Busca avançada



Criar

História

A infância de um filho de ferroviário

História de: Carlos Edegar Candido Nunes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2021

Sinopse

Carlos nos conta sobre sua infância como filho de ferroviário, morando em uma casa à beira dos trilhos da estação de Santo Ângelo. Conta também sobre suas experiências viajando nos trens de passageiros e sobre sua vida pessoal.  

Tags

História completa

 

P/1 - Bom dia, senhor Carlos. Tudo bem?

 

R - Tudo bem.

 

P/1 - Vamos começar sua entrevista. A primeira pergunta é o seu nome completo, local e data de nascimento. 

 

R - É Carlos Edegar Cândido Nunes, nascido em dezesseis de março de 1951 [em] Rosário do Sul.

 

P/1 - Qual o nome dos seus pais? 

 

R - Adão Nunes e Ilma Cândido Nunes. 

 

P/1 - Qual era a atividade dos seus pais?

 

R - Meu pai era ferroviário e a minha mãe era do lar. 

 

P/1 -  O senhor tem irmãos? 

 

R - Tenho. Nós éramos seis irmãos, hoje estamos em dois, só. 

 

P/1 - Quais os nomes deles?

 

R - Paulo Roberto, Luiz Alberto, Júlio César, Neusa Maria e Carmen Cecília. 

 

P/1 - E onde o senhor se encaixava? Era o mais velho, mais novo?

 

R - Sou o primeiro, o mais velho. 

 

P/1 - Gostaria que o senhor contasse um pouquinho sobre o cotidiano da sua família na sua infância. Como era o dia a dia de vocês? 

 

R - A nossa história é a seguinte: meus pais moravam em Rosário. Minha mãe era de Livramento, meu pai era de Rosário. Vieram pra Cruz Alta pra trabalhar na viação férrea [e] de Cruz Alta mandaram pra Santo Ângelo - inclusive, eu nasci em Rosário do Sul e vim fazer um ano em Santo Ângelo. 

Ficamos morando na beira dos trilhos; as casas dos ferroviários eram todas laterais aos trilhos. Os irmãos foram vindo, de acordo com o tempo; depois de mim, mais cinco irmãos. 

Nossa vida era uma vida pacata, de gente pobre, ferroviários. Todos morando na beira dos trilhos, [em] casas pequenas. A diversão era jogar um futebolzinho, jogar bulheta, andar de bicicleta. Era essa a nossa convivência na beira dos trilhos.

 

P/1 - Seu pai trabalhava quantos dias por semana? Vocês tinham tempo pra passar com ele ou ele sempre estava trabalhando? 

 

R - Às vezes tinha um tempo com o pai, porque ele viajava muito. O maior tempo era quando eles ficavam trabalhando na cidade e ficavam na manobra [dos trens], era a maioria do tempo que passavam com a família.        

 

P/1 - O senhor gostava de ouvir histórias quando era criança? Seus familiares, vizinhos, contavam histórias pro senhor? 

 

R - Histórias assim, pra lembrar… Tem uma coisa que ficou muito oculta. Os pais da gente não abriam muito, não expandiam o passado pra gente, tanto é que a gente tem parentes que até hoje nunca encontrou. Ficavam muito reduzidos os encontros familiares, porque era muito longe. 

Histórias dos pais, dos meus avós, eu não lembro nem de onde eles moravam, [não lembro] dos pais contarem alguma coisa. Só me lembro que o meu avô, quando apareceu em casa, aqui em Santo Ângelo… Ele veio a falecer aqui, mas conforme meu pai contava depois, ele era lá de Alegrete, casou em Alegrete. A família rodou bastante, dá pra dizer. Meu pai é de Rosário, o pai dele de Alegrete; a minha avó não cheguei a conhecer. 

A minha mãe também [tem] uma história que eu não consegui descobrir até hoje. Ela era irmã de criação do meu padrinho, então não fiquei conhecendo os meus avós pelo lado da minha mãe. Eram todos lá de Rosário também, Livramento, aquela área ali.

São poucas as histórias que eles contaram. Não sei por que o pessoal era fechado demais, não tinha o hábito de contar pros seus filhos o seu passado.   

 

P/1 -  O senhor tinha comentado sobre jogar futebol, andar de bicicleta... Como vocês moravam na beira dos trilhos, tinha alguma brincadeira que estivesse ligada ao trem?

 

R - Bah, aquela que quando o trem vai chegando perto da estação, ele vem devagar, né? Você se dependurava no vagão pra pegar uma caroninha, isso era muito [de] praxe das crianças da beira dos trilhos. Vinha aqueles vagões com banana, que eram com ripa, com espaço, e a gurizada gostava de roubar uma bananinha, pegar as bananas do vagão. 

Isso aí era normal. De vez em quando, levava um ‘corridão’ do senhor que cuidava, o guarda da viação férrea. Eram momentos bons.

A gente morava entre o frigorífico e a antiga Souza Cruz, que era uma fábrica de fumo. Ali, nos fundos do frigorífico, nós fazíamos um campinho de futebol, tinha uma área boa ali. Ficava na beira do rio Itaquarinchim. [Era] onde a gente se divertia, jogando bola. Também não era muito liberado, os pais eram meio rígidos, davam meia hora, no máximo uma hora pras crianças jogarem futebol. 

Fui ganhar uma bicicleta depois de… Quando tinha quatorze anos. Meu pai conseguiu um emprego na antiga companhia telefônica, que depois veio a ser Companhia Riograndense de Telecomunicações. Consegui um emprego pra trabalhar como estafeta, que era [pra] entregar fonogramas, na época, aí meu pai comprou uma bicicleta pra mim. 

Trabalhei dos meus quatorze anos até os dezoito. Quando saí, fui servir o Exército, depois voltei pra firma, onde fiquei até me aposentar. Mas antes trabalhei como auxiliar de chapeamento de carros, foram os dois serviços que eu tive. 

