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História

"A inauguração foi um tombo geral"

História de: Amélia Vianna da Fonseca
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

Infância em Cachoeira do Itapemirim e o falecimento do pai. Mudança da família para o Rio de Janeiro e os estudos. Fatos marcantes da juventude. O primeiro emprego e ingresso na Gasbras. Projeto da Aracruz em implantação e principais desafios. As inaugurações das fábricas. As visitas aos canteiros de obras. A presença de políticos importantes.

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História completa

P/1 – Boa tarde D. Amélia.

 

R – Boa tarde. 

 

P/1 – Quero começar agradecendo a senhora pela participação nesse projeto.

 

R – Eu é que agradeço.

 

P/1 – A gente quer começar pegando alguns dados da senhora, nome, local e data de nascimento.

 

R – Amélia Vianna da Fonseca. Nasci em Cachoeira do Itapemirim, Espírito Santo, 28 de agosto de 1937.

 

P / 1 – Qual o nome dos pais da senhora.

 

R – Eurico da Fonseca e Egmar Vianna da Fonseca. São falecidos, infelizmente.

 

P / 1 – A senhora sabe o nome de seus avós?

 

R - Sei, parte de mãe é Branca Lino Vianna e João Mendes Vianna. Por parte de pai, tem uma coisa interessante: meu pai era primo de Deodoro Hermes da Fonseca, a mãe dele era irmã da mãe do meu pai, era Amélia Rodrigues da Fonseca. Por isso me chamo Amélia. E o pai... Sabe que eu esqueci o nome, você vê, eu lembro tanto da História do Brasil que eu esqueci o nome do Deodoro, que seria no caso o mesmo nome do meu avô, não me lembro do nome do meu avô paterno.

 

P / 1 – E a origem do nome da família a senhora sabe se é de ascendência portuguesa?

 

R – Portuguesa, Italiana: do lado da minha mãe, todos portugueses; do lado do meu pai tinha portugueses, tinha italianos, devia ter espanhol sabe. É uma miscigenação.

 

P / 1 – Ainda falando sobre seus pais e também dos avós, a senhora sabe qual era a atividade profissional deles?

 

R – Sei... O meu avô materno tinha uma marcenaria. Do lado do meu pai não me lembro, é difícil eu me lembrar pelo seguinte: meu pai quando casou com minha mãe, tinha 54 anos, minha mãe 21, você vê a diferença. Meu pai era viúvo, então já era bem mais velho, morreu eu tinha 8 anos e não me lembro de detalhes da família do papai. Me lembro que eu convivi mais com a família da mamãe, que do papai. Por ser já muito idosos moravam separados, distantes, enfim, não me lembro.

 

P / 1 – E irmãos, a senhora tem?

 

R – Tenho. Somos três mulheres e um homem, duas irmãs casadas. Uma casada com um alemão, outra casada com um dentista brasileiro. Meu irmão casado mora em Friburgo, as irmãs moram no Rio, e eu também. 

 

P / 1 – Falando da família, da juventude da senhora, como era essa dinâmica da família, sua casa da infância...

 

R – Olha, foi uma infância, em Cachoeira do Itapemirim. Até era interessante, eu era vizinha do Rubens Braga, morava num sobrado colado ao sobrado do Rubens Braga, foi uma infância muito boa, brincávamos com os primos os parentes dele, os sobrinhos. Ele não era casado, mas a irmã dele era, foi uma infância muito boa, este período de Cachoeira de Itapemirim. Depois meu pai morreu, eu tinha 8 anos meu irmão mais velho 12, 10, 8, 6 uma escadinha, e minha mãe achou que seria melhor se transferir pro Rio para dar uma educação melhor, estudos, porque em Cachoeira naquela época não tinha bons colégios; e eu tinha; um tio, irmão do meu pai que era Capitão Médico do Corpo de Bombeiros, aqui no Rio, e influenciou muito a família pra vir estudar aqui. Então o resto da minha infância foi no Rio, no Meyer. Aí fui pro Colégio de Freiras depois fui para o Colégio de Padres, foi uma infância boa, mas um pouco triste porque eu tinha perdido meu pai. Foi legal.

 

P / 1 – A senhora falou no colégio. Qual era o nome dele?

 

R – No Meyer, estudei no Colégio Metropolitano depois eu fui pro Colégio de Padre. Primeiro em Caxias, eu estudei no Colégio de Freiras, que existe até hoje e é Universidade – Colégio Cristo Rei; depois no Rio eu estudei no Colégio Metropolitano, no Meyer; depois fui pro Colégio de Padre na Tijuca, não sei porque me botaram no Colégio de Padre, que eu detestava e lá fiz o ginásio e o científico. Me lembro que eu dizia pra minha mãe no 1º ano do científico, no colégio Arco Verde no Rio Comprido; não era na Tijuca não, eu dizia pra minha mãe: “ou os padres ou eu, me tira desse colégio senão eu vou parar de estudar.” E de tanto reclamar, o segundo e o terceiro já saí do Colégio de Padre e fui pro Colégio Particular. Um colégio em frente ao Colégio Militar, Instituto Rabelo e lá eu terminei o científico e depois fui fazer... Eu queria trabalhar, não queria cursar Faculdade queria enfim... Mas acabei indo pra PUC fazer um... Naquela época tinha um secretariado executivo que era estenografia, taquigrafia hoje nem usa mais isso, hoje o computador tomou conta de tudo. Enfim, fiquei na PUC dois anos, acabei entrando pra fazer direito, na PUC, mas parei e fui trabalhar. Meu período escolar foi esse.

 

P / 1 – Esse curso da PUC da senhora é pra...

 

R – Secretária Executiva.

      

P / 1 – Formar em Secretária Executiva? A senhora saiu de lá e já começou a trabalhar?

 

R – Já.

 

P / 1 – E como à senhora tomou essa decisão de trabalhar como...

 

R - Eu não sei, eu sempre fui muito independente, um espírito assim independente e minha mãe, claro, viúva não casou mais, então eu queria trabalhar, porque eu achava bonito as meninas trabalharem fora, secretária. Na época o bonito era ser secretária. E eu sempre quis levar uma vida mais... Eu pensei fazer faculdade depois disse assim: “Eu quero trabalhar fora. Por influência, talvez de amigas que trabalhavam fora. E fui ser secretária executiva”.

 

P / 1 – Como era esse grupo de amigas da senhora, na juventude?

 

R – Eram pessoas da PUC, pessoas da minha época de colégio, do Instituto Rabelo. Aí eu já era, bem adolescente, tinha 18 ou 20 anos e uma turma saudável; muitas ficaram na PUC estudando, outras foram trabalhar fora e mantive uma amizade com elas até certo tempo. Depois foram casando, separando; uma hoje é cantora lírica do Municipal; a outra foi morar na Alemanha, casou-se, aí foi distanciando.

 

P / 1 – E como vocês se divertiam naquela época?

 

R – Naquela época, meu filho, era diferente de hoje. Por exemplo, somos três irmãs e um irmão. Pra ir para festa o meu irmão tinha que ir acompanhando, porque se não fosse ninguém saia de casa. E tinha um detalhe interessante, nós tínhamos mesada, as três irmãs e o meu irmão. Aí meu irmão já tinha 18 anos, eu tinha 16 ou 15 não me lembro, então tinha os bailes de formatura ou as festinhas no clube e a gente ficava... 2ª feira começava a passar, a conversa no meu irmão pra nos levar à festa no fim de semana, pra acompanhar, senão não podia ir. Ele dizia: “Eu levo sim, mas cada uma vai dar um “X” da mesada, e com isso nós ficávamos sem dinheiro. Ainda financiava porque ele tinha as namoradinhas dele, queria ir pro cinema, pras festinhas, pagava lá os lanchinhos... Nós ficávamos sem nada, mas em compensação a gente ia pra essas festas. (risos). Então só podia ir se meu irmão levasse”.

 

P / 1 - E como eram os seus namoros?

 

R - Olha meu primeiro namorado eu me lembro muito, foi um garoto, ele morava no Méier, na rua que eu morava, estudava no colégio comigo. Naquele tempo tinha bonde, então a gente namorava era na volta, vinha de bonde, vinha junto. Aquele namoro bobo, conversando né, Patati, Patatá. Em casa não podia nem dizer que tinha namorado, então, esses namoros da época, muito sem graça diferente de hoje, sem graça, um detalhe, hoje é ficar, né?

 

P / 1 – A senhora falou dos bailes, quais eram os locais que a senhora frequentava, que cinemas haviam?

 

R – No bairro, lá no Meyer, tinha um cinema muito engraçado, era uma casa de família. O cinema se chamava Rim Tim Tim. Não foi do seu tempo, tinha um cachorro famoso que era do filme Rim Tim Tim, filme dele e tinha também um seriado do Rim Tim Tim. E a dona do cinema “botou” o nome de Rim Tim Tim. Era uma casa de família, então, a gente sábado a tarde ou domingo matinê assistir Rim Tim Tim. Tinha o metrô Tijuca ia ao cinema na Praça Afonso Pena, tinha a cadeira metrô, quando tinha Copacabana cidade, que hoje já não têm mais. E os bares: frequentei muito o Hotel Glória, festa de formatura, fim de ano, a alegria dos bailes de formatura era o Hotel Glória, o Clube Fluminense, o Clube Militar, o chique da época eram os bailes de formatura nesses locais.

