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A história dos outros

História de: André Isnard Leonardi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

André Isnard Leonardi nasceu no dia 28 de agosto de 1970. Com família de origens italiana e francesa, conta sobre a história e trabalho da família no Brasil. Influenciado pela mãe, formada em Psicodrama, graduou-se em Psicologia na PUC (Pontifícia Universidade Católica) e estagiou em diversos lugares, dentre eles o Incor (Instituto do Coração), um dos lugares onde trabalha até hoje. André nos conta das dificuldades para administrar o tempo de trabalho e a remuneração nos locais onde trabalha, assim como as relações com a equipe e com os pacientes. Comenta sobre a inevitabilidade e iminência da morte, como ele e seus pacientes lidam com isso e a importância que ouvir e compreender a história do outro tem em sua vida.

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História completa

P/1 – André, para começar, vamos pedir para você repetir o seu nome.

 

R – Meu nome é André Isnard Leonardi.

 

P/1 – E a sua data de nascimento?

 

R – 28 de agosto de 1970.

 

P/1 – Você nasceu aonde?

 

R – Eu nasci aqui em São Paulo, capital.

 

P/1 – E seus pais?

 

R – Meus pais também nasceram aqui.

 

P/1 – Em São Paulo.

 

R – Em São Paulo.

 

P/1 – Qual é a origem da sua família, sua descendência?

 

R – O meu pai é filho de italianos. A minha avó, mãe do meu pai, nasceu aqui, mas por acaso, porque a família trabalhava com comércio e ela foi criada na Itália até os dezesseis anos. Então ela tinha sotaque, era bem italiana. O meu avô era italiano mesmo, nasceu na Itália, viveu lá até a idade adulta e veio trabalhar aqui em São Paulo também. Da parte de pai, os dois com essa origem... Da parte de mãe, o meu avô é filho de franceses, de pai e mãe – Isnard –, e a minha avó eram mais misturados: tinha português, suíço, mas tinha mais tempo de Brasil. Os meus bisavós por parte de avô materno chegaram ainda... Isso é datado ainda, e da minha avó, não. A família estava no Brasil há mais tempo.

 

P/1 – A que ramo se dedicaram, ao comércio?

 

R – Comércio.

 

P/1 – Algum ramo específico do comércio?

 

R – O meu bisavô começou com... Se não me engano, ele tinha uma loja de carruagens, de ferragens, mas trabalhava muito com importação e exportação. Depois criou a Isnard, uma loja tipo a Mappin, que vendia de tudo, de roupa a móveis.

 

P/1 – Ela fechou não tem tantos anos.

 

R – Isso, mas faz tempo que foi vendido. Foi vendido eu era...

 

P/1 – Não é mais da família.

 

R – Não. Eu era pequeno, criança quando deixou de ser do meu avô a Isnard. Quando faliu e foi vendido, continuou o nome durante bastante tempo, como referência. Foi vendido para a Hermes Macedo.

 

P/1 – Eu lembro da Isnard.

 

R – Você lembra: “Onde é fácil comprar.” (riso) Tinha um negócio assim. A família da minha avó tinha gente que tinha fazenda, era em Campinas... A família da minha avó é de Campinas, e do meu avô, a maior parte – por parte de mãe, os dois – era no Rio de Janeiro.

 

P/1 – Eles foram para o Rio? Quando eles chegaram foram para o Rio de Janeiro?

 

R – Originalmente, meus bisavós foram para o Rio. Os irmãos todos do meu avô moram no Rio. Só meu avô, que tinha a Isnard lá e aqui... Abriu-se a Isnard aqui e meu avô veio; tinha outros sócios, mas veio cuidar daqui. A família do meu avô tem bastante gente no Rio e da minha avó ainda tem bastante gente que mora em Campinas. A família do meu pai, não: sempre morou aqui em São Paulo. O meu bisavô, pai da minha avó, tinha um hotel na frente da Estação da Luz, no tempo em que a Estação da Luz era o principal... Não tinha transporte rodoviário, não tinha... Era o principal...

 

P/1 – Era o ponto de chegada, era a referência.

 

R – Isso. Meu avô teve, depois, outro hotel também na região central, meu pai foi criado lá – isso há muito tempo atrás, eu não conheci nada disso. Isso é história... Eu vou continuando falando? Vocês vão perguntando?

 

P/1 – Você pode ir, está um ritmo bom. Ou você quer...

 

R – Não, só para saber o quanto que eu conto da história.

 

P/1 – Seu pai foi criado lá na Luz...

 

R – Isso.

 

P/1 – Nesse hotel que seu avô tinha.

 

R – Isso. Quando meu avô se casou com a minha avó, ele comprou outro hotel. Eram próximos, pelo que eles contavam. Meu pai foi criado no Parque da Luz, ele andava de trem, porque conhecia todo mundo lá... Foi assim a infância dele.

 

P/1 – Você sabe como ele conheceu sua mãe?

 

R – Sei. O meu pai foi trabalhar na Isnard e o meu avô ficou bastante doente, o meu avô morreu no ano em que eu... Um ano antes de eu nascer...

 

P/1 – 1969?

 

R – Isso. Ele era bem mais velho do que a minha avó, porque ela morreu o ano retrasado, mas ela morreu com 91 anos, também... Ela durou bastante. (risos) Meu avô morreu razoavelmente, com mais de sessenta, mas tinha catorze anos de diferença. Ela foi bem adiante, com 91 anos, estava bem velhinha. O meu pai começou a trabalhar na Isnard, nessa época que também o hotel... Por conta de meu avô estar doente, eles acabaram vendendo o hotel. Meu pai fazia teatro, mas não vivia do teatro, e começou a trabalhar na Isnard.

 

P/1 – O que ele fazia no teatro? Ele escrevia, era ator?

 

R – Era ator, com o Paulo Autran, quando eles eram jovens, há bastante tempo atrás. Ele foi largando o teatro, porque era difícil...

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Meu pai, Mário. Foi difícil de conciliar com o trabalho, nessa época o meu avô estava bastante doente, então meu pai também passou a ser o arrimo de família. Isso porque o meu pai tinha dois irmãos; quer dizer, tem dois irmãos. Meu pai não está mais aí. Um tio meu, que é bem mais novo que ele e era pequeno nessa época, e a minha tia, que não trabalhava. Ele começou a trabalhar na Isnard e foi se desenvolvendo lá dentro. A minha mãe trabalhou pouco tempo na Isnard, eles se conheceram lá e se casaram algum tempo depois. O meu pai chegou a ser diretor da Isnard, mas quando a Hermes Macedo a comprou, ele saiu. Ele foi trabalhar – ele sempre teve função administrativa – na Hermes Macedo e continuou a carreira dele lá. Meu avô continuou dirigindo a Isnard, depois que vendeu, até se aposentar. Ele continuou como empregado da firma, mas meu pai não estava mais na Isnard. Ele foi...

 

P/1 – Empregado da firma que um dia foi dele.

 

R – Isso, até ele se aposentar. Esse meu avô é vivo, o pai da minha mãe.

 

P/1 – Vendeu porque começou a ir mal?

 

R – Na época do Natal teve um grande incêndio no depósito, que estava cheio porque era perto do Natal.