Pra andar de bicicleta aos quatorze anos, só com os amigos, os vizinhos que tinham. Foi uma infância boa, não dá pra dizer que foi ruim, não. 

 

P/1 - O senhor tem uma ideia de como seus pais se conheceram? 

 

R - Não tenho ideia. Não sei falar sobre isso aí, não. 

 

P/1 - Voltando um pouco pra sua infância, como era a convivência nesse reduto ferroviário, com os vizinhos que tinham as casas em volta?

 

R - Bah, isso era ótimo. Eu lembro que o pai, nós tínhamos… Tu tinha a liberdade de criar porco; hoje dificilmente se cria porco em casa. Nós sempre tínhamos cinco, seis porcos no chiqueiro, galinhas… E era aquela liberdade, aquela amizade; tu carneava um porco, mandava um pedaço pra cada amigo ali. Hoje não se vê mais isso. Os caras se dispunham a vir ajudar a fazer a carneação e fazer banha, linguiça, morcilha… Hoje dificilmente tu vai encontrar alguém que faça isso pra te ajudar. 

As brincadeiras… O trem [de] passageiro chegava às quatro e meia da tarde em Santo Ângelo e tinha um senhor que vendia rapadurinha, tinha um carrinho pra vender essas guloseimas - banana, rapadura. Depois que o trem saía, [ele] deixava o carrinho na casa dum outro ferroviário. A gurizada, muito sem-vergonha, conseguiu achar uma chavezinha pra abrir o cadeado da carrocinha do homem, aí nós pegávamos as rapaduras do homem pra comer à noite. Só que não foi muito longe; depois que o pai descobriu, bah, nós passamos uma vergonha que eu vou te contar! 

O [trem de] passageiro foi embora, quando o senhor veio guardar o carrinho dele, me botou e os meus amigos com os pais - meu pai comigo e os pais dos outros colegas, que pegavam as rapadurinhas desse senhor - um do lado do outro. 

O castigo era ‘pegado’ naquela época. Quando o senhor chegou pra guardar o carrinho, ele chamou o senhor e disse: “Esses guris aqui estavam pegando suas rapadurinhas, suas bananas.” [O senhor respondeu:] “Não, deixa os guris.” “Eles têm que aprender que não é pra fazer isso.” Aí os pais mandavam botar as mãos pra frente, pegavam aquelas colheres de pau e davam na nossa mão. Não podia chorar, tinha que engolir o choro, como diz o ditado. 

São coisas que passam na vida da gente, coisas de criança, mas eram coisas erradas. De repente tu vai prum outro lado da vida, fazendo essas pequenas coisas assim. 

 

P/1 - O senhor tinha comentado sobre a casa. O senhor se lembra como era essa casa? 

 

R - Bah, lembro. Uma casa muito pequena, só tinha um quarto, depois a sala e uma cozinha. O banheiro lá fora, os tanques fora. Era muito pequena a casa onde a gente morava. Quando a gente veio pra cá, a gente ficou nessa casa… Era eu de filho e depois uma irmã, então dava bem, mas depois foram aumentando os filhos, aí a gente conseguiu uma casa maior. 

É uma época que deixa lembranças nos filhos… Ferroviário você sabe como era, naquela época era muita festa, eles gostavam de fazer. Tinha os alojamentos dos ferroviários e quando se reuniam... Tinha bastante ferroviário que gostava de música, então tocavam seus instrumentos, faziam as pagodeiras deles. As crianças só iam escutar lá. 

Aqui em Santo Ângelo tinha um músico que se criou com os ferroviários. Infelizmente faleceu, era o João Carlos Cola. [Ele] frequentava muito os ferroviários ali. Teve o dom da música dali, foi um bom músico. 

Quando a gente morava nessa casa pequena, os ferroviários bebiam bastante, tinham o hábito de tomar umas cachacinhas. Eu me lembro que a minha mãe tinha ido a Rosário com a minha irmã e ficamos eu e o meu pai. Meu pai tomava uma cachacinha ‘forçada’; ele deixou de beber a cachaça dele num dia que ele tomou demais e se queimou, caiu por cima do fogão a lenha. Foi aí que ele deixou de beber, mas teve que se queimar pra deixar. 

Ali perto da nossa casa tinha a casa do seu Ataliba, ferroviário também. Seguidamente [dali] saíam as reuniões dançantes dele. Tinha um galpãozinho do lado da casa dele, aí se reuniam os amigos, os músicos. Era festa e churrasco. 

No Dia do Ferroviário, na frente da estação tinha um local de piau, pra baixo; as festas saíam ali. Faziam aqueles buracos no chão pra fazer a brasa e o churrasco saía por ali. Iam todos os ferroviários que estavam no quadro da estação, iam pra festa. Eram momentos muito gostosos. 

 

P/1 - Nessas festas iam só os funcionários ou iam as famílias também? Esposas, filhos.

 

R - Ia toda a família. Eram muito unidos os ferroviários, naquela época. Iam todas as famílias nas festas. 

 

P/1 - No dia a dia de vocês existia essa união, no sentido de uma vizinha cuidar do filho do outro? Essa convivência social de vocês, fora do trabalho da ferrovia, era boa entre os vizinhos?

 

R - A convivência era muito boa. Com o tempo, todos os ferroviários que moravam ali eram praticamente compadres uns dos outros, padrinhos dos filhos dos outros. Não eram compadres os que não moravam muito próximos, mas eram todos amigos. A amizade ali era muito boa. 

 

P/1 - Quando sua família se mudou pra uma casa maior, foi pra perto dali também? 

 

R - Foi também na beira da linha. Tinha mais espaço, um terreno maior. Foi ali que a gente começou a ter as criações, criar galinha. Tinha tua horta, plantava tomate, tudo dava naquela época. Hoje já é mais difícil fazer uma plantação em casa sem colocar produtos, veneno, pra plantação [se] desenvolver. 

Foi muito bom na época que nós pegamos uma casa maior. Muito legal mesmo. 