 

P / 1 – A senhora falou em chique, como era a moda, a senhora ia estudar como? Como ia vestida para passear, por exemplo?

 

R – Ih! Meu filho, no colégio de padre era quase que uniforme no pé, tinha que esconder tudo, saia pregueada, blusinha de manga, gravatinha, era aquele uniforme tradicional de todos aqueles colégios de menina, vamos dizer, sainha pregueada, vestido de manguinha, até aqui, gravatinha, e nos dias de festa no colégio, tinha lá uma bainha. 

 

P / 1 – E cinema e baile como era?

 

R – Baile era traje a rigor, tinha que ir de vestido de baile vestido comprido, naquele tempo usava, moça de 18 e 20 anos, tudo de vestido de baile. Lembro que era muito de anágua, você andava botava três, quatro. Você sabe o que é anágua? Não sabe, não é? Você não pegou este tempo. Sabe, não lembra? – Anágua era uma saia que se botava por debaixo do vestido, muito engomada, para armar, aí ficava... Sabe abajur? Ficava aquele negócio... Você lá dentro (aquele abajur ali e você lá dentro). 

 

P / 1 – A senhora gostava disso?

 

R – Ah! Eu nem me lembro, na época eu acho que eu gostava. Porque todo mundo usava, era bacana, então acho que a gente gostava, né?

 

P / 1 – Voltando um pouquinho, a senhora falou que veio bem cedo pra cá, pro Rio de Janeiro? Aos 8  anos, como foi esta viagem, como foi chegar no Rio de Janeiro?

 

R – Olha eu não me lembro, porque foi a primeira vez que eu vim ao Rio, que foi com 8 anos. Eu não me lembro de minha chegada, se fiquei assim... Extasiada, não me lembro não. Eu me lembro da casa que nós fomos morar no Méier, uma casa grande, boa, com jardim, com quintal, isso eu me lembro, mais assim o que eu senti o impacto, eu acho que eu gostei, eu tava com a família.

 

P / 1 – Qual foi o meio de transporte usado?

 

R – Naquele tempo, era trem da Leopoldina, imagine... Não tinha aeroporto em Cachoeira, não tinha linha de ônibus, era trem da Leopoldina, chamado noturno, veja você, ele saia às 6:00 da tarde de Cachoeira e chegava no Rio às 12:00 horas do outro dia.

 

P / 1 - ____________________ a senhora lembra?

 

R – Não, me lembro sim, me lembro que o trem era Maria Fumaça e chegamos imundos, aquela fuligem dentro do trem, um calor, isso eu me lembro, foi fevereiro. Imagine fevereiro no Rio, Espírito Santo e Rio a temperatura é quase que a mesma coisa e a fuligem do trem, aquela fumacinha preta. Eu lembro que nós chegávamos imundos, suando, você sabe como é... Passava a mão no trem, a mão ia no rosto, eu me lembro que quando nós chegamos, a minha tia e meu tio, quando nós recebeu, ficou horrorizada de ver todo mundo tão sujo. Sujo da fumaça, da fuligem. Isto eu me lembro sim.

 

P / 1 – E outra coisa da juventude que a senhora lembra agora, carnaval, por exemplo.

 

R – Eu gostava muito de carnaval, ia muito aos bailes de carnaval, com as irmãs, com o irmão ia muito a um clube que tinha no subúrbio, nós tínhamos uma família amiga que morava não sei se você já ouviu falar no Bocha, uma família amiga que morava lá, e tinha um clube que não me lembro o nome, e a gente sempre no carnaval ia brincar lá ou então ia pra fora, ia pra Ilha do Governador, pra fora não ia pra Ilha do Governador pra casa de amigos também, lá brinca carnaval nos clubes. Sempre gostei muito de festa, ao chegar lá no Aracruz você vai ver os aprontos que eu arrumava nas festas.

 

P / 1 – Já tá chegando! 

 

P / 2 – Eu queria voltar um pouquinho na infância e na adolescência pra perguntar se você tem alguma lembrança marcante de algum fato de natureza política, de quando você era pequena?

 

R – Ah! Tenho. Não quando eu era pequena, mas quando morreu Getúlio Vargas. Eu tava no Instituto Rabelo, na Tijuca, na rua São Francisco Xavier que era em frente do Colégio Militar. Esse instituto não existe mais. Lá eu não me lembro a série que eu estava. Foi no ano, no dia que Getúlio morreu eu estava assistindo aula e me lembro que o professor, irmão de um galã da Globo, que morreu, Paulo Porto, era professor do colégio. Aliás, o colégio era da família do Paulo Porto. E me lembro que nós estávamos em aula, de repente chegou alguém e chamou o professor e pararam, suspendeu a aula e mandaram os alunos pra casa e foi: “O Getúlio morreu! O Getúlio morreu!”. E aí todo mundo assustado não sei porquê. Nós juntamos com os garotos do Colégio Militar porque aí havia aquele negócio de meninas do Rabelo, garotos do Colégio Militar, era tudo amigo: Getúlio morreu, não sei quê... Fato político marcante eu me lembro disso. E me lembro de... Não sei se porque algum movimento feito no próprio bonde, que pegávamos para ir pra casa nesse dia, agitação não sei se ao contrário ou a favor, disso eu já não me lembro mais. Mas um fato político que foi quando Getúlio morreu, isso eu me lembro bem.

 

P / 2 – E ainda nessa parte de divertimentos da juventude, você e seus amigos costumavam ir à praia?

 

R – Ah! Íamos sim, nós saíamos do Méier para ir à praia do Governador, na casa dessa família que morava lá, sábado e domingo. E me lembro que essa família eles tinham um carro, naquele tempo era Jeep Willys, enchia o Jeep de garotos, eram nós as crianças, os quatro da mamãe mais os quatro da família amiga, mais ela e o motorista que era os pais dos amigos nossos. Era oito crianças, mais oito num Jeep que cabia o quê: quatro mais três sete. (risos). Ia tudo pra praia, na Ilha do Governador. Me lembro, no Jardim Guanabara.

 

P / 1 – Continuando, queria entrar nessa parte mais profissional da vida da senhora. Qual foi sua primeira atividade profissional?

 

