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História

A herança da vitalidade me dá forças pra lutar

História de: Rosane Vianna
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/05/2022

Sinopse

Pai ajudou a fundar o Colégio Novo Ateneu. Abandono do pai e reencontro 25 anos depois. Compra do apartamento em Curitiba. Morte do pai. UFPR. Nomeação como professora aos 16 anos. Banho na escola? Só pode ser comunista. Participação na Juventude Universidade Católica e militância. Golpe de 1964. Ação Popular na universidade e periferia. Pesquisa no norte do Paraná. Vinda para SP com nome falso. Pós Graduação em Sociologia na Maria Antônia. PRT. Desmontando a Educação Moral e Cívica. Revolução na escola. Amigos sendo presos e outros com foto no jornal escrito “procura-se”. Demissão. Tradução dos conceitos de Ciências Políticas para alunos de escola pública. Morte de Hiroaki Torigoe. Prisão. Scavone procurado e relacionamento. Bolo no carro desapropriado. Artur preso. Presa na OBAN. Vigiada. Concurso em Londrina. Puc progressista. Apesar da cultura, a cultura era forte. O movimento da anistia em Londrina. Volta pra SP e CENAFOR. A mãe, Dona Nena, ajudava do jeito dela. Pesquisa com bóias-frias. Luta pela Anistia. Oposição Sindical Metalúrgica. Morte do Santo Dias e Movimento pela carestia liderado por mulheres. Casamento e filha.  Anos em Curitiba. Luiza Erundina. Pesquisas na FEBEM e hip-hop. Colômbia e Tese de Mestrado. A história do Alex. Aposentadoria. Relação com a filha e o neto. Curso de Psicanálise. Força para lutar.

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História completa

P/1 - Qual é o seu nome completo, que cidade vocês nasceu e que dia que foi, por favor?

 

R - Rosane de Lourdes Silva Viana, nasci em Curitiba, em 1942, 24 de Abril.

 

P/1 - Rosane, qual é o nome da sua mãe?

 

R -  Osvaldina Gonçalves Silva.

 

P/1 - Ela tem ascendência de onde?

 

R - Ela nasceu em Curitiba, ela é filha de um alfaiate e de uma dona de casa que são os meus avós, Adalgisa e Arsênio. Não sei se é Arsênio, eu esqueci o nome do meu avô, porque eu não conheci, de repente eu esqueci. A minha mãe foi criada com mais dois irmãos, em Curitiba, com esse pai Alfaiate. Que mais que você quer saber?

 

P/1 - Eles vieram…

 

R -  Eles vieram de Curitiba, a família da minha mãe, ascendência dela, ela era filha, portanto da Adalgisa e do militar, ele era do Rio Grande do Sul, ela era de Curitiba. E esse casal, era por sua vez, filhos de uma austríaca que veio no final do século 19 como imigrante, ela veio com a identidade austríaca, mas provavelmente era polonesa, por causa do nome, porque foi na época do império austro-húngaro. Esse Império austro-húngaro anexou a Polônia e ela chegou aqui, eu não tenho a história dela chegando aqui, eu tenho a foto. E casou com um homem, João, não sei se casou ou não casou, mas ela teve essa filha, que são os meus avós. Por parte do meu avô eu não conheço nada.

 

P/1 - E o seu pai, qual que é o nome dele?

 

R -  Meu pai é Milton de Oliveira Viana, meu pai era de uma cidade do interior do Paraná, uma cidade pequena, acho que Rio Negro. Ele era filho de um funcionário público, a mãe decerto era dona de casa. E o meu pai, ele veio para Curitiba, porque ele tinha um tio dele, que tinha uma escola pequena, que naquela época se chamava admissão ao ginásio, uma salinha, que o tio dele dava aula. E o meu pai veio estudar em Curitiba, e ele começou a dar aula junto com tio, 16, 17 anos ele já dava aula, já era professor. E dali, essa salinha foi aumentando, aumentando, virou o Colégio Novo Ateneu, em Curitiba, colégio grande. E do colégio ele fundou uma faculdade de Direito, ele tinha feito Direito na Universidade Federal do Paraná, e a faculdade de direito hoje é uma universidade, que os meus sobrinhos tomam conta.

 

P/1 - E você sabe como eles se conheceram, o seu pai e sua mãe?

 

R - Então, minha mãe saiu de casa com 18 anos de idade, naquele tempo dizia assim, fugiu com o namorado, com o noivo, sei lá.  E ela foi para o Rio Grande do Sul com esse namorado que estava estudando medicina, e ficou rodando com ele, não sei bem o quê. E a minha mãe num certo momento, percebeu que ele não levava muito a sério aquela relação, parece que ele tinha uma noiva no Rio Grande do Sul e ela voltou para Curitiba. Quando ela voltou, conheceu um jornalista que era um francês, que era um poeta, um cara super interessante e ela começou a viver com esse jornalista, até que um dia esse jornalista tinha um amigo, meu pai, Milton Viana, convidou para ir lá na casa tal e minha mãe se apaixonou, largou o jornalista e começou a viver com meu pai, que já era casado, já tinha 2 filhos, ou 3, sei lá, mas a minha mãe viveu com ele 12 anos, me parece e eu nasci quando eles já viviam há algum tempo. Era um viver tipo amante, quer dizer, ela morava na casa e ele ia na casa, mas continuava com a primeira mulher, porque a primeira mulher era irmã do governador do Paraná, do Bento da Rocha Neto, então meu pai não ia largar daquela mulher que era super rica… ele também já nessas alturas, tinha o colégio, já estava fundando a faculdade de direito. Ele era um cara que tinha uma posição de destaque na cidade, mas tinha aquela história da amante, então minha mãe morava numa casa, e aí eu nasci, ela quis decerto ter um filho, ou uma filha com ele, ele topou, mas ele não me registrou no nome dele. Depois que eu nasci eles viveram juntos mais 3 anos e ele arrumou uma terceira mulher, aí a minha mãe disse, “ah não, uma tá bom, eu sou segunda, mas uma terceira não dá”. Aí ela mandou ele ir embora, “vou tocar minha vida sozinha com a minha filha”. E tocou!

 

P/1 - Você teve mais irmãos?

 

R - Não! Ah Então, 3 irmãos por parte do pai, que eu fui conhecer quando eu tinha o que, acho que 25 anos, porque aí meu pai disse, “tudo bem, você não quer mais viver comigo, então tá bom, você vai tocar sua vida”. Ele não tinha me registrado no nome dele.

 

P/1 - Você cresceu em Curitiba?

 

R -  Eu cresci em Curitiba.

 

P/1 - Até quantos anos?

 

R - Eu fiquei em Curitiba até 25 anos. Numa cidade preconceituosa, uma cidade cheia de histórias com relação a casamento, amante, minha mãe nunca casou, depois que ela separou do meu pai ela teve vários namorados, até uma certa idade, depois disso, não! “Agora não quero mais!”. Ela ficou mais quieta, mas eu vivi lá.

 

P/1 - E vocês se mudaram muito durante esses anos?

 

R -  A gente mudou muito, porque quando eu morava com meu pai e minha mãe, morava numa casa grande, bem gostosa, meio que um sítio, um pouquinho afastado de Curitiba. Quando eles se separaram, ela não conseguiu mais manter a casa, e ela não entrou na justiça, digamos para eu receber pensão, naquela época, imagina, 1945, mas como ele era advogado, ele disse, “bom, eu vou dar uma pensão para ela”. E ele deu a vida toda, tinha o advogado que ia uma vez por mês, pagava a pensão, e ele manteve isso religiosamente. Depois disso a gente começou a mudar, minha mãe foi morar com uma amiga, numa casa bem grande, elas alugavam quartos para outras pessoas. Então a gente teve uma vida… Depois uma outra casa, também minha mãe foi lá, também alugava quartos e finalmente a gente foi morar numa casa pequena, quando eu já tinha uns 18 anos, bem menor, que a gente podia pagar, só nós duas. Foi quando o meu pai apareceu novamente. Ele ia ficar cego, era diabético, então o dia ele me chamou no escritório daquele advogado que eu recebia pensão disse assim, “quero conhecer a minha filha”. Nunca ele se comunicou comigo durante 20 anos, aí nesse dia me levaram lá num quarto, ele estava lá. A partir daí eu comecei a me relacionar com ele, fiquei 10 anos convivendo e daí ele comprou um apartamento para mim. Eu disse, “bom, então eu sou sua filha, tá bom, então tem que arrumar um jeito da gente viver um pouco melhor”. Daí ele comprou um apartamentinho de quarto e sala, pra mim e pra minha mãe, a gente foi morar no centro da cidade, Curitiba.

 

P/1 - E como é que foi para você rever o seu pai?

 

R - Foi uma emoção grande, fiquei meio arredia no começo, mas depois foi interessante. Mas como ele não tinha me registrado, tinha um certidão de nascimento, por exemplo, com outro pai, com outros avós, ele simulou um registro, então eu fiquei numa situação difícil com essa certidão de nascimento, porque as escolas privadas exigiam que tivesse uma certidão de nascimento, papai, mamãe, casados e tudo. E lá dizia que os pais eram casados, mas que o pai era morto, o pai tinha morrido, então durante quase 20 anos eu tinha que dizer para as pessoas que o meu pai morreu, porque na certidão estava assim. Eu disse! Até que ele apareceu, quando ele apareceu eu comecei a abrir: “ah não, eu tenho um pai”.

 

P/1 - E vocês se deram bem durante esse tempo?

 

R - Nesses 10 anos a gente se dava muito bem. Porque daí ele queria recuperar também, quem eu era, como eu era. Ele era um cara muito inteligente, muito carinhoso, até que ele morreu. A morte dele foi engraçada, porque ele me chamou na casa dos filhos, quando ele ia morrer, que queria me ver, e os filhos não queriam. Porque daí, uma outra filha, significava herança, então eles não queriam me ver, mas finalmente toparam, porque o pai já estava indo embora. Então ele me viu antes de morrer, e a partir do momento que ele morreu, eu fui para o enterro. Eu tinha um tio que ficou aliado e me levou para o enterro. Quando eu cheguei lá, as pessoas ficavam olhando, porque eu era muito parecida com a família dele. Aí vinham perguntar quem eu era, “eu sou filha do Milton”. Começou a ser um escândalo eu ser filha do Milton para a família tradicional. 

 

P/1 - Isso foi em 1970 mais ou menos?

 

R - É!

 

P/1 - Você pensava na infância em ter alguma carreira?