 

P/1 - O senhor tem ideia de quantos anos tinha quando vocês se mudaram pra essa casa maior? 

 

R - Eu devia ter uns oito, nove anos. Eu fiquei nessa casa até… 1967, quando começaram a transferir os ferroviários, aí meu pai foi designado pra ir pra Cruz Alta. Como eu já tinha esse serviço na CRT, eu fiquei na casa de uns compadres do pai. Primeiro fiquei na casa de uma prima minha, pra não perder o emprego. Emprego naquela época era muito difícil [de conseguir], aí fiquei na casa de uma prima; depois fiquei na casa de um compadre do meu pai - morando de favor, pagando uma pensãozinha pra eles, até ir pro quartel.

Depois do quartel, eu voltei pra empresa. Em 76 eu casei, aí fui fazer a minha vida independente. 

 

P/1 - Voltando um pouco pra esse período da sua infância, eu queria perguntar se o senhor tinha algum sonho. “Quando eu crescer, eu quero ser tal coisa.”

 

R - Bah, tinha. O meu sonho era ir pra Aeronáutica. Eu fazia aqueles cursos por correspondência, só que as ideias do meu pai eram diferentes das minhas. Quando ele descobriu que eu estava fazendo o curso, ele ficou brabo. Ele não queria um filho morrendo lá no ar. (risos) Eu ia andar de avião, aí ele ia perder um filho assim. Botou tudo fora os papéis que eu tinha.

Não pude ir pra Aeronáutica, que era meu sonho. Esse foi um sonho frustrado.                   

 

P/1 - Queria perguntar um pouco sobre a sua vida escolar. Qual foi a primeira escola em que o senhor entrou e que lembranças o senhor tem desse período? 

 

R - A primeira era perto do bairro Castelarim, uma escola municipal. Estudei um pouco ali, estudei também no Colégio Adventista. Depois fui pro Colégio Onofre Pires, depois pro Colégio Estadual Missões e depois, como eu estava trabalhando e viajava muito, tive que parar de estudar. 

Quando estava aquela transição, depois de privatizarem [a companhia telefônica], eu queria voltar a estudar, porque estava ‘pegada’ a coisa. Fui falar com meu chefe do setor - aliás, foi uma das decepções também, os caras tinham uma cabeça meio… Eu fui falar pra ele pra eu parar de viajar e trabalhar na cidade pra voltar a estudar. Ele me mandou escolher: ou estudar ou trabalhar. 

Eu era solteiro ainda, pagava pensão, como ia sobreviver? Não tinha como largar o serviço pra estudar. Aí não pude voltar. São as coisas que acontecem na vida da gente. 

 

P/1 - O senhor tem alguma lembrança do momento que entrou na escola? Algum professor que marcou, alguma situação que marcou o senhor? 

 

R - Uma coisa que sempre acontecia quando eu estudava no Colégio Onofre Pires… Tinha uma pracinha que existe até hoje e no colégio sempre tinha aquelas desavenças da gurizada, jogando futebol ou um que não gosta de ti. Tu usava uns tapa-pós grandes, um jalecozinho curto, mas antes de entrar na aula tinha que brigar primeiro. Quando se encontravam, era briga na certa com o desafeto, antes de entrar na escola. Tinha que ‘tirar as dúvidas’ ali, depois ia pra aula. Tinha que tirar o tapa-pó pra não sujar.

Coisa boa, foi divertido. Uma briga sadia, não tinha negócio de faca, não tinha arma. Era só de soco. Mas era uma época boa. 

Fazia-se muitas amizades, os professores [eram] bons. Tinha o professor de inglês, o senhor Arno, a professora Emilse, a professora Gelsemina, que passaram… Gente boa. Outros professores tu não consegue guardar o nome, muita gente. 

 

P/1 - Nessa escola existia festas, comemorações, algum tipo de evento que vocês participavam?

 

R - Festas eram muito poucas. As festas nesses colégios de antigamente eram mais preparação para o Sete de Setembro, esses eventos que…

 

(PAUSA)

 

P/1 - O senhor estava falando que tinha poucos eventos na escola. Eu queria que o senhor contasse um pouco como era o dia a dia dessa escola.

 

R - Festas, que eu me lembre, eram muito poucas. Uma época boa do colégio era quando tu recebia aquelas merendas, tinha a hora do… Era um copo de café com leite com bolacha, pão. Coisas boas. A hora do recreio a gente gostava demais, pra se encontrar com os colegas das outras salas. Era ótimo. 

Além da escola, depois que… Mesmo estudando, eu fui pro escotismo. Fiquei cinco anos como escoteiro. Eram coisas boas também que a gente fazia. 

Quando se aproximava a Semana da Pátria, como escoteiros, nós íamos até as ruínas de São Miguel, que ficam a 46 quilômetros daqui, pra buscar o fogo simbólico. Íamos em cima de uma caçamba da prefeitura, e [quando] chegávamos lá esperávamos até a meia-noite pra acender a tocha no meio das ruínas de São Miguel. Fazíamos um cerimonial lá, junto com um senhor que cuidava do patrimônio, e depois a gente largava correndo de lá. Cada um corria um pouco, com aquela tocha na mão. 

Às oito horas a gente tinha que estar aqui na frente da catedral pra acender a pira. Eu lembro que a gente chegava na entrada da cidade, trocava de camiseta, aí vinham todos juntos até chegar na frente da catedral, onde estavam os colégios, aguardando o cerimonial de acender a pira e dar início à Semana da Pátria. 

Eram as coisas boas que a gente fazia no escotismo. Foi muito bom. Acampamentos que se fazia, [era] muito educativo. 

 

P/1 - Como o senhor entrou no escotismo? Foi por meio da escola?

 

R - Aconteceu por convite de amigos, colegas de escola que frequentavam o escotismo e a gente acabou indo. [Era] muito bom, [passamos] momentos ótimos. Acho que foi em 64 que caiu neve aqui em Santo Ângelo e os escoteiros tiveram que ajudar a recolher agasalhos pros desabrigados. O que eu passei de frio naquela vez que… Era aquela neve caindo e tu de calça curta, passei uma friagem danada pra recolher agasalho. 

