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História

A importância do voluntariado

História de: Vera Lucia Zanotto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/06/2021

Sinopse

Em seu depoimento, Vera Lucia relembra sobre sua infância, e por ter um pai com influência no exército, teve que morar e estudar em lugares diferentes das demais pessoas, ou seja, passou sua infância morando numa área militar. Relembra que seu pai foi o incentivador da família a se voltar para os trabalhos sociais e ela acabou levando isso para sua vida adulta. Vera conta como desenvolveu as discussões sociais dentro da empresa em que trabalha, OdontoPrev, como funciona a Fundação Gol de Letra, como elas fazem, juntas, as ações de escovação e como acontece o torneio de futebol Gol de Letra.

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História completa

P/1 – Bom dia, Vera. 


R – Bom dia.

P/1 – Obrigada por você ter aceitado o nosso convite para a entrevista. Pra começar eu queria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Vera Lucia Zanotto. Eu nasci na cidade de Piquete, tenho 52 anos de muita luta nos nossos projetos, estou aí a disposição de vocês.

P/1 – Só pra registrar, qual é a data de nascimento?

R – Treze do dois de 58.

P/1 – O nome dos seus pais?

R – José Pereira da Silva e Elizabete (Fatori?) Pereira.

P/1 – Qual é a atividade profissional dos seus pais?

R – Meu pai é militar, falecido já, e minha mãe dona de casa.

P/1 – Seus pais são de Piquete mesmo?

R – Não, meu pai veio do Nordeste, de Alagoas. E a minha mãe do interior de São Paulo, Penápolis.

P/1 – Você sabe a história deles, como eles se encontraram?

R – Meu pai sendo militar, ele andou muito. A minha mãe tinha família no Rio de Janeiro, então meu pai foi transferido pro Rio de Janeiro e a minha mãe se encontrou com ele lá, visitando família. Aí que eles começaram a namorar.

P/1 – Ah, você não nasceu lá, então?

R – Não, não nasci lá. Eu nasci em Piquete.

P/1 – Eles se casaram lá e daí foram pra Piquete?

R – Foram pra Piquete, isso.

P/1 – Quantos irmãos você tem?

R – Nós somos em seis filhos. É uma escadinha.

P/1 – Você pode dar os nomes da escadinha?

R – É Luiz Alberto, depois eu, Valmir, Sonia Regina, Paulo Roberto e Sandra.

P/1 – Bastante gente mesmo.

R – Bastante gente.

P/1 – E todo mundo nasceu em Piquete?

R – Não, o mais velho nasceu em Penápolis e os outros nasceram em Piquete.

P/1 – A gente vai falar um pouquinho da sua infância, tá? Você lembra da sua casa na sua infância?

R – Lembro, se lembro. Foi uma infância muito agradável, embora olhando hoje pra trás nós não fomos - na época quando eu era muito criança - expostos à situação real do país. Nós vivíamos numa época onde o exército era muito requerido por questões de terrorismo. Nós estávamos muito preservados com relação a isso porque nós morávamos numa região que era numa zona militar. Então éramos muito protegidos naquela fase da nossa infância. Mas a gente se divertiu muito, muito. Eram muitas crianças vizinhos, amigos e a gente se reunia muito pra brincar na rua, pra aprontar, fazer "arte". Mas a gente tem uma fase bastante agradável, uma lembrança muito boa dessa infância, da vida.

P/1 – Era uma casa de vila, não é? As casas eram todas iguais?

R – Não. Inicialmente nós morávamos numa casa que era bem isolada porque o meu pai era especialista dentro do exército. Ele era um telegrafista, trabalhava com telégrafo, então ele tinha que morar numa região alta porque a tecnologia na época não tinha atingido os níveis que nós atingimos hoje. Então nós morávamos numa casa que era isolada em cima de um morro e dali que a gente... Então o trabalho dele era ao lado da casa onde nós morávamos. Pra ir pra escola a gente descia esse morro, subia esse morro, quer dizer, só tinha a nossa casa e um vizinho. Só, mais nada nessa época.

P/1 – Então os seus amiguinhos você só encontrava na escola mesmo?

R – Na escola, nessa época. Depois nós descemos um pouco e fomos morar numa vila. Aí sim, era uma rua que era próxima à escola onde eu morava e que se via a casa onde eu morava antes dessa casa. Mas era uma rua onde eu tinha mais contato com os vizinhos, com as pessoas fora do ambiente de escola. Aí é que a coisa pegou porque com seis filhos morando... Tinha seis da minha casa, oito de um lado, dois de outro, dois de outro, juntavam tudo éramos quinze crianças pra serem administradas (risos). Então tudo que se imagina que uma criança possa fazer, nós fizemos naquela época.

P/1 – Você lembra das brincadeiras?

R – Tínhamos algumas, algumas artes bem mal criadas como morra-cidade, cidade elo é um vale. A gente ficava em cima dos muros das casas pra jogar sal nas pessoas que passavam (risos). Então era a maldade das pessoas da época, essa era a maldade da época. Andávamos muito de bicicleta, adorávamos uma corda pra pular, adorávamos uma bola. Eu lembro dessa fase. Como a gente aprontava demais, eu não esqueço disso, meu pai resolveu nos dar uma corda pra gente brincar. Bom, os quinze vão segurar... A única coisa que a gente não fez foi brincar com aquela corda; nós amarramos em cima da casa, amarrava em árvore, subia morro, descia morro, fazia de tudo com aquela corda. Até que um dia nós provocamos um acidente, saíram dois machucados, feridos, quebrados (risos) e fomos parar no hospital. Nesse dia meu pai encontra com a gente no hospital com o outro filho que estava no clube com ele, que tinha caído e quebrado um braço. Então ficaram dois filhos sendo engessados ao mesmo tempo. Aí ele falou: "Chega de corda, vamos mudar de brincadeira" (risos). Mas a gente se divertia, todas as brincadeiras de crianças, as cantigas, tudo isso nós tínhamos na época.

P/1 – Aquelas cantigas de roda?

R – É, cantiga de roda, aqueles brinquedinhos de saquinho que se joga com pedra, a gente fazia saquinho pra jogar. Tudo isso são coisas que vieram à minha mente recentemente provocada até pelo Museu do... Naquela atividade que nós fizemos lá na Gol de Letra, o workshopping. Então eu acabei relembrando isso e esse final de semana eu sentei pra conversar com a minha mãe e falei: "Mãe, eu comecei a lembrar de coisas...". E aí a gente resgatou um monte de coisas nesse final de semana falando sobre o nosso passado, eu, meus irmãos e a minha mãe, foi bastante divertido.

P/1 – E dessa época de criança o que foi mais marcante pra você? Dessa vila...

R – Dessa vila os amigos. Tem alguns que perduram até hoje, porque a gente continuou se falando. Graças a Deus tem internet, cada um está num lugar do país, mas a gente continua se falando. Então ficou bem forte isso. Fora isso foram as mudanças que foram acontecendo. Depois de nós termos saído dessa vila, nós mudamos pra uma outra casa. A gente começou a entender como é que se fazia a vida das pessoas fora do ambiente da zona militar, porque aí a gente começou a ter contato com a população. A cidade de Piquete, ela tem... Hoje ela não é mais assim, mas ela tinha duas regiões: a região da cidade dividida por um pórtico altamente protegido, a zona militar. Então nós não saíamos da zona militar sem autorização e ninguém entrava sem autorização. Quando nós mudamos pra essa outra casa que é do outro lado da rua - nós tínhamos um rio no meio e do outro lado era a cidade - nós começamos a questionar por que é que era assim, por que os meus amiguinhos do outro lado da cidade não podiam estudar na mesma escola que eu, por que eles não iam na mesma igreja, no mesmo hospital. Por que? Aí o meu pai resolveu nos envolver numa ação na cidade através do Rotary Club. Aí eu fui fazer parte do Interact Club e uma das atividades do Interact Club era o social.

P/1 – Quantos anos você tinha, mais ou menos?

R – Quinze, eu tinha treze pra quatorze anos, nessa fase. Aí nós fizemos os nossos primeiros projetos na área social: gincanas pra arrecadar alimentos, mobilização. Então aí que eu acho que nasceu esse meu lado social.

P/1 – Treze anos?

R – Treze anos.

P/1 – Nossa, novinha.

R – Meu pai era muito envolvido com essas questões porque a atividade dele era altamente estressante porque numa época de alto risco e ele responsável pela parte de comunicação do exército, ele procurou trabalhar um outro lado da vida dele que era o lado social. Aí ele foi ser presidente do clube da cidade, do clube do Exército. E com isso ele conseguia ter contato com o lado social da cidade. Quando ele foi fazendo isso, ele começou a perceber que: "Espera aí, vamos mudar também a vida dos nossos filhos". Conversou com a minha mãe, falou: "olha, não dá pra ser assim, vamos começar a envolvê-los em outras atividades". Foi aí que nós começamos.

P/1 – Vamos guardar só um pouquinho dessa história. Deixa só eu voltar na escola que você tinha falado. Você sempre estudou em escola separada, né? Você lembra da primeira escola que você entrou?

R – Desde o jardim até acho que o primeiro ano do colegial, na época, nós estudamos na Escola do Exército.  

P/1 – Eram muitos alunos?

R – Muitos alunos, muitos alunos. Eu não sei precisar quantos, mas com certeza deviam ter uns mil alunos nessa escola.

P/1 – O ensino era diferenciado também?

R – Com certeza sim, com certeza era sim, porque nós tínhamos o privilégio de ter os melhores professores por causa de remuneração. A gente percebia essa diferença. Então os pais... Na realidade era sonho de todos que os filhos estudassem em colégio militar. Então isso realmente foi bom, foi positivo na minha vida. A única coisa que não foi positiva foi essa separação... Se bem que por outro lado, depois que nós começamos a perceber as diferenças, talvez isso tenha trazido uma coisa muito mais à tona de estar ajudando, de estar presente... Esse tipo de comportamento não é só meu, nós somos - os seis filhos - assim. Então eu acho que isso agregou na nossa vida adulta essa questão do social, da preocupação com o outro, de estar presente em família, sempre juntos. Embora a gente tenha se espalhado, periodicamente a gente está ali do lado um do outro.

P/1 – Você lembra em que momento vocês começaram a questionar? O que levou vocês a questionarem?