 

R - Então, eu tinha notícias de que o meu pai era professor. Ele tinha colegas na cidade, que os meus irmãos todos trabalhavam no colégio e eu passava em frente, mas eu não podia dizer que eu era a Rosane, filha do Milton, via os meus irmãos de longe. Então eu fiquei 20 anos assim, nessa situação de não identidade, mas depois que ele morreu, eu entrei com um processo de reconhecimento de paternidade, que durou 30 anos. Porque os meus irmãos eram da faculdade de direito de Curitiba, portanto o Juiz e todos da cidade eram da faculdade, muitos. Mas finalmente eu consegui uma parte da herança, primeiro de um irmão, depois do outro, depois do terceiro.

 

P/1 - E você estudou em que escola?

 

R - Então, o meu pai dava uma pensão, mas ele exigia que eu estudasse em escola privada. Então, desde o pré-primário, jardim da infância, eu já estudava numa escola de freiras, que é uma que tem uma foto aí. Fiz o primário e o ginásio. Depois eu fiz a escola normal também, numa escola privada, que ele pagava. Depois entrei na universidade pública, Universidade Federal do Paraná. Eu fiquei 2 anos… dava aula para Alemães, tinha a igreja do lado da minha casa, então para complementar a renda da casa, eu dava aula de português. E comecei a dar aula com 16 anos de idade.

 

P/1 - Para esses alemães? Não só…

 

R - Não só! Daí o meu pai, que tinha influência na cidade, foi na secretaria de educação, falou com um cara lá e disse, “quero que a minha filha seja nomeada professora, tá fazendo escola normal”. Aí o cara disse, “tá bom, eu nomeio, mas você dê uma vaga para o meu filho na faculdade de Direito”. Que pra mim foi um escândalo, “eu não quero isso”. Mas chegou uma hora, o cara veio, “você foi nomeada professora”, com 16 anos. Foi quando eu comecei a dar aula numa escola pública, pertinho da minha casa, onde eu encontrei, pasmem, 3 primas minhas, que tinham o nome Viana, eu identifiquei, eram filhas de um tio meu, que eu não podia me identificar, eu era professora delas. Então, primeiro fui professora de uma, no 4º ano primário, depois de uma outra, que estava no jardim da infância, a Marise, que hoje é minha amiga. A Marise então, foi a minha primeira aluninha, mas que era minha prima, mas que eu não podia dizer que era a Rosane, filha do Milton.

 

P/1 - E você dava aula do que nessa época?

 

R - Eu era auxiliar de ensino, primeiro no 4º ano, onde estava a mais velha, Letícia, que era minha prima, depois eu passei para o jardim da infância. Mas eu fiz alguma coisa nessa escola que eu fui mandada embora, alguma rebeldia, alguma coisa que eu não fiz direito, fui para outra escola. Eu não me lembro mais o que aconteceu, aconteceu alguma coisa, a diretora disse, “podia transferir”. E ela me transferiu para uma escola que era uma hora e meia da cidade, de onde eu morava, uma cidade, Curitiba, mas que tinha uma periferia. Eu fui dar aula nessa periferia que eu tinha que caminhar de manhã cedo… era muito pobre essa escola. Então lá eu fazia sopa para as crianças de manhã cedo, enfim… Eu não sabia muito dar aula, eu tinha 16 anos, fazia escola normal. Chegou no meio do ano, as crianças não estavam alfabetizadas, aí eu fiquei meio, “aí, como que eu faço?”. Mas enfim, eu dei aula nessa escola alguns anos, depois eu fiz vestibular e passei na Universidade Federal para Ciências Sociais, e aí eu fiz a faculdade e eu fui trabalhar numa escola, que era uma escola maternal, com crianças filhas de empregadas domésticas. Era uma escola super violenta, tipo um abrigo, mas eu já estava na faculdade. Aí um amigo meu disse, “vamos fazer uma pesquisa para ver quem são essas crianças”. “Claro!” Eu já estava no primeiro ano de Ciências Sociais. E aí a gente foi conhecer a casa das crianças, eram todos favelados, moravam em cortiços, não tinham muito como comer direito, comiam na creche, eles apanhavam na creche, eram obrigados a dormir depois do almoço”. E eu sentia um cheiro tão ruim na sala onde eu dava aula. Aí o meu amigo disse, “vamos ver como eles moram”. E eles não tinham água para tomar banho, então eu instituí um banho na escola, “ que tal tomar banho na escola? Vocês trazem uma toalha ou eu arrumo uma toalha.” Eles começaram a tomar banho. Depois, a escola era horrível, eu comecei a levá-los para a praça pública, então andava com eles na rua, aí o pessoal, “nossa, a Rosane, aquela maluca com aquelas crianças na rua, que pode perder as crianças”. Eu levei essas crianças no palácio do governo, “aqui mora o governador”. Depois fiz carteirinha de piscina numa escola pública. Era escola pública, mas não tinha nada lá dentro, então eu fui para uma praça onde tinha piscina, fizeram carteirinha. Eu levava essas crianças uma vez por semana para tomar banho de piscina. Também fui demitida dessa escola, transferida, porque só pode ser comunista quem institui um banho, que leva as crianças para a rua e que leva… era o tempo o Geraldo Vandré, e a gente ensinava a música: “na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei”. Eu tinha 18 anos quando eu fazia essas coisas, meio que por intuição, eu não era comunista. Mas a primeira vez que eu recebi …de comunista, foi nessa escola, “só pode ser comunista”.

 

P/1 - Era assim que eles falavam?

 

R - A diretora me falou, “você só pode ser comunista, porque o que você está fazendo aqui, trazendo música do Geraldo Vandré para as crianças cantarem”. Daí ela me pôs para um outro lugar, nem me lembro, aí eu já estava vindo para São Paulo.

 

P/1 - Você entrou em 60 na faculdade?

 

R - Eu entrei em 64 na universidade. Portanto, tinha movimento estudantil, tinha tudo que se possa imaginar, ajudei a tomar a reitoria da universidade. Enfim, tudo desde caloura. Entrei para a Juventude Universitária Católica, que era um grupo de jovens da universidade, aí lá já tinha militância, partido político. Aí eu já comecei.

 

P/1 - Você disse que não era comunista, que era uma coisa mais instintiva…

 

R - Era. Porque eu estava na universidade, mas eu comecei a ter a noção do que era partido comunista, por exemplo, quando eu entrei do primeiro para o segundo ano da universidade, eu não tinha muito noção. Quando eu entrei na JUC, Juventude Universidade Católica, eu comecei a militar, a gente fez curso de alfabetização de adultos numa favela. E aí começou a luta estudantil e eu comecei a me preparar para vim para São Paulo, para fazer pós graduação aqui.

 

P/1 - Você se lembra do 31 de março, primeiro de abril?

 

R - Então, lembro que eu estava na universidade e que daí começou uma mobilização, começou algumas manifestações. Por exemplo, quando eu virei caloura de Ciências Sociais, a gente foi para a rua com o Abaixo a Ditadura, com cartazes. Então começou toda uma mobilização já naquela época e essa mobilização foi aumentando, em 68 estava pegando fogo, foi quando eu vim para São Paulo e caí na Maria Antônia.

 

P/1 - Em 64 vocês achavam que ia acontecer um golpe, que ia ficar tanto tempo o governo?

 

R - Não, a gente achava que ia fazer a revolução e que ia derrubar a ditadura no ano seguinte. E começaram a nascer os partidos políticos, o PCB, meio tímido, depois a ação popular. Em Curitiba, eu tava no grupo de juventude católica, mas a gente começou a desmontar a juventude católica, começou a ler Teilhard de Chardin, autores, e aí acabou a religião e a gente começou a fazer militância dentro da universidade e fora também, na periferia.

 

P/1 - E o que vocês liam nessa época, como era a relação com os professores?

 

R - Universidade Federal do Paraná era absolutamente de direita, era horrorosa. Mas tinha uma boa professora de antropologia que a gente contava com ela, o pai dela tinha sido do partido comunista, então ela dava Lévi-Strauss … imagina, naquela época. Então pela antropologia, eu comecei. E comecei a fazer pesquisa fora, no norte do Paraná, com indígenas, com sub escolas, fui pesquisar as escolas para ver como funcionava, que materiais tinham. Eu fiz com uma equipe, tinha uma fundação de educação no Paraná e eu fui lá, me inscrevi, e comecei. Então com um ano de faculdade, eu já sabia que eu queria fazer pesquisa social.

 

P/1 - E ser professora também?

 

R - É!

 

P/1 - Por que você acha que você foi professora?

 

R - Quando eu vim fazer pós graduação aqui em São Paulo eu queria… tem que fazer pós graduação se quiser dar aula na universidade. E quando eu entrei aqui na Maria Antônia, que eu vim fazer pós-graduação em Sociologia, com o Florestan Fernandes, Octavio Ianni e o Fernando Henrique Cardoso. Florestan foi caçado, Ianni também, aí eu fiquei com o Luís Pereira e o Francisco (Velfor?), fazendo pós graduação na USP. Mas para ser professora.

 

P/1 - Para você é como se fosse uma vocação dar aula?

 

R - Eu acho que é um desafio, não sei se era vocação, não pensava vocação. Pensava assim: desafio, desafio de pesquisar, de questionar, enfim.. Desde a primeira escola que eu dei aula, eu sabia que não era fácil ser professora.

 

P/2 - Mas você achava que você tinha que formar outras pessoas…

 

R - Achava que tinha que questionar o que estava acontecendo, da realidade, isso desde aquela escolinha que eu fiz a história de levar os meninos para a rua, mostrar o que é o poder, “ô, o poder estar aqui, aqui é o Palácio do Governo”. Eu sinto hoje, tenho 80 anos, que tinha uma lance forte dessa… uma certa marginalidade que eu vivi na cidade, por ser filha do Milton Viana, acho que teve uma coisa bem forte, mas que na época eu não sabia, que me levou a contestar, me levou a ser supercrítica, me levou… era desafiador morar em Curitiba, a situação, o status que eu vivia, enfim… era desafiador.

 

P/1 - Por isso que você quis vir para São Paulo?

 

R - É porque São Paulo, cidade grande, eu caí ali na Maria Antônia, com tudo que aconteceu lá, com greve, com a ocupação da faculdade, com passeatas. Eu vim para cá já meio que clandestina, em Curitiba eu já estava na União Paranaense de Estudantes, então quando eu cheguei aqui eu já fui… já vim com outro nome, já vim participando da organização do congresso de Ibiúna, congresso da UNE.

 

P/1 - Então você já veio com uma missão?

