Ó mana deixa eu ir, ó mana eu vou só, ó mana...” Uma coisa linda, aquele público super emocionado com essas coisas assim. E ali você ouvia, porque era músicos, Jean-Pierre é homem de jazz, então incorporando aquele negócio do jazz, ali dentro, aquele piano, o pianista tocando para caramba, o “batera” francês não tem o swing das coisas brasileira, mas ele dava o jeito dele, aí a música pegava uma outra cara. E eu ouvindo aquilo tudo ali, cantando, ouvindo aquilo tudo, é isso, essa fusão das coisas do mundo, que você tem coisas muito bonitas aqui no Brasil e cada vez mais, hoje, quando você pega o disco do Sting, você vê a presença do Milton Nascimento lá, você sente, Minas está presente aqui dentro, o Pat Metheny, você também sente, pô, Minas está presente aqui e essa coisa vai embora. Pega a música do Ivan Lins, que eu acho que é o mais universal para mim dos compositores brasileiros, a música dele é música do mundo, ela tem uma brasilidade muito forte e ao mesmo tempo tem toda essa coisa contemporânea, o Ivan ele tem o formato, a solução da melodia, a solução harmônica, a levada, ele tem a música dele. P/1 – E suas parcerias com o pessoal de fora, chegou a rolar alguma coisa já, ou ainda não? R – Não, já toquei com Chucho Valdés, eu participei de uma noite com ele e foi muito legal porque na verdade ele veio, eu estava fazendo um show aqui no Rio, e ele veio participar do festival de jazz, aí ele convidou Leni para ir jantar com ele, Leni Andrade, aí Leni falou para ele assim depois do show - não, eu não vou jantar com você, você que vai jantar comigo, vou te levar para você conhecer o Altay Veloso - aí levou ele no meu show. E acabou que chegou uma hora que ele subiu no palco e ficamos tocando junto, guitarra, ele tocando piano, foi uma festa, uma pessoa com quem eu mantenho, de uma certa forma, um contado, não assim, mas Natal, aniversário, nunca fui a Cuba, né, e Chucho Valdés ele mora em Cuba, mas a qualquer momento vou, com Jean-Pierre Zanella, que é saxofonista. Já participei dos discos dele, ele ganhou em 2004 o melhor disco instrumental, melhor disco de jazz do Canadá e desse disco dele eu participei, cantando, não tocando guitarra, porque não dá para tocar com aqueles cara, tocam muito, quer dizer, o pessoal do jazz é pós-graduação, aquela coisa ali, mas a minha voz ele gostava, quer a minha voz dentro daquele contexto todo, acabei cantando. Então tem sido assim, agora eu estou de parceria com André Mingas, que é um cantor angolano, um compositor angolano, que coisa, que voz linda, estou lá escrevendo umas coisa para ele. P/1 – É meio absurdo perguntar isso, porque você acabou de dar uma definição da sua relação com a música que é maravilhosa, mas fala um pouco de quem te gravou, para a gente, não dizer de quem você mais gostou de ver aí nas ondas... R – Quem mais me gravou? P/1 – Não, fala um pouquinho das pessoas que te gravaram, quer dizer tem um monte de gente, como foram os processos, porque se eu te perguntar quem você gostou de te ouvir, é meio absurdo, né. R – É. Bom, Alcione gravou, pelo menos até agora, deve ter gravado umas dez ou doze músicas minhas, é maravilhoso você ouvir na voz daquele, aquele vozeirão, a Leni gravou um disco só com músicas minhas, isso é um presentão. A Elba gravou também várias, deve ter gravado umas cinco músicas minhas, Selma Reis gravou umas cinco, até agora, músicas minhas, Emílio deve ter gravado umas dez, doze também. P/1 – Que também é um primor de voz, né! R – Puta, aquele negócio, a voz do Emílio tem uma coisa de sagrado, uma voz sacralizada, é uma coisa que ele tem, é tão refinado, é um veludo, é um negócio, como tinha Nat King Cole, sabe, aquela coisa especial, então o Emílio gravou várias coisas minhas. Negritude Jr. gravou, foram vários sucessos no Negritude Jr., Jorge Aragão. Jorge Aragão na verdade, nessa minha fase de composição, Jorge foi quem gravou a primeira música, ele que na verdade começou a fazer essa coisa andar, mas Wando gravou muita coisa, Exaltasamba também gravou muita coisa minha. Só pra Contrariar, Alexandre Pires gravou muita coisa, tem gravado muita coisa, Vanderléia, Vanusa, Daniel, Nana Caymmi, é uma mistura boa, e eu fico muito contente de poder fazer essa coisa, de ter esse passeio assim com tanta gente diferente, Peri Ribeiro e vai por aí. P/1 – Quem que não te cantou que você... R – Bethânia. P/1 – [risos] R – Bethânia, tenho a maior vontade de ter uma música gravada por Bethânia, mas acredito que a gente ainda vai, daqui a pouco a gente se conhece, mas não só ela, Cauby Peixoto, que é barra pesada, aquilo ali é... P/1 – É monumento já. R – Monumento. Roberto Carlos já gravou também, Roberto Carlos já gravou cinco músicas minhas, também