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História

A indústria brasileira fez o seu dever de casa

História de: Jorge Kalache Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/10/2018

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, Jorge Kalache Filho conta sobre a sua trajetória no BNDES, no campo da indústria, comércio e serviços. Fala sobre os rumos que o Banco planejou após a crise do petróleo, os planos nacionais de desenvolvimento, a substituição de importações, as desestatizações e como se pensavam as estratégias sobre os modelos tripartites. Deixa bem claro que esses processos exigiram muito estudo e diversas discussões para que a indústria brasileira pudesse se desenvolver e se tornar cada vez mais eficiente e competitiva internacionalmente.

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História completa

P/1 – Paula Ribeiro

P/2 – Márcia Paiva

R – Jorge Kalache Filho

 

P/1 – Boa tarde, Kalache.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Eu gostaria de começar o nosso depoimento pedindo que o senhor nos forneça o seu nome completo, o local e a data de nascimento, por favor.

 

R – Tá. O meu nome completo é Jorge Kalache Filho. Eu nasci em 15/9/1949, aqui no Rio de Janeiro.

 

P/1 – E os seus pais, o nome deles e a origem.

 

R – Tá. Bom, a história da família Kalache aqui no Brasil acho que se inicia com a vinda do meu pai. Quer dizer, o meu pai nasceu numa cidade chamada Antioquia que até, acho que é um berço da civilização da história da religião católica, né? E na época que ele nasceu, essa cidade pertencia a Síria. Quer dizer, ele nasceu por volta de 1910 e em 1924, 1925, ele veio para o Brasil de navio. Ele tinha aqui no Brasil só um tio dele. Então, ele veio, começou a trabalhar com esse tio numa loja. Depois ele se tornou um comerciante na Rua da Alfândega, trabalhando com venda de artigos masculinos. Tinha também uma indústria de confecção e na medida que ele se desenvolveu, ele foi trazendo a família. Veio trazendo meu tio. Depois vieram as tias e os meus avós. Por parte de mãe, quer dizer, ela nasceu aqui no Brasil. Ela é paulista. Eles se conheceram numa estação de água, mas a origem dela, era descendente de portugueses e italianos. Se conheceram e vieram a casar em 1942. Então, ela morava em Belo Horizonte e vieram morar aqui no Rio de Janeiro, onde depois nasceram os filhos. Enfim, foi estabelecida a família.

 

P/1 – Bom, em relação a essas tradições sírias, árabes, como é que isso permanece na família? O que é que você valoriza em termos de tradição, cultura ou valores que seu pai tenha passado para os filhos?

 

R – Eu acho que a coisa mais importante que meu pai passou para família foi a história de vida dele e a personalidade dele. Quer dizer, ele foi uma pessoa que sempre deu muito valor a família. Ele era um cara do bem, né? Quer dizer, ele sempre procurou unir a família, integrar a família e ele tentou passar para os filhos o que ele não teve oportunidade de fazer, que foi ter um estudo, cursar uma universidade. Então, todos os filhos tiveram. Eu tenho irmão advogado, um irmão que é médico, que você conhece, né? Que, hoje em dia, trabalha na Organização Mundial da Saúde. Eu sou engenheiro e tenho uma irmã arquiteta. Então, essa realização dele, através dos filhos, através de ter um casamento que foi um exemplo de vida, né? E de promover esta integração da família, a preocupação dele o tempo todo, acho que isso é o que ele passou de mais importante para gente.

 

P/1 – E expectativas em relação que algum dos filhos fosse dar continuidade aos negócios, as lojas? Havia um pouco isso?

 

R – Eu acho que inicialmente até pode ter havido, principalmente com o irmão mais velho, né? Tem aquela questão do filho mais velho, do primogênito. Ele chegou até dar o apoio, mas depois ele tomou a decisão de estudar Direito e o meu pai apoiou a decisão dele. Então, não houve uma pressão muito grande. Talvez um desejo interno dele, mas nada que provocasse um problema na família. Ele aceitou naturalmente a decisão de cada um dos filhos.

 

P/1 – Mas vocês ajudavam às vezes nas lojas?

 

R – Principalmente no natal. O meu irmão ajudou, o mais velho ajudou um pouco mais. Foi lá de uma forma mais permanente e os demais iam lá no mês de dezembro, aquele período de pico de movimento lá no Saara, na rua da Alfândega. Então, a gente ia lá e era até uma diversão para os irmãos, os primos todos. Questão de atender os clientes, de ir para o caixa, de fazer os embrulhos e tudo. Foi uma escola de vida, né? E os inesquecíveis almoços ali, no restaurante do Nilo, que hoje é um restaurante que não existe mais. Acho que era o lugar especial também.

 

P/1 – Você foi criado em que bairro da cidade do Rio?

 

R – Em Copacabana. Nasci em Copacabana. Os meus pais moravam na Rua Almirante Gonçalves. Quando eu tinha quatro anos, eles se mudaram para a Rua Sá Ferreira, que é uma rua vizinha e a minha mãe até hoje mora nessa rua. Meu pai faleceu em 1997 e a minha mãe mora até hoje nesse mesmo apartamento, onde eu tinha quatro anos, quando fomos para lá.

 

P/1 – E a juventude em Copacabana como é que foi?

 

R – Bom, a juventude, quer dizer, eu estudei no Colégio Fontgalland. Fiz o Primário e Ginásio. Então, os amigos todos ali em Copacabana. Depois o Científico, estudei no Colégio Andrews em Botafogo. Comecei a namorar desde muito moço, né? Eu tinha, conheci a minha atual esposa, eu tinha 12 anos, ela tinha 10. Começamos a namorar quatro anos depois. Então, até o casamento, eu diria que as nossas vidas foi muito em torno do bairro de Copacabana, da praia. Frequentávamos muito o clube, principalmente o clube Monte Líbano, mas também o Clube Caiçaras. Então, foi muito importante aquele bairro na nossa história de vida, em especial, até o casamento.

 

P/1 – E faculdade? Qual foi a faculdade que você cursou?

 

R – Eu fiz Engenharia Civil na PUC, na PUC do Rio. Entrei em 1968, me formei em 1972. E dentro das opções da engenharia, escolhi o ramo de estruturas, Engenharia Civil de cálculo estrutural, onde eu iniciei a minha carreira profissional.

 

P/1 – E o teu primeiro trabalho aonde que foi e com que função?