R – Bom, aí eu saí, terminei o curso de secretária executiva, taquigrafia, estenografia, na época que era datilógrafa e ao mesmo tempo taquigrafia. E me lembro que eu, através de uns amigos, não sei se de minha irmã, eu fui secretária na VASP, no Lóide Aéreo Nacional que existia naquela época, empresa de aviação. Fui secretariar o assistente de um dos diretores, não me lembro se era diretor administrativo, fiquei um mês só secretariando o assistente de diretor, depois a secretária do diretor não me lembro porque motivo foi embora e eu passei a ser secretária dele. E do diretor fui promovida, fui ser secretária do presidente do Lóide, que logo depois foi vendido pra viação aérea São Paulo que foi VASP. Eu fui secretariar o presidente da VASP que era o Brigadeiro Osvaldo Pamplona, que já morreu também, e na época governador de São Paulo era o Adhemar de Barros. Eu fiquei na VASP de 1960 a 1966. Quando foi em 1966 o Adhemar de Barros. (a VASP é uma companhia paulista e não sei porque a sede era no Rio), por lógica e certo a matriz deveria ser em São Paulo e ele transferiu a matriz para São Paulo. Eu não queria ir pra São Paulo, porque com minha mãe e minhas irmãs aqui, minha mãe viúva... Eu disse eu não vou morar em São Paulo sozinha. Ai eu pedi ao Brigadeiro Pamplona que me demitisse. Depois de muita conversa com ele eu já tava 6 anos lá ele disse assim: “Ah, tá bom eu vou te demitir. Então o senhor tem que fazer uma carta para Departamento de Pessoal.” Eu forçando ele fazer a carta para o Departamento de Pessoal para que me demitisse logo. Ele fez a carta mas não assinou, é sei porque foi pra uma reunião e a carta ficou lá, no outro dia eu voltei, ele foi pra São Paulo, foi pras reuniões em São Paulo e ficou rolando uma semana e nada de assinar a carta. Um belo dia, quando ele chegou no Rio, eu disse: “Olha aqui o senhor não vai assinar a carta? – Ah Amélia eu pensei bem e não vou não. Você vai ser transferida para São Paulo”. “Ah, mas não vou mesmo!” “Então é rebeldia?” “É rebeldia, mas não posso ir pra São Paulo. Eu tenho minha mãe, meus irmãos, cachorro, periquito, papagaio”. Comecei aquela conversa fiada toda. Eu não sei que o coração dele amoleceu e ele assinou minha carta, isso foi acho que em Agosto de 1966, fui demitida, ótimo! Disse: “Vou ficar um mês de férias, sem fazer nada, descansando a minha cabeça”. Não aguentei, me lembro que eu peguei o Jornal do Brasil, num domingo e fui ler os classificados, e nos classificados tinha lá: “procura-se secretária para diretoria de companhia de gás”. Cortei aquilo, no domingo. Segunda acordei e disse pra mamãe: “Eu vou nesse endereço, era na Rua São José, já a Cia do Lóris, vai começar a história aí, Cia Brasileira de Gasbras. Eu disse eu vou lá porque eu não aguento ficar parada, vou trabalhar. Cheguei lá, tinha umas 40 moças eu disse: “já to aqui vou enfrentar, e esperei a minha vez pra ser entrevistada pelo chefe do departamento de pessoal, lembro o nome dele - André Pierre Rufie. Ai eu fui entrevistada por ele, depois aquela turma toda, me lembro que cheguei lá de manhã, saí depois do almoço, saí quase duas horas da tarde, ele disse assim: “Agora a senhora aguarda um telefonema, um telegrama, qualquer coisa em casa. Quando eu cheguei em casa, já tinha um telefonema. Só você foi o tempo de eu sair de lá _______________________. Se eu morava em Copacabana. Minha irmã tinha casado e nós todos nos transferimos para Copacabana. Cheguei em casa mamãe disse assim: “tem um telefone aqui da Cia de gás para você ligar pra lá”. Que eu liguei, me chamando pra eu voltar outro dia, 9 da manhã. Eu voltei e o lugar foi meu. Então se vê, através de um anúncio de jornal. (tosse). Ai eu fui secretariar o diretor de pessoal e jurídico da Companhia de Gás. Posteriormente, seu Lóris que era o dono da companhia de gás, fundador resolveu vender uma parte das ações da Companhia de Gás, não muito, antes disso ela passou da Companhia Brasileira de Gás para Supergasbras, mudou o nome a denominação. ___________________ ele resolveu vender uma parte das ações. Vendeu para um grupo de Companhias e nós continuamos na empresa. Não deu muito certo esse grupo com ele aí resolveu vender a parte toda. No dia foi engraçado, porque no dia que assinava a venda da Supergasbras para esse grupo de Companhias, seu Lorentzen já tinha as outras empresas do grupo que era a _______________ que nós chamamos de Olsa, então eu, nós todos, eu, Conceição e outras fomos demitidas. Vamos supor no dia 31 de julho que não me lembro, taí no papel e no dia primeiro de agosto fomos admitidas na Lorentzen. Então eu saí da Companhia Brasileira de Gás, fui pro grupo Lorentzen. No Grupo Lorentzen de um dia pro outro e fiquei secretariando o diretor pessoal e jurídico que foi o mesmo diretor que também passou. Estando lá no grupo Lorentzen, seu Lorentzen começou a pensar em fundar a Cruz, mas na cabeça dele nem era Aracruz, pensava, era as terras que tinha lá no Espírito Santo e cada um chegava pro seu Lorentzen e dava um palpite. Ó planta isso, o planta aquilo ____________ até pimenta do reino falaram, planta pimenta do reino e exporta pro mundo inteiro, então cada um dava um palpite, até que chegou na celulose, uns eucaliptos, e assim foi, começou o estudo para fundação da Aracruz. A primeira minuta de estatutos da Aracruz, primeiro papel Aracruz, fui eu quem datilografei, em máquina Remington daquela de você til da uma força do danada pra bate, e foi, a minuta foi feita por esse diretor pessoal e jurídico mais um outro diretor da outra, ________________ um grupo de diretores, advogados e tal e eu que datilografei. Até pouco tempo atrás eu tinha essa minuta, eu dei pro seu Lorentzen ele tem e, o que que ele fez eu não sei. E aí continuamos com o Grupo Lorentzen até fundar a Aracruz. Quando foi em 1972 fundou-se a Aracruz. A mesma história. Eu sai demitida num dia, o outro fui admitida na Aracruz. Quer dizer ______________ é  na Aracruz, aí nós já estávamos em 1972, Iam ser iniciados as obras. E eu participei de todas essas... Então, por isso que eu disse eu e Conceição somos mãe da Aracruz, porque os primeiros papéis da Aracruz saíram das nossas mãos né. E sempre participamos de tudo.

 

P / 1 – Voltando só um pouquinho. A senhora falou que saiu do Grupo Lorentzen e entrou na Aracruz. E como foi isso? Alguns funcionários continuaram como funcionários do grupo Lorentzen e Aracruz

 

R – É poucos. Mas por exemplo: os cargos de confiança vamos dizer assim que eram os diretores, alguns advogados, a Conceição que é a secretária do seu Lorentzen. Eu mexo com ela: “quinhentos anos”, ué tu tá há quinhentos anos como secretária do homem aí, e eu que era secretária da diretoria, que já era minha desde a Gasbras, alguns funcionários de nível superior e, de confiança dele saíram do Grupo Lorentzen e continuaram com seu Lorentzen, acompanharam ele na fundação da Aracruz.

 

P / 2 – A senhora também disse que foi testemunha desse embrião da Aracruz. Como é que é definido esse projeto. Como é que ele se referia ao projeto Aracruz antes dele ter este nome.

 

R – É um projeto né? A gente falava o projeto. Cada hora diziam uma coisa a gente sabia que era o projeto do Espírito Santo. Por exemplo, as terras do Espírito Santo, o que que ia fazer lá? Ninguém sabia, porque cada um dava um palpite. Então, a gente falava o estudo das terras do Aracruz, era o projeto do Espírito Santo. O seu Lorentzen está com um projeto aí, vamos ver o que vai sair. Era um projeto novo até que definiu-se pela celulose pelo plantio de eucalipto. Já existia lá uma parte de eucalipto, depois foi fundada a Aracruz Florestal que veio primeiro do que a celulose. A Aracruz Florestal é que plantava o eucalipto para Aracruz celulose depois de usar esse eucalipto e fazer a celulose.

 

P / 2 – Eu queria voltar quando você falou que era da Supergasbras e que logo depois era do grupo Lorentzen. Você lembra qual era a data? O ano? 

 

R – Espera aí, a Aracruz foi fundada em 1972... Acho que foi 1968 por aí.

 

P / 2 – Que é também o ano em que você escreveu, datilografou a minuta dos ____________________________? 

 

R – É, a minha foi entre 1969 e 1970 por aí. Os outros dados, anos vocês vão encontrar depois lá na parte técnica, vamos dizer assim. Estou dando os dados, mas não vai muito nessa minha, nesses dados de data porque eu já não me lembro mais. Oh, abrindo um parênteses, me telefonou um diretor que vocês vão... Ex-presidente Armando Vieira Neto, que ficou sete anos na Aracruz, me ligo essa semana. – “Oh Amélia me ajuda, minha cabeça já não tô me lembrando disso, você tem boa memória”. Eu disse pra ele “Eu não me lembro, o que eu comi ontem, eu vou me lembrar hoje do que passou na Aracruz?” Desta que eu fui procurar dados. Eu disse pra ele: “Você tem que ter dados concretos de data dos ____________________________eu não preciso de números”.

 

P / 1 – E uma vez que você decidiu pela celulóide a senhora lembra das expectativas que se criaram em cima disso. Desse estudo, quem participou disso?

 

R – Ora, quem participou, você quer nomes?

 

P / 1 – Alguns se a senhora lembrar.

 

R – Bom, tirando seu Lorentzen, Dr. Leopoldo Brandão uma pessoa que foi muito importante na fundação da Aracruz Celulose ele já era da Aracruz Florestal. Mais nomes de fundadores... Olha tem gente que já morreu ou que já não me lembro, não me lembro de nome dos fundadores mesmo, me lembro do Lorentzen, tem gente que participou da fundação e que hoje não está mais no meu grupo, tinha, por exemplo: este que morreu Roberto Miranda Couto, Luciano Villas Boas Machado, morreu; vocês vão encontrar muitos. Agora, expectativa nossa, puxa, nós, eu e Conceição, que estávamos naquele projeto desde o início, a gente vibrava com a criação de Aracruz, e que espetáculo, uma firma, firma grande, e o seu Lorentzen com todo o Gás, entusiasmado e todo mundo muito entusiasmado. Era uma festa. Depois vieram as situações, vamos dizer assim, um pouco difíceis, que nós também participamos pra ver o BNDES soltar o dinheiro, para ajudar o projeto. Enfim foi um entusiasmo só.

 

P / 1 – Qual desses desafios, dessas dificuldades a senhora classificaria como a maior de todas?

 

R – O maior de todos, os desafios. 

 

P / 1 – O grande abacaxi?