fiquei emocionadíssimo, foi um disco que eu saí de casa, falei, tenho que comprar esse disco, foi o único disco que eu saí para comprar antes de receber, que alguém de desse e tal, ouvir a minha música na voz daquele toten, do rei. Tem sido muito bom essa relação com tudo isso, eu acho que antes de qualquer coisa você tem que ter admiração e respeito pelo artista para quem você vai compor a música, tendo isso a música se oferece, tem que ter respeito pela história daquelas pessoas, pela vida daquelas pessoas e estar disponível para servir, aí não tem jeito, aí eu conheço, eu ganhei, são meus amigos, muito mais do que eu ser um compositor Hoje eu já não componho tanto, porque não tenho tido tanto tempo, tenho me dedicado à literatura, escrevi um livro, já estou escrevendo um segundo, aí você imagina, uma música é uma página, um livro são 200, então aí eu não tenho tempo, não sobra tempo para fazer música, fico me dedicando à literatura porque eu estou adorando isso aí. P/1 – E como é essa sua história com a literatura, como foi que isso começou? R – Começou por conta, é aí que entra a Unimed também na minha vida, começou por conta de uma ópera que eu fiz, há 25 anos eu penso nela, mas ela não tinha ainda um jeitão, uma cara, eu comecei a compor coisas que falavam de um mesmo assunto, um dia a Vanderléia fez um show e um dia a Léia chega para mim e diz assim: “Altay, isso é uma peça?”, eram cinco músicas falando a respeito de um mesmo assunto, eu falei: “Sim, é uma peça.”, e não era nada disso, a partir daí ela começou a me apresentar as pessoas como se eu estivesse, “Altay está fazendo uma peça, um musical e tal”, e aquilo me perturbou porque aí as pessoas que ela me apresentava eram: José Wilker, era Otávio Augusto, aquelas pessoas do teatro que depois começaram a me cobrar esse negócio, e aí cadê aquele musical e aquela peça, falei “Oh, meu Deus do céu”. Bom, o Otávio Augusto na época era presidente do Sindicato dos Artistas e ele queria produzir essa peça, esse musical, eu sentava com Otávio e “Oh, Altay, mas você só tem cinco músicas, passa um mês e você não traz mais nada de novo” – falei, “É, Otávio, não sei o quê, não sei o que está havendo”, moral da história, não rolou nada. Aí foi na fase que eu estava gravando os meus discos, passou um tempo eu conheci o Vanucci, Augusto César Vanucci, na época ele era diretor geral da TV Globo e o Vanucci, para você ver quanto tempo faz isso, ele queria inaugurar o Teatro Vanucci, ele falou assim: “Altay, a gente vai inaugurar o teatro com esse musical teu.”, que se chamava Jerusalém eu digo: “Legal” e todo domingo a gente sentava junto para escrever, aí o Vanucci ia participar. Vanucci era ator, ele andava pela sala encenando o personagem, não Herodes, não sei o que, não sei o que, eu ficava assim, “Meu Deus”, porque eu nunca fui muito de teatro, eu nunca vi muito essa coisa de teatro, moral da história não aconteceu, Vanucci inaugurou o teatro, eu fui deixando esse negócio para lá e tal. Em 2000 eu falei, não agora está na hora de eu realizar O Alabê de Jerusalém. Um pouco antes, eu falei “eu tenho que montar um estúdio para eu gravar o máximo de coisas no meu estúdio”, montei o estúdio, falei, “agora eu preciso de recursos por que eu tenho que viajar, para eu poder fazer uma pesquisa e tal”, aí comecei a viajar: fui para Angola, fui para a Nigéria, fui para Israel, fui para o Egito, comecei a andar para ter uma relação com a geografia, porque esse livro se chama: O Ogundana, o Alabê de Jerusalém, a ópera se chama: O Alabê de Jerusalém. É a história de um africano que nasceu em Daomé, o antigo Daomé é hoje Nigéria, existe um país chamado Daomé, mas o antigo Daomé é onde está a Nigéria hoje, ele nasce lá, há 2000 anos, ele é um “alabê”, um alabê é um tipo de sacerdote que cuida dos instrumentos, no Reino dos Iorubas, cuida dos instrumentos das tribos. A casa dos instrumentos é uma casa sagrada, não tem assim como nós compositores, existem músicas que são milenares: o amanhecer, o anoitecer, a música do parto, a música do plantio, então quem toca essas músicas, quem cuida dessas músicas são sacerdotes Então ele é criado para ser um sacerdote, o pai dele é um sacerdote nessa coisa, mas volta e meia passam pela região dele viajantes, até um dia que chega um homem branco, que ele nunca tinha visto e se pensa que ele é um salteador, uma coisa assim, e ele acaba ficando ali na tribo, ele chega ferido, ele fica na tribo e ele conta para os meninos sobre as coisas que existem, sobre o Mediterrâneo, essas coisas todas. Então esse menino da tribo, com 12 anos, vai embora, e vai em direção ao norte da África e ele vai aprendendo, ele leva dentro da alma toda aquela coisa da medicina, porque