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História

“A gente vive de vida”

História de: Ketty Valencio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/08/2021

Sinopse

Ancestralidade. Pais e avós. Mudanças de casas. Família de contadores de histórias. Período escolar. Movimento Hip Hop. Juventude. Música erudita. Feminismo. Trabalhos. Correio. Faculdade de Biblioteconomia. Trabalhos como bibliotecária. Bibliotecária escolar. Acervo de literatura não branca. Especialização em Gestão Cultural. Livraria Africanidades. Universo afro empreendedor. Empreendedorismo social e cultural. Coletivo Mercado Negro. Aprendizados. Narrativas que quebram paradigmas. Rotina. Projetos. Sonhos.

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História completa

P/1 – Vamos lá! Para começar, Ketty, gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e o local de nascimento.

 

R - Bom dia, meu nome é Ketty Margarete Valencio, mas eu prefiro que seja chamada sempre com o nome artístico, Ketty Valencio. Eu nasci no dia 12 de junho de 1982, em São Paulo.

 

P/1 - E quais os nomes dos seus pais?

 

R- Meu pai se chama Jonas Valencio e minha mãe, Maria Marta dos Santos Valencio.

 

P/1 – E o que eles faziam ou fazem?

 

R – Então, meus pais, atualmente, são aposentados. Mas minha mãe trabalhou bastante tempo como servidora pública, ela era atendente, educadora infantil. E o meu pai foi metalúrgico durante bastante tempo, a vida dele inteira. Metalúrgico, trabalhou em várias empresas, até trabalhou quase no ABC, ele pegou a grande greve e tal. E os dois atualmente são aposentados.

 

P/1 - E como você os descreveria?

 

R – Ah, meus pais são minhas grandes referências, de tudo, de inspirações, é tudo que eu sei. Acho que o meu aprendizado inicia-se com eles. Na realidade, são minhas duas fortalezas e também a minha ancestralidade direta, minha ancestralidade mais próxima.

 

P/1 - E você sabe como eles se conheceram?

 

R – Então, a história que eu sei... os dois são do interior de São Paulo. A minha família é oriunda do interior de São Paulo, o meu pai é de Sorocaba e a minha mãe é de Franca, São Paulo. E meu pai já morava aqui em São Paulo, ele veio muito pequeno para São Paulo, mas minha mãe veio com treze anos para São Paulo. Daí, quando minha mãe chega em São Paulo, ela se instala na região da Zona Norte e lá tem muitos bailes. Antigamente as pessoas faziam muitos bailes em casa e, nisso, amigos de amigos acabam fazendo essa aproximação, a minha mãe conhece o meu pai numa festa e eles começam a sair. E assim começa. O meu pai já tinha um relacionamento nesse período, daí meu pai terminou esse relacionamento e os dois começaram a ficar juntos. Daí minha mãe engravida. E, naquele período, tem todo aquele contexto de mãe solo. E daí acaba adiantando esse relacionamento, no caso de ir brotando um casamento entre os dois. E daí eles se casam, mas é um período de namoro e talvez um noivado muito breve porque logo, como ela fica grávida, ela já casa com ele. E ele tem dez anos de diferença. A minha mãe casou muito jovem, ela casou com quatorze anos e meu pai já tinha 24 anos. Meu pai já era muito experiente e minha mãe era uma menina recém-chegada do interior de São Paulo. E eles estão juntos, basicamente, acho que quase 49 anos, eles estão há muito tempo juntos. E o mais interessante é que, se você olhar para os dois, parece que os dois têm a mesma idade (risos).

 

P/1 – E você tem irmãos? 

 

R – Sim, eu tenho. Eu tive dois irmãos anteriores, mas eles faleceram logo depois que nasceram. Acho que eles tiveram meses de vida. Mas depois deles eu tenho uma irmã, que é a mais velha. Nós temos três anos de diferença.

 

P/1- E como é essa relação com ela?

 

R – Ah, é ótimo, é minha melhor amiga. Lógico que, quando a gente era mais nova, a gente brigava muito pela questão da adolescência, por várias questões. Irmão sempre briga, né? Irmãos e irmãs têm as ‘birrinhas’ de sempre. Mas, depois de um tempo, eu acho que depois, chegou a partir dos vinte anos e tal, aí a gente começou a se entender mais, viramos muito amigas, muito próximas, muito íntimas. Minha irmã é casada e eu sou solteira, mas mesmo assim a gente sempre trocava muitas confidências juntas. E os meus sobrinhos são muito próximos, então a gente é muito amiga, muito parte uma da outra.

 

P/1 - E você conhece um pouquinho da história dos seus avós, você chegou a conhecê-los?