 

R – Eu vou te dizer, não chegam nem o desafio da fábrica, do complexo em si, era o desafio pra chegar lá, porque a Aracruz tinha algumas terras e alguma plantação de eucaliptos, então não tinha casa, não tinha nada. Tinha lá um barraco que o Dr. Leopoldo, que era da Aracruz florestal montou para quando ele fosse lá para as reuniões dos plantios dele, e ter um pouso, e esse barraco até era muito engraçado, diziam que esse barraco tinha sido utilizado por (como é que chama, ai meu Deus) contrabandistas porque passavam o rio e o riacho, os contrabandistas viam de fora, desovavam não sei o que lá e escondiam nesse barraco, isso contam, não se é verdade. Mas depois esse barraco foi usado para Aracruz. A gente sai do rio de avião e ia até Vitória. Pegava o carro e ia para Aracruz, metade da estrada era asfaltada, porque era do governo estadual, metade não era, depois a Aracruz que pagou esse asfalto. E aí chegava um certo trecho, se chovesse então era problema porque a gente atolava até a cabeça, cansei de atolar até o joelho, na lama mesmo e pra sair com o carro, enfim. Aí chegava até a beira do rio, saí de Vitória e ia até Santa Cruz. Você teve lá, você ter visto que Santa Cruz pra atravessar para Aracruz, Bairro de Coqueiral e bairro de Riacho tem um rio. Esse rio, naquela época não tinha balsa, não tinha ponte, não tinha nada, era uma canoa de índio que só podia entrar dois na canoa e o índio. Aí o índio vinha aqui pegava dois levava, botava do lado de lá; voltava pegava mais botava do lado lá. E o índio a gente dizia assim – “O índio está de tanguinha?” Nada, o índio já tava aculturado, tava de bermuda. Mas a gente queria ver o índio de tanga. Primeira vez que eu fui ao Aracruz eu disse: “queria ver o índio e tanga”, que nada ele já estava aculturado. Chegando do lado de lá tinha um jeep velho que levava a gente para esse barracão. Lá a gente ficava hospedado para fazer os estudos, trabalhos. Eu participava de todas as reuniões da diretoria porque eu já era secretária da presidência da Aracruz. Quando a Aracruz foi fundada, eu primeiro fui designada para junto com o jornalista famoso da época que eu não sei se você se lembra Nahum Sirotsky. O Nahum foi designado para fundar o departamento de comunicações da Aracruz, assim que ela foi criada eu fui designada para ajudar o Nahum, mas só fiquei dois meses lá, depois fui transferida para a presidência do Aracruz e fiquei na presidência até sair em 1994. Bom, então eu acompanhava as reuniões da diretoria, lá do lado de lá, em Aracruz. Então você perguntou fatos curiosos? – Era a travessia de canoa, era os atoleiros, às vezes atolava às 9 da manhã e só era desatolado às 10 da noite, a mosquitada comia a gente ali a vontade, então são fatos assim, curiosos.

 

P / 1 – É uma curiosidade que me atentou, você vestida como executiva pra lá?

 

R – Não eu botava umas botas, uma calça, naquele tempo não era jeans, era brim coringa, que é o jeans hoje melhorado. Era bota porque atolava mesmo, brim coringa, camisa de homem, e tinha que ter uma capa porque lá chovia muito à tarde. Era assim. E atolei muito, porque que a gente chegava do lado de lá, fazia as reuniões, e o atual, na época o engenheiro responsável pela construção da fábrica que era diretor presidente. Doutor Ciro Guimarães, do qual eu fui se secretária durante todo o período de construção, ele fez um desafio. Chegou pra diretoria e disse: “Eu aceito a incumbência de ser (vocês vão entrevistá-lo), o responsável pela obra, mas eu vou entregar essa obra no dia “X”. Eu não lembro se foi 04 de fevereiro de 1978 não me lembro dessa data, mas vamos supor que fosse no dia 04 de fevereiro 1978 eu vou entregar essa fábrica, produzindo. No dia 04/02 inaugurou-se a fábrica. Foi incrível. Mas pra isso, ele batalhou. Todos batalhamos, nós íamos pra lá pro Aracruz, eu participava das reuniões, às vezes, 11:00 da noite a gente estava sentada com as plantas, eu taquigrafando tudo, eles trabalhando e eu taquigrafando, as atas de reuniões de diretoria todas eram taquigrafadas por mim. E, às vezes, a gente estava nesse barracão, precisava de todos da construção do porto. “Ah Amélia”, “Fulano, leva Amélia ali no porto para pegar uma planta”. A draga tava lá tirando areia para construir o porto, nós atolávamos, aí em vez de chegar com a planta na hora, levava quinze horas pra chegar com a planta, quinze e exagero, quatro ou cinco horas pra  vocês verem, de madrugada nós rodávamos. Aqui no Rio, trabalhando aqui na previdência era na Rua Severo, então eu chegava no escritório horário era 8:00 horas, que eu sempre cheguei mais cedo, não dava oportunidade do Doutor Ciro chegava mais cedo que eu. Eu tinha que chegar primeiro. Isso era infalível, você pode perguntar para qualquer pessoa que eu era a primeira a chegar. Chegava e trabalhava. Às vezes Doutor Ciro era terrível, eu dizia que ele era milico, ele ficava até às 8, 9 da noite, e a gente trabalhando, porque ele queria a fábrica no dia “X”. Eu chegava em casa, morava em Copacabana saia da Lapa, da Augusta Severo, e ia para casa, porque saía às 8:30 horas, 9:00 horas, umas 9:30 horas chegava em casa, já tinha um telefonema. 

“Ô mãezinha Amélia, o Doutor Ciro ligou.”, “Oh, mas puxa vida eu nem bem cheguei esse homem já está me ligando, no outro dia às vezes seis da manhã eu já estava no escritório. Mas ele ligava.”, “Amélia anota isso, antes que eu esqueça, anota aquilo, não sei que, falar pro fulano... “ Então você vê a luta que foi. Mas a gente fazia isso com prazer, sinceramente, não é demagogia não principalmente, eu e a Conceição porque a gente se sentia mãe do Aracruz. A gente tinha um amor... As dificuldades que o Aracruz passava. Vejam vocês, contar isso você vai até dizer, você tá imaginando coisas. Épocas em que o funcionamento do BNDES não saia, custava a sair com todo... Aracruz precisando do dinheiro para tocar a obra, me lembro com o número pequeno de funcionários que veio do grupo Lorentzen que tava no Aracruz, nós chegamos a ir ao seu Lóris, queríamos ver seu Lóris e _____________________ a gente trabalhava até um mês sem ganhar, mas a gente pega esse dinheiro e bota no projeto, não foi preciso fazer isso, mas chegamos a pensar em reunir os funcionários e levar esse assunto pra eles. Então você vê que a gente vestia a camisa da Aracruz, realidade era com amor. E eu participei do Aracruz ali, foi uma época muito boa da minha vida. Eu tenho recordações ótimas. Então foi a construção, antes da construção as obras todas da fábrica, do porto, de Barra do Riacho que hoje é a Porto sil, do complexo no Bairro do Cocoral que era um bairro habitacional com 800 e poucas casas, o clube da Orla que fazia parte, o hotel dos funcionários, enquanto não tava pronto as casas, eles moravam no hotel. Isso tudo eu participei, da construção e da inauguração.

 

P / 2 – Amélia a concessão desse complexo é simultânea não é? 

 

R – Era. 

 

P / 2 – Por isso demorou de 1968 a 1978, não é isso?

 

R – Não, não porque o bairro demorou um pouquinho mais, a fábrica ficou pronta e ficou pronto o hotel da praia, e até as casas ficarem prontas, mas pros funcionários terem onde morar vamos dizer assim construiu-se primeiro o hotel da praia. Tem uma passagem muito interessante, os diretores e o conselho da administração da diretoria sempre que ia para Aracruz pras reuniões de três em três meses, nós fazíamos as reuniões lá no local, a fábrica pronta ou não as reuniões eram lá. Eu e a Conceição íamos. A Conceição com a secretária da presidência do conselho e eu com a secretária da presidência da CIA. Eram as únicas duas mulheres que acompanhavam aquele bando de homens. E íamos para lá. Me lembro que quando o hotel da praia ficou pronto, o conselho e a diretoria, numa das viagens íamos inaugurar este hotel. A primeira noite todo mundo ia dormir no hotel. Uns 30 quartos sei lá quantos tinham, e bonitinho o hotel. Hoje tá lá, mas até tem um outro nome. E então foram comprados móveis novos, camas novas, montaram tudo. Fomos pra reunião lá na obra, nós escritórios e depois fomos pro hotel tomar banho e jantar, todo mundo descansar e dormir. Minha filha... Meu amigo... Quando chegou de noite, todo mundo já jantado fomos cada qual pro seu quarto. Eu no quarto com a Conceição era uma suitizinha: quarto e banheiro para cada um. E aquele bando do conselho e diretoria. Eu e a Conceição deitamos e daqui um pouco aquilo “Bum, Bum” todo mundo caiu da cama, inclusive eu, mas você sabe que era o estrado, ninguém caiu de lá não, o estrado afundava e a gente ia no chão, mais olha, foram uns dez. As camas não foram montadas, botaram os estrados ali, não parafusaram, cada um que deitava o estrado levava pro chão. E foi um tal de gente cair ali naquela noite. Então a inauguração do hotel foi tombo geral. Então tem umas coisas curiosas. Nesse mesmo hotel, a Conceição, eu posso falar isso porque ela deve ter dito pra vocês, ela não diz a idade dela, morre mas não fala (isso aqui você vai cortar depois não é fofoca não, ela sabe disso), chegava lá na hora de registrar eles sabiam que nós éramos funcionárias, mas tinha uma ficha pra preencher, pra depois fazer estatística, quantos funcionários vieram e quantos não. Nome, setor que trabalhava, idade, aí eu botava 18 de março de 1936?  “Conceição que idade eu boto ai?”, “Ah! Quanto você vai botar pra você?”, “Eu vou botar que tenho 25”, “Então bota 28 pra mim.” Passava... Três dias depois passava.  “Conceição quanto você vai botar?” Eu esquecia quanto eu tinha... “Eu vou botar 28”, “bota 30 pra mim”. Voltava... Conceição, Ah! Não sei e assim nós enrolamos o período todo de construção da fábrica do complexo nós nunca colocamos a idade certa, mas eu acho um absurdo ter que colocar porque os dados o departamento de pessoal tinha tudo, então eu já fazia de molecagem. Até que um dia no Rio, depois da fábrica construída, já segunda anos agora a pouco tempo, antes deu sair, me liga um rapaz do setor de estatística do Aracruz: “Dona Amélia estou com um problema sério aqui”, ” Qual é o problema, filho?”, “Eu não chego a um acordo com a idade da senhora e da Conceição. A estatística e do hotel, cada ficha que eu pego lá tá uma idade “. Eu digo: “Eu também não vou te responder não. Você liga pro Departamento do Pessoal que eles tem lá o ano que eu nasci e a Conceição também”. Mas eu ria dela, então a gente enrolava.