 

R - Vim com uma missão. Eu me mudei para cá, e aí fui morar na casa de uma amiga, depois fui para outra, mas eu já vim com uma proposta política. E já comecei a ir entrando em partido político aqui em São Paulo, que era o PRT, Partido Revolucionário dos Trabalhadores, e ali eu já comecei a militar, fazer ações junto a trabalhadores em Osasco. Enfim, ali eu já comecei a ter uma prática política mais direcionada.

 

P/1 - Quem eram os seus amigos na época?

 

R - Da universidade e alguns que tinham vindo de Curitiba, que já moravam em São Paulo, eu fiquei na casa de uma amiga quando eu cheguei, depois ela foi presa. Bom, todo mundo em volta começou a ser preso. Mas eu resisti, eu cheguei aqui, trabalhei na Olivetti industrial, fábrica. Eu tinha primeiro uma bolsa, depois eu não tinha mais, assim que eu comecei a procurar aulas para dar, aí eu já estava no PRT, que era esse partido, mas que era clandestino. E a diretora dessa escola foi que me chamou, ela disse, “Rosane, a gente está chamando professores e você já terminou a faculdade, tem licenciatura, você pode começar a dar aula, vai lá se inscreva e venha”. Aí eu fui e comecei a dar aula nessa escola que era todo mundo ligado a algum grupo político.

 

P/1 - Qual era o nome dessa escola?

 

R -  Eu não consigo me lembrar agora o nome dela, mas nos papéis…

 

P/2 - Mas era uma escola estadual?

 

R -  Pública, estadual. Essa minha amiga era diretora, ela era do mesmo grupo que eu e ela chamou vários caras de outros grupos, porque esse grupo tinha ligação com Aliança Libertadora Nacional, enfim, com todo os grupos que já estavam na luta armada, foi onde eu conheci o Pedro Rocha e o Artur Scavone, que aí a gente começou a montar lá brigadas de revolução dentro da escola.

 

P/1 - Como assim? 

 

R - Eu fui dar aula, por exemplo, de Educação Moral e Cívica. Ela disse, “eu vou por você”. Eu disse: “Tá bom. Então eu vou comprar o pior livro que existe, o mais doutrinário, o mais careta, o mais de direita”. E aí eu indiquei o pior e eu desmontava o livro com os alunos, fazia o contrário.

 

P/1 - Você se lembra os termos que eram usados nesse material?

 

R - Amor à pátria, anticomunista, bandeira nacional, ordem e progresso, principalmente. Então essa é a ideologia da direita. Eu comecei a desmontar nas aulas que eu dava e todos os outros professores, cada um na sua matéria, estava ali para também desmontar. A Iraci, que era diretora, era professora de português, e ela mandava os alunos fazerem pesquisa fora da escola e ela mandou ir no 16º Batalhão, que era ali do lado, no Rio Pequeno, para perguntar se lá tinha presos políticos. E lá estava o Caio Prado Júnior, preso, a gente sabia que tava, os alunos foram lá, “somos da Escola Estadual, viemos aqui saber…”. Assim meio que inocentemente. A gente fazia ações de dentro da escola, por exemplo, os professores de direita, um dia os alunos apagaram, desligaram as luzes da escola e furaram os pneus de todos os professores que eram de direita. Então a gente tinha assim, meio que um ensaio de como é que é fazer guerrilha urbana dentro da escola, que era uma loucura, mas fazíamos.

 

P/2 - Que idade tinha esses alunos, que ano eles eram?

 

R -  Era meninada, eu acho que de 15 anos, tinha curso ginasial e colegial. E eles entravam, faziam, enfim. Mas durou pouco, porque logo o 16º Batalhão demitiu a diretora, todos nós fomos mandados embora. Eu não fui imediatamente, veio um capitão como diretor, aí eu gradativamente, ele me denunciou, tanto que apareceu no DOPS quando eu fui pegar minha ficha, tinha uma denúncia dele, de que eu era comunista, tal. E naquela altura era mesmo.

 

P/1 - E como era o perfil dos alunos? Eles eram do bairro?

 

R - Periferia da Periferia, Rio Pequeno. Naquela época era o fim do mundo, era um ônibus muito ruim que levava a gente para lá. Bom, mas a gente ia. Era filhos de trabalhadores. Era muito longe.

 

P/2 - E os pais se envolviam, sabiam o que estava acontecendo?

 

R -  Eu acho que não. Não tinha muito envolvimento dos pais. Éramos nós, molecada, eu não era tão moleca, mas o Artur Scavone tinha 20 aninhos, o Pedro também, eles ainda faziam Física na USP. Tavam lá um pessoal todo da USP, da universidade, eu era até uma das mais velhas lá, já tinha 28 anos, uma coisa assim, sei lá, foi anos 70, né.

 

P/1 - E você acha que essa origem dos alunos ajudou a fazer sentido para eles essa…

 

R -  Eu acho que também o fato de que eles eram jovenzinhos, adolescentes, então tinha um lance de rebeldia. Encontrou uma meninada que estava próximo deles, da idade deles que incentivava, eles faziam muitas coisas lá. E aí, fomos demitidos, eu fui para uma outra escola pública, que a Iraci, essa tal diretora, era uma amiga de uma outra diretora, que sabia que era de esquerda, tal. Então ela disse, “vai lá na Mooca que você vai conseguir, se inscreve e vai dar aula lá”. Eu fui! A diretora me aceitou, eu peguei alunos de quarto ano primário, imagina, eu dava história da riqueza do homem para esses meninos, peguei o livro e comecei a contar a história da riqueza do homem. E com o colegial fazia até mais do que eu podia, chegou um momento, um Sete de Setembro lá na escola, tinha que cantar o hino nacional, hino à bandeira, tinha que reverenciar a bandeira nacional, e eu eu propus para os alunos que ficassem em silêncio. Tinha que pôr a mão no peito e cantar "ouviram do Ipiranga”, eles não puseram a mão no peito e não cantaram, o pátio ficou lotado, uma boa parte ficou muda. Daí a diretora me chamou, “não pode e tal”. E coincidiu que o partido que eu tava, todo mundo estava sendo preso. E aí a pessoa que indicou para eu ir para lá, a tal da Iraci, ela foi procurada, punha uma foto no jornal e dizia, “procura-se”. Aí quando apareceu a foto no jornal, a Diretora disse, “eu não vou segurar a barra, eu te trouxe para cá, mas se a Iraci for presa eu também vou e você também vai, então por favor peça demissão”. Aí eu pedi demissão. Essa foi a minha trajetória na escola pública de primeiro e segundo grau.

 

P/1 - Foi uns 2, 3 anos?

 

R -  Foi uns dois anos mais ou menos.

 

P/1 - Como era a aula de Educação Moral e Cívica?

 

R -  Eu acho que eu conversava com eles, eu pegava o livro-texto que era barra pesada, do ponto de vista, era pura doutrinação, e dizia que aquilo ali era o contrário, quer dizer, na verdade o “ordem o progresso” não é bem assim. E aí eu já tinha feito Ciências Sociais e estava fazendo Ciência Políticas lá na USP, usava os conceitos que eu tinha relativos à realidade brasileira e a realidade política, econômica. Eram meninos, mas eu conseguia traduzir, quem sabe, não sei se eu conseguia traduzir mesmo, pode ser que sim.

 

P/2 - Eram livros didáticos distribuídos pelo Estado? 

 

R - Não! A Iraci me disse, “compra um livro e indique o livro que você acha que é”. “Eu vou comprar o pior, vou indicar o pior”. Porque no pior eu tenho possibilidade de fazer uma crítica, não tem nada encoberto nesse livro pior, que era um livro de doutrinação política, contra os comunistas, contra a liberdade de expressão, era um livro radical. E as ações que a gente fazia na escola, eram ações que combinavam um pouco com essa desconstrução que eu fazia na aula de Educação Moral e Cívica.

 

P/2 - Mas você tinha algum registro disso? Você fazia relatório?

 

R - Eu acho que não fazia relatório, talvez as provas. Não sei como ficavam as provas, eu não consigo me lembrar, como é que ficava o registro dessas aulas, porque daí na prova.. Mas como a diretora era também de esquerda, então, tá bom, aquilo ali devia estar registrado. Talvez o capitão quando chegou lá, ele teve registros de que a gente de fato estava fazendo uma mini revolução lá na escola.  Aí a gente começou a usar, eu tinha toda uma informação e formação com história, com Caio Prado Júnior, com todos os autores que desconstruíam aquela ideologia de direita.

 

P/1 - E os professores de outras matérias também acompanhavam a metodologia, história, geografia?

 

R - Também! E de matemática, então ensinavam as taxas de crescimento. O Artur dava aula de matemática, o Pedro também, porque eles eram da física, então eles usavam a matemática para trabalhar os dados da realidade brasileira.

 

P/1 -  Vocês tinham medo de ser presos?

 

R -  A gente estava numa idade que era invencível viu, a gente não tinha muito medo, sabia que podia ser. Mais tarde, eu conversei com Artur Scavone, sobre essa história, não só de ser preso, mas de ser morto, ele disse, “olha, a gente sabia que ia morrer, que podia morrer”. A gente sabia que podia ser pego, que a Operação Bandeirantes quando pretendia, matava. Muitas vezes matou muita gente. Então a gente sabia de tudo isso, mas era o ideal que fazia a gente… a gente não podia escapar disso, ou a gente derrubava a ditadura com atos violentos também, eles assaltavam e faziam todas as ações terroristas na cidade, para arrecadar dinheiro para a luta armada no campo, por exemplo, então eu questionei, 20 anos depois que eu fiz essa entrevista, eu perguntei, “e daí, como é que é? Achavam que ia morrer, né?” “Ah sim, a gente sabia que podia morrer” Então uma coisa um pouco heróica e de super-homem, eu acho que uma grande parte reconhece isso.

 

P/1 - Mas você achava, era o mesmo sentimento também?