ele foi precisando dela no caminho, da medicina da avó dele, da medicina de Oxóssi, porque a região dele é de onde vem todo esse panteão africano que é conhecido no Brasil é do Reino Ioruba, do reino de fé, e ali Xangô, Oxóssi, Oxalá, Iemanjá, Nanã, Iansã, Oxum, esses deuses vêm dali, de toda essa mitologia, e ele sai e o caminho dele é desenvolvendo essa medicina. Ele aprende a medicina do deserto, ele passa pelo Niger, ele vai embora depois aprende a medicina do Egito, se apaixona por uma mulher no Egito, do templo de Ísis, então se dedica um pouco a coisa do Templo de Ísis. Ali ele aprende as coisas, depois ele vai para a Núbia, na Núbia ele, por salvar um centurião da morte, através das ervas, ele vai para Roma com esse centurião e se torna médico das tropas romanas, até que Pôncio Pilatos, se torna o governador da Judéia, ele vai para a Judéia com Pôncio Pilatos, na Judéia, em Cesaréia ele conhece a grande paixão da vida dele, que é uma judia que se apaixona por toda a cultura dele, ela compreende toda a cultura dele, dança como uma africana, recebe os orixás, inclusive, e ele se apaixona pelos salmos, toda aquela liturgia das sinagogas e os dois fundem esses matizes todos dessas duas culturas. E por fim ele compra uma casa, porque ele se torna um homem de posses, porque ele ganhou muitos presentes, muita coisa e chega uma hora que ele se afasta do exército de Roma, porque ele recebia o soldo, mas quando ele vê o que Roma fazia na Judéia e apaixonado por uma judia ele se afasta, vai morar nas margens do Mediterrâneo onde ele recebe as visitas dos amigos dele, que são do mundo inteiro, né, daquele mundo conhecido, aprende os idiomas com aqueles caras todos, ele gosta muito da vida, então tem boas bebidas, boa música, na casa dele, a casa dele é freqüentada por artistas vindo de vários lugares do mundo. Escultores que Roma leva para Israel, para a Palestina, escultores que ele conheceu, pintores que ele conheceu em Roma ou no Egito, aquelas coisas toda, então ele recebe essas pessoas todas e por fim, depois que as terras da família da mulher dele são confiscadas por Herodes ele compra para ela e para a família dela uma casa no Vale do Cedron, em Jerusalém. Então depois de um ano que ela vai para lá, ele vai para lá para viver junto dela no Vale do Cedron, ali também é muita festa e ele continua exercendo toda essa coisa das terapias, da medicina, porque aí ele já tem acumulada na sua alma essa medicina de Roma, que era muito intensa, medicina militar, e lá ele conhece Maria Madalena, que é prima da mulher dele, e através de Maria Madalena ele conhece Jesus Cristo e fica amigo de Jesus Cristo e se apaixona por tudo aquilo ali, todo esse sincretismo que existe entre o cristianismo e o africanismo ele faz lá, poxa, ele é como Oxalá e depois que Jesus morre ele volta para a Galiléia, onde ele viveu durante um bom tempo e depois que a mulher dele morre ele vai para o deserto da Judéia, que é onde ele escreve um livro, chamado O Ogundana, o Alabê de Jerusalém. P/1 – Aí me diz uma coisa o que eu faço com a entrevista que eu fiz com você até agora, porque é quase uma autobiografia esse teu trabalho, não é? Quanto tem aí da tua história nessa... R – Ah, tem... Da minha história? Acho que também tudo, isso meio que é história do desejo profundo de você ver difundir essas coisas, mesmo que na verdade com a música, de certa forma, eu já tenho feito e de contemplação pela cultura e história do outro, que é uma coisa que é interessante, eu sonho, a gente sonha com isso, a gente que sonha em ter um mundo melhor, sonha com essas coisas, então o cara vai lá aí funde isso tudo. Eu sou de uma religião, quer dizer, faço parte, dentro da minha casa minha mãe é Umbandista, o altar da Umbanda é Católico [risos], você tem os santos do Catolicismo, todos, já é uma coisa que só existe na Umbanda, nasce no Brasil, essa fusão e tal.. Esses dias um amigo ele chegou e falou assim “Poxa, obrigada por você usar a estrelinha de David no seu peito”, um senhor judeu, falei assim “Nós adotamos também na Umbanda, a gente usa.” Então você vê que misturada toda, eu lembro que lá no altar de minha mãe tinha as pirâmides do Egito, então é essa coisa dessa necessidade que os habitantes do planeta possam se entender, isso é admirável. P/1 – E quanto é rico, né? R – Quanto é rico! P/1 – Essa mistura, e olha só o seu enredo, quanto que ele carrega também da tua própria história, nesse seu sincretismo que vem com o jongo, com o samba, com os tambores, com a boa música do Brasil. R – É verdade. P/1 – E como que foi por isso no palco, uma peça de pé, essa epopéia? R – Olha só, nós fizemos, porque você imagina, eu gastei muito dinheiro para realizar isso, porque a gente