R – Aos treze anos. É exatamente o olhar pro outro lado do rio e ver uma outra cidade, uma outra vida diferente da nossa. Aí aconteceu um fato também: quando eu tinha quinze anos o meu pai faleceu. Quando o meu pai faleceu nós tivemos que sair daquela vida e cair na real. Nós saímos do Exército, saímos de Piquete, que foi a cidade onde nós nascemos e fomos pra Penápolis. Quando nós fomos pra Penápolis os seis filhos, aí falamos assim: "agora é a vida", aí entramos os seis em crise. Os seis filhos. Psicólogo pros seis filhos. Assim, pode ter sido uma coisa chocante, mas foi uma realidade, quando nós mudamos pra Penápolis nós fomos morar do lado de um hospital psiquiátrico, do lado. Aí a gente começou a endoidecer com aquela vida de estar do lado ali e ao mesmo tempo a nossa vida mudou... Tanto que o filho mais velho voltou, meu irmão mais velho voltou pra morar no Exército com uma família lá porque a minha mãe não estava conseguindo administrar e nós ficamos, os outros cinco ficaram com ela.

P/1 – Ele já tinha casado?

R – Não, não. Ele tinha dezesseis anos. Foi morar com essa família até ele voltar e cair na realidade. Aí depois ele voltou pra Penápolis. Então houve uma quebra muito significativa nessa época.

P/1 – Nossa, o seu pai faleceu muito cedo.

R – Muito cedo, aos 39 anos ele faleceu.

P/1 – E como foi? Vocês tiveram que começar a trabalhar? Como é que foi isso?

R – Não, não. Felizmente o Exército possibilita que as viúvas tenham uma pensão do marido e essa pensão é equivalente ao valor da ativa. Na época ela ainda não era, houve essa equivalência anos à frente. Mas a gente não precisou se preocupar financeiramente. Meu pai, quando ele soube que estava com uma doença e que não sobreviveria e que tinha uma chance de vida de pouco tempo, ele começou a se preparar pra ida dele. Aí ele organizou financeiramente, organizou questões de casa, amigos que poderiam ajudar e deixou tudo escrito pra minha mãe. Deixou tudo escrito, a gente tem essa carta até hoje que ele deixou escrito. As pessoas que a minha mãe tinha que procurar, as coisas que ela tinha que fazer... E naquela época as mulheres não tinham essa coisa de estar sempre à frente, então ela era dona de casa mesmo e quando meu pai faleceu a minha mãe não sabia entrar num banco. A gente não tinha a mínima noção do que era dinheiro. Pra vocês terem uma idéia, a mínima noção. Quando nós mudamos pra Penápolis não tinha banco que o Exército depositasse o dinheiro lá, tinha numa cidade próxima. O que é que eu fazia? Eu, aos quinze anos de idade, saía de uniforme da escola, pegava um ônibus, ia nessa cidade, tirava o dinheiro integral do salário da minha mãe dali, enfiava na minha mochila e pegava o ônibus de volta. Era tão chocante que o gerente do banco da cidade ia comigo até a rodoviária, ele não se conformava. Mas para minha mãe era tudo tão simples. Aí eu chegava, ia direto no banco, depositava o dinheiro. Eu também não sabia nem entrar em banco, fui aprendendo depois e a minha mãe também foi administrando isso com o tempo. Aí que a gente começou a entender como é que funcionavam essas questões fora do ambiente de casa, de lar. Mas teve uma outra passagem interessante também, porque tudo isso foi mexendo com a gente. Minha mãe foi buscar o dinheiro do seguro no interior, em Piquete, e era o valor equivalente a compra de uma casa. Ela botou tudo isso dentro de uma mala e lá a gente tinha que sair de Piquete ir até São Paulo pra trocar de ônibus e ir pra Penápolis. Chegou em São Paulo estava tendo a campanha de vacinação da meningite. Aí o rapaz chegou pra minha mãe disse: "A senhora não quer ir tomar a vacina? Vai tomar a vacina e eu cuido das malas da senhora". Minha mãe deu a mala pra ele, "então cuida que eu vou tomar a vacina" (risos). Foi, voltou, o cara estava sentado do lado da mala dela, tomando conta (risos). É a ingenuidade, sentiu a ingenuidade? Ela chegou em casa com esse dinheiro, contou essa história pra gente e a gente fez chuva de dinheiro. A gente jogou pra cima, fez uma bagunça. Estávamos eu e mais dois amiguinhos do colégio estudando e a hora que ela chegou a gente fez uma festa com o dinheiro (risos). Olhe bem a fase que nós vivemos nessa época. Hoje uma criança de quinze anos, um jovem de quinze anos, imagina? Sabe exatamente o que significa cada tostão que você ganha. Mas nós na época, não.

P/1 – Quando você foi pra lá, você mudou de escola?

R – Aí nós mudamos de escola, foi todo um conjunto de mudanças. Mudamos de amigos, mudamos de escola, tivemos que viver naquela cidade que nós só víamos do outro lado do rio. Foi uma mudança muito significativa.

P/1 – E nessa escola o que você mais gostava? Tinha uma matéria preferida?

R – Eu sempre gostei de matemática. Eu acho que isso explica minha formação hoje de estatística. Mas essa foi a minha... Sempre gostei, desenho eu gostei muito. Mas eu tinha muita dificuldade porque trocou tudo. Trocaram os professores, a escola também era muito boa, mas era muita coisa, muita mudança. Muita coisa que a gente não tinha aprendido e que nós tínhamos de aprender ali. Não tinha a estrutura que nós temos hoje nas escolas, porque todas as escolas procuram seguir o mesmo currículo. Na época não tinha e acaba que você deixa de ver algumas coisas e eu tive de aprender sozinha.

P/1 – Você lembra de alguma situação?

R – Não, que eu me lembre, não. Eu sempre fui muito estudiosa, sempre fui muito dedicada aos estudos. Sempre fui muito de estudar demais, muito.

P/1 – Você concluiu o colégio nessa mesma escola?

R – Conclui o colégio nessa mesma escola.

P/1 – Como é que foi a opção do curso superior?

R – Na realidade eu teria de fazer um resgate disso. Mas como eu gostava muito de matemática e eu tinha uma amiga que estudava comigo e estava um ano à frente, ela prestou estatística e estava gostando. Aí eu falei: "ah, vou prestar também, quem sabe?". Eu prestei e passei. Ela chama Vera também e fez estatística, nós somos da mesma cidade, então era uma tremenda de uma confusão. E morávamos juntas ainda (riso). Aí que eu saí de Penápolis e fui morar em Campinas.

P/1 –Você prestou vestibular em Campinas? Quantos anos você tinha quando você começou a fazer faculdade?

R – Dezessete pra dezoito anos.

P/1 – Então você saiu de casa cedo?

R – Cedo, muito cedo. Aí foi uma outra mudança significativa. Quer dizer, minha mãe foi muito valente, naquela época. Porque naquela época as filhas mulheres, principalmente na minha família de italianos, mulher tinha que ficar em casa pra ser dona de casa. E ela falava: "Não, não!". E na carta do meu pai estava escrito: "seus filhos todos têm que estudar" e a minha botou isso na cabeça, brigou com isso e conseguiu. Todos fizeram faculdade, todos estudaram. Na época pra eu sair, eu era a primeira filha e neta mulher a sair de dentro de casa pra estudar fora. Pra ela foi... Bom, pra ter uma idéia, nós não tínhamos dinheiro pra isso. E ela tinha como confidente uma senhora de uns oitenta anos que morava em frente a casa dela. Minha mãe foi conversar com ela: "O que é que eu faço?" "Sua filha vai". Foi inesquecível porque quando eu estava lá conversando com a minha mãe, tinha voltado, tinha feito a matrícula, conversando com a minha mãe eu falava: "Mãe, e agora? A gente não tem dinheiro", ela falou: "Vamos conversar com a Rosalina". A mulher tirou de dentro da panela de feijão um lenço com um monte de dinheiro enroladinho e falou: "Toma, esse é o dinheiro pra você estudar". Aí eu fiz, solicitei à Caixa Econômica a bolsa de manutenção e quando eu recebi eu resgatei os meses passados que eu não tinha recebido e devolvi o dinheiro pra ela. Mas ela falava assim pra mim: "Meus filhos não podem saber". E foi assim que eu comecei a estudar.

P/1 – Qual o nome da faculdade?

R – Unicamp.

P/1 – Ah, você estudou na Unicamp.

R – Isso, eu tinha que ter bolsa pra manutenção da faculdade e não pra pagar a faculdade, pra me manter.

P/1 – Como foi isso? Você foi procurar um lugar pra morar?

R – Então, aí eu fui procurar um lugar com essa amiga. Eu cheguei em Campinas sem ela saber que eu tinha passado, sem nada.

P/1 – Você conhecia Campinas?

R – Não conhecia Campinas. E foi pior porque quando eu fui ver os documentos que eu precisava pra faculdade, tinha documentos que eu não tinha nas minhas mãos. Eu tive que ir pra Piquete sozinha e procurar a escola lá pra eles me arrumarem os documentos. Então pra conseguir esses documentos, eu tinha um dia pra fazer a matrícula. Eu consegui os documentos, peguei o ônibus, fui pra Campinas. Em Campinas eu dei um jeito de chegar na faculdade e da faculdade eu fui procurar essa amiga. Ela falou: "não se preocupa, nem que a gente tenha que as duas morar sozinhas até que a gente possa ter quem possa morar com a gente". No fim nós montamos um grupo de seis meninas e a gente alugou um apartamento com ajuda de uma família que era de Penápolis que estava morando em Campinas. Conseguimos um apartamento e nós fomos morar nesse apartamento sem nada.

P/1 – Como é que foi essa experiência?

R – Foi outra riqueza de vida. Porque morar sozinha, começar essa vida que você tem que se virar sozinha, você tem que correr atrás, você tem que se manter, quer dizer, com a minha mãe tendo muito pouco recurso pra me ajudar. Foi muito bom nesse sentido, aí novos amigos mais uma vez. Essa amiga... Tem quatro amigas que moraram com a gente que a gente se encontra uma vez a cada quinze dias até hoje. Eu me formei em 81, imagina de lá pra cá como é que foi. Então nós estamos sempre presentes uma na vida da outra.