 

R - Tinha esse sentimento, porque quando eu saí do PRT, que todo mundo tinha sido preso, e que entrei para MOLIPO, que era o Movimento de Libertação Popular, eu sabia que eu podia morrer, encontrar com o Torigoe, que era um cara de organização e que foi morto, quando eu ia encontrar com ele, diziam assim, “olha Rosane, se ele não aparecer tal dia, tal hora, você não insista, você vai embora, porque se ele não aparecer alguma coisa aconteceu”. Eu tive, acho que três encontros com o Torigoe, na Pompéia, eu encontrava no ponto final do ônibus. E ele estava me propondo que eu aprendesse a mexer em armas, a ser treinada em tiro ao alvo e tudo mais. E aí eu disse, “bom, mas eu sou professora”. Já dava aula em Franca, na universidade e dava na PUC em São Paulo, de Antropologia. Eu disse para ele, “não, mas eu sou professora, eu posso fazer alguma coisa nesse plano, agora não me peça para eu mexer com armas, porque eu tenho medo disso, eu não sou corajosa assim.” Bom, mas depois do terceiro encontro com ele, ele foi morto, eu fui para o ponto, onde ia encontrá-lo, ele não apareceu, eu fui para casa e eu vi na televisão que ele tinha sido baleado, indo para o encontro comigo. Então eu sabia que eu corria risco de vida, mas como eu não estava exatamente ligada à luta armada, quer dizer eu não mexia, não tinha armas, as minhas armas eram na UNESP, lá em Franca, era na PUC em São Paulo, porque a PUC em São Paulo estava pegando fogo, eu dava aula de Antropologia, no ciclo básico da PUC, que era uma maravilha, a gente lia Marx, Lenin e tudo mais, tinha uma bibliografia super quente. Então eu sabia que podia morrer se eu estava encontrando com alguém que estava na linha de frente, mas eu ia.

 

P/1 - Como foi esse caso que você contou um pouco pra mim, do Artur Scavone? Ele foi seu companheiro durante esse período?

 

R - Foi! Conheci o Pedro e um grupo da USP. E eu fiquei convivendo com o Artur um bom tempo, eu morava no apartamento, ele morava com a família, mas a gente vivia mais juntos do que ele com a família. E num certo momento, ele entrou para  a clandestinidade, porque ele já estava sendo procurado, antes estava na LN, passou para MOLIPO e começou ações armadas na cidade. Então a minha relação com ele passou a ser assim: ele só podia ir na minha casa à noite, depois da meia-noite, porque tinha ronda nos prédios, os porteiros também ficavam prestando atenção quem é que entrava, quem saía, tinha que botar o nome, e eles tinham que fazer um relatório para o DOPS. Então o Artur ia sempre à noite na minha casa. Até aconteceu uma coisa bem interessante, quando eu fiz 30 anos, o Pedro, o Arthur e mais outros amigos foram comemorar o meu aniversário. Num certo momento, o Pedro e o Arthur disseram, “a gente tem que fazer uma coisa aí fora, a gente vai!” Eles iam roubar um carro, porque eles diziam que desapropriava os carros para fazer as ações na cidade. Eles saíram e voltaram com um bolo. Aí eu disse, “mas como um bolo?”. “A gente achou dentro do carro que ia desapropriar”. E aí festejamos os meus 30 anos com um bolo desapropriado dentro do carro que eles estavam roubando. É uma piada, nossa! Agora recentemente eu disse para o Artur, “olha, nós éramos professores, guerrilheiros, amantes e moleques. Fazíamos brincadeiras”.

 

P/1 - Isso foi em 72? Vocês não pensavam “eu vou ficar velhinho, eu vou ter filho”?

 

R - Não! Não passava pela cabeça ter filho, nem casar. Bom, minha mãe já não tinha casado, então eu não tinha o valor, o ideal de família organizada, e direitinho, bonitinho, eu já não tinha esse ideal. E com o Artur, viver enquanto for possível viver. A gente viveu junto enquanto deu, até que ele foi preso. Eu trouxe a foto dele de quando ele desapareceu, eu dava aula na PUC, mas eu fui falar com a madre Cristina, que era uma freira super progressista lá da Psicologia, e disse para ela, “o Artur desapareceu”. Ela disse: “já deve estar na vala comum, devem ter matado”. Aí eu fiquei desesperada, “não, mas eu quero procurar”. “Então vamos pôr um anúncio na Folha de São Paulo, Folha da tarde”. E aí eu fui lá na Folha e pus, “estudante desaparecido. Procura-se”. E levei uma foto dele, eu trouxe essa foto, depois eu vou deixar. Hoje eu consegui recuperar essa foto com ele, “Lembra, Artur?”. “Lembro, vou te mandar a foto”. E com isso a gente deu uma pista para que nós sabíamos que ele estava na mão da polícia.

 

P/1 - Que era importante saber onde tava, né?

 

R -  É, a gente não conseguia saber, ele desapareceu da minha casa, da casa da família, e a gente não sabia onde estava. Os pais começaram a procurá-lo nos necrotérios da cidade e nos hospitais, e eu tinha uma amiga no Hospital das Clínicas que era médica, aí eu fui lá e disse: “O Artur está desaparecido”. Ela disse: “não tá, ele chegou aqui baleado e agora está no Hospital Militar”. Então a Tininha, essa minha amiga, me deu a pista. Aí eu falei com a família dele, aí a família dele começou a se articular para dizer “estamos aqui, queremos saber onde ele está”. E ele estava na Operação Bandeirantes, logo depois que saiu do hospital, levou 6 tiros da polícia, aí ele foi para OBAN.

 

P/1 - Ficou quanto tempo na mão deles?

 

R -  Ele ficou 5 anos preso, e nesses cinco anos, eu acompanhei. Eu fui presa uns 4 meses depois. Ele falou meu nome e confirmou que era meu namorado. Eles me procuraram. Os pais dele me avisaram “você vai ser presa”. No dia que eu voltei de Franca, eles estavam lá na minha casa, e aí me prenderam.

 

P/1 - Isso em que ano?

 

R - 72.

 

P/1 - Como é que foi entrar na PUC e na UNESP em Franca? Dar aula em ensino superior?

 

R - Então, eu já tinha terminado a pós-graduação e ia começar a fazer o mestrado, porque ainda não tinha mestrado na USP, só pós. Eu tinha terminado os créditos e tinha um amigo que fazia pós-graduação comigo, e ele disse, “Rosane, estão precisando de professor na PUC, de ciência política”. Era o Maurício Tragtenberg, que era um grande sociólogo, coordenador da Ciência Política. Eles me apresentaram, “Rosane faz mestrado com a gente”... ainda não tinha entrado no mestrado, “pós-graduação, está terminando, vai para o mestrado em política”. Daí eu entrei lá, conversei, eles avaliaram, “não, ela vai trabalhar com a gente, vamos formar uma equipe”. Aí eu comecei a dar aula de Ciências Políticas na PUC de São Paulo.

 

P/1 - Isso de que ano a que ano?

 

R -  Eu fiquei, talvez, de 71 a 73, 2 anos. Quando eu fui presa, eu estava na PUC, e Dom Paulo Evaristo Arns intercedeu, de certa forma que eu saí da Operação Bandeirantes, não sofri tanto, porque Dom Paulo teve uma presença super importante. O pessoal da PUC soube que eu fui presa, e ele interferiu. O meu pai também, porque era amigo do Ministro da Justiça, era Alfredo Buzaid. Então, ele falou com ele, disse “minha filha”. Não deve ter dito “minha filha”, mas enfim, “tem uma pessoa, socióloga, tá presa”. Deve ter tido também alguma interferência disso, porque… eu tinha um álibi quando eu estava no DOI-CODI: o Torigoe tinha morrido, e o Artur não sabia nada o que eu fazia, porque eles eram células muito separadas, quer dizer, eu não contava para ele o que eu fazia, ele não me contava o que fazia, eu desconfiava. Enfim, eu pude inventar uma história. De fato, eu nunca tinha pego em armas, fazia o que eu podia dentro da universidade.

 

P/1 - Como é que isso te ajudou a não sofrer muito?

 

R - Na Operação Bandeirantes me ajudou o fato do Torigoe ter morrido, porque não tinha acareação com ninguém. Eles não podiam checar se o que eu estava falando era verdadeiro ou não.

 

P/1 - Está falando do Hiroaki Torigoe? 

 

R - Hiroaki Torigoe.

 

P/1 - Você foi próximo dele até o fato acontecer, é isso?

 

R - Até ele morrer!

 

P/1 - Isso também foi um dos motivos para irem atrás de você, provavelmente?

 

R - Porque quando o Pedro e o Scavone foram presos, o Torigoe já tinha sido morto, mas foi uma turma da MOLIPO que foi presa e o meu nome apareceu como alguém que tinha ligação com o Torigoe, mas ele estava morto, então eles não podiam chamá-lo para perguntar, “afinal é ou não é, como que é?”

 

P/1 - E você ficou quanto tempo?

 

R - Fiquei só uma semana presa. Mas claro que DOI-CODI nunca é beleza, é uma coisa muito forte, porque muita gente está sendo torturada, está gritando, eu via as pessoas machucadas. Eles me ameaçaram, mas não me ameaçavam tanto quanto eles ameaçavam quem de fato chegava lá e dizia, “eu estava na luta armada”. Eram meninos de 18, 20 anos. Eles diziam, “eu estava na luta armada, eu estava armado, eu ia atirar se fosse preciso”. Eles não negavam, algumas coisas sim, que não tinham provas. E eu não tinha, não estava mesmo, eu estava na universidade ainda, não tinha dado passo para fazer treinamento armado.

 

P/2 - Como foi sua vida dentro de uma prisão, como que era?

 

R - Eu não fui agredida fisicamente, mas digamos, eu cheguei lá no CODI DOI, fiquei um dia e meio num quarto, que era logo a entrada, não me puseram lá embaixo, fiquei num quartinho com comida, com água, com banheiro, com colchão no chão e ouvindo os gritos das pessoas, então isso foi terrível. Eu sabia que o Artur estava lá e quando eu fui lá para baixo, que aí eu fui para a cela das mulheres, tinha uma coisa dúbia, porque eu queria muito ver o Artur, eu gostava muito dele e eu queria muito vê-lo, eu não via a 6 meses, digamos. Então quando eu reencontrei com ele, mesmo que tivesse sido para acareação, daí eles iam ver se o que ele contou batia comigo, tal. Eu tinha algum tipo de felicidade por reencontrá-lo vivo. Mas eu estava na sala das mulheres e aí a gente tinha uma coisa muito solidária, uma com as outras, uma estava grávida já acho que com 6 meses, 7 de gravidez, então a gente cuidava dela, tinha uma solidariedade intensa entre nós. E com eles, eles cantavam músicas lá, revolucionárias, da sala deles e a gente respondia, eles assobiavam. A gente estava em celas próximas. Terrível, porque sempre tem muita ameaça, eu sabia que eles podiam me matar, e eles diziam que ia matar, a ameaça deles… A tortura não foi física, eu não tive tortura física. Tive assim, “tira a roupa”, humilhação, um monte de situações muito… a gente ficava com muito medo de não sobreviver, podia não sobreviver ali, porque tinha ameaça, mas sobrevivi.

 

56:13 P/1 - Depois de uma semana te liberaram, foi isso?