 

P/1 – Que ano foi isso?

 

R – Sabe que eu não sei? Não tinha seguro, nenhuma das mercadorias, então faliu. Faliu porque não tinha condições de pegar um empréstimo para pagar tudo o que perdeu e precisava ter mercadorias para vender. Se você não vende no Natal, quando é que vai vender?

 

P/2 – Vendia de tudo a Isnard, tinha todo tipo de produto...

 

R – Tinha roupa, eletrodoméstico.

 

P/2 – Todo tipo de produto.

 

R – Todo tipo de coisas.

 

P/2 – Você ganhava... Os seus presentes eram todos da Isnard?

 

R – Às vezes, mas nunca foi uma coisa... Mesmo quando a Isnard era nossa, meu avô sempre foi super rígido. Sempre deu presente, que naquela época a gente era bem mais rico... Dava presente para a minha mãe, que tem mais seis irmãos, só no aniversário e no Natal. Uma família super católica e super rígida. Muito católica.

 

P/1 – Seu pai e sua mãe se conheceram, casaram e foram morar aonde?

 

R – Quando os meus pais se casaram, a minha família ainda era razoavelmente rica. (riso) Meu avô deu uma casa para cada um dos filhos morar, então ele deu uma casa em Perdizes e eles foram morar. Eu morei nessa casa até a minha adolescência, quando eu estava entre a sétima e a oitava série. Eu vivi toda a minha infância nessa casa, perto da PUC (Pontifícia Universidade Católica), na João Ramalho.

 

P/1 – Como é que era essa casa?

 

R – Era super gostosa, porque era uma casa geminada que tinha uma frente pequena, eram cinco ou seis metros de frente e sessenta de fundo. Tinha essa entrada, tinha sala e depois meus pais fizeram uma boa reforma na casa. Era uma casa antiga, então ficou bem gostoso: tinha sala, lareira, um salão de inverno, um jardim de inverno que dava para a sala de jantar e três quartos em cima: meu quarto, o da minha irmã e o dos meus pais. Isso depois da reforma, porque antes eram dois quartos; quando eu era menor eu ficava no quarto com a minha irmã. O quintal era muito grande: tinha galinheiro, depois tinha viveiro... Eu sempre gostei muito de bicho e meu pai também, então tinha um monte de coisas. Tinha figo, limão, árvores. Era um quintal bem legal.

 

P/1 – Você ficava brincando lá com a sua irmã?

 

R – Ficava. Tinha cachorro e sempre teve bicho em casa, então tinha um quintal gostoso.

 

P/1 – Você falou que teve uma educação religiosa?

 

R – Mais ou menos. Tive uma educação religiosa, mas a minha mãe, embora sempre foi religiosa, quando ela estava na faculdade... Ela é pedagoga, mas fez Direito antes, no Rio de Janeiro. Ela foi morar lá com os avós e sempre participou do movimento estudantil, então é outro jeito de ser religioso. O meu avô sempre foi super conservador e minha mãe continua religiosa até hoje, mas já na Teologia da Libertação. Minha mãe participou da Comissão de Justiça e Paz. Eu fui batizado, fiz primeira comunhão, crisma, tive aí uma... Em São Domingos, aqui nas Perdizes. Frei Beto, Frei Tito, já um outro...

 

P/1 – Uma outra ala da Igreja.

 

R – Isso, outra Igreja dentro da Igreja. O meu avô é congregado mariano. Sempre ajudou, tinha lá a Associação dos Empresários Cristãos, mas outro jeito de pensar a religião.

 

P/1 – Quem exercia autoridade na sua casa? Seu pai, sua mãe... Como era nas decisões?

 

R – Eu acho que eram os dois. Se eu pensar no meu avô, ele sempre foi aquele pai ausente, autoritário, que não estava muito perto dos filhos. Meu pai, não: estava muito mais presente, almoçava em casa todo dia com a gente e sempre foi tranquilo. Não foi uma autoridade que, digamos, vá te... As coisas sempre foram conversadas com os dois. Não teria, assim: meu pai era autoridade e minha mãe, não. Os dois conversavam as coisas... Eu nunca apanhei. Lembro de uma vez meu pai ter me batido e eu nem lembro o quê que eu fiz, mas eu era pequeno... Não batiam, mas tinha regras, não era nenhum laissez faire. Tinha as regras da casa, de como as coisas funcionavam, e eu acho que sempre fui razoavelmente obediente, também.

 

P/1 – Então não teve grandes problemas.

 

R – Não teve grandes problemas. Eu ia bem na escola, não tinha muita...

 

P/1 – Que escolas você estudou? Como é que era na escola?

 

R – Primeiro eu estudei numa escola perto de casa, que eu não estou lembrando o nome, mas que era bem legal. Meu pai me levava todo dia de manhã, eram umas três ou quatro quadras. Ele tinha que ir para o trabalho... Era divertido, tinha aquele negócio de levar a mochilinha, tinha esteirinha, tinha hora de dormir e umas coisas assim, dessas escolinhas de quando era pequeno. Fui estudar no Vera Cruz quando eu fiz o ginásio e fiquei onze anos estudando lá, desde que eu era pequetitico até a oitava série. Foi bem legal também, muito legal de se estudar. Do colégio Vera Cruz eu fui para o Equipe.

 

P/1 – Fez colegial no Equipe.

 

R – Fiz colegial no Equipe, que foi bem diferente do Vera Cruz para algumas coisas, porque o Vera Cruz era um colégio grande. Embora grande, acho que mais...

 

P/1 – Não tinha colegial naquela época ainda.

 

R – Não tinha, acho que há uns três ou quatro anos... Mas mais acolhedor, e o Equipe, não; acho que pelo colegial, era mais desencanado as coisas e tal... Foi bem interessante também, professores super legais. Depois do colegial eu fiz vestibular, entrei na PUC e... Se você quiser que eu volte depois... Eu estou indo nessa linha.

 

P/1 – Não tem problema. Tinha alguém na sua família que já tinha feito Psicologia? Como foi essa escolha pelo curso?

 

R – Eu acho que a escolha teve um pouco a ver... A minha mãe fez Psicodrama – formação em Psicodrama –, ela era advogada, mas nunca trabalhou como advogada depois que ela fez Pedagogia. Ela sempre trabalhou, pelo menos desde que eu nasci, antes com a minha irmã... Minha irmã é cinco anos mais velha do que eu e minha mãe perdeu alguns outros filhos, nesse meio tempo, por uns problemas dela. Minha mãe tinha feito psicodrama e no Equipe líamos Filosofia. Quando eu li Freud, “Cinco lições [de Psicanálise]”, que era alguma coisa interessante, eu estava em dúvida ainda: não sabia se eu fazia Psicologia ou alguma coisa tipo História, Direito. Humanas, certamente, mas exatamente o quê... Acho que isso foi bom, eu gosto de ser psicólogo. Talvez eu gostasse de ser advogado ou sociólogo, mas eu acho que ser uma profissão da saúde era uma coisa que... Isso de cuidar é uma coisa que me atraía. Em casa tinha bastante liberdade para escolher e, no Equipe, tinha aquelas coisas de ver as profissões, mas exatamente porque a gente escolheu é bem difícil de saber, precisaria ir mais fundo. Eu tinha feito análise quando eu era criança, quando eu tinha... Eu tive alguma dificuldade quando eu estava me alfabetizando, porque eu era muito tímido, então fiz alguns anos de análise com a Regina Fabrini, que depois foi minha professora na PUC, por coincidências da vida. Eu tinha algum problema motor também, então eu fiz. Não sei se isso teve alguma importância na escolha, porque foram muitos anos depois – acho que eu tinha uns dez, onze anos. Eu fiz a PUC e, quando eu estava na faculdade, meu pai ficou doente. Até o terceiro ano eu ajudava a cuidar dele, porque a PUC era meio período e à tarde. Depois que meu pai morreu, no quarto ano, fui fazer estágio fora, porque eu fui para a prefeitura. Fiz concurso para estagiário e fiz um ano de Saúde Coletiva, no distrito da Bela Vista, que foi bem legal. Isso foi no último ano da Erundina: saúde coletiva, saúde pública era uma coisa que...