Na Semana da Pátria fazer cordão de isolamento, cuidar pro pessoal não invadir o desfile, isso era ótimo. 

Hoje dificilmente tu vê um escoteiro fazendo essas coisas, não se faz mais. Eu achava muito legal esse negócio de ir às ruínas de São Miguel pra trazer o fogo simbólico de lá; hoje eu nem sei como é que eles fazem pra acender a pira, não sei de onde é que vem o fogo. Eram coisas boas. Eram um negócio mais rústico, mais missioneiro, como se diz. 

 

P/1 - O senhor me disse que passou por várias escolas. Elas eram próximas da casa do senhor? Como o senhor ia pra escola? 

 

R - Sempre a pé, não eram muito longe. O quadro da viação férrea ficava praticamente ao lado da cidade. A cidade não era muito grande naquela época, deveria ter uma base de vinte mil habitantes, eu acho. Era tudo a pé. 

Tinha muito pouco carro em Santo Ângelo. Não lembro de algum ferroviário ter carro naquela época, o salário não era tudo aquilo pra juntar e adquirir um veículo. Era muito difícil. 

 

P/1 - Como o senhor ia a pé, qual a relação que o senhor tinha com a cidade? O que o senhor lembra da cidade, dos lugares que frequentava? 

 

R - De casa era pra escola e da escola era pra casa. Não tinha o que desviar porque os pais controlavam muito o horário de sair e voltar. 

Eu tinha uns desafetos, não sei por que; acho que deveria ser pela cor. A raça negra era pouca em Santo Ângelo na minha época, hoje já tem bastante. Pra eu sair do quadro da viação férrea e ir ao açougue… Eu tinha dois irmãos que moravam no caminho do açougue, mas cada vez que eu ia tinha que correr deles [dos desafetos]. Eles se atracavam de pedra em mim e o negócio era correr, não tinha o que fazer, [como] enfrentar eles. 

Depois, com o tempo, a gente foi crescendo, e no fim a gente fez até amizade, mas Santo Ângelo sempre foi assim, uma cidade de pouca raça negra. Com o quartel, foram vindo muitos militares do Rio de Janeiro e vinham muitos negros, aí foi aumentando. 

Querendo construir a etnia negra aqui… Levamos 28 anos pra poder construir um local pra gente fazer a nossa sede. 

 

(PAUSA) 

 

P/1 - O senhor estava falando que tinha levado muitos anos pra construir um espaço ligado à cultura negra da cidade. Queria que o senhor explicasse um pouco mais a respeito disso, como aconteceu.

 

R - Primeiro, os troncos… Muitos já faleceram, [os] que começaram essa batalha. Foi um giro de pessoas em trabalho, a respeito disso. Eu também batalhei bastante, junto com colegas, prefeitura.. Trocava prefeito e tu ia, pra conseguir um terreno. Até conseguimos um terreno no parque de exposições - ali tem todas as etnias: a italiana, alemã, polonesa… 

Conseguimos construir a nossa casa. Não era como o desejado, mas hoje, graças a Deus, a gente já tem uma casa onde a gente possa expor a cultura negra. 

Isso foi uma grande vitória nossa. Anteriormente, saía a festa da Fenamilho [Festa Nacional do Milho] no parque e nós não tínhamos um local onde expor a história da etnia. Hoje a coisa já está bem encaminhada.

 

P/1 - Qual é o nome desse local? 

 

R - Do parque de exposições é Siegfried Hitter.

 

P/1 - E ali dentro tem essa parte exclusiva de vocês, da cultura negra.

 

R - Da cultura negra e das outras etnias também.

 

P/1 - O senhor sabe como isso começou a ser criado, quem teve a ideia?

 

R - Do parque? 

 

P/1 - De incluir a etnia negra, ter um espaço específico pra cultura negra nesse pavilhão de exposições. 

 

R - Não sei dizer o mentor disso, não sei te explicar. Provavelmente deve vir outro colega meu, que hoje é o presidente, filho de ferroviário também, o Daniel Amarante. Ele vai saber colocar todos esses dados.

 

P/1 - Certo. Avançando um pouco na sua vida escolar, o senhor disse que começou a trabalhar. O senhor ainda estava estudando quando começou a trabalhar na companhia telefônica ou não? 

 

R - Estava estudando. Depois, quando eu passei pra outra área e comecei a viajar, aí eu tive que abandonar os estudos porque não tinha como comportar os dois. Ficava quinze, vinte dias fora da cidade, então não dava. 

 

P/1 - Quando o senhor começou a trabalhar, como foi isso? A questão de circular pela cidade, já ter a sua própria renda. Que atividades o senhor fazia com seus amigos nessa época? 

 

R - A cidade era só quando tinha quermesse das igrejas, alguma boatezinha. O problema é que o dinheiro que eu ganhava eu ainda tinha que mandar pra casa, pra ajudar os velhos. Eu pagava minha pensãozinha, sobrava pouca coisa pra passar o mês porque eu tinha que ajudar ainda. 

Hoje em dia é diferente, cada um pro seu lado. Tu trabalha, o dinheiro é teu; tu não te envolve, não envia dinheiro pra casa. Tem uns que ainda insistem nisso…

 

(PAUSA)

 

P/1 - Vamos retomar então. O senhor estava falando que tinha que enviar dinheiro pra família, por isso sobrava pouco pra que o senhor pudesse ter outras atividades. Nessa época, a sua diversão era os eventos na cidade, como quermesses?

 

R - Exato. Era muito restrito, poucas festas. Era festa de igreja que saía naquela época. Nos clubes, você não tinha condições de comprar roupa boa pra frequentar os eventos, então ficava só nas reuniões dançantes nos bairros, nos núcleos comunitários, em alguma boate na cidade. Essa era a vidinha de diversão. 