vive num país onde não é muito fácil você andar com a arte, a arte não é contemplada como deveria ser, é um país que tem uma arte tão profunda, tão forte, tão intensa como esse, teria que ter governos que se afinassem com isso porque ganhariam muito dinheiro. Até porque é a arte que faz as nações, Grécia, é isso, Roma, é isso, você andar nas ruas de Roma é você andar em cima da arte o tempo todo, lá em Roma, nas ruas da Itália você anda em cima da arte, é música, é Bach que faz, é Debussy, é os artistas, sabe, Michelangelo, Da Vinci, é Dali. É Ray Charles, é Miles Davis, é Jimmy Hendrix, você vende chiclete, vende o que você quiser com isso, com música; e o Brasil tem uma coisa que só tem aqui e nos Estados Unidos da América, então, são duas misturas magníficas que a gente não tira partido como deveria. Principalmente nos dias de hoje, você trabalhar buscando uma arte verdadeira, da tua alma, que é a arte do indivíduo, porque essa do indivíduo é a tua, a de cada um de nós, ela tem um valor único você fazer, todo mundo espera isso, porque todo mundo espera o indivíduo, ninguém aguenta mais essa coisa de um cérebro só para tanta gente, precisa de você, você, você, a gente precisa disso; então o caminhar com uma arte dessa forma não é fácil. Primeiro eu fiz um projeto, tive leis de incentivo, Lei Rouanet, essas coisas todas, e trabalhei durante quatro anos para conseguir recursos e não consegui. Moral da história, eu mesmo fui em busca dos recursos, já que o Estado e ninguém me dava os recursos eu vou em busca dos recursos e foram as músicas que eu fiz para todo mundo, e as canções que as pessoas cantaram aí que deram um jeito para que eu pudesse fazer, começasse o meu negócio. Eu precisava viajar para fazer essas coisas todas, só para Israel eu fui três vezes, e ficava e andava por aqueles lugares todos, fui de Cesaréia à Jericó. A terceira vez, eu fiquei só em Jerusalém, andando nas ruas de Jerusalém, e fui para a Angola, fui para a Nigéria, essa coisa como eu já te disse, aí eu já estava com o espetáculo desenhado, tudo pronto, mas eu não sou um homem de teatro, como fazer isso, falei, bom, vou começar pelo outro caminho que eu conheço, que é o da música. Aí comecei eu mesmo a fazer os arranjos e tal, fiz os CDs de demonstração, comecei a mostrar para as pessoas, aí a Alcione falou assim “Mas eu quero cantar uma música”, Fafá falava assim “Eu também quero cantar uma música”, Leni “Eu também quero cantar uma música”. Eu fiz o CD, agora eu preciso de dinheiro, porque eu não posso fazer essas coisas com teclado, com sons, tem que botar uma orquestra sinfônica para tocar. Arrumei dinheiro, consegui dinheiro das minhas músicas e contratei a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro para tocar, então você tem ali 96 músicos tocando, fora o pessoal de base, dessa coisa toda, você tem de coro, fazendo o coro, você tem pelo menos umas 50 pessoas tocando, são duas horas e pouco de música, aí os cantores tem: Adriana Lessa cantando, Isabel Filardis cantando, Ruth de Souza falando texto, Thalma de Freitas cantando, Alcione cantando, Leni Andrade cantando, Elba Ramalho, Fafá de Belém, Lenine, Jorge Vercilo, Peri Ribeiro, Cláudio Zoli, Sandra de Sá e vai por aí, muita gente cantando, Sílvio César, Bibi Ferreira, falando texto, Wando cantando. Mas aí acabou o meu dinheiro, né, eu não tinha mais dinheiro, tinha um CD ma ravilhoso, pronto, e mesmo assim com as leis, tentando realizar o espetáculo, e nada, aí chegou uma hora que eu pego um telefone, falei assim, deixa eu ligar aqui para ver, peguei um cartão de uma pessoa: “O senhor não lembra mais de mim, o senhor me deu esse telefone para eu fazer um show no Plataforma e eu naquela época não fiz porque eu estava envolvido num projeto que agora terminei e por isso eu estou te ligando para te mostrar esse projeto, meu nome é Altay.” “Altay Veloso?” “É.” “Claro que eu lembro de você, eu queria patrocinar o teu show você não quis nada.” “Pois é, mas eu não quis porque eu estava envolvido com esse trabalho.” “Bom, e o que, que você quer?” “Eu quero te mostrar esse trabalho, quando o senhor tem um tempo?” “Amanhã.” Eu estava falando com o presidente da Unimed, eu não sabia, só tinha olhado que era uma pessoa da Unimed, no dia seguinte eu estava lá com ele e ele ficou profundamente sensibilizado porque nós gravamos tudo isso num vídeo, ele falou assim “Olha, Altay, é muito bonito, eu não trabalho com nenhuma lei de incentivo, mas não posso deixar isso aí parado, tenho que te ajudar a fazer isso aí andar, tenho que te ajudar, a Unimed tem que te ajudar”. Foi aí que nós lançamos o livro, que estava pronto e o CD, que estava pronto, então depois disso tudo resolvemos fazer um espetáculo