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História

A importância do Riso

História de: Paulo Bonfá
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Sinopse

Nem sempre a vocação inata para o humor se fez clara para o paulistano Paulo Bonfá. Em seu depoimento, ele conta como o vôlei, os cursos de Administração e Economia e até uma empresa de importações fizeram parte de sua vida antes da descoberta de que a aptidão para divertir as pessoas seria, na verdade, sua principal atividade. A lembrança do tempo em que gravava programetes cômicos em fitas cassete e as distribuía entre os amigos do colégio chega a ser irônica: mal imaginava o menino que, anos mais tarde, seria a criação de um programa de humor para uma rádio da universidade que o encaminharia para sua real profissão. Paulo revela como desenvolveu o Sobrinhos do Ataíde e como uma situação vivida ainda no tempo em que comandava uma empresa o inspirou para a criação do bordão “Xi, Marquinho!”. Ele ainda fala de passagens divertidas que vivenciou enquanto apresentava o Rockgol, na MTV, e de como surgiu a ideia de criar o festival Risadaria para valorizar algo que sempre dominou: a arte de fazer rir.

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História completa

Paulo Roberto Bonfá, nascido no Hospital e Maternidade São Luiz em 31 de janeiro de 1972. São Paulo, capital.

Eu e meu irmão temos personalidades muito diferentes, temos uma diferença de idade de três anos e nunca tivemos a mesma turma, o mesmo programa. A nossa convivência fora de casa era muito diferente da nossa convivência. Fora de casa, eu sempre gostei muito de esporte, ele não tinha tanto apreço pelo esporte.

Na natação e no judô, eu disputava campeonatos, eu era atleta federado, mas não era algo, um nível de competição que me fizesse pensar: “Puxa, isso aqui é o que eu quero fazer da minha vida.” Foi quando o Brasil ganhou uma medalha de prata na Olimpíada de 1984 no vôlei, que era um esporte que eu gostava e praticava brincando no colégio, que eu pensei naquilo como algo: “Poxa, acho que eu deveria fazer melhor isso que eu faço brincando.” E, assistindo a um programa na TV Cultura, um programa de esportes, os jornalistas deram a informação de uma peneira, que é como a gente chama o primeiro encontro para testar gente que quer ser atleta em alguma modalidade, em um grande clube. E eu fui participar de uma peneira do grande time da época que era o time da Pirelli, e ele ficava em Santo André. E foi muito interessante porque eu fui fazer essa peneira, eu tinha 12 anos de idade, e eram 600 garotos. Ficaram dois, eu e mais um. Dessa história, eu comecei a jogar vôlei para valer e daí joguei durante dez anos, competindo. Eu fui campeão paulista, fui para a seleção universitária, fiz várias diferentes trajetórias de atleta, no começo mais sério e depois já percebendo que eu não ia ter uma carreira como atleta, que aquilo era algo que me dava muito prazer, que era bom para mim, que eu gostava demais, mas que tinha um limite.

Para mim, foi uma fase muito interessante porque eu gostava tanto que eu saía do colégio, eu almoçava rapidinho em casa, andava até um ponto de ônibus que levava para a estação de trem, da estação de trem eu pegava o trem, descia na outra estação, pegava mais um ônibus e ia jogar. Me matava de treinar, adorava aquilo e voltava. Então, meus dias eram resumidos a isso porque eu demorava, sei lá, uma hora para ir, uma hora para voltar, treinava quatro horas por dia e voltava para casa, comia um prato gigante de comida e capotava. Aí, no dia seguinte, ia para a escola e, da escola, seguia. E isso para mim era uma superalegria, né?

A veia cômica é inata. Se você vai desenvolver aquilo na forma de um trabalho, se aquilo vai perdurar durante a sua vida social, mesmo que não seja algo ligado ao seu ganha-pão, o meio ambiente vai dizer, a sua história de vida vai dizer, mas a minha percepção sempre foi a de tentar me divertir. É a minha relação com a comédia. Ela começou por acaso, como qualquer pessoa que gosta de algo, que pode ser origami, pode ser pescaria ou tocar vilão. Eu gostava de assistir aos programas de humor da TV, eu gostava de ler livros que eu considerava engraçados, eu gostava dos gibis, mas, embora eu lesse de tudo, os super-heróis, a Turma da Mônica, almanaques Disney, eu me divertia com Recruta Zero, eu me divertia com historinhas que tinham uma referência divertida no final. Essa importância do riso para mim e essa necessidade de as pessoas sorrirem, ela veio do berço, entre aspas, porque foi acontecendo, e eu ia indo atrás daquilo que me deixava mais feliz, e eu ficava muito feliz vendo uma comédia no cinema, ficava muito feliz assistindo aos Trapalhões na televisão, eu ficava muito feliz com o gibi do Recruta Zero. Então, talvez aí, eu tenha começado a buscar mais o que me trazia prazer.