P/1 – Como é que foi essa vida na faculdade? O que você lembra de marcante?

R – Ah, bom, a faculdade é uma coisa a parte. É uma vida de irresponsabilidades, onde você faz o que você quer, é tudo lindo, você sai de casa, não tem mãe, não tem irmão, não tem pai pra ficar olhando você. Então é tudo maravilhoso. Eu vejo isso nas minhas filhas que estão na fase de faculdade agora e você começa a comparar e fala: "meu Deus, eu acho que eu fui uma louca na época" (risos). Mas foi muito boa a vida de faculdade, eu tenho saudades.

P/1 – Era uma outra época, né?

R – Era uma outra época que você podia... Nós tínhamos passagens muito engraçadas. Eu me lembro que uma vez, a gente morava seis meninas sozinhas e o prédio era um por andar, era um “predinho” de seis andares. Um dia, eu com o estresse da faculdade porque eu queria alcançar as meninas que já estavam na faculdade, que tinham entrado um ano antes que eu. Então eu estudava, estudava, estudava: "Não, eu vou fazer, vou conseguir" e cheguei numa fase de estresse. Não dormia à noite, foi terrível. Um dia eu saio na janela, a janela aberta, e quando eu abro a cortina, era final de ano, tinha um cara na janela. Gente, aquela cena ficou até hoje na minha mente. E eu no ato, o intuito que eu tive foi de fechar a janela e quando eu fechei ele caiu. Ele caiu mais ou menos do segundo andar. Caiu e eu falei "gente, e agora? Eu não vou acordar as outras meninas porque todo mundo vai ficar assustada". Fiquei sentada na cama: "Mas esse cara vai voltar". Eu: "Sueli, Sueli" - a outra menina que morava comigo - "tinha um cara na janela!" "Como?" "Tinha um cara na janela!". Juntou as seis num quarto só, tremendo de medo. Eu falei: "gente, vamos pra sala que esse cara vai entrar e ninguém vai ver". Não foram, não foram, eu peguei e fui. Quando eu cheguei na sala, o cara estava na janela de novo. Eu peguei, fui na cozinha, peguei um martelinho de carne e falei: "Você entra aqui que você vai ver só!" (Risos). Foi a cena mais engraçada que nós já víamos até hoje. Pois ele olhou, desceu e foi embora. No dia seguinte a gente foi na polícia, que aí nós chamamos os vizinhos, foi um horror. No dia seguinte fomos nós e os vizinhos pra polícia pra fazer reconhecimento e eu reconheci o cara em uma das fotos. Ele era um cara que estava sendo procurado há muito tempo. Aí eles botaram um carro de polícia na porta porque esse cara voltava. Aí foram os seis últimos meses de faculdade e nesses seis últimos meses a polícia lá. Um dia a gente vê um cara do outro lado da rua. Assim, tinha a rua onde nós morávamos, tinha um rio no meio e outra rua aqui. Esse cara ficava na outra esquina do rio, pulava pra dentro da grade, voltava pra dentro da grade, pulava pra fora da grade... Eu pensava "Meu Deus, o que é que esse cara está fazendo? Eu acho que esse cara deve ser bandido", chamei a polícia. A polícia chegou lá, revistou o cara. O cara era um fiscal do ônibus mudando o roteiro de uma linha (risos). O mais engraçado eu falando: "e agora, o que é que a gente faz? Tenho de pedir desculpa pra ele!" (risos). Aí nós fizemos bolo e café, ele ficou uns trinta dias naquele ponto e os trinta dias ele comeu bolo e café (risos). Foi muito engraçado, foi uma cena hilária, hilária. A gente passou umas fases engraçadas. Mas em seis, acabava que uma cuidava da outra e aí você ia levando sem problema nenhum.

P/1 – Até então você não tinha trabalhado ainda, né?

R – Então, durante a faculdade, pra ajudar até na formação, eu fui procurar a ajuda de um estágio dentro da faculdade. Eu fazia o estágio, então isso foi me dando uma bagagem de mercado, de como eu deveria trabalhar essa questão da estatística. Quando eu me formei...

P/1 – Como era o estágio? Você lembra o que você tinha que fazer?

 

P/2 - Onde era?

R – Lembro. Então, o estágio era dentro da Faculdade de Biologia da Unicamp e eu tinha que trabalhar na análise… Primeiro condensar as informações da esquistossomose. Então são dados estatísticos de um trabalho que estava sendo feito na Baixada. Eu consolidava esses dados, fazia análise estatística e tirava os números pra entregar para os pesquisadores. Esse era o meu trabalho. Mas isso me ajudou bastante porque quando eu saí, eu ia trabalhar no mercado mesmo na questão da informação, você já tinha uma bagagem de análise. Porque a estatística, ela é uma análise, ela não é número. Ela é muito mais português do que matemática. Então eu fui aprendendo durante esse estágio, eu fiquei dois anos fazendo esse estágio.

P/1 – E você gostou dele? O serviço era legal?

R – Gostei, era legal. Eu tinha muita flexibilidade de horário, aquele ambiente de faculdade. Durante as provas, que eu tinha que sair pra estudar, eu não tinha problema, então isso ajudou bastante.

P/1 – Era remunerado?

R – Era remunerado.

P/1 – Foi durante quanto tempo?

R – Dois anos, isso.

P/1 – Foi o tempo de acabar a faculdade?

R – Foi o tempo de acabar a faculdade, quando acabou a faculdade eu saí porque você não pode continuar. Voltei pro interior e aí eu tinha que começar a procurar emprego, e lá não tem. Imagina estatística numa cidade pequena? Aí eu comecei a procurar emprego em São Paulo. Mas você procurar emprego em São Paulo estando lá, era muito complicado. Aí a mãe de uma das amigas que morou comigo ligou pra minha mãe: "Deixa a sua filha vir morar comigo, eu cuido dela". Aí minha mãe falou "tudo bem". Eu saí de lá e vim pra São Paulo.

P/1 – Que lugar de São Paulo?

R – Bom Retiro. Aí foi uma outra vida, uma outra fase interessante porque eles são judeus e tinham os costumes muito diferentes dos meus, que sou católica. Aí eu fui aprender a conviver e admirar a religião, as pessoas. Então foi uma vida muito gostosa que até hoje a gente mantém essa relação com a comunidade judaica em São Paulo.

P/1 – O que mais te chamava a atenção dos costumes?

R – A parte de alimentação, muita coisa que até a própria religião católica no passado fez e que os judeus continuam fazendo no Brasil.

P/1 – Como por exemplo? A alimentação durante um período. Eles guardam muito a questão, por exemplo, que a chama a Primeira Comunhão, os judeus fazem isso, eles comemoram muito essa fase da criança, quando vai fazer a primeira comunhão deles. Então assim, tudo isso me faz admirar o povo judeu. E a garra, a vontade de viver, a vontade de ser alguém, eles se ajudam muito. Eles me ajudaram muito, muito. Eu fui morar com essa família e eles foram durante seis meses morar no Canadá e eu fiquei na casa deles.

P/1 – Sozinha?

R – Sozinha. Todos os dias eu chegava em casa e tinha comida pronta, roupa lavada. Pergunte se eu sei quem ia fazer isso. Cada vez era um, eles coordenaram entre eles e aí cada dia era um que ia até lá e preparava as coisas pra mim. Aí a sexta-feira é muito resguardada pelos judeus e eu fazia questão de dar de volta isso, indo acender as luzes dos apartamentos nos prédios. Porque eles não utilizam mão de obra nesse dia, mas se eu for lá com a minha própria vontade e acender as luzes pra eles, não tem problema nenhum. Então eu ia e acendia as luzes todas pra eles. Foi, assim, me levou a essa admiração pelo povo judeu, pela garra. Eu tenho amigos hoje que voltaram pra Israel que foram oriundos dessa época.

P/1 – E como é que foi essa coisa da cidade? Porque você vivia em Penápolis, depois em Campinas. Você não estranhou a cidade?

R – Não, porque assim, durante a fase que eu fiquei em Campinas pra não ficar em casa sozinha no final de semana eu vinha muito com essa amiga pra São Paulo. Então eu já conhecia bem a cidade.

P/1 – O que você mais gostava de fazer?

R – Na época a gente ia muito ao cinema. Logo depois que eu acabei me formando, ainda morando com essa família toda, eu tinha um namorado do interior de São Paulo que veio pra São Paulo pra trabalhar. Aí a gente passeava muito, ia conhecer os lugares. Eu gostava muito da Avenida Paulista; meu prazer era num dia de domingo ir passear na Avenida Paulista, ia e voltava, ia e voltava (risos). Então foram coisas que até hoje eu tenho vontade de continuar fazendo. Não faço, mas minha vontade era voltar a fazer.

P/1 – Mas você veio pra procurar emprego?

R – Eu vim procurar emprego.

P/1 – E então? Como é que foi isso? Você achou?

R – Como eu achei? Foi outra fase engraçada, porque como eu não conhecia a cidade, principalmente essas regiões onde havia as indústrias, eu ia com a mãe dessa amiga minha. Ela me levava, sentava na recepção, ficava esperando a minha entrevista e depois a gente ia embora juntas. Foi assim em todas as minhas entrevistas de emprego.

P/1 –Como você fazia? Você pegava no jornal?

R – No jornal. Tanto que o emprego foi… Eu fiquei durante dois anos num instituto de pesquisa de mercado. Depois como esse instituto me oferecia nenhuma possibilidade de crescimento, era um instituto pequenininho, aí eu saí e resolvi procurar emprego. Eu vou falar uma coisa engraçada, eu achei esse meu emprego sentada no vaso no banheiro (risos) procurando num jornalzinho. Achei e aí me candidatei a esse emprego. Me candidatei a outros também, mas acabei indo trabalhar na Rai Consultoria e fiquei lá dez anos, nessa empresa.

P/1 – Como estatística?

R – Como estatística. Eu era responsável pela área de pesquisa de mercado. Eu entrei pra ser analista e uma semana depois a minha chefe saiu, conseguiu uma oportunidade de mudar de emprego e eles me promoveram pra essa área, com o gerente da área e lá eu fiquei dez anos. Mas houve uma fase em que a empresa cresceu muito. Ela era pequenininha na época, mas ela era uma multinacional. E ela foi crescendo, crescendo, crescendo. Quando eu saí de lá ela já era a maior do Brasil e já era a maior do mundo nessa área de consultoria em remodelação, em planejamento estratégico, etc., treinamento. Então eu cresci junto com a empresa no Brasil. Quando eu cheguei no meu limite, eu falei: "bom", eu já tinha passado por todas as áreas...

