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História

A história da mineração na Vale

Sinopse

José Geraldo é um engenheiro que trabalhou por muitos anos na Vale. Ele conta em sua história como chegou ao seu último cargo, abordando desde as minas de mineração para até as viagens que fez ao exterior para incorporar aprendizados de engenharia na empresa.

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História completa

Projeto Vale Memória 

Depoimento de José Geraldo Vieira

Entrevistado por Manuel Manrique e José Carlos Vilardaga

Rio de Janeiro, 13 de setembro de 2000

Realização Museu da Pessoa

Entrevista VRD-070

Transcrito por Cristina Eira Velha

 

P/1 - Boa tarde, senhor José, a gente gostaria de começar a entrevista o senhor dando o seu nome completo, lugar e data de nascimento.

 

R - O nome completo é José Geraldo Vieira. Eu nasci em Ouro Preto.

 

P/1 - A data? 

 

R - A data é 1923. 

 

P/1 - Que dia?

 

R - Foi dia 7 de setembro de 1923.

 

P/1 - Qual o nome dos seus pais?

 

R - O meu pai era Manuel Vieira da Silva. Minha mãe Herotides, com "H", Herotides Esteves Vieira.

 

P/1 - O senhor conhece um pouquinho da origem da sua família, parte de pai, de mãe?

 

R - Bom, o meu pai foi daquela região ali perto de (Ponte Nova?), mais ou menos, da região de Barra Longa, daquela região ali. Depois com 7 anos ele foi para Ouro Preto, criança ainda, para começar a trabalhar. Aí radicou, conheceu minha mãe, que era ouropretana, então adotou a região lá, passaram a morar lá. Ele era comerciante, casa comercial de alimentos etc. 

 

P/2 - Ele começou a trabalhar aos sete anos? 

 

R - É, aos sete anos ele mudou, de Barra Longa, pequena cidade, dali foi para Ouro Preto para procurar trabalho. Ele devia fazer alguma coisa. Então começou um emprego numa casa de comércio, coisa assim, e aí foi evoluindo, evoluindo, era muito bom de trabalho, muito correto. Então ele pode subir, depois chegou a ter uma posição destacada nessa que era uma das melhores empresas de fomentos lá em Ouro Preto. 

 

P/2 - Que empresa que é?

 

R - Era empresa Fortes.

 

P/1 - O senhor conheceu os seus avós por parte de pai e mãe?

 

R - Conheci. 

 

P/1 - Qual era a atividade deles?

 

R - Como?

 

P/1 - O que que eles faziam?

 

R - Ah. Eu conheci, eles já eram muito velhos. Quando eu dei por fé, de criança, assim, então eu conheci algum avô. Materno eu não conheci não. Ele foi até de uma família muito brilhante em matéria de pintura lá em Minas. Um outro parente dele, até o presidente mandou ele para a Europa para fazer uma demonstração de pintura, ele era muito bom,  Honório Esteves. Então não teve um... naquele tempo eu era muito criança, então eu não tenho, assim, muito maior lembrança dos avós. Do meu pai eu lembro, ele morreu muito cedo. Meu pai morreu com 65 anos. Engraçado que naquele tempo a gente pensava que 65 anos era velho. Então eu era estudante de ginásio. Mas hoje é que a gente vê. Depois que passa os 65 a gente vê que não é velho não. Muita gente, ainda tinha muita coisa para fazer. Mas ele teve uma doença rápida lá. Agora minha mãe já morreu com 93 anos.

 

P/1 - E ela sempre morou em Ouro Preto?

 

R - Sempre morou em Ouro Preto. 

 

P/1 - E como é que foi a infância em Ouro Preto, a infância do senhor?

 

R - A minha infância?

 

P/1 - É.

 

R - Bom, foi muito agradável sob diversos aspectos. Mas primeiro a parte de... era muito mais fácil naquele tempo as crianças brincarem umas com as outras, com os vizinhos, com _____da Igreja, o que for. Ou jogar uma pelada, uma coisa assim. Era muito mais fácil e não tinha nenhum risco, como hoje tem, nessa insegurança que a gente vive. Também fazia caminhadas naqueles morros lá, montanhas altas, a gente caminhava lá, às vezes dormia lá, na Pedra do Itacolomi e tudo. Mas tinha muita coisa saudável, assim, além de um futebol, que a gente sempre jogava. Era uma fase alegre. E tinha aula de manhã à de tarde. Aliás, é uma coisa que eu acho que prejudica muito no país é que foi encolhendo os cursos. Por exemplo, antigamente eu estudava no ginásio, chamava Ginásio Diocesano, em que eu era externo, porque minha família morava lá, mas eu ia cedo, mais ou menos 7 horas, ficava lá até 11 mais ou menos. Descia, vinha em casa almoçar e voltava, retomava uma e meia, mais ou menos, ia até às 17 horas. Então, os pais não precisavam ter preocupação de ficar tomando lição. O tempo que a gente passava antes de cada aula, uma hora de estudo no salão grande, e a pessoa podendo pedir ao regente se podia consultar com um aluno mais adiantado, essas são coisas muito valiosas que hoje não aparecem mais. Hoje tem aquele problema do... A gente lá no salão grande, qualquer dúvida que tinha pedia licença, ou ia perguntar a um colega mais adiantado, ou ia perguntar ao próprio regente. Você saía dali com a lição pronta.

 

P/1 - Chegava em casa e não tinha...

 

R - Não, não precisava. Aliás, é como acontece nos Estados Unidos. Eles assustam quando a gente conta para eles lá aquele negócio dos pais e mães, todo mundo envolvido. Eles ficam o dia inteiro na escola. Daí quando chegam não têm mais dever para fazer. Já faz tudo dentro da escola. 

 

P/2 - Senhor José Geraldo, como é que era a casa do senhor de infância em Ouro Preto? Como é que era a casa, o senhor lembra da casa em Ouro Preto?

 

R - Lembro. A casa hoje, como lá essas coisas todas são preservadas, ainda está lá. A casa que eu morei lá até sete anos está lá, _____. Depois meu pai construiu uma casa do outro lado, em cima da Igreja do Rosário e uma casa do lado de numa rua mais embaixo. Depois ele comprou um terreno na Rua do Rosário, Rua Cláudio Manoel, Rua do Rosário ali, à direita, então ali ele construiu uma casa. Com dificuldade, tudo assim, mas construiu uma casa muito gostosa. 

 

P/1 - Como é que ela era? Uma casa grande, vários quartos?

 

R - Era grande. De dois andares. Essa casa tinha dois andares. Embaixo tinha uma área lá, salão para estudos. E a parte de cima tinha quarto para o pessoal todo, depois uma horta grande atrás muito boa. 

 

P/1 - Seus pais tiveram quantos filhos?

 

R - Nós somos dois.

 

P/1 - Dois?

 

R - É. Eu e minha irmã. Agora, uma outra que foi sobrinha de meu pai, filha de um irmão dele e a mãe morreu no parto. Então minha mãe pegou, porque o que sobrou era o homem, então ela pegou e levou lá para Ouro Preto e criou. Então ela ficou sendo mamãe, papai e _____era nossa irmã, a _______. 

 

P/1 - O senhor é o mais velho dos irmãos?

 

R - Não, mais velho era ela, a minha irmã. 

 

P/1 - E o senhor acabou de falar que era uma casa razoavelmente grande. A família era pequena. E falou em sala de estudos. Tinha um quarto para estudos lá na sua casa?

 

R - Tinha. Era um quarto da gente mesmo, eu estudava lá. Tinha um quarto de estudos, uma área grande ali. 

 

P/1 - E o senhor... como é que foi o aluno José Geraldo?

 

R - O que?

 

P/1 - Aluno, enquanto aluno.

 

R - Aluno em que nível?

 

P/1 - Nível de escola, dez anos, 15 anos. Garoto.

 

R - Ah, de garoto! Não, a gente gostava bem, porque os professores muito adequados, assim, muito localizados nos assuntos a corrigir ou não corrigir, uma coisa assim para criança. Então era um período muito agradável. Depois o pessoal fazia muita amizade ali, os meninos faziam muita amizade.

 

P/2 - O senhor teve algum tipo de educação religiosa na sua casa?

 

R - Eu tive o normal, porque todo mundo é católico lá em casa, todos nós. Então eu tinha. Minha mãe era, meu pai também. Agora, a gente tinha sim. Eu frequentei catecismo, depois no tempo de estudo também ia várias vezes na Igreja com colegas meus da escola, a gente ia lá fazer, levando... Tinha periodicamente às vezes um retiro, qualquer coisa. E o colégio que eu estudei era um colégio Arquidiocesano, o nome dele. Então já era a mentalidade católica, de modo que assim eu fui...

 

P/2 - O senhor participava daquelas procissões de Ouro Preto, essas coisas, não?

 

R - Aí só se fosse muito pequeno, nem me lembrava. Às vezes assistia a procissão. Era bonito, por exemplo, a procissão de enterro, que passava direto ali atrás, mas não era, assim, muita coisa. A gente via de ponto estratégico de maior altitude. 

 

P/2 - E dentro da casa do senhor, quem que exercia um pouco a autoridade, o seu pai, sua mãe, como é que era isso dentro de casa? 

 

R - Bom, dentro de casa francamente eu não vejo nenhum predominar sobre o outro. Acho que cada um falava aquilo que ele assistia na época. Então ele falava, assim, de uma forma que não ficava mágoa, mas também não ficava... Nem para um nem para outro. Era um conselho, uma coisa assim. A gente aprendia a evitar para não ver mais aquela cena. 

 

P/1 - E educação religiosa além da escola, dentro de casa, o senhor também recebeu educação religiosa?

 

R - Não, a gente seguiu naturalmente de criança. Na hora de fazer a primeira comunhão, por exemplo, a mãe é birrenta. Nessa parte assim. Agora, em geral a mãe sempre cobra um pouquinho. Mas foi tranquilo. 

 

P/2 - E educação política? Algum tipo de educação política?

 

R - Não. 

 

P/2 - Não?

 

R - Não. Política eu gosto de ver longe de mim. (riso) 

 

P/2 - A adolescência do senhor, a juventude em Ouro Preto, como é que foi?

 

R - A juventude...?

 

P/2 - Na cidade, que tipo de coisa se fazia lá, como é que se divertia?

 

R - Bom, no cinema, futebol a gente jogava muito, tinha um time lá, durante o tempo da escola, nós tínhamos um time muito bom, que era frequentemente campeão lá em Ouro Preto, e todos os outros times de lá. Tinha basquete, vôlei, tinha bastante esporte que a gente fazia lá. E fora brincadeira de estudante. (riso)

 

P/2 - Que tipo de brincadeira que se fazia?

 

R - Ah, tem várias, até nem lembro assim. Tinha muita coisa interessante. Depois se eu lembrar eu falo. 