 

R – Então, eu conheço um pouco, tanto do materno [quanto] do paterno, mas eu convivi mais com o materno. Ambos são falecidos. Eu sei que, na parte materna, que eu conheci mais, os meus avós se conheceram no interior de São Paulo. A minha vó é de Barretos, Bebedouro, e o meu avô é de Franca. Eu sei que minha avó foi morar em Franca e acabou conhecendo o meu avô. E o meu avô foi pedreiro e minha avó era doméstica, passava roupa para senhoras, em Franca. E daí, quem veio primeiramente para São Paulo foi o meu avô. Meu avô veio para São Paulo na década de setenta, tentar uma melhoria de vida, tentar um bom emprego, para conseguir buscar a família. Daí ele fica aqui em São Paulo sozinho acho que quase dois anos, praticamente, construindo várias casas em São Paulo. E depois desses anos ele vai buscar a família e daí traz todo mundo. Nessa época minha mãe já era nascida, que a minha mãe é a filha mais velha e mais o meu tio. Então, depois que vem, porque minha mãe tem outros irmãos, só que eles... eu conheço essa história, essa parte dessa história. Conheço um pouco da história deles, distintos, assim, não deles juntos. Mas a minha avó em Barretos foi morar com a madrinha dela, que era uma senhora que era a dona de uma casa que a mãe dela trabalhava. E a mãe dela acabou, entre aspas, ‘dando’ a minha avó para ela. Então a minha avó teve uma tutela com uma mulher, uma mulher branca. E foi assim que a minha avó cresceu. Então, minha avó morou muito tempo com essa mulher. E o meu avô, o que eu sei da parte dele, o meu avô paterno, é uma família de muitos irmãos e irmãs, acho que ao todo são, sei lá, dez irmãos ou mais, só que a maioria morreu, foi morrendo, no decorrer do tempo. É uma família muito forte de Franca, enfim, muito difundida em Franca. E lá eles se conheceram. Na minha parte paterna, eu não os conheci. Eu sei só o nome de registro deles, mas eu sei algumas histórias. Eu sei que a minha avó acho que era benzedeira, era uma mulher que trabalhava bastante com ocultismo, vamos dizer assim. E meu avô eu não conheci também, o meu pai também não conheceu ele, acho que teve brevemente contato com ele. E eu acho que é isso. A minha avó também faleceu muito cedo, meu pai teve contato acho que até uns sete anos com ela e ela também faleceu. E o meu pai foi criado pela tia dele, foi uma tia que viveu bastante tempo, ela morreu bem velhinha, até. Mas o meu pai foi muito criado pela rua, pela tia, pelos irmãos, enfim. Mas é isso que eu sei mais. Quando eu vou para o interior, às vezes, a gente fica muito ouvindo as tias mais velhas contarem as histórias, então tem várias histórias, várias histórias. Não sei se é verdade, não sei se é mentira, mas a minha tia falava que meu avô era... meu avô Valencio é descendente muito do continente africano. E o Valencio, esse nome é intitulado pelo senhor de escravo que foram escravizadas essas pessoas. Então, o Valencio vem daí. Porque quando... eu não sei qual região, eu não sei se é Congo ou Angola, eles vão para a Espanha, eles são comprados e o senhor de escravos dele nomeia com Valencio. Daí por isso que veio o Valencio. O meu avô se chamava Joaquim Valencio. E parece que eles vão direto para Recife, enfim, daí depois vieram para São Paulo. Reza a lenda, vamos dizer assim (risos).

 

P/1 – E você tinha costumes, na sua infância, ou ainda hoje, desde comida ou algum cheiro, sabor ou festividades, datas comemorativas?

 

R – Ah, tem muitas coisas, porque a minha família é muito grande e ela é muito festiva. Nossa, já participei de muitas festas, muitas comemorações, comidas também, que a maioria das mulheres da minha família cozinha muito bem. Minha mãe cozinha muito bem, minha avó, minhas tias, enfim, são vários sabores e momentos incríveis. E a minha família é uma família de sambistas. Então, a nossa festa, nossa comemoração é sempre regada a muito samba. Tanto os homens [quanto] as mulheres também tocam, enfim, os homens também tocam. A música é muito importante, que permeia. Então, tem diversos momentos, vários retratos na minha mente, vamos dizer assim. Sabores, então, nem se fala. Eu não sei te falar algum específico, mas eu, na infância, lembro de uma cena da minha avó que chegou em Franca, na casa do meu tio. Meu tio tem uma casa enorme lá, bem casa típica de interior, mesmo. E o meu tio tem um rancho, que ele tinha vários gados. E nessa época ele pegou o leite, só que o leite coalhou. E daí ele levou para casa e era uma quantidade muito grande. E daí a minha tia não sabia o que fazer, aí minha avó falou assim: “Ah, vamos fazer doce”. Daí minha avó fez vários doces de leite. Ambrosia, doce de leite, enfim. A gente era pequenininho, e a gente ficava lá se lambuzando desses doces. Mas até aí essas memórias. Eu lembro de várias festas legais de sambas, sambas grandes, terreirões de sambas, as pessoas tocando, cantando. Tenho muito essa memória de infância, muito bons (risos).

