Busca avançada



Criar

História

A importância da escuta e a medicina integrativa

História de: Ana Paula Junqueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2021

Sinopse

Viveu a infância no vale do Paraíba em São Paulo; engessava as bonecas brincando médica;teve asma; filha mais velha de 5 irmãos; Morou no Rio, em Belo Horizonte e São Paulo; República ;Especialização em Sexologia; trabalhou anos em hospital; casamento; amamentação; vínculo mãe; Doença do irmão, Síndrome de Aden; tempo pro filho; falecimento do pai; luto saúde mental; psiquiatra; coaching; virou autônoma; atenção ao filho; meditação; climatério.

Tags

História completa

Eu nasci numa cidade no Vale do Paraíba bem pequenininha – chama Cruzeiro. Nasci em 25 de abril de 67 e sou a primeira filha de muitos. Nasci ali, vivi toda infância e saí na adolescência. Eu percebo que apesar de muitos irmãos, da gente ser muito juntos, tinha algumas atividades de infância, de brincadeiras, eu acredito que é muito mais de brincadeira na infância, do que eu sentia falta. Então eu pegava minhas bonequinhas, brincava com minhas bonequinhas, e depois eu ia brincar com os meninos. Quando eu voltava pra pegar aquelas bonequinhas de volta pra brincar, elas tavam ou sem cabeça, ou sem perna, ou sem braço, elas estavam literalmente destruídas; e eu engessava, as bonequinhas, eu fazia curativinho nas bonequinhas, e hospitalizava as bonequinhas, não tinha como brincar com as bonecas. Eu punha elas no hospitalzinho, eu falava “ela tá internada, depois que elas recuperar eu vou brincar”. E eu ia brincar com os meninos. Quando eu tinha 11 anos, eu tive um sarampo, e tive uma perda de audição 100 %, uma surdez 100%, a minha sorte que é só um ouvido, mas uma doença evitável com vacina, né. Então você vê com a evolução, as pesquisas ajudam, porque eu falo assim, naquele momento eu não tinha muita noção do que era ser surda, deficiente auditiva, né, porque um ouvido escutava muito bem, graças adeus até hoje escuta muito bem, então fui percebendo que escutar é muito importante pra mim, e eu fui ter essa percepção na idade adulta. Eu acho que eu fui ter essa percepção mesmo quando eu comecei a atender as minhas pacientes, então eu elaborei uma escuta muito ativa, porque pra eu escutar eu tenho que prestar muita atenção, então fui vendo o quanto é importante você escutar o outro, e o quanto é de gratidão eu conseguir escutar o outro, que eu poderia não tá conseguindo. Então, uma sequela de infância, eu fui desenvolvendo uma outra capacitação. Então escutar pra mim é uma preciosidade, e foi de uma perda muito jovem. Eu fiz faculdade também pertinho do Sul de Minas, pertinho de Cruzeiro, em Itajubá, não sei se você já ouviu falar. “O melhor período da sua vida é o período da faculdade”, hoje aos 53 eu não sei. Hoje aos 53 o melhor período da vida é o hoje, é o hoje, é o hoje, né? Além de fazer a faculdade que eu queria, eu gostava de estudar, não era uma dificuldade pra mim, mas eu gostava muito dos amigos, então gostava muito de aproveitar. Quando eu entrei na faculdade eu falei assim “eu vou casar com a medicina”, entendeu, “então não adianta eu ter relacionamentos longos, eu vou casar com a medicina”. Daí o primeiro ano de faculdade foi o ano que eu me apaixonei pela medicina, me apaixonei no ano mais difícil, primeiro ano é o ano mais difícil: anatomia é uma matéria muito difícil, é muito tempo de estudo, é ficar longe de casa, mas eu me apaixonei e ali eu já falei assim... ali eu virei uma ficante, falei assim “não é a medicina mesmo”. Então a minha carreira primeiro foi obstetra, primeiro obstetra, bem de alto risco, ginecologista, eu me formei em 91. Esses primeiros – então vou pros ciclos de 7 anos – esses primeiros sete anos eu fui vendo que quem foi me conduzindo foram minhas pacientes. Como eu gostava muito de escutar, eu escutava