 

P / 1 – Como era esse canteiro de obra no dia-a-dia? Quando vocês visitavam era uma emoção ver aquela coisa.

 

R - Ah! Era porque cada vez que a gente chegava tinha uma torre a mais, vamos chamar de torre. Ia lá, por exemplo, em Janeiro tinha uma torre, voltava em Março já tinha duas torre, era sempre de três em três meses. Aí chegava à fábrica já tava pronta. Aí chegava o Porto, a draga já tinha dragado tudo, já tava lá começando o cais, ai o bairro... Cada vez que a gente ia era uma emoção diferente por que as coisas iam... É impressionante você que foi lá, você sobrevoou a fábrica? Se você for de avião e sobrevoar a fábrica, você vê mata, mata fechada, como se fosse a Amazônia, mata de eucalipto, de repente você vê um clarão na mata, aquela extensão... Hoje são três fábricas, aquela coisa! Eu fui agora, coisa do ano retrasado, eu já estava aposentada, eu e a Conceição, e teve a inauguração da terceira fábrica e nós fomos convidadas, fomos num avião fretado, especial e tudo e o avião sobrevoou. Menino, você sabe que eu chorei quando eu vi aquele clarão, aquela monstruosidade: o porto, o bairro, já com as casas todas e além de casas já tem edifícios, não muito alto parece que são dois andares ou três não me lembro. Quando você vê aquilo e quando você chegava e você via aquela canoinha, chegava lá aquele barracãozinho, as terras... de repente você vê, não é possível no meio dessa mata. Ai você vai, sair de Vitória sobrevoa, de repente você vê aquele mundão lá, espetacular.

 

P / 1 – E na região do Aracruz o que a senhora percebeu de mudança lá?

 

R – Ah! Mudou em tudo, porque tinha a cidade de Aracruz, mas era uma cidade pequenininha, com a construção do complexo Aracruz a cidade ganhou hospital, tudo financiado pela Aracruz, ajudando claro, ganhou estradas à estrada de um certo trecho de Aracruz, o governo estadual para pavimentar aquilo era uma desgraça, ninguém conseguia ver a... Ai a Aracruz acabava entrando na jogada e enfim, a cidade cresceu, hospitais, escolas, creches, tudo patrocinado pela Aracruz. A cidades teve um desenvolvimento tremendo. Era uma cidadezinha de nada. 

 

P / 1 – A senhora chegou em algum momento da carreira da senhora, estar ligada a este movimento das negociações de estradas, como secretária?

 

R – Ah! Sim eu participava, não lembro dos detalhes, mas a papelada toda passava na minha mão, porque era a secretária do presidente, os contatos com os governadores da época, as entrevistas eu é que ligava marcando. O presidente quer entrevista com o governador... Tudo passava por mim.

 

P / 1 – E como mãe da Aracruz, é assim que a senhora se define, ficava contrariada quando recebia uma negativa?

 

R – Não, porque são cavacos do ofício. Eu entendia que se o governador não pode atender hoje e se ele não pode fazer é porque ele não tem verba. Mas, às vezes, sempre achava assim achava sim: isso é política é porque o cara sei lá, sempre achava que tinha política no meio. Mas no fim a gente vibrava porque o Aracruz acabava dando um jeito, sempre patrocinava.

 

P / 1 – Agora entrando no departamento de comunicação que a senhora citou há pouco.

 

R - Este departamento era o seguinte: Senhor Lorentzen queria que o Aracruz tivesse um setor que se comunicasse com a mídia, com a empresa, jornais, revistas, pra ela ir se projetando e não tinha nada no Aracruz. Ninguém sabia nada no Aracruz, sabia o nome dos diretores o jornal sabia, mas as pessoas com quem devia ligar, mandar release! Pra eles, por exemplo: “A Aracruz hoje completou tantos m² no canteiro de obras”. Mandava um release pra eles, pra ir promovendo. Então precisava criar um departamento de comunicação.

 

P / 1 – Era atribuição da senhora fazer isso?

 

R – Era do jornalista Nahum Sirotsky e eu ajudando ele na parte de arquivo de montagem, tal... Depois que o setor foi montado, ficou na mão do Nahum aí eu fui puxada...

 

P / 1 – E as respostas que a senhora recebia deste trabalho?

 

R – Eram positivas, porque sempre interessa  por exemplo: estão criando em complexo grande no Recreio do Bandeirantes, porquê, o jornalista da área de indústria, se for uma indústria, ele vai se interessar, ir lá ver, publicar e tal... É foi muito interessante.

 

P / 2 – Foi quando a criação desse departamento de comunicação?

 

R – Olha, Aracruz foi fundada em 1972, foi logo em 1972. Assim que começaram a criar os setores de departamento pessoal, não sei que, não sei que... Tudo aqui no Rio, e esse departamento. O Nahum hoje, nem sei onde está! Depois ele saiu do Brasil e foi pra Israel, eu acho, hoje não sei onde ele anda. Era um jornalista famoso na época Nahum Sirotsky.

 

P / 1 – Amélia, voltando à construção da fábrica. Dentro de todo esse processo qual a senhora achou que foi o ponto de maior tensão, o mais difícil?

 

R – A primeira fábrica.

 

P / 1 – O que tornou difícil?

 

R - O que tornou difícil, sabe que o grupo Lorentzen precisava de dinheiro, milhões e milhões de dólares para montar um complexo enorme. E precisava de financiamento do BNDES e o BNDES ia assinar o acordo com a Aracruz, mas você sabe como é política, né? Assina hoje, assina amanhã e passava um mês o BNDES não liberava o dinheiro, passaram-se dois e três e aí cadê o dinheiro para tocar a obra? O senhor Lorentzen teve que ver investimento fora do Brasil para ajudar a tocar a obra, foi preciso isso. Inclusive o prestígio da família Lorentzen, você sabe que eles na Noruega é uma família de tradição de amadores ele é casado com a princesa, mas aí não tem nada a ver com o caso lá da nobreza, era mais o lado da família dela, ele à Noruega tentar com a família, trazer o dinheiro pra investir aqui. Enfim em outros países também, foi preciso ajuda internacional, né? A criação da 1ª fábrica foi um sofrimento, mas um sofrimento gostoso depois que você viu aquilo ali. A inauguração da fábrica foi uma coisa!

 

P / 1 – Fale pra gente como é que foram os preparativos?

 

R – Era uma festa, né? Eu me lembro que quem inaugurou a fábrica, teve várias inaugurações na época, teve inauguração do Collor, teve inauguração do Figueiredo, Geisel, cada qual na sua época eu não me lembro qual foi o presidente que foi. O Figueiredo? Mas isso, a parte histórica no ________________ vão dizer pra vocês. 

 

P / 1 – Além do presidente quem estava na festa?

 

R – Ah! Todos os funcionários participaram da construção da fábrica eram dez mil funcionários. Todos participaram da inauguração da fábrica. Foi montado um galpão para festejo, foi um almoço, um churrasco, todos participaram, do faxineiro ao presidente, todos.

 

P / 1 – A fábrica estava operacionando ou não? 

 

R – Sim, ela foi inaugurada operando.

 

P / 1 – Como foi à senhora ver o projeto que a senhora fez a primeira minuta em ação?

 

R – Aí a gente entrava na fábrica, como diz o outro: do começo vinha as toras de eucalipto, os cavacos, é difícil eu explicar pra vocês, mas quem já foi lá já viu aquelas esteiras com os cavacos entrando, depois entrando nas máquinas, depois sendo lavados, cozidos, triturados, até sair as folhas de celulose, quando as folhas saíram, lá no fim da fábrica, do outro lado, aquelas folhas já eram embaladas, tudo automático. E aquelas tiras de aço prendendo as folhas e já vinha à carreta pegava as máquinas e botava empilhadas. Olha era uma coisa. A gente quando via aquilo era uma alegria! Tinha muito fato pitoresco. Agora falando de Aracruz em si, todas as festas de fim de ano, eram de confraternização dos funcionários, dos diretores todos, o conselho também participava. No início, o senhor Lorentzen queria que os funcionários do grupo Lorentzen e da Aracruz participassem, então fazia uma festa só. E vários anos eu trouxe os retratos pra vocês, eu era a mamãe Noel, me vestia de papai Noel porque eu sempre fui muito festiva. Todas as festas de Aracruz eu que estava na frente. As festas eram uma beleza, os diretores participavam, os conselheiros... E tinha aquele negócio de “Chopp”, subia em cima da mesa, o ministro Galvêas quando fui presidente da Aracruz, me lembro que numa das festas botamos o Galvêas em pé em cima da mesa servindo “chopp” pro pessoal. Como você vê todo mundo vestia a camisa da Aracruz, era uma coisa! Hoje eu não sei como é que é, porque eu já saí de lá.