 

R - É! Eles tinham levado todos os meus livros de sociologia, de ciência política, eram muitas malas, porque eles entraram no meu apartamento, apertaram a campainha, entraram, estavam armados com metralhadoras, então demoliram o meu apartamento, que eles queriam achar armas. “Podem tirar tudo que vocês não vão achar armas”. Mas acharam os livros, então eles encheram várias sacolas, o que coube, era um fusquinha, o que coube no porta malas eles levaram. E daí eu saí algemada já do prédio e com 3 homens, um na direção, um aqui, mais dois atrás comigo.

 

57:04 P/1 - E como é que foi voltar para casa depois disso?

 

R -  Foi muito difícil! Eu morava com mais pessoas, com uma amiga e com uma irmã de um cara que eu comecei a namorar paralelamente ao Artur, porque o Artur ia ficar lá, sabe quanto tempo. Eu tinha ficado grávida dessa pessoa e foi muito difícil, porque eu não podia aparecer no Presídio Tiradentes grávida para visitar o Artur, eu fiquei muitos meses sem vê-lo, porque ele ficou incomunicável. Então tive que fazer um aborto, porque o Arthur me escreveu “agora você vai poder me visitar no Presídio Tiradentes”. Quando ele falou isso, eu falei, “eu não vou grávida lá, e fiz um aborto”. Então isso foi muito difícil. E aí eu passei a visitá-lo, eu fiquei 5 anos indo. Tiradentes, depois Carandiru, Penitenciária do Estado e o Barro Branco, que foi o último presídio que ele ficou.

 

P/1 -Ao longo de 5 anos?

 

R -  5 anos.

 

P/1 - E depois de você sair como é que foi, você tentou se reestabelecer já trabalhando?

 

R - Não, eu continuei. Depois que eu saí do DOI-CODI, continuei trabalhando na PUC, mas na Unesp não deu, porque daí eles mandaram um comunicado, foram no lugar onde eu morava lá em Franca e eu fui demitida. Eles entraram na sala e disseram, “você não trabalha mais aqui, pode pegar as suas coisas e ir embora”. Então eu fui na Secretaria de Educação, aqui em São Paulo, para saber o que tinha acontecido, aí me disseram, “você é comunista, e como comunista você não pode continuar dando aula”. Eu continuei na PUC, mas fui presa uma segunda vez, e daí essa prisão em 74, eu morava com um grupo de pessoas que tinham ligação com um grupo que era da Argentina, mas eu nem sabia. A polícia chegou lá, daí foi no DOPS. Foram presas todas as pessoas da casa, eu também! Mas eu nem sabia do que se tratava. Fui interrogada, fiquei uma semana no DOPS, pela segunda vez. Quando eu saí, eu disse: “não quero mais morar em São Paulo”. Porque esses dois anos, em 72 e 74, eu tinha uma pessoa na porta da minha casa, que ficava dia e noite, revezava, vinha um outro, para ver quem entrava, quem saía. “Eu não quero mais continuar com gente na porta da minha casa, então eu vou embora”. Então eu fiz concurso na Universidade de Londrina e fui dar aula lá.

 

P/1 - Isso em setenta e…?

 

R - 73, 74. No ano seguinte, 74, 75, 76. 74 cheguei em Londrina, depois que eu saí da segunda prisão, me mudei e fiquei dois anos: 74, 76 em Londrina.

 

P/1 - E além de um cara na sua porta, você sentia a presença dos órgãos de inteligência de outra forma também?

 

R - Eles ficaram sabendo o que eu fazia, até 86, 87, tem um relatório que eu não estou com ele agora, eu não consegui encontrar, que eles sabiam tudo que eu fazia, os congressos que eu ia da SBPC. Sabiam tudo que eu fazia, o que eu escrevia. Peguei alguns textos que eu tinha escrito, tavam lá, tava cópias com eles. Então eles continuaram. Mas em Londrina era uma terra meio que de ninguém. Lá eu comprei o livro: O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, O Manifesto do Partido Comunista, dava aula de Ciência Política. Aí eu dizia na universidade, “bom, eu tenho que dar esses textos, eu dou também Max Weber, positivismo, eu dou tudo, mas eu tenho que dar também Marx”. Então era incrível, porque os alunos eram filhos de fazendeiros com o livrinho do Manifesto Comunista debaixo do braço. Eles achavam o máximo. Isso era antes da Anistia, eu estava lá em Londrina, levava filmes aqui de São Paulo, passava no cinema, aquele japonês maravilhoso, como é que é o nome dele? Kurosawa! Levava os alunos para assistir. Enfim, eu fiquei dois anos lá, depois eu voltei para São Paulo.

 

P/1 - Antes disso, como era na PUC?

 

R - Eram muitos textos todos… do Manifesto, todos textos marxistas, mas também a gente contrabalançava. E na PUC, o Ciclo Básico era muito progressista, tinha todas as matérias, os professores, metodologia científica, psicologia, teologia, eu dava antropologia, era gente muito progressista. E os alunos, peças do Plínio Marcos, que ainda estavam sendo passadas, a gente levava as turmas, era muito aberto. Era um desafio, mas a gente estava lá e fazia esse desafio. Levava os alunos para discutir as questões dos negros, dos indígenas. Enfim, os textos eram todos que a gente conseguia. Tinha um Livreiro na Barão de Itapetininga, que depois foi para USP, agora esqueci o nome dele, era um cara que trazia livros, da Argentina, do Chile, e a gente ia lá e comprava e fazia xerox para os alunos, tinha uma pasta lá de todos esses livros que não entravam aqui legalmente, mas que a gente comprava debaixo do pano e passava para os alunos.

 

P/2 - Não tinham medo dos alunos?

 

R -  Tinha alunos policiais dentro da sala de aula.

 

P/2 - Mas tinha medo?

 

R -  Acho que não, a gente… Eu, apesar de já ter sido presa, quando estava na PUC, continuava. Eu tive uma vez um aluno, eu acho que era um chinês, ele disse, “olha  professora, esses textos que vocês estão dando, esses filmes…” Queimada, um filme maravilhoso, que a gente passou e discutiu. “Isso tudo que vocês estão fazendo com a gente, a gente vai querer ir para a luta armada”. Eles diziam assim, de tão vigoroso que era o debate dentro da PUC, era muito interessante, muito bom.

 

P/1 - Você conseguia destacar o aluno que era policial?

 

R - Não! Mas sabia que tinha, porque o Mata Machado, que foi um cara que foi da UNE, já tinha sido preso e exilado, tinha voltado e tava na PUC, era meu aluno, ele fazia pedagogia. E alguém de dentro da turma denunciou ele, ele foi preso novamente. Então existiam alunos que eram policiais, que estavam lá na PUC fazendo isso, ouvindo e gravando e tudo mais. Mas sabe, era tanta gente, era tanta aula, que se tivessem que controlar tudo, não davam conta. Imagina que na PUC, quando eu dava aula, veio o Félix Guattari com rádios piratas. Quer dizer, tinha ditadura, mas tinha uma bruta coragem. Éramos destemidos.

 

P/2 - Você estava lá no dia da invasão da PUC?

 

R -  Não, eu já não estava mais, já tinha ido para Londrina. Mas éramos destemidos, a gente não tinha medo. Quer dizer, tomávamos certos cuidados, mas fazíamos o que tinha que fazer, o que acreditávamos que tínhamos que fazer. Eu acho que a PUC formou muita gente, muito interessante, eu tenho ex-alunos que até agora me escrevem, bem interessante. Tem um, o Rubinho, até hoje, “professora Rosane, não sei o que, me manda texto, me manda o que ele está fazendo”. Tenho alunos até hoje que estão presentes na minha vida. 

 

P/1 - E nessa época as pessoas dizem que apesar da ditadura, a cultura era bem forte.

 

R -  Muito, muito! Caetano Veloso, maravilha. O show do Chico Buarque no Belas Artes. Eu fui num show que ele cantou “A banda”, que maravilha! Quando Caetano voltou do exílio, eu fui para a PUC e estava a PUC toda cercada, o Caetano chegou e eu pulei lá uma barreira que tinha, entrei sem pagar, fui lá assistir o show do Caetano, era maravilhoso. O Tuca com o Vida e Morte Severina, o Zé Celso Martinez, com todas as loucuras que ele fazia lá no Teatro Oficina já, a cultura era destemida também.

 

P/1 - E nessa época você gostava da cidade de São Paulo?

 

R -  Muito, muito! Porque a gente tava dentro da ebulição que era muito forte!

 

P/1 - Em Londrina, como é que foi?

 

R -  Era mais tranquilo, porque era um pessoal meio ingênuo, mesmo na universidade, eles não tinham uma coisa muito assim como tinha a PUC aqui em São Paulo. Lá era uma coisa assim, eu mandava os textos para o xerox, passava para os alunos, vinha aqui em São Paulo, pegava os textos. Arrumei uma livraria que vendia os livros para eles lá, então Londrina eu não me sentia muito perseguida, porque não tinha tanta fiscalização. Apesar, por exemplo, a Joana Lopes, que é uma amiga minha, que a gente montou lá um grupo de teatro na periferia, no conjunto habitacional, a Joana foi super perseguida. E lá em Londrina, a gente começou o movimento pela Anistia.

 

P/1 - Como assim?

 

R -  Então, a Terezinha Zerbini fazia umas reuniões aqui em São Paulo, eu morava em Londrina, já era amiga da Joana e a gente trabalhava na universidade juntas. E aí a Teresina Zerbini foi lá, a gente fez um braço do movimento da Anistia em Londrina, e aí a gente passou a colher assinaturas pela Anistia, de casa em casa, a Joana e eu, batíamos na porta, “o movimento da anistia”. E nasceu lá o Jornal Brasil Mulher, que a gente também começou lá, na gráfica de um jornal que a Joana trabalhava, Folha de Londrina. A gente ia de madrugada e rodava o jornal lá, clandestinamente,

 

P/1 - Quais eram os assuntos do jornal?

 

R -  Anistia, mas feminista, mulheres. As mulheres todas da América Latina que lutavam pela Liberdade e as mulheres bóias-frias, que eu trabalhava, fazia uma pesquisa lá sobre boias-frias. Foram 2 anos também, na universidade uma coisa assim mais ou menos, mas fora da universidade a gente estava fazendo acontecer. O movimento da Anistia de lá, depois eu mudei para São Paulo e aí continuamos aqui.

 

P/1 - Você voltou para cá, por quê? O que aconteceu?