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento? Como seus pais escolheram seu nome? 

 

R - Eu sei um pouquinho. Eu nasci na Copa de 1982, a Copa que era o time perfeito. O time de ouro, só que não ganhou, ficou em vice, em 1982. E a minha mãe foi para o hospital, acho que era o último jogo, era a decisão. Ela falou que foi uma loucura para encontrar um médico que queria fazer o parto, ela falou que sofreu bastante para localizar um médico. Eu lembro que teve essa confusão no meu nascimento. E a questão do meu nome, o meu pai assistiu um filme, se não me engano foi ‘Raízes’ e tinha uma personagem que chamava Ketty. E daí ele gostou e quis dar esse nome, porque era para eu chamar Margaret, porque na década de oitenta estava na moda, por causa da Margaret Thatcher e tal. Só que ele assistiu esse filme, ficou inspirado e daí colocou. A grafia acho que foi da cabeça dele que ele fez e daí tem esse nome, que eu gosto muito. Muita gente acha que é apelido, enfim, mas eu gosto bastante do meu nome.

 

P/1 – E você lembra da casa em que você passou a sua infância?

 

R – Então, eu passei por várias casas, porque eu morei muito tempo em aluguel. E na década de oitenta é muito parecido com hoje. A gente voltou, a gente ‘retrosperou’ com certeza (risos). A questão da locação de móveis era muito cara, então a gente mudava muito. A gente passava, às vezes, um mês em uma casa. E eu lembro que, nesse período eu não estava estudando, mas eu lembro que a minha irmã já trocou muito de escola. Acho que em um ano ela estudou em três escolas, mas eu mudei em muitos locais, mas pelo menos, na minha memória, eu tenho acho que umas quatro ou cinco casas na minha cabeça. O tempo que eu fiquei mais tempo em uma casa foi onde eles estão recentemente, que é uma moradia de Cohab, que é uma casa financiada, é um apartamento financiado. E eu morei lá com eles durante acho que vinte poucos anos. Foi a casa que eu passei mais tempo. Mas eu mudei para a Cohab, eu tinha dez anos. Mas, anterior a isso, eu passei por muitas casas, muitas casas mesmo. E eu lembro de muitas coisas até bizarras, que às vezes as pessoas não queriam locar a casa para a minha mãe, porque a minha mãe tinha duas filhas pequenas. E, naquele período, a locação, às vezes, era um pouco mais rigorosa, porque como a gente morava muito em casas em que morava o morador do imóvel, eles geralmente não gostavam de animais, acho que ainda acontece isso, ou de crianças. Então, minha mãe tinha muita dificuldade de locar casa, muitas vezes. Mas eu lembro de algumas casas que foram bem bacanas.

 

P/1 - E vocês mudavam sempre no mesmo bairro ou os bairros também mudavam?

 

R – Então, eles mudavam um pouco, mas a região era a mesma. Eu sempre morei na Zona Norte. Moro na Zona Norte de São Paulo. Eu nunca morei em outra zona. Então os bairros eram próximos, eram na mesma rota, vamos dizer.

 

P/1 - E as brincadeiras de infância, quais você mais gostava? Você brincava na rua, como era? 

 