 

P / 1 – Mas isso acontecia na fábrica, no Espírito Santo ou...

 

R – Não, era aqui no Rio, lá era a fábrica a festa era lá, porque não podia trazer aquele todo pra cá. No Rio nós tínhamos primeiro nós começamos a gasbrás na rua São José ______________ Lorentzen na rua São José, depois nós passamos para Augusto Severo, seu Lorentzen queria a sede, queria comprar até, mas ali a Augusto Severo era o prédio do Instituto Histórico Geográfico, algumas três andares ali. Era a Aracruz no quarto andar e quinto, era as empresas do grupo Lorentzen nós chamamos de (Olsa) no sexto e sétimo era (Olsa) e Aracruz. Ficamos, ali muito tempo. Depois a Aracruz fundou a associação da Aracruz a AROS, associação dos funcionários, aí compramos três andares na torre Rio Sul que era 20, 21 e o, 40. A diretoria toda ficava no 40. Eles trabalhavam lá em cima, no 40. E os outros departamentos no... Então nós saímos da cidade pra Lapa, da Lapa pra Zona Sul. Progredi, né? Sai da Lapa pra Zona Sul. Eu costumava dizer nós vamos subir na vida, saímos da Lapa que era um bairro amoroso e fomos pra Quarenta na torre (Rio Sul). Foi muito bom, adorava trabalhar na Aracruz. 

 

P / 1 – Voltando, em relação à questão da fábrica, a senhora falou em uma conversa comigo, que tinha participado de todas as inaugurações, a de (Porto Sul) a das outras unidades?

 

R – Todas. A inauguração do hotel, já te falei todo mundo caiu da cama foi um fato pitoresco. A inauguração do clube da Orla me lembro, que nós fomos almoçar lá, o conselho e a diretoria e tinha uma bela piscina como bem ainda e fazia muito calor, então eu levantei a calça e sentei na beira da piscina e fiquei com as pernas ali molhando inaugurando a piscina. Senhor Lorentzen venho por trás e fingiu que ia me jogar é claro que não ia me jogar, mas ele chegou a me... Me segurou, se ele não segura eu ia cair de cara dentro d’água mas eu carregava ele também. Juro que carregava, porque na hora que eu fosse ele vinha. Então também sem querer eu inaugurei a piscina. Todas as inaugurações lá eu participei. Eu, Conceição e este grupo que participou desde a fundação. 

 

P / 1 – Mas a primeira fábrica emocionou mais?

 

R – É foi mais emocionante, porque foi a primeira. E mesma coisa que você não tem um imóvel, de repente você compra e mostra ele todo bonitinho, você entra lá e “Que alívio, que alegria, hoje tenho meu imóvel”.

 

P / 2 – Nessas inaugurações era costume ir figuras de projeção?

 

R - Ah! Iam.

 

P / 2 – No nível estadual mesmo?

 

R - Certamente o governador do estado, fosse ele quem fosse na época, as autoridades, por exemplo, o desembargador, o juiz da comarca, o deputado, o senador. Do Rio o presidente do BNDES que sempre prestigiou a Aracruz ia sempre em todas as inaugurações, os conselheiros, por exemplo, o conselheiro da Souza Cruz ou representantes e a ministra, presidente da república eu passei por inaugurações lá, não me lembro quais foram e quais foram os presidentes. Figueiredo inaugurou uma fábrica, eu acho que foi a primeira você vai ter certeza disso porque o Aguiar vai te dar os dados todos, qual o presidente o Collor inaugurou outra fábrica. O Geisel inaugurou outra. Foram três presidentes. Será que teve mais outro? Costa e Silva, não. De militar foi o Figueiredo e o Geisel. Depois foi o Collor. depois do Collor quem foi presidente?

 

P / 2 – José Sarney?

 

R – Não, não. Depois do Sarney?

 

P / 1 – Itamar Franco?

 

P / 2 – José Sarney antes do Collor.

 

R – E está última inauguração agora da... foi o Fernando Henrique. Você vê esses quatro como presidentes inauguraram quatro fases da Aracruz. Porque a Aracruz tem a fábrica um dois e três que eles chamam de A-B-C. Mas teve inauguração da (Portocel), do bairro e uma série de coisas e sempre os presidentes, os políticos... Participavam jornalistas... 

 

P / 1 – Falando em presidentes a senhora assessorou quantos na Aracruz?

 

R – O principal, o construtor da fábrica Ciro de Oliveira Guimarães Filho, que entrou com a função, engenheiro construtor, que entrou para construir a fábrica. Construiu e entregou na data... Ele disse, eu vou entregar esta fábrica no dia “X” e no outro dia eu me desligo da Aracruz. Não ficou nem mais um dia. Ele era um homem construtor, ele não era burocrata de ficar sentado no escritório. A função dele foi construir e construiu muito bem. Foi um belo presidente, foi excelente. Depois saiu o Ciro ficou o Ernane Galvêas como presidente ou vice-presidente executivo. Depois do Galvêas, Armando Vieira Neto, vocês vão entrevistar também ficou, sete anos. Depois do Armando Vieira Neto, mas entre um e outro seria um até ser eleito outro, senhor Lorentzen ficava como presidente. Secretariei senhor Lorentzen também como presidente. Ele acumulava a presidência e a presidência do conselho. Várias vezes ele ficou na função de presidente eu enquanto seria eleito o próximo. Armando Vieira Neto, depois Armando Figueira que também foi conselheiro da Aracruz foi diretor da Souza Cruz e depois conselheiro da Aracruz e também presidente. Saiu ele, entrou o Francisco Groa, que todo mundo conhece ele de nome, saiu Francisco Groa entrou o Kaufmann. Quando o Kauffmann entrou, eu me aposentei em julho de 1993. Cheguei pro seu Lorentzen, eu estava cansada e minha mãe estava doente, uma série de problemas, e disse: “Seu Lorentzen, eu vou me aposentar e vou parar de trabalhar”, “Ah! Não faça isso, você vai fazer o quê... Fica mais um pouco”. Estava perto também de mudar a diretoria... eu fui ficando, fui ficando... chegou em fevereiro de 1994 entrou o Kauffmann, aí eu já estava aposentada; minha mãe já tinha falecido; eu comecei a pensar assim eu to há seis anos de grupo Lorentzen com 22 de Aracruz, são 28, mas os seis que eu tinha trabalhado na VASP são 34 anos. “Pô, eu já tô aposentada, sabe de uma coisa? Eu vou mudar a minha vida.” E minha mãe ficou dez anos doentes, teve trombose, ficou paralítica, na cama, com enfermeira, na cadeira de rodas, esse processo horroroso e eu participando de tudo, ela morava comigo. Aquilo foi me batendo muito e disse: “Agora eu vou viver, vou refrescar minha cabeça, vou parar de trabalhar, vou fazer o quê? Eu vou ser voluntária, de alguma coisa”. Cheguei pra seu Lorentzen: “Vou parar de trabalhar em fevereiro agora. Quando o Kauffmann entrar arranja uma secretária aí, porque eu vou... To cansada só, eu quero ser voluntária, não quero mais acordar as seis da manhã para estar às 8 na Aracruz. Eu quero trabalhar só dois dias na semana? Ou meio expediente?” Ele riu. “Se não bem eu vou procurar, vou ser voluntária, trabalhar de graça. Vou ocupar meu tempo”. Ele disse assim: “Pensa bem", “Eu vou pensar. Vou fazer o seguinte: Eu vou tirar férias, eu tinha férias acumuladas, vou viajar um mês, quando eu voltar eu decido”. Tirei férias fui pra Nova Iorque. Fiquei um mês em Nova Iorque, aí voltei. Cheguei pra ele e disse:“Vou me aposentar”. Avisei o Kauffmann e seu Lu numa boa, foi muito bom, me prestigiaram muito. Engraçado sai, fiquei mais um mês à toa. Um dia eu fui à casa da minha irmã que mora na Lagoa e passei por uma obra que chama-se Ambulatório da Praia do Pinto, você conhece lá? E no que passei eu disse:“Será que aí estão precisando de voluntário”? Eu me lembro que eu entrei tinha uma senhora de cócoras no arquivo, mexendo lá, disse assim: “Vocês estão precisando de voluntário? Com quem eu falo? É comigo mesmo. Você quer começar amanhã”. “Vai espera ai, não é assim não”. Encurtando a história, uma semana depois eu entrei lá e estou a nove anos. Dou plantão lá, quarta de manhã e quinta à tarde na parte burocrática administrativa. E a sexta à tarde eu vou, no Instituto de Cardiologia brincar com as crianças, então ocupei meu tempo. Segunda, e terça vou fazer ginástica, vou pra hidroginástica vou caminhar no calçadão, vou cuidar da minha casa... Quarta, quinta e sexta vou fazer meu serviço de... E continuo amiga do seu Lorentzen, da Conceição. Estou com a Conceição desde sessenta e poucos nós somos como irmãs, estamos sempre juntas. Esta semana estive no Aracruz, fui pegar uns relatórios, queria me atualizar. “Vou falar lá no Aracruz deixe eu me atualizar um pouco!” O que eu já não me lembrava. Continuava amiga de todos lá. Não sinto falta não. Eu sinto falta das amizades, mas nós temos um grupo que todo mês, às vezes, de dois ou três meses nós nos reunimos, um grupo de aposentados do Aracruz são engenheiros, advogados, eu, Conceição sempre almoçamos juntas estamos sempre em contato. Isso é muito bom. Mas foi um período ótimo, adorei. Mas é como eu te disse eu sinto saudade dos amigos, da emoção também de ver a fábrica subindo, eu me lembro, às vezes, mas de trabalhar não, eu já trabalhei muito, chega já to cansada, agora tô aproveitando minha vida.

