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História

A herança maldita

História de: Edna Dupas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/01/2022

Sinopse

Em seu relato, Edna Dupas relembra diversos momentos de sua vida: começa contando sobre seu desejo de estudar na infância, depois fala sobre sua juventude na cidade de São Paulo. E, por fim, relata em detalhes a história da herança que herdou de sua tia, uma história que envolve morte, incêndio, sufoco e até um assalto.

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História completa

P/1 - Dona Edna, eu gostaria que a senhora falasse seu nome completo, onde a senhora nasceu e quando a senhora nasceu?

 

R – Meu nome completo é Edna Dupas, eu nasci em Descalvado, Estado de São Paulo, minha idade é 68 anos.

 

P/1 – Certo, Dona Edna, me conta um pouco como era a sua família?

 

R - A minha família era composta de... Família simples, ne? Papai, mamãe, uma avó - mãe da minha mãe -, três homens e só se só eu de mulher, né? Todos muito simples, todos sempre trabalhadores, não tiveram oportunidade de estudar, mas sempre trabalhando. Trabalhando desde menina, desde dos 7 anos. Eu não tive oportunidade, assim, de ter uma vida regalada, desde dos 7 anos, eu sempre trabalhei.

 

P/1 – A senhora trabalhava em quê?

 

R – Bom, naquele tempo que morei em Limeira, minha mãe trabalhava na laranja, lá era terra da laranja, então, quando eu tinha oportunidade, eu esquentava o almoço para ela e ia levar lá, já levava minha bolsa de escola, porque eu ficava duas, três horas lá ajudando, empapelando laranja e de lá já ia para o grupo escolar, né? E todo dia era assim. Na salinha que eu trabalhava duas, três horas lá, eu ganhava meu dinheirinho, né? Porque era um serviço só de carimbar laranja. E foi indo, foi indo até a idade de 10, 11 anos, assim, até acabar o curso do primário, depois que eu acabei o curso de primário, nós vamos morar em São Paulo, de pouquinho em pouquinho, nós viemos aqui para São Paulo.

 

P/1 – Veio a família toda?

 

R – Veio a família toda para cá, inclusive, uma cabra da minha avó (risos).

 

P/1 – Como é que é isso?

 

R – A cabra?

 

P/1 – A mudança, a cabra?

 

R - A minha avó era assim, sempre morou conosco, né? Cada filho que a minha mãe teve ela já arrumava uma cabra porque na ocasião que nascesse o filho, dava o leite, então, tinha leite também para nós, né? Cada filho que nascia era garantido com leite da minha mãe e o leite de cabra, então na ocasião que nós viemos morar para cá, minha vó não quis deixar de trazer uma cabrita, então veio uma cabrita aqui pra são Paulo (risos).

 

P/1 – E o que mudou na vida da senhora depois que a senhora veio pra São Paulo?

 

R - Mudou muito porque uma vida do interior e uma vida de São Paulo é bem diferente, né? No interior a vida é mais simples, aqui é mais sofisticada, mesmo que naquele tempo de 36 era tudo bonde, bonde, eu estava aqui na idade de 13 anos, mas na idade de 13 anos, eu já comecei a correr essa São Paulo aqui, né? O meu irmão, que trabalhava muito, não tinha tempo, então ele me ensinou a ir na Caixa Econômica pra ele, naquele tempo era só na Praça da Sé, eu ia na Praça da Sé para fazer os depósitos de dinheiro para ele. A primeira vez ele foi comigo, depois eu ia sozinha, pagar a Light também, naquele tempo, era na Light ali no Viaduto do Chá. A primeira vez ele foi comigo, depois eu que tinha que ir com 13 anos correr essa São Paulo toda porque ninguém tinha tempo, né? Então era eu que tinha que correr. Foi assim, como eu nem tirei diploma primário, ninguém se lembrou mais nada de mim porque naquele tempo era só pensar em trabalhar, trabalhar porque minha mãe veio aqui em São Paulo e começou uma pensão, eu era a tal da ajudante de cozinha, ajudante de rua, andar para rua, lavar prato em casa, né? Então ninguém pensou mais em me mandar estudar, que hoje achei muita falta. Achei muita falta durante minha vida, né? Mas como naquele tempo eu tinha três irmãos homens, minha mãe só pensava em me mandar aprender costurar. Eu fui aprender costurar, bordar a máquina, aprender o corte e costura, marchei muitas oficinas de costura, aprendi muito bem a costurar, tudo né, mas eu não estava contente. Eu queria estudar e eu via uma amiguinha minha sempre saindo com os livros, ela falava: “Estuda comigo lá, vamos estudar, Edna, você depois vai trabalhar escritório, em banco, não sei o quê”. Eu falava em casa, mas ninguém queria saber que eu fosse estudar. Um dia ela falou “Vamos lá comigo. Você vai ver como é bonita”, a Zilda, não esqueço dela até hoje. Um dia eu fui lá com ela na escola, já me matriculei, já fiz minha matrícula. Naquele tempo, não pagava matrícula, nem nada. Fiz minha matrícula, cheguei em casa, falei para minha mãe, “Mamãe fiz matrícula na escola”, meu irmão mais velho ficou bravo comigo que só vendo, “Só quero ver quem vai pagar”. Falei: “Não sei, o dinheiro tem que sair, chegou no fim do mês tem que sair o dinheiro da mensalidade”.