R – Sim, nossa, muitas brincadeiras. Como a minha irmã, três anos de diferença às vezes não é nada, porque a gente brincava juntas. Eu acho que talvez ficou um pouco mais distintas na adolescência. Mas na infância a gente brincava muito juntas, na rua. Minha brincadeira sempre foi na rua. E o mais legal também é que as minhas tias têm a nossa idade, a minha idade. Então, as minhas tias eram as minhas irmãs. As minhas tias, a diferença de idade é de, no máximo, cinco anos e a gente era muito próxima. E fora a comunidade, o pessoal da rua, então a gente brincava muito, sei lá, de ‘pega-pega’, ‘mãe na mula’. A gente brincava, corria, brincava de boneca, de casinha. E a minha avó tinha uma casa, que tinha uma laje, que era livre, dava para subir. E essa laje tinha uma árvore que era tão grande, que era de uma árvore, eu esqueci o nome agora... eu acho que era de amora, isso, era uma árvore de amora. E daí a gente pegava essa amora e fazia suco, fazia um monte de coisa com essa amora. Tinha aquela planta, que era meio ‘ardidinha’. Algumas coisas a gente brincava muito, acho que a gente não morreu envenenada porque não deu, porque a gente pegava as plantas, picava. E minha avó tinha um cachorro, que era o nosso amigo, a gente brincava com ele, era enorme, só que ele era muito dócil, e ele protegia a gente. Quando minha avó ia bater na gente, ele ia logo na frente assim, protegia, não deixava. E ela ficava doida (risos). Mas a gente brincou muito assim, muito assim. A gente brincava com a nossa imaginação, porque a gente não tinha muito... porque a questão financeira sempre foi, às vezes, de alguma forma, mas ao mesmo tempo não foi, _______. Então, a gente fazia muito... essa questão da imaginação sempre foi nossa aliada. E a rua, de brincar livremente. Porque hoje em dia as crianças não têm esse privilégio de brincar na rua, muitas vezes é muito presa, né? E como a minha mãe trabalhava muito, a gente ficava muito tempo com a minha avó e daí a gente ficava muito tempo brincando, muito tempo assim. Uma parte a gente ia para a escola, eu estudava acho que de manhã e algumas vezes foi à tarde, mas depois a gente ficava um tempo livre. E até a minha mãe chegar em casa, então a gente ficava muito tempo brincando, então era uma delícia também. 

 

P/1 – E nessa época você pensava o que você queria ser quando crescesse, você tinha algo em mente? 

 

R – Ah, eu sempre quis ser tudo, na realidade. Eu sou geminiana. Então eu sempre mudei muito de pensamento de profissão, do que eu queria ser. Eu lembro que teve uma fase que eu queria ser veterinária, quando eu era criança. Nossa, eu queria ser tudo. Mas é isso, de brincadeira, vai mudando, vai crescendo, vai conhecendo também. Mas não tinha uma pressão de fazer uma faculdade. Também, naquele período eu nem sabia se eu ia dar continuidade, por questões financeiras mesmo. Se bem que também tem a questão da minha família, a primeira pessoa que fez faculdade foi a minha irmã, que tem um ensino superior. Então não tinha esse pensamento muito, assim, uma pressão profissional. Pressão mais tipo ter um emprego. Mas na infância não tinha uma coisa direcionada, eu sempre quis ser tudo, sempre tive essa liberdade de pensar, de querer ser um pouquinho de tudo.

 

P/1 – E, Ketty, nessa época, ainda pequena, você tinha contato com histórias, desde livros infantis ou história oral? Era algo presente ou não? 

 

R- Sim, bastante. A minha família é uma família de contadores de histórias. É uma coisa muito autodidata. Tem a questão do interior, que é muito forte na nossa família. O meu avô era um grande contador de história. Meu avô foi um homem analfabeto, mas o interessante é que ele era servente de pedreiro, ele não sabia ler e escrever, mas ele era pedreiro, tinha essa parte de conta, de contagem, de medidas, na mente dele. Mas era um grande contador de histórias. Tanto que ele me contava muitas histórias que às vezes eu pedia, tipo um reforço escolar, sei lá, sobre folclore, sobre lendas e ele me contava. E daí tinha esse viés. A minha mãe também conta bastante história. E a minha família, como é uma família de matriz africana, como eu falei, minha família é muito grande, então tem pessoas de diversas nações de religiões africanas, matrizes africanas. E daí a minha mãe juntava bastante _____. E, nesses períodos na infância, um dos meus lugares que eu passava muito tempo era no terreiro. Então a questão do contato das religiões de umbanda e candomblé era muito uma prática diária. Então eu era muito engolida nesse universo. A questão dos ritos era muito forte, muito presente na minha vida, pela minha mãe, pela minha família. Histórias sobre a minha ancestralidade também, das minhas tias. Minhas tias sempre tinham muitas histórias para contar, era muito engraçado (risos). Era história de terror que ela contava, que os meus antepassados eram tipo capatazes, tem várias histórias. Eles eram pistoleiros, daí elas contavam como eles se vestiam, era muito bom essas histórias. E também, depois, a parte da história formal, do livro impresso. Eu fui muito mergulhada na parte escolar, quando eu fui para o ambiente interno da escola, aí eu conheci mais do universo da literatura. Mas não foi uma coisa que eu gostava não, eu sempre achei que eu não gostava de ler, porque eu nunca me identifiquei com essa literatura. Porque uma que eles não faziam nenhum esforço para me encaixar e eu já tinha um pensamento, uma leitura do que eu era, eu sempre soube que eu era uma pessoa preta, assim. A minha família não tem misturas, miscigenações. Pelo menos até a geração que conheci diretamente não teve, não conheci pessoas brancas diretamente. Quando eu conheci pessoas brancas, eram pessoas que não faziam parte da minha família. Então, eu até brincava, eu sempre achei que todo mundo eram pessoas pretas na sociedade, porque a minha família sempre foi uma rede de apoio e de acolhimento. E eu conheci pessoas brancas um pouco mais distintas quando eu fui para a escola. E eu começo, talvez, a conhecer a história também das pessoas brancas. E com isso algo que eu não gosto, porque acontecem as violências, as micro violências e tem a ver também com o universo literário, através disso. Então, eu acabo vendo que eu não gostava de ler, mas eu gostava muito de estar nessas histórias que as pessoas me contavam, que era parte da minha família, parte de pertencimento e tudo mais. Mas a minha primeira parte da literatura mesmo é da história oral e da religiosidade. Aí depois eu vou conhecendo aos poucos. E principalmente quando eu fico na adolescência... nem adolescência, minha infância, dez anos, eu conheço o movimento hip hop, que é algo muito importante para mim, que é também um letramento, para a minha formação. Daí eu começo a conhecer algumas personalidades negras, começo a ver a questão da poesia, que é extremamente importante, mas eu acho que antes o samba também faz esse papel para mim, mas acho que o hip hop é mais forte. Ele é algo mais voraz na minha formação como literata, vamos dizer assim.