 

R – Tá. Eu comecei a trabalhar ainda na faculdade em 1970, no escritório de engenharia Antônio Alves Noronha. Eu dava apoio aos engenheiros. Eu fui registrado na minha carteira de trabalho como calculista e fiquei lá durante o ano de 1970. No ano de 1971, eu fiz estágio num outro escritório de engenharia na Orteg(?), que pertencia a um professor meu da PUC, que era professor Tizano. E trabalhei lá no ano de 1971. Aí, me formei em 1972, em julho e comecei a trabalhar já como engenheiro na Etep, Estudos Técnicos e Projetos, pertencente a uma empresa francesa na época, a Est Troiser(?). E ali, durante um ano e meio, eu fiquei muito dedicado ao projeto do Metrô do Rio, a projetar e desenvolver as estações do Metrô, principalmente a Estação da Glória, Estação do Catete do Rio de Janeiro. Mas já no Etep, trabalhando como engenheiro civil, eu achei que talvez aquilo não era o que eu queria para o resto da minha vida. Começou, tipo eu quero abrir o meu leque de oportunidades, quero diversificar as minhas possibilidades e no início de 1973, e comecei a fazer um mestrado na PUC ainda em Engenharia Industrial, na área de finanças, em tempo parcial. Então, eu trabalhava na Etep e fazia duas cadeiras por semestre. Então, num ritmo mais lento, o que me possibilitou dados conhecimentos nesse curso, inclusive a me inscrever no concurso do BNDES, que foi em torno de outubro de 1973. E acabei que houve uma guinada profissional na minha vida ao ingressar no Banco. Eu não sabia nem direito naquela época o que é que era o BNDES. Na realidade era um colega meu de turma que hoje também é do Banco, engenheiro Viváqua, que me avisou do concurso. Então, quando eu estava fazendo mestrado até disseram: “Não vou fazer, não vou ter tempo de estudar, que eu estou trabalhando, eu estou estudando.” Mas acabei por decidir pela minha inscrição no concurso, o que eu não me arrependo de nada. Acho que foi uma excelente oportunidade, uma ótima decisão ter começado, então, essa minha carreira no BNDES há 28 anos atrás.

 

P/2 – Qual era a ideia que você tinha do BNDES?

 

R – Olha, na realidade, eu não tinha muita ideia mesmo porque eu era, estava ligado a engenharia civil. Acho que o Banco naquela época não era tão conhecido como é hoje. Não frequentava a mídia, né? As notícias eram muito restritas. Eu sabia que era um bom emprego, que dava boas possibilidades, que a qualidade de emprego era muito boa, o ambiente de trabalho era bom. Mas depois que eu passei no concurso é que eu fui me informar melhor para tomar decisão se eu iria entrar para o Banco ou se eu continuava minha carreira como engenheiro civil.

 

P/2 – Como é que foi o início no Banco? Você até, você toma pé do que é que era esse Banco?

 

R – Na época, a gente teve uma oportunidade que foi fazer um curso de ambientação de um período até mais prolongado que foi muito positivo. Entrou no mesmo concurso um grupo de engenheiros, economistas, contadores, advogados e analistas de sistema e estatístico. E o Banco naquela época promoveu um curso de ambientação de uma duração próxima de dois meses. Parte até era lá nos prédios do BNDES e parte até no Hotel das Paineiras, que foi também interessante para integração do grupo, né? Então, a gente teve uma época que foi... O treinamento fez parte de uma empresa que dava algumas matérias específicas, importantes, para nossa utilização na carreira do Banco, mas também teve apresentação, palestras de uma série de profissionais do BNDES que explicaram um pouco qual era a cultura do Banco, quais eram os conceitos, qual era a história, quais eram as linhas de ação, o que é que era importante, o que era uma análise de projeto. Quer dizer, as primeiras informações. Então, na realidade, quando eu comecei a trabalhar efetivamente, aí já provavelmente no mês de março ou final de fevereiro de 1974, eu já tinha alguma noção do quê que era o Banco e já conhecia uma série de colegas através desse curso de ambientação, que facilitou uma rápida integração no Banco.

 

P/2 – E você foi para que área nessa...

 

R – Eu fui escalado para área que, na época, inclusive era a área que eu gostaria de ter ido, que era a área operacional ligado à área de projetos industriais. Dado até o curso que eu vinha fazendo de engenharia industrial, na área de finanças, era onde eu gostaria de ter ido e... Enfim, comecei a minha carreira por lá. Na época, o Banco estava estruturado dentro da área, era uma espécie de... Tinham três departamentos. Um cuidava basicamente da indústria química, um da indústria de bens de capital e indústrias de bem de consumo geral e a outra de mineração, metalurgia, siderurgia. Na época, a gente trabalhava meio em pool. Tinha um pool de técnicos e eram formadas equipes para tratar dos projetos, mas na maior parte das vezes, no meu início de carreira, fiquei vinculado à indústria química. Depois, logo a seguir, houve, então, uma lotação mais efetiva dos técnicos por departamento, que acho que foi uma decisão correta na época, né? Para dar mais foco para as equipes e aí eu fiquei, a partir daí, voltado no departamento de indústrias químicas.

 

P/2 – Fala um pouco desse setor e do foco do BNDES, o foco de atuação do BNDES nessa época? A indústria química era uma prioridade?

 

R – Olha, nós entramos no Banco em 1974, que era uma época logo posterior a crise do petróleo, a primeira crise do petróleo e a época onde se começou um planejamento. Tinha o segundo plano nacional de desenvolvimento e uma tônica muito forte, muito expressiva na questão de substituição de importações. Isso foi mais forte no setor de bens de capital e de insumos básicos. Aí, insumos básicos destacadamente. A gente pode citar aí, papel, podemos falar siderurgia, mineração. Podemos falar da indústria química. Então, nesse setor que eu fiquei, eu peguei muito projetos na área de cimento e na área petroquímica. Aí acho que um exemplo bom é a área petroquímica. Naquele momento, a gente já tinha um início de uma petroquímica no país que foi com início de operação na década anterior do Pólo Petroquímico de São Paulo, lá em Mauá, Petroquímico União e algumas empresas estavam lá. Boa parte dessas empresas controladas pelo setor privado e, fundamentalmente, empresas estrangeiras. Então, ali na época, quando entrei no Banco, estava em desenvolvimento o segundo pólo petroquímico, que era o Pólo Petroquímico de Camaçari, que eu acho que foi um marco importante para o Estado da Bahia, para descentralização da indústria no país e onde houve uma ênfase muito grande de se manter um controle nacional. E para se manter o controle nacional, dados vultosos investimentos se partiu na época para desenvolver o que se chamou de modelo tripartite. Então, tinha de um lado o sócio estatal, que era a Petroquisa, Grupo Petrobrás, uma subsidiária integral da Petrobrás, o sócio estrangeiro que, em tese, e efetivamente vinha com, principalmente, com aporte de tecnologia e o sócio nacional, né? Então, eu acho que isso foi um embrião para o desenvolvimento de vários grupos nacionais a entrada na petroquímica. Vários desses grupos experimentaram um crescimento muito grande a partir daí e na época eles não tinham recursos necessários e efetivos para aportar. Então, o apoio do Banco se desenvolveu de... Se deu de diversas formas. A gente não só financiou os projetos através de financiamento, aval, repasse, o aval principalmente visando a importação de equipamentos para esses projetos, como em alguns casos, a gente entrou em capital. Financiamos esses grupos para eles aportarem capital nessas empresas e até antecipamos recursos da Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste]. Quer dizer, recursos estavam previstos da Sudene para entrar nesses projetos de Camaçari e que vinham sofrendo atraso, que isso podia prejudicar o andamento. Então, o BNDES na época desenvolveu a linha chamada PIB Nordeste, onde a gente financiava empresas a título de antecipação de recursos da Sudene.