 

P/1 – E como a senhora fez?

 

R – No final do mês ele saia, ele disse “Então, você vai costurar para pagar”. No fim, a costura naquele tempo não rendia muito, era muito baratinho, né? Então, eu sei que no fim do mês ele me dava as mensalidades, estudei três anos Prática de Comércio, tudo, datilografia, depois me formei, cheguei me formar. Depois taca procurar emprego em banco, escritório, daí comecei trabalhar em banco, trabalhei a vida inteira em banco.

 

P/1 – E a senhora fazia o que no banco?

 

R – Na seção de cobrança. Trabalhei muito seção de cobrança, inclusive a noite também fiz curso de enfermagem, a noite trabalhava no Fanfula, eu trabalhava no escritório, tudo para ganhar um dinheirinho a mais porque banco nunca pagou direito. Até hoje, né? Até hoje não paga direito.

 

P/1 – E as diversões, o lazer, as festas?

 

R - Olha, diversão daquele tempo era o cinema, como era barato a gente ia nos cinemas que às quintas-feiras pagava meia-entrada, domingo... Sempre sobrava um dinheirinho para gente ir ao cinema, né? Dava pra gente ir ao cinema, não é como hoje que não dá não. Aquele tempo dava para a gente ir com dinheirinho e tinha aqueles vai e vem também naqueles bairros que tinham, né? Tinha vai-e-vem a gente ia naqueles, como meu pai dizia “Vocês vão no rendez-vous”, meu pai era francês, rendez-vous em francês é um lugar onde ficavam moças assim... “Não tem importância pai, é o único lugar que não paga, então a gente vai passear lá” (risos). E não era, era aquele vai e vem que tinha nas ruas, que tinha por aí, né? A gente ia querendo arrumar namorado, tinha 21, 22 anos e eles não gostavam que eu ia também, né? Baile então, nem falava. E hoje na terceira idade tem muito baile, aí eu aproveito porque tá tudo aqui ó (risos).

 

P/1 – O que você acha que mudou em São Paulo, de uns tempos pra cá?

 

R – O que mudou, bem? Ah, mudou demais, movimento, movimento demais, muita gente, as coisas bonitas deixaram de existir, né? Agora não tem mais aquela fisionomia como a São Paulo daquele tempo não, é bem diferente, bem diferente. Quer dizer, a gente já vai tocando, o que já pode aproveitar já foi, né? Então aproveita o que pode (risos).

 

P/1 – A senhora participa de algum grupo, alguma associação?

 

R – Não, minha associação é na casa da Solidariedade do Campos Elíseos.

 

P/1 – Qual atividade que a senhora faz?

 

R - Faço yoga, eu fiz o curso de artesanato, faço parte também do jornal.

 

P/1 – Como é feito esse jornal?