no Canecão, só para poder apresentar, uma espécie de provocação, sabe esse sistema, esses artistas a maioria deles participou, o Ivan Lins participa desse disco também e fizemos no Canecão um negócio maravilhoso, o Canecão super lotado, com toda a comunidade artística ali, o pessoal de teatro todo mundo foi. Está todo mundo muito feliz com o trabalho do O Alabê de Jerusalém, por conta principalmente disso e eu muito mais ainda por conta da certeza de que posso ter um discurso muito seguro de que você pode sonhar, você pode sonhar porque teu sonho precisa ser realizado, não só por você, e você no caminho vai encontrar, a partir do teu sonho, é que você vai encontrar os teus companheiros da tua estrada, se você não sonhar você não vai encontrar. Eu descobri que quando eu precisei da ajuda me bastou pedir, me bastou eu ir buscar por ela e ela veio me surpreender o tempo todo, sempre fui surpreendido pela generosidade do outro, quando acredita profundamente naquilo que você está fazendo, quando acredita que você está jogando a tua alma. Hoje, eu não me sinto um patrocinado da Unimed, não é isso, Unimed é meio minha casa, eu sou muito querido pelas pessoas da Unimed e as quero muito bem, devo muito à Unimed e tomara que esse exemplo da Unimed – porque a Unimed ama a arte, tem uma direção muito sensível a arte – que esse exemplo da Unimed, que me ajudou a andar com o meu negócio, que vai andar muito mais, porque depois desse primeiro apoio a gente agora tem cara, vamos lançar agora um DVD, agora no final do ano, e sem as leis de incentivo. Porque se a Unimed fez isso, muitas empresas podem fazer também, né, as vezes não fazem talvez porque não foram chamadas a atenção para isso, não olharam que isso é bom, isso dá prazer para uma empresa, empresa também é ser, e pode ser um empresa feliz se estiver participando nessa coisa, essa ajuda a essa matéria prima do Brasil que é a arte, daí que vem a coisa. Estava falando agora da literatura, o meu livro O Alabê de Jerusalém, vem depois da ópera, que escrevo um livro por conta dos meus amigos que são escritores, pedi a eles que escrevessem o livro da história do cara, do Ogundana, e eles ficaram me enrolando “Ah, Altay, já tenho umas dez páginas, mas não quero te mostrar agora, porque não sei o quê”; “Ô, Altay, está ficando lindo.” - tudo mentira, aí eu falei assim “Quer saber de uma coisa? Eu vou escrever alguma coisa e vou mostrar para esses caras, se eles gostarem é porque eu estou no caminho certo”, aí eu mostrei para eles, falei “Veja” - [entrevistado aos gritos]: “Está vendo, é por isso que eu não podia escrever, o cara que tem que escrever é você!”. P/1 – [risos] R – Bom, perfeito, daí sentei todos os dias de três horas da tarde até sete, oito horas da manhã, todos os dias, sábado, domingo; parava para fazer as minhas coisas, alguma coisa, me alimentar, mas escrevia, escrevia... adorei escrever, como foi bom e como me surpreendia da mesma forma que me surpreende uma música quando você vai escrevendo; mas ali não, eram 200 páginas, então todo dia eu falava assim “Meu Deus!” - eu ia acordar, para poder sentar lá, para vivenciar aquela emoção, tanto é que depois que acabei de escrever esse já, falei assim “O que fazer com o meu tempo?” Porque era um tempo tão longo que eu dedicava ali, depois me senti meio ocioso e pensei que ia escrever esse único livro, mas aí eu falei “Não, não, Altay, vai escrever.”, aí eu fui escrever o segundo livro que já estou no final. P/1 – E está envolvidíssimo? R – Envolvidíssimo, chama Lábios de Cuba Livre, é muito bonito. P/1 – Qual é a temática? R – É uma ficção de uma casa noturna que existia no Rio de Janeiro, que na verdade eu quero escrever muito sobre música, esse é completamente diferente d’O Alabê de Jerusalém, do Ogundana, esse livro dO Alabê de Jerusalém é todo escrito em prosa e rima, esse outro não, esse outro é bem diferente. É a história de uma casa noturna, que existia no centro da cidade no Rio de Janeiro, chamada Lábios de Cuba Livre, que foi fundada em 1956 por um turco, antes se chamava Estrela da Noite, foi o nome que ele colocou, e foi fechada em 1966 pela Ditadura Militar, então ela se tornou Lábios de Cuba Livre, porque quando Che Guevara foi homenageado aqui no Brasil, o balé de Cuba veio junto. Na história, o pianista da casa se apaixona, ele toca para esse balé, e se apaixona pela primeira bailarina, que não vai mais embora e fica aqui, e ela passa a ajudar muito ali no Lábio de Cuba Livre, na boate, porque ela ajuda na cozinha, ela é uma pessoa de muita vida, solar, aquele espírito, dá aula de dança durante o dia, ela é uma pessoa muito querida, a casa é frequentada por embaixadores, intelectuais, prostitutas e toda a gama do