 

P1: No distrito da Bela Vista?

 

R – Isso, no Centro.

 

P/1 – O Manfredini era o coordenador?

 

R – Não, ele estava na área, eu acho.

 

P/1 – Na área um.

 

R – Isso, ele estava na área. Quem estava lá era...

 

P/1 – O Léo, não... Tinha um menino chamado Léo, na Bela Vista baixa?

 

R – Como é que chama, baixa mesmo? Eu esqueci o primeiro nome dele. É o...

 

P/1 – Hélio. Não é Hélio?

 

R – Não. Poxa, eu estou com a... Ele é dentista, mas sempre trabalhou com a saúde pública. É um cara bem legal. Bottazzo... Esqueci o nome do Bottazzo, agora. Mas foi super interessante, porque ainda existia a possibilidade de pensar a saúde pública e coletiva. Quando o Maluf ganhou, eu achei, por bem, não continuar lá, porque provavelmente ia ser desmontado – e foi mesmo. Eu fui trabalhar com assistência neste hospital de saúde mental para pacientes psicóticos e foi super legal, uma experiência rica e interessante. Depois foi desmontado, também, porque virou do PAS (Plano de Atendimento à Saúde), mas nessa época ainda não era. Isso fazendo as coisas da PUC, também, porque a PUC... Eu fiz estágios na FEBEM (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), instituições e tal, porque acho que isso foi importante na minha... Hoje eu trabalho em instituições, trabalho aqui no Incor (Instituto do Coração), trabalho na Cruzada Pró-Infância, que tem sete creches e uma casa de passagem. Acho que isso me deu um viés. Eu tenho um consultório também, sou um psicólogo clínico, mas acho que sempre tive esse viés e preocupação com a instituição. Quando eu saí da faculdade, falei: “Bem, que faço eu agora da vida?” Não é como hoje, mas não era tão fácil arrumar emprego e eu achava que ainda tinha que continuar estudando. Eu fui fazer o aprimoramento, prestei aqui, lá no [Hospital do] Servidor, no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial)... Passei no Servidor e no CAPS eu não passei. Entrei aqui.

 

P/1 – Você já escutava, na época da faculdade, alguma coisa sobre o aprimoramento daqui?

 

R – Já.

 

P/1 – Você teve contato, na época da faculdade, com o pessoal do Incor? O Serviço de Psicologia do Incor?

 

R – Não tive nenhum contato. Tinha psicologia hospitalar na PUC como um núcleo eletivo, mas que eu nem fiz, porque eu achava que eu precisava aprender mais clínica. Eu também não achava que ia me ajudar muito lá e eu não tinha uma coisa predestinada: “Eu vou ser psicólogo hospitalar”, mas quando eu me formei tinha, na saúde. Não foi educação ou recursos humanos necessariamente, como área que eu pudesse fazer coisas... Tinha esse desejo de trabalhar na saúde e o aprimoramento era um jeito de começar a entrar na área. Eu prestei esses e, como eu passei aqui no Incor – eu moro bem perto daqui, em Pinheiros – e tinha a fama de ser um aprimoramento legal, vim fazer aqui. Isso foi... Eu me formei em 1993, foi em 94 que eu fiz o aprimoramento. Quando eu estava no final do aprimoramento teve concurso para psicólogo aqui no Incor, eu prestei. Foi o mesmo concurso que entrou a Elaine... Vamos mudar de sala?

 

P/1 – Vamos. Vou fazer uma claquetezinha da continuação. Demos uma interrupção e estamos continuando a entrevista, mudamos de sala. Todos iguais, Rosana, José, André e Sandro.

 

P/2 – Paramos na parte em que o André falava desse concurso.

 

R – Isso. Eu estava fazendo aprimoramento aqui no Incor e, na época, o meu primeiro estágio foi na válvula, que é onde eu trabalho hoje. São três estágios, que acho vocês devem ter visto com as pessoas...

 

P/2 – Três meses?

 

