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A história de Leidiane

História de: Leidiane Imaculada Gomes dos Santos Silva
Autor: Rodrigo Yuri Gomes Teixeira
Publicado em: 27/06/2018

Sinopse

Leidiane nasceu em Rio Acima, em 1983. Não pôde estudar na infância, pois seu pai proibia ela, sua mãe e suas irmãs de saírem de casa. Depois que seus pais se separaram passou a conviver mais com a vizinhança e voltou para a escola, mas logo interrompeu os estudos. Já adulta, enfrentou o machismo de colegas de trabalho quando foi operária na construção civil. Leidiane tem dois filhos, e lembra dos partos como momentos importantes na sua vida. Quando seu filho mais velho, Gabriel, voltou a estudar na EJA, Leidiane decidiu voltar à escola também.

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História completa

Meu nome é Leidiane Imaculada Gomes dos Santos Silva. Minha mãe se chama se chama Leida Maria Gomes Santos e meu pai Osvaldo Pereira dos Santos. Nasci em 06/04/1983. Minha mãe é de Rio Acima. Meu pai vem de uma cidade chamada Ponte Alta. Não sei pra onde é. Não sei direito se é Minas. Tenho dois irmãos por parte de mãe e pai juntos, e mais dois separados, meio-irmãs. Meu pai veio pra Rio Acima porque na cidade dele ele não se dava muito bem com o pai dele. O pai dele batia muito nele. Aí a madrinha dele pegou e pediu pra ele vir pra cá. Nisso ele conheceu minha mãe. Passei a infância em Rio Acima. Só que a gente ficava muito presa dentro de casa, quando minha mãe tava com meu pai. A gente não podia sair na rua. Nem estudar. Eu e minha irmã não podíamos. Ele falava que mulher não precisava estudar. Vinha de uma criação... Meu irmão podia estudar, só que meu irmão é mais novo, então ele ainda estava na faixa etária de entrar pra aula. Então teve uma denúncia, foram lá e obrigaram ele a matricular eu e minha irmã. A gente ficava muito dentro de casa. Ficava assim, muito tímida. Não fazia amizade com os outros, achava meio estranho. Por isso a gente parou de estudar. Depois que teve a separação da minha mãe e do meu pai, aí a gente ia pra rua, brincar com os vizinhos, as vizinhas. Eu tinha onze anos. A gente ficava mais era com uma vizinha lá de perto. Nós íamos pra casa dela e ficávamos lá com ela, brincando. E depois voltávamos pra casa, não íamos pra longe não. Nossa brincadeira era ficar pulando na terra. Eu tinha onze anos quando meus pais se separaram. No começo, quando a gente é criança, a gente não entende direito. Mas meu pai foi muito ruim pra minha mãe. Ele batia nela, e tudo. Aí ela ficava presa dentro de casa, não podia sair. Só podia sair pra levar a gente no hospital, quando adoecia. E mesmo assim ela tinha que levar as duas que eram pequenas na época. Ainda mais no final do casamento, foi um sofrimento pra ela. Ela viu uma traição dele, foi o último pingo d'água. Então ela entrou em depressão por causa disso, porque já estava acostumada. Depois a gente foi conversando com ela, falando com ela que era melhor, que ela estava num sofrimento, que tinha libertado, então ela melhorou. Depois eu fiquei sabendo que a separação da minha mãe foi por base de fofoca. Falaram que ela tinha traído ele. Aí ele achava que eu não era filha dele. Que eu ia nascer branca, loira, de olho azul. Que eu não era filha dele. Então ele largou ela. Depois que minha mãe descobriu que estava grávida de mim. Uma cunhada da minha tia, da irmã dela, que chamou ela pra ficar junto com ela, porque já estava quase no finalzinho, pra nascer, aí eu cheguei a ficar três meses na casa dela. Minha mãe até me deu pra ela me batizar, pra ser minha madrinha. Depois que ele viu que eu não era do jeito que ele achava que ia nascer, que ele pediu desculpa pra ela e voltou. Depois de um tempo voltei a estudar, na EJA, mas eu não fiquei não. Depois fiquei esperando ele, meu primeiro menino. Parei de estudar. Depois de um tempo, quando eu tava grande, fiz um curso de armação de ferragem. Depois desse curso, que era da Vale, me chamaram numa empresa de construção civil, pra fazer teste. Eles não tinham empregadas mulheres ainda, só no escritório, mas na parte da obra não. Chamaram cinco, só que de cinco foram três. Eu, mais uma mulher e um rapaz. Dois de Nova Lima e eu daqui. Fizeram a experiência deles lá: muitos não gostaram. A primeira semana não foi fácil, porque teve muita discriminação. Eles acharam ruim mesmo, que não podia mulher trabalhar na obra. Nós ficamos lá, continuamos. Falamos que não íamos nos abater por causa disso, que estávamos ali era pra aprender mesmo. Cheguei a ficar lá dois anos e quatro meses. Muitos mudaram de obra. Porque lá eles falavam que quem desrespeitasse alguma mulher lá dentro, ou seria expulso ou mandado pra outra obra. Eles cobravam muito respeito, tanto da parte das mulheres quanto dos homens. Depois fui fazer faxina. Porque essa função pra mulher, aqui, não tem muito não. Muita obra falava que não poderia me contratar porque só era uma mulher, tem que separar o banheiro, tem que separar o alojamento, que não teria como. Depois tive filhos, casei. Tive meu primeiro filho, Gabriel. Quando eu me separei do pai dele, eu conheci uma pessoa. Fiquei um ano com essa pessoa, só que ela estava trabalhando em Ibirité, na casa de uma pessoa em um condomínio. Conversei com ele de noite, umas nove horas, quando foi nove e meia me ligaram falando que ele tinha morrido. Que ele tinha batido a moto em um ônibus. Tinha morrido na hora. Até a família dele, falou que era culpa minha. Na hora da raiva eles falaram. Eu estava aqui em Rio Acima, o acidente foi lá em Ibirité, e eles falaram que a culpa era minha! Depois me pediram desculpa, falaram que na hora... Eu entendi, deixei pra lá, porque sei como é. Hoje sou casada com o ai da minha menininha. Um momento importante pra mim foi o nascimento dos meus filhos. Lá no hospital me falaram que não podia ser cesariana não, que tinha que ser parto normal mesmo. O primeiro eles me deram até a anestesia na coluna, então pensei que ia fazer cesariana. Mas fizeram foi parto de fórceps. Apertaram tanto a cabeça dele que deu um vão vermelho, subiu o sangue todinho. Depois que saí do hospital, que me deram alta com ele, falaram assim, "cuidado pra você não bater a cabeça dele, porque se furar onde está o sangue ele morre na hora". O parto da minha filha também foi normal, sem anestesia nem nada. Voltei a estudar esse ano. O meu menino ia voltar a estudar. Falei com ele, "acho que vou voltar também". Ele falou, "vamos mãe, então." Ele achou que a gente ia ficar em salas separadas. Chegando aqui ficamos na mesma sala. Estou achando bom voltar a estudar, eu quero cursar até o último nível que der pra fazer.

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