centro da cidade, essa coisa toda. E tinha um sujeito da Marinha Mercante, um negro, chamado seu Geraldo, que ele viajava pelo mundo inteiro, também semi-analfabeto, mas tinha uma paixão especial por Fidel e por Guevara e ele ficava tentando convencer o dono da casa a trocar o nome de Estrela da Noite para Lábios de Cuba Livre, em homenagem a essa mulher [a bailarina], cubana, que acaba sendo expulsa do Brasil em 1965, porque não podia ficar aqui, não tinha como, e vai embora grávida do pianista e o filho dela nasce lá, quando ele tem dez anos a mãe morre, mas ele já estuda piano. Nesse livro estão todas as pessoas que eu conheço: Roberto Menescal, Miele, meus amigos músicos, Jean-Pierre Zanella, que é esse meu amigo canadense, ele estava lá em 1950, eu coloquei todo mundo, todas essas pessoas, até para homenagear os meus amigos, até por que a casa desse meu amigo Jean-Pierre Zanella é como se fosse uma embaixada de músicos brasileiros, o que ele tem levado de artista brasileiro lá não é brincadeira e ficam hospedado na casa dele, então está lá e esse menino que cresce lá, ele estuda com Chucho Valdés. P/1 – Você precisa ir para Cuba então? R – Tem que ir. [fim da fita] R – Me dedicando muito à coisa do Alabê aqui, então não dá nem tempo de você... P/1 – E qual que é a previsão do livro? R – O livro está pronto, também patrocínio da Unimed. P/1 – Está pronto. R – Está pronto, ele vai ser distribuído a partir de novembro, dezembro. P/1 – Lábios de Cuba Livre? R – Não. P/1 – Não. O Alabê está pronto vai começar a ser distribuído. R – É. O Lábios de Cuba Livre só o ano que vem, não seria agora, que é completamente diferente do Alabê, é outra coisa, que aí a gente espera andar um pouco mais e já fazer o livro, já escrever o musical do livro, porque é música, aí eu tenho interesse, tenho intenção, de lidar com gente de cinema, fazer um longa disso aí. P/1 – O roteiro é muito legal, e um belo título. Altay, você falou no começo da sua entrevista, que foi uma mulher, que é a sua esposa, que te levou a compor, quem é essa mulher, como ela chama, quem são esses filhos, quem é esse outro homem aí? R – O nome dela é Maria Célia, Celinha, pessoa maravilhosa, muito companheira, minha amiga e mãe dos meus moleques todos, a gente está junto, eu e a Celinha, já há quase 30 anos. Meu filho mais velho tem 24 anos, então ele é da idade dO Alabê de Jerusalém, ou talvez até mais jovem, dessa minha história, né. Eu tenho a impressão na verdade que talvez eu não tivesse realizado isso antes pelo fato que estavam esperando essas pessoas chegarem na minha vida, que são esses meus filhos, porque quem cuida de toda a parte gráfica e toda a parte de animação 3D d’O Alabê de Jerusalém é o meu filho Saulo, foi ele que fez a máscara, o símbolo d’O Alabê de Jerusalém, foi ele que fez; e todas as filmagens desse DVD que a gente vai lançar, quem fez foi a minha filha, que ela é cineasta, então ela que cuidou, ela que fez tudo, ela que sentou e fez todas as edições, ela que está fazendo a autoração, então eles é que estão trabalhando junto comigo. Ela também é da madrugada que nem eu, arrumei uma companheira para a madrugada, tenho mais dois filhos que é o Gibran, em homenagem ao meu querido Gibran, Kahlil Gibran, esse o negócio dele já é outro, ele faz aviação; e um quarto, que é o Ébano, que é um gourmet, o negócio dele é fazer comida, é bom nisso. P/1 – Você está bem servido, né? R – Estou bem servido. P/1 – Você tem quem te apoie no ar e na terra. R – É. São pessoas maravilhosas, a minha família é realmente maravilhosa, são pessoas muito dedicadas ao que fazem, pessoas caseiras, também, como eu, e muito apaixonada por aquilo que fazem, com um respeito muito grande pelos mais velhos, que eu acho que isso é uma coisa que a gente procurou manter lá em casa. Então eles vêem o respeito que eu tenho pela minha mãe, pela minha avó e procuram ter esse respeito por mim, costumo dizer para eles que eu deixei de fazer muita coisa errada porque eu sabia que eu não ia suportar a dor de ver minha mãe sofrendo, então por conta disso, não faria; o compromisso com o outro, com as pessoas que eu amo que me ajudou a cometer erros contornáveis e sempre o mundo chama, o jovem, coitados, principalmente hoje, eles são atormentados, os jovens sofrem muito hoje, é muito diferente do tempo em que eu era moleque. Hoje eles são muito pressionados o tempo todo a ter e a ter, a serem superficiais, existe um modelo na tentativa de idiotizar e eles não têm sossego, no meu tempo não, era diferente, a gente era sonhador, podia sonhar, tinha tempo para sonhar. Eu me lembro que quando eu comecei a tocar, me bastava ter dinheiro do baile para comprar um chocolate ou senão um Mirabel e depois