 

R -  Porque eu cansei de Londrina. Londrina é uma cidade muito pequena, é muito provinciana e muito cheia de filhos de fazendeiros, o poder do café, que depois caiu. Eu vi o café acabando lá, mas eram filhos de fazendeiros. Chegou um momento que eu queria voltar, e o Artur tava preso aqui, eu vinha duas vezes por mês para cá, para visitá-lo. E aí eu voltei, fui trabalhar com educação, no CENAFOR, que era um local que tinha vários projetos. E depois eu fui fazer uma pesquisa grande aqui, sobre trabalho volante, na agricultura Paulista, na secretaria do planejamento aqui de São Paulo.

 

P/1 - Qual é o nome da instituição?

 

R - CENAFOR. Era um Centro Nacional de Formação. E lá tinha vários projetos de educação agrícola, educação com professores, eu dei cursos para professores de metodologia científica lá. A gente juntava professores de todas as escolas públicas e dava cursos, como é que você faz pesquisa na sala de aula. Então eu fiquei uns dois anos no CENAFOR, depois eu fui contratada pela secretaria do planejamento, para coordenar pesquisa de bóias-frias em São Paulo.

 

P/1 - Já entrando nos anos 80?

 

R -  É, um pouco antes.

 

P/2 - Queria saber da sua mãe, ela te acompanhou?

 

R -  Então, acompanhou, porque ela era mulher livre. Minha mãe, a Dona Nena, era uma figura incrível, quando eu fui presa ela ficou apavorada, mas ela se comunicou com meu pai, “faça alguma coisa”.

 

P/2 - Ela continuava em Curitiba?

 

R -  Em Curitiba, morava sozinha lá. Aí na segunda vez também, daí ela veio para São Paulo. Bom, aí eu estava envolvida várias vezes em ajudar pessoas que estavam perseguidas e se escondendo em Curitiba, sítios e não sei o que. Uma vez eu escondi um cara lá, que tava assim, “procura-se”. E eu catei ele aqui em São Paulo, levei para Curitiba, para um sítio, e acabamos colocando esse cara num colégio de freiras, que eram silenciosas. Tinha a igreja lá em Curitiba, tinha várias frentes, então ele foi ficar lá, eu conversei com elas, “ele é procuradíssimo, que tal?” “Pode trazer!” Então eu levei ele para lá, e ele ficou lá. Mas eu morava em São Paulo, e elas aceitaram e colocaram ele como jardineiro do colégio, do convento. Elas se apaixonaram tanto por ele, que era um homem lindo, maravilhoso, super doce, e aí as freirinha se apaixonaram pela pessoa. E a minha mãe nessa época, ia levar cigarro e livros para ele. Eu tava em São Paulo, eu dizia, “mãe, você topa levar?”, “Claro que eu levo!”. Pegava um ônibus, era longe, ia lá uma vez por semana, levava cigarros, livros e jornais para ele. E visitava os presos políticos aqui em São Paulo. Dona Nena era uma figura. Uma vez eles tinham que tirar do Carandiru O Manifesto, porque eles estavam sendo muito maltratados dentro do presídio, então fizeram um Manifesto com letras mínimas num papel de seda, e eles fizeram um crucifixo de couro, estavam fazendo artesanato lá no presídio, e dentro do crucifixo eles puseram o documento. E o Artur me perguntou, “que tal, você acha que a tua mãe sai com crucifixo daqui?”. Ela estava lá visitando. Eu digo, “não precisa contar para ela que tem documento aí dentro, ela vai sair inocente”. Saiu! E com esse documento veio para fora, e aí as famílias dos presos políticos levaram para o Dom Paulo, daí Comissão de Direitos Humanos. Minha mãe era uma mulher incrível, super, muito, não tinha ideologia, não tinha uma formação para isso, mas ela aderia, com muita coragem, “eu vou, claro que eu vou, claro que eu quero que as pessoas fiquem bem, eu vou fazer”. Ela fazia.

 

P/1 - Durante esses 5 anos como é que ficou a relação sua com o Artur?

 

R - Eu era a pessoa que ele tinha como intermediária com o mundo aqui fora, com a família dele também, a família dele visitava, mas a gente dividia os horários, eu chegava um pouco depois para que ele ficasse à vontade. Bom, eu gostava muito dele, e tinha muita admiração. Enfim, eu fiz com ele, mas não só com ele, com os outros, porque lá estava o José Genoino, tava muita gente, até nas fotos aparece todo o pessoal que estava lá. Então tinha uma relação muito… que era política, mas era afetiva com eles, com ele, e durou cinco anos, até que chegou uma hora, que não rolou mais.

 

1:17:56 P/1 - Não rolou mais de visitá-lo?

 

R -  É! Não rolou mais! Eu tinha minha vida aqui fora e eu namorava, não tinha como não namorada, eu tinha trinta e poucos anos, eu namorava. Então aí chegou uma hora, bom acho que vamos parar por aqui. E aí eu parei de ir e ele conheceu uma outra pessoa e casou com essa pessoa, logo quando ele saiu, ele casou. 

 

P/1 - Como é que foi a anistia para você, para os seus amigos?

 

R - Foi uma luta com os familiares dos presos políticos, foi muita mobilização, muita passeata, greve de fome dos familiares dos presos políticos, ida a Brasília para pegar assinatura dos deputados. Eu fui uma vez para Brasília com um grupo de familiares. Bom, eu era familiar, porque eu só pude entrar, porque eu fui na auditoria militar e com testemunhas, as testemunhas disseram que eu era mulher do Artur, que eu vivia com ele como se fosse mulher dele, então eu era familiar de preso político. E mais do que ele, ele sim, mas também o coletivo, que tava atuando e que tava numa luta intensa para conseguir Anistia. E foi uma festa quando veio, quando o pessoal começou a voltar, a gente sabe, tem tanta documentação que mostra.

 

P/1 - No CENAFOR me conta como foi?

 

R - No CENAFOR a gente formava projetos e mandava para algumas instituições de ensino, educação rural que eu me lembro, de comunicação com os professores da rede pública, eles iam para lá e a gente fazia discussões, treinamentos e toda uma busca de introduzir a questão de que é possível você trabalhar a realidade, as várias matérias, sempre usando uma metodologia científica, sempre usando um jeito de abordar a realidade de tal forma que tenha uma visão mais objetiva. Então isso foi muito interessante, esse trabalho que eu fiz lá dentro do CENAFOR. E lá tinha uma certa liberdade também, mas com cuidado, porque aí eu já tinha feito tanta idiotice, que aí eu já estava mais madura, eram equipes, eu fiquei, acho que uns dois anos no CENAFOR, trabalhando lá.

 

P/1 - Você já era mãe nessa época?

 

R -  Não, eu fui ser mãe em 81 só, tinha 37 anos, 38. Nesse período anterior, eu fui para oposição sindical metalúrgica, onde o Fernando, o Santo, que era clandestino, dentro de uma igreja do Socorro, a gente ia lá no porão, o Suplicy ia lá, dava cursos de política, de economia para os trabalhadores. E a gente ajudava na organização das greves, eu e a mulher do Raimundo Pereira, que é a Sizue Yamanishi, Raimundo Pereira do jornal movimento, que eu também trabalhei lá. Então iremos as duas lá, e a gente dava uma assessoria para eles, ia para a imprensa, ia fazer pesquisas de outras greves. E ia ajudar no dia da greve, a gente ia lá ajudar a organizar, fazíamos teatro com os Metalúrgicos. Até que chegou um dia que, bom, tava tudo meio que abrindo, aí o Santo Dias me chamou, uma semana antes dele morrer, “Rosane, vamos conversar, eu acho que agora já está vindo Anistia, a gente já está com mais espaço, então você e a Sizue não precisam continuar com a gente, a gente agora daqui para frente…” Ia começar a greve lá de Santo Amaro, aí ele foi morto. A morte do Santo, eu acho que eu chorei mais do que na morte do meu pai, porque foi uma coisa de uma violência sem fim, simplesmente foi baleado e eu trabalhava com ele há 3 anos, com ele e com a mulher dele. A mulher dele era do movimento contra a carestia, que eu também participei, a gente fazia meio que a cobertura, a gente conseguia, a Sizue e eu íamos uma vez por semana lá, e a gente conseguia fazer uma cobertura do quê estava rolando na zona sul, na zona oeste, em Osasco, a gente fazia toda uma relação do que estava acontecendo.

 

P/1 - Como é que foi o movimento de carestia?

 

R - Panelas vazias, movimento contra a carestia é porque houve um momento em que a inflação subiu muito e as pessoas não conseguiam mais comprar comida. E aí a gente começou a reunir as mulheres principalmente, foi numa igreja, na Vila Mariana, Santa Cruz, não me lembro bem, que a gente começou a reunir as mulheres e as famílias para discutir como é que a gente faz? A questão não é só ditadura, mas tem aí uma questão das panelas vazias. Porque não tinha greve, portanto os salários ficaram absolutamente congelados, então o movimento contra a carestia, a Ana Dias, mulher do Santo, e outras mulheres, a mulher do Fernando do Ó, enfim, eram várias mulheres e a gente juntava. Tinham os padres progressistas que ajudavam, teologia da libertação, então a gente começou a juntar e começou a discutir e começou a fazer cartazes e começou a ir para rua e daí foi um movimento que cresceu muito naquela época, mas basicamente tocado por mulheres.

 

P/2 - Como era sua relação com os movimentos das igrejas? Com o João Paulo?

 

R -  Sim, continuo! A gente tinha um padre que ficava na Vila Ré, que acho que o Fernando era da Vila Ré, não me lembro muito bem. E era um padre super progressista, a gente ia lá, fazia reunião com mulheres… Era a partir das bases dessas igrejas, que depois a gente ia para o movimento maior, por exemplo, eu acho que é….  Metropolitana, eu não me lembro bem, era um prédio grande, perto da Vila Mariana, qua a gente fez uma grande movimento… Era a partir dessas igrejas, da educação, das comunidades de base, que a gente discutia ali com as mulheres, e dali ia para as coisas maiores, reuniões maiores.

 

P/1 - E em casa nessa época, vocês sentiam que o dinheiro não estava dando para pagar…

 

R -  Eu tinha bons trabalhos, eu trabalhava na secretaria do planejamento, fazendo pesquisa, ganhava muito bem lá, depois eu fui fundação SEADE, que era estatística, eu saí do planejamento, mas o SEADE pertencia. Então eu ganhava muito bem nessa época, então eu tinha espaço… eu não consigo hoje, pensar e me lembrar, que a coisa apertava na minha mesa, na minha não apertava.

 

P/1 - Mas na dos outros você percebia?