 

P/1 - Nessa época, seu pai continuou a ser ferroviário ou deixou de ser e foi pra outra atividade? 

 

R -  Não, sempre ferroviário. Ele se aposentou ali. 

 

P/1 - E aí o senhor começou a viajar pra outras cidades, pelo seu primeiro emprego. Pra quais cidades o senhor viajava, como era esse trabalho? 

 

R - Meu trabalho era [em] construção de linhas telefônicas, no início. Viajava pra toda a região noroeste daqui, a gente atendia todo esse lado aqui. Região noroeste, Alto Uruguai… Era o serviço que a gente fazia pela empresa. 

 

P/1 - O senhor trabalhou nessa atividade até chegar ao serviço militar?

 

R - Até chegar o serviço militar, eu trabalhava como estafeta, que era entregador de fonogramas. Depois eu passei pro setor… Como operário de construção de linhas telefônicas. Depois passei pra instalador de telefone, depois passei pra supervisão de cabos e aparelhos telefônicos. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Bom, a gente estava falando sobre as suas atividades na companhia telefônica. O senhor começou como entregador de fonogramas e depois trabalhou como operário. 

 

R - Isso, como operário, depois com a instalação de aparelhos telefônicos e depois com supervisão. 

 

P/1 - Antes de passar por essas funções, o senhor serviu o serviço militar? 

 

R - Saí da empresa, fui pro Exército, fiquei quase um ano lá e voltei pra empresa. 

 

P/1 - Isso foi mais ou menos em qual ano? 

 

R - Eles me efetivaram em primeiro de setembro de 1967. Eu me aposentei em dez de novembro de 1997. Foi quando deu aquela privatização, aí eu saí. Saí porque eles queriam me mandar pra Porto Alegre, e como eu tinha tempo proporcional pra me aposentar… Tinha o deslocamento da família pra Porto Alegre; é uma cidade grande, eu não sei como ia me portar lá ou morar longe do setor onde ia trabalhar, aí resolvi com a família que eu ia me aposentar e ficar por Santo Ângelo mesmo.

 

P/1 - Depois que o senhor retornou do serviço militar, o senhor continuou viajando? 

 

R - Eu voltei pra companhia telefônica, mas não aceitavam o pessoal maior [de idade] como entregador de fonograma. Eu fui a Porto Alegre pra fazer um teste com eles; se eu passasse, eu continuaria na empresa, se não eu teria que sair. A minha admissão estava ali, porque maior [de idade] não podia trabalhar naquela área. 

Fiz as provas lá e deu tudo certo, aí continuei na empresa até me aposentar. 

 

P/1 - Eu queria que o senhor comentasse um pouco sobre a sua experiência no Exército, até porque o senhor comentou que tinha o sonho de [servir] na Aeronáutica. 

 

R - Foi uma experiência ótima. Eu trabalhava no pelotão de comunicações do Exército, peguei a mesma área [em] que eu trabalhava fora. 

Tive a oportunidade de ficar, mas eu não quis. Não era aquele Exército que eu queria, né? Preferi dar baixa e voltar pra empresa. 

 

P/1 - Quando o senhor voltou e fez esse teste pra confirmar sua admissão, pra qual área o senhor foi? 

 

R - Aí que eu comecei como operário. Conforme os anos foram passando, fui crescendo dentro da empresa, até ficar como oficial de telecomunicações, ficar na supervisão. 

 

P/1 - Como era esse trabalho? 

 

R - Trabalhar na fiscalização é… Tinha as terceirizadas que a empresa contratava, aí tu tinha que supervisionar esse pessoal e comandar um setor que era uma base de quinze a vinte homens. 

Na supervisão das empresas, às vezes você tinha que sair da cidade, porque trabalhavam em outras cidades. [Era] controlar o andamento do serviço, o tempo, o desenvolvimento diário. Tinha uma meta por dia pra executar, então tinha que acompanhar isso. 

Tinha um prazo pra entregar a obra também, além da documentação diária que você tem que fazer, pra entregar semanalmente pra empresa. Era o que eu fazia. 

 

P/1 -  Nesse meio tempo, antes de o senhor se casar, quais eram as suas atividades além do trabalho? O que o senhor fazia pra se divertir no seu tempo livre?

R - Meu tempo livre era futebol e reunião dançante, [me] reunir com os amigos, escutar música. Não tinha muita coisa pra fazer. A música com os amigos era ótima.  

 

P/1 - O senhor ainda morava com seus pais? 

 

R - Já morava sozinho. 

 

P/1 - Como era seu deslocamento pra acompanhar esses trabalhos, tanto como operário como depois, como supervisor? O senhor usava o trem pra se deslocar?

 

R - Não, aí já tinham terminado os trens [de passageiros]. Não existiam mais aqui. Era com o carro da empresa mesmo. Teve uma época que eles tinham carro contratado, não tinha carro próprio da empresa. Tinham carro contratado com motorista e tudo, então tu se deslocava com esses carros.

 

P/1 - A estação de Santo Ângelo foi desativada em 69 para trens de passageiros. O senhor já deve estar falando da década de 70, então. 

 

R - 70 pra cima. 

 

P/1 - O senhor continuou morando em Santo Ângelo. Como foi pra vocês, em geral, o impacto da desativação dos trens de passageiros?

 

R - Bah, isso foi muito sentido pela população. O deslocamento pelo trem passageiro era uma forma muito boa pro pessoal de pouco [poder] aquisitivo, as passagens não eram tão caras. Naquela época, já existia ônibus pra outras cidades, mas o trem [estava] sempre cheio. Quando tinha o trem passageiro, era lotado. Tinha a primeira classe e a segunda classe… 

[Quando] terminou o [trem] passageiro, foi terrível pra cidade. 

 

P/1 - O senhor chegou a utilizar o trem com a sua família quando era criança?