comprar uma camisa nova, comprar um tecido para a minha mãe fazer uma camisa ou uma calça, um de cada vez, por mês ou por semana, e aí eu era feliz, porque o dinheiro que eu ganhava, dava para fazer isso. Mas hoje, os jovens, eles têm que ter carro, eles têm que ter celulares, eles têm que ter um monte de coisa, e como fazer isso se eles ainda não estão ganhando dinheiro para essas coisas? Então o sistema hoje atormenta muito, e com isso eles não têm o tempo necessário que deveriam ter, que poderiam ter, para poder sonhar, para descobrir... mas a gente dá um jeito, cada um dá o jeito dele, e eu sinto que lá em casa, pelo menos a gente conseguiu imprimir a possibilidade do sonho nos moleques, até por conta do resultado com o trabalho que eu estou tendo, eu estou conseguindo andar e vencer, então isso mostra para eles que sonhar vale a pena. Porque não teve um segundo na minha vida, durante esse trabalho d’O Alabê de Jerusalém, que me passasse pela cabeça que eu estava no caminho errado, e que eu não ia conseguir. Não teve um segundo de tristeza profunda, às vezes alguns amigos me perguntavam – “Pô, você está há tanto tempo nisso, e se você não conseguir fazer isso, vai ser um negócio barra pesada na sua vida...”. Não, você está completamente enganado, porque eu estou fazendo isso todo dia, todo dia eu faço isso, imagina Bibi Ferreira vai no estúdio para gravar um trecho dO Alabê de Jerusalém, eu estou com aquela rainha na minha frente, dizendo assim para mim: “Altay, como que você quer que eu fale esse texto?” “A senhora faz [risos] do jeito que a senhora...” “Não, Altay, isso é uma obra sua, fale o texto para eu ver.” Aí eu falo o texto, ela falou para as pessoas: “Está vendo a forma como ele fala? É assim que tem que falar, sabe por quê? Altay, a minha voz é muito jovem, eu mantenho a minha voz no alto e você quer uma voz mais envelhecida, eu tenho que envelhecer essa voz.”, aí vai para o estúdio e começa a falar: “Altay, está bom?”, eu digo: “Está maravilhoso, nós estamos aqui, todos nós, chorando de ver a senhora falar esse texto.”. A gente tinha gravado dois canais: “A senhora que tem que agora ouvir aqui e dizer se a senhora está gostando.”, ela falou assim: “Não meu filho, quem tem que gostar disso é você.”, falei “Caramba, aí olha só, quanto de ensinamento tem nisso tudo aí, olha a generosidade do sábio, daquele que sabe, daquele que está tão firme, que vem com tanta dignidade na tua profissão, olha como ele é generoso com aquele neófito” Então isso já é um ensinamento, segundo é esse outro de você ter uma rainha como aquela participando de um negócio teu sem cobrar um tostão, quanto é que custaria isso? Então todo dia tinha uma emoção assim, quando Alcione ia para o estúdio cantar, quando alguém ligava para mim, “Altay, pô, eu não vou participar disso?”, esses dias eu encontrei com João Bosco, ele falou assim: “Eu soube que você terminou aquele negócio do Alabê, lá.”, eu falei, “Eu terminei”, e ele “E yo, pô? Nem um violão para eu tocar?!”, “Pô, o violão agora está pronto...!”. P/1 – [risos] R - Então é todo dia, todo dia você vai fazendo isso. Eu recebi uma carta da ONU, da Unesco, né, parabenizando, que umas amigas minhas mandaram uma cópia d’O Alabê de Jerusalém, dizendo assim – “Parabenizo toda e qualquer empresa que venha a ajudar nesse projeto, porque ele tem todas as mesmas intenções desse organismo” - Abenço Abel(?), também me disse a mesma coisa, Abenço Abel(?) foi muito bonito, porque eu precisava submeter a um judeu, porque eu não tenho a mínima intenção de perturbar, absolutamente nada, falei, “Preciso submeter, ter chancela dessas coisas”, aí um amigo, “Fala logo com o seu Abel”, eu disse não, “Não quero falar, quero submeter a um judeu normal”, “Não, fala com o seu Abel!” e marcou lá um encontro com o seu Abel. E fui encontrar com ele na sinagoga, vocês estão vendo, sou falante, né, gosto de falar, falei tudo rapidamente e por fim pegou a minha mão e falou assim, [entrevistado fala com sotaque] “Altay, olha como somos iguais, não há diferença entre nós”. P/1 – [risos] R – [entrevistado fala com sotaque] “Não há diferença entre nós, seus propósitos são mesmos meus”. Puta, que coisa linda, quando eu desci eu ficava na rua rodando no poste, parecia Dançando na Chuva, de tanta felicidade de ter tocado o coração dele. Bom, chegou uma pessoa na minha casa, uma senhora brasileira que mora em Paris há muitos anos, e ela veio de São Paulo para conhecer alguma coisa do Alabê, e ela foi na minha casa e conheceu o Altay, aí ela, “A gente tem que dar um jeito, tem que ir para a França, tem que ir para a Inglaterra”, e ainda não estava terminado, não tinha feito, não tinha ainda esse contato com a Unimed, não tinha