Nós começamos a gravar fitas cassete – fitas cassete, que eram um meio de registrar áudio quando não tinham os formatos MP3, toda a tecnologia envolvida com música e som em geral –, parodiando programas da televisão, fazendo aquilo sem roteiro, só como uma diversão e com uma certa frequência, mudando os grupos de pessoas, mas fazendo aqui, fazendo lá. E essas fitas começaram a rodar pelo colégio, os colegas pediam: “Ah, posso ouvir o que vocês gravaram?” “O que é que foi, o que é que não foi?” E essa situação era um hobby, era uma diversão.

Então, eu fui cursar Administração na GV [Fundação Getúlio Vargas] aqui em São Paulo, e essa foi a minha escolha acadêmica. Já na faculdade, e com alguns dos meus amigos, eu comecei a fazer um programa de rádio de forma experimental, semiamadora, porque não era remunerado, na USP FM. Nesse ano, inclusive, eu já estava no segundo ano da Administração. Eu prestei também Economia, eu fazia uma faculdade de manhã e eu entrei na outra à noite, na USP [Universidade de São Paulo].

Quando eu já estava formado na primeira faculdade e estava do meio para o final da USP, aconteceu o seguinte: depois de quatro anos, alguns contatos lá na USP FM, que aquilo era praticamente um hobby, houve a possibilidade de levar o programa para uma emissora comercial. E ele foi muito bem sucedido, se chamava Os Sobrinhos do Ataíde, e essa trajetória foi muito rápida, de forma que, um ano e pouco depois, eu percebi que eu tinha lá a minha atividade comercial, porque eu tinha me formado, eu tinha aberto uma empresa com dois ex-colegas de faculdade representando uma empresa americana no Brasil, e era uma coisa super mão na massa. A gente saiu, pegou um dinheiro emprestado, cada um com a sua família, e montou um negócio e foi metendo a cara. E, ao mesmo tempo, o programa, que era um programa de rádio, que era um hobby, que não tinha recurso nenhum, estava crescendo e estava tendo audiência. E estava tendo assédio de patrocinadores, e eu estava fazendo duas coisas que se tornariam incompatíveis. E aí, nesse momento, foi quando eu tomei uma decisão. Já que não seria possível fazer os dois bem feitos, eu falei: “Vou apostar na Comunicação.” E vendi a minha parte da empresa para os meus ex-sócios e passei a me dedicar só à Comunicação.

A minha opção por Comunicação foi única e exclusivamente por conta do humor. Se não fosse cômico, eu nunca pensei em Jornalismo, eu nunca pensei: “Ah, vou dar notícias, vou fazer umas reportagens, vou ser colunista.” Eu nunca pensei, mesmo no esporte, que era tão presente pra mim e que depois fez parte do meu trabalho, já em muitos momentos da minha carreira. “Eu vou transmitir jogos, eu vou ser um comentarista.” Não, era algo pensando: “Puxa, um dia eu vou fazer um programa como o Monty Phyton fez na televisão.” Então, a decisão da Comunicação, para mim, era a decisão por comédia.

Eu estava expondo, eu tinha na época com os meus sócios comprado um espaço na Feira Agropecuária de Holambra – Holambra, que é conhecida pelas pessoas como a cidade das flores e que tem um mercado de flores, uma grande produção de flores, era também um grande mercado para um dos produtos que eu importava na época, que ajudava na climatização de ambientes de estufas de produção, para controlar umidade e temperatura, uma coisa bem técnica. E, aí, nessa feira, a gente tinha lá um pequeno espaço, um estande mesmo, como em uma feira de negócios, com os equipamentos, e apareceu um potencial cliente, um produtor agrícola, bem holandês, de barba ruiva, com a bota, com a calça toda meio suja de lama, uma camiseta rasgada, enfim, um cara que podia ser milionário, mas estava lá com a roupa de roça. E ele tinha junto dele o filho, que era todo branquinho, cabelo arrepiadinho, não sei exatamente a idade, 10, 12, talvez menos, vestido com o uniforme do Chicago Bulls, o time de basquete, dos pés à cabeça. Então, o tênis branquinho com uma meia puxada até a canela, um shorts do jogo com a camisa do Michael Jordan, que era o grande jogador de basquete, o Pelé do basquete. E, enquanto o pai perguntava para mim e para o meu sócio lá, ele estava falando sobre os equipamentos e qual é a potência desse motor e o consumo e a pressão da água etc., o filho estava destruindo o nosso estande, bagunçando todos os folhetos, apertando o botão das máquinas. E o pai, ele era simplório, vamos dizer assim, no jeito de fazer e falar as coisas lá, e o filho era o oposto, ele era todo americanizado e todo ligado. E o pai, devagar, e o filho, acelerado. E daí, dessa combinação, eu criei dois personagens, que eram um pai e um filho, o Seu Gilmar e o Marquinho. O Seu Gilmar sempre falava: “Xi, Marquinho!”. E o filho era o Marquinho, que falava: “Não, pai, como você é burro, você não faz as coisas”, que eram baseados nessa experiência de encontrar essas pessoas que não se chamavam Gilmar nem Marquinho, e o personagem também não era no campo e tal, mas era um conflito de gerações entre um pai que não era antenado, que era avesso à tecnologia, e que tinha uma dificuldade de entender as coisas e que não acompanhava a velocidade do filho.