 

P/2 – Deixa só eu te perguntar uma... Esse detalhe, você falou dos recursos da Sudene, a própria escolha de Camaçari, o Banco tinha essa concepção de estar investindo, de estar abrindo para uma outra região, de ter um desenvolvimento regional também?

 

R – É, já era uma prioridade do Banco, mas eu diria que a decisão de ser na Bahia não foi uma decisão isolada do BNDES. Na época existia um grupo chamado Geiquim que era um Grupo Executivo da Indústria Química, onde o BNDES tinha assento. Foi um fórum muito importante de planejamento, de geração de ideias. Tinha a Petrobrás, eu acho que era importante a existência de uma refinaria no Estado da Bahia, da RLAM [Refinaria Landulpho Alves-Mataripe]. Então, a possibilidade de ter matérias-primas, insumos petroquímicos, principalmente a nafta e toda essa articulação institucional com o apoio do BNDES, com a participação do BNDES é que evoluiu para uma decisão naquele momento de fazer esse segundo pólo petroquímico na Bahia. Assim como também na linha de descentralização mais para o final da década de 70 se decidiu pela implantação do terceiro pólo petroquímico que é o pólo petroquímico do Rio Grande do Sul, o Pólo Petroquímico de Triunfo. Quer dizer, dentro ainda do mesmo conceito do modelo tripartite; sócio privado, sócio nacional.

 

P/1 – Mas de que forma, você, especificamente, atua nesse...

 

R – Hoje ou na época?

 

P/1 – Na época.

 

P/2 – Você acompanhava esses projetos, ia até Camaçari, como é que...

 

R – Na época, a estrutura do Banco... Quando chegava... Eu trabalhava numa área operacional. Então, a gente tinha contato permanente com as empresas e com grupos, conforme acontece até hoje. E quando a empresa, e quando chegava um estágio de se entregar uma carta consulta ao BNDES, quer dizer, uma primeira intenção de pedido de financiamento, na época existia uma coisa que se chamava Comitê de Prioridades, que era dentro da área de planejamento. Tinha o departamento de prioridades. As áreas operacionais participavam desse comitê. Era um amplo fórum de debate, de discussão, de formulação e de enquadramento das operações. Depois que esses projetos passavam, recebiam esta prioridade, então iriam para a área operacional, onde eu trabalhava, e a gente, então, pedia informações mais detalhadas, um estudo de viabilidade mais completa de análise dos grupos empreendedores, dos acordos de acionistas, da concepção do projeto, da tecnologia. Quer dizer, da questão ambiental. Então, analisava-se o projeto pelas diversas óticas e esse projeto, então, de... Ele resultava num relatório de análise e ia para apreciação da diretoria. Isso, eu acho que é uma coisa muito importante no Banco, que é a questão, primeiro, de decisões colegiadas, que a decisão, na época do enquadramento e a decisão na época da decisão e a tomada de decisão com base em parecer técnico. Eu acho que isso sempre protegeu a instituição e foi uma das coisas fundamentais. Quer dizer, o primeiro a propiciar debates, discussão o tempo todo. E o Banco, as pessoas do Banco são muito opinativas, né? Mas isso sempre tem um efeito de agregar nas decisões. E a segunda é a proteção contra decisões políticas. Políticas no sentido de pressão porque tudo tem que estar muito bem fundamentado. É um colegiado, não é uma pessoa só que toma decisão. Bom, mas de qualquer forma, depois de aprovado pela diretoria, aí esse projeto... Fazia-se o contrato e a área operacional também era responsável pelo acompanhamento do desenvolvimento daquele projeto. Então, fazia-se assim, liberação par e passo com andamento, com a execução. A gente se preocupava com a execução física e financeira dos projetos. Ia liberando, à medida que o projeto ia ser executado. Aí, passava-se numa etapa posterior, acompanhar e monitorar a empresa. Concluído o projeto, a visão da empresa de monitorar o risco, desempenho delas, oportunidades. Então, até o final do contrato, a área operacional tomava conta daquela operação e era responsável pelo monitoramento.

 

P/2 – Indo até o projeto, indo até o local também?

 

R – Sim.

 

P/2 – Tinha que aparecer(?).

 

R – Faz parte do nosso trabalho... Quer dizer, primeiro, acho que o trabalho do Banco é muito rico, primeiro porque é um trabalho que desde o início da sua carreira, a gente tem uma oportunidade de ter contato com pessoas de alto nível na direção das empresas. Eu acho que é muito difícil no início de uma carreira conversar com diretores e presidentes das empresas. Então, uma pessoa que trabalha no Banco tem essa oportunidade, desde muito no início de sua carreira. A segunda coisa interessante é que você trabalha em equipe, né? Então, o resultado do teu trabalho não pode, não deve ser um trabalho teu isolado. Você deve interagir com a equipe, é multidisciplinar. Então, no mesmo grupo pode ter engenheiro, economista, advogado, contador. Então, você troca muita informação, você interage com outras áreas do Banco e o trabalho, além de ser feito um trabalho no Banco, você também faz parte, conhecer o setor, fazer estudos para monitorar o quê que é importante, quais são as prioridades estratégicas daquele setor, como é que você direciona o seu apoio e essa questão das visitas às empresas, né? Que você realmente poder ter um diagnóstico e entrar... E cada caso a ênfase pode ser completamente diferente. Pode ser que numa empresa, a questão básica numa análise é conversar com pessoal de mercado e a outra é questão societária. Em outra pode ser questão ambiental. Enfim, cada caso a coisa não se repete, pode mudar o setor, pode mudar o foco da análise, mas essa visita é uma etapa fundamental, para você efetivamente conhecer a empresa.

 

P/2 – Desse setor de petroquímica, o senhor passou para... Depois para outra...