as queixas, e eu fui percebendo que maioria das vezes vem por uma doença, que era um tratamento e uma cura, mas muitas delas tinha dentro da consulta um espaço de fala, pra isso você tem que dar um espaço de escuta, e eu fui vendo que as mulheres – isso a gente tá chegando nos anos 2000 – as mulher estavam fazendo uma transição, elas não queriam fazer só preventivo, elas queriam entender porque que elas não estavam tendo desejo, elas queriam entender por que é que elas não estavam chegando na sua plenitude. Ali, e foram as próprias pacientes, elas foram pedindo e eu fui descobrindo com elas, ali foi um divisor de águas pra mim. Então as minhas pacientes que definem o que eu sou hoje, sem dúvida nenhuma. Ali eu falei “eu vou estudar sexualidade humana”, daí eu fiz uma especialização Dos anos 2000 pra 2010, eu também percebi uma transição das mulheres. Elas tinham passado um pouco desse estágio de “quero entender uma patologia, ter um diagnóstico” não, “eu quero ter mais desejo, eu quero ter mais intimidade, eu quero ter mais troca, eu quero enriquecer em temos de comportamento e amor”. Daí eu entrei de cabeça na saúde da mulher, né, que a saúde da mulher vai muito além da ausência de patologias. É uma questão de bem-estar e uma questão de qualidade de vida. Daí eu entrei num outro processo, e bem atualmente, depois dos 25 anos de formada, eu estou migrando pra medicina integrativa, que é uma medicina pra melhor equilíbrio corpo e mente. Então eu fui vendo que foram minhas pacientes, mas a minha vida pessoal também, porque nesses primeiros anos aí, eu conheci meu marido, eu conheci ele na praia, em Ubatuba no réveillon, foi bem apaixonante, a gente ficou um ano juntos e a gente tinha uma vida muito muito diferente, eu já conheci ele que ele trabalhava com esporte, ele já me conheceu médica. A vida era muito diferente: enquanto eu ficava de jaleco branco, num ambiente fechada, sem cor, né, sem cor, pálida, e cuidando só de patologia, de enfermidades, de dificuldades, ele ficava... não que eu fosse um ambiente fácil também, né, porque competição... mas ao ar livre, jogo, era muito diferente. Com quatro anos de namoro a gente casou, e ele me mostrou o quanto é importante o bem-estar, a vivência. Quando eu cheguei aos 35 anos, eu falei “eu acho que é a minha vez de gestar, de sentir o que é isso, de gerar”. E como eu amamentava muito a noite, eu amamentava e ele cuidava do bebê, né, então assim, a gente foi pai e mãe juntos. Bastante tempo do Rodrigo. Então não amamentei sozinha, literalmente não, que eu dava o peito e entregava ele pro pai. Tanto que quando eu voltei pro consultório, bem pouquinho tempo pós-parto, eu atendia uma paciente, ele levava o Rodrigo, eu amamentava e entregava ele pro pai. E meu pai faleceu, nessa internação meu pai faleceu. Daí começou choro, choro, choro, distúrbio do sono. Daí eu fui atrás de um psiquiatra, daí eu fui atrás de um terapeuta, que foi a melhor coisa que eu fiz na vida foi ter ido no médico, entendeu, porque acho que o médico tem muita resistência, pedi literalmente ajuda e tive a noção do quanto eu tava tendo um transtorno de ansiedade e o quanto é importante você tratar isso. Mulher tem mais transtorno de ansiedade do que homem, e o quanto é importante eu tratar isso, e nesse momento eu não estava no climatério ainda, então eu tinha uma certa consciência que se eu não cuidasse daquilo naquele momento, depois seria pior Agora, eu aprendi muito com essas dores, com essas perdas, e principalmente com a perda da saúde, né, quando você sente que você não tem a sua saúde mental, que você não consegue nem agarrar seu travesseiro naquelas poucas horas que você pode dormir, porque você não consegue dormir, é difícil, é bastante difícil. E isso foi me levando também a essa medicina integrativa.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+