P/1 – Mas você tinha sido promovida novinha?

R – Novinha, novinha. Tinha dois anos de formada e já assumi um cargo de coordenação da área de pesquisas. Aí que foi... Foi muito interessante porque a empresa era muito machista, no mundo inteiro. Não tinha mulher na área de consultoria, não tinha. Aí eu fiz um trabalho na época... Porque como a gente tinha escritórios em muitos países, eu comecei a pegar a remuneração de executivos em todos os países. Comecei a juntar esses números, juntar, juntar, juntar. Fiz a equivalência com o BigMac e falei quantos BigMacs se compra nesses países com esse mesmo salário e fiz um estudo de comparação entre os vários países. Esse estudo foi parar, acabou sendo publicado na Folha aqui, foi meia página da Folha. E começou a ser no mundo inteiro. Eu comecei a receber ligações, bom, isso caiu na boca do presidente mundial do grupo e ele veio pro Brasil pra me conhecer. E aí eu acabei sendo uma das primeiras mulheres consultoras de remuneração do grupo no mundo todo, que era um grupo bastante grande. Mas foi uma batalha porque eu fiquei trabalhando como consultora durante muito tempo sem ter o cargo de consultora porque eu não conseguia mesmo. Aí quando eu já tinha me desenvolvido muito, cheguei num limite que já não dava mais pra ir pra lugar nenhum, e eu sou uma pessoa que gosta de desenvolver coisas novas, eu não consigo ficar parada numa atividade única durante muito tempo e é assim até hoje. Aí eu acabei indo procurar outro emprego. Fui parar através de um amigo na OdontoPrev. Quando eu saí da Rai e fui trabalhar na OdontoPrev, a OdontoPrev tinha uns sete funcionários pra você ter uma idéia de tão pequenininha que era.

P/1 – E é diferente o ramo, não é?

R – Não tem nada a ver um ramo com o outro. Mas eu ia trabalhar com RH na OdontoPrev, mas nessa área de formação da área comercial. Era um negócio bem desafiador. Esse amigo meu falava: "Vera, é a sua cara, vai que é a sua cara". Eu levei uns seis meses pra decidir se eu iria ou não. Chegou uma hora que eu falei: "eu vou, vale arriscar". Hoje a OdontoPrev tem mil funcionários, tem dezesseis anos no ar e...

P/1 – Mas teve uma quebra na remuneração quando você mudou?

R – Não, não. Saí com o mesmo patamar de remuneração, até melhor um pouco. Foi um investimento que a empresa fez na época mesmo. Foi ali que ela começou a deslanchar porque ela estava criada já fazia, eu acho que fazia uns quatro anos, mais ou menos, que ela existia. Mas ela estava muito estagnada, não conseguia crescer, não conseguia se desenvolver. E o McDonald's era um cliente dessa empresa. Esse amigo meu, ele era um parceiro meu na Rai, ele saiu e foi trabalhar na McDonald's. Aí que ele conheceu o presidente da OdontoPrev e eles trocaram umas idéias nesse sentido, o que poderia ser feito. O McDonald's representava 70% do faturamento da OdontoPrev e era muito arriscado. A gente sabia que a qualquer momento poderia dar um problema e a empresa poderia quebrar, então vamos tentar desenhar isso de uma forma diferente. Foi quando eu fui trabalhar na OdontoPrev nessa época.

P/1 – Isso foi em que ano mais ou menos?

R – Faz dezesseis anos, 92, 93, acho que mais ou menos isso.

P/1 – E aí o seu trabalho passou a ser o que? O que você fazia?

R – Eu fui pra montar, estruturar a área comercial. Como eu tinha um relacionamento com o mercado bastante intenso, eu fui pra começar a trabalhar esse mercado. Não era concorrente da empresa anterior, eram produtos totalmente diferentes, que não se conflitavam, então eu me sentia à vontade pra fazer isso. Eu comecei a levar pra OdontoPrev os clientes que eu tinha na Rai na questão do benefício odontológico. O mercado favoreceu também, quer dizer, teve uma série de pontos que contribuíram. Eu comecei a trabalhar a formação da área comercial. Eu tinha também, além da área comercial de vendas, eu tinha também atendimento ao cliente. Eu falei: "as duas coisas não dá pra seguir juntas, nós vamos ter que dividir isso". Aí sentamos, trocamos ideias e num dia a gente falou: "então vamos dividir". O presidente falou pra mim: "Qual a área que você quer?". Eu falei: "eu quero a área de atendimento ao cliente", que é o que eu sempre gostei de fazer, era o que eu fazia na Rai. Aí saí. Bom, saí da área comercial, contratamos uma pessoa pra área comercial e eu comecei a fazer um trabalho junto com a área comercial e hoje ela funciona assim, exatamente assim, a área comercial e a área de atendimento ao cliente. Quando chegou há nove anos, mais ou menos, atrás, a gente percebeu que a área de atendimento não funcionava do jeito que a gente queria porque a empresa já estava ficando muito grande. Aí o que é que nós vamos fazer com a área de atendimento? Comecei a estudar, estudar, estudar com esse meu jeito de procurar coisas novas. Aí eu propus uma área de atendimento multifuncional, ou seja, pessoas de várias áreas atendendo ao cliente.
(Pausa) Então, quando nós percebemos essa necessidade de mudança, nós começamos a estudar essa questão de relacionamento com os clientes. Comecei a conversar com alguns clientes. Bom, aí eu propus para a presidência da empresa esse atendimento multifuncional. Mas foi uma fase difícil pra mim, porque eu teria de deixar alguma coisa que eu já tinha criado lá atrás. Ia ter que deixar mesmo, ia ter que optar. Então nós dividimos a empresa em células de atendimento, onde cada célula de atendimento tinha um atendimento exclusivo, uma pessoa pra fazer esse atendimento e toda uma retaguarda por trás dela de representantes das áreas. Então essas pessoas, que são representantes das áreas, continuariam fazendo as atividades delas lá dentro da área delas, mas elas tinham que acompanhar as solicitações dos clientes da célula ao qual ele pertencia.

P/1 – Deixa só eu entender uma coisinha. A OdontoPrev é só São Paulo?

R – Brasil. Brasil inteiro e essas células estão todas em São Paulo, mas elas atendem clientes do Brasil todo. Todas as células atendem clientes do Brasil todo. Eu sou responsável por atender um cliente em Manaus, mas tem outras células que tem clientes em Manaus também. O que é que faz essas células? Ela atende as necessidades desse cliente, do consultor externo e a equipe de atendimento interno traz as necessidades e leva para as áreas. As pessoas das células, representantes que estão dentro das células e que ficam nessas áreas, eles têm de acompanhar o atendimento dessas necessidades em termos de prazo, qualidade, custo e etc. Então essa pessoa representante, pra que ela ficasse estimulada a fazer esse trabalho, que é um trabalho extra ao trabalho do dia a dia dele, a gente dava pra esse integrante de célula uma remuneração adicional. Então ele tem essa responsabilidade de fazer com que o cliente saia satisfeito no atendimento das suas necessidades. Então cada célula hoje tem mais ou menos 150 grupos gerenciais, grupos empresariais. Então são divididos em seis células de atendimento. Éramos cinco e no ano passado mudamos pra seis células de atendimento.

P/1 – E como é o trabalho da OdontoPrev só pra gente entender um pouco?

R – Então, qual é o trabalho da OdontoPrev? A OdontoPrev é a solução em odontologia para as empresas. Então tudo que as empresas necessitam pra área de odontologia. Ela desenvolve produtos pra esse cliente. O produto mais comum e mais conhecido é a assistência odontológica, aquele plano que você compra e pode utilizar uma rede credenciada. Esse é o mais comum, mas existem atendimentos de várias necessidades. A empresa precisa de um consultório dentro da empresa, então a gente vai lá e instala. Ah, vem uma pessoa do exterior e teve um problema de dente, não é associado ao sistema e precisa de uma solução, nós damos uma solução. E assim por diante, quer dizer, é a solução na questão de odontologia das empresas. Hoje são três mil grupos gerenciais, mais ou menos, dentro dessas células. Dois milhões e quinhentos mil associados e já é uma empresa multinacional. Nós já temos uma joint venture no México e estamos começando a ir para o México agora, é uma fase interessante. A OdontoPrev é uma empresa interessante no sentido da visão que ela tem do negócio. Quando eu entrei na OdontoPrev um dos primeiros trabalhos que eu fiz nessa área foi colocar no papel a visão, a missão e os valores dessa empresa. Eu me lembro que a gente escreveu que a OdontoPrev seria a melhor empresa de odontologia do Brasil. Começamos a escrever, botar tudo no papel e o presidente olhou e falou que a única mudança que ele fez: "nós não vamos ser a melhor do Brasil, nós seremos a melhor do mundo". Tanto que passou um tempo e nós já estávamos sendo procurados pra dar suporte em odontologia na parte de gerenciamento de sistemas, de documentação pela maior empresa do mundo, dos Estados Unidos, em odontologia. Não levou muito tempo depois que ele falou isso.

P/1 – Qual é o nome da maior empresa?

R – Eu não me lembro o nome da empresa, mas é uma empresa muito grande, tinha mais de dez milhões de associados e nós tínhamos cem mil na época. Então você viu o que a empresa pensava. E nada ela faz sozinha, é muito engraçado. Todas as soluções que ela tem que achar pra resolver problemas ou todas as soluções para minimizar problemas futuros, ela faz em parceria com a sua equipe. Ela sempre compartilha não só com o gestor, com o diretor, é com a empresa inteira. Então você acaba conseguindo mobilizar todos os funcionários. Eu lembro que o primeiro trabalho que eu saí de Piquete e fui pra Penápolis, eu praticamente parei todos os meus trabalhos na área social. Porque eu tinha outras prioridades na época da escola, faculdade, acabou que eu parei. Quando eu fui pra OdontoPrev, eu falei: "eu vou começar de novo", eu fiz uma campanha pra arrecadar alimentos. Nessa campanha, o que é que aconteceu? Nós éramos em cem funcionários mais ou menos...