 

R - Bom, o jornal é uma coisa interessante que nós estamos começando agora, é o terceiro número, aliás o segundo número, o jornalzinho, então tudo que a gente puder arrumar de novidade para pôr no jornal... O nome não existia, nós fizemos um sorteio, foi sorteado o nome, o nome do jornal é Nova Esperança. Então nós temos artigos de poesias, artigos de receitas, artigos de novidades que vai existindo, artigos de trocas, aniversários, entendeu? Aniversários... Os cinemas que existem aqui nessa estação da Lapa também, conforme tem o cinema vamos dando os filmes, tudo isso é anotado no jornalzinho.

 

P/1 – E a equipe?

 

R – A equipe é de duas, três porque o jornal está começando agora. Não está muito enriquecida de muitos repórteres, eu digo repórter, quem trabalha para jornal repórter, né? Mas o pessoal lá não é muito entusiasmado não, as mais entusiasmadas sou eu e outra lá, que nós somos mais entusiasmadas.

 

P/1 – Foi ideia da senhora?

 

R – Não, foi ideia delas mesmo, da coordenadora lá, né? E saiu o jornal. Mas eu sempre gostei de jornalismo, né? Por isso que eu acho que me arrependo de não ter estudado, eu acho muito bonito e quando surgiu que ia sair o jornalzinho logo me alertou de tomar parte também, né? Mas é com umas ideias assim que não são muito avançadas, mas eu acho que já tira aquela vontade da gente, né? Eu acho que a gente gosta, eu me sinto bem escrevendo, eu tenho muita facilidade de argumentos, de tudo, né? Eu vejo as coisas, eu gosto, eu aumento até, eu não escrevo o que eu vejo, eu tenho argumentos, entendeu? Eu acho que é muito interessante.

 

P/1 – E hoje, como é que é o dia a dia da senhora?

 

R – Meu dia a dia? Bom, o que eu faço no dia a dia... É que eu faço muitas coisas, assim, para pobres, né? Eu faço muitas coisinhas para pobres, eu fiz muitos sapatinhos para crianças pobres, agora eu tive um sobrinho que ficou muito doente no hospital, então eu fiz uma promessa de fazer 50 gorrinhos para Hospital do Câncer, para os velhinhos. Domingo eu fui lá na cidade dos velhinhos, levei gorrinhos, distribui gorrinhos para eles, pra cabeça deles, né, gorro de lã. Agora minha atividade é essa, estou fazendo colares, colares de papel, muito interessante, que é muito bonitinho também, eu vou dar para as velhinhas lá, já perguntei a elas, elas querem, então qualquer hora eu vou lá distribuir colares para elas também.

 

P/1 – Onde que é essa cidade?

 

R – É lá em Itaquera na cidade dos velhinhos.

 

P/1 – A senhora vai sempre lá?

 

R – Vou. Domingo teve a festa lá, né?

 

P/1 – A senhora tem algum trabalho ligado a cidade dos velhinhos?

 

R – Não, eu vou bem espontânea, à vontade.  Eu vou mesmo, eu faço, eu doo, eu arrumo. Eu vou lá no Palácio do Tricô, peço aqueles restos de coisa que elas fazem lá na máquina de tricô, elas me dão, eu vou nesses depósitos de lã, sempre me dão, quando não dão, eu vou me virando, fazendo o que eu posso para os velhinhos, sempre tem que fazer alguma coisa, né? De caridade.

 

P/1 – A senhora tem amiga?

 

R – Não, eu faço por mim, eu faço por mim. Porque depender de amigo... Às vezes, elas não têm as mesmas pretensões que eu tenho e pedir favor, a gente fica mesmo acanhada, né? A gente pede uma, duas vezes depois não tem mais liberdade de pedir, então eu faço por minha conta mesmo. Faço por minha conta.

 

P/1 – Mas a senhora tem amigas, a senhora saí com elas?

 

R – Tenho uma amiga só que é essa que eu falei aqui para você, a Carmem. Tenho diversas amigas, mas sempre tem uma que é mais importante, de sair para lá e para cá, às vezes que ela fica doente, eu vou lá, eu fico doente, ela vem me cuidar, precisa, né? Precisa, a gente mora sozinha. Ela mora sozinha também.