 

P/1 – E quais lembranças você tem da escola? Você quer dividir, ou não?

 

R – Eu posso falar, sim, tem várias memórias da escola. Tem memórias de violências. Eu acho que quase todas as memórias [são] de violência. Eu acho que talvez, só quando eu [passo a ter] uma autonomia na minha vida, um pouco mais, acho que na adolescência, que ela começa a ser uma memória um pouco mais afetiva, uma memória mais tranquila. Mas eu acho que, na infância, eu tenho, também, um problema na memória... problema na memória é ótimo. Mas eu tenho amnésia na memória, eu tenho um período da minha infância que eu não lembro. Eu vou lembrar da minha infância totalmente acho que a partir de oito anos. Antes dos oito anos eu tenho flashes. Algumas coisas eu sei, porque as pessoas me contaram e algumas coisas eu acho que eu vivi, mas não tenho certeza, vamos dizer assim. Mas, a partir dos oito anos de idade, eu tenho uma memória um pouco mais forte, mais clara. Mas o que eu lembro, pelo menos do início da pré-escola, eu chorava muito para entrar, eu não queria frequentar a escola. E depois acho que no ensino fundamental I eu começo algo mais brando, mas eu sinto que tem um ambiente um pouco mais hostil e eu sou muito calada, muito tímida, eu não falo com ninguém, eu lembro. Eu lembro que eu só ganhava dez de comportamento, porque eu não conversava com ninguém. Eu conversava acho que no intervalo e tal, mas eu era muito tímida, muito calada. E eu converso com a minha irmã, que eu e a minha irmã sempre estudamos na mesma escola, então a gente se reunia no recreio, mas as amizades eram outras. Minha irmã, como era mais velha, ela estava um grau maior, mais elevado, na minha frente. Mas eu lembro de algumas coisas, lembro de privações, tipo assim, eu não pude, por exemplo, dançar na festa junina. Privações que eu tinha. Mas eu lembro a parte mais feliz, assim, fora da escola, na rua. Mas dentro da escola, na infância, eu não tenho momentos muito felizes, não. De aprendizados mesmo, de coisas que eu aprendi, eu não lembro coisas que ficaram assim: “Nossa, uma coisa que eu estudei que foi incrível, que eu levei para vida”, não, na infância não. Acho que talvez leituras, algumas leituras eu lembro, de livros que eu li. Alguns livros, não são todos, mas eu lembro de talvez algo mais forte na adolescência. E talvez tenham coisas que eu lembro, que foram bem importantes. Na adolescência eu acho que talvez algo... eu tinha um domínio mais do que eu queria. E eu não deixava algumas coisas, então eu tinha um pouco mais de força. Eu tinha uma liderança no ensino médio. Eu era popular, muito popular no ensino médio, já. E daí, talvez, por isso que essa era uma época mais crítica, porque eu dominava aquela situação, eu era já uma referência na escola, mas eu lembro uma parte muito de ‘zoação’ das coisas que a gente fazia de, sei lá, tocar violão, jogar bafo, de pular o muro. Lógico, essas coisas doidas de adolescência (risos). E também das festas, frequentava muito as festas. E, nesse período, eu já era do movimento hip hop, eu já estava, já tinha... algumas coisas já estavam definidas, algumas questões, o que era muito interessante. Mas é isso, essas memórias de... não que a escola não foi um especial, é muito importante, enfim, mas eu acho que a minha formação é mais potente quando eu acabo tendo a minha autonomia de escolha, do que eu vou estudar, do que eu quero. E depois que eu saio da escola, eu vou fazer cursinho da Educafro, que é um cursinho comunitário voltado para pessoas negras, que também é algo muito importante para a minha formação de ativista, do que eu sou hoje. Então, acho que, às vezes, os meus cursos complementares, quando eu tenho uma autonomia do que eu quero, acabo tendo uma potência maior do que na infância, por exemplo.