P/1 – Era pra algum local específico?

R – Não. Resolvi fazer uma campanha e depois doar pra uma instituição que a própria equipe indicasse. Eu consegui arrecadar um quilo de farinha de trigo doado pela copeira. Então foi um choque, mas ao mesmo tempo foi um estimulador, porque eu falei: "não, isso precisa mudar, as pessoas precisam começar a ver as coisas como eu passei a ver". Aí eu comecei a trabalhar isso na empresa, trabalhar, trabalhar, trabalhar. No ano passado na mesma campanha nós arrecadamos três toneladas de alimentos. Hoje eu começo uma campanha pra arrecadação de agasalhos que vai durar duas semanas. Eu não tenho dúvida que vão sair caminhões de lá de roupas doadas. Aí quando eu lancei, eu lancei na sexta-feira à tardezinha e já começaram a vir idéias: "Posso fazer isso?" "Posso fazer aquilo?". Eu falei: "vocês podem fazer o que vocês quiserem, desde que façam de forma correta e que dê resultado, não fazer por fazer". Então hoje a gente vive uma vida bastante interessante. Um medidor da motivação desse trabalho que a gente faz na área social é das melhores empresas para se trabalhar. A nossa melhor nota durante os anos que nós ganhamos esse prêmio era na área social. Então é bem motivador, quer dizer, as pessoas participam. Por exemplo, eu tenho que fazer uma ação de escovação em alguma instituição no sábado. Duas semanas antes eu lanço, fica cinco minutos no ar o lançamento da arrecadação de voluntários. Porque senão vem tantos voluntários que a gente não tem onde alocar.

P/1 – Então são com voluntários essas atividades?

R – Todas as ações são com voluntários, todas. Da própria empresa. E ainda o material, o que eu não consigo arrecadar com doações dos clientes, eu consigo... O que a empresa não consegue dar, eu consigo com doação. Então a gente traz uma Colgate, uma Unilever. Eles doam escova de dente, creme dental, flúor, que a gente precisa muito. No ano passado nós fizemos quase vinte mil escovações: são vinte mil escovas, vinte mil cremes. Você tem que tornar uma coisa viável pra empresa também. Então a gente procura parcerias e é bem, bem interessante. Porque eles doam e ainda querem participar, isso que é gostoso.

P/1 – Interessante. Agora chegando um pouco na Gol de Letra, vocês já tinha ouvido falar na Gol? Como é que a Gol chegou na OdontoPrev?

R – Quando eu entrei na OdontoPrev, ela já apoiava uma instituição chamada Instituto Ronald McDonald. A empresa já tinha isso no DNA dela, essa questão social. Eu falei: "bom, se a empresa já tem, vamos capitalizar". Aí eu comecei a fazer um trabalho em que nós tínhamos como meta… Porque nós queríamos fornecer odontologia. Até então o recurso era financeiro e eu falei: "não, não dá pra ser assim; vamos tentar fazer aquilo que a gente sabe fazer melhor e que a gente consiga fazer para o maior público possível". E a melhor coisa que nós tínhamos pra fazer era o atendimento odontológico, mas era uma coisa que ia ser uma experiência pra nós. Porque dar atendimento odontológico numa empresa que 70% do faturamento vem de um cliente só e de repente dá algum problema com esse cliente, o que é que eu faço com esse público? Mas a gente resolveu arriscar e começamos a procurar instituições que tivessem um perfil com a nossa cara. Quer dizer, nós colocamos o nosso objetivo no papel. Nosso objetivo sempre foi oferecer odontologia de qualidade para públicos em geral, mesmo tendo ou não tendo faturamento sobre esse custo, mas era oferecer. Por outro lado a gente não queria montar uma instituição, uma fundação, não isso. A gente queria fortalecer relacionamento com instituições já instituídas na realidade, e de credibilidade. Aí nós chegamos na Fundação Gol de Letra, que estava começando. Era uma pessoa que a gente acreditava muito. Eu falei: "Bom, tá aí um projeto"...

P/1 – Você está falando de que pessoa?

R – Do próprio Raí, que dava essa retaguarda pra instituição. A gente sabia que eles vinham na realidade com o intuito de ficar e não de deixar morrer um trabalho desse. Eu falei: "bom, a melhor coisa que tem. Se por acaso não der certo lá na frente, a gente tem como continuar". Aí a gente foi procurar a Gol de Letra num dia que a... (pausa). Eu lembro do nome dela, a Célia Hara. A Célia estava procurando a gente também, foi no mesmo dia que ela me procurou, eu estava procurando ela também. Eu não sabia que ela era da Gol de Letra quando eu liguei pra ela de volta. Aí que começou a nascer essa parceria. Nós ficamos com aquele receio, eu falei: "bom, o que é que a gente vai fazer? A primeira coisa que nós temos de fazer antes de fechar uma parceria é conhecer com quem a gente está lidando". Conhecer, porque era a comunidade. Aí nós fomos até lá e organizamos a nossa primeira ação junto com a comunidade.

P/1 – Você lembra quando foi isso?

R – Eu não lembro quando foi, mas a gente tem fotos disso. Eu tenho e eles também têm. Porque nos últimos dias que nós estivemos lá, fazendo aquele workshop, eles mostraram as fotos. Porque foi assim, inesquecível. Apareceram mais de quatro mil pessoas. E foi por pura inexperiência que nós fizemos aquilo. Porque numa situação dessa você tinha que estar estruturado pra receber todo esse público. A gente não sabia que a comunidade estava tão necessitada desse tipo de atendimento. A partir daquele dia... Conseguimos sair vivos daquela experiência.

P/1 – Vocês tinham material suficiente?

R – Tínhamos material suficiente. A gente foi buscando, quer dizer, a medida que foi precisando a gente foi buscando. Quando nós vimos que tinha aquele volume imenso de pessoas, a gente já saiu correndo. Porque na realidade quando a gente faz a preparação na OdontoPrev para as ações, a gente se prepara por ano. Não faz pra um mês, dois, três meses, faz pro ano. E ali nós usamos tudo de material pra aquele ano. E foi num final de semana, mas deu tudo certo porque Deus sabe o que faz. Mas foi assim: a comunidade recebeu a gente muito bem, muito bem.

P/1 – Foi uma ação de escovação?

R – Foi uma ação de escovação.

P/1 – Nossa, quatro mil pessoas, demorou o dia inteiro.

R – Imagina, o dia inteiro. No final do dia nós sentamos na sarjeta porque nós não conseguíamos chegar no ônibus de tanto cansaço que nós estávamos. E mexe muito mais com o emocional, não é o físico que incomoda, é o emocional que incomoda. De você estar ali ouvindo as pessoas, você estar vendo as crianças, vendo situações de risco e você não pode fazer nada, tem que conviver com isso.

P/1 – Você lembra de alguma história que você ouviu?

R – Não, não lembro de nenhuma história. Já faz dez anos, não dá pra você guardar tudo, porque de lá pra cá muitas histórias foram se passando dentro da nossa vida. E tem algumas histórias interessantes. Teve uma história: a gente dá pra criança uma pastilhazinha, para as crianças acima de cinco anos, essa pastilha ajuda a evidenciar onde o dente está sujo, chama evidenciador de placa e deixa a boca da criança onde está sujo pink. Aí uma criança virou pra mim e falou assim: "Oh tia, mas isso não é craque não, né?". Isso foi chocante pra mim, foi... Na hora eu perdi o chão. Falei: "de jeito nenhum", falei correndo e depois saí. Acho que foi a primeira vez que eu chorei na minha vida num projeto social, porque eu sou bastante equilibrada, mas nesse dia eu não aguentei, você ver uma história dessa de uma criança que não devia ter dez anos fazendo uma colocação dessa. Então foi bastante chocante nesse sentido. Outras situações foi no Rio de Janeiro, fazendo a ação lá com o pessoal da Gol de Letra.

P/1 – Então você fez aqui em São Paulo e depois foi pro Rio no mesmo período?

R – Não, o Rio veio depois. Mesmo a criação da Gol de Letra no Rio veio depois. Mas a gente começou com eles lá no Rio. Lá também nós tivemos uma passagem interessante de mães que não permitiam que a criança fizesse escovação. Não permitiam, mandavam escrito. Como as crianças ficavam lá dentro, a gente fazia com as crianças que ficavam lá dentro e a gente entendia que não precisava de uma autorização dos pais pra fazer uma escovação na criança. Mas a escola conhecendo a comunidade mandou um bilhete para os pais avisando. Aí vieram os bilhetes de volta dizendo que não era pra fazer. Alguns pais eu até escrevi de volta um bilhetinho dizendo: "atendemos o seu pedido, não fazemos a escovação na criança, mas estamos encaminhando um kit de escova de dente e creme dental pra que ele faça em casa". Mas é o medo da... São Paulo a gente vive uma situação um pouco diferente, está mais acostumado com essas ações. Rio já é bem mais complicado porque a convivência com o tipo de crime que você vê no Rio de Janeiro é um pouco diferente de São Paulo. São Paulo eu vejo como sendo uma situação financeira, é dinheiro, é falta de dinheiro. No Rio você tem a falta de dinheiro associada a questão do tráfico, então isso muda um pouco a forma de atuação dos nossos projetos no Rio de Janeiro. A gente viveu algumas situações bastante interessantes no Rio de Janeiro. A última que eu fiz foi na Rocinha, só que a gente fez no pé do morro. Quando acabou a gente viu que uma das escolas não veio e a gente não entendeu o porquê. Depois a gente acabou sabendo que a escola não recebeu o comunicado que a gente tinha mandado. Foram cinco creches e quatro apareceram, então eu falei: "vamos deixar o material da última creche, vamos subir e deixar lá na escola". "Não, a senhora não pode subir." "Por que não?" "Não, eu não tenho autorização pra senhora subir, espera um pouquinho." Pegaram o rádio, se comunicaram com o morro: "não, fala pra ela não se preocupar que a gente está descendo pra pegar o material e a gente deixa na porta da escola". Eu falei: "como é que vocês vão deixar na porta da escola um material desse? E aí? Vai sumir isso". "Não se preocupa que não vai sumir." Segunda-feira eu liguei, isso foi no sábado, na segunda-feira eu liguei: "E aí, vocês receberam?" "Recebemos" "Tá tudo direitinho?" "Tá, tá tudo direitinho". E tinha documentos, as carteirinhas das crianças, tinha manual, tinha...