 

P/2 – Edna, e as viagens, você tem viajado?

 

R - Ah, viagem.  A viagem, você quer que eu conto uma viagem, só? Que eu fiz para Europa? Porque essa que eu quero contar, porque a outras por aqui não tem importância não. Bom, tudo começou com uma herança que eu tinha, aliás, começou a com uma herança não, com uma tia que eu tinha, solteira na França, de 97 anos e com bens que tinha lá, na França. Essa tia escrevia para nós se os quatro sobrinhos, que ela era solteira, se interessavam nessa herança. Como eram três casados, eu só solteira, então eu escrevi a ela, eu perguntei aos meus irmãos o que eles queriam, o que eles queriam fazer... Dá tempo?

 

P/2 – Da uma resumidinha...

 

R - Então, ninguém se interessou, agora como eu sou solteira, eu escrevi a ela para pôr no nome dos quatros, mas se vê que ela consultou algum advogado, ia dar muito trabalho porque eles eram casados, precisava da documentação de tudo, né? E ela pôs no meu nome só porque eu era solteira e ia dar menos trabalho. Eu, nesse tempo, tinha a minha mãe viva, que eu cuidei da minha mãe até o fim, né? E daí eu falava para minha mãe: “Mãe, eu não sei o que eu vou fazer, acho que eu vou desistir também dessa herança porque para ir para França e deixar a senhora sozinha aqui, eu não tenho vontade”. Ela falou “Faça o que você quiser”, ela falava. Mas é uma coisa que você precisa pensar porque isso aí é coisa ainda dos meus bisavôs, né? Ficou pros meus avós e depois ficou para minha tia, minha tia era sozinha, para quem que ia ficar? Tinha que ser nós, os únicos herdeiros moravam aqui no Brasil. Daí minha mãe veio a falecer uma enfermidade muito longa, veio a falecer, faleceu, daí eu fiquei sozinha, né? E ela escrevia: “Vem para cá, agora você está sozinha tem que cuidar do que é teu” porque ela pôs tudo no meu nome e eu não sabia o que fazer porque naquela ocasião eu tinha que sair da casa que não era nossa, era do meu irmão. Daí quando minha mãe faleceu, o banco também indenizou todos os funcionários antigos porque estava em negociação com Bradesco, né? Era Banco da Bahia, virou Bradesco, então, eu também fui no meio do rolo dos dispensados. Bom, com esse dinheiro comprei esse apartamento que eu estou hoje.

 

P/2 – Mas você viajou?

 

 R - Comprei esse apartamento e não sabia o que fazer porque ela continuamente me convidava para ir para lá. Um dia, eu resolvi pedir para Deus me inspirar o que eu tinha que fazer, ele então me dedicou o caminho, me deu aquela vontade de ir e eu fui embora. Convidei uma prima minha e fui embora, mas nessa viagem foi tudo interessante porque daqui para lá, eu perdi todo dinheiro da viagem, entendeu? Perdi cheque, perdi dólar, tudo, eu fui com uma prima minha.

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R - Foi 1974. Daí quando chegou em Portugal, eu falei para minha prima, eu perdi tudo meu dinheiro, “Como você perdeu?”. Perdi, perdi, perdi. Não achei lugar nenhum meu dinheiro, não sei se perdi no avião, na ponte aérea até o Rio, do Rio até Portugal, não sei aonde foi. Bom, cheguei em Portugal, fiz todas as anotações, né? Não adiantou nada, de Portugal, nós fomos para Espanha, não paramos. Na Espanha ficamos 3 dias lá esperando para ir para... Daí eu correndo atrás da minha prima, não sabia o que fazer sem dinheiro, né? Ela me emprestou 20 mil francos, aliás, 20 mil dólares. Falou ‘você fica com esse dinheiro para você fazer o que você quer, ter liberdade, né?’. Bom, daí falei assim que eu chegar lá, porque ela ia acompanhar uma excursão, ela ia me deixar na França e acompanhar uma excursão para toda Europa, né? Falei: “Bom, assim que eu chegar lá, já falo com a minha tia e eu te dou o dinheiro, você vai precisar do dinheiro, né”. Chegamos, fomos da Espanha para França, França à Lourdes ao Pirineus Lourdes, naquele trem cheio de gente, nós com 5 malas cada uma, assim ó, 5 malas cada uma, naquela escadinha, nem tinha lugar para nós, na escadinha, segurando para não cair. Bom, chegamos lá em Lourdes nove horas, foi cinco horas de trem, não sei se foi cinco, se foi nove. Mas chegando em Lourdes, minha tia estava esperando. Isso foi numa quarta-feira.... Quinta-feira e ela esperando lá, muito bem e a minha prima, então, com tanta pressa de querer ir para Lourdes, porque a minha tia morava cinco quilômetros longe de Lourdes, em uma zona rural e precisava ir de ônibus, né. E minha prima querendo fazer as coisas rápido porque ela ia seguir excursão, a gente pegava o ônibus às 8 horas da manhã e iria para Lourdes.