 

P/2 - Faziam serestas, não?

 

R - Ah, seresta sim.

 

P/2 - Vocês faziam. O senhor participava delas?

 

R - É, eu participava. Quando não cantando, eu não cantei nada, mas pelo menos participava ali dando apoio naquela turma toda. E num pedaço, se fosse um coro, em que nenhuma voz destoava, então aproveitava e entrava ali. 

 

P/2 - Como é que eram essas serestas, senhor José Geraldo, as pessoas se encontravam e iam para casa de tal moça?

 

R - É, tinha várias. Tinha várias _____de pessoas da cidade, então fazia aquele violão todo. Então a gente para os estudantes de noite acompanhava aquela turma até brincando assim. Ou então estudantes, tinha vários estudantes, assim, que tocavam violão bem e cantavam bem, então de noite saía pela rua e cantando. De vez em quando fazia uma estrepolia. Por exemplo, um que morava numa república lá no Rosário, __________ morava. Então tinha um lá que não queria participar de nada. Uma certa hora a turma foi lá, pegou a cama com ele dormindo e subiu pela rua a noite inteira, cantando. Ele se escondendo. Uma vingança por ele não participar, por idealismo, da serenata.

 

P/1 - Além da serenata... A serenata era uma forma de conquistar a moça, demonstrar o carinho, haviam outras formas, assim, de cortejo?

 

R - Não, naquele tempo não era... no meu tempo já não era. Naturalmente tinha aqueles casos da serenata em que o apaixonado ia lá para debaixo da janela. Mas não era muito nesse sentido o nosso não. Era para cantar, botar para fora a voz, essa coisa assim, mas não era. Não era ainda aquela serenata poética de antes. De vez em quando nas novelas aparece, em frente a uma janela aparecia lá a moça, a candidata a ser amada, coisa assim, o sujeito cantando, mas não era, desse ponto já não era não. Pode ter sido antes de mim, mas não.

 

P/1 - Isso era mais de diversão mesmo? E para conquistar uma moça, como é que o rapaz tinha que fazer para cair nas graças da querida?

 

R - Eu não sei, é meio difícil, assim, de dizer, porque depende do gosto de cada um. Um então às vezes do tipo da pessoa, do temperamento da pessoa a ser conquistada, coisa assim, de modo que não tem uma fórmula geral ou genérica não. Agora eu já não casei em Ouro Preto, eu já casei em Ponte Nova. E minha senhora, ela fez curso de Conservatório em Belo Horizonte e formou no Conservatório, no Conservatório Mineiro de Música, em pianista e professora de piano. E foi interessante porque, vamos dizer, eu sempre gostei muito, no tempo de esporte, tempo de escola, escola, futebol, coisa de homem mesmo, mas também sempre fui um amante deslumbrado da música clássica. Isso aí foi engraçado que nos trouxe aí uma proximidade. Então a minha senhora, naquele tempo, a Maria Helena, era morava em Ponte Nova e estudava no Conservatório em Belo Horizonte. Lá em Belo Horizonte ela morava na casa de uma parenta lá. Nas férias ia para Ponte Nova. E eu lá de Ouro Preto, onde nós começamos a coisa, eu fazia assim: de Ouro Preto eu saía, ia até Burni, que era metade do caminho, e vinha com ela de trem até uma outra cidade lá embaixo. Aí eu pulava do trem em movimento, voltava para Ouro Preto para estudar e ela ia embora para casa. Mas a gente já sabia onde é que um passava, o outro. Mas foi muito bom. Mas, assim, eu não sei bem, eu não estou lembrado bem qual foi a parte da pergunta. Bom, então isso foi. Resultado: a parte da música influiu muito, que a gente se encontrava muito nos concertos. Então no concerto a gente se encontrava. Depois começava a conversar coisa assim, coisa ali, então foi embora.

 

P/2 - O senhor pulava do trem em movimento? 

 

R - É.

 

P/2 - Como é que é isso?

 

R - Não, porque o trem, ele vinha de Belo Horizonte e ia até Ponte Nova, passando por Ouro Preto no meio. Mas Ponte Nova, eu não dava para eu ir lá, descer e pegar o trem para voltar. A gente não tinha dinheiro. Então a gente ia até uma cidade, que chamava Furquim, ali para baixo de Ouro Preto, eu ia até lá. Ali tentava: "Vamos passar, vamos rapidamente." Então eu pulava, ela ia para Ponte Nova passar as férias e eu voltava para Ouro Preto pegando o trem que estava subindo. Então era assim.

 

P/1 - O senhor tinha quantos anos naquela época?

 

R - Ah, naquela época eu devia ter quanto? Uns 17 anos, eu ainda estava rapazinho. 

 

P/1 - Que já estava então prestes a entrar na Universidade e tudo o mais?

R - É.

 

P/1 - Como é que foi a escolha da profissão?

 

R - Bom, a escolha da profissão, Ouro Preto sempre foi um ambiente muito de estudo. Então tinha, por exemplo, uma Escola de Farmácia muito famosa lá, que é uma das primeiras de Minas, não sei o que, e tinha a Escola de Minas. A Escola de Minas, que vocês tinham falado antes, a origem dela foi que o Dom Pedro II... depois que a gente lê que vê, teve idéias geniais... ele foi... eu já contei isso aí, não?

P/1 - Não.

 

R - Ele foi a Paris e pediu ao presidente lá, o pai dele na França, rei da França, que ele tinha vontade, no Brasil tinha uma região muito rica, que ele notava, assim, em minerais e metais preciosos. Então ele não tinha elemento, assim, para ver se aquilo era uma condição de melhor prosperidade da cidade. Então ele falou: "Gostaria que tivesse aqui um técnico, um especialista e tudo." Então o rei da França pegou e falou acho que com o Pasteur, então falou: "Procura um elemento nessa condição." Então procurou e indicou Gorceix, que é o fundador da escola. Então ele foi para Ouro Preto, estudou aquela região toda, viu onde é que seria o melhor lugar para colocar e ali ele começou a trabalhar uma série de pessoas e jovens e tudo e a escola foi expandindo. De modo que até hoje é um nome lendário para nós. Por exemplo, eu faço parte de uma Fundação Gorceix, que é ligada à Escola de Minas, mas que a gente estuda com frequência todo o seu processo para melhorar a condição da escola tecnicamente. __________ tem trabalhos belíssimos. Estão ________ até na França. Mas então a Fundação Gorceix, a gente trabalha lá. São ex-alunos que são convidados para participar da... Não morar lá não. Mas a gente tem reuniões periódicas. Então ali surge muita idéia, dá muita idéia para a escola, dá muito retorno em matéria de indicações. Então há belos trabalhos que ficam _____ lá. E a gente temporariamente vai lá e discute, reúne, a prova. Mas então é uma parte boa, essa parte de estudo. Então está tudo dentro da nossa área, porque abrange mineração, quer dizer, minas e metalurgia, com siderurgia e tudo, principalmente é muito... Que a comum _____ já é mais disseminada. Agora as outras têm que percorrer um caminho maior.

 

P/1 - Mas o senhor teve alguma influência de alguém para optar pela engenharia? Ou como é que foi a escolha?

 

R - Não, a escolha foi o seguinte: bom, de um modo geral a tendência é que quem estudou em Ouro Preto, frequentou as escolas naquele nível, fosse para uma delas. Embora muitas vezes aquele negócio de juventude, a pessoa nova às vezes tem vontade de estudar em outra, numa capital, uma coisa assim. Agora ali não, a gente tinha aquela condição, tudo. Então depois tinha uma grande afluência de pessoa do Brasil inteiro, candidato do Brasil inteiro. Então o norte... São Paulo tinha muito, mas o norte demais. Porque não tinha outra escola de geologia no Brasil. Não existia. Não tinha escola de Minas também. Tinham poucas, estavam aparecendo. Então, por exemplo, quando eu formei, deu vontade de trabalhar em Geologia, que eu sempre gostei de Geologia. Tanto a minha filha parece que herdou de mim, ela é geóloga. Mas naquele tempo, por exemplo, a pessoa formava, já estava, por exemplo, já meio próxima de casamento, coisa assim, era muito sem jeito, porque era muito... a pessoa ia trabalhar lá no norte da Amazônia. A Amazônia naquele tempo quanto é que era? Em 1952, por ali. Então a pessoa ia para lá, ficava um cá, outro lá, não tinha avião, não tinha nada naquele tempo. Então não era para quem quisesse. Mas de fato eu herdei essa coisa. Na Geologia está influindo dentro de todos os outros cursos na parte de Minas e metalurgia. De todo modo, então a gente sempre aproveita. Então é o curso que a gente fez. Até fiquei satisfeito quando a minha filha, já muito longe dessa coisa toda, ela parece que puxou o meu gosto pela Geologia. 

 

P/2 - E fez Geologia?

 

R - E fez Geologia.

 

P/1 - E qual foi a impressão do senhor no primeiro ano de faculdade? Qual era a expectativa, o que que o senhor esperava, como é que foi a impressão do começo do curso?

 

R - Bom, a impressão do curso, primeira, alguma coisa, assim, do curso mesmo, que a gente pensa: 

Ele não, ele tem primeiro uma base, ele tem uma base, um pedestal que ele tem que fazer para chegar lá. Então às vezes a pessoa não... por exemplo, cálculo. Cálculo é uma coisa, assim, muito... tem muitas tendências e não tendências para cálculo. Então é uma coisa descritiva, aquele negócio todo. Mas também tinha química, tinha física, muita física, tinha todas as áreas _____ abordava na Escola de Minas lá. Agora depois para os anos maiores, então entrava a especialidade mesmo, aí você tinha paleontologia, você tinha estudo de minério, de manganês, pesquisa _______ e tudo. Mas o que você estava perguntando?

 

P/2 - Perguntei se o senhor fez algum estágio na época de faculdade.

 

R - Fiz. Um deles foi na mineração Minas-Morro Velho. Lá em Nova Lima, perto, por exemplo, daquela região de Ouro Preto, os ingleses tinham uma mina que era tanto que o Brasil tinha a melhor produção em ouro. Então eles davam estágio para a gente. E eu, dois anos antes de formar, me candidatei e fiquei lá. Então durante dois meses eu fiquei lá. A gente descia lá para a mina de manhã, no escuro, entrava na mina, com o capote grosso, mas na mesma hora tinha que tirar, porque descia mil metros de elevador e aí estava um calor infernal. Então a gente descia com... tinha ar refrigerado. Ainda tinha mais minério para baixo, quando eu peguei lá foi esse período de ______. A gente ia ver o sol mais ou menos a uma hora da tarde, duas horas, ficava de tarde até de noite. Ficava lá, almoçava lá e tudo. Mas foi um estágio muito bom, porque o pessoal inglês, mister 

 e tudo o mais tinha altas categorias, coisa que não... E tomei um gostinho por mina naquela ocasião, guardo ________, mina subterrânea ainda não tinha tido oportunidade não.

