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A importância do zelo

História de: Sueli Pereira Vissoto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/10/2021

Sinopse

Sueli Pereira Vissoto nasceu em Icém – SP em 22 de julho de 1962.  Sua família tem origem italiana. Seu pai trabalhava operando máquinas de obras. Sua mãe, Onofra Pereira Vissoto, era costureira e professora de costura, atualmente é artista plástica.  

Acompanhando o trabalho do patriarca a família se muda para as cidades de Marília, Guaimbê e Paraibuna, retornando a Icém em 1975.

O lazer da família sempre foi a pescaria. 

Sueli perdeu o pai muito cedo em um acidente de carro em 1976.  

Aos 14 anos começou a trabalhar de forma informal como datilógrafa em um escritório de contabilidade para ajudar no sustento da casa onde permaneceu até os 17 anos. 

Numa das pescarias com seu avô no lago da Usina, passando pela vila de funcionários de FURNAS disse: “Eu vou morar aí!” e ao avistar o ônibus da empresa completou: “E vou andar nesse ônibus!”

Aos 17 anos, no seu aniversário, incentivada pela mãe começou a namorar seu marido. 

 Em 1979, Sueli passou em primeiro lugar no concurso para auxiliar de escritório da Usina de Marimbondo. Porém, no momento da admissão em uma empresa terceirizada de FURNAS, foi informada que por ter ainda 17 anos não poderia ser contratada. Ela defendeu então que havia preenchido corretamente a ficha de inscrição e que já havia se desligado do seu trabalho para assumir a vaga. Faltando sete meses para completar 18 anos, Sueli ingressou na empresa na Divisão de Segurança e Higiene Industrial.  Em janeiro de 1980, ingressou na Faculdade de Administração. Em 1981, Sueli saiu da empresa contratada e passou a fazer parte do quadro de funcionários de Furnas.

Sueli graduou-se em Administração de Empresas, mas o trabalho na organização de acervos Técnicos de normas de segurança, preparação do material didático para palestras e treinamentos, produção de estatísticas e relatórios sobre acidentes, fez crescer o seu interesse por outra carreira. Propôs então ao seu gerente que FURNAS lhe custeasse o curso técnico de Segurança do Trabalho. A negativa veio justificada pelo seu gênero, “não existem mulheres trabalhando nessa área.”

Sem desanimar, custeou o curso por conta própria e em 1982, obteve a certificação de Supervisora de Segurança do Trabalho. Em 1985, foi promovida a Técnica de Segurança do Trabalho. 

Durante os mais de 35 anos de sua carreira em FURNAS, Sueli investiu no seu aprimoramento profissional. Participou de treinamentos sobre diversos temas e procedimentos ligados à segurança do trabalho: solda, manutenção de baterias, pintura, combate à incêndios, operação de guindastes, construção de subestação, eletrotécnica e até mesmo o Curso Técnico Básico (CTB) de operação de hidrelétricas.

Sueli é casada e tem um filho e conseguiu comprar a tão sonhada casa na vila de FURNAS.


História completa

Um pequeno excerto sobre a história de Sueli 

 

Em 1985, eu fui promovida para técnica de segurança e fui a primeira mulher a executar essa função em FURNAS. Uma honra, um grande desafio e uma enorme responsabilidade. [...] Eu iria provar que dava certo o trabalho ser realizado por mulheres e queria abrir as portas para outras no futuro.

 

Minha mãe era muito jovem quando se casou, antes dos seus 18 anos eu já havia nascido. Vim para o mundo de parto natural com uma parteira, na casa dos meus pais onde, felizmente, tudo ocorreu bem. 

Meu pai era operador de máquinas de terraplanagem, trabalhava na construção de estradas, pontes, e ele tinha muito orgulho da sua profissão. No final de semana, ele me levava junto com meus irmãos para ver as máquinas que ele trabalhava. Nós não as víamos funcionando porque era o momento de descanso, mas ele gostava muito de mostrá-las pra gente. já a minha mãe era costureira, ela fazia o trabalho de corte e costura e formava novas costureiras, isso tudo na minha casa. Hoje, ela é artista plástica, abandonou a antiga profissão e até já ganhou um concurso que foi realizado no SESC, na cidade São José do Rio Preto. É gratificante ver sua trajetória e o que ela conseguiu sem ter cursado uma faculdade. 