 

P/2 – E a herança?

 

R - Espera um pouquinho que eu vou chegar lá na herança para ver o que deu. Tem muito tempo?

 

P/1 – Tem o tempo que a senhora quiser.

 

R - Então daí a gente ia para Lourdes, dois dias, no terceiro dia quando nós voltamos, meu primo vem para esperar a gente em uma rodovia que ficava longe da casa dela, tinha que tomar o ônibus lá embaixo. Meu primo vem de carro acompanhar a gente, vem esperar. Aí eu “O será que ele veio fazer né?”, daí falei assim “O que você veio fazer Abel?” em francês, né, aí ele: “Ma tante est morte”, minha tia estava morta, dois dias que eu estava lá, minha tia tinha morrido. Aí eu fiquei desesperada, desesperada, não sabia o que fazer da vida, tá? Porque todo dia de manhã, eu saía, fazia o café e abria a portinha do quarto, que era da porta da cozinha para o quarto dela, eu abria a porta, queria dar café para ela e aquele dia ela estava dormindo assim, falei ‘não vou acordar, deixa ela dormindo’ e naquela hora já estava morta, porque a hora eu cheguei de tarde, ninguém mexeu, me esperam porque era a única parente, né? Ninguém mexeu. Quando eu cheguei ela estava do mesmo jeito assim, já estava morta desde de manhã. Daí foi aquele sufoco, né? Trocar, tudo, eram umas 4, 5 horas da tarde. Daí chegou... Eu falava para o meu primo, esse que estava sempre acompanhando “E agora, Abel?”. Ele falou “Agora não pode fazer nada. Só tem que troca-la e deixar aí, eu falei: “E o velório?”, ele disse: “Aqui não tem velório”. Não faz velório lá. Então a gente cobre ela inteirinha, troca ela inteirinha, toda limpinha, deixa ela na cama porque já estava endurecida, não podia deixar ela em uma posição incorreta, entende? Então fizemos o que podemos, trocamos ela, deixamos ela na cama, cobrimos com lençol e fomos dormir. Um frio que fazia que só vendo. Na mesma noite a luz apagou do quarto dela e não tinha quem trocasse a luz, né? Dormimos com aquela luz apagada do quarto dela, a noite eu com a minha prima lá no outro quarto, ela lá no outro quarto morta e nós no outro quarto sem ter luz para ver com ela morta lá.  Foi um sufoco! Depois no outro dia, às 4 horas, uma hora antes veio serviço funerário, então eles trocam tudo direitinho, com caixão, flores e já vai o enterro. O enterro vai e já a missa de corpo presente por 3 dias seguidos, sabe? Foi sexta, sábado e segunda. Quando foi segunda-feira eu fiquei desacorçoada porque eu não sabia bem o Frances, a minha tia que me ajudava em tudo. Como é que eu ia saber? Não sabia onde estavam os documentos, eu tinha que dar para o tabelião, para o advogado. Como é que eu ia saber onde estava aqueles documentos? O que é ela tinha de terra, de casa, de tudo...

 

P/1 – E como a senhora fez?