P/1 – É um outro controle, né?

R – É um outro tipo de relacionamento que você tem que ir se adaptando a esse relacionamento.

P/1 – Deixa eu só voltar um pouquinho, então. Teve esse contato que vocês foram lá pra conhecer a comunidade aqui em São Paulo.

R – Isso.

P/1 – A partir daí que se estabeleceu a parceria?

R – Não. Aí nós fizemos mais uma vez essa campanha, só que de forma diferente.

P/1 – Essas campanhas são anuais?

R – Não. Elas são praticamente... A cada três meses nós fazemos uma campanha, alguma ação seja ela com os pais, seja ela com as crianças. Então a cada três meses, pelo menos, tem uma ação pra mobilização para a questão da prevenção em odontologia, que é o mais importante. É óbvio que essas crianças todas têm atendimento odontológico gratuito. Elas têm uma carteirinha, o programa se chama Sistema de Atendimento Continuado, está dentro de uma bandeira da OndontoPrev chamada Ação Amigos do Futuro. Então esse programa está dentro desse projeto e nesse projeto nós temos umas cinco mil crianças. Da Fundação Gol de Letra nós temos todas as crianças que são atendidas pelos projetos da Gol de Letra. Essas crianças têm carteirinha que elas podem utilizar a rede, qualquer dentista da rede credenciada e os dentistas não sabem que eles são de programas sociais. Por que? Porque é um programa de socialização. Se você colocar algum risco de discriminação dentro do projeto, você quebra o objetivo do projeto. Aí ao invés de ajudar a criança, você acaba prejudicando. Então hoje os dentistas atendem essas crianças como atendem a qualquer associado nosso. Ele marca a consulta, vai ao dentista, faz o tratamento que tem que ser feito, mas paralelo a isso eles têm que participar dessas campanhas de orientação na questão de higiene bucal. Só a técnicas de escovação, a gente leva para os pais os riscos e doenças que essas crianças estão expostas por questões de saúde, o impacto da questão de saúde bucal na saúde do corpo. Quer dizer, hoje eu diria que noventa, 95% das doenças que se adquire, se adquire pela boca. Se você tiver uma boa higiene bucal você vai minimizar esses riscos. A gente prepara também um grupo de pessoas da comunidade para que elas transmitam essas informações aos vizinhos, aos amigos, às famílias, que é o programa de formação de multiplicadores. Eles têm um treinamento de três horas que dá instrumentos pra eles para que eles levem isso pra comunidade. Aí tem assistentes sociais, médicos, enfermeiros, jovens. Por exemplo, o FAC [Formação de Agentes Comunitários] participou desse projeto e levou pra comunidade. A gente forma esses jovens durante o ano, jovens, senhoras e profissionais do ramo, ou não, para que eles levem isso pra comunidade.

P/1 – Vocês formam pessoas da comunidade também? Vocês dão cursos...

R – Isso. Quando nós fazemos essas ações, qualquer ação é sempre aberta pra comunidade. A gente não fecha os atendidos, a gente abre pra comunidade. Toda vez que a gente faz, por exemplo, na Gol de Letra, eles abrem os portões e as pessoas vêm e recebem as mesmas informações que recebem os nossos associados.

P/1 – Como é a ação da escovação? Como ela funciona?

R – Ela funciona assim: a gente combina quando vai acontecer a ação. A Fundação Gol de Letra comunica aos pais e à comunidade local. Depois nós organizamos dentro da OdontoPrev, paralelamente, o convite aos voluntários. Parte desses voluntários são dentistas e parte são pessoas de apoio. Esses dentistas é que vão pra coordenação da ação no dia e aí a gente organiza para que todos saiam da OdontoPrev juntos em ônibus ou microônibus com todo o material. Aí nós estamos falando de uma necessaire que tenha uma escova e o creme dental, nós estamos de flúor, pastilhas de evidenciação. Temos todo aquele materialzinho de apoio que é papel, sabonete, luva, máscara, touca, etc. Quer dizer, todo o aparato pra ser feito esse atendimento. Todos são uniformizados, eles recebem uma camiseta padrão para que sejam identificados pela comunidade. Normalmente o que nós fazemos, por exemplo no caso da Gol de Letra, é levar pelo menos cinco dentistas. Porque a gente sabe que pode aparecer de quinhentas a setecentas crianças nessas ações. Quando a gente chega, eles já sabem quem é quem. Então já está tudo mais ou menos esquematizado. A gente procura fazer no ambiente que a pessoa vive; não adianta eu falar pra você e dizer: "eu vou montar um escovódromo bem bonito" se não é o ambiente dele. O que é que a gente faz? A gente faz dentro de banheiro, a gente faz com o apoio de tambores, a gente faz com o que tiver de apoio no local. Isso pra dizer que não é impossível fazer um trabalho desse, mesmo que você não tenha recursos. No Nordeste você chega em muitas escolas que nem banheiro tem. Quer dizer, a noção mínima de higiene que é lavar as mãos quando se sai do banheiro, você não tem lá. E lá nós fazemos com tambores, dois tambores: um pra água limpa e outro pra cuspir. A gente faz, não tem nada que impeça essa ação, nada. A gente procura sempre estar trabalhando dessa forma para que eles dêem continuidade nos trabalhos que a gente faz.

P/1 – Então na Gol vocês começaram em 99?

R – Isso, e até hoje. Eu não tenho esse número agora, a gente pode até levantar esse número pra vocês da quantidade de crianças que nós atendemos na Gol de Letra. Nosso investimento, o último que eu fiz, deu quase um milhão e cem mil reais de investimentos só nesse programa, entre doações e recursos da empresa. Mas que teve um retorno que é incalculável, incalculável.

P/1 – Quando você chama retorno...

R – Retorno de informação. A OdontoPrev é hoje a maior empresa de odontologia do país. Ela tem uma tremenda responsabilidade por questões de saúde bucal do país. Um a cada 170 brasileiros tem OdontoPrev. No mínimo essas pessoas têm que ser um multiplicador nosso, essa é a preocupação nossa. Então quando a gente fala que a gente tem que dar odontologia pra quem está pagando a gente, eu estou falando em um milhão e meio de associados, estou falando de pessoas que pagam o benefício. E isso a gente tem que reverter pra comunidade que não tem acesso, é esse o trabalho que a gente faz.

P/1 – Vocês já trabalharam com várias instituições, né? Tem algum diferencial de trabalhar com uma outra instituição e a Gol de Letra? Tem um diferencial?

R – Tem características que diferenciam uma instituição da outra. Hoje nós trabalhamos com 24 instituições, cada uma tem o seu jeito de trabalhar. Por exemplo, tem instituições que são muito similares ao trabalho da Gol de Letra, por exemplo a Bola Pra Frente no Rio de Janeiro, que não tem acesso à rede credenciada. O local que eles estão não dá acesso. Então nesse caso a gente tem que se adaptar, então a gente foi lá e montou um consultório dentro do Bola Pra Frente pra atender a comunidade. Nós tivemos situações em São Paulo em que já tinha o consultório e quando nós tivemos lá: "Não, esse consultório não vai funcionar aqui", como não estava funcionando. A gente montou um sistema parecido com a Gol de Letra para atendimento. Pegamos aquele consultório para atender os pais dessas crianças que estavam no projeto, então a gente fez uma adaptação e a coisa mudou. Agora, em termos de perfil, cada um tem seu jeito de administrar, né? A gente ver alguns agressivos de um lado e alguns outros agressivos em outro lado em termos de colocação. Mas eu acho que o Brasil está bem profissional nessa área. Mas a gente tem essa preocupação também quando nós escolhemos com quem nós vamos trabalhar. Tem que ser pessoas sérias que estejam prontas pra dar soluções pra comunidade onde eles vão trabalhar. Então eu não consigo enxergar essas diferenças de forma tão díspares.

P/1 – E como você avalia o trabalho da OdontoPrev com a Gol de Letra?

R – Olha, minha avaliação da Gol de Letra: existe uma tranquilidade muito grande de relacionamento. Eu acho que desse lado, eu acho que é a melhor das instituições com quem nós trabalhamos. Existem outras muito boas também em muitos sentidos, mas eles são muito tranquilos. A gente sabe que se a gente montar uma programação anual - que é o que a gente faz - essa programação vai funcionar sem alteração. Então isso pra gente é muito positivo, porque a gente consegue se programar e consegue implantar. Então com a Gol de Letra, pela organização mesmo nos momentos de crise, a gente sentia os momentos de crise, porque a gente tem muitos anos de relacionamento, você percebe. Mas isso não impacta no nosso trabalho. Mesmo porque os momentos de crise não tinham nada a ver com o atendimento lá na comunidade, eram momentos de crises administrativas, que foram se adaptando, que foram se acertando e a gente não percebeu. Pelo contrário, muitas coisas eu fiquei sabendo no dia do workshop. Isso também é bom, dá tranquilidade pro parceiro. E se alguém me perguntar: "Eu gostaria de trabalhar com uma instituição, quem você me indicaria?", eu indicaria a Fundação Gol de Letra, sem dúvida nenhuma.

P/1 – Pra gente é interessante porque a gente está construindo essa linha do tempo. Do seu ponto de vista como é que vocês detectavam essa crise? Como ela apareceu, em que momento?

R – Na realidade o momento apareceu pra gente no ano passado quando nós fizemos uma ação e nós tínhamos planejado aparecer setecentas crianças e não apareceram setecentas crianças, apareceram quinhentas; normalmente é o contrário, eu vou pra quinhentas e vêm setecentas, aí eu me preparo pra setecentas. Nesse dia não apareceram e eu pensei: "tem alguma coisa aí que não está... Mas se não me procuraram pra falar sobre o assunto, vamos deixar rolar". Eu até comentei isso com a minha equipe na época, eles também sentiram isso. Nós não tínhamos informação de que o FAC, porque eles tinham terminado com o trabalho de formação lá dos jovens. Eles eram atendidos por nosso projeto e fiquei sabendo ali, quer dizer... Esses meninos sempre estavam com a gente nos projetos, todas as vezes eles eram voluntários par ajudar a gente lá no trabalho. A gente sentiu muito fraco, muito leve. Não foi nada que tivesse pego e colocado em dúvida o nosso trabalho lá dentro, de jeito nenhum, pelo contrário.