A gíria “Xi, Marquinho” foi votada a gíria da década em uma pesquisa do Grupo Estado nos anos 90. Foi muito interessante e surgiu de uma outra experiência minha de anos anteriores, de estar lá e lembrar daquilo lá.

Quando eu estava já na MTV, e uma das coisas que eu fazia lá era narrar, transmitir como um locutor um campeonato de futebol entre músicos, que era um campeonato mimetizando as transmissões tradicionais da televisão, porém, sem o vínculo, porque ali ninguém era atleta profissional, pelo contrário, tinham uns poucos bons de bola. Mas a gente reproduzia o ambiente do estádio, uma arquibancada com 1400 pessoas, nove câmeras para transmitir, todo mundo uniformizado, impecável, um circo realmente montado para que, de um campeonato fictício porque não valia nada, era só um torneio amistoso, a gente extraísse programas de televisão, parodiando esse universo. E se chamava Rockgol, eu tinha lá uma missão de colocar emoção onde realmente não havia, porque não era time. Ninguém torcia de fato para eles, atletas ou músicos, ou bandas, portanto, personalidades que tinham fã-clubes, alguns mais conhecidos, outros não, mas de todos os lugares do Brasil, de estilos musicais diferentes, e faixas etárias diferentes, que eram reunidos, misturados. Montavam-se os times e iam para o campeonato.

No caso do meu campeonato, não vão ter grandes jogadas, não vão ter muitos gols, eu tenho o tempo todo que convencer o espectador a permanecer ali e obviamente que para o lado do humor. E daí uma das coisas que me chamavam a atenção é que os penteados dos artistas eram muito malucos, caras com cores de cabelo diferente, um com cabelo até o umbigo, o outro com um raspado, careca com um chumaço em cima, enfim, é uma coisa de afirmação visual de artistas musicais ali. E a gente pegava no pé já antes das transmissões, falando disso, mas uma hora eu falei assim: “Eu tenho que criar um vínculo maior com eles.” E eu comecei a dizer que todos eram clientes meus e que eu tinha uma consultoria capilar chamada Paulo Bonfá Ringling Brothers Capillar Consultants, um nome em inglês comprido que as pessoas tivessem dificuldade de reproduzir, porque eu sabia que aquilo ia gerar uma situação do cara querer falar o nome e não conseguir.

O festival Risadaria, ele aconteceu para mim em uma caminhada no Parque do Ibirapuera em 2007. Andando com o meu irmão, caminhando lá em um final de semana, eu contei para ele uma ideia. Eu falei: “Olha, eu estou pensando em reunir todos os comediantes do Brasil e todas as formas de fazer as pessoas rirem.” Mas ele falou: “O que é isso? É tipo uma feira de comédia?” Eu falei: “Não sei ainda o que é.” Eu nem tinha ainda a palavra “festival” na cabeça, mas eu tinha para mim um sentimento, depois de trabalhar já, na época, com 15 anos, desculpa, com mais de dez anos de televisão e de rádio já, sei lá, 16 anos, que a atividade de comédia, ela não era colocada em um patamar de cultura como ela merecia, principalmente no Brasil. Porque, quando você falava nos grandes eventos culturais, ou alguma referência, as pessoas se remetiam à dança, à música, a artes plásticas, ninguém pensava no humor. E eu, depois de trabalhar com isso e conhecendo muitos outros artistas, ou colegas da área do humor, tantos veteranos já, o Jô Soares, o Chico Anísio, como gente nova de diferentes frentes, como o pessoal do teatro, do humor do rádio, puxa, a televisão, os caras que desenham humor, enfim, de circular nesse meio, eu percebia que era um lugar comum em que os artistas se sentiam menos valorizados. Parecia que a gente era a segunda divisão das artes, a série B. “Ah, comédia é uma coisa fácil!” E eu falava: “Puxa, eu faço isso, eu sei qual é o trabalho que dá, é muito mais fácil fazer chorar do que fazer sorrir.” O desafio é fazer pessoas sorrirem e, mais ainda, o desafio é fazer pessoas sorrirem da mesma coisa.