 

R – Daí tinha um primo muito bom, um dia ele me falou assim, o Delfim, ele falou assim: “Edna, você não sabe o que você tem? Vamos que eu vou te mostrar”, andamos aquele Altos Pirenéus que é uma maravilha aquilo, ne? É uma beleza aquele Altos Pirenéus, subimos e ele falou “Olha, isso aqui é teu! Isso é teu, esse é teu”. Eu falei: “Nossa, eu estou tão rica de terras aqui”, inclusive essa casa também que era dela, ali onde ela faleceu, era um casarão de pedra ainda daqueles tempos. E eu tinha que largar tudo aquilo ali cheio. E a minha prima como era sábado, domingo ela foi embora para pegar excursão em Portugal, voltou pra Portugal e ela me deixou lá. Eu fiquei sozinha, sozinha. (Lizenha?)  é um lugar, uma vila, que nem uma bacia, é um lugar lindo, lindo, lindo da França e tem que tomar o trem lá em Lourdes, né? Quando o trem foi embora, com a minha prima. Eu vi aquele trem, parece que eu me afundei mais ainda naquele chão lá. Deus me livre. Falei, bom, agora tem que ir com a cara e coragem, né? Na segunda-feira era a terceira missa da minha tia, fui eu na missa, eu vi as três moças “Quem serão aquelas moças?” eu falava em português. Bom, eu saia lá, a igreja é dentro do cemitério, né? Daquela vila ali... Eu saí da igreja, depois da missa, fui lá no túmulo da minha tia, entendeu? E falava assim para ela: “Tia, a senhora pediu socorro para eu cuidar da senhora, agora quem pede auxílio eu sou, me ajude, mas me ajuda”. Nossa, mas eu pedia com tanta garra, com tanta coisa, que eu não sabia o que fazer, né? De repente saíram três moças lá da igreja e falaram “Quem é brasileira aí, quem é brasileira?”. Porque a Igreja era pertinho assim, né? “Quem é brasileira” e me abraçou. Eu falei que era brasileira. Ai meu Deus, parece que abriu um sol na minha frente, né?

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque elas me ajudaram em tudo depois. Elas eram umas freiras leigas que estavam fazendo um curso lá em Lourdes sobre a proteção do clero, né? E me abraçaram “Olha o que você precisar, nós estamos aí!” que não sei o que, que não sei o que. Elas me ajudaram em tudo, em tudo, em tudo. Passou um mês, vinha gente queria comprar isso, queria comprar aquilo e eu vendendo. E à noite eu não tinha jeito de ficar sozinha naquele casarão, então os vizinhos ali falaram assim “Olha, nós damos lugar para você dormir e jantar”. Eu falei “Je n'ai pas d'argent”, mas eu não tenho dinheiro, né? Mas ela queria a maquina de costura. Eu falei pra levar a máquina de costura, eu nem vou levar máquina de costura lá para o Brasil. Daí eu fiquei jantando e dormindo na casa do vizinho lá, que eram fazendeiros também, né?

 

P/1 – E a senhora foi vendendo tudo?

 

 R – Vendi. Eu vendi tudo, nesse tempo passou um mês quase, minha prima foi me buscar outra vez. E estava tanta coisa lá, pendurada, tanta coisa lá, aí ela falou: “Você não tirou isso, põe tudo no fogo”, era livro, biblioteca... Sabe aqueles livros antigos? Eu comecei colocar no fogo. De repente, eu saio lá fora estava pegando fogo lá em cima na lareira. E pessoal lá fora “feu, feu, feu” de repente entra bombeiro joga água e joga água, minha casa toda cheia de água, foi um despropósito. Um frio! E não podia acender a lareira mais, nem nada. Nossa Senhora! Eu depois que minha prima chegou falei: “Vamos lá pedir dinheiro, né, para o advogado, aquele lá que é seu”. Fui no banco, eu era interditada, né, que eu era cidadã brasileira, a minha tia tinha me registrado como cidadão francesa, quando eu mostrei meus documentos de brasileira, não me deram um tostão, nenhum franco me deu, eu precisando de dinheiro. Daí minha prima “Eu vou embora”, e eu: “Você vai ficar aqui até eu arrumar dinheiro para ir embora. Como é que eu vou?”. “Então, você vê como você vai fazer”. Lá naquela casa não podia nem acender lareira mais com aquele frio que fazia e nós ali. Daí deu tempo de eu conhecer toda a França. Deu tempo de conhecer. Olha, precisei ajoelhar para o advogado porque eu não tinha roupa, não tinha sapato. No banco tive quase que ajoelhar lá para o advogado para me arrumar dinheiro para eu vir embora. Eu dei entrada em tudo quanto é papelada no tabelião por causa do inventário.