 

R - Muitas vezes. O que eu viajei de trem, bah… Ia pra Santa Maria, Porto Alegre, Rosário… Quando tu tem menos de dezoito anos, é uma diversão, coisa boa viajar de trem. E outra [coisa], de trem tu vê outra paisagem, é bem melhor que andar de ônibus. De ônibus tu só vê o asfalto, é pouca mata verde.

 

P/1 - O senhor utilizava o trem nessa época pra visitar a família, a passeio?

 

R - Era só pra visitar família que a gente se deslocava, não tinha muito… O passeio era ir pra casa dos parentes, só isso. 

 

P/1 - O senhor se lembra como era o trem por dentro, como se sentia circulando dentro do trem?

 

R - Isso que era bom, não cansava. De ônibus tu fica só sentado, no trem tem a possibilidade de se deslocar de um vagão pra outro. 

Eu me lembro dos trens. Na primeira classe podia virar os bancos, trocar a posição do encosto, trocava a posição de sentar. Era ótimo, bah! Até hoje eu sinto falta do passeio de trem. 

Esse ano acho que teve um passeio de trem aqui, mas eu não fui. Outra vez que teve, eu levei minhas filhas pra passear. 

Eu me recordo de quando meu pai viajava ainda, que ele vinha na estação. Eu levava… Minhas filhas eram pequenas, [eu levava] pra entrar na máquina, conhecer. Bah, eu ficava muito feliz. Era muito boa aquela época. 

 

P/1 - Voltando um pouco pra sua trajetória profissional e pessoal, o senhor disse que se casou na segunda metade dos anos 70. Foi em 76, é isso?

 

R - Foi em 76. 

 

P/1 - Como o senhor conheceu sua esposa? 

 

R - Eu conheci… Inclusive, ela não morava aqui em Santo Ângelo. Ela se criou com a avó dela, que morava em Porto Alegre. Ela veio pra casa da mãe dela, aqui em Santo Ângelo, e conheci ela em uma reunião dançante, dessas que eram normais na época. 

A gente namorou uns cinco anos pra depois casar. E a gente tá junto até hoje, de 76 até hoje. Faz uns anos…(risos)

 

P/1 - Quantos filhos vocês têm?

 

R - Eu tenho três filhas, todas moças já. Todas casadas? 

 

P/1 - Já casadas?                

            

R - Sim, a mais nova tá com 32 anos. 

 

P/1 - Quais os nomes delas?

 

R - A primeira é Regilisa Macedo Nunes, a segunda é Carolyn Macedo Nunes e a terceira é Maiara Macedo Nunes. Depois tem três netos. Da primeira tem a Ágata, que está se formando em Jornalismo em Cruz Alta. Depois tem o Pietro, que é da minha terceira filha; está com sete anos. E o Davi tem quatro anos, é da filha do meio.

 

P/1 - Depois que o senhor se casou, o senhor continuou viajando? Já tinha esse cargo de supervisão ou isso aconteceu depois? 

 

R - O cargo de supervisão aconteceu depois. Eu continuei viajando muito, mas essa época que eu viajava foi benéfica pra minha vida e a vida da minha esposa. Ela foi muito guerreira pra controlar os pedreiros e comprar material pra aumentar a casa. Eu vinha de quinze em quinze dias pra cá, só pra dar as coordenadas, alguma coisa, e deixar dinheiro. Foi muito bom. 

Foi sofrido, tem que se sacrificar um pouco, mas pra conseguir as coisas tem que achar uma maneira e enfrentar as dificuldades. 

 

P/1 - Voltando a falar sobre as suas filhas, como foi a sua experiência de ser pai? 

 

R - Bah, no início foi ótimo. Quando os teus pais estão com uma certa idade, tu tem aquela preocupação quando [se] casa de dar um neto pra eles, pra eles terem o prazer de conhecer um neto. [Eles] têm essa vontade de conhecer os netos. 

Foi em 77 que nasceu a minha primeira filha. A minha mãe faleceu muito nova, com 53 anos, mas ela conheceu a neta. Os outros ela não teve o prazer [de conhecer]. E o meu pai faleceu em 96, só conheceu a primeira [bis]neta. Os outros dois, não.

 

P/1 - O senhor se aposentou em qual ano, exatamente?

 

R - Foi em dezembro de 97. 

 

P/1 - Depois da sua aposentadoria, o que o senhor passou a fazer no seu dia a dia? 

 

R - Em 98, trabalhei em umas empresas terceirizadas; fui até 2001. Aí abandonei, não quis mais. Fiquei só “do lar”. 

 

P/1 - O que o senhor considera mais importante na sua vida hoje em dia? 

 

R - O mais importante é a família, o teu dia a dia com a família. A convivência com as filhas, com os netos. E o teu bem estar, tem que preservar o teu bem estar. Cuidar da saúde, que é o principal. 

Não tem mais o que fazer. Voltar a estudar com a idade que estou já não tem… Só pra ter um passatempo, no caso. Fico em casa, só trabalhar em casa agora, né? 

 

P/1 - Voltando um pouco à ferrovia, o senhor se lembra de como era o trabalho do seu pai? Tem alguma lembrança de infância sobre isso? 

 

R - Eu me lembro que quando chegavam os vagões com areia - naquela época, usavam muita areia pra frear os trens - o meu pai me levava junto pra ajudar a descarregar os vagões de areia. Eu tinha doze, treze anos, acho, e ele me botava no compromisso de ter que descarregar. 

Tinha o areeiro, onde eles faziam a secagem da areia pra frear os trens. Trabalhei muito com ele, descarregando areia na viação férrea. 

 

P/1 - O cotidiano de trabalho dele, o senhor tinha uma ideia de como funcionava? 

 

R - Tenho. Cansei de… Ele ficava no quadro da viação férrea e às vezes, ao meio-dia ou de noite, eu levava a viandinha de refeição pra ele, porque eles não podiam sair de lá. São lembranças que eu tenho dele. 

Tem o museu dos ferroviários ali na viação férrea. Levei os meus netos pra mostrar,  inclusive tem fotos do meu pai ali. Os locais onde eu levava comida pra ele, que ele sentava pra se alimentar, isso eu mostrei pra eles. Ainda tem os locais ali. 