Então, a pedra fundamental do festival, ela se mantém. Resumidamente, a gente tem todos os gêneros de humor, do palhaço ao stand up comedy, passando pelo grupo de esquetes, pelo contador de piadas, pelo comediante que interpreta personagens, pelo improvisador, pelo imitador, pelo ventrículo, o mímico. É comédia? Cabe no Risadaria. E sem reduzir a plataforma. Então, no Risadaria, tem a turma da TV, tem o pessoal do teatro, tem os caras do humor gráfico, tem o pessoal do rádio, tem a parte digital, fotografia, grafite, literatura, tudo cabe dentro dessa grande reunião de conteúdos cômicos e que têm como proposta maior colocar o humor em um patamar de cultura e mostrar para o público ou servir de volta ao público aquilo que ele mesmo transformou em uma coisa tão importante para a cultura brasileira.

E nessa trajetória do Risadaria, desde 2010, nós conseguimos realizar coisas inimagináveis talvez ou impensáveis para o universo do humor, da comédia, frente ao que ele tinha sido até então. Na forma de reunir as pessoas, na forma de homenagear. Por exemplo, o Chico Anísio, em vida, ele cortou a fita vermelha na primeira edição do festival. E, depois de fazer isso com ele, consegui fazer com o Jô Soares, com o Renato Aragão, com o Carlos Alberto de Nóbrega, com o Silvio Luís, e serem homenagens de grandes veteranos expoentes, com décadas de carreira usufruídas por eles. Para mim, nunca fez sentido homenagear alguém depois de morto. É óbvio que Oscarito, Mazzaropi, Ronald Golias e tantos outros craques da comunicação de humor, da comédia, podem, merecem receber as suas homenagens, mas vamos começar prestigiando quem pode usufruir, e o Chico Anísio me disse isso na primeira edição. Ele já estava ruim de saúde, ele veio a falecer dois anos depois, mas, em um depoimento que estava sendo gravado no camarim por uma repórter, ele olhou para mim e falou: “Essa aqui é a homenagem mais importante que eu já recebi na minha vida, porque ela é prestada por soldados que lutam a mesma guerra que eu.”

Eu tenho muitas história engraçadas que eu me lembro que estão ligadas a situações que eu passei a viver depois me tornar uma pessoa reconhecida, de a pessoa olhar e me falar: “Eu conheço você de algum lugar.” É por conta do trabalho e da exposição, né? E eu me lembro uma vez, em Campinas, num evento, em um grande evento em um clube que, na saída, algumas crianças vieram com caneta e com papel na mão para pedir autógrafo, e uma delas estava com uma folhinha dessas que era do guardanapeiro da lanchonete, que ela era toda molenga e tal. E aí eu perguntei: “E o seu nome?” E ele falou: “Cláudio.” Eu fui começar o autógrafo, aí já, splift, furou o papel. Aí eu olhei e falei: “Aqui está difícil.” Ele virou de costas para mim, e eu autografei a camisa dele e, quando eu terminei, eu falei: “Pronto!” Ele olhou para mim e falou: “Tio, a minha mãe vai me matar...” Ele queria que eu apoiasse o papel nas costas dele, eu achei que ele falou: “Ah, o papel não deu, autografa a minha roupa mesmo.” (risos)

Uma vez, eu engasguei com um amendoim, amendoim, tipo amendoim japonês, que se chama “joãoponês” na época do meu programa. Joguei para o alto e fui pegar com a boca, quando abri a boca para pegar, eu acertei o alvo só que ele desceu direto e tlum. Então, eu comecei (som de engasgamento). E aí as pessoas rindo no estúdio, e a plateia batendo palma, e eu (som de engasgamento). E: “Hei! Bate aqui nas minhas costas para desentalar este amendoim!” E foi curioso porque foi o fim do meu programa, e eu estava lá no camarim e tem lá meu telefone e tem uma mensagem de voz, e aí a minha mãe, que tinha gravado, assistido ao programa: “Filho, você se engasgou, você já está bem?” Tipo, a única pessoa que percebeu perigo...

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