 

R – O primeiro cargo executivo que eu ocupei no Banco foi em 1980, como gerente da indústria de petroquímica. Nessa época, a gente já tinha boa parte do Pólo de Camaçari implantado. A gente estava atendendo alguns pedidos de expansão de algumas empresas ou implantação das últimas empresas das mais tardias e era uma fase de implantação do Pólo Petroquímico do Sul. Então, foi um período de 1980-1983 que eu vivenciei muito intensamente, que foi a implantação do Pólo Petroquímico do Sul.

 

P/2 – Do Sul.

 

R – E em 1983, eu fui trabalhar no setor de... Departamento de bens de capital. Então, recebi um convite na época do Castanheira e fui, assumi uma gerência que, naquele momento, era um setor que estava passando por um problema. Quer dizer, o setor tinha investido muito junto com o setor de insumos básicos na década de 70 e em função da recessão dos anos 80, de uma redução na taxa de investimento, efetivamente o setor de bens de capital sofreu um reflexo, sofreu um impacto. Então, foi um trabalho com outro foco nesse período que eu fiquei de 1983 a 1988, no setor de bens de capital, que era como a gente deveria apoiar esse setor. O que é que cabia de preservação de um núcleo básico do setor de bens de capital e quais eram os instrumentos que o BNDES podia fazer para que esse setor conseguisse sobreviver a essa crise e poder ser importante numa retomada mais para frente. Então, depois do setor químico, respondendo a tua pergunta, eu passei um período. O Banco foi muito importante para o setor de bens de capital, não só pelo trabalho das áreas operacionais, nesse acompanhamento, nesse processo em discussão, mas porque se criou um instrumento fundamental para o setor que foi o apoio à comercialização, que é uma das subsidiárias do Banco, a Finame [Agência Especial de Financiamento Industrial], que financiava as empresas que comprassem equipamentos fabricados e produzidos aqui no país. Então, a Finame é um instrumento até hoje efetivo e para se cadastrar o equipamento na Finame tinha que ter a preocupação de quem era o fabricante, se... Como é que se dava a questão da tecnologia. Então, era todo também um processo de discussão com as empresas de forma a internalizar o máximo possível de produção local e absorção de tecnologia. E já nos anos 90, através do programa de exportação, onde é o instrumento fundamental para o setor de bens de capital, você ter um acesso ao crédito para poder competir lá fora, ou lá no exterior, em igualdade de condições com outros países porque a competição para vender equipamento passa por ter um financiamento competitivo acoplado, né? Então, é de novo um approach muito importante do Banco para o setor de bens de capital a questão de apoio à exportação.

 

P/1 – Quer dizer, o que significa para você, quer dizer, profissionalmente, são desafios essas suas mudanças de áreas, as gerências. Como que é para você, como profissional, engenheiro de formação, como é que era vivenciar esses desafios, ser convidado para assumir um cargo de gerência dessa importância?

 

P/2 – Mudar de área.

 

R – Eu acho que é muito positivo, né? Quer dizer, você, de vez em quando, ter um novo desafio e ter que conhecer novos setores, novas empresas, novos clientes, mudar um pouco o foco, a prioridade. A gente só cresce profissionalmente com isso e é um trabalho que você tem que ir junto com a equipe também. Você tem que estar desenvolvendo um time, tem que estar desenvolvendo uma equipe, tem que estar interagindo com seus colegas de outras áreas, criando parcerias e o Banco vai crescendo junto.

 

P/1 – E vocês fazem uns cursos paralelos a esse seu trabalho? O BNDES incentivava feitura de cursos especializados, alguma coisa?

 

R – O Banco tem um programa de treinamento, né? Você tem o treinamento de cursos que são naturalmente oferecidos pelo Banco. Têm cursos que a área identifica oportunidades, ou para formação básica do profissional ou para uma coisa muito específica de conhecimento de um setor, por exemplo. E têm aqueles cursos de, tipo de grande saltos, de uma duração mais longa. Por exemplo, um curso de MBA ou um curso de mestrado, cursos de alguns casos até o curso de doutorado. Então, eu já andei BNDES, na década de... No início... Em 1980, eu fiz o mestrado em economia, que eu estava...

 

P/2 – O teu segundo mestrado?

 

R – É, eu achava que era importante eu prosseguir a minha carreira no BNDES, fortalecer um pouquinho, fortalecer um pouco a minha base de economia. E aí eu acho que um outro curso muito interessante, né, um curso de economia industrial que eu fiz lá na UFRJ, se bem que eu fiz em tempo parcial. Mas eu acho que o Banco investir no desenvolvimento e no treinamento das pessoas é muito importante e o retorno vem naturalmente.

 

P/2 – Hoje, qual é a sua área? Qual é o seu cargo e a sua área?

 

R – Tá. Eu assumi uma... Em 1991, eu assumi a superintendência de uma área operacional do BNDES, ligados a setores industriais. E no decorrer da década de 90, eu permaneci sempre ligado ao setor industrial, mas com foco diferente de setores e um pouco de estrutura. A gente teve um marco importante, que eu acho que foi em 1993, onde foram criadas duas áreas industriais e a gente desenvolveu naquela época gerências responsável por estudos setoriais. Então, era uma forma de organizar o conhecimento do Banco sobre os setores, de treinar profissionais que pudessem representar o Banco em fóruns setoriais, de você oferecer, não só para o público interno, para o público externo, trabalhos, estudos publicados pelo BNDES e na forma dos setores, dos setoriais apoiarem o Banco, não só nas suas análises, no seu acompanhamento, mas até na formulação de políticas. Então, a gente passou por uma experiência que foi de 1993 até o ano passado que era esse corte. Então, era uma estrutura que você tinha a área operacional. Eu era responsável pelo produto financiamento e era responsável por um conjunto de setores.

 

P/2 – Qual era o conjunto de setores?

 

R – Eu pegava a indústria metal-mecânica, a indústria de papel e celulose e automotivo, comércio e serviços basicamente. Aí, no ano 2000, a gente passou por uma discussão e um processo do planejamento estratégico do BNDES, visando o período 2000, 2005, né? Que foram um processo de discussão muito rica, envolvendo todos os diretores do Banco e todos os superintendentes. A parte do qual a gente tentou enxergar o horizonte 2005, em termos da evolução do Banco e da definição de quais eram as dimensões estratégicas, quais eram os conceitos fundamentais do Banco. Foram aprovadas sete dimensões estratégicas. Uma delas é a modernização dos setores produtivos...

 

P/2 – Que é o nome da sua área hoje?

