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História

A identidade do atleta

História de: José Anibal Freitas Azevedo Marques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Zé nos conta a história de sua família e de como ela se firmou no bairro da Vila Mariana. Nos fala em seguida sobre como era brincar no bairro nos anos setenta e sua relação com os pais e os irmãos. Sabemos também como ele se conectou com o esporte, através do futebol e do Clube Ipê, onde seus pais eram sócios. Ele nos conta sobre seu período na escola e nos colégios, principalmente o Benjamin Constant e o ETAPA, já voltado para o vestibular. Depois, Zé Anibal também nos conta sobre o período de faculdade na PUC em Psicologia e suas especializações na área. Ele nos fala a respeito do PET e de sua entrada em 1998. Além disso, sabemos muito sobre o cotidiano de seu trabalho, os objetivos e protocolos do Projeto Esporte Talento e os fatos e experiências que os levaram a mudar o perfil das ações, até a mudança definitiva para Programa de Desenvolvimento Humano pelo Esporte (PRODHE). Por fim, Zé fala sobre seu casamento com Paula Korsakas, o nascimento de seus filhos e seus sonhos para o futuro.

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História completa

Eu sou José Aníbal Freitas Azevedo Marques. Nasci em São Paulo em quatro de fevereiro de 72. Eu tenho um irmão mais velho, chama Floriano. Ele nasceu em 68, também advogado hoje, estabelecido, com escritório e tudo o mais. E tenho dois outros irmãos de criação, na verdade são meus primos, irmãos entre eles, a Cláudia e o Carlos. É uma história da família em que meus tios depois de terem os três filhos, por questões de conflitos ali do casal, não estavam criando os três adequadamente. Nessa postura, cultura italiana do meu avô italiano, nascido na Itália, a minha avó de ascendência italiana mas nascida no Brasil, a minha avó essa coisa da maternidade, como era a família dessa minha tia, mãe desses dois primos que são irmãos de criação não tinha muita raiz em São Paulo e a família do meu tio ter essa história que eu contei, da família grande aqui, a minha avó entendeu como era responsabilidade, a lógica era responsabilidade do pai, do marido, de prover a família e como ele não estava fazendo isso a minha avó assumiu essa responsabilidade. Por conta desses conflitos familiares falou: “Você não pode fazer isso” e minha avó pegou os três pra criar. Mas na época a minha avó tinha de 65 pra 70 anos, o mais novo tinha seis meses, era um bebê. Então a minha mãe e a minha tia, irmã da minha mãe, cada uma falou: “Olha mãe, você não tem condição de criar mais três filhos com essa idade”, então a minha mãe pegou a menina, não lembro exatamente quantos anos tinha na época, eu acho que estava pré-adolescente. A minha tia, irmã da minha mãe, pegou o mais velho que deveria ter 13 pra 14 anos e a minha avó não quis abrir mão do bebê, falou: “Então o bebê fica comigo”, e ela criou o Carlos, que era o bebê. Aí cresceram, o primo se emancipou, o mais velho, a menina também e o Carlos, meu primo, ficou com meus avós até quando eles não tinham mais condição de criar e foi o ponto quando meu avô, o patriarca, toda essa história que eu contei faleceu e a menina já tinha saído da casa dos meus pais e a minha mãe pegou pra criar também o menino, o Carlos, que na época devia ter 16, 17 anos, alguma coisa assim, final de adolescência. Cresci no bairro da Vila Mariana. Toda a história da minha família, das duas na verdade, gira em torno desse bairro. O meu avô veio e se estabeleceu numa rua que se chama Major Maragliano e depois Morgado de Mateus, onde ele tinha um armazém, e meu pai numa travessa da rua onde minha mãe mora hoje, onde meu pai morava também antes de falecer. A rua chama Humberto Primo e a travessa chama Travessa Humberto Primo. Então elas têm a distância, a Morgado de Mateus e a Travessa Humberto Primo, onde era a base família da minha mãe e do meu pai tem uma distância de 400 metros, 500 metros no máximo. O meu pai tinha o seguinte raciocínio, ele trabalhava o dia inteiro e tinha dois filhos. E ele entendia que fazendo com que os filhos ocupassem o tempo num clube praticando esporte, a probabilidade da gente ter relações mais saudáveis seria maior. Era um raciocínio simples mas muito preciso, né? Porque quando você pensa num clube social do tamanho do Ipê, hoje o Ipê está muito moderno, um clube muito bacana, mas eu lembro de eu jogar bola com seis anos de idade, cinco, seis anos de idade, então eu estou com 43, vocês imaginem 35 anos atrás, um pouco mais, um pouco menos do que isso. Um clube pequeno, tinha um campo de futebol, uma quadra, um bar e uma piscina, não tinha nada muito mais do que isso. Então num clube pequeno você vai formando amizades e dessas amizades você sai e vai comer pizza com as famílias e vai dormir na casa do amigo, então, o raciocínio dele era esse. E ele queria que praticasse esporte, o meu pai jogou futebol mas ele nem jogou tanto tempo, jogou até moço, mas meu pai jogava tênis na época, então não é uma coisa, ‘tem que ser futebol’, mas o futebol imperava ali e foi pra onde eu e meu irmão seguimos. Então eu comecei a jogar futebol nessa idade, seis, sete anos e comecei a ter essas experiências de formar equipe, de jogar, de disputar competição, e foi ao longo de toda a minha infância e adolescência Então isso foi formando a minha identidade muito por aquilo que eu sou