 

P/1 - É justamente isso que eu ia perguntar, porque a estação foi desativada, mas hoje em dia existe o museu. Eu ia perguntar se o senhor já tinha ido visitar. 

 

R - Sim, levei a família pra ver. Quando vêm os familiares de fora, a primeira coisa que eu faço é levar eles lá pra ver as recordações. 

 

P/1 - O senhor acha que esse museu é algo bastante presente pra vocês na cidade? As pessoas se lembram dessa época do trem, comentam? Existe interesse nesse museu, em conhecer a história da ferrovia? 

 

R - Ele é bem visitado, viu? Pra quem é filho de ferroviário, [aquilo] já é conhecido, é uma recordação. Pra quem nunca viu, pra quem não foi filho de ferroviário, é uma novidade, um conhecimento do passado. Isso que torna legal o museu. 

 

P/1 - Como o senhor se sente quando entra no museu e vê, por exemplo, fotos do seu pai?

 

R - Dá bastante emoção aquilo, cara. Muitos conhecidos, muitos ferroviários [com] quem eu tive amizade. Tem cada recordação ali… 

Quando meu pai morava em Cruz Alta, eu sei que ele tinha muitas fotos que eles tiravam nas máquinas. Eu não sei que fim levou aquelas fotos; se eu tivesse encontrado, eu ia trazer pra colocar no museu também. 

Acho que ainda tem pouca foto no museu. Tinha que ter muito mais, pelo número de] ferroviários que passaram por aqui. 

 

P/1 -  E seus filhos, seus netos, como se sentem ao ver ali a foto do avô, do bisavô no museu? O que eles comentam?

 

R - Eles tinham curiosidade pra ver, conhecer o avô deles. Chegam ali e batem foto, querem ficar com recordação. É emocionante pra eles. 

O meu avô, eu não sei… Estava olhando na certidão de óbito que ele era ferroviário, mas eu não lembro do passado dele. Só sei por aquilo ali, não sei a história dele. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - O senhor estava comentando sobre seu primo que veio jogar na cidade e o senhor não o conhecia, foi conhecê-lo. 

 

R - Exato, foi isso. Eu não conhecia o Neco, o mais velho dos primos; ele veio jogar em Santo Ângelo, num time. Depois ele foi embora e veio outro irmão dele, o Júlio César, também pelo futebol. E fui à procura dele no hotel, a gente conversou; eu levei ele em casa pra conhecer a família. Mas a gente nunca se visitou, a gente tá programando pro fim do ano [de] ir à Livramento pra ver se [a gente] se reúne com a família. 

 

P/1 - O que o seu pai fazia no tempo livre dele?

 

R - O tempo livre do meu pai era o seguinte: tinha uma turma de ferroviários ali que eram músicos, então depois do expediente, quando estavam de folga, tocavam na zona. Tinha uma zona aqui em Santo Ângelo e eles tocavam nas boates. 

Quando voltavam pra casa era aquela… Voltavam bêbados. Eu não sei se tinha algum ferroviário que não bebia naquela época. O pessoal gostava de uma festa mesmo. 

Os ferroviários eram meio metidos a músicos naquela época. A diversão deles era essa, não tinha outra; pelo menos meu pai não fazia outra coisa a não ser isso.                               

 

P/1 - A gente teve a informação de que o senhor gosta de pescar. Eu queria que o senhor contasse um pouco de onde veio isso.

 

R - Isso foi da infância. Quando eu morava no quadro da estação, quando chovia, meu pai já falava: “Vai arrancar as minhocas pra gente descer pro rio e pescar.” Era a diversão que a gente tinha, então fui pegando o hábito. 

Quando eu trabalhava, não tinha esse tempo pra fazer pescaria. Quando me aposentei, disse: “Bah, agora vou me dedicar a pescar, coisa que eu gosto.” 

Eu tenho uns amigos que têm casas perto de Manoel Viana, perto do Rio Ibicuí; a gente vai, fica uma semana lá pescando, se divertindo. Agora, com essa pandemia, não tem como sair, então eu fico em casa, mas a parceria… Estão todos lá, nessa época. Logo vem a piracema, fecha a pescaria, aí só em fevereiro pra voltar. 

 

P/1 - Conte um pouco como o senhor faz isso. O senhor leva suas filhas, seus netos pra pescar? Passou esse costume adiante? 

 

R - Meus netos têm vontade de ir, mas são muito pequenos. Quando eu vou pescar, eles querem ir junto, mas não tem como levar. Eles vão sentir saudade de pai e mãe, se tu vai longe… Não é pela dificuldade, porque tem casa, acomodações, mas o problema é a saudade que eles sentem dos pais. São muito novinhos, sete e quatro anos. Mas eu acho que eles vão gostar do esporte. 

 

P/1 - Como o senhor se sentia quando criança, fazendo isso no rio? Vocês pegavam as minhocas, desciam pro rio… O que o senhor lembra disso?

 

R - Eu gostava muito. Botava aquelas capas de chuva, ia pecar chovendo. 

O meu pai tinha pavor de mussum; Deus o livre, ele tinha uma raiva daquilo quando pegava.... E dava muito mussum no rio Itaquarinchim. Quando ele pegava, ele cortava tudo com linha e jogava na água de volta. Ele achava muito parecido com cobra. 

Eu era o companheiro dele pra pescar. Uma vez, nós fomos pescar perto da… A uns seis quilômetros de casa, aí fomos de bicicleta - eu, meu pai, outro colega de trabalho do meu pai e o filho desse colega. Meu pai gostava de tomar um vinhozinho e fazer um carreteiro à beira d’água. 

Na volta, era estrada de chão e as bicicletas [eram] com farol. Meu pai largou de bicicleta e eu fiquei pra trás, com os outros colegas. Ele olhou pra trás e viu a luz; era a luz da bicicleta, mas ele achou que era carro e foi encostar mais pro lado da estrada. A bicicleta derrapou naquelas pedras e virou de ponta. 