 

R – Que é o nome da minha área, Setores Produtivos 1, além de infraestrutura, privatização, pequena e média empresa, desenvolvimento regional, a questão social, privatização. Tudo também com foco do Banco operar com uma parceria maior com mercado de capitais. Quer dizer, identificar que alguns setores, o Banco não tem como não operar com nível de participação muito alto. É o caso, por exemplo, da exportação, dos projetos da área social, pequena e média empresa, mas para os setores mais maduros, a gente deveria passar a trabalhar em parceria maior com o mercado de capitais, até como forma de alavancagem dos nossos recursos.

 

P/1 – Quais são os setores mais maduros?

 

R – Por exemplo, setores industriais e alguns setores de infraestrutura. E dentro do processo de planejamento estratégico foi discutido uma agenda de mudanças. Então, essa agência de mudanças passou por novos procedimentos, uma nova política de crédito, uma nova prática de gestão de conhecimento e teve um dos vetores que era como se ajustar a estrutura organizacional do Banco à nova realidade. Então, até para responder a tua pergunta sobre a questão da estrutura, foi decidido que o BNDES passaria a ter um conjunto de áreas corporativas e na sua parte operacional fazer um corte entre áreas de cliente e áreas de produto. Então, essas áreas de produto tem uma área do Banco responsável por renda fixa, uma por renda variável, uma por privatização. Enfim, outras por exportação. Quer dizer, são... Então, seriam áreas mais voltadas para análise das operações, dos empreendimentos, dos projetos. E teriam áreas de cliente. Então, essa área e eu sou superintendente de uma das áreas de clientes do setor industrial. Então, primeiro, as áreas de cliente do BNDES, ela tem um corte setorial. Você é responsável. Enquanto as áreas de produto pegam projetos dos diversos setores, o foco da área de cliente é setor. Por exemplo, é o caso da minha área, eu tenho três gerências executivas. Uma cuida do complexo química e petroquímica, fertilizantes. Um segundo agrupamento pega mineração, metalurgia, siderurgias, cimento. E um terceiro grupo que cuida do papel e celulose e bens de capital. Nessas gerências executivas existe a figura do gerente de conta. Então, quem trabalha numa área de cliente e tem os gerentes setoriais. Quer dizer, aquela experiência de 1993 nossa de criar a figura do gerente setorial etc, foi entendida como uma experiência válida de sucesso. Foi preservado dentro da nova estrutura e como a área que era responsável pelo setor, área de cliente, o especialista setorial ficou dentro da área de cliente. E essa nova função do gerente de conta, então, primeiro, ele precisa, em tese, conhecer tudo que o cliente... Sobre o cliente. O especialista do cliente do BNDES passa a ser alguém que trabalha na área de cliente. Você já tem um corte setorial, então, em tese, quem trabalha na área de cliente deve conhecer bem o seu setor de atuação. E como a gente interage com os clientes sobre os diversos produtos do Banco, você tem que ter um razoável conhecimento sobre os diversos produtos. Então, o papel da área de clientes, ele vai do fomento até essa fase inicial do enquadramento. Então, as áreas de clientes que levam as operações para serem debatidas lá no comitê de crédito. Depois do enquadramento, a análise passa a ser coordenada por uma das áreas do produto, dependendo do produto. Mas área de cliente tem que acompanhar o desenvolvimento, até porque no final o encaminhamento é conjunto. Existe um manifestação da área de clientes sobre operação. E após o contrato que é feito na área de produto, a operação volta para a área de cliente, que faz o acompanhamento até o final do contrato. Então, dos desembolsos... Enfim, da execução física financeira do monitoramento do risco. Então, seria basicamente os setores e atribuição da área.

 

P/2 – Dentro da sua área, Setores Produtivos, você é responsável por alguns setores clássicos de atuação do BNDES, como siderurgia, papel e celulose. Eu queria que você destacasse um pouco o papel desses setores nos processo todo, histórico do Brasil e até do Banco.

 

R – Tá. Quer dizer, o BNDES, ele está completando 50 anos. Na sua primeira década de vida, ele foi muito voltado para infraestrutura, né? Fundamentalmente energia e ferrovia. Mas já no finalzinho dos anos 50 e na década... Um dos primeiros anos da década de 60, o Banco começa a entrar na área industrial através da siderurgia. Então, o Banco passou a ser um agente fundamental naquela identificação de que primeiro o país tinha reservas de minério de ferro expressivas. Então, potencialmente, era um setor onde a gente podia desenvolver. Ele era um setor estratégico e isso ficou claro durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive porque ele podia propiciar o desenvolvimento de outras indústrias. Quer dizer, a indústria siderúrgica é a base para a indústria de construção civil, para indústria automotiva, para setor de bens de capital, para diversos bens de consumo. Quer dizer, você ter a produção interna de aço é uma coisa estratégica para o país. Então, em função disso, começou o Banco a entrar também apoiando o setor siderúrgico. O setor de aços longos foi um setor até porque o requerimento de capital era menor, que desde o início ele se deu e aí já começou na década de 30, 40, através do setor privado, algumas empresas do setor privado. No caso de aços planos já o volume de recursos era muito mais importante. Então, a gente teve a nossa primeira siderúrgica que entrou em operação em 1949 de aços planos que foi a CSN lá em Volta Redonda. Então, na implantação da CSN, o Banco ainda nem existia. Mas já na Usiminas e a Cosipa que entram em operação no início dos 60, eu acho que Usiminas em 1962 e Cosipa em 1963, o Banco passou a ter uma presença de sorte que alguns anos desse período, dos inícios de 60, metade do orçamento do BNDES foi para o setor siderúrgico. Então, a gente acompanhou já na década de 60 a implantação dessas usinas. Algumas expansões já na... Ainda na década de 60 e o Banco entrou por um... Participou através do Consider que primeiro era um órgão de política, mas depois virou até um órgão deliberativo da discussão do primeiro plano siderúrgico nacional. Esse plano foi aprovado em 1971 e era um plano ambicioso. Ele previa que de uma capacidade instalada da ordem de seis milhões de toneladas/ano, que o país tinha em 1970, ele passaria numa década, até o final de 80, para vinte milhões de toneladas/ano. O que se alcançou efetivamente foi próximo a dezessete milhões. Não chegou aos vinte, mas houve um salto de seis para dezessete milhões. Então, essa década de 70 foi uma década efetivamente da implantação de uma base siderúrgica nacional, onde o Brasil passou a ser um player importante e onde... Houve a criação da Siderbrás, no início da década e onde o Banco foi fundamental ao financiar tanto as privadas, quanto as empresas de aço plano. E aí vem na década, no início de 80, entra em operação a CST que é Companhia Siderúrgica de Tubarão, que é Aço Minas. O Banco foi o mais importante no financiamento para CST, até porque na época houveram alguns questionamentos sobre o projeto da Aço Minas. Então, até o início dos 80, o volume de recursos que o Banco colocou para a siderurgia foi bastante expressiva. Aí, a gente teve uma década que foi uma década de crise da siderurgia, não só no Brasil como lá fora, que foi chamada a década perdida.