R – Mais ou menos quatro meses em cada lugar, e meu primeiro foi na válvula. Prestei concurso eu era aprimorando ainda, e uma das pessoas que saiu foi a psicóloga da válvula, que foi a minha supervisora, a Cristina. Eu passei acho que em quarto ou quinto lugar. Tinha a Elaine, que está aqui até hoje e trabalha com pesquisa; a Arlene, que passou por aqui, mas saiu, era do mesmo concurso... Como várias pessoas acabaram saindo nessa época, eu terminei o aprimoramento, porque você faz onze meses o curso e, no último mês, você folga. As férias são no final do aprimoramento. Quando eu voltei das férias, eu tinha passado no concurso e tinha a vaga, mas o nosso querido governador Mário Covas tinha acabado de assumir. Quando ele assumiu, parou todas as contratações no Estado e deixou parado um bom tempo, mas quando eu voltei não sabíamos que ele ia parar por tanto tempo, nada disso. Eu comecei a trabalhar, tirei férias em fevereiro e comecei a trabalhar em março. Passou março, abril e não houve a contratação, porque estava fechado. Eu estava trabalhando meio período e comecei a trabalhar antes de ser contratado. A Bellkiss [Wilma Romano] me arrumou uma bolsa de meio período, porque não estava tendo e eu não sabia quando iam reabrir as contratações. A partir de maio eu fui contratado – ainda não efetivo, não com o mesmo vínculo –, mas como psicólogo. Na época todo mundo trabalhava quarenta horas, foi antes da mudança. Eu trabalhava todas as manhãs. A minha bolsa era de meio período e eu trabalhava duas tardes, porque achava que era importante para o trabalho. A bolsa era bem menor do que o valor do salário do psicólogo, mas deveria ser uma coisa temporária. Ainda era um período que eu estava... Eu tinha feito o aprimoramento, mas é bem diferente você ser aprimorando e você ser contratado, porque tem muito mais responsabilidade o contratado. Enquanto aprimorando, você é profissional, mas está aprendendo; tem o supervisor, que responde pela tua área e estava naquela fase de mudar de lado. Um mês atrás eu era aprimorando, agora eu era um contratado, mas foi uma época bem legal, de aprender muita coisa também... Continuando nesse fio da história, começou a demorar para eu ser contratado, então arrumei outro emprego na Cruzada, que eu trabalha duas tardes. Eu trabalhava lá às manhãs, duas tardes aqui e depois duas tardes lá. Tinha, portanto, uma tarde livre nesse tempo; o primeiro ano foi isso. No segundo ano, comecei a fazer formação em Psicanálise no IPP (Instituto de Pesquisas em Psicanálise), que eram três anos. Estava razoavelmente tranquilo, porque eu tinha uma tarde livre e as noites também. Acontece que voltou a poder contratar e eles queriam me contratar por quarenta horas, mas eu não queria mais ser contratado por 40 horas (riso), porque eu tinha arrumado a minha vida e eu ganhava mais trabalhando lá duas tardes do que meio período aqui. Ganharia um pouco menos trabalhando duas tardes do que trabalhando quarenta horas aqui. Mesmo tendo a fundação que complementava o salário, ele continuaria baixo. Não é um salário... Em termos do mercado da Psicologia Hospitalar, acho que quem trabalha quarenta horas hoje, aqui... O que ganha não é baixo, mas para vivermos só disso é um pouco complicado. Ficamos numa fase de negociações, porque se tivesse que optar eu teria saído do Incor, embora eu gostasse – e gosto muito – de trabalhar aqui. Não daria para me sustentar... Trabalhar e ganhar muito menos se eu tinha possibilidade de, trabalhando só duas tardes, ganhar praticamente a mesma coisa; mas eu não queria sair daqui também, aí fizemos um... A Bellkiss, conversando com o Recursos Humanos, acabou fazendo um horário especial para mim – especial na distribuição das horas, não em termos de diminuição de carga horária. Eu continuei trabalhando quarenta horas, mas eu trabalhava três vezes por semana das sete às seis, e duas vezes por semana das sete ao meio dia – o que dá as quarenta horas. As duas outras tardes, eu trabalhava no meu outro emprego e, à noite, eu fazia o meu curso. (risos) Foi uma época super cansativa da minha vida, mas que eram todas as coisas: eu gosto muito de trabalhar como psicólogo, de trabalhar aqui e do meu outro emprego também, então acho que eu não ficaria muito tempo nesse esquema porque não tinha muito tempo para dormir e para outras coisas da vida, mas foi uma solução legal para aquela hora. Passando o tempo, eu estava muito cansado, porque o curso de psicanálise lá são três anos – eu terminei o ano passado – e foi o primeiro ano desse jeito. Teve um monte de problemas com a minha irmã, em casa. A minha vida estava super complicada. Chegou uma hora em que eu resolvi que desse jeito não dava mais e resolvi pedir demissão do Incor; não porque eu gostasse menos daqui, mas porque não tem outra perspectiva de ganho salarial do que já ganhava. Na época acho que devia ser ‘um pau e meio’, mais ou menos, para quarenta horas. Algumas pessoas que trabalhavam comigo – a Silvana, que fez aprimoramento junto comigo, prestou o outro concurso e a Sibele, que tinha feito aprimoramento na turma da Elaine, uma turma antes – tinham pedido demissão. Eu pedi demissão e estava cumprindo aviso prévio quando a Bellkiss, a Glória e a Lenita resolveram reformular o jeito que o serviço funciona e passou para vinte horas. Isso foi bem engraçado, porque no meu último dia de trabalho (risos), meio dia, na sexta... Na segunda-feira eu não era mais funcionário do Incor e isso vinha rolando há uma semana, essa reformulação. Eu tinha ouvido algumas notícias, cheguei para a Bellkiss e falei: "Vinte horas dá para a gente conversar." A Bellkiss foi lá, uma bagunça... (riso)

 

P/2 – Conversar com o RH?

 

R – Já tinha aberto uma exceção para mim: aquele horário que eu fazia antes, não era um horário que existia aqui no Incor. Eles não gostam muito de mim, acham que tem muitas exceções... Eu fiquei e mudou bastante o jeito do serviço funcionar e de estar organizado; mas foi bom, para mim foi bem legal. Vinte horas te dá mais possibilidade de ganhar dinheiro em outros lugares e quarenta horas te amarra a vida, é muito tempo.

 

P/2 – Não existe um plano de carreira dentro do Serviço de Psicologia? Se você faz mestrado, doutorado, não vai incrementando seu salário?

 

R – Teoricamente, acho que existe, mas, até onde eu sei... Talvez a Bellkiss possa te dizer melhor, porque ela tem titulação e eu não tenho. Esse curso que eu fiz é de formação, mas não é um curso ligado a...

 

P/1 – Que equivale ao mestrado.

 

R – Até onde eu sei – embora tenha, em casos raros –, isso não funcionava muito. Mesmo que tenha, 10% não resolve muito. O pouco continua pouco, não acho que... O problema é que não estou dizendo que só strictu senso o Incor paga mau. Dentro do serviço público e da área de saúde o Incor não paga mau, mas a área de saúde no Brasil é uma m... Se paga muito mau para todo mundo: o médico ganha mau e a gente ganha mau também. Mas com vinte horas deu para continuar  aqui. Vocês querem ir perguntando mais ou eu vou falando?

 

P/2 – Deixa eu perguntar uma coisa: seu aprimoramento foi sua primeira experiência com psicologia hospitalar? Você nunca tinha tido?

 

R – Foi, eu nunca tinha tido nada. Eu nem acho que era uma coisa... Eu queria trabalhar com saúde, com clínica – porque a gente atende, é um serviço clínico –, mas não tinha uma... Digamos assim: eu não era louco para trabalhar em hospital. Hoje eu gosto bastante, até porque se vai trabalhando e você vai se especializando, se enfronhando e entrando mais nas coisas, mas eu não acho que tinha... Tem gente que tem, que fala: “Tudo que eu quis na vida foi trabalhar com hospital.” Para mim, não. Foi uma possibilidade de começar minha carreira profissional, e acho que eu fui me apaixonando, gostando. Aqui no Incor tinha... Ainda tem, mas antes, o psicólogo era responsável por ensino, pesquisa e assistência. O aprimorando era nosso, dávamos supervisão para o aprimorando. Eu não posso criticar a mudança, porque ela que me permitiu continuar aqui, mas tinha coisas interessantes naquele jeito. Hoje em dia cuidamos basicamente de assistência, estamos mais afastados da pesquisa. O aprimorando está na área, você até conversa e discute algumas coisas com ele, mas não tem a responsabilidade técnica pela supervisão.

 

P/2 – Não tem mais a responsabilidade sobre o aprimorando?

 

R – Você tem responsabilidade até certo ponto. Antes, ele era de minha integral responsabilidade.

 

P/1 – Até que ano, isso?

 

R – Até um ano atrás.

 

P/1 – 1998?

 

R – Isso, foi aí que se criou o núcleo. A Francine cuida do aprimoramento – ela que dá supervisão e coordena como que funciona o curso – e a Elaine cuida de pesquisa, dando supervisão às monografias. Antes fazíamos isso tudo. Eu gostava muito de ser supervisor. É uma coisa que eu sinto falta, mas eu entendo que teve que fazer essa... Não daria para você isso tudo. O que você faz em quarenta não dava para espremer e fazer em vinte. Impossível.