Infelizmente, nós sofremos um acidente de carro no trevo do acesso aqui da nossa cidade e meu pai faleceu. Foi em 1976, e ele tinha apenas 39 anos. O acidente mudou nossas vidas. Eu disse para a minha mãe que queria ajudar dentro de casa, porém, ela não queria que eu fosse trabalhar de faxineira, sabia que essa escolha não teria muito futuro, então ela me pagou um curso de datilografia. Fiz o curso e logo em seguida entrei em um escritório de contabilidade, e o meu irmão foi trabalhar em uma padaria, eu tinha 14 e ele 12 anos, ele entregava pão de madrugada e eu fui trabalhar nesse escritório. 

Eu trabalhei nesse escritório de contabilidade até os meus 17 anos, até que em 1979 eu entrei em FURNAS como auxiliar de escritório. Naquela época, não havia concurso público, foram três dias de provas: conhecimentos gerais, redação, matemática, português e teve a prova prática de datilografia. Tinha umas 30 pessoas concorrendo e eu passei em primeiro lugar.

 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Eu entrei em dezembro em FURNAS e em janeiro eu já estava estudando administração. Eu não tinha conta em banco, não tinha cartão de crédito e nem dinheiro, mas como entrei com um salário razoável, eu pude começar a estudar. 

Quando eu estava no último ano de faculdade, surgiu a oportunidade de estudar Segurança do Trabalho em São José do Rio Preto. Vi como uma oportunidade porque a legislação obriga as empresas a ter um técnico de segurança do trabalho e, na época, tinham poucos cursos nessa área, os técnicos de FURNAS eram todos formados no Rio de Janeiro, não tinha em outros lugares, mas em 1982 saiu esse curso pelo SENAC e eu fui procurar meu gerente, falar sobre meu interesse, perguntar se a empresa podia me ajudar. Ele me disse: “Olha você é muito eficiente, uma pessoa muito trabalhadora, mas infelizmente não tem mulher nessa profissão em FURNAS”. 

Eu já tinha uma admiração por esse trabalho de segurança, eu prestava apoio aos técnicos de segurança os ajudando a desenvolver materiais didáticos, fazia relatórios porque a gente tinha usinas em construções como Serra Negra, Itumbiara, Corumbá, e esses dados relativos a acidentes eram encaminhados para a nossa divisão e eu ajudava na elaboração dos relatórios de acidente, registro e inspeção de segurança, relatórios com recomendações de melhorias nos locais de trabalho, e isso aos poucos foi me fascinando.

Eu decidi fazer o curso do meu próprio bolso. Foi muito difícil, pois tinha aula todos os dias e aos finais de semana. Mas valeu. No final do curso, eu atualizei meu currículo (tendo também terminado a faculdade) e eu voltei para falar com o gerente. “Olha Doutor, o senhor havia me dito que as chances poderiam ser mínimas por eu ser mulher, mas eu não tenho pretensão de me casar agora e nem de ter filhos, eu quero a chance de tentar e se não der certo eu vou ser a primeira a falar, mas eu gostaria muito de ingressar na área de segurança”. Ele pediu para eu deixar o meu currículo na mesa e disse que iria ver o que poderia fazer por mim. E ele fez, só que eu não sabia porque ele fez tudo na surdina. 

Eu fui chamada para ir até o Rio de Janeiro, usamos um avião da empresa, um avião Bandeirantes pequeno, e eu nunca tinha andado de avião na minha vida! Fui para fazer uma entrevista com o gerente de departamento sobre esse assunto da mudança de cargo e, em 1985, tornei-me técnica de segurança. Fui a primeira mulher a executar essa função em FURNAS. 

Uma honra, um grande desafio e uma enorme responsabilidade. Eu sempre dei meu máximo e quis desenvolver o trabalho com precisão, para que nada ficasse diferente em termos de qualidade do trabalho que os homens desenvolviam. Eu iria provar que dava certo o trabalho ser realizado por mulheres e queria abrir as portas para outras no futuro. 

 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Hoje, as equipes de segurança são multidisciplinares, nossa equipe tem assistentes sociais, psicólogos, técnicos, que são acionados imediatamente diante de uma ocorrência, fora todo o trabalho de prevenção, formação e educação. 

Teve um evento que me marcou muito, um acidente com vítima fatal por soterramento, o evento foi numa vila residencial e a pessoa que morreu era jovem e tinha três filhos. A esposa pediu para a gente mudar o percurso do ônibus dos trabalhadores porque todos os dias, mesmo sabendo que o pai havia morrido, as crianças ficavam no portão esperando pelo pai. Isso dói tanto, as pessoas não conseguem imaginar. Por isso que eu falo, na área de segurança, nosso problema maior é combater a conformidade e fazer de tudo para acidentes como esses não acontecerem nunca mais. 

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