 

P/2 – É a década de 80?

 

R – Década de 80. Era um cenário de capacidade excedente, de preços declinantes. Aqui no Brasil a gente tinha um problema já do Estado, das empresas estatais terem dificuldade de bancar investimentos. Então, a gente chega no final dos anos 80 com uma siderurgia que investiu pouco em modernização, em meio ambiente, coisa que começou em expansão, né? Então, a gente tinha uma base de produção local muito importante, mas com alguma deterioração na década de 80. Aí, com abertura da economia no início dos 90 e com a decisão de privatização, então, a gente muda um pouco de novo a história da siderurgia no Brasil. Quer dizer, na realidade, como o Banco já tinha uma experiência prévia no final dos anos 80 na privatização de algumas empresas, não só empresas que a gente foi obrigado assumir o controle, como política de recuperação de crédito, empresas que estavam em crise, que o Banco acabou assumindo o controle, como até já prestando algum serviço para Siderbrás na venda, em especial, da Confave e da Usiba, o Banco acabou se credenciando para ser o gestor do PND, do Plano Nacional de Desestatização. E a primeira empresa a ser desestatizada dentro do PND foi a Usiminas. E o setor todo privatizado no período de 1991 a 1993. Então, as empresas são todas passadas para o capital; Usiminas, Cosipa, Cesita, Aço Minas, Tubarão. Enfim, CSN e isso permite com uma nova gestão privada. Houve o término, vamos dizer, da Siderbrás de um novo período de desenvolvimento dessa siderurgia. Então, o Banco passa a ser importantíssimo na década de 90, não só pelo seu papel na privatização, mas em apoiando os investimentos. Aí tem um volume de investimentos que... Da ordem de quatorze bilhões de dólares na década. Até o ano 2002, eu tenho a impressão que dá mais ou menos quatorze bilhões de dólares. O Banco entrou mais ou menos com 40% disso, onde você recupera a questão da modernização das plantas, de enobrecimento dos produtos, do foco no cliente. Quer dizer, vai passar a produzir produtos mais integrados com a visão de cliente. De aumentar a base de exportação, de recuperar a questão do passivo ambiental. Quer dizer, como as empresas não vinham investindo. Foi necessário promover uma série de investimentos para recuperar a questão ambiental. E, inclusive, o setor que passou a ter atratividade do ponto de vista internacional. Veio para cá Usinor. Assumiu o controle da Cesita que acabou entrando na CST. Outras empresas tiveram a participação de só grupos estrangeiros no seu capital. E um outro movimento importante é que no início de 90, o Brasil tinha um... Algo em torno de trinta empresas no setor siderúrgico e a gente chega hoje tendo quatro grupos que são responsáveis por 96% da capacidade de produção. Então, era um setor que estava muito fragmentado num setor para nível mundial é muito concentrado. São grandes players, embora a gente fosse o oitavo produtor mundial, não tínhamos nenhuma empresa que tivesse no ranking das vinte maiores, por exemplo.

 

P/2 – Hoje tem?                                       

 

R – A gente começa ter já alguns grupos chegando perto.

 

P/2 – A Usiminas e a Cosipa...

 

R – Usiminas com Cosipa, o Grupo Gerdau que entrou na Aço Minas e também a Cesita junto com a CST. Enfim, com... Houve uma união lá fora da Usinor com a Arbed. Aí a Belgo também já começa a entrar nesse bolo. Então, começa a ter um processo de aglutinação, onde se passa ter escalas maiores, maior competitividade, empresas mais eficientes, mais profissionalizadas. Todas elas com... Promoveram abertura de capital. Tem ações negociadas em bolsa. Quer dizer, hoje, acho que é um setor que está inventando um desafio grande, que é esse desafio de mercado, de proteção e tudo. Chega muito mais preparado.

 

P/2 – E é verdade que a nossa indústria siderúrgica perto da americana está mais moderna?

 

R – Sem dúvida nenhuma.

 

P/2 - Tá no jornal, pelo menos comenta.  

 

R – Sem dúvida.

 

P/2 – Está?

 

R – Porque esse setor nos Estados Unidos é um setor atrasado tecnologicamente, não competitivo, razão pela qual eles estão pondo essas barreiras tarifárias e não tarifárias. Impondo sobre taxas, impondo cotas, né? E há o reconhecimento que a indústria brasileira é competitiva. O Banco participa de um fórum nacional... (pequena interrupção)

 

P/2 – Então, retomando.

 

R – Então... Quer dizer, o Banco inclusive participa. Tem um comitê mundial do aço, onde o Brasil participa. Tem assento e nós temos participado dessas reuniões, dando suporte ao Ministério da Indústria e Comércio. Tem ido alguém representando também o comércio exterior e tem havido debates e até numa política de uma eventual redução de produção mundial e tentar verificar em que país que tem subsídios e protege as suas indústrias. Há um reconhecimento que a indústria do Brasil fez o seu dever de casa e é competitiva e não...

 

P/2 – E o que é uma empresa competitiva hoje, dentro até para retomar um pouco até dessas metas de 2000-2005?

 

R – É, na realidade, acho que para examinar competitividade, num caminho de você ser competitivo, é você ter curto, ter qualidade... Quer dizer, ter custo competitivo com os seus competidores lá fora. Você ter qualidade, você ter tecnologia e para isso eu acho que você tem que trabalhar nas cadeias produtivas. Verificar em toda cadeia produtiva, identificar quais são os elos mais frágeis. Quer dizer, como fortalecer esses elos. Toda a questão de ver os fornecedores, a logística. Eu acho que, inclusive, a questão da, até da questão tributária pode afetar a competitividade de uma indústria. Então, um conjunto de fatores que determinam se você é competitivo ou não.

 

P/2 – E o BNDES orienta essas empresas que ele trabalha nesse sentido de...

 

R – O Banco faz parte. O Banco não só empresa e empresa, mas a gente tenta participar dos fóruns setoriais. A gente participa e é muito requisitado para trabalhar no... Dando apoio ao Governo nos fóruns de competitividade. E aí o papel dessas gerências setoriais que estudam, tem sido muito importantes, que a gente se vale muito dos estudos, dos conhecimentos adquiridos das unidades setoriais do BNDES. Então, no sentido de identificar pontos frágeis e como ter uma questão de uma ação estratégica para tentar minimizar ou suprimir esses entraves. Ou através de investimentos, modernização ou de se complementar uma etapa de produção na cadeia aqui no país ou de tentar identificar do ponto de vista de logística ou de suprimento de energia. Enfim, qual é o problema específico daquela indústria para que você não perca, ao longo da cadeia, a sua competitividade.