 

R -  Dos outros, claro! Nas periferias, a gente sabia que estava uma situação insustentável, porque eu estava toda semana lá com os Metalúrgicos, com as mulheres, com as comunidades de base, a gente sabia. Mas a classe média tocava a vida.

 

P/1 - E o movimento recuou bastante? Movimentou o noticiário?

 

R - Já começava a movimentar o noticiário. O noticiário já começava a aparecer para fazer cobertura. Porque o noticiário era censurado, mas em todo caso, algumas coisas passavam, então já começou uma mobilização e jornalistas dos jornais alternativos, que circulavam, Movimento, jornal O Pasquim, O Movimento, eu trabalhei um tempo nele. A gente tinha um jornal que chamava Jornal dos Jornais. A gente recolhia todas as notícias da semana, de vários jornais e juntava lá os Metalúrgicos na sede do jornal Movimento e a gente discutiu com eles o que a gente devia noticiar, então nós fazíamos um jornalzinho, com as principais notícias que interessavam para os trabalhadores, e eles levavam para fábrica, era pequeno, encarte. A gente se reunia, acho que sexta, sábado, domingo, montavamos o jornal, editava lá no Movimento, imprimimos lá, e eles levavam para as fábricas. Porque o pessoal não liga jornal, e os jornais eram todos censurados, mas alguns soltavam algumas notícias, então a gente selecionou essas notícias e punha naquele Jornal dos Jornais, que o Raimundo fala disso. A gente teve uma reunião, acho que uns 2 anos atrás, antes da pandemia, de aniversário do Movimento, das oposições Metalúrgicas, eu fui lá, me encontrar com todos os ex companheiros, foi muito bonito.

 

P/1 - Rosane, você estava trabalhando na secretaria de habitação, é isso?

 

R - Não, eu trabalhei na Secretaria de Planejamento, depois da fundação SEADE, com dados, estatísticas e depois disso… Nesse período que eu estava lá com o pessoal da oposição Metalúrgica, mas também foi nesse período que eu conheci o pai da minha filha, que é o Ricardo Neder, que hoje é professor da Universidade de Brasília. Tava conhecendo o Ricardo quando o Santo Dias morreu, foi engraçado, porque o Ricardo é 10 anos mais novo do que eu, então ele não viveu o que eu vivi e no dia da morte do Santo, ele não atinava muito bem o que que era tudo aquilo, que violência era aquela, porque não tinha vivido a ditadura que eu vivi. Mas então eu casei com Ricardo, não casei, eu comecei a morar com ele, conheci num congresso de metalurgia em Belo Horizonte, ele é mineiro. E aí bom, a gente teve uma filha, vivemos 5 anos juntos. Quando eu me separei dele eu voltei a morar em Curitiba, porque eu tinha que acabar com o processo do meu pai, da herança. Eu achei que eu tinha que voltar para resolver isso, para poder receber alguma coisa. E eu fiquei 10 anos em Curitiba, foi muito interessante, porque eu voltei para minha cidade, e eu fui trabalhar com pesquisa também, na Secretaria da Agricultura, depois eu fui trabalhar com abastecimento alimentar, na prefeitura de Curitiba. Enfim, eu tive trabalhos muito interessantes. Aí finalmente a gente montou uma universidade popular do trabalho lá, com Metalúrgicos, com Trabalhadores de várias entidades, CGT. E esse foi o meu último trabalho em Curitiba, a gente finalmente conseguiu que a CUT fosse para dentro da Universidade, a gente fazia cursos de comissões de fábrica, e daí eu comecei a sair de Curitiba e voltar para São Paulo através das condições de fábrica, que a gente começou a debater lá, e que já estavam sendo debatidos aqui em São Paulo, em Cajamar, porque daí o PT já tava aí!

 

P/2 - Como foi voltar para Curitiba com uma filha? Você foi morar com a sua mãe?

 

R -  Fui! Foi bem interessante, porque eu fui morar com a minha mãe, quando eu saí daqui, me separei do Ricardo e consegui um trabalho lá. Aqui estava muito difícil, eu trabalhava na Secretaria da Saúde, mas ganhava muito pouco, quando a Clarissa nasceu, eu resolvi,” vou fazer um concurso, vou trabalhar”. O Ricardo era bolsista da FAPESP, fazia mestrado. Então eu vou trabalhar na Secretaria da Saúde de São Paulo, pelo menos eu fiz um concurso, não vou ter risco de perder o emprego, que eu já tinha perdido na Fundação SEAD. Então eu trabalhei 2, 3 anos aqui e chegou a hora que eu não conseguia mais conviver com ele, fui para Curitiba. Então antes de ir eu já fiz um concurso lá, para EMATERC é uma empresa de Assistência Técnica Rural. Eu passei, daí a secretaria da agricultura tava precisando de pesquisador, na área de agricultura, então eu fui, fiquei lá. Foi um período muito rico, trabalhei no IPARDES, que também é um instituto de pesquisa lá do Paraná, com o abastecimento alimentar, pessoal de periferia, com cestas comunitárias. Enfim, foram 10 anos que eu fiquei lá. Quando eu comecei a voltar para cá…. Mas aí chegando lá também, cidade pequena, cidade muito tradicional, uma cidade com visão muito estreita da vida e tudo, mas como eu fazia coisas que eu gostava, eu não estava bem no lugar, eu pedia para ir para outro, fiz muitas coisas interessantes em Curitiba. E a Cla também passou por muitas escolas, meu pai tinha uma escola em Curitiba, tinha tido, e o meu irmão… me recuperei com os meus irmãos, isso foi interessante. E um deles era dono de uma das escolas que tinha lá, e a minha filha… então falei com ele, a Cla é neta do Milton, então vamos lá, vamos arrumar uma bolsa para a Cla. E aí a Clarissa foi estudar na escola do tio, e foi interessante, eu me aproximei da família, eu não tinha nenhuma intimidade com eles, eu fui conhecer os meus irmãos eu tinha 25 anos, e foi bem interessante essa aproximação, da Cla também, com esses tios que ela não conhecia. Foi uma vida boa, mas num certo momento eu pensei “eu não quero que a minha filha case virgem em Curitiba”, que vão exigir que ela case virgem, porque era tão estreita visão na cidade. Aí eu comecei a me preparar para vir para São Paulo. A Luiza Erundina estava chegando na prefeitura, eu acompanhei a eleição dela, eu chorei, me emocionei. E aí abriu um concurso para socióloga e eu catei a Cla e vim embora. Aí eu fiquei quatro anos trabalhando com a Erundina, foi maravilhoso, maravilhoso, realmente, foi assim, não tinha hora, ficava até 10 horas da noite, ia para os movimentos de moradia, de lutas por terra, por isso, por aquilo. Enfim, a gente trabalhava muito! E eu fui trabalhar com a equipe, uma equipe que a mulher do José Genoino coordenava, também era todo o pessoal super militante que eu já conhecia há muito tempo. Então foram quatro anos assim, de festa, mas muito trabalho, muita coisa interessante, compras comunitárias e depois coleta seletiva do lixo, a gente organizava e discutia, ia na periferia, nas favelas discutir a urbanização de favelas. E com Nabil Bonduki, toda aquela história também, de casas populares. Então foram quatro anos muito interessantes na prefeitura. Quando eu estava na prefeitura, veio o Maluf, aí eu fiquei cercada, eles apagaram todos os dados da Administração Regional de onde a gente trabalhava, foram para o computador e apagaram tudo, “não interessa”. Aí eu fiquei à margem lá, fiquei um ano de molho, eles não me davam trabalho. Aí depois que eu vi que tava muito ruim, eu soube que a Febem estava precisando de alguém, sociólogo, para trabalhar com informações. Aí fui para a Febem, eu ficava meio período na prefeitura e o resto eu trabalhava na Febem. Agora, na prefeitura foi uma coisa bem interessante, porque eu estava na Febem, e na prefeitura também não tinha muito o que fazer, nesse meio período que eu ficava lá. Aí eu resolvi que eu ia fazer um curso de Supletivo de oitava série, que era aquele curso que a Globo vinculava, nem me lembro bem o nome, mas era um curso supletivo. Aí eu fui procurar os trabalhadores da prefeitura que não tinham alfabetização, ou que tinham, mas queriam continuar estudando, os analfabetos não queriam, não se mostravam, tinham vergonha de se mostrar como tais, mas aqueles que fizeram até a quarta série, queriam continuar. Então a prefeitura comprou os cursos por TV, eu comecei a dar um supletivo de oitava série para quem quisesse, mas aí eu cometi um erro, porque os próprios trabalhadores da prefeitura, não queriam muito, então eu comecei a chamar gente do envolta, de outras empresas que tinham perto da administração de Pinheiros, casa de modas, fábrica de não sei o quê, e chamei vários, daí montei uma turma, comecei a dar aula. Que foi até um tempo, porque daí é prefeitura, era Maluf, ou era aquele outro lacaio dele que eu não me lembro o nome…Pita, foi o Pita. “Mas como você está usando o dinheiro da prefeitura para fazer supletivo para a gente que não é da prefeitura?” Mas aí eu tava na Febem, daí eu fui fazer a pesquisa da Febem. Porque estava altíssimo o índice de AIDS, do desenvolvimento do HIV, aí eu estava lá, e eu tinha um grande amigo na faculdade de saúde pública, o Rubens Adorno. Ele disse assim, “vamos fazer uma pesquisa na Febem sobre as famílias, para saber como que é, como que não é, quem são esses meninos”. Aí a gente começou uma pesquisa sobre as famílias. Primeiro porque diziam “esses meninos são terríveis, são criminosos, porque as famílias são desintegradas, são filhos de mães que não…” Vamos ver se é isso mesmo. Fomos Rubens, eu e uma equipe, conhecer as famílias, aquilo que eu fiz com 17 anos lá na escola maternal para conhecer as famílias, eu fiz agora, fui lá procurar, “vamos lá!” E a gente viu que não era bem assim, que os meninos eram jovens que tinha família, que tinha uma mãe que lutava por eles, a maioria eram mulheres sozinhas, mas tinha os seus namorados, enfim. E não eram famílias marginais não, eram famílias que não era a família ideal, que nunca existiu na verdade, família ideal não existe. Então a gente fez essa pesquisa, em seguida veio uma demanda que a gente fizesse sobre a AIDS com eles. Então a gente fez sobre sexualidade e AIDS, uma primeira conversa e entrevistas com os meninos de várias idades, com as meninas também, para saber como é que rolava sexo lá, como é que era, porque eles transavam entre eles. E aí fizemos a pesquisa, o Rubens disse, “entra no mestrado, vai fazer essa pesquisa pelo mestrado”. Aí eu entrei no mestrado da USP, eu tinha 58 anos já, eu disse, “ah, eu não vou entrar!” Mas fui lá, fiz a prova no programa de integração da América Latina, e passei. Comecei a fazer a pesquisa com os jovens da FEBEM. E aí a gente viu que conversa não rolava muito, que a gente tinha que pegar de outra forma os conteúdos desses meninos, o que eles pensavam, como é que era. E aí a gente chamou o pessoal da psicologia da USP que foi para lá e eles começaram a perguntar para os meninos, “do que vocês gostam, como é que é a música, como é que, não é?”. Eles gostavam de hip-hop, então a gente contratou uma equipe de hip hop para ir para lá para dentro da FEBEM e fazer Break, DJ, grafiti, tudo que o Hip Hop propõe como forma de expressão. Esse grupo que foi para lá, era um grupo de jovens também, que trabalhavam com isso e eles provocavam os meninos para os meninos escreverem as histórias deles. E a partir da escrita, transformava em poesia, e através da poesia papapa. Fizeram CD, fizeram um show lá maravilhoso de dança, de música, vários cartazes com grafite. E eu com eles lá, conversando, “vamos no break, vamos nisso, vamos naquilo”. E desse conteúdo que saiu nas letras, eu fiz o trabalho de tese do mestrado. E eu tinha orientador, que era o Cavaleiro, que era um médico, vamos lá, ele não tava muito a fim de nada, a gente precisa saber o que esses meninos pensam, ele não me orientou muito. Mas eu fui e comecei a fazer cursos na ECA e encontrei a Cremilda Medina, que era uma mulher maravilhosa, que era super interessante e ela começou a me instigar e ela passou a ser a minha orientadora informal. E o Cavaleiro disse, “bom, tem que fazer uma comparação”. Porque o Prolan é um curso prevê, uma comparação entre Brasil e outro país da América Latina. E eu fui para Colômbia, o Cavaleiro me arrumou uma bolsa do Ministério da Saúde, sei lá do quê, e eu fui pesquisar os meninos dos presídios de Medellín, foi maravilhoso. Porque isso, eles têm meninos da FARC, que estavam presos. Enfim, virei a Colômbia pelo avesso e consegui fazer um conteúdo maravilhoso e fiz a tese, daí voltei para cá e fiz a defesa lá no Prolan, foi uma virada na minha vida, muito interessante. Mas claro, aí foi demitida da Febem, como que eu vou chamar a Febem, “a Febem era porta do inferno”, eu peguei o Dante e pus lá. E aí tudo que os meninos revelaram que existia de terrível lá dentro, comparando para Colômbia.