 

P/1 - E como é que era, lá davam uniforme? Quais eram as ferramentas? O senhor poderia contar?

 

R - De?

 

P/1 - Ferramenta de trabalho, o que era? Se vestia uniforme para descer, como é que era?

 

R - Ah, sim. Lá a gente vestia um capotão grande, um capacete, porque não dava, as variações de temperatura eram muito violentas. Quando descia estava uma geladeira, mas depois lá embaixo uma certa hora, eu pegava na parede, era quente, quente mesmo, lá perto dos 2 mil metros. Então a pessoa tinha luva. Que hora usava capacete, luva e um paletó grosso, com capote grosso, dependia do nível da mina que a gente estava. 

 

P/1 - E o que que vocês faziam lá? Estudavam?

R - Não, a gente estudava, acompanhava fazer a prospecção toda do ouro. Acompanhava o ouro, depois os equipamentos todos, abertura de trechos da mina, lá debaixo do solo e tudo. E depois fazia um período na fundição de ouro, na fundição também a gente acompanhava lá, assim, uma coisa mais, não assim detalhe, mas que também o curso no estágio não era muito grande, eram dois meses mais ou menos. Mas dava para ter uma visão completa de todo o sistema. 

 

P/1 - E trabalhava muita gente lá?

R - Ah, trabalhava.

 

P/1 - Perdão! Me refiro aos estagiários. Era um número razoável, poucos estagiários?

 

R - Não era, assim, porque tinha muita chance de outros estágios ali por perto. Então tinha uma outra mina de ouro em Passagem, muito menor que essa. Muita gente fez estágio lá. 

 Então ali, aliás, era uma vantagem: os professores nossos eram quase todos trabalhando fora, trabalham fora. Que hoje está muito comum isso, né? A pessoa forma, no mesmo curso de repente ela entra como professora. Mas é muita... a gente sente muita falta da pessoa que vai lá fora, vê e devolve. Porque a escola pode ser muito boa, assim, mas tem que ver o que está evoluindo por aí, como é que a tecnologia está evoluindo e tudo. Então é bom que o professor venha lá de fora, da indústria dele, trazendo novidades técnicas, novidades de estudo. Então é até um ponto muito vantajoso isso. Porque quando a pessoa, o aluno vê um professor que já está, assim, meio, como se diz, começa a ficar muito repetitivo naquelas mesmas coisas, aí vem outra aula, repete aquilo tudo de novo, não dá o élan e não anima a pessoa a desgastar e também ser um pesquisador. Mas quando já em contato com um professor que vem lá, dava aula e tudo, mas já contava coisas novas da área já evoluída em que ele estava trabalhando. Isso despertava a vocação. "Ah, bom, para isso aqui eu não vou querer, porque pelo que eu ouvi falar não é isso, mas a ___ dali é boa." Então era um modo de já ir fazendo uma pesquisa sobre a própria...

 

P/1 - E quais eram aquelas tecnologias naquela época, o senhor poderia contar? Quais eram as novidades?

 

R - Bom, lá no caso nosso tinha a fábrica de alumínio, que não era uma fábrica nova. Era uma coisa antiga. Uma fábrica de alumínio. Os professores da escola, em diversos níveis, eram engenheiros da fábrica de alumínio. Então já traziam para a gente muito...

 

P/1 - Informação.

 

R - Muita informação, muito treinamento. Já dava e fazia estágio lá também.

 

P/1 - Mas em relação à maquinaria, havia alguma evolução nisso?

 

R - Havia.

 

P/1 - O senhor poderia contar um pouquinho?

 

R - Maquinaria de?

 

P/1 - Para cavar ou para extrair, para transportar, para analisar?

 

R - No caso específico do que? Do ouro? Ou não, ou qualquer um?

 

P/1 - Pode ser do ouro. 

 

R - Não, no caso do ouro vinha máquina lá da Inglaterra, que a mina era inglesa, ela tinha muita coisa. Agora tinha, por exemplo, a prospecção, depois, para trabalhar lá no fundo, a gente descia um elevador e mais ou menos dava quase 2 mil metros, ___________, descia com todo esse equipamento que vinha da Inglaterra. __________. Mas hoje isso já está muito difundido no Brasil, que as próprias usinas hidráulicas, elas já usam grande parte desse equipamento, já tem inclusive 

 

P/1 - Quanto tempo vocês ficavam embaixo da terra ali?

 

R - Ah, nesse estágio aí? A gente ficava mais ou menos de seis da manhã até uma da tarde  mais ou menos. Almoçava lá embaixo. Na luz do lampião lá dentro. Como os próprios aí, reunia tudo, inclusive os capitães de mina, os ingleses almoçavam com a gente lá e aproveitava, explicava alguma coisa, toda manhã a gente tinha essa aula. 

 

P/2 - Naquele tempo tinha aquela coisa de não poder entrar mulher e padre, não?

 

R - Ah, tinha.

 

P/2 - Tinha?

 

R - Era uma lenda que tinha lá, que uma vez entrou e caiu.

 

P/1 - Como? O senhor poderia contar?

 

R - Não, eu não peguei isso não. Mas falavam que não podia descer nem mulher nem padre na mina, porque uma vez começou a cair por causa disso, desceram lá. Então, hoje eu não sei como é que é não, acho que acabou.

 

P/2 - Mais ou menos.

 

R - Mais ou menos?

 

P/2 - E o senhor, além desse estágio, fez outro ou foi esse no Morro Velho?

 

R - Não, esse foi o principal. Fiz outros, assim, menores. 

 

P/2 - Trabalho o senhor já tinha tido algum ou foi o primeiro trabalho do senhor?

 

R - Não, já tinha tido algum.

 

P/2 - Qual foi o seu primeiro trabalho?

 

R - Não, uma vez eu fiz um... acompanhei um engenheiro na reforma de um prédio lá de uma casa de atendimento à crianças pobres. Então _______das irmãs tinham, então meu tio me deu lá, prometeu, fez, arrumou a casa  e o engenheiro conduzia e eu fiquei ao lado do engenheiro lá aprendendo. 

 

P/2 - Esse foi o primeiro trabalho do senhor?

 

R - É.

 

P/2 - Quando o senhor se formou, qual era a opção profissional que o senhor tinha? Quando o senhor terminou a faculdade, o senhor foi fazer o que exatamente?

 

R - Bom, naquele tempo era mais fácil, porque nós éramos poucos formandos. E também o país ainda não tinha muitas fontes de recebimento de... muitas frentes de recebimento de engenheiro. Mas no caso nosso, que era muito como uma especialidade, então ao contrário, a gente recebia, formava, uma turma pequena. Minha turma, nós vamos fazer agora em outubro, vamos comemorar 70 anos de formatura. Então na nossa turma na época formaram quantos? 16. Formava uma turma pequena, porque muita gente perdia. Hoje tem nas Escola aí, lá em Belo Horizonte, tem escola com uma quantidade de alunos enorme. Agora o outro caso é o mais caro, mas em compensação você está mais perto da aula, você está mais perto da experiência, do acompanhamento e também é mais visto pelo professor. A pessoa não pode cochilar. Agora hoje entra um bando de gente na escola, eu já acho que aquilo ali é um erro. Porque a pessoa depende muito do sujeito ser muito interessado, muito dedicado e tudo, porque tem muitas coisas que podem diversificar as suas idéias e atrapalhar.

 

P/1 - Quando o senhor terminou o estágio com os ingleses, o senhor falou que já estava próximo da formatura.

 

R - É. Eles me convidaram para trabalhar lá, eu e um outro colega meu.

 

P/1 - E aí?

 

R - Bom, mas aí apareceu outra coisa mais vantajosa. (riso)

 

P/2 - Qual outra coisa?

 

R - Não, apareceu o... Tinha um vizinho na siderúrgica de perto e _______, então eu comecei por lá, perto de Belo Horizonte, entre Belo Horizonte e Ouro Preto. Então eu fui lá mexer com um alto-fornozinho, com bilô, fazia peças emoldadas. Depois fui incumbido de transferir esse material todo... material não. Essa indústria toda para Belo Horizonte, para ________. Mais modernizada. Então pude projetar forno elétrico, _____as paredes todas energizadas. Então foi feito aqueles pratos, muito comum, aqueles pratos de louça, parece louça. Aqueles pratos branquinhos. Depois peças de diversos tipos, para diversas coisas. Aí eu trabalhei um certo período lá, mas depois passei para outra coisa. 

 

P/2 - Aí o senhor mudou de novo?

R - Aí mudei de novo. Eu mesmo pedi para sair, trabalhei um pouco lá, porque tinha um amigo que montou uma firma de construção, então ele precisava de um colega. Então, ele era casado com uma prima minha. Então nós fomos trabalhar juntos lá, fizemos 40 e tantas casas para o (GPI), naquele tempo acho que era (GPI?), não sei como é que chamava, um negócio desse tipo, para pobre. Então fizemos muitas casas, mas depois ele desistiu, mudou daqui para o Rio, fiquei sozinho. Construí mais um pouquinho, mas eu não gostava de construção. Aí saí, depois saí. Aí ainda fui para a Cemig. 

 

P/1 - O senhor morava aonde naquela época?

 

R - Eu morava em Ouro Preto. Já era casado.

 

P/1 - E como é que conheceu a sua esposa?

 

R - Não, eu conheci naquele caso do...

 

P/1 - Ah, do trem.

 

R - Da música, _________. E aí a gente viu que o nosso pensamento coincide e era casável. 

 

P/1 - O senhor casou novo, então?

 

R - Hein?

 

P/1 - O senhor casou novo?

 

R - Bom, depende muito do que se considera. Tem gente que casa mais velho, mas não foi muito novo não.

 

P/1 - Casou com quantos anos?

 

R - Eu casei, devia de ter, espera aí, eu sou de 23, então nós casamos em 62.

 

P/1 - 29.

 

R - É, 28, 29 anos. 27, 28, por aí.

 

P/1 - E essas idas e vindas com o casamento, a esposa, tudo bem, aceitava esse trabalho do senhor?

 

R - Não, mas esse trabalho a gente ia muitas vezes lá, mas não ficava lá. Pelo menos esse trabalho, mais ou menos uma semana, outra não, eu dava um pulo lá no Salto Grande, ou no ______

, Três Marias, usina grande, mas ia lá, voltava. O grande trabalho era lá embaixo, pegando os dados que a via de todas. Tinha uma dúvida, batia lá pra ver porque que estava dando nisso ou naquilo.

 

P/2 - Quer dizer, nesse começo da vida profissional o senhor não conseguiu trabalhar em mina? Só de construção...