 

P/1 – Desculpe, não entendi a mudança. Ela setorizou, mas dentro do próprio Serviço de Psicologia?

 

R- Isso.

 

P/1 – O ensino, a pesquisa e a assistência estão todos dentro do Serviço de Psicologia, mas foi separado em pessoas diferentes?

 

R – Isso, porque antes não tinha esses cargos de supervisor de ensino e de pesquisa. Até tinha supervisor de ensino, mas não existia na prática. Quem cuidava dessa parte era o psicólogo contratado, que fazia assistência, pesquisa e ensino. Nessa mudança teve isso. Quem é desse tempo sou eu e a Sumaira – fora, lógico, a Glória, Elenita e a Elaine. A Elaine foi para a pesquisa. Ela era psicóloga, como eu. Ela tinha uma área, estava no transplante, e depois mudou – porque cada psicólogo tem a sua área. Eu trabalho na válvula desde que eu entrei, foi o meu primeiro estágio como aprimorando. Eu estou lá, o que é muito legal, porque você desenvolve uma relação com as pessoas e com a equipe, o que é super bom. O que eu estava dizendo é que eu sinto falta, também, dessa outra parte, porque pesquisa, eu sou muito... Eu participo bastante, é... A Bellkiss criou, com uma série de outras pessoas, a Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar. Vou falar disso para vocês, também. Eu sempre estive bastante envolvido com isso, então essa parte da pesquisa e de participar de congressos continua acontecendo por esse canal. Agora, o ensino, não. A gente ficou... Embora a Cíntia até discuta coisas com aprimorando... Mas, de outro lugar. A responsabilidade e a orientação técnica é da Francine. Se o aprimorando... Ele atendia, mas, do jeito que...

 

P/2 – Tem um aprimorando que vai trabalhar na válvula, contigo?

 

R – Isso.

 

P/2 – Não é que você tenha responsabilidade sobre ele, é a Francine?

 

R – Não. Eu tenho, por exemplo, responsabilidades se de certa forma ele está atendendo ou não, se ele está... Como que está o desenvolvimento dele junto com a equipe. Mas ele não discute todos os casos comigo, não sou eu quem orienta como ele deve fazer com os casos. Tem uma proximidade e uma responsabilidade, mas mudou o jeito de... Não orientamos mais estudos de caso e monografias, a Elaine que orienta. Teve estas mudanças todas que, de um lado, foram muito boas e permitiram que eu continuasse trabalhando aqui, porque quarenta horas de trabalho pedem exclusividade e pressupõe-se que paguem por essa exclusividade. O Incor, do meu ponto de vista, não pagava pela exclusividade. Ganhar mil e quinhentos ou mil e setecentos... A vida é cara, lá fora as coisas são caras. Somos uma profissão que exige formação, também. Talvez a de vocês dois seja diferente, mas o psicólogo quando se forma não está pronto. Todo mundo continua estudando, continua a comprar livro, a pagar supervisão, a pagar curso de formação. É uma formação longa e cara, análise... Fica super difícil conciliar essas coisas todas. Vocês querem que eu fale mais do trabalho?

 

P/2 – Como é que foi essa história? Qual era a imagem do Serviço de Psicologia Hospitalar na faculdade? Existia uma coisa: “Poxa, o quê que é aquilo?”

 

R – O Hospital das Clínicas – sobretudo o Incor – tem uma boa fama no mercado. Quando você presta o aprimoramento aqui no Incor, você pode escolher se quer a Pediatria, o Instituto Central ou a Psiquiatria. Eu prestei na Cardiologia, porque eu sabia que era um lugar sério e que o aprimoramento era legal. O aprimoramento é uma época bem puxada que você passa quarenta horas no hospital. Tem que preparar seminário, estudar e fazer um monte de coisas; mas eu queria isso, um lugar sério que desse isso. O Incor – e isso é bem legal – tem isso, com esses 25 anos, não é à toa. Além de ser um serviço que tem uma estruturação, tem um “jeito Incor” de trabalhar em Psicologia Hospitalar; até por isso que tem os estágios de observação. As pessoas vêm ver como trabalhamos – que é desse jeito, dividindo nas áreas –, um jeito de como fazer isso. É um serviço que tem um reconhecimento nacional, e eu acho que isso se deve muito ao trabalho da Bellkiss nestes 25 anos. Quando estamos nos congressos temos um reconhecimento por ser o Incor. Claro que tem a história das pessoas que fazem isso e, principalmente, acho que a história da doutora que criou o serviço com essa cara que ele tem... Com esse reconhecimento que tem fora, duas vezes por ano tem estagiários que vêm só para passar estágio de observação aqui. Vocês devem ter ouvido falar dessas coisas. Eu acho que é legal você trabalhar num lugar que é reconhecido. O Incor, além da psicologia, é super reconhecido nacionalmente como um hospital de ponta, como um...

 

P/1 – Um Centro de Excelência?

 

R: Exatamente. Para quem trabalha aqui essa coisa do reconhecimento faz bem. Às vezes, vemos que as pessoas que trabalham em hospitais se deparam com dificuldades que são do próprio hospital: aqui as pessoas morrem também, mas elas não morrem por falta de cuidado ou porque não tinha exame ou procedimento. Muitas vezes, quem trabalha em hospitais se defronta com outras questões além da própria coisa; já é bem difícil trabalhar com a morte, com a impotência, com um momento tão especial da vida quanto é este que você está doente... Eu gosto muito dessa parte de vida associativa: eu gosto de falar – vocês tão vendo –, de falar em público... Eu sou bem tímido, sofri um pouco, mas eu gosto. Uma coisa que acho legal é participar dos congressos e das coisas. Tenho oportunidade porque é o Incor, que tem uma cultura voltada para o ensino, pesquisa e assistência. Não é um hospital que está só voltado para dentro, ele está muito voltado para fora também. Acho que isso vem sendo bem interessante para mim e para minha formação. Hoje eu estou também lá no CRP (Conselho Regional de Psicologia), que é o conselho da classe dos psicólogos, e – estou juntando porque acho que uma coisa tem a ver com a outra – ele serve para cuidar da profissão como um todo... Mas é outro meio político, porque essa vida associativa é política, também. Eu gosto e acho super interessante, acho que tem a ver também com o Incor, que não está afastado dessas coisas todas. O Serviço de Psicologia do Incor tem uma força dentro do que é a Psicologia Hospitalar, tem um reconhecimento e um lugar nisso. Não sei se é... É isso mesmo que é para estar falando? Tem mais algo que vocês queiram perguntar? Se não, eu vou falando...

 

P/1 – Como é que é na válvula? Qual é a peculiaridade?

 

R – Do trabalho? Do paciente?

 

P1 - Do trabalho, do paciente... O que significa trabalhar na válvula?