 

P/2 – O senhor podia retomar um pouco o outro setor de papel e celulose, falando... Nos contando um pouco também, que é...

 

R – É, papel e celulose acho que é um outro setor importante do país. Hoje, a gente pode ser... Identificar que a gente tem um... No caso da celulose é o setor exportador. Nós temos o maior fabricante nacional... Do mundo, maior fabricante do mundo de celulose, fibra curta que é a Aracruz, que eu acho que essa é uma marca importante.

 

P/2 – É uma parceria antiga...

 

R – Uma parceria antiga. E, então, tentando voltar um pouquinho, o Banco apoia esse setor desde a década de 60. Eu acho que um dos primeiros clientes do Banco foi o Grupo Suzano e o Grupo Suzano foi pioneiro no desenvolvimento dessa tecnologia de eucalipto, né? De fibra curta, que colocou o Brasil aí... Quer dizer, era fundamentalmente, a produção de papel a partir de fibra longa e para papel de imprimir e escrever, principalmente, foi possível fabricar através da fibra curta. O Banco financiou já o Grupo Suzano, desde a década de 60 e algumas outras empresas, mas o Banco participa também nessa década de um financiamento de um estudo, tentando identificar o que é que era importante para desenvolver uma indústria de papel e celulose no país. Financiou dois terços desse estudo em meados da década de 60. Agora, o apoio do Banco...

 

P/2 – Esse estudo foi feito?

 

R – Foi contratado com acompanhamento de algumas empresas do setor e do BNDES, tá? Para tentar lançar um embrião às bases de uma grande indústria de papel e celulose do Brasil. Já existia o grupo... Algumas unidades da Klabin, da Suzano. Enfim. Mas o grande crescimento desse setor foi na década de 70, junto com o PND [Plano Nacional de Desenvolvimento], junto com aquele movimento. Foi um setor que desde o início caracterizadamente controlado pelo capital privado. A gente entrou no capital, por exemplo, da Aracruz. Foi importante para viabilizar o controle nacional na época do projeto. Mas é um setor que sempre se caracterizou pelo controle privado. Ao contrário, por exemplo, da... Que a gente começou lá da siderurgia. E no segundo PND, então, o Brasil lança um programa, um plano na intenção de ter, do caso da celulose, você começar a fazer os projetos de celulose, visando o mercado. Porque até então fazemos a celulose para o consumo próprio de quem fabricava o papel. Era uma... Eram empresas integradas. À partir da década de 70, você faz projetos como é o caso. Começou, acho que a primeira planta, era da Borregaard que é o atual Riocell lá no Rio Grande do Sul, que até o início era uma celulose que não era branqueada e acabou se reformulando projeto e passando controle para o Grupo Klabin. Mas vem em seguida a Riocell, vêm os projetos da Aracruz, onde o Banco foi determinante não só no financiamento, mas a gente entrou pesadamente no capital. Tínhamos da ordem de uns 40% do capital da Aracruz lá no Espírito Santo. Eu acho que é um setor importante também porque ele também tem essa característica de diversificação regional. Então, tem o projeto da Cenibra [Celulose Nipo-Brasileira S.A.] em Minas Gerais. Mais adiante, outro projeto de celulose de mercado, o projeto da Bahia-Sul, lá no sul da Bahia. E nesses projetos, o Banco também começa a se desenvolver um conceito de investimento e infraestrutura social. Quer dizer, como eram setores que entravam em regiões menos desenvolvidas, mais carentes e que ia dar um salto de industrialização, de desenvolvimento daqueles lugares, que não estavam preparados. Invés de olhar só a indústria de per si, a gente queria ver o entorno, tá? Então, por exemplo, no caso da Bahia-Sul, eles fizeram um investimento bastante expressivo em moradias, saúde, investimentos ligados à educação, até em saneamento, saneamento básico.

 

P/2 – Eles, a Bahia-Sul em parceria do... Com o BNDES?

 

R – É, foi, vamos dizer, uma condição que o Banco colocou para apoiar o projeto e nós demos o funding para o projeto social. A gente financiou não só o projeto industrial, mas financiou também o social. Quer dizer, a gente exigiu de um lado e de outro a gente ajudou a viabilizar o projeto.

 

P/2 – Então, isso é uma proposta do Banco agora também de exigir...

 

R – Isso começou como um embrião, principalmente na Aracruz. Aracruz já tinha essa consciência. Aí fizemos isso com Bahia-Sul e isso passou a ser utilizado em outras empresas. Aí, depois, a gente desenvolveu um projeto que era um programa de melhoria da qualidade de emprego, que era justamente a gente dar incentivos, estímulos para as empresas que investiam na questão melhoria da qualidade de vida dos seus funcionários. E no caso de papel e celulose foi por onde nós começamos. Tinham todos aqueles empregados que trabalhavam na área florestal com piores condições de trabalho, de emprego. Então, tinha o projeto Boia-Quente, né? Substituía a boia-fria. (risos) E coisas ligadas à saúde...

 

P/1 – Esse nome, esse nome é bom. (risos)

 

R – É.

 

P/2- E boia-quente era...

 

R – E aí, eu acho até a partir dessa... Diga.

 

P/2 – Não, boia-quente era um upgrade.

 

R – Um upgrade. (risos) E a partir até dessa experiência começou-se, então, a se diversificar para outros setores. Aí, já com a área social envolvida etc, de um conceito de se exigir das empresas uma responsabilidade social corporativa, que é a gente estimular as diversas empresas, principalmente as empresas maiores e que tenham projetos maiores que de terem um projeto ou para os seus funcionários, uma coisa interna, ou para a comunidade coisas que forem além da lei, além do que é exigido pela lei, o Banco estimular que elas desenvolvam esses projetos, oferecendo um funding. Mas a gente tinha, então, um lado que era voltado para exportação, que era celulose de mercado e que eu acho que hoje é um setor... Hoje é um setor importante na geração de divisas, mas também tinha um segmento de papel que era mais voltado para o mercado interno. Ele também exporta, mas residualmente. Quer dizer, o foco principal é o mercado interno. Aí entra as empresas de papel cartão, embalagem, tissue. Quer dizer, outros segmentos da cadeia. Papel de... Papel imprensa, né? Que começou com um projeto da Pisa que é um projeto importante, onde a gente foi parceiro. Inclusive, entrou com o financiamento e capital, também participação e hoje foi adquirido por uma empresa norueguesa, a Norske Skog e que está pretendendo agora a fazer uma nova planta. Nós estamos muito deficitários hoje na questão do papel imprensa. Então, de novo...

 

P/1 – A gente ainda importa muito...