 

R - A Cemig tinha uma coisa. Ele me deu uma lembrança da Cemig, que tinham duas barragens lá, de Salto Grande, que chamava. Uma barragem, barragem de Camargo, que eu trabalhava a barragem chamava barragem Guaense. E fizeram um planejamento de uma usina hidroelétrica lá. Bom, então foi o seguinte: precisava de se unir uma barragem à outra para dar a segunda barragem. Quer dizer, uma no rio Guaense e outra no outro rio. Então precisava fazer a união das duas usinas, a água passando de uma para a outra para descer no 

 lá, produzir energia. Então a condição _______ foi muito gostoso isso. Eram os italianos da Techint que trabalhavam lá. 

 

P/2 - Foi gostoso fazer?

 

R - Como?

 

P/2 - Foi gostoso?

 

R - Ah, foi gostoso. Depois também. Chegava perto do 

, para descer lá para a área de usina, uma tubulação enorme, descia também por dentro da terra. Foi cavado aquilo tudo ali direitinho. Depois ela era toda protegida, para não ter problema. Essa parte foi muito boa também. Já parecia um pouco com a outra, tinha muito parentesco com a minha. 

 

P/2 - Quais eram os benefícios que tinham de trabalhar ali?

 

R - Não, muito bom pelo lado da tecnologia desenvolvida. 

 

P/2 - O senhor ia ter casa para morar, ia ter tudo?

 

R - Ah, tinha. Bom, eu morava na cidade, ____________, uma cidade de Vitória. Mas a usina é muito perto da cidade, _____ da cidade, a Ferro e Aço. Hoje... ela era dos alemães. A tradição dela era de gente lá do Espírito Santo. Mas os alemães pegaram e compraram uma participação. No fim acabaram acionistas. E __________ da parte dos alemães era 

 uma empresa que congregava todas as empresas da Alemanha que compravam o minério de ferro. O minério de ferro ______ era um minério de baixo fósforo, de baixo alumínio, um minério de qualidade, assim, do Brasil. Então depois de um certo tempo, aí eles resolveram... deu uma Alemanha de parar a usina. Então para esperar que mais tarde eles iam fazer, iam programar um trabalho, assim, de ampliações, quer dizer, grandes equipamentos, grandes alto-fornos, ____ muito grande, ________ e tudo. Iam fazer uma grande usina, porque eram todos sócios, donos de usina da Alemanha, na Alemanha. Então a esperança. Mas depois o negócio não saiu logo, ia adiar três anos. Aí a Vale do Rio Doce me pediu emprestado lá, já me conhecia, perguntou se eu podia ir lá dar uma arrumada lá na mina lá em Itabira.

 

P/2 - Já te conheciam?

 

R - É.

 

P/2 - Da onde?

 

R - Não sei. Ah, bom, o Eliezer foi de Ouro Preto, formou não na escola, mas no ginásio nós estudamos juntos. Mas não sei se foi ele. Tinha outro lá, o João Carlos Linhares, que me conheciam nessa parte. Bom, então fui lá e eu fui emprestado. Depois quando voltasse, os alemães queriam que eu fosse lá para a Europa, para a Alemanha, fazer um treinamento em altos-fornos, mas quando fosse decidido que tipo. Então fui lá. Aí depois entrou nossos políticos no meio, eles acabaram caindo fora, saindo fora. Então eu fui ________ definitivamente de lá, em 11 de novembro de 61. Aí fui para lá.

 

P/2 - O senhor foi para fazer exatamente o que lá?

 

R - Ah, dar uma... analisar a conjuntura lá, vamos dizer, e programar, preparar, estudar e inclusive, vamos dizer, contar, mostrar à direção as pontes que eram com iminência de ouro. Então foi feito um trabalho muito bom lá, o João Carlos Linhares também trabalhava nesse tempo lá. Mas então fizemos lá uma rearrumação naquela mina, o João Carlos não trabalhou não, trabalhou o Eliezer. Então fizemos... a produção era mil e tantas toneladas por ano. Além de tudo, como é que o minério era? Tinha o 

, que era o minério graúdo, que você usa na serraria, no forno 

. Então você pegava... E o resto era minério, no fim nós não conhecia aplicação para ele. Então é uma pedra um pouquinho menor, mas muito mal estudada. Agora também os engenheiros lá não eram culpados não, que eles eram um tanto tolhidos e teve um certo período lá que teve um problema de Jango com o Sindicato muito forte, coisa assim, não era fácil não. Então, além de tudo a Companhia estava sendo deixada, assim, ela não tinha outra participação na cidade e o povo reivindicava muito. Então a partir daí nós fomos lá, fizemos um programa, selecionamos o pessoal de melhor qualidade, equipamento e tudo. Depois pegamos todos os tipos de minério no mundo que a indústria siderúrgica usava, gostava e tendia procurando mais. Você tem que estar sempre pesquisando, porque de repente uma usina lá descobre alguma fórmula, coisa assim e vai todo mundo ________. Então foi assim: então foi feito um estudo muito criterioso. E aí contratamos gente de muito boa qualidade, muito bem testado, deu arranco enorme. O fato é que em mais uns poucos anos a gente já estava com equipamentos muito modernos. Que a Vale tem essa vantagem, não sei se eu contei antes, é o seguinte: é uma empresa... tem outras empresas que pagam mais, pagavam mais, mas isso não é tudo na vida. Você quer também aprender, você quer ser útil. Então isso era muito importante. Então aí foi um negócio que deu essa oportunidade. E todo equipamento que a gente via em catálogo de repente estava em Itabira. Era possível trazer um bruta Realpack, um bruta caminhão, uma bruta escavadeira e tudo. Isso para o engenheiro é muito bom, aqueles que manteriam trabalhar numa coisa moderna, não ficar consertando velharias. Foi muito saudável aquilo. Aí, bom, tinha lá em Itabira, o minério de Itabira, uma hematita muito boa. Mas a hematita, como eu falei, ela também tem certos problemas. Uma é essa do forno 

 de se fazer o... (PAUSA) Mas então hoje tem outros processos de fabricação de ácido do gusa e do aço, principalmente quando surgiram esses fornos LD. LD por causa do nome: 

, que é lá da Áustria, que inventou esse forno com sopro de oxigênio. Então isso adiantou muito. Então hoje uma empresa de minério de ferro que fabrica só um tipo, ela não tem longo tempo de vida. Você tem que ter um tipo... Hoje a Vale tem vários tipos. Tinha

, os nomes todos que têm aí, a hematita, 

 E variações conforme o gosto da usina que quer usar o minério desse ou daquele tipo. Agora sempre com a qualidade de baixo fósforo, baixo teor de fósforo, alumínio e tudo o mais. Mas então... o que que eu estava dizendo? Eu me perdi um pouco.

 

P/2 - Estava falando da hematita.

 

R - É. Então tem que viver, acompanhar a tecnologia no mundo para você não ficar fabricando e querendo vender coisas ultrapassadas. Então é preciso acompanhar, ver o que que a siderurgia está querendo. Uma empresa de mineração que ficar sentada em berço esplêndido esperando que está tudo pronto, não! Toda hora aparece uma _____, uma de lá, outra de cá. E eles desbancam mesmo, não pode brincar não. Agora depois a gente gostava muito como a gente encontrava receptividade na Europa, na Alemanha, na Itália, na Inglaterra, no Japão, porque a gente era muito bem recebido, o pessoal da Vale do Rio Doce. Uma empresa isolada. Então muito bem recebidos e a gente tinha a melhor qualidade para discutir detalhes do que fosse. A minha parte era técnica, o outro lá era comercial. Foi muito agradável, havia uma confiança muito grande na Vale do Rio Doce. Suponho que deve ter ainda. __________.

 

P/2 - Mas quando o senhor chegou em Itabira, a mina estava em transformação, estava mudando, era isso?

 

R - Não, ainda não tinha começado a mudar não, porque não tinha havido tempo, da época em que o presidente, o doutor Eliezer, o Eliezer Batista, quando ele foi para lá, ele chegou e estava... Tinha ido um engenheiro civil, o Mascarenhas, até já morreu, tinha ido para Itabira dar um socorro por causa daquela confusão lá das políticas. Então mandaram embora uma porção de engenheiros lá, da cidade, uma confusão danada. Então estava precisando de... Esse engenheiro era civil, porque ele estava indo é para o Rio, saiu de Vitória, estava indo para o Rio, passou por lá, ficou preso. Então chamaram um que fosse de minas e metalurgia, digamos assim, aí foi que eu fui. 

 

P/2 - E que tipo de transformação que tinha que ser feita ali?

 

R - Ah, sob todos os aspectos. Tanto aspecto de conhecimento de, vamos dizer assim, de minério, de acordo com o consumo atual. Não o minério, mas um consumo adequado a ser pesquisado pelos outros e procurado comprar. Dar alternativas inclusive para a siderurgia ter um tipo de potencialidade. E outra coisa também era a coisa de que estava se jogando minério fora, porque aproveitando só o 

 e muita coisa vai perdendo. Então foi um outro trabalho muito bom que foi feito mais tarde, foi a questão do itabirito. O itabirito era o minério que não era usado, do jeito que der. Era um minério... ele é de ferro, mas muito baixo teor. Então foi feito um estudo grande, quando era o doutor Eliezer, também o João Carlos. Então nós trouxemos _________ das minas. Então veio um grupo dos Estados Unidos, veio dois, três técnicos de capacidade, do Biroth Mining, aquele pessoal todo. Então nós discutimos ______ que foram feitos vários estudos e a Vale também tentando ser um laboratório ali em Belo Horizonte. Várias pesquisas foram feitas, o fato é que o itabirito não é mais jogado fora, hoje é um minério exportado. Isso aí mudou violentamente. Porque você ficava sem condição. Porque se não se aprimorasse a mina sob vários aspectos, ia ficar com as exportações pequenas. Agora nos últimos anos aí era a maior do mundo, né? Não sei hoje como é que está, que eu saí da área. Então, mas vários anos aí a Vale era o primeiro, segundo minério de qualidade. Mas tem que ficar atento nisso tudo, na mineração tem que ficar atento para não ser ser ultrapassado de repente por um outro lá adiante.

 

 P/2 - E em termos de mecanização? A mina era mecanizada já, do Cauê, quando o senhor chegou, não?

 

R - Não, era. Era mecanizada no sentido de caminhões adequados nessa parte de estrada, escavadeiras também de porte razoável, e tinha correia transportadora, descendo lá do Cauê. Mas não era ainda o ideal como é hoje. Que aí entrou, ao lado lá, tem a instalação de que limpa minério e a parte do Itabirito também. E tem outros equipamentos para transporte, caminhões gigantescos, escavadeira. Agora a mina vai abaixando.