 

R – A válvula... Eu acho que é uma equipe especialmente legal, que reconhece bastante o trabalho e que dá para trabalhar junto. Eu participo de visita, que é quando os médicos passam de quarto em quarto vendo os pacientes, e eles perguntam, querem saber, te pedem opinião e há troca. Por estar lá nestes últimos cinco ou seis anos já tem uma intimidade e um reconhecimento do trabalho, trabalha-se muito junto. Hoje tinha reunião de equipe em que a psicologia também participa, então é possível fazer um trabalho muito profissional. Eu acho que é super interessante. Você pode trabalhar mais só com o seu paciente, e eu vou lá e atendo, ou você pode trabalhar o seu paciente... Também continuo indo, atendendo e fazendo estas coisas, que é super importante. É para isso que estamos aqui, psicólogos no hospital, mas também para trabalhar em equipe, trabalhar o paciente juntos, não só a... Poder trabalhar juntos é uma coisa que nem sempre você tem a oportunidade e que é muito rica, interessante e legal.

 

P/2 – Essa história do “multiprofissionalismo” acontece mesmo, não é uma coisa que se briga diariamente? Como é que funciona isso?

 

R – Lógico que tem desencontros, acontece. No Incor se trabalha em equipe multiprofissional algumas áreas mais, e outras, menos. Eu acho que estou numa que se trabalha bastante, que tem muito espaço para falar e para trocar. Não quer dizer que o que você fala vão sempre gostar, atender ou... Mas você tem a possibilidade de trocar. No Incor, de maneira geral, é uma coisa que existe e que acontece – até porque tem 25 anos, tem história antes de mim. A psicóloga que trabalhava na válvula antes de mim, a Cristina, era uma pessoa super legal e competente. Antes dela tem 25 anos de história da psicologia aqui, então o psicólogo faz parte do... Acho que não se pensa... Tem médicos que acho que sim, têm mais proximidade, e outros que têm mais distancia. Tem médicos que vão querer que você trabalhe mais junto, outros que faça lá o seu trabalho, mas ninguém vai dizer: “Não quero o psicólogo”, faz parte já. O grau de o quanto tem de interação varia de equipe para equipe, de médico para médico, e dos mais diferentes lugares, mas é uma coisa que faz parte do Incor. Acho que não dá para pensar o Incor sem pensar a psicologia até pela história: começou junto. O Incor... Quer dizer, já tinha um serviço de cardiologia do outro lado da rua, que nem tem rim, fígado, agora... Constituição de um prédio dá uma cara diferente, e desde que começou e se fundou o prédio, a Bellkiss estava na equipe que planejou como ia ser o trabalho aqui dentro. Isso já deu uma cara muito diferente. O Incor é diferenciado do HC (Hospital das Clínicas) – não é, mas tem suas diferenças –, por exemplo: tem uma divisão que cuida da psicologia em todo o complexo HC, mas não no Incor. A Bellkiss não é subordinada à divisão de psicologia do HC. Quem é psicólogo do rim, do fígado e do pulmão... Todos eles são ligados à divisão de psicologia. Aqui, não: tem uma independência. Até pela história do instituto, a história dessa independência, que vem desde o Zerbini, de criar um instituto à parte, de ter a Fundação [Zerbini], que vira um diferencial... Lá tem a Fundação Faculdade de Medicina, mas não é... Eles complementam o salário, mas não tanto quanto o Incor e é isso que faz uma boa diferença. Ganhamos melhor do que o serviço público em geral e o Incor funciona como uma instituição. É um bom empregador: paga sempre os funcionários no dia certo, nunca atrasa, paga o décimo terceiro direitinho, deposita o Fundo de Garantia [do Tempo de Serviço], dá cesta básica e tudo. O Incor não é um empregador... Nem sempre, por aí, as coisas funcionam desse jeito, e o Incor sempre... Não tem nenhuma queixa nesse sentido, tudo funciona super certo. Poderíamos ganhar mais, mas... Acho que todo mundo quer, vocês também, mas...

 

P/1 – Com certeza.

 

R – Enfim.

 

P/1 – Como é a interação sem ser com médico? Com fisioterapeuta, assistente social, enfermeira?

 

R – Eu diria que é super tranquilo, às vezes mais do que com o médico, porque com ele você tem um saber diferente do saber médico e, às vezes, os outros profissionais – por exemplo, a enfermagem – são muito um paramédico: cumprem ordens do médico e fazem coisas que auxiliam no cuidado médico. Nós cuidamos de outra coisa. Isso dá mais possíveis conflitos. Com a equipe de enfermagem eu, pessoalmente, não tenho problemas. Se tem problema, por exemplo, é a enfermagem que regula visita e você quer ou precisa que o familiar fique mais aqui, agora pessoalmente, conversando, sempre nos entendemos. Eu acho que poderia ter horários de visita mais elásticos do que eles são e acho que elas pensam diferente, as enfermeiras. Toda vez que eu achei que um paciente tinha que ter mais tempo, achei e justifiquei porque que um paciente precisava de acompanhamento e sempre se liberou. Com a fisioterapia, é um pouco... É bem tranquilo também, mas um pouco mais distante. Não temos o mesmo objeto de trabalho, então o que acontece mais é de eles virem solicitar: “Olha, eu fui fazer exercícios e o paciente estava chorando, estava isso, estava com não sei o quê... Talvez seja legal você ver.” Isso todo mundo faz: médico, enfermeira... Mas com eles você tem um contato que é mais próximo, mais direto. Eu não vejo grandes dificuldades em relação à relação. O tempo do Incor, também: quanto mais tempo de casa você tem, é... Você vai selecionando as relações pessoais e isso te facilita bastante. Não é só o psicólogo que está pedindo para a enfermeira, mas é o André que está pedindo para a Socorro, para a Célia, já tem... Vai te abrindo outros jeitos. Não que saia do profissional por causa disso, mas te dá uma entrada que é outra coisa, na hora em que você tem alguma história de cuidado junto com os pacientes, de responder quando eles chamam... Nem sempre respondemos exatamente o que eles querem, mas... Às vezes, as pessoas chamam os psicólogos quando elas estão angustiadas ou quando não conseguem resolver alguma coisa. O mais típico da enfermagem é: o paciente tá chorando, chamam. Não é que você vai lá para ele parar de chorar – embora seja, às vezes, o desejo de quem te pediu. A angústia dele é angustiante também. Claro que, às vezes, você conversando e atendendo, ele para de chorar, porque tem uma continência. É o profissional: o paciente se sente cuidado, se sente bem por você estar indo lá e de poder começar a falar do choro, explicar porque que está chorando: “Acabou de receber uma notícia, essa notícia não é boa e acho melhor ele chorar mesmo. O que é que ele pode mais fazer agora, nessa hora? Deixa-o chorar mesmo. Chora um pouco.” Ao fazer este meio campo, as coisas tendem a ficar mais tranquilas, porque o que é difícil é: “Não sei o que eu faço com o choro dele.” “Não sei como eu posso ajudar.”

 

P/2 – Aí chama o psicólogo?

 

R – Isso. Chama o psicólogo e tudo bem: “Se ele pode chorar, tudo bem.” Fica um pouco melhor, ela consegue – entendendo porque tá chorando – suportar um pouco melhor o choro, porque os pacientes atrapalham um pouco a vida do hospital às vezes... (risos)

 

P/1 – Aquela dinâmica: não toma remédio, não faz isso...

 

R – Isso. Não quer comer, não sei o quê, ou está muito deprimido... De um lado, a gente cuida...