P/1 – E na sua percepção, não que você tenha acompanhado a Gol de Letra de perto, mas do pouco que você tem acompanhado, você sentiu uma evolução? Porque vocês pegaram desde o início, né?

R – Não. Muita, muita evolução. Vou dar um exemplo de um trabalho que eu admirei muito, porque você atender a criança é fácil, mas você atender esse atendimento para o jovem e para o adulto é muito complicado. Mesmo porque essas pessoas têm o estigma de que "eu sou a pessoa que tem que ficar dentro de casa trabalhando e não vou sair daqui de dentro". Aí teve um programa que eles fizeram com as mães e eu me lembro que um dia eu fui até lá e uma mãe me encontrou e falou assim: "Dona Vera, eu vou trazer pra senhora um pão que eu fiz". Eu: "ah, que legal". Ela veio me trazer o pão, eu falei: "nossa, que delícia de pão, eu nunca tinha comido um pão assim maravilhoso" "eu aprendi com o projeto". Depois ela me contou que com o projeto eles conseguiram arrecadar equipamento e montaram uma padaria, ela e as outras mães que estavam no projeto montaram uma padaria pra atender na comunidade. Mães que estavam dentro de casa e não saíam, elas mesmas falaram isso pra mim que elas não imaginavam que tinham esse potencial. Montaram essa padaria, montaram um brechó, tudo estimulado pelo projeto. Você ver ali a evolução porque nós começamos lá com crianças, com um objetivo. E aquilo foi evoluindo, evoluindo, evoluindo. Aí você ver moleques, que eram moleques, já jovens no mercado de trabalho.

Nós tivemos outra experiência positiva que nós contratamos dois jovens de lá pra trabalhar na OdontoPrev e nós ficamos impressionados com a formação moral desses jovens. Uma coisa, assim... Hoje em dia, se você não tiver uma educação muito próxima, é muito complicado a cabeça deles, e esses meninos... Foi comentário dentro da empresa, não foi uma coisa que eu vi ou uma outra pessoa viu; a empresa inteira comentou a formação desses meninos. Tanto que hoje eles estão muito bem posicionados, os dois já não estão mais na OdontoPrev, cresceram. Quer dizer, você compara eles com os demais que estão lá desde a época: "Olha o que deu com esses meninos", isso pra mim é evolução, isso é o trabalho com a Gol de Letra.

P/1 – Você vai até a comunidade, você sentiu no espaço, na rua, alguma diferença?

R – A comunidade vê a Gol de Letra como um tripé que se tirar ela despenca. Ela tem uma dependência interessante, mas uma dependência muito positiva. Não é aquela dependência de depender disso pra viver. Não é isso, ela vê ali como um suporte. A Gol de Letra é extremamente importante para as mães da comunidade, de saber que as crianças estão sendo acompanhadas sem interferir na educação. Na realidade isso que é importante: a educação continua sendo dos pais e a Gol de Letra está ali como suporte. A gente quando conversa com as escolas da região a gente sente isso também, não é uma concorrência. Nós fazemos muitos trabalhos na rede de relacionamento deles, então tem situações em que ao invés de fazer a escovação na Gol de Letra, a gente vai numa escola que está dentro da rede da Gol de Letra. Aí você vê que essas escolas vêem a Gol de Letra como um apoio e não como um concorrente. Então é bem interessante nesse sentido, essa é a evolução de você ver muito pouco; são poucos os programas que trazem pra comunidade o suporte sem interferir na relação da comunidade com o poder público mesmo. Pelo contrário, ele vem para agregar.

P/1 – Então no trabalho de vocês com a Gol, vocês também vão para a escola, faz parte isso?

R – Faz parte.

P/1 – Não é só na Gol?

R – Não. Não é só na Gol, porque senão você restringe muito o trabalho da comunidade.

P/1 – Então acaba sendo o atendimento para a comunidade mesmo?

R – É, pra comunidade, exatamente. A gente usa como porta de entrada a Gol de Letra, mas acaba estendendo pra comunidade, que é o próprio trabalho da Gol de Letra, é formação de rede mesmo.

P/1 – Interessante. Quando você fala rede... Bom, não tem nada a ver com a Rede Vila Albertina, não é?

R – Não, não. O nosso trabalho é com a Gol de Letra e eles é que criam essa rede de relacionamento com as instituições locais.

P/1 – E no Rio qual é a periodicidade do trabalho?

R – Já é menor, porque o Rio ainda está em fase de estruturação. Agora que a gente vai começar a fazer um trabalho mais intenso no Rio de Janeiro. Até pela forma como eles estão estruturando, então vai ficar bem mais fácil fazer o trabalho lá.

P/1 – Vocês pegaram no início também. Vocês pegaram Niterói, depois o Caju?

R – Sim, pegamos. Começamos em Niterói.

P/1 – Vocês pegaram o fechamento também de Niterói?

R – Pegamos, esse também foi pra gente... Tanto que tem jovens até hoje que a gente não tirou do programa. Porque é uma quebra, né? Eu falei pra eles: "não dá pra gente quebrar de vez, não dá. Vamos fazer aos poucos, deixa as crianças no programa e aos poucos a gente vai tirando. Enquanto eles forem precisando, a gente vai deixando". E está assim, entendeu? Até hoje eu tenho jovens dentro do programa que é oriundo de Niterói.

P/1 – Depois começou o Caju. Foi essa a experiência que você contou?

R – Isso. Não... Do Caju foi, foi a experiência que eu tinha contado. Agora, do Caju nós fizemos até hoje uma ação grande. Agora que a gente vai começar a fazer esse trabalho mais próximo da comunidade.

 

P/1 – Como foi essa experiência grande que teve no Caju?

R – De conhecimento. Foi muito engraçado porque é muito diferente de São Paulo. Eu fui com eles andar na comunidade, conhecer as pessoas para ver como eram as pessoas. Você tem aquela liderança, a gente não vê isso em São Paulo. Lá você tem os líderes, aquelas pessoa que são extremamente respeitadas, coisa que antigamente tinha muito. Então é diferente você fazer um trabalho no Rio nesse sentido, por isso que a coisa ainda não foi totalmente… Porque a gente quer conhecer bem a comunidade antes de entrar para não correr riscos. Nós fizemos no Pan-americano uma ação com quinze comunidades, organizamos pra quinze comunidades. Como uma das comunidades nós não fizemos, na hora eles ligaram: "não venham pra cá porque nós estamos com problemas aqui na comunidade, não venham pra cá". A gente não foi e depois ficamos sabendo que teve uma chacina e foi uma coisa muito traumatizante pra comunidade, a gente não ia conseguir entrar. Comunidades que a gente entrou e pra chegar ao local nós fomos acompanhados por motociclistas que vinham receber a gente armados, quer dizer, coisas que chocam. E aí eu tenho um pouco de medo desse lado, porque é uma tremenda responsabilidade, você está levando vinte, trinta voluntários para o meio da comunidade, então você precisa ter segurança. E a gente mesmo saindo daqui de São Paulo e indo pra lá e aí acontece alguma coisa, então nós ficamos com um pouco de receio. Lá atrás, quando nós fizemos essa ação do Pan-americano, pensamos: "Então vamos fazer isso de forma mais cautelosa". Por outro lado o Rio de Janeiro tem uma característica muito diferente de São Paulo. Essa é uma interpretação minha, tá? Como ali a pobreza e a riqueza ficam do lado, às vezes, até junto eles não percebem as necessidades dessa comunidade de baixa renda. As pessoas com poder aquisitivo não percebem. Então quando você vai buscar voluntários, você tem que procurar com muito jeito. Normalmente eu consigo fazer parcerias com universidades e aí a gente leva alunos que têm um ganho por ir. Ele abate lá das horas de estágio que ele precisa fazer e etc. Mas se você for perguntar para as pessoas: "você quer ser voluntário?", você tem dificuldade. As pessoas não querem ir, isso é uma interpretação minha. Em São Paulo isso já é mais fácil; se você for no seu prédio e convidar as pessoas, é tudo que elas querem, alguém que dê um caminho pra elas chegarem na comunidade, fazer um trabalho. Já lá, não, lá a gente tem um pouco mais de dificuldade nesse sentido. Então a gente precisava fazer com um pouco mais de cautela. Agora eu acho que no Caju eu não vou ter esse tipo de problema de jeito nenhum. Porque a própria comunidade entra, ela ajuda, ela vai porque ela já começa a enxergar a Gol de Letra como sendo uma instituição de apoio, uma instituição que vai agregar valor pra comunidade. Eu sinto isso, mas eu acho que tem chão ainda. Eu acho que é a mesma fase, mesma situação que passou a Gol de Letra na Vila Albertina.

P/1 – É o início também?

R – O início. É sempre um começo e eles estão fazendo um começo lá.

P/1 – Vera, sobre o trabalho com a Gol de Letra, tem alguma coisa que a gente não tenha perguntado?

R – Eu acho que a gente falou bastante sobre essa parceria. É uma parceria gostosa, a empresa, os nossos voluntários curtem fazer. Isso que é gratificante, você fazer de forma que atenda aos dois lados: quem está trabalhando e quem está recebendo esse atendimento. Então eu acho que nós falamos tudo que nós tínhamos para falar. A própria administração da Gol de Letra possibilita essa tranquilidade da gente entrar lá na hora que quer e sair na hora que quiser também. É bom trabalhar numa instituição que te dá essa tranquilidade.

P/1 – Internamente, entre os funcionários da OdontoPrev, eles têm uma idéia da Gol de Letra? É clara isso?

R – É clara pra eles. É clara porque a gente faz questão de tornar clara tanto quando convida pra ser voluntário, porque apesar da maioria já conhecer, tem sempre aqueles novos que não conhecem. Então a gente deixa claro no convite pra fazer parte de um programa, como deixa claro na comunicação do resultado dessa campanha. Então eles sabem exatamente com quem estão tratando. Nós temos na OdontoPrev um prêmio pro voluntário do ano que é para aqueles que mais participam. Tem voluntário que está com a gente lá desde que começou com a Gol de Letra. Então esse lado da moeda é muito gratificante e é bem reconhecido dentro da empresa.