 

P/1 - Mas nessas escolas teve algum professor ou alguma professora que tenha te marcado, de alguma forma?

 

R – Sim, eu acho que tem, sim. Tem alguns que eu lembro bastante, mas todos eles são professores negros, professoras negras até. Eu lembro quando eu vou para o ensino fundamental, não sei, porque muda tanto os nomes, mas eu acho que é o ensino fundamental II. Quando eu vou no ensino fundamental II, eu tenho o que, dez anos, eu tenho contato com três professores negros que são extraordinários, eles me mostram muitas coisas, de informações de literaturas negras, de filmes sobre movimentos negros. Sobre a consciência negra mesmo, sobre a negritude e tal, que faz muita diferença. E também a questão da ressignificação de ser periférico, acho que isso muda muita coisa. Então, acho que eles sempre foram muito especiais. Mas outros professores não, não lembro. Eu lembro de professores muito agressivos. Eu acho que tem muito a questão também da década de oitenta e noventa, a formação de docentes era uma outra levada, né? É algo mais agressivo, algo meio paternalista mesmo, assim.

 

P/1 - E o movimento hip hop, como chegou na sua vida? 

 

R – Ah, chega _______ assim, eu já tinha antes um pouco, acho que do início até. Porque eu ficava assistindo muito as minhas tias se arrumarem para ir para os bailes. Eu era, tipo, oito anos, mais ou menos, eu via minhas tias se arrumarem, fazer ensaio de passinhos, para ir para o baile, se pintarem. Eu já escutava música, eu sempre escutei muito música de adulto, vamos dizer assim. Como eu falei: minha família é muito musical. Meu pai tinha vários vinis, a festa era regada de vinil e rádios, rádios e rádios. E aí eu já escutava, tipo os primeiros raps que surgiram eu já escutava, minhas tias já escutavam, já faziam esses bailes. Mas quando eu escuto o rap mesmo e permeio dentro do movimento hip hop, que faz a diferença para mim, é quando eu estou na faixa de dez anos de idade, que eu também estou localizada neste ambiente mais periférico, que é o ambiente onde os meus pais moram até hoje, que é o Jardim Antártica, é uma periferia aqui de São Paulo e eu começo a imergir. Eu lembro que a primeira música que eu ouvi foi... não é a primeira música, mas uma primeira música que eu escutei, que fez muito efeito, que foi “Hey Boy” do Racionais MC's e eu lembro que foi o álbum... “Raio X do Brasil”? Eu acho que é o “Raio X do Brasil”, do Racionais. Que eu lembro que eu tenho um caderno que a gente escreve letras desse álbum, a gente começa a escrever letras e tal, porque começo a imergir e começo a me identificar, porque são letras que têm muito a ver com o meu cotidiano, o cotidiano de pessoas que eu conheço. E eu lembro muito dessa música, desse álbum, enfim, tem “Fim de Semana no Parque”, “Hey Boy”, “Racistas Otários”. Mas também tem outras pessoas, tem a Sharylaine também, tem a Dina Di, tem muitos grupos de rap, muitos grupos de rap. E a década de noventa foi o auge do rap nacional. E ainda tem o lance da vestimenta, tem essa questão da estética negra. Tem a questão da cultura mesmo, tem a questão do grafite, dos desenhos, da dança. E a questão do ativismo também. A questão do sistema prisional, a questão da criminalidade, a questão da juventude negra, são pautas diárias no movimento hip hop. Pelo menos era, né? (risos) Pautas bem consistentes, que é algo que eu me identifiquei muito. Por vir de uma família negra também, que era algo que tinha tudo a ver com o nosso universo. E coisas que estão no nosso cotidiano, enfim. E aí também foi a questão que eu comecei a ir, frequentar bailes, me conhecer musicalmente, estar também atenta ao meu corpo, de movimento de dança. Mas a questão da dança, da musicalidade negra, sempre esteve presente. Sempre fui uma criança que nunca escutei muita música infantil. Tem poucos relatos de música infantil, acho que talvez música mais de domínio popular infantil. Mas música de escutar mesmo é música adulta: black music, sempre ouvi muita black music, por causa do meu pai, muito samba. Então, as minhas memórias de musicalidade infantil são regadas, muito, a black music negra. 

 

P/1 – E a juventude, com o cursinho? Decisões do que fazer, que faculdade? Não sei se isso era uma pauta para você. Como foi esse momento? 