nada disso. Moral da história, três meses depois, eu recebo uma carta informal dela agradecendo a comida, porque a minha mulher faz uma feijoada de amendoim que é um negócio muito sério, não tem feijão ao invés de feijão e amendoim, e nós fizemos isso para ela, como a gente faz assim para os amigos; então era uma carta informal e uma carta formal de uma confraria, chamada Confraria do Cavaleiros de Gutemberg, a confraria me convidando para ser entronizado na confraria, então eu acabei sendo… Eles vieram ao Brasil e entronizaram algumas pessoas em São Paulo, no Teatro São Pedro, com orquestra sinfônica. Vieram uns caras da Argélia, Portugal, Inglaterra e eu fui entronizado nessa confraria, aquele ritual bonito, com espada medieval - [entrevistado fala com sotaque] “Monsieur Altay Veloso”. Você vê do que um sonho é capaz? Todo dia O Alabê de Jerusalém me traz essa coisa, aí a gente faz um espetáculo, daqui a pouco a gente vai fazer outro e vai fazer outro e vai andar, é uma coisa que não para, não tem um fim, não tem um final, “Agora realizei um sonho”, não, vai. P/1 – Bom, Altay, eu tenho que começar a encaminhar para o final, infelizmente, mas antes eu queria te perguntar o que você acha desse movimento da Unimed de organizar a história dela, de ouvir a história dos outros, o que você acha desse projeto memória? R – Eu acho que isso é... Principalmente da forma que é feita... primeiro que é a primeira vez que eu estou contando a minha vida, a minha história, dessa forma, me sentindo tão à vontade para poder fazer isso, e acredito que as outras pessoas que estão participando disso também estão se sentindo da mesma forma como eu. Como é bom a gente poder falar um pouco da nossa própria vida, né, da nossa própria história E a Unimed que já tem esse afinamento tão grande com a cultura, tentar mostrar como é cada indivíduo que realiza, que trabalha nessa cultura, assim, dessa forma, eu acho isso maravilhoso e me sinto muito orgulhoso de fazer parte desse grupo, me sinto orgulhoso e feliz de estar falando a meu respeito, coisa inclusive que eu não lembrava e que eu nem sabia. P/1 – Agora, para fechar mesmo, eu queria que você desse uma palhinha para a gente de uma das suas músicas, que tem a ver um pouco com esse teu momento que você está vivendo, de renovar, de terminar um trabalho de 20 anos, de estar começando outro, ou que tenha simplesmente a ver com o momento que você está aqui. R – Não é fácil não, até porque aí... P/1 – Tem que procurar, né. R – Tem que pensar um pouco aqui o que teria realmente a ver com… Você vai editar, né, ou isso é direto? P/1 – A gente vai editar, o que tiver que ser sempre... R – Eu vou ter que parar para pensar e ver o que eu cantaria, tem que ser um trechinho só, ou você quer uma música inteira? P/1 – Pode ser um trechinho. R – Um trechinho. P/1 – Um presente para nós. R – Acho que um texto, então, porque tem a ver com alguma coisa d’O Alabê de Jerusalém. P/1 – Ótimo! R – É um texto meio longo, depois você corta se precisar... não, é um texto dO Alabê de Jerusalém, é curtinho, agora eu me lembrei de um outro aqui, que eu não sei se eu vou lembrar dele todo, mas é um que diz assim: “Não há como unificar os homens, nem como agrupá-los numa única fé e nem tampouco um porquê, e é bem mais bonito saber que Deus se manifesta de muitas formas e de que em nenhum lugar ele é ausente. No Egito, os que adoravam Ísis, jamais os percebi menos felizes do que qualquer um de nós. Quando estive nessas terras, rezei também a ela e não tenho dúvida que a entidade do Nilo veio sempre em meu auxílio quando ouviu a minha voz, e como poderia eu querer que aqui na Judéia reverenciassem as entidades do rio? Como poderia querer eu que aqui na Judéia reverenciassem as entidades das florestas, se aqui as florestas não existem? Como poderia eu querer que reverenciassem a entidade do rio, se aqui os rios são tão poucos? E como poderiam acreditar que Iemanjá é rainha do mar, se aqui o mar é Mar Morto? Não, não há como unificar os homens, senão o que seria daqueles que não acreditam nas coisas que são intocáveis? Sou um grande amigo de um desses e posso dizer com segurança, conheço poucos com tanta elegância, com tanto senso de ética e tão responsável.” Esse é um trecho do Alabê. P/1 – [palmas] Muito lindo! [palmas] Em nome da Unimed e do Museu da Pessoa eu agradeço a sua presença, a sua paciência, aqui, de contar as suas histórias para a gente. R – Eu agradeço na verdade à... P/1 – Foi um grande prazer! R – ...paciência de vocês e a boa vontade. P/1 – E a sua voz é maravilhosa, hein! R – Ah, obrigado [risos]. P/1 – Um belo narrador! R – Está bom. --- FIM DA ENTREVISTA ---
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