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História

A história de um cantador de vissungos

História de: Antônio Crispim Veríssimo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/05/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Antônio Crispim Veríssmo conta sobre sua família e infância na fazenda e no garimpo. Fala sobre a história das duas cidades: Ausente e Baú, e também sobre a língua e a cultura quilombola. Aborda suas responsabilidades como embaixador na festa de Nossa Senhora do Rosário e outras atividades religiosas e culturais que exerce.

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História completa

Antônio Crispim Veríssimo. Nascido dia 25 de outubro de 1943. Nasci aqui em Ausente. Meus pais trabalhavam de trabalhador rural. Mexiam com lavoura, essas coisas. Na lavoura plantando mandioca, plantando cana, milho, feijão. Ele ia pro garimpo. Garimpava, tirava a socata dele, apurava, tirava o ourozinho, o diamante. Não havia salário, não. O pessoal, quando dava na época, passava a época de roça, o pessoal ia pras fazendas, trabalhar nas fazendas. Nós fazendeiros, trabalhando. Limpando planta.

O nome da cidade Ausente. Falava que foi o homem, ele representou aqui. Entendeu? Ele não é daqui, não. Então, diz que eles falaram que eles ficou ausente da terra dele, ausentado da terra dele. Então, esse homem morou aqui. Diz que morou aqui, então, é um dos primeiros habitantes que teve. Ficou o nome de Ausente. Tanto que aqui o nome da fazenda: Fazenda do Ausente. Entendeu? É o nome do terreno todo aqui – é falado, não sei se é verdade – 400 alqueires de terra. É 400 a fazenda, ao total. Então ficou em nome: Fazenda do Ausente. Aqui toda terra aqui, pra passar um documento é na Fazenda do Ausente. Fazenda do Ausente. Assim que eu achei. A história foi essa. É. Porque aqui não tinha muitos habitantes, não. Essa comunidade aqui é mais nova. A comunidade mais velha, de morar aqui, é a Baú. O Baú é mais velho do que o Ausente. Porque o Baú, a geração anterior do Baú, é que mais formou Ausente. A maioria dos habitantes daqui é de lá do Baú

O Baú, dizendo o que os velhos falavam. Que foi um dos velhos que plantou. Um plantou a roça. Diz que a roça ficou muito bonita. Um falou com o outro assim: “Ih, mas isso está um baú!” Ele ficou apoiado com o nome Baú. Assim é falado. Bão. E aí tem muitas coisas que o povo dá na cabeça, fala, e aquele nome fica. É isso aí. Agora lá o Baú, é que é isso. O Baú foi formado pelo escravo. O Baú, a habitação do Baú formada pelos escravos. Porque eles vinham da África, e então se sofria muito nas senzalas do sinhô. Aí eles fugiam e barravam lá. Eles fugiam dessas áreas. E ficavam no Baú. Portanto o pessoal todo do Baú, eles tem origem na África. Eles são africanos.

Eu aprendi vissungo foi com o velho, que eu achei. É, Firmiano da Costa, Gazinho. Mais o pessoal do Baú. Que aqui o pessoal não sabe vissungo, não. Tanto que quando morria gente aqui, antigo tempo, mandavam bater no Baú lá, falar com o pessoal de lá. E o vissungo é isso. Você tem que saber tirar ele. Um tira, o outro responde. Um tira e o outro responde. E o meu tio sabia tirar e o compadre dele, respondia. . E hoje está acabando. Ah, porque também ficou assim, que o povo fala: não está usando. E aqui, a cultura está acabando.

A festa do rosário tem a dança, o catope é do Baú. Porque esse catope vem da África. Catope não é daqui, não. Catope é da África. Vissungo é da África. É africano. O dialeto é da África, entendeu?

É junto com os marujos. Isso não pode ser abandonado, não. É comemorado a mesma coisa. Eles são do mesmo grupo. É do grupo é a mesma coisa, né? Nossa Senhora acompanhou foi o catope. Marujo não tirou, caboclo não tirou ela. Ela acompanhou o catope. É. Mas tem razão. Porque a música do catope pra Nossa Senhora faz doer o coração.

Agora eles inventaram outra dança, eles tão admitindo o catope. O catope não é de outra dança. Ele não é de São Sebastião, festa de São Sebastião não tem o catope. Aqui eles estão traduzindo isso aí. Senhora dos prazeres, não tem catope. Mas que o pessoal turista, chega e gosta. Nunca ouviu isso aí. Mas eu estou falando: eles não podiam aceitar. Porque essas músicas, isso é só do rosário. Entendeu? Só cai na palavra do rosário. Então tem isso aí. Catope é do rosário. Não tem nada de outro santo, não. Não pode.

É contramestre e patrão. O patrão veste vermelho, o contramestre veste verde. Fardamento dele é verde. E o patrão é vermelho. Agora o embaixador veste a roupa dele normal e uma capa nas costas. Uma capa vermelha nas costas, aqui assim. Amarradinha aqui assim. Esse é o embaixador da festa. Eu trabalho de embaixador lá, todo ano.

A função do embaixador é assim: formar a ala da procissão. Ele vai no meio, o “andor” vem atrás aqui, e ele vai no meio assim. Riscando, tirando cisco da rua. Daqui vai lá, volta pra cá. E o pessoal tudo de lado. E tem o halo da coroa, que vai dentro do quadro com o rei e a rainha. O halo da coroa. Outra espada. Duas espadas, em Milho Verdes tem duas. Então, isso é histórico, isso é patrimônio, muita coisa. Antigo demais.

Não, mulher não dança catope, não. Elas só vão pra olhar. Mas elas não dançam catope, não. Onde é catope e vissungo, não, mulher não. Pra cantar, essas coisas. Não, não. Isso aí, não.

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