 

P/2 - Quando o senhor chegou ela estava alta, estava lá inda?

 

R - Estava alta. A cova ainda tem um pedaço que ainda fica lá. Mas hoje tem Carajás. Carajás é uma fábrica de minério, então ela suporta bem o que faltar aí por baixo.

 

P/2 - E como é que era o cotidiano de trabalho lá em Itabira, senhor Geraldo, como é que era a relação com o pessoal da mina, com os chefes, como é que era esse dia a dia, o senhor lembra um pouco disso?

 

R - Não, o negócio era muito... Você fala, por exemplo, da parte de...

 

P/2 - Relacionamento com o chefe, como é que era trabalhar com os mineiros, o pessoal da usina?

 

R - Ah, não tinha problema não. Inclusive tinha mineiros, assim, de grande categoria, dedicados e muito interessados em achar o melhor modo de fazer alguma coisa. O pessoal era excelente, era muito pessoal que pegava, era muito pessoal da cidade mesmo, o pessoal era de lá. E depois era a parte de todos os níveis, a superintendência de engenheiros, engenheiros de nível maior, de nível menor, era uma comunidade muito boa. E com a cidade também. Com a cidade era muito bom também, que a gente, quando chegou em Itabira, Itabira era o seguinte: havia, assim, um certo distanciamento entre a Vale e a comunidade. Então havia muita coisa, assim, que a gente sentia que fazia falta. Não entrar com uma demagogia nem coisa nenhuma, nem assumir a coisa, que também não era a função nossa. Mas também assumir a função humana de em algumas coisas conseguir deslanchar outras melhores. Então foi feito, nessa hora ______ gostou muito disso e então estudou demais e pesquisou, fizeram lá um _________para crianças pobres. E fizeram lá uma porção de coisa, ________de roupa, que os próprios empregados faziam roupa para vender para os pobres. Então foi uma conquista, essa empresa, essa __________ continua lá, até hoje. Casas em mutirão. Estava uma porção de gente sem casa lá, gente que não trabalhava. Não tinha casa, montava aquelas barracas. Um dormia debaixo de uma capa de material, para te proteger contra chuva, que vinha em cima da escavadeira. Então ela foi jogada lá num canto, foram lá, tiraram, fizeram a casa com aquilo ali. Era uma coisa, assim, de... Então foi feito um estudo. Agora tudo sempre assim: nada dependendo da Vale. A Vale _____________________. No caso dela era dedicado inteiramente. Engenheiros também fora de hora de trabalho. Todos prestaram coisa, casa de mutirão, fizeram um punhado de casa lá no lugar. Os pobres pagavam, pagavam assim: uns aos outros, conforme o número de horas que trabalhava na casa daquele, daquele outro. Depois o outro retribuía. Então era uma vida muito bonita lá. Todo mundo ___________, coisa que foi trabalhada junto com a comunidade. Porque é uma empresa grande, assim, na cidade, principalmente na cidade menor. Menor eu digo por causa da proporção. Então ela tende a ficar muito parecido obrigada a se aproximar no sentido de dar coisas. Mas não é a função. A função é educar a cabeça do pessoal, de ensino. Foi feito muitos cursos lá para o pessoal todo. Dar ensino para que eles mesmos consigam, não ficar uma pessoa arranjada, tendo a vida arranjada por outro, mas ele mesmo construir. Dar um suporte para ele, mas o suporte muitas vezes é na parte humana, na parte de bater um papo com a pessoa, de indicar caminhos, coisa assim. Mas era tudo muito bom, graças a Deus foi. 

 

P/2 - A sua esposa participava também?

 

R - Ela que liderou isso tudo. 

 

P/2 - É? Era uma organização beneficente, é isso?

 

R - É. É uma associação beneficente no sentido, assim, inclusive de dar serviço ao pessoal que estava sem serviço. De ensinar a trabalhar e a gente vai para aqueles _____em forma de mutirão, começar a fazer as casinhas, mas com um engenheiro fora de hora de trabalho, também orientando como é que...

 

P/2 - Como que era o nome da instituição?

 

R - Era Lactário.

 

P/2 - Lactário?

R - Lactário. Começou com leite.

 

P/2 - É. E o senhor morava aonde em Itabira?

 

R - Bom, eu morava... você conhece lá, não?

 

P/2 - Conheço.

 

R - Ah, bom. Eu morava numa casa (

) que chamava... era a casa onde morou um americano, a casa da superintendência. Indo lá para Conceição de (Dois Córregos?), lá no alto do morro você vê uma casa lá. Depois da gente tem a praça de esporte, depois tem a fazenda Conceição, onde recebe hóspede. Então nessa casa que eu morava lá. Mudava de superintendente, mudava... 

 

P/2 - O senhor ficou lá em Itabira até quando?

R - Ah, eu fiquei em Itabira de 61 até 74, 73, 74, por aí. 

 

P/2 - O senhor chegou até... o cargo que o senhor chegou lá?

 

R - Não, eu fui em um e fiquei nele mesmo. 

 

P/2 - Ficou nele mesmo?

 

R - Agora depois eu fui tendo, lá ou nos outros que eu fui lá, fui tendo o seguinte: o Eliezer me deu ______de independente do assunto da área que eu estivesse trabalhando, eu era um assessor especial no sentido de assuntos de siderurgia e mineração, assessor dele. Eu podia ter uma outra função, mas qualquer coisa que ele tinha incumbido, o que ele queria e tudo, então eu seguia no trabalho. E vários desses aí foram feitos dessa forma. 

 

P/2 - Que tipo de coisa foi pedida para o senhor nesse período? Que tipo de atuação o senhor teve?

 

R - Não, muitas vezes... Eu sempre gostei muito de pesquisar e eu pesquisei muito a questão de usina de redução direta, porque é uma coisa que está evoluindo no mundo, que nem todo mundo tem _______. E depois é uma usina. Eu fiz um estudo aí num (briquitim?) aí, que você faz uma usina, é o caso do Brasil por exemplo, numa extensão territorial muito grande. Então, agora, é o seguinte: você concentra as usinas siderúrgicas em grandes usinas siderúrgicas na região aqui de baixo. Agora e depois, como é que caminha para o norte, como é que caminha para o oeste, para lugar assim? Então, nós não temos estrada que se preze. Você nos Estados Unidos, anda por lá, a estrada é um negócio que ninguém quebra a cara. Não tem estrada que se preza. Então fica aquele pessoal lá com custos violentos em matéria de transporte, com estradas horríveis, quebra caminhão. Como é que vai alimentar, você transportar minério, transportar minério de diversos tipos, equipamentos, tudo, lá para adiante para o norte? Lá para... fazer uma grande usina. Agora tem Tucuruvi lá, mas Tucuruvi está perto de uma mina lá. Mas então isso aí, o meu ideal é como eles estão fazendo: fazer diversas usinas pequenas que atendam as regiões. Quer dizer, a usina de redução direta você pode fazer usinas pequenas, você não tem grandes investimentos, então você faz a usina que atende... não precisa deslocar essa __________, com altos volumes de hematita, de não sei o que, não daria. Então ali não, você pode ter um menor volume, uma coisa assim. Então eu fiz isso tudo. Ele foi, pegou e achou muito bom, que ele também me acompanhava. Então pediu, aí eu fiz um estudo. Peguei, então, juntei com um grupo da Midrex, uma empresa americana especialista. Eu conhecia engenheiro de lá, porque trabalhou comigo na Ferro e Aço, de Vitória. Então foi feito. Fizemos lá um modelo para o caso da mina, do tamanho de uma certa mina. Então um modelo. Um estudo com ele, dando... viajava, ver a usina dele nos Estados Unidos. Mas depois acabou que o negócio não evoluiu, porque não quiseram, quiseram se manter num estado clássico, normal. O próprio Eliezer ofereceu para o governo o normal, uma coisa assim, mas não...

 

P/2 - Não apelou.

 

R - É. Não quiseram, acharam que... Depois soube que se arrependeram um pouco. 

 

P/2 - Isso que período mais ou menos? 

 

R - Ah, isso foi mais ou menos quando? 70 e tantos, 80.

 

P/2 - Porque o senhor, quando assume esse cargo de assessor, o senhor já veio para o Rio, é isso?

 

R - Não, não.

 

P/2 - Foi lá em Itabira ainda?

 

R - Eu era assessor onde eu tivesse. Ele me perguntava, me chamava, uma coisa assim. Então, eu tenho no currículo ali, eu estava mantendo como assessor. 

 

P/2 - Por que de Itabira o senhor foi para onde, quando o senhor saiu de Itabira?

 

R - Bom, eu saí de Itabira, eu fiquei um ano no Rio fazendo um estudo para Carajás, estudo de minério para o mercado. Então eu estudei a siderurgia mundial toda, as grandes usinas, ______ e os grandes compradores. Para ver o que que ainda lugar, ainda tinha lugar para ser uma boa freguesia de minério. Então fiz esse quadro, assim, mas depois eu fiquei lá sete meses, assim que terminou o estudo eu vim embora. Aí depois de certo tempo, então, eu fui... aí depois eu passei para Serra Geral, eu fui para Serra Geral.

 

P/1 - E o senhor, como assessor do doutor Eliezer, o senhor participou de negociações com os japoneses?

 

R - Bom, participava, assim, que tinha o doutor João Carlos, que era de uma outra área muito presente e ele sempre me chamava com alguma coisa desse tipo dos japoneses. E ele lidava muito bem com os japoneses, era uma pessoa excelente, gostei demais de trabalhar com ele. 

 

P/1 - O senhor foi várias vezes por lá? 

 

R - Ah, fui. Teve um período que eu tinha que ir lá, lá e nas Filipinas, duas vezes por ano tinha que ir lá. Nós estávamos trabalhando nesse negócio da mina de Capanema? e outras coisas lá também. Mas um pessoal muito sério, muito capaz.

 

P/1 - E para negociar?

 

R - Também. Tem que saber negociar com eles, o negócio aí é... tem que ter argumento. Que hoje um problema que tem é o seguinte: nós não pode, tem que ser aliado uma coisa à outra, se o comprador fosse só muito economista, o que vem do outro lado também é, então eles não contam as verdades. Agora, quando a gente vai lá e conversa, _________vendendo minério, conversando _______do alto-forno, uma coisa assim, _______solta as coisas. "Não, esse minério ________________." "E lá esse está concorrendo, esse não está, este é muito bom." Acho que se a gente fazer nesta... várias coisas o economista é fundamental, lá o que vai vender, é fundamental. Mas é bom ter também o apoio do pessoal da parte técnica, que pode dar um comentariozinho. 

 

P/1 - Comentário de?

 

R - Pode dar um comentário que esteja encoberto em algum modo de argumentar do outro lado. Que às vezes eles têm uma fraqueza e não falam, a gente fala da sua fraqueza, então você tem que fazer um ardil aí. 