 

P / 2 – Amélia você lembra de quando mudaram de máquina Remington para computador?

 

R – E como me lembro, minha filha!

 

P / 2 – Você pode falar um pouco sobre isso?

 

R – A minuta de estatuto que lhe falei foi numa máquina Remington, aquele caixotinho, e seu Lorentzen tinha mania de mandar cópia para Deus e o mundo, isso a Conceição e eu até hoje reclamamos. Porque ele tinha os irmãos dele no grupo Lorentzen que participava, então ele tinha que naturalmente dar ciência aos irmãos do que ele estava fazendo como é natural. Naquele tempo não tinha xerox, né? Era carbono. Aí a gente botava oito vias, era um papel, um carbono; um papel, um carbono... Aí você fazia uma força danada porque se você encontrasse o dedo, com tanto papel ali a máquina não batia. E quando errava, para apagar aquilo tudo. Não existia o liquid paper. Era engraçadíssimo. Até que o senhor Lorentzen veio da Noruega com uma idéia genial. Descobriu lá uma máquina que não era xerox nem fotocópia era (termo fax). Você lembra era um papel bege, encerado. Quando ele trouxe essa máquina ás secretárias, a diretoria bateram palmas, vibraram: - “agora nós não precisamos mais de encher a máquina de papel. Aí tirava cópia. Só que essa ( termo fax ) você por exemplo sabia uma carta e tirava cópia nesse ex –xerox, com o tempo as letras sumiam. Então não adiantava nada. – “vocês tem que tirar cópia... (risada). Aí nós começamos a fazer pressão pra mudar pra maquina eletrica – “Ah! Tem que ser máquina elétrica!“ A Aracruz foi crescendo, imagine a papelada  que consome uma fábrica. Tinha que tirar cópia pra mandar pra aqueles conselheiros. Eram doze, seis diretores, mais não sei quem, era cópia que não acabava mais. Máquina elétrica, tá bom. Passamos para a máquina elétrica ADLER, sueca, muito boa. Na época, que luxo, todo mundo na máquina elétrica. Depois IBM, aquela de bolinha de ferro, também muito boa. Depois, da IBM também aquela que tinha uma fita, mais moderna, e depois o computador. Quando entrou o computador eu tava saindo da Aracruz. Então eu não cheguei a pegar o computador. Na Aracruz toda secretária tava entrando no computador, todo mundo sendo aula de informática. Eu me lembro que o diretor dizia assim “Amélia você não vai fazer o curso de informática"?  

- Eu não, vou me aposentar mês que vem.

- Mas você não vai fazer? 

- Não porque se eu fizer eu não vou sair da Aracruz. Eu vou sair da Aracruz, eu não quero fazer este curso de informática. E eles através de mim: 

- Faz o curso...

- “Não faço porque eu vou me aposentar”. É rebeldia mesmo. Se eu fizesse, eu sei que eu ia gostar tanto que eu ia acabar... Não, não quero. Então eu não cheguei a pegar. Tinha um detalhe: Tinha uma maquininha portátil Remington que eles fizeram o favor de comprar e mandar pra minha casa, porque quando eu saia do escritório, sexta, 7, 8 horas da noite eu levava tudo taquigrafado e no outro dia as 8 da manhã eu tinha que estar com aquilo datilografado. Ai meu filho, chegava em casa tomava banho, comia alguma coisa e oh! Na máquina. Os vizinhos deviam reclamar porque a máquina naquele tempo fazia barulho. E por falar almoço e jantar, hoje vendo os retratos com a Conceição, os que eu trouxe pra vocês eu disse assim:

-“Conceição como nós éramos magrinhas, né?

- Mas também pudera a gente não tinha tempo de comer!” (risada). Sabe como a gente almoçava no Aracruz? Na época era, pressão na fábrica, tudo era pra ontem. Batendo na máquina, mastigando sanduíche, atendendo telefone, era um horror, mas fazia com prazer, ninguém reclamava não. Depois fomos pra Augusto Severo e nosso escritório lá era no 7º andar, a diretoria era lá. Então tinha uma visão bonita do Aterro e tinha um balcão na janela, na hora que os diretores iam almoçar, porque também almoçavam lá, ninguém saia pra comer porque tudo era pra ontem, a gente pegava os sanduíches, puxava o telefone e ficava naquele balcão comendo, telefonando, escrevendo e olhando... Era uma coisa... 

 

P / 1 – Dona Amélia, a senhora falou do desafio que o Ciro se propôs a superar, e cumpriu; eu queria saber da senhora quais foram os grandes desafios dos demais presidentes?

 

R – Do Ciro foi à construção da fábrica, ele foi dedicadissimo realmente foi no período que ele determinou e foi ali. Os demais presidentes, eu me lembro construíram o bairro do Coqueiral, que era o bairro de residência dos funcionários da fábrica. Primeiro, começamos na obra com dez mil e poucos funcionários, depois que a fábrica ficou pronta passou a ser sete mil e poucos, depois, automatizou tudo e ficaram cinco mil e foi abaixando e hoje deve ter menos porque está tudo automatizado. Mas o bairro ficou lá, oitocentos e poucas casas, os prédios de apartamento e a Aracruz resolveu que seria bom, a abertura do bairro vender pro povo da vizinha, era litoral, o pessoal ia muito fim de semana. Saiam de Vitória e iam para Aracruz tomar banho de mar no coquetel. Eu me lembro do empenho de um dos diretores pra concretizar isso senhor Armando Vieira Neto. Trabalhou muito para abertura do bairro, os outros eu não lembro, o Galvêas batalhou muito, junto ao BNDES cada qual na sua época eu não me lembro quem foi, quem fez, quem deixou de fazer. Foram muitos presidentes ali, todos trabalharam muito.

 

P / 1 – A senhora já explicou aqui sobre a aposentadoria da senhora, eu queria saber que momento da carreira da senhora foi o mais marcante da senhora?

 

R – Da carreira toda, desde a VASP até... o meu desafio foi esse da construção da fábrica, o meu trabalho ali foi impressionante, eu não sei como eu consegui vencer aquilo tudo, porque eu sempre fui magrinha, hoje eu já... com a idade a gente engorda. Eu era magrinha e me dedicava, modéstia à parte eu sempre fui muito dedicada. Eu quando pegava uma coisa, se eu estou disposta a fazer eu vou fazer até o fim e fazer direito. E foi um desafio muito grande, porque tinha muita viagem pra fábrica e eu acompanhava aquelas viagens todas. Enfim, eu acho que foi o maior desafio, trabalhar ali, na época era construção da fábrica mãe – sou mãe da Aracruz. Eu lembro que eu dizia pro pessoal: “Sou mãe oh!” Agora tem um fato marcante que não foi na Aracruz, mas eu acho que pra mim não é época, recém saída do curso, eu trabalhava na VASP a seis anos, mas era jovem ainda eu de repente eu saí do curso de secretária executiva e fui logo ser secretária do assistente do diretor e passei logo a ser secretária da presidência, então eu achava: se eu to ali é porque eu tenho condições de assumir o cargo, eu era taquigrafa e datilografa, e depois eu pedi para ser demitida não consegui, e através de um anunciozinho de jornal, eu vou, enfrento de... Eu me lembro na época, de umas 40 pessoas, tinha até umas pessoas que eu conhecia do tempo da VASP mesmo, e de repente, eu passar na frente de todas e ser chamada no mesmo dia. Eu acho que na minha vida profissional isso pra mim foi muito gratificante. Eu venci. Depois também, quando eu deixei a Aracruz, eu me aposentei e decidi ser voluntária, eu adoro esse serviço que estou fazendo, me completa, sabe como é? 

 

P / 1 – Hum, hum

 

R – Hoje, por exemplo, quarta feira agora seria meu plantão da manhã, não vou poder ir porque o pessoal da companhia de gás vai lá trocar o gás, eu já fico chateada porque eu não vou poder trabalhar nesse dia. Quando eu escolho, fazer determinada coisa é porque eu gosto, eu vou realmente ficar feliz de fazer aquilo. Este período de Aracruz nos vestíamos a camisa de Aracruz. Era um grupo muito bom. Senhor Lorentzen sempre foi não, é uma pessoa incrível, este homem tem uma predestinação, tudo que ele bota mão, projeto, você pode crer que ele vai com aquela saga e vence. Ele é de uma educação, de uma finesse. É porque foi meu chefe, não, foi e continua sendo uma pessoa formidável espero que ele não ouça isso: Mas com a idade que está ainda trabalhando o homem não pára, viaja, volta, vai, com a idade que está... Não vai para nunca, só o dia que morrer.