 

R – Ah, juventude acho que é sempre uma coisa muito louca, de sentimentos. É algo bem avassalador, assim, talvez de inconstância, de contrariedades de sentimentos. Tem a questão social também, política no momento e mais o seu conflito interno. Eu sempre fui uma criança, uma adolescente talvez madura, eu acho, no meu tempo. Sempre senti uma necessidade muito grande de fazer algo, eu sempre sofria de crises existenciais extremamente fortes. Isso foi muito recorrente. Eu sempre ficava me perguntando qual era o meu papel no mundo, assim, social mesmo. Eu sempre tive um sentimento de que eu tinha uma ‘missão’, vamos dizer assim, entre aspas, porque eu sempre soube que a gente não está nessa vida somente para comer, beber e dormir. Algo muito evidente no meu jeito de vida. E eu sempre fiquei muito incomodada com isso. Eu ficava me perguntando assim: “Nossa, o que eu tenho que fazer nessa vida? Ficava, muito, me questionando: “Qual o meu papel nessa vida?”. E isso me consumia muito. Eu sofri várias crises existenciais. Mas, por outro lado, também, eu era uma adolescente típica, uma adolescente típica negra, vamos dizer assim. Sempre saí muito, sair para festas, né? Comecei a sair muito cedo, acho que com treze anos eu já frequentava bailes, eu sempre saí muito para dançar, para ter contato com os amigos e amigas, sempre conheci muitas pessoas. Sempre gostei muito de música, de escutar música, de promover festas e de frequentar festas. Mas era esse sentimento que me consumia. Fui uma adolescente que também sempre flertei com outros tipos de pessoas, sempre fui aquela que, na escola, andava com as pessoas do rock que, por outro lado também, além de curtir hip hop e tal, eu gosto de rock, eu sempre gostei de rock. Então, eu andava com a galera roqueira, eu andava com a galera que era LGBTQI+. Nesse período tinha a galera do clubber, era o movimento clubber, que era o movimento de música eletrônica, também andava com a galera de música eletrônica. Andava com a galera do samba, a galera também que não queria fazer nada, também andava. Eu sempre andei com diversos grupos diferentes. Independente se as pessoas eram pretas ou não, andei com bastante pessoas brancas também. Então, eu sempre estava flertando com vários grupos diferentes. E foi bem importante para a minha formação. E com isso fui me moldando. Eu sempre fui muito tímida e, ao mesmo tempo, é meio contraditório, porque eu sempre conheci muitas pessoas, muitas pessoas. Pessoas mais velhas também, andava com as ‘senhorazinhas’ também, eu gostava muito de conversar com pessoas mais velhas. Sempre tinha bastante madrinhas e padrinhos, pessoas que me adotavam. Mas era isso, assim. E também, nesse período, eu comecei a ser musicista. Eu estudei bastante tempo música erudita, eu toquei muito tempo violão erudito, nesse período eu tinha o quê? Dezessete anos. Eu comecei a imergir nesse ambiente erudito, de música erudita. Desde a música barroca, a música do romantismo e também a música concreta, que é algo mais transcendental, jazz. Eu tive uns professores de música muito bons, foram ótimos para a minha vida, para a minha formação. E várias músicas, não somente estudar música, mas falar sobre música, teoria musical, sobre história da música. Então, eu fazia aula num local que era um rancho, que era um local lindo. E a gente falava o dia inteiro sobre música, estudava, enfim. E eu era a única menina no meio. É, no meu horário eu era a única menina, a única menina negra, a única pessoa negra ali. E a maioria das pessoas que estavam lá eram meninos meio nerds, né? E era eu lá. Só que nesse período o meu pai me colocou para estudar música porque, como eu falei, meu pai é músico, é sambista. Ele começou a fazer aula de piano e teclado e falou: “Ah, vou colocar todo mundo. Vou colocar você”, e minha irmã fazia canto, ele fazia teclado, só que eram horários diferentes. E eu optei por violão, que era algo mais acessível. Só que foi o violão erudito. E o meu professor odiava... não odiava, mas ele não gostava de música popular, ele falava que música popular era “música corrida” (risos). O Nilson, lembro dele até hoje. E a gente ficava trocando altas ideias. E a única música popular que ele gostava mais era jazz, ele gostava de música preta, black music. Ele é um homem branco, cis, enfim. Era um cara da USP, ele era matemático e a companheira dele era física e ela era especialista em semiótica. E ela era cantora. E era um casal maravilhoso, eles tipo me adotaram, a gente conversava muito, muito, muito, muito sobre música. E eles ensinaram muito, então foi um período bem legal de aprendizado. E nesse tempo também eu estava no fim do ensino médio, estava tipo, ainda me localizando do que eu queria fazer. Então, acho que a adolescência tem tudo isso, esse mix, esse caldeirão todo. E tem também o ativismo, foi quando eu conheci o...  eu já estava na militância negra, não era uma coisa declarada, mas já tinha imergido, mas também eu conheci o feminismo. E daí tem todas essas facetas na adolescência, diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo, assim (risos).