 

P/1 - E o senhor era, quando ia lá e se relacionava com eles, essas conversas iniciais o senhor sentia boas vibrações, uma coisa positiva, que ia dar certo, ou sempre era com um pé atrás, uma coisa assim que não era muito, sabe, um pé atrás, ficar cabreiro, como se diz?

 

R - Ah, no caso deles lá?

 

P/1 - É.

 

R - Não. Não sei se outros em outras circunstâncias sentiram isso. Mas não senti não. Eu acho uma coisa importante com os japoneses, é o seguinte: aliás em todo fator, assim, de coexistência, é a questão de confiança, confiabilidade no que o outro fala. Pode falar uma coisa que a pessoa não goste. Mas ver se ele está assentado em bases firmes para poder falar uma coisa daquela. Então a pessoa ser... que aí não tem... Eu vou te falar que tinha uma coisa muito bem feita: quando reúne aquela turma toda para discutir, na hora da conversa entre eles eles falam, os japoneses, aí depois vem um porta-voz e transfere. Aí a gente fala e o porta-voz pega e vira para eles. Aí isso era interessante, porque quando a pessoa fala na língua do outro ele fica meio, assim, bloqueado por detalhes: "Não, como é que é mesmo?" A não ser que domine inteiramente o inglês. Mas fica uma coisa com palavras um pouco perdidas, não muito esclarecedoras. Mas já nesse caso não, ele fala na língua dele para o outro que fala na língua dele, o outro pega e fala, porque ele fala também daqui, mora aqui. Então fica tudo muito claro. Porque na língua dele não dá para entender. Então o Luís Antunes, a gente falou no Luís Antunes, não? 

 

P/1 - Não.

 

R - O Luís Antunes era ________. Falava com ele, eu viajava muito com ele lá, o lance dele era... eles têm um respeito por ele, _________. Mas é como ele fala: ele está no... não sei, eu até já perdi o número... ele fala com 10 mil palavras, não sei, deixa para ler até não sei o que, mas para ler outras coisas lá precisa de 60 mil, 50 mil. (riso) 

 

P/2 - Vamos fazer uma pausinha rápida?

(PAUSA)

 

P/2 - ... de Carajás? O que que o senhor foi estudar exatamente ali?

 

R - Eu vou ser rápido.

 Mas eu não soube mais o que que houve.

 

P/2 - O senhor lembra do potencial que tinha?

R - Não lembro, mas estava mais ou menos dentro do que se previa mesmo. Mas mais coisa poderia vir, porque realmente é uma reserva admirável, não tem outra coisa no mundo assim.

 

P/1 - O senhor chegou a conhecer?

 

R - O que?

 

P/1 - Carajás.

 

R - Ah, conheci.

 

P/1 - Esteve lá quantas vezes?

R - Não, só fui lá duas vezes, só fui lá para...

 

P/1 - E a impressão?

 

R - É gigantesco o negócio. Ainda tem outras partes lá que eu não sei como é que estão, porque eu me afastei disso, depois eu me aposentei, tudo. Mas, vamos dizer, tinha um problema que o Brasil é carente de cobre. Parece que tem alguma coisa de cobre lá. E estão falando já, não?

 

P/2 - Já.

 

R - Ah, o Brasil é carente. Nós temos muita coisa, temos o alumínio, temos a bauxita, temos o ferro, tem tudo, mas cobre. Tem um pouco lá na Bahia, tem uma mina lá na Bahia. Mas de modo que é uma mina de condições excepcionais aquilo lá. 

 

P/2 - Nesse período que o senhor estava em Itabira, que se descobre Carajás e tudo, já se discutia em Itabira a possibilidade de se esgotar a mina, se faziam previsões de quanto tempo levaria para esgotar o cauê, esse tipo de coisa, não?

 

R - Não, havia, sim, principalmente a preocupação da cidade. Porque a cidade é _______, ela fica preocupada quando tem uma fonte, assim, que de repente exaure. Então, não tinha, assim, uma coisa muito acirrada, vamos dizer, muito avançada, procurando. A gente sentia mais ou menos quanto tempo teria. Eu nem me lembro o número hoje que a gente calculou aquilo. Naturalmente o minério estava baixando, a gente estava acostumado a ver o cauê lá em cima, aí depois... A gente vê o cauê lá em cima. Então vai abaixando e a tendência é... agora por outro lado também tem o seguinte: felizmente tem as coisas boas e más, porque também tem o seguinte: assim como o filet mignon, aquele hematita maravilhosa, desaparece. Mas em compensação também muitas vezes outros países contam com uma coisa que não seja o filet mignon, mas a saída para uma alternativa com outro tipo de minério, qualquer formatação dele. Então sempre deve ir pesquisando, nunca deve aceitar a morte, vamos dizer, a extração definitiva, sem antes lutar e ver quais os caminhos, porque tem tanta mineração por aí que está lamentavelmente frágil, mas não efetivamente. Mas lá pode fazer qualquer coisa que seja mais... Mas realmente é complicado, a mineração dentro da cidade é complicada. 

 

P/2 - Senhor José Geraldo, como é que funcionava isso? Quer dizer, ia para o exterior, aí se descobre uma demanda de determinado minério. E a Vale não produz. Dá-se um jeito e produz, não? Fecha o negócio antes de produzir? Como é que era feito isso?

 

R - Bom, aí tem a parte que não é área minha. Então não sei a estratégia de fechar o negócio, não fecha. Então era todo mundo da mesma família. Mas o negócio é o seguinte: tem que estar sempre aceso para descobrir, para evitar uma perda de uma oportunidade. Como esses arranjos que foram a partir do itabirito. O itabirito estava dormindo ali, mas tinha que achar um jeito, porque ele podia aumentar bastante o aproveitamento da própria hematita e ele dele também. Mas então tem que estar sempre atento a essas ______ assim, porque a todo momento aparece uma novidade. Ou é do processo ou é do material, do minério. Ou o processo que evolui muito e fica ganancioso, querendo o minério de melhor qualidade e tudo, ou vice e versa.

 

P/2 - E a relação de vocês na mina com o pessoal da estrada de ferro, como é que era?

 

R - Muito boa.

 

P/2 - Muito boa?

 

R - A mina era o seguinte: a estrada de ferro, lá no meu tempo, era o doutor ______, pessoa excelente, não falava quase, diariamente, qualquer coisa que tinha ___________. A gente tinha aquele _______. Então conversava qualquer problema, assim, de contar uma coisa ou outra, problema que havia. Por exemplo, naquela época do Jango, foi um período difícil. Mais que a gente tivesse satisfeito de ver, é o seguinte: que a gente, apenas pelo respeito, pela dignidade com que se mantém, conversa com outro, principalmente com o pessoal de baixo, tudo acerta direitinho. Aí teve uma noite lá que na hora do ____ estava feio, um período que não foi fácil, o sindicato tem uma força violenta. O Jango lá em Brasília: "Por que que você não fecha aquele negócio lá?" Aí depois mandava para a gente _________. Mas o fato é que no enésimo dia da coisa foi pego um sinal, um caligrafista, um funcionário, ________: "__________, está vindo um recado lá de Vitória para parar os trens para não descer minério mais." Eu disse: "_____________________." Então, ____: "Está bom." Então fui, peguei e liguei para Vitória, tinha um _____________, era muito bom e tudo, funcionário. Aí eles fecharam o negócio e descobriram qual foi... um homem já, um cara, foi lá e fez essa maldade lá. E o pessoal lá de cima. Mas aí, quando nós contamos lá o que que era e tudo, então falei: "Não, o senhor tem que dar apoio total à Vale. Não pode fazer uma coisa dessa. Não entra nesse barco não, que você está errado. Depois pode prejudicar vocês mesmos. Todo mundo. Pode prejudicar o Estado, pode prejudicar o país, pode prejudicar você, todo mundo, suas famílias. __________." Então o pessoal que trabalhou venceram, bateram recorde de produção naquela noite. Ficaram orgulhosos, não teve nada. Desmontou um grupo de três ou quatro pessoas só, que estava fazendo um... Era um risco, né? Mas a gente tinha que agir com raciocínio, com rigidez: "Não pode, _________" Mas foi tranquilo. Vieram satisfeitos ______: "Doutor Vieira, ontem nós batemos o recorde." "Parabéns." (riso)

 

P/2 - Como é que era esse funcionário da Vale do Rio Doce, senhor Vieira? Vestia a camisa, como é que era esse funcionário da Vale?

 

R - Vestia. Era uma coisa que de fato a gente tinha, você via o pessoal todo está pronto para qualquer... disposto para qualquer extra, qualquer coisa assim. E dedicado, querendo aprender também. E a gente procurava fazer escola para eles também. Tinha umas escolas lá de aprimoramento de qualidade. Então tinha uma turma lá de alta categoria mesmo. ________.

 

P/1 - E a Vale reconheceu esse esforço, dava algum tipo de prêmio ou gratificação ao trabalhador?

 

R - Dava, aquele negócio que tinha os 12 anos e tinha mais o décimo terceiro, mais o _______ e mais um. Então todo mundo ganhava. Nenhum grupo era privilegiado para não ganhar, não. Uma melhoria, assim, no fim do ano, mas sempre pedia, nós mesmos, que classificamos o pessoal todo, pedíamos... central da parte de pessoal pedia para a gente fazer um levantamento para ver quem é que tinha condição ou não de receber um... analisava, mas punha quem? Punha junto com a gente também um encarregado, coisa assim, que ele também era analisado. Estão mais junto do homem lá embaixo, pode falar qualquer coisa boa ou qualquer coisa, assim, de restrição. Então muito bom. O clima era muito bom, eu realmente não...

 

P/2 - E o esforço de vocês na mina para conseguir entregar Tubarão no prazo, o Porto de Tubarão, quer dizer, como é que vocês estavam juntos nesse processo de construir Tubarão?

 

R - Estava junto para...?

P/2 - Conseguir entregar Tubarão no prazo, carregar os navios no prazo certo...

 

R - Ah, não, era com todo cuidado ali, com toda intenção de decidir logo, resolver bem. Não tinha nenhum corpo mole nessa parte aí não. No que dependesse de cada um, ele fazia e falava para o outro fazer também. 

 

P/1 - Mas havia um plano de metas? Atingir metas? Como é que era isso?

 

R - Mas metas como?

P/1 - Atingir os objetivos de transporte, de coleta do minério...