 

R – É, porque é um setor que não é protegido. Então, na medida que ele não é protegido, até por conta da imprensa, os grupos ao invés de investir aqui, durante um período grande, eles preferiram exportar para o Brasil e as empresas do setor de jornalismo, elas têm liberdade de comprar de onde quiser. Mas, agora, nós estamos de novo num movimento de substituição de implantação desse segmento específico. E a Norske Skog está, de novo, com um projeto lá em discussão com a gente etc, pretendendo fabricar. Ou seja, na linha de substituir importação, que seria um projeto interessante para gente.

 

P/2 – Ao longo desses anos, o que é que mudou na política de investimento nessa área? Tem alguma mudança...?

 

R – Olha, eu acho que a gente tinha diversas empresas que eram familiares. Então, primeiro, o Banco, principalmente na década de 80, a gente induziu muito a profissionalização. A maior parte dessas empresas se profissionalizaram. Boa parte delas são empresas que abriram o capital. Então, maior transparência, maior profissionalização são, em geral, muito competitivos e, de novo, é um setor onde você está competindo mundialmente com menores barreiras, com abertura de mercado, no caso do papel, e necessitando competir, no caso, da celulose lá fora, onde também houve uma década de 90 e está indo em curso o processo de reestruturação. Então, também houve um processo de difusões, aquisições. Houve uma concentração maior na direção de ter empresas, de novo, mais competitivas.

 

P/1 – Agora, do ponto de vista pessoal, o senhor tem filhos, qual é a profissão delas?

 

R – Eu tenho duas filhas. A mais velha é engenheira. Ela fez o curso de Engenharia de Produção e ainda antes de se formar, ela prestou concurso para o Banco de Engenharia e foi classificada. Ficou um período no cadastro. Nesse meio tempo, ela fez o mestrado em... Da Coppeade em administração e meio que coincidiu ela ser chamada para o Banco e ter concluído. Ela está concluindo o curso de mestrado nesse momento. Então, agora tenho uma colega no Banco, filha e colega. (risos)

 

P/1 – E a outra?

 

R – E a outra é a caçula. Ela se formou em Direito agora, a Pati. E está estudando também para fazer concurso etc. Ela já... Já formada.

 

P/1 – O que é que acha de ter uma filha começando a vida profissional no BNDES?

 

R – Olha, eu acho que, talvez, ela tenha sido influenciada por mim de certa forma. Eu acho que ela percebeu que... Que eu achava o Banco um lugar bom de se trabalhar, pelo ambiente, pelos desafios, por ser um lugar rico, diversificado, onde você tem possibilidade de crescimento profissional. Então, eu acho que ela vendo a minha experiência de vida, o meu grau de satisfação em relação ao trabalho do Banco, é um ambiente de trabalho, um clima organizacional muito bom. Diversos amigos que você vai fazendo durante a vida. Ela, possivelmente, pode ter se influenciado. Ela está na área de exportação. Eu tenho impressão que o Banco ainda vai ser importante por muitos anos. Então, Deus queira que para ela seja tão bom para ela, quanto foi bom para mim.

 

P/1 – O que é que significa BNDES para você?

 

R – Faz parte da minha vida, né? Quer dizer, eu entrei com 24 anos no Banco. Me casei no ano que eu entrei no Banco. Quer dizer, logo que eu entrei no BNDES houve uma guinada na minha vida e decidi que eu já namorava oito anos. Acabei decidindo me casar. Eu acho que, então, desde o início foi uma coisa muito intensa para mim, porque se mistura com a minha vida. Realmente é um lugar que eu sinto prazer de trabalhar. Eu acho que foi muito gratificante. Talvez, eu tenha tido muita sorte de ter trabalhado em lugares muito interessantes. Dentro do Banco, de ter feito bons amigos, tá? Eu só tenho a agradecer de ter trabalhado esses anos todos no Banco.

 

P/2 – E para você, você poderia falar em poucas palavras qual a importância do BNDES dentro do processo histórico dos últimos 50 anos?

 

R – Eu acho que o Banco, reconhecidamente, foi um instrumento fundamental para o desenvolvimento desse país. Quer dizer, a gente hoje tem uma base industrial mais completa e diversificada na América Latina. Eu acho que, com certeza, passa pelo BNDES essa história da industrialização no país. Todas essas bases também de desenvolvimento da infraestrutura. Quer dizer, o Banco sempre soube se adaptar às mudanças que se fizeram necessárias no decorrer da sua história. Então, se passou por uma fase de implantação. Depois, na crise dos anos 80, a perceber que nós íamos passar por um processo recessivo, o Banco discutiu o conceito, a integração competitiva. Quer dizer, era o primeiro choque de que não podia olhar só para dentro do país. Tinha que se olhar para fora também, que as empresas tinham que ser mais eficientes, se profissionalizar, em melhorar a qualidade e reduzir custos. Depois quando se viu que estava esgotado o modelo através do Estado, rapidamente a gente se organizou para promover a desestatização. Depois da desestatização, a questão da modernização do ganho de competitividade das empresas. A gente começa cada vez mais a fortalecer a necessidade da desconcentração regional, dos investimentos sociais. Não só o investimento social em si, mas estimulando as empresas a entrarem no investimento social. A questão do comércio exterior que passou a ser um gargalo no movimento do Banco. Pega e desenvolve o instrumento que tem sido importante para tentar alavancar o volume de exportação. Eu acho que agora o desafio é a questão da internacionalização.

 

P/2 – Pois é. Qual é a expectativa do Banco com essas metas de 2000-2005? Começou em 2000, estamos em 2002, até 2005?

 

R – Estamos avançando. Eu acho que houve esse processo que foi a parte de um processo de discussão e de conscientização, ele foi importante para internalizar os novos conceitos, as novas dimensões estratégicas. Eu acho que está havendo uma evolução positiva dentro desse contexto. A gente já percebe nas discussões todas das áreas, dos comitês, uma maior integração das diversas áreas, uma maior percepção de tudo aquilo que a gente discutiu e que está sendo aplicado na prática. Então, eu estou otimista que a gente deve alcançar boa parte das metas que a gente está se propondo.

 

P/1 – Que bom! Kalache, o que acha do projeto memória BNDES 50 anos e de ter dado o seu depoimento para o projeto?

 

R – Bom, eu fico muito feliz de ter sido selecionado para dar esse depoimento. Realmente, o Banco na minha vida, junto com a família. Quer dizer, me orgulho muito da minha família. Está junto com a família, é a minha vida, o Banco. Então, eu fico muito feliz e eu acho que vai ser um documento muito importante para o futuro, para se ter um registro, para se ter documentado uma parte da história, que eu espero que ainda seja muito importante por muito tempo.

 

P/1 – Está bom. Muito obrigada.

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