P/1 – Outra coisa, em algumas entrevistas da Gol de Letra o pessoal comenta que antes de ter o contato com a instituição, o pessoal sempre imaginava ser uma escolinha de futebol, não imaginava a dimensão do trabalho. Chegou a acontecer isso em algum momento com vocês?

R – Olha, sem dúvida nenhuma existe essa associação. Mesmo porque uma vez por ano a gente participa lá do torneio, é o torneio mais esperado do ano e já começaram a me cobrar: "E aí, nós vamos jogar, não vamos?". Então existe essa associação, mas é claro para as pessoas que o papel da Gol de Letra não é esse. Se não for claro num primeiro momento, fica claro quando a gente ouve os comentários e a gente procura estar falando dos trabalhos da Gol de Letra. Nas comunicações a gente fala, a gente acompanha o site, quando sai alguma matéria no site deles, mesmo que seja fora do Brasil, a gente divulga internamente até para desmistificar essa questão, porque o trabalho deles não é esse.

P/1 – Você falou do torneio, é o torneio Gol de Letra?

R – É o torneio Gol de Letra.

P/1 – Vocês participaram desde o início?

R – Olha, eu não sei se é desde o início. Acho que nós participamos dois anos e esse vai ser o terceiro ano. Terceiro ou quarto ano agora.

P/1 – E como é esse torneio?

R – O interessante pra gente nesse torneio não é isso. Existe um recurso de contribuição que você dá para participar do torneio. A maior felicidade da empresa é tirar do presidente da empresa uma verba dele, pessoal (risos). Então a gente acaba se divertindo com essa história de ver que ele, como pessoa física, participa desse projeto e com uma satisfação muito grande, muito gostosa. Os funcionários curtem isso. Pelo fato deles estarem entrando no torneio como pessoa física, eles têm que dar retorno. Então eles treinam o ano inteiro pra esse futebol, o ano inteiro.

P/1 – Então tem um time que participa?

R – Um time que se organizou e agora estão organizando um time das meninas, que já estão treinando faz tempo. Conseguiram que a empresa bancasse lá uma quadra pra pagamento mensal pra eles irem todo sábado. Então isso estimula também o trabalho em equipe, porque tem pessoas de todas as áreas nesse time, de gerente ao boy; vai do cara da central de atendimento a um gerente da área comercial. Quer dizer, então você ver que existe uma integração e que ali é muito bom. Eles brigam, eles discutem, eles se abraçam, eles fazem churrasco, tudo nesse treinamento para o torneio da Gol de Letra (risos). É muito interessante o impacto desse torneio na motivação do time.

P/1 – Muito interessante mesmo. Até o momento a gente não esteve com ninguém que estivesse participando do torneio, é bem legal.

R – Bem legal.

P/1 – Você não está participando do time?

R – Imagina! Eu vou lá para gritar, né? Nossa! A gente briga com as outras torcidas (risos). No fim, eu me lembro que nas torcidas um xingando o outro, quer dizer, na maior brincadeira, porque você pode levar pouca torcida, você não pode levar muita gente. Então cada um leva um pouquinho de gente. Eu me lembro que o Raí chegou numa das brigas, no meio das discussões e o Raí chegou. Foi a única hora que eu vi as torcidas se reunir, todo mundo com o mesmo objetivo (risos), imagina só mulher? (risos) Foi muito engraçado, muito engraçado, eu falei: "agora todo mundo é amigo". Eu acho que é positivo nesse sentido de integração mesmo.

P/1 – Legal. E o torneio vai ser agora, tá perto, né?

R – Vai ser agora, está perto. É em agosto, se eu não me engano.

P/1 – Bom, a gente está fechando essa parte da Gol de Letra. Eu só queria retomar uma coisa rapidinha. Nesse meio tempo todo você só viveu pro trabalho mesmo, né?

R – Sempre (risos). Eu sou muito dedicada, muito dedicada. É até difícil porque a minha mudança mesmo de emprego, da Rai para a OdontoPrev foi por causa disso. Porque eu tinha duas filhas pequenas, e eu não podia dedicar muito tempo porque eu viajava demais...

P/1 – Em que momento você casou?

R – Eu casei no começo, quando eu fui trabalhar na Rai, bem no comecinho. As minhas filhas nasceram nessa loucura; quando elas começaram a atingir uma fase da vida, eu falei: "não, espera aí, não dá". Eu viajava demais, eu ficava quinze dias fora e quinze dias aqui, meu marido tendo que se virar com as duas. Eu falei: “não, vamos procurar uma empresa regional, em São Paulo, tranqUila”. Fui trabalhar na OdontoPrev, o que é que deu? Está indo para a América Latina, ou seja, além de não ficar em São Paulo a gente acaba tendo que sair também do país. Mas é gostoso, mas eu consigo fazer isso de forma mais balanceada do que no passado.

P/1 – Só para registrar, qual o nome do seu marido, dos seus filhos?

R – Meu marido é Luiz Carlos, a Natália é a mais velha, que tem 22 anos hoje e a Daniela, com dezoito anos.

P/1 – Você olhando a sua trajetória, o que você diria das lições que você tira?

R – Eu acho que a maior lição está relacionada à família, eu acho que é o exemplo que eu dei e estou dando para as minhas filhas, porque elas têm as mesmas preocupações que eu, são pessoas dedicadas ao trabalho. As duas estão... A mais nova está começando agora e a mais velha já está há algum tempo. Eu sinto pelo desempenho delas, pelo interesse da empresa onde ela trabalha, eu acho que ela consegue fazer a mesma coisa que eu fiz no meu trabalho lá. Eu acho que isso é a melhor coisa que pode acontecer na sua vida, você servir de exemplo para outras pessoas. Dentro da empresa também, porque a OdontoPrev é uma empresa muito jovem, eu sou uma das mais velhas funcionárias de lá não só em tempo de casa, mas em idade também. E as pessoas me respeitam porque elas me vêem no ambiente de trabalho e nesse ambiente social, onde eu sou integrante e voluntária como qualquer um deles. Isso é bem positivo porque a gente recebe esse retorno deles, das pessoas que participam.

P/1 – Uma outra coisinha. Dessa sua convivência com a Gol de Letra você poderia dizer que tirou alguma coisa de aprendizado?

R – Muito! Aliás, eu diria que quase tudo que eu sei de voluntariado eu aprendi com a Gol de Letra: em termos de organização, da importância do voluntário dentro da empresa, de como você tratar o voluntário. Eu aprendi muito com a Gol de Letra, foi ali no dia a dia, fazendo junto que a gente foi aprendendo. Eu acho que esse lado eu não tenho o que questionar, é a minha melhor referência em termos de organização e em termos de voluntariado mesmo. O voluntariado parece uma coisa simples de se fazer, mas não é, não é. É bastante complicado porque você tem que trazer essa pessoa pro seu lado, ele tem que ser líder sem ter aprendido a ser líder em nenhum momento da vida dele, ele tem que ser organizado sem saber como organizar. Pra mim, ali, quer dizer, eu tenho que ser... Ali eu não sou uma gestora, ali eu sou uma integrante do grupo. Eu tenho que aprender o outro lado também, ser comandada ao invés de comandar. Isso agrega muito na sua vida, viu? Eu acho que se você quer crescer como gente, vai ser voluntário.

P/1 – Colocar a mão na massa.

R – Vai colocar a mão na massa.

P/1 – Vera, a gente está terminando mesmo. Tem alguma coisa que você queira deixar registrado que a gente não tenha perguntado?

R – Não, não. Eu acho que o trabalho mesmo que está sendo feito de colocar a história, embora não seja uma história tão antiga assim, nós estamos falando de dez anos. Colocar isso no papel hoje vai garantir a continuidade da instituição. Eu acho que é um trabalho importante, inteligente e não vamos esperar cem anos pra poder registrar cem anos de instituição. Eu acho que ela vai durar muito mais que isso, mas se você começar agora você vai conseguir perpetuar a instituição lá na frente.

P/1 – O que você achou de estar participando com o seu depoimento?

R – Ah, eu estou muito orgulhosa (risos). Nunca imaginei que... Primeiro que eu nunca tinha parado pra pensar que eu entrei com a Gol de Letra, comecei e acordei mesmo na hora que eu recebi o convite. "Mas é verdade, eu comecei junto com eles." Isso foi interessante, você parar para refletir depois de dez anos, então isso que eu achei legal.

P/1 – E depois refletir sobre a vida, né?

R – E depois trazer… Porque o final de semana que eu tive com a minha mãe e irmãos falando sobre a nossa vida foi muito legal, muito. Nossa, propiciou ali uma discussão com netos junto, então foi uma coisa tão gostosa no final de semana. Eu lembrei de coisas e eu contei uma história que eu achava que tinha cinco anos de idade quando aconteceu e a minha mãe falou: "não, você tinha dois anos de idade, essa história que você contou você tinha dois anos de idade". E eu contei...

P/1 – Qual é essa história?

R – Eu adorava brincar no espaço de trabalho do meu pai, aquilo que eu falei que a casa era acoplada com o trabalho dele. Mas aquilo era uma área de segurança, você não podia ir, mas a gente sempre dava um jeito de chegar lá. Só que era cheio de maquinário e eu caí em cima de uma dessas máquinas e ganhei um corte, eu tenho uma cicatriz até hoje. Foi muito feio, na época, e foi o único jeito de eu não entrar mais naquele espaço. Eu lembrei disso no dia do workshop, eu resgatei esse negócio. Como é que eu fui lembrar disso? A minha mãe falou: "eu nunca comentei nada disso com você, você era muito pequena". E eu falei pra ela: "e eu escrevi a minha história dos cinco aos quinze anos e ainda não consegui colocar tudo no papel". Aí ela falou: "Isso aí não foi uma história de cinco anos, isso foi uma história que você tinha dois anos" (chora), então foi muito bom. Como é que é a memória. No começo do workshop eu falei: "eu não lembro o que eu comi no café da manhã, vocês vão querer que eu lembre do que nós fizemos de dez anos pra cá? Eu não consegui lembrar". E não é que eu resgatei?

P/1 – Mas é assim que funciona.

R – É assim que funciona! Me deu vontade de escrever um livro (risos).

P/1 – Vera, a gente agradece muito pelo seu depoimento.

R – Obrigada, viu? Eu estou à disposição, na hora que precisar a gente volta a se falar, tá bom?

P/1 – Beleza.

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