 

R - Assim, conforme a carência na ocasião, e também a necessidade de suprí-la. Não, isso não era... o pessoal ia em bloco mesmo, não tinha problema não. Eu nunca tive preocupação com isso não. Então nós tínhamos muito bem combinado esse problema do ________com a gente. Era a minha, estrada e porto. Os três eram... __________ tinha uma vantagem. Tinha um grupo fechado assim. ______ não tinha nenhuma vaidade de um lado, do outro, fazer isso ou fazer aquilo. Não, era uma integração completa. De modo que isso supriria qualquer deficiência de falta de material, do que fosse. Que um ajudava o outro lá, _______, avisava antes: "Está faltando isso, está faltando aquilo." Então muito tranquilo.

 

P/1 - E o senhor conheceu, foi para a inauguração, aliás, do Porto de Tubarão, esteve?

R - Fui.

 

P/1 - E qual foi a impressão, quando o senhor chegou e viu pela primeira vez essa obra?

 

R - Não, mas essa obra a gente viu, porque nós tínhamos periodicamente uma ida a Vitória. Periodicamente. Ia a Vitória ver como é que estava. Porque era quase uma continuação de tratamento de minério. Então a gente precisava de sentir, combinar alguma coisa que fizesse, como é que estava descendo, como é que estava ______ ia sair. Então estava sempre lá, então acompanhava. Tubarão a gente acompanhava crescer. Umas viagens rápidas, nós ia lá e... Então não deu choque, assim, porque realmente o negócio foi espetacular. 

 

P/2 - E a mineração em Serra Geral, como é que foi a experiência do senhor lá, que tipo de trabalho foi desenvolvido ali?

 

R - A experiência foi muito boa, até eu dei para... parece que eu dei para a ...

 

P/1 - A moça? Débora.

 

R - Débora. Até dei para ela um livrinho, ela gostou. Acho que ela levou. Depois ela passa para vocês, né? Porque na inauguração lá de Serra Geral, nós fizemos um livrinho manual, escrito, todo bem feito, assim, dando as características todas da... Quer dizer, foi uma mina, assim, muito moderna que nós fizemos naquela ocasião. Que era um costume que a gente tinha, o pessoal até falava lá em casa: "______, a melhor coisa era começar do princípio", embora pareça estranho, "uma mineração." Qualquer obra, né? Que quando você já pega lá no meio, ali já teve problemas de faltas da parte de travas, faltas involuntárias ou por falta de produto, o que for. Mas, enfim, não há como você começar a fazer uma receita exata de uma coisa _________. E lá foi uma experiência que nós fomos vivendo. Eu, o Antônio João, o pessoal todo trabalhava lá. E foi tudo projetado para aquele caso lá e com as melhores idéias. Inclusive com muita cautela. Tudo era muito discutido. Eram dois japoneses, dois brasileiros. Eu era o presidente, o Antônio João operações. Um dos japoneses era pessoal e o outro era finanças, parte econômica. Eram dois a dois. Mas então foi um negócio muito interessante aí, porque houve um campo de trabalho muito bom. E conseguiu se obter resultado. Nesse livrinho que eu deixei com a ...

 

P/1 - Com a Débora.

 

R - ... Com a Débora. Tem lá vários dados interessantes, porque inclusive nós fizemos o projeto ficar pronto mais barato do que foi estimado antes. Ele custou menos do que foi programado primeiro, tal a qualidade do trabalho envolvido. E depois teve soluções muito boas. Por exemplo, até cito naquele livrinho que eu mandei, um papel desses que eu mandei, se não tiver depois eu arranjo outro. Tem, não?

 

P/2 - Tem.

 

R - Ah, pois é. Então é o seguinte: a mina de Capanema fica lá no alto, no pico, começa lá em cima no pico depois desce, tem que abaixar de novo. Então tem o seguinte: o britador está lá em cima, ______ o minério, tudo. Aí pára Timbopeba. Timbopeba, conhece lá?

 

P/2 - Não.

 

R - É. Timbopeba é outra estação depois do... preparação de minério, dali chega o trem Vitória-Minas e leva para Vitória. Então tinha... o problema era descer lá do alto do Capanema, que é muito mais alto do que Timbopeba, descer e levar a Timbopeba sem causar danos ecológicos, sem causar prejuízo a terceiros, tem gente que tem vegetação aí, envolve tudo, arrasa tudo, um negócio que é errado fazer. E mais econômico. Então começamos a estudar lá, tudo. E a idéia que tinha era fazer ou ramal de trem da Vitória-Minas e ir até lá em cima, depois descer, ou caminhão fora de estrada. Bom, mas a gente, com a experiência de Itabira, lembrava assim: "Bom, vai ser um negócio, uma guerra. Porque o custo é altíssimo, além de tudo é um negócio, assim, que trazia devastação para tudo quanto é lugar. Lá tem vegetações, tem coisas bonitas por lá, _______ para o pessoal que mora lá. Então aí um cara da Mitsubishi, que faz parte do grupo da ________. Então combinamos, eles trouxeram um projeto. Trouxeram, mandamos desenvolver e tudo. Então foi feita uma correia transportadora à longa distância. À longa distância ________. Então foi instalada lá, naquele trecho todo, quase 11 quilômetros, coisa assim. E depois tem o seguinte: não cai uma pedra fora desse _____. Está limpinho ali em volta, chega lá embaixo, tudo certinho. Aí cai no vagão lá de Timbopeba, onde está o trem parado, vai até Timbopeba, vai lá, cai lá e ele leva para Vitória. Não deu sujeira em lugar nenhum, nem perdas. E o pessoal da região todo radiante, porque as casinhas de pastos, podia destruir tudo. Mas não deu muita coisa, assim, que... isso não era muito comum no Brasil, porque tem correias transportadoras... a gente sempre vê, eu já, antes, há muito tempo atrás, no trabalho, mas uma correia transportadora pequena, que tem na construção civil também. Mas ali era uma correia impressionante de tamanho.

 

P/2 - Quanto que era? 11 quilômetros, o senhor falou?

 

R - É, enorme. E a altura de 40 metros, vários vãos. Então ela descia ______, tudo controlado por computador. Mas de modo que foi uma coisa de melhor qualidade. Agora, então, começaram a aparecer casos. Já até pouco tempo eu vi, eu estava lá em Ouro Preto, passa uma correia transportadora ali. Já é uma mina da NBR descendo minério ali. Até estão tão entusiasmados e estão fazendo. Agora duvido que, não sei como é que _________, tem uma outra idéia da Mitsubishi. É muito bom. 

 

P/2 - Como é que foi esse acordo do Japão com o Brasil para a mineração em Serra Geral?

 

R - Japão foi o seguinte: em 1976, depois eu confirmo, o presidente Geisel foi ao Japão. Então, junto estava o Eliezer também e acho que o João Carlos também estava. Então foram ao Japão. Então o pessoal da Kawasaki sempre foi muito chegado na coisa, então oferecem o seguinte: eles falaram... que eles tinham umas minas aqui, perto da região ali de Capanema, é uma mina que eles tinham aqui há mais tempo, mas não estava explorada. Então o que eles fazem é o seguinte: como parte da participação deles no, vamos dizer, na mediação para comprar, para gastar e tudo, por exemplo, eles cediam o minério do lado deles. E depois também traziam o negócio, o projeto. Então foi feito lá e depois definiram o negócio, assinaram o acordo preliminar lá em Tóquio. Quando chegaram aqui no Brasil, aí já foi decidido deflagrar o negócio, estava tudo aprovado lá pelos dois presidentes. Então ______ nomeado presidente e nós conseguimos a diretoria lá, japonesa-brasileira, e tocamos o pau. Até ficar prontinho para começar a trabalhar. Começou a trabalhar, aí pouco depois veio a inauguração lá. 

 

P/2 - E o senhor continuou presidente?

 

R - Continuei.

 

P/2 - O senhor ficou ali até quando?

 

R - Ah, eu fiquei lá uns sete anos, mais ou menos. Ou seja, a reeleição _____. Mas então... eu posso _____ o número errado, eu posso ______?

 

P/2 - Não, não.

 

R - Porque além de tudo tem o seguinte: por exemplo, não sei hoje como é que está. Porque esse minério calculado para a produção agora num certo ritmo, ele vem até uma cota, mais ou menos, 1.100, 1.400, por ali. Bom, agora depois dessa cota tem minério. Então poucas prospecções têm minério ainda. Ainda mais é bom que quando começar a desbastar mais a parte de mina, então é melhor acesso sem estar na região você furar, fazer uma furação nova, que pode prolongar aquela mina mais ali. E na coisa identificaram que tinha minério para baixo, ainda viram uns rastros lá para baixo. Mas é uma mina muito moderna. Não teve lá ______?

 

P/2 - Tive em Timbopeba, Capanema não.

 

R - Capanema é mais moderna, é muito limpa, muito moderna. 

 

P/2 - E depois da mineração em Serra Geral o senhor foi trabalhar aonde?

 

R - 

 

P/2 - O senhor pediu demissão?

 

R - É. Não tinha mais assunto?

 

P/2 - (riso) O senhor foi primeiro para o Conselho de Administração da Vale também, é isso?

 

R - Não, fui membro do Conselho de Administração da Serra Geral, o tempo todo.

 

P/2 - Da Serra Geral? 

 

R - É, além de presidente. 

 

P/2 - Mas o senhor foi para Belo Horizonte e pediu demissão da Vale mesmo?

 

R - Como?

 

P/2 - O senhor foi para Belo Horizonte, depois pediu demissão da Vale?

 

R - Não, eu fiquei, assim, à disposição da presidência. Não estava aparecendo coisa nenhuma lá, então eu fui, peguei e aposentei, pedi demissão e aposentei. 

 

P/2 - Aposentou? E o senhor depois foi trabalhar com que?

 

R - Não, eu continuo sempre estudando. Umas coisas que a gente aprende lá atrás, eu assino as revistas da IBM, estou sempre lendo, mas no momento... já não está fácil trabalhar agora não.

 

P/2 - Mas então o senhor aposentou e parou de trabalhar mesmo?

 

R - Trabalhar, assim, parei. Além de tudo o mercado estava muito ruim, as empresas estavam custando... agora melhorou um pouco... as empresas estavam custando muito a ... Eu tinha um problema: era tempo do pessoal admitir, a demitir. Estava precisando demitir, as outras empresas aí. Então como é que elas iam pegar uma consultoria? Paga uma consultoria, mas não podia demitir o pessoal por estar na legislação antiga. Então tentei uma consultoria que eu estava registrado inclusive nos Estados Unidos, mas várias vezes eu recebi coisa antes e antes eu estava trabalhando. Aí fui mandar ver, desisti, porque... também vai chegando num certo ponto que a gente vai tendo as limitações.

P/2 - E o senhor foi morar, o senhor ficou morando em Belo Horizonte, não?

 

R - Fiquei.

 

P/2 - Ficou morando em Belo Horizonte?

 

R - _________.

 

P/1 - Atualmente o senhor mora lá em Belo Horizonte? 

 

R - Moro. 