 

P/1 – O paciente atrapalha um pouco a dinâmica do hospital. (riso)

 

R – É, atrapalha. (riso) Essa é a situação que a gente...

 

P/1 – Ele rompe com as...

 

P/2 – O padrão.

 

P/1 – Da norma hospitalar.

 

R – Por isso que tem psicólogo. Uma parte para ajudar a própria angústia do paciente, a outra parte eu acho que é para ajudar as pessoas da equipe a lidar com isso.

 

P/1 – Ao bom funcionamento da norma.

 

R – Isso, também. (risos)

 

P/2 –- Devolver as exceções à norma. Botar no trilho de novo.

 

R – Isso. É que eu, geralmente, acho...

 

P/1 – Ou abrir os caminhos dentro disso. O paciente, dentro disso.

 

R – Eu acho que o trabalho – pelo menos como eu concebo meu trabalho – não é de adaptar o paciente ao hospital, mas de, na hora em que você começa a falar o porquê chora, o outro dá uns passos atrás. Ele já não está tão bravo: “Por que não está comendo?” Criar espaços para que a norma não seja tão rígida. O paciente tem que se adaptar a algumas coisas também, é lógico. A norma organiza o jeito do hospital funcionar e temos que respeitar a isso.

 

P/2 – Como é que é esse paciente da válvula? Existe uma biotipologia?

 

R – As pessoas sempre querem que os psicólogos deem os biótipos. Quando acontece isso e aquilo... É certo preconceito.

 

P/2 – Psicólogos e historiadores.

 

R – É, vocês também. (risos)

 

P/1 – Escrevemos “Biotipologia” no roteiro. A Bellkiss colocou uma observação: “O quê que é isso?” (risos) Não entendemos o fato de ela não ter entendido.

 

R – Eu penso que as pessoas vêm para cá como elas são. Elas juntam isso. Estar doente não é um momento fácil na vida de ninguém. Ter a proximidade da morte não é fácil. Características dos pacientes de válvulas, depende: muitas vezes, o paciente de válvula é um paciente que faz várias cirurgias e isso dá algumas características, por exemplo, de como você lida com o evento de ter que, a cada seis ou oito anos, fazer uma cirurgia de coração na tua vida. É diferente isso, porque cardíacos, em geral, são todos crônicos. A gente não cura nenhum deles. Se o cara tem pressão alta, ele vai tomar remédio para a vida inteira. Se ele enfartou, tudo bem, você recanalizou; mas se ele não mudar a vida dele e não tomar remédio, ele vai, daqui a uns dez anos, entupir de novo. Não tem o paciente que você – tirando alguns casos de congênito – cure e pronto, acabou: “Ó, nunca mais volte no cardiologista. Você...”

 

P/2 – Está resolvido...

 

R – Não tem isso em cardiologia, até porque é uma doença muito associada ao jeito que a pessoa vive. De características eu posso te dizer um pouco isso. É bem diferente, por exemplo, um cara que tem um problema na válvula por razão que ele teve febre reumática quando era criança e sempre foi tratado e cuidado como uma pessoa doente. Isso dá algumas características: de ser mais passivo, mais dependente; mas também não é privilégio do valvopata. Crianças que têm outras doenças e que são tratadas desse jeito também ficam adultos menos... Mais passivos, que esperam sempre que o outro faça as coisas por você. Depende do quando a doença incide, também. Às vezes tem gente que teve a doença, ninguém nunca tratou e está com, sei lá... Com quarenta anos e vai descobrir que tem um problema no coração. Ele tem um jeito de viver a vida, a questão é como que entra nisso ficar doente, que a gente não conta muito. Nem eu, nem vocês... Claro que nenhum de nós nunca vai ficar doente nem morrer. Embora a gente morra um dia, não levamos isso em conta no dia a dia da vida, que isso pode acontecer de verdade. Vamos vivendo. Um dia, a gente pode estar do outro lado do balcão; porque a gente está, por enquanto, do lado de cá, dos que cuidam. Um dia, a gente vai ficar velho... Um dia, antes de ficar velho, podem acontecer coisas... Trabalhar num hospital te aproxima um pouco disso e, mesmo assim, também não vivemos achando que vamos mesmo: estou falando aqui da boca para fora, é lógico. Doente são os outros. (risos) O ser humano não vive assim: “Ah, sim. Todos vamos morrer um dia.” Falamos isso da boca para fora. Quando é você lá, tua morte, não é bem assim, não é tão fácil assim. Não é tão tranquilo assim.

 

P/1 – No teu outro trabalho você desenvolve exatamente o quê?

 

R – Eu faço um trabalho mais de assessoria. É uma entidade que tem sete creches e uma casa de passagem. Creches... Varia um pouco de creche para creche, mas todas trabalham com crianças de zero a sete anos. Eu trabalho mais com quem cuida, não trabalho com as crianças. Eu dou assessoria para a diretora da creche, para a supervisora pedagógica e para os educadores. Trabalho mais com quem gerencia o trabalho, dificilmente... Às vezes eu trabalho com os pais das crianças, junto com as coordenadoras, mas geralmente trabalho dando treinamento, discutindo o andamento do trabalho, discutindo casos e como se faz o trabalho a partir de um olhar da psicologia. A casa de passagem são crianças de zero até os adolescentes de dezoito anos que tiveram algum problema – algum problema com a lei, algum problema de abandono ou de falta de condições da família – por ordem judicial. Elas ficam nesta casa de passagem até que se dê algum destino definitivo, que pode ser desde voltar para a família – se a família conseguir se reestruturar –, ir para um lugar de permanência ou ficar independente e partir para uma vida própria, independente do que aconteceu antes, que é bem... É um trabalho super interessante.

 

P/2 – Você atua com as crianças e adolescentes?

 

R – Na casa de passagem eu atuo com eles, também. Eu faço assessoria para a diretora da casa de passagem e para a coordenadora, mas lá fazemos grupo com os adolescentes e pré-adolescentes para discutir um pouco a história de vida deles. Discutimos como estão as coisas na casa, que é no dia a dia, o que você pode fazer diferente; e o futuro, o que se pode ser a partir. Para cada historinha de cada um deles teve circunstâncias da vida – nenhuma delas boa – que os levou até ali, mas tentamos os responsabilizar para daqui para frente, e discutir com eles como vivem a vida desse jeito. É um trabalho ligado à educação, mas que também é clínico. Eu me defino como um psicólogo clínico.

 

P/2 – Você tem clínica também?

 

R – Eu tenho o consultório, mas é onde eu trabalho menos, porque consultório é uma coisa devagar para começar a crescer.

 

P/2 – Você se lembra do primeiro paciente que você atendeu aqui? O primeiro caso, ainda como aprimorando.

 

R – Eu me lembro de vários casos como aprimorando. Eu não sei se exatamente seria o primeiro, mas tem casos que marcam a gente: quando eu era aprimorando, eu me lembro de uma paciente que tinha ICC (Insuficiência Cardíaca Congestiva). Na medida em que vai ficando mais grave, você só pode fazer transplante ou se tratar clinicamente daqui e dali, mas é uma coisa que... A pessoa vai morrer e você pode adiar um pouco, mas não tem muita solução

 

P/2 – Desculpa, André. É Insuficiência...