 

P/1 – Abrir?

 

R – Abrir, então tudo isso daí.

 

P/2 – Mas chegou a receber a herança?

 

R – Não entendi.

 

P/1 – A senhora recebeu a herança?

 

R – Ah, recebi. Mas como sou herdeira indireta, sou sobrinha, então não recebi tudo, só metade, menos da metade, menos da metade, mais da metade fica lá para o Estado.

 

P/1 – Mas ajuda um pouco a senhora?

 

P/2 – Mas ajuda um pouco a senhora? (mais alto).

 

R – Espera um pouco aí o que aconteceu, tem mais coisa...

 

P/1 – Tem mais coisa?

 

R – Eu estou falando que tem. Ficou um prédio lá em Lourdes de quatro, cinco andares, um prédio de apartamento cheio de gente, era um labirinto de gente, eu recebia aluguel. Eu queria vender, não vendia, queria vender e não vendia. Ficou quatro, cinco, seis anos aquilo lá para vender e não vendia.  Quando foi um belo dia, apareceu uma portuguesa lá, se interessou, achou caro e depois desistiu. E meu primo não achava quem comprasse, meu primo tinha procuração minha, né? Ele queria desistir e quem que eu ia colocar lá, né? Eu falei: “Você tenha paciência, na hora que eu receber, você vai receber uma boa gorjeta também, né? Uma boa comissão daí”. Ele foi indo, falei pra ele correr atrás daquela portuguesa, eu aqui fazendo promessa para Santo Antônio, e vai corre atrás daquela portuguesa lá, quem sabe ela ainda se interessa, né? E dito e feito, ele correu atrás dessa portuguesa, foi ela que ficou com a casa. Tudo isso aconteceu com mais detalhes ainda, mas é que vai ficar muito comprida a história, né? Mas depois de um pouco de tempo que eu cheguei aqui, comprei dois apartamentos, dei a parte dos meus irmãos que eram vivos ainda. Comprei dois apartamentos um em Santos, mais um aqui e ainda me sobrou um dinheirinho. Eu abri uma poupança na Caixa Econômica, né? Que é nosso banco. Esse é o fim, presta bem atenção. Eu quis tirar de lá da Caixa colocar aqui no Bradesco, para ficar mais perto, né? E tinha um homem lá na Caixa me olhava, me olhava, eu falei: “Que será que aquele homem me olhava tanto, nem desconfiava, né?”. Tirei todo dinheiro para colocar lá na Caixa, chega lá no meio da rua, ele me aponta o negócio aqui ó “Sua bolsa”. Me levaram todo dinheiro embora, isso que foi a coisa. Isso é que foi o final triste para mim. Nessa viagem teve roubo, teve morte, teve incêndio, na ponte aérea do Rio de Janeiro até São Paulo, quando cheguei, o avião quase que foi baixo, olha, mas aconteceu de tudo nessa viagem aí, de tudo, e por último esse dinheiro ainda que eu ganhei com suor, com lágrimas, não foi de graça não, me levaram assim. E hoje, minha filha, para almoçar, sabe quanto que eu vou receber agora dia 13? Ainda do mês que vem, com quanto que eu estou? Com 25 mil cruzeiros, tem que dar até dia 13 do mês que vem. Você pensa que eu sou rica, hein? Porque eu recebi a herança, eu sou rica. É essa a minha história.

 

P/1 - Dona Edna, muito obrigada pelo depoimento da senhora, foi uma história muito bonita.

 

R - Se foi interessante, eu não sei, né? Mas eu acho que não aconteceu para qualquer um não.

 

P/ - Só a senhora viveu, isso que é importante.

 

R – Tudo bem.

 

P/1 – Muito obrigada.

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