Quando eu vi, encontrei o… “Mas é o pai que tá passando ali, no meio do escuro?” Chamei ele pelo nome [e perguntei:] “Pra onde tá indo?  “Tô indo pra casa.”  “Não, mas não é pra esse lado, é pra cá.” “Não, é pra cá.” Ele caiu, a bicicleta girou, mudou de lado, e ele tava voltando pra pescaria. Ele ficou brabo comigo, porque eu tinha que acompanhar ele. (risos) 

São uns momentos que eu vou te contar, momentos de pescaria… (risos)

 

P/1 - Tem mais algum momento marcante dessas pescarias? 

 

R - Nessa mesma pescaria, o colega dele não tinha levado linha de pescar, aí ele emprestou uma linha. Jogaram na água e botavam um papelzinho branco na linha, pra ver quando o peixe puxava de noite, ficava fácil de visualizar. 

O pai [estava] sentado ali, cuidando, e o outro colega dele, sacana, pegava uma varinha e batia na linha do pai; o pai se atirava pra cima, achando que era peixe que tava puxando. Depois que ele descobriu, ele queria brigar com o colega dele. (risos)

 

P/1 - A gente vai se encaminhar pro encerramento da sua entrevista. Além das suas atividades de pescaria, como é o seu dia a dia hoje? E depois da pandemia, desse isolamento, o que acabou se alterando no seu dia a dia?               

                                               

R - Essa pandemia cortou… Meu irmão mora em Porto Alegre, às vezes eu quero visitar os parentes… Lá também tem uma turminha de pescadores, tenho uns quantos primos em Porto Alegre. Fizeram uma pescaria lá e eu não pude ir, por causa dessa pandemia. Agora, só pra fevereiro, estamos combinando de fazer uma pescaria lá.

O resto, agora… Eu só fico em casa. Tá muito restrito ainda, na nossa área, pra sair. Tu vai no mercado só quando é necessário, não tem como ficar dando volta na cidade. Só de carro, porque passear a pé é difícil. Pelo menos a minha família não sai. 

O resto é só em casa: vai escutar música, lavar calçada, cozinhar, esses servicinhos domésticos. 

 

P/1 - Esses lugares de pescaria que o senhor costuma frequentar são em Santo Ângelo mesmo ou em outras cidades?

 

R - Onde eu vou fica longe, são uns trezentos e poucos quilômetros de Santo Ângelo. É em Manoel Viana, uma cidadezinha.

 

P/1 - Então está mais pra Porto Alegre. 

 

R - Mais pro lado da fronteira. Depois tem a área lá pro lado de Porto Alegre, onde a gente vai também. Lá a distância eu não sei dizer, porque os primos que arrumam os lugares pra pescar. Tem que conseguir ordem, dependendo do lugar que tu vai entrar; pra não invadir. 

 

P/1 -  Quais os sonhos que o senhor tem pro futuro?

 

R - Meu futuro, cara… A única coisa que eu tô fazendo agora é procurar comprar uma residência pras filhas. Depois tá tudo certo, é só sobreviver com o que a gente ganha e viver a vida. 

 

P/1 - Tem alguma coisa que o senhor gostaria de falar que eu não perguntei? Algum ‘causo’, alguma coisa interessante que o senhor gostaria de falar sobre a sua vida? 

 

R - Não, da minha vida acho que tá bem completa, até. Eu gostaria de saber de vocês, se vocês têm algum vínculo com a família ferroviária. 

 

P/1 - É um projeto da RUMO, a empresa que hoje em dia administra a linha férrea, junto com o Museu da Pessoa, do qual eu faço parte. A gente está fazendo esse projeto pra registrar a memória da linha férrea de Santo Ângelo. Várias pessoas estão sendo entrevistadas - filhos de ferroviários, ex-ferroviários, cidadãos, historiadores - pra gente tentar montar um quebra-cabeça, digamos assim, do que foi a linha férrea durante o tempo que ela esteve ativa com os trens de passageiros. É essa a nossa intenção: saber como as pessoas viviam junto à linha férrea, como elas frequentavam os trens. Recuperar essas memórias. 

 

R - Ótimo. 

Tem mais gente, se vocês quiserem fazer entrevistas. Tem mais uns amigos que se criaram na beira dos trilhos. 

 

P/1 -  Sim, a gente tem uma lista de pessoas.

O que o senhor espera da ferrovia para os próximos anos? O senhor acha que no futuro vai voltar o trem de passageiros? 

 

R - Bah, a primeira coisa que eu ia fazer era passear de trem, mas não sei se isso vai se viabilizar ainda. Eu sei que nós temos aqui um juiz, não sei, um promotor que batalha muito em cima da volta da viação férrea. Seria muito bom se voltasse mesmo. Existe alguma perspectiva de voltar? 

 

P/1 - A gente não tem essa informação, mas quem sabe? A gente pergunta pra todos os entrevistados se eles têm alguma expectativa, se acham que deveria voltar. A gente pergunta se o senhor tem um desejo pessoal mesmo. 

 

R - Acho que isso não é só a minha vontade, acho que é geral. Se voltasse o trem passageiro, ou o minuano que tinha na época, acho que ia ser benéfico pra população brasileira. 

 

P/1 - A última pergunta: como foi pro senhor contar a sua história de vida pra gente? 

 

R - Foi benéfico, gostei muito. Isso é algo que vai ficar registrado. Se eu não contar aqui vai morrer comigo, então é bom explanar. O pessoal fica sabendo, os conhecidos também ficam sabendo como foi a minha infância, a minha vida passada. É ótimo, agradeço muito a intenção de vocês de registrar isso. 

 

P/1 - Eu que agradeço, em nome do Museu da Pessoa e da RUMO, pelo seu depoimento. Muito obrigado pela entrevista. 

 

R - Valeu, agradeço. 

 

  

 

              

          


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+