 

R – Cardíaco Congestiva. Tinha uma paciente, eu comecei a atendê-la e, às vezes, quando você é mais inexperiente, acha que eles necessariamente têm de falar da morte e que elaborar esse negócio. Depois você vê que a vida não é bem assim.

 

P/1 – Eu tenho essa preocupação sempre, de saber essa coisa.

 

R – Foi um caso super interessante, porque chegou uma hora que ela virou para mim e disse: “Olha, eu quero que você continue a vir me ver, mas não como psicólogo.” Foi uma hora que ela não queria mais ficar falando da doença dela, porque chegou numa coisa de que ela percebia, de um lado, que não tinha mais jeito; ela não tinha muito mais perspectiva de vida. Sendo assim, ela não queria mais falar daquilo e acho que as pessoas não precisam, também, elaborar a morte, morrer feliz... Acho que morremos do jeito que dá para morrer. Foi um caso interessante porque eu continuei a vê-la e uma hora, quando eu estava a visitando, ela voltou a falar de coisas que a angustiavam e eu voltei a atender. Nem combinamos: “Olha, estou atendendo de novo”, mas conforme ela voltou a falar... Eu lembro de alguns pacientes... Ah, o meu primeiro paciente que eu estava mais envolvido e que morreu... Tem paciente que você atende uma vez e você não vai estar com vínculo, não vai falar: "Ah, super me marcou.” Não, nem lembro mais o nome, faz um tempão... Mas teve alguns pacientes que marcam a gente: ou porque o que ele está vivendo pega em coisas que são tuas, ou porque o caso é psicopatologicamente interessante para pensar a teoria e a tua prática clínica, ou porque você atendeu mais tempo e acompanhou. Tem pacientes que te marcam mais desses diferentes jeitos, porque pegam em algo teu ou porque cientificamente te interessa ver como a pessoa é e trabalha, vive e tal – interessante para o trabalho –, ou todo mundo que ficou muito tempo aqui... Você lembra porque você atendeu muito. Às vezes tem gente que você atendeu pouco tempo, mas te marcou também.

 

P/1 – Esse morreu, você estava contando...

 

R – Foi interessante porque ele foi... Ele tinha um movimento de tentar procurar explicações, porque ele fez várias cirurgias e não estavam dando muito certo as cirurgias dele. Ele não conseguia sair do hospital. Eu acho que ele já tinha feito uma, mas ele fez mais três quando estava internado aqui e não foi ficando bom, até que ele morreu. Foi um trabalho mais de acompanhá-lo nessas... Ele ia fazendo hipóteses, fantasias. Eu estava falando desse paciente e foi interessante, para mim, acompanhá-lo nessas hipóteses que ele ia fazendo. É duro quando a gente perde os pacientes, independe muito... Quando você tem vínculo com o paciente independe muito do tempo. Quando morre o primeiro é diferente também.

 

P/2 – Quando morre o primeiro?

 

R – É, do que é hoje. Não é fácil para ninguém lidar com a morte. Isso foi uma coisa boa também de virar vinte horas: quarenta horas dentro de hospital eu acho pesado, atender muitas horas pacientes que têm essa questão da doença... É pesado o trabalho com eles.

 

P/2 –- Você faz terapia pessoal, faz análise?

 

R – Fiz lá quando eu era criança, que eu estava contando para vocês. Agora, eu acabei parando há pouquinho tempo. Fiz sete anos de análise, nos últimos sete anos eu estava fazendo.

 

P/1 – Com psicólogo?

 

R – Com psicólogo, com analista.

 

P/1 – Com analista.

 

R – É melhor que psicodrama. (riso)

 

P/1 – Psiquiatra?

 

R – Não, pode ser um psiquiatra psicanalista (risos). Eu estudo psicanálise, faço trabalho com psicanálise e eu acho mais legal.

 

P/2 – O psicólogo e o psiquiatra têm algumas diferenças, não?

 

R – Tem diferenças: o psiquiatra medica, o psicólogo nunca medica. O psiquiatra, muitas vezes, tem um olhar que é mais fenomenológico: para você poder medicar, você põe certo compartimento. O psicólogo faz o diagnóstico, mas de outro jeito. Psicólogo também não existe muito, existem dentro da psicologia diversas linhas de trabalho: psicodrama, psicanálise, Gestalt, Jung, tem uma psicologia clínica que você pode ser ou uma psicologia organizacional – quem trabalha em Recursos Humanos que também é psicólogo, que faz seleção... Ou quem trabalha mais ligado à educação.

 

P1 – André, qual é o grande desafio dentro do Serviço de Psicologia do Incor?

 

R – Desafio? Para o serviço?

 

P/1 – É.

 

R – A psicologia hospitalar se desenvolve muito. Eu acho que um desafio é continuar a ser top de linha, continuar a ser alguém que pensa psicologia e que, portanto, pensa o que é ser psicólogo em hospital, que desenvolve conhecimento a respeito. Acho que esse é o maior desafio: continuar pensando a psicologia dentro de hospital, continuar desenvolvendo um jeito de se trabalhar.

 

P/1 – Não tem algum grupo de estudos aqui?

 

R- Grupo de estudo, não. Tem reuniões clínicas, reunião de enfermaria e reunião de ambulatório, em que se discutem os casos, o trabalho e como as coisas caminham.

 

P/1 – Você tem um grande sonho? Um sonho pequeno?

 

R – Específico? Não sei. O ano que vem talvez eu me case. Não sei sonho, exatamente... Projetos eu acho que sim, mas um grande sonho, não talvez desse jeito, sonho maluco... Eu gostaria de ser um psicólogo melhor ainda do que eu sou, continuar me realizando nesse sentido, casar e ter uma coisa... Quem sabe, depois, ter filhos.

 

P/1 – Mais alguma coisa? Vamos encerrar a última pergunta, a clássica.

 

R – Qual é a pergunta?

 

P/1 – O que você acha da experiência de estar dando este depoimento para o projeto dos 25 anos do Serviço de Psicologia?

 

R – Eu acho legal. Acho legal trabalharmos o tempo todo com história – não do mesmo jeito que vocês trabalham, mas trabalhamos o tempo todo com a história das pessoas –, é uma coisa que me fascina. Na história das pessoas você vê o que elas são e como elas constituem o jeito que vivem. Tem sempre a ver – pelo menos dentro da psicanálise – qual a história que a pessoa viveu e como ela entendeu tudo que aconteceu com ela. É sempre interessante, pois vamos falando e também repensando a nossa história, vendo como a coisa caminhou. Eu sempre pensava em prestar História, sempre foi uma coisa que me agradou e acho isso uma coisa legal. Acho legal fazer parte de um lugar que tem história. Não dá para inventarmos tudo o tempo todo. Claro, eu tenho as coisas para inventar na vida; tenho as contribuições para dar aqui no serviço, mas acho que teve gente que veio antes, tem coisas que vão vir... Para mim, foi super legal e gostoso dar a entrevista. É sempre legal ouvir o que você está falando.

 

P/1 – Obrigado, foi super legal.

 

P/2 – Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar?

 

R – Acho que não. Era isso.

 

P/1 e P/2 – Obrigado, André.

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