 

P / 1 – Que significa pra senhora trabalhar na Aracruz?

 

R – Significou tudo, foi a minha vida. Foram 28 anos dedicados ali, foi a minha segunda casa. Praticamente a minha casa porque eu entrava as 8 da manhã e saia as 8, 9 e dias às vezes eu e Conceição saiamos onze da noite. Na época da construção, fora disso não; a gente saia 7, 6 horas. Era a minha casa praticamente, eu ia em casa era dormitório e ia lá pra tomar banho e noutro dia voltar. Significou tudo pra mim.

 

P / 1 – A senhora falou do seu trabalho voluntário, da ginástica... Eu queria que a senhora descrevesse pra gente como seu cotidiano hoje, quais os seus passatempos?

 

R – Hoje é o seguinte: faço hidroginástica duas vezes na semana, faço alongamento duas vezes na semana, no mesmo lugar e dois dias estou no ambulatório e um dia, estou no Instituto de Cardiologia e normalmente, quase toda quinta feira eu vou a teatro à noite, tem um grupo que faz as famosas grupo de amigos, aquele grupinho é um certo, vamos pra teatro, quinta, sexta, normalmente sábado eu saio do Rio, tenho uma irmã que mora em Friburgo, ou vou muito à Petrópolis, Itaipava. Normalmente de sábado e domingo você não me encontra no Rio estou fora. Aproveito o lazer. Trabalho mais ou menos tempo passeio e aproveito muito.

 

P / 1 –Dona Amélia qual o seu maior sonho?

 

R – Meu maior sonho? Hoje em dia? Eu to com 66 anos, vou dizer uma coisa, você vai até dizer: poxa! Você só pensa nos outros. Mas eu acho que pra mim, o que eu queria na vida da vida já atingi. Que é o meu trabalho que foi ótimo, esses anos todos, o meu apartamento, to bem, não posso dizer que to mal. Graças a Deus, a nossa senhora da Cruz, ao meu serviço prestado na Aracruz, mais o meu maior sonho é: eu tenho uma sobrinha que é minha afilhada eu penso muito nela em deixá-la com o apartamento pra ela, é amparar é ver ela melhor na vida. É casada, tem uma filha. Agora, sonho pra mim... Realizada ninguém é, na vida tá realizada. A gente consegue fazer aquilo que tem vontade realizar, não, só se realizar quando morre aí não tem mais o que fazer já realizou. Mas pra mim pessoalmente bens, eu acho que eu tenho tudo, estou satisfeita com o pouco que tenho, estou feliz, não almejo nada especial pra mim não. Semana que vem, não janeiro, agora vou fazer uma bela viagem a navio, já tá contratada um navio italiano que vai chegar aí. Vou com uma que foi advogada da Aracruz, não sei se vocês vão contratá-la... Gilda Sales foi advogada da Aracruz veio da Gasbras também. A Gilda, até um detalhe interessante: quando eu entrei pra companhia de gás, a Gilda era secretária do departamento jurídico, estava fazendo faculdade e nas horas vagas do meu trabalho de secretária eu ajudava ela, a bater as apostilas pra faculdade dela. Formou-se continuo na Supergasbras e Aracruz e no fim ela foi ser advogada da Aracruz interessante anota aí Gilda Sales.

 

P / 1 – Se pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de sua vida a senhora mudaria o quê?

 

R – Não, mudaria o seguinte eu gostaria de voltar uns anos atrás, eu sou vaidosa, eu confesso, mas com a cabeça com o conhecimento e a mentalidade que eu tenho hoje. Voltar atrás pra ficar mais nova claro. (risos). Então isso eu gostaria, mas a cabeça que eu tenho hoje voltar babinha como eu era não quero não. 

 

P / 1 – O que a senhora nestes anos de carreira desde a Gasbras até hoje, com voluntária mesmo, que lição a senhora tirou?

 

R – Principalmente como voluntária: ajudar o próximo, e tanta coisa que você vê. Acho que a lição é humanidade você poder colaborar com o próximo. E no tempo de trabalho a lição que eu tirei e que eu aprendi muito, porque na vida tudo é aprendizado, tudo que faz você tá aprendendo, não é? Você acha que já sabe de tudo, sabe nada. Cada dia a gente aprende uma coisa. Hoje em dia, por exemplo, a medicina estão inventando a transfusão feita com o sangue em pó ninguém sabia, estão aprendendo hoje. A gente vai vivendo e aprendendo acha que ninguém pode dizer estou realizado, você completou alguns desejos, mas realizado total não porque você está sempre aprendendo. O que eu aprendo lá no ambulatório, lá eu atendo o pessoal da Rocinha, do Vidigal, pessoal mais humilde. Eles aprendem comigo, eu aprendo com eles. Acho que a vida é um aprendizado eterno. 

 

P / 1 – Agora que está chegando no finalzinho da entrevista?

 

R – Ah! Que pena tá bom falando da Aracruz. 

 

P / 1 – Eu queria saber qual a importância de um trabalho como esse da memória da Aracruz, não só da senhora cena de outros que ajudaram em construir está empresa?

 

R – Eu sai com 54, antes deu sair, um cinco anos antes eu cheguei pra seu Lorentzen, eu vivia matraqueando isso no ouvido dele, eu tinha uma certa liberdade de contato com o senhor Lorentzen, quase quando diário: “Senhor Lorentzen, vamos fazer um livro da Aracruz. As pessoas estão idosas, morrendo como já morreram alguns e amanhã a gente não vai ter”.

 

R- é testemunha que eu vivia dizendo isso pra ele. Belo dia eu disse: “ Você não quer trabalhar nisso. Não isso tem que ser uma pessoa categorizada, um escritor, um historiador...”. Na época eu não me lembro o que eu dizia pra ele. Uma pessoa que milite na área. Eu podia contar caso como estou contando aqui, ainda mexia com ele e dizia: “ Tem que comprar um gravador, cada um que vier aqui, vai gravar uma coisa e deixa gravado as fitinhas aqui, um dia pega essas fitas todas e dá pra um jornalista, algum escritor aí arrumar”. Eu dizia isso. Eu vou me aposentar, vou sair, tem que arrumar alguém pra fazer isso. Eu sempre batalhei. Inclusive para o atual presidente que é o Carlos Aguiar e também é amigo nosso, eu dizia pro doutor Carlos: “Tem que ver um jeito de fazer um livro da Aracruz, já morreu fulano, morreu ciclano...e amanhã ninguém sabe aí. É Amélia, tem que pensar nisso.” Até que a secretária dele, me ligou a cerca de um mês atrás: “ Amélia vamos fazer...”.  Eu digo: “Aleluia, aleluia!” Foi aí que eu mexia: “Vou fazer parte do museu do Aracruz?” Mas a muito tempo eu pensava nisso. Cheguei a falar com o senhor Lorentzen várias vezes sobre isso. 

 

P/1- Eu quase não tenho coragem de fazer outra pergunta, então? 

 

R- Mas faz.

 

P/1- A senhora acha que ter participado desse projeto então, dessa história.

 

R- Foi ótimo! Eu acho, posso ser modesta? Como mãe da Aracruz eu acho que vocês nunca poderiam Ter deixado de me chamar para participar. Modéstia, né? Eu vibro, você vê como eu vibro com a Aracruz. Acho isso muito bom, acho que foi tarde, já devia Ter feito isso há muito tempo. Mas nunca é tarde. Espero que vocês façam um belo trabalho. Tem muita gente pra entrevistar aí, tem gente que infelizmente já morreu. Agora eu quero depois, como é que vai ser o livro, é vídeo, é filme, o que é? 

 

P/1- Isto depois_____________

 

R- Com certeza eles vão lembrar de me mandar um. Mas estão de parabéns. 

 

P/1- Desculpe, a senhora ia falar alguma coisa...a senhora acha que deixei de abordar alguma coisa?  

 

R- Eu acho até que eu falei demais, este negócio de idade que eu falei do senhor Lorentzen, tira isso daí, hein! Pode ser que ele não goste. Eu não falei a idade dele, mas eu falei que ele já tá com idade, ele pode não gostar não é? 

 

P/1- Queria agradecer em meu nome, em nome do museu da pessoa e da Aracruz, pelo depoimento que a senhora deu hoje aqui pra gente. 

 

R- Eu é que agradeço, mas vocês estão de parabéns de pegar este trabalho da Aracruz. Não é por seu a Aracruz não, mas é uma grande empresa. Eu sei que vocês vão se realizar com esse projeto. Vocês devem ter feito outro projetos, estar fazendo outros, mas é um projeto, como você disse, você ficou entusiasmado quando viu aquele monstruosidade no meio lá do mato, vamos dizer assim. Realmente é um grande projeto. E obrigada, obrigada por tudo. 

 

P/1- A gente é que agradece.

 

[Fim da Entrevista]

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