hoje. E daí, quando eu chego na faculdade de Psicologia eu começo a tomar gosto pela profissão e tenho pra mim uma única certeza, que é eu quero trabalhar com algo que me dê prazer, eu não quero nunca trabalhar com algo que eu faça porque vai me dar dinheiro, porque vai me dar meu sustento e que eu faça arrastado. E aí eu chego na união da psicologia com o esporte, que permeia a minha vida inteira, que me ensina. Eu estou contando passagens pontuais, mas que me ensina a entender como que o esporte, o potencial que o esporte tem na vida das pessoas, independente do que elas façam, de ser um atleta de alto rendimento a ser um cara que pratica atividade física porque entende o benefício da saúde, mas eu concilio o esporte e a psicologia por conta de toda essa história e começo a trabalhar com psicologia do esporte e consigo atingir esse meu objetivo que é de ter muito prazer naquilo que eu faço. Tem um momento da faculdade, a gente até brincava, no meio do terceiro ano, que é ou você abraça o negócio ou você desiste. Muita gente parava de fazer. E daí pesquisando, conversando, estudando e chega nesse ponto de: “Cara, se eu faço um estudo sobre esporte, mas daí como eu concilio a psicologia?”. Depois de me formar, em 96, eu comecei no Projeto Esporte Talento como estagiário em Psicologia, não remunerado. O PET funcionava com quatro modalidades: futebol, basquete, handebol e canoagem. Tinham grupos de manhã e à tarde e a ideia era que esses estagiários de Psicologia, de acordo com o período escolhido, atuassem em um grupo. Então, a psicologia cuidava de um aspecto do desenvolvimento que é específico, em termos de você pensar, de relações sociais, do trato comunicativo, de como que eu organizo essas minhas relações, de como que eu trabalho questões da minha própria afetividade em relação ao outro, em relação a mim mesmo. Mas isso não é possível se eu não tenho a integração, por exemplo, em discutir qual é o processo pedagógico, como que eu posso fazer uma estruturação para desenvolvimento motor, para desenvolvimento esportivo. O que a gente pensava? Que a gente ofereceria um modelo pensando a figura de uma instituição que contribuiria para o processo de socialização, pra que ele voltasse pro modelo nuclear e pudesse refletir a respeito. Aqui no Brasil, e principalmente o público que a gente atendia – eu não acho que é só o público que a gente atende, mas eu acho que são em níveis diferentes, mas não vem ao caso agora, se couber a gente pode até discutir isso depois – a gente não tinha muito a ideia de harmonia, porque com essa temática que como você perguntou dos maiores problemas, as maiores situações, a gente oferecia um modelo que normalmente era diferente daquilo que ele vivia, não em todos os casos, mas em grande parte deles. No começo foi bastante difícil, foi estranho até pra eles. Eles perguntavam várias vezes: “Cara, o que você faz aqui?”. Porque a gente estava junto, o psicólogo não dá o treino, embora eles entendessem o planejamento, eles vinham aqui, a gente instituiu depois de um tempo um dia de planejamento, mas é muito abstrato, né? “Ah, planeja as atividades” “Mas meu, vocês não dão atividades, vocês não estão juntos jogando bola”. Mas depois de um tempo, quando eles começaram a ver como é que a coisa foi se estabelecendo eles entendiam mais o que a gente fazia, embora não propriamente o que o psicólogo faz. Eu lembro que teve uma época mais pro final, quando eu estava na coordenação, que os adolescentes falavam assim: “Ó, se você continuar desse jeito você vai descer lá pra salinha pra falar com o Zé”. O que era a salinha? Não era a minha salinha. É a sala ali, da entrada, só que o ambiente que a gente tinha, que eu podia colocá-lo numa situação de privacidade pra tratar da questão com ele. Eu conheci a Paula aqui, quando eu entrei pra trabalhar como estagiário ela era educadora no basquete, a gente fez um rodízio ali pra conhecer as modalidades e escolhi o futebol e você passa a conviver, inevitavelmente reuniões, planejamento, cotidiano de trabalho. E conheci a Paula aqui. Então muitas vezes a gente brincava que agradecia ao Ayrton Senna porque se não existisse o projeto eu não conhecia a Paula, não teria os filhos, etc. Mas a conheci, depois a gente começou a namorar, a gente casou em 2001. Temos, dois filhos. O Emanuel vai fazer nove em novembro, tem oito. A Luísa com seis, faz sete em fevereiro. E eles gostam de esporte... Gostam, cara, não tem muito como não gostar, né, porque a gente não fica forçando barra de tem que fazer, mas o cotidiano de casa é esse. Então, por exemplo, eu atendo alguns atletas. Então é parte do meu trabalho, por exemplo, assistir jogos que os caras estão participando. Às vezes eu vou ao local, às vezes não dá, tá passando na televisão, então eu estou assistindo. Eu jogo bola. Aí está lá no clube, aí o Emanuel: “Pai, deixa eu ver o teu jogo”, vai ver o jogo. Então eles vivem esse cotidiano, né? Se fosse um só, talvez, mas são os dois. Então, a Paula: “Ah mãe, você vai viajar?” “Vou” “Pra onde você vai, mãe?” “Vou pra Brasília” “O que você vai fazer em Brasília?” “Ah, vou falar lá com o Ministro do Esporte”. Então, não tem como, ainda bem que eles gostam, mas a gente toma um cuidado pra não ficar aquela coisa de: “Meu, vai jogar, tem que jogar, vai fazer isso, vai fazer aquilo”. É: “Experimentem, vão aí, vai gostando e vai praticando".

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