 

P/1 - Em que lugar, que bairro que é?

 

R - Eu moro no Carmo, Carmo Sul. Você conhece lá?

 

P/1 - Conheço. Morei lá cinco anos.

 

R - Ah! Carmo é meu bairro de lá. Que eu morei lá... eu morei várias vezes, os meninos nasceram lá. Mas eu morei lá em ________, num prédio construído lá, eu comprei lá ______, prédio muito bom. Lá para cá. Mas tem um barzinho ali em frente... Eu sempre gostei de trabalhar de noite, desde o tempo de Ouro Preto. A gente dava as viradas de noite. Direto a gente virava a noite de plantão. Então eu gostava da noite. Acho que tudo sossega, fica mais fácil para você raciocinar. Ah, mas eu não aguentava não. Batucada, mas violento ali.

 

P/1 - Muito bar, né, muito boteco?

 

R - É bar, ________. Eu chamava a polícia lá, iam lá. Aí ______ botava um dinheirinho no bolso dele. ________. Então ligava de novo. "Escuta, ______ barulho." "Não, mas nós mandamos." Aí eu falava: "Mas o carro de placa tal, tal, tal não manda mais não, que ele já levou uma bola aqui e já foi embora, _________." "Ah, o senhor desculpa. Tem disso mesmo. Eu vou mandar outro." Aí mandou um que fechou. Ah, mas não dá não. Fim de semana, então. Então quando a Atlética ganhava, porque tinha lá uma plena banda, a banda da Atlética, aquela batucada na rua. Ah, mas _________. Aí começava de tarde.

 

P/1 - Antes do jogo.

 

R - Hein?

 

P/1 - Antes do jogo. E se ganhava, aí é noite adentro.

 

R - Ah, era. Mas então saí de lá por causa disso. Eu não podia trabalhar de noite, não dava nem para pensar. Então mudei lá para o Carmo Sul, ali é uma tranquilidade, um silêncio. 

 

P/2 - E o senhor mora com quem hoje?

 

R - Hein?

 

P/2 - Quem mora na casa do senhor?

 

R - Agora está eu e minha senhora. Mas eu tenho uma filha, essa que trabalha na Vale, é geóloga lá, ela mora lá perto, mudou agora para lá perto. Então, meio quarteirão ela vai lá em casa. E uma outra também está assim, é perto. Estão fazendo uma experiência lá. Agora a filho, o caçula, ele é engenheiro, trabalha lá na Samarco lá, uma empresa que trabalha para a Samarco. E a outra, Maria Cláudia, mora aqui em Niterói. É Belas Artes, tem dois filhos. Mora aí e o marido dela é geólogo da Petrobrás.

 

P/2 - É geólogo?

 

R - Formado em Ouro Preto. Está até no retrato ______.

 

P/2 - O senhor tem uma filha que trabalha na Vale?

 

R - Tenho. Entrou depois que eu saí. (riso) É porque eu não tenho coragem. Pistolão meu não vai não.

 

P/2 - Tinha muito pedido de pistolão lá na Vale? 

 

R - O pessoal acostumou a não, mas sempre tem... Mas é muito raro, a gente não vê não. Eu, por exemplo, não acho isso certo não. A pessoa vai pelo valor dela, embora, vamos dizer, conforme a criação ela pode levar também as outras questões, honestidade. Bom, mas vale a formação dela. Mas ela nunca me falou que foi fazer ______. 

 

P/2 - Mas quando o senhor estava lá em Itabira, vinha muita gente pedir para o senhor, essas coisas, não?

 

R - Ah, pede. Lá tem o pessoal lá de baixo, eles sempre pedem ali. Mas a gente sempre que possível procurava mesmo contratar pessoal de Itabira, porque o pessoal já é enraizado ali. Então para a pessoa ir lá, ali já conhece quem foi o pai, quem é que é o pai dele, como é que a pessoa é, todas as qualidades dele. Agora de fora era uma surpresa. Depois não é justo também, a não ser cargos que não tem nenhuma condição, por exemplo. Mas um cargo que tem condição. Agora sempre concorria, né? Não era assim. Aproveitava que tinha que chamar alguém, fazia uma lista lá e anunciava e pessoal ia lá.

 

P/2 - E o senhor hoje, qual é o seu lazer, o que que o senhor gosta de fazer no dia a dia?

 

R - Bom, a gente sempre lembra, né? Eu sempre lembro tanto da parte técnica como da parte de... as partes de literatura, essas coisas assim. E música clássica eu sempre gosto muito, gostei muito. Eu comecei o meu casamento, ajudou no começo. Mas... e saio muito, vai à clube, tem um clube lá muito bom, campestre. A gente vai lá, domingo, coisa assim. E normal, assim, cinema, uma vida normal de quem já não está fazendo mais nada. (riso)

 

P/2 - E esse gosto pela música clássica vem da onde?

 

R - Ah, vinha. Lá em Ouro Preto, quando eu era estudante, fazia o seguinte: eu sempre gostei de música clássica. Então chegava de noite e comprava aqueles discos LP. Comprava aqueles discos ali e ia lá para o centro acadêmica numa hora em que não tivesse mais ninguém na rua, nem nada. 11 horas, 11 e meia. Ia lá , punha os discos, Mozart, Beethoven. Dali a pouco aparecia um, depois aparecia outro. Depois assim tudo, e formava um grupinho lá. Então chamava "Boate Zé Vieira". O apelido ____. (riso) Era boate de música clássica. Aí a gente ficava lá à noite, a uma certa hora, porque todo mundo tinha que estudar também, parava. Era uma boate diferente. E aparecia muita gente, a gente não sabia, aparecia lá, sentava, ficava quieto, no fundo era um amante da música também. 

 

P/2 -

 É, Ouro Preto tinha muita tradição musical, né?

 

R - Ah, bom. Lá teve um trabalho, não sei se você viu aquele trabalho da Renascença, tem um grupo lá, eu até tenho uns discos dele. Fizeram umas obras espetaculares aí, tem sucesso até no exterior. Eles fizeram umas ladainhas, umas coisas assim, mas muito de alta categoria. Lá naquela Igreja do Pilar, aquela toda dourada. Então fizeram e tocavam lá. Lá tem muita...

 

P/2 - Senhor Vieira, o senhor olhando a sua trajetória de vida, pessoal e profissional, se o senhor tivesse que começar de novo, o senhor mudaria alguma coisa? Se o senhor tivesse que tocar tudo de novo, o senhor mudaria alguma coisa nessa sua trajetória, não?

 

R - Não, a gente sempre pensa em fazer melhor do que ontem. Isso é presente. Mas sem a necessidade de mudar o que. Eu ainda continuaria na área que eu entrei _______. Gosto de muitas outras coisas. Gosto muito de astronomia. 

 

P/2 - Astronomia?

 

R - Gosto muito de astronomia, de tudo quanto é... vivo comprando coisa que tem o negócio voltado para o cosmo, e lendo coisa assim. Mas isso não é uma coisa que só pode ser... que eu tinha que ser novinho para começar de novo. É um curso muito violento. ______ comprando livro, dá para acompanhar do livro. Como é que chama aquele negócio?

O americano que morreu, fez dois livros lá?

 

P/2 - O Hawkin

 

R - Hein?

 

P/1 - Stephen Hawking, aquele rapaz tetraplégico que escreve, do buraco negro? Não?

 

R - Não, não é não. Não é o do buraco negro não.

 

P/2 - Carl Sagan.

 

R - É, Sagan, Carl Sagan é muito bom. Tenho o livro dele, dois livros dele muito bons. Morreu, né?

 

P/2 - Morreu. E projetos, o senhor tem projetos? 

 

R - Projetos? 

 

P/2 - Sonhos, projetos?

 

R - Eu tenho projetos para os outros. Projetos para os meus filhos (riso) e que eles percorrem um caminho longo, muito bom. E bom como foi para mim. Graças a Deus, Deus caprichou comigo e me... Que bobagem e dor de cabeça todo mundo tem que ter, né? Nós somos humanos, não pode ser, mas o principal é que a gente tem sempre uma auréola de proteção, assim, que... E o principal é isso, o ambiente, eu acho o ambiente de casa, que seria o mais equilibrado possível, o mais intrincado, o mais colaborador um com o outro, não pode... Estar fora já é tão difícil às vezes. Por exemplo, o negócio de transformar, ou como que acontece por aí, ______ o pessoal casa e descasa, casa e descasa. 

 

P/2 - Eu vou pedir para o senhor contar o que que é, como é que é esse... o brochinho, o senhor contar o que que é esse brochinho.

 

R - Isso aqui?

 

P/2 - É.

 

R - Ah, não isso aqui foi da Escola de Minas. Da Escola de Minas eu não te falei isso não?

 

P/2 - Falou. Não, a história da Escola o senhor contou, mas do brochinho não.

 

R - Não, pois é, dele que eu estou falando. É como é que o Gorcés foi para lá, não? Falei, não?

 

P/2 - Isso o senhor contou.

 

R - Não, pois é. Então na época lá do Gorcés?) que fizeram esse escudo da Escola, que tem uma parte azul e uma parte vermelha. Você vê que a França dele veio mais ou menos no desenho, e tem dois martelos. Quer dizer, "cumenta et malio". É uma regra para a mineração: "com a mente e o martelo", aquele martelo que a gente bate na pedra para ver, "cumenta et malio". Então isso ficou consagrado lá na Escola. Todo mundo tem os dois martelinhos. Engraçado que uma vez eu estava andando na Itália, um sujeito chegou para mim e falou assim: "Camarada!" Acho que ele olhou depressa, não viu, achou que era comunista. "Camarada!" (riso)

 

P/2 - Senhor Vieira, então vou fazer uma última pergunta para o senhor: o que que o senhor acha de um projeto de memória da Vale do Rio Doce e de o senhor ter dado um depoimento?

 

R - Eu acho muito bom, eu acho que essas recordações ________ são muito boas, porque elas ensinam ou aprendem. Porque com a passagem do tempo, muitas coisas mudam, mas também em prol das circunstâncias que as envolvem. Mas então muitas vezes a pessoa critica uma coisa lá de trás, mas não sabe como, em que condições que a coisa pode ser feita até aquele ponto. Então isso tudo é bom, porque acho que rejuvenesce a mente da gente e eu acho sempre vantajoso um processo desse, porque depois a gente vai... muita coisa que uma pessoa sabe ou já teve experiência nela e a gente pode não ter, ou vice-versa. Então é bom essas recolocações, essas revisões, que a pessoa: "Ah, é mesmo!" Eu acho muito útil, muito vantajoso. 

 

P/2 - Então...

 

R - E vocês estão de parabéns.

 

P/1 - A gente agradece .

 

P/2 - Agradece muito. Foi ótimo.

 

R - Com todo prazer.

 

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