 

P/2 - Você tem algum aluno, aluna, algum jovem que te marcou?

 

R - Eu acho que esse menino que eu escrevi a história dele na tese, que eu dei o nome de Alex. O Alex era grafiteiro e me contou a história dele. A história dele é como a da maioria, ele faz uma síntese da história de todos. Ele disse, “eu era pobre, trabalhava numa fábrica. De repente, um amigo meu disse assim, dá o mapa da mina para a gente entrar na fábrica, eu dei, e daí eu ganhei uma moto, ganhei uma bicicleta, comecei a ganhar dinheiro, e aí tá bom, eu virei assaltante, daí eu vim parar aqui na Febem.” Eu acho que chamei de Alex. O Alex é a síntese de todos os outros, que de certa forma pensam e vivem, e a necessidade de consumo, e de ter bens, de ser reconhecido pelas minas. Então acho que ele foi um cara me marcou muito, antes de eu terminar a pesquisa, ele disse assim, “eu vou sair, mas eu tenho muito medo”, ele falava. “Porque aqui dentro é terrível, é um inferno, mas eu tenho uma certa proteção. O que vai ser de mim quando eu sair e me sentir tentado novamente a buscar dinheiro da forma que eu já busquei e já consegui da outra vez?”. Então, quando eu escrevi a história do Alex, eu me pus no lugar dele e eu vivi as dores dele, e eu passei a falar dele. Eu acho que de todo esse pessoal que eu trabalhei, o Alex foi o cara que me transmitiu o fundo da alma de um jovem pobre que é explorado, que quer viver, que quer ser reconhecido, que quer ter uma identidade, quer ter voz.

 

P/1 - E você trabalhou mais depois disso?

 

R - Eu me aposentei!

 

P/1 - Isso já era noventa e…?

 

R - 2000, 2002. Eu fui para Santos, me aposentei, fiquei 10 anos lá, achando que eu ia fazer férias, “ai férias, que maravilha, mar, sol, praia”. E aí eu cansei e voltei para cá, exatamente quando eu percebi que eu podia de novo me por num grupo de política aqui e daí eu voltei a morar aqui e entrei no grupo de política, de vários profissionais, várias tendências. E aí eu fiquei uns dois, três anos, depois veio a pandemia, daí as coisas mudaram, mas eu fiquei, voltei eu já tinha 75 anos, 77 anos.

 

P/1 - E como é que foi o crescimento da sua filha? Você tem netos?

 

R - Tenho um neto, o Joaquim. O Joaquim tem 3 anos, é um menino super inteligente, afetivo. A minha filha fez Ciências Sociais, ela morou 3 anos na Inglaterra, daí ela se formou em Artes Plásticas e Tecelagem, virou professora de Tecelagem, aqui em São Paulo, no Sesc São Paulo, Brasil, com a pandemia, dançou, porque os SESCs fecharam. Ela casou com um cara, com um homem que ela tinha a mesma idade que eu, quando ela casou, ela teve um filho também com 39 anos, quer dizer, fez um repeteco. E se separou agora que o menino fez 3 anos, veio morar comigo, e daí eu dei mais um grito de liberdade, ela morou dois meses comigo, eu disse, “Cla, acho que não dá”.  Que é o que a minha mãe fez comigo quando eu cheguei em Curitiba. Fui morar com a minha mãe, com a Cla que era terrível, subia nas janelas, trepava, pulava, gritava, minha mãe disse, “chega, já tenho 78 anos, eu não quero essa menina aqui todos os dias da minha vida fazendo tudo que faz, então procura um lugar para morar”. E minha mãe com essa idade e com 40 anos. Procurei um apartamento no mesmo prédio que ela, e fui morar lá feliz e sem questionar. E agora aconteceu a mesma coisa com a Clarissa, eu disse, “não dá. Eu não tenho paz”. Porque criança acorda às 6 horas da manhã, grita e chora, “não, você vai morar sozinha”. Então agora a gente está montando a casa dela sozinha, aqui na Vila Madalena, ela, o filho e eu estou morando sozinha, novamente.

 

P/1 - Parece que deu volta a vida, né?

 

R - Deu! Foi bem legal isso. A vida rola e as coisas mudam e a minha energia diminui de um lado, mas aumenta do outro, estou fazendo curso de psicanálise agora, sim senhores, fazendo psicanálise.

 

P/1 - Como é que foi voltar um pouco essas memórias?

 

R - Foi muito bom, encorajador, revitalizador, principalmente juntar as pontas, juntar o que às vezes fica disperso. E já há muito tempo, pelo menos desde que eu comecei de novo a fazer psicanálise, porque eu fazia desde os 15 anos de idade, que com a família, pouca família que eu tive, tinha que fazer. Aí eu voltei a fazer agora, com um cara que tem 33 anos, que é super jovem e que já estou há dois anos com ele, e aí ele disse, “mas podia escrever essa sua história”. E o advogado também, que me instigou agora, recentemente, a fazer um processo de danos morais, pela prisão, demissão da universidade. Então eu já tinha começado a juntar, mas agora eu fiz um esquema, tá aqui escrito, acho que agora dá para juntar fotos. Foi emocionante, porque a minha filha a Clarissa é um pouco arredia com política, ela não quer saber muito bem o que se passou com a minha vida, porque fica um pouco de peso para ela, acho que ela sente uma coisa meio pesada. E agora, antes de ontem para hoje, sentou comigo, “Cla, me ajuda a juntar as fotos”. Aí ela juntou as fotos comigo, e o Joca, o Joaquim, “essa aqui é minha mãe? Essa aqui é a minha vó? Essa aqui é minha bisavó? Essa aqui é a treta vó?” Ele ficou, mexeu nas fotos e olhava, “é a minha bisa.” Enfim, não conheceu ninguém, foi incrível, acho que foi um presente que vocês deram, foi!

 

P/1 - Que bom! Você teria algum saldo da sua vivência nesse período?

Você tem alguma reflexão com relação ao que a gente vive hoje, será que tem alguma coisa a ver o período que a gente vive hoje com o que aconteceu no passado, o que você pensa sobre isso?

 

R - Eu acho que hoje eles são muito mais eficientes, eu acho que hoje ele tem um plano muito… os outros também tinham, os militares tinham, mas eu acho que hoje ele tem um plano muito mais eficiente, muito mais sutil. É sutil e não é, porque eles fazem coisas terríveis, eles acabaram com as políticas sociais. No começo eu estava quase sem fôlego, porque todos os dias tem um desmonte diferente, mas por outro lado eu acho que teve muita movimentação, eu fui com o grupo de 68 para rua, com faixas, fui para Maria Antônia, eu acho que tem uma revitalização e uma busca de acabar com isso, de recuperar tudo que a gente já teve de conquista, não tem como enterrar tudo. Eu acho que se tem 30% de Bolsonaro aí, 25, sei lá quanto, caras que já estavam aí, eles estavam lá há muito tempo. Então eu acho que agora é renovar a possibilidade de recuperar, de fazer diferente do que foi feito, radicalizar de certa forma. Enfim, vou fazer muitas alianças, mas que dessas alianças surja alguma veia de fazer diferente do que já foi feito, porque se não fizer isso, não tem como revitalizar, é muita coisa que foi desmoronada, que foi pisada, que foi direito de tudo, eu acho que tem que ter muita força daqui para frente para reviver.

 

P/2 - E você está com essa força?

 

R -  Eu acho que sim, eu acho que ainda tô, eu acho que é possível, minha mãe viveu até 92 anos, e lutando, fazendo e acontecendo. Então, bom, eu tenho uma herança aí de vitalidade e o meu pai também foi um cara muito vigoroso, ele começou com Getúlio Vargas, enfim. Trabalhou até uma semana antes de morrer, meu pai também foi um cara brilhante, interessante e inteligente. Eu acho que tem uma herança e tem uma herança de quem conviveu comigo, de quem tá vivo ainda por aí, isso que é muito bom, porque os que foram, foram. Muitos foram.

 

P/1 - Tá certo dona Rosane, obrigada pela conversa, espero que tenha sido bom para você também.

 

R - Muito bom!



  



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