 

P/1 – E me conta uma coisa: a faculdade, a especialização veio antes do trabalho, ou o contrário?

 

R – Não, então, foi nesse período também. Porque a Amélia, que era a companheira desse Nilson, que era a professora de canto... porque, assim, quando eu estava nesse período da música (risos), como eles eram muito meus amigos, eles não queriam que eu saísse de lá. Ao mesmo tempo, eu fazia violão erudito e daí depois eu comecei a fazer canto com ela. Porque, como eu ficava muito próxima assim, a gente era muito amigo de trocar ideias. Só que eu era uma menina de dezessete anos e eles tinham o quê? Eles já tinham uns quarenta, cinquenta anos. Eles tinham um filho pequeno... pequeno não, ele tinha uns oito, dez anos. Só que daí que eles tipo me adotaram, assim. Daí eu comecei a fazer violão erudito, que foi o que eu mais fiz, mas depois eu comecei a fazer canto, depois eu comecei a fazer teclado também, enfim. Só que eu nunca gostei, nunca gostei de tocar, até hoje. Eu tenho traumas. Porque a área erudita é muita disciplina, você tem aula de metrônomo. Mas o que eu mais gostava e o que mais me levou para a área de fazer a faculdade que eu escolhi, foi a questão que eu era muito boa na parte teórica, eu era muito boa em solfejar, estudar harmonias, construir composições harmônicas. E da História da Música, eu era muito fera em História da Música. Eu sei um pouquinho, mas eu sabia qual período, que Chopin era do Romantismo... eu sabia a história dos compositores eruditos. E eu comecei a dar aula, eu tinha dezessete para dezoito anos, eu comecei a dar aula de musicalização infantil, através dela. Ela me indicou para uma escolinha, eu disse: “Nossa, que escolinha doida, contratar uma menina menor de idade”, enfim. E daí como a dona da escola era amiga dela, ela me contratou. Eu comecei a dar aula para algumas crianças, crianças de quê? Quatro anos... não, quatro não, cinco anos, seis anos. Eu dava musicalização infantil. Daí, nisso, eu conheci um método de musicalização infantil, que é dado para crianças e as crianças começam a sacar as notas musicais através das mãos, era algo muito lúdico. E de reconhecer as notas musicais através das mãos, através de alguns gestos, enfim. E é um método que eu conheci, de um compositor húngaro... dois compositores húngaros, era Kodály e eu não lembro o nome do outro, faz tanto tempo. Mas eu lembro que eu ia para a USP, para pesquisar sobre esses métodos. Eu tinha dezessete anos, eu ia para a ECA e tal, nesse período. E daí ela começou a perceber que eu era muito boa na área de pesquisa, a Amélia. E eu percebia também que eu era muito boa na área de pesquisa e tal, de assimilar tudo isso, desse universo, para colocar na parte da disseminação mesmo, da parte de teoria mesmo. E ela falava para mim que eu deveria trabalhar na área cultural, sempre falou isso para mim: “Você tem que trabalhar na área cultural, acho que tem muito a ver com o seu perfil” e tal. E nesse período também eu tinha passado... isso já estava com o quê? Eu acho que eu já estava com dezoito. Eu passei no concurso público, eu já passei em alguns concursos públicos (risos). E eu passei nesse concurso público e eu era carteira, eu já estava nos Correios. E eu queria muito fazer faculdade, só que para mim nunca foi um sonho realizado, porque minha mãe não tinha a questão econômica, para pagar o meu ensino. E a USP e universidades públicas, para mim, era muito distante. Eu cheguei a prestar, nesse período, para ser educadora artística, eu prestei na Unesp e na USP, para ser educadora artística. Eu passei na parte específica, né? Eu passei acho que nas duas, na USP eu não lembro se eu passei, mas na Unesp eu passei, fui muito boa na prova. Só que na parte do vestibular de fato, eu não passei, eu não fui satisfatória. Mas eu lembro como foi importante a parte de específica na Unesp, porque na Unesp caiu os _______ , tanto música, artes plásticas e artes cênicas. E eu passei. E na USP tem a parte prática, tinha que tocar uma peça de algum compositor erudito e maior pressão. E fora, a USP tem várias questões de não querer você lá dentro, né? Muita pressão assim. E de uma menina. Eu não tinha experiência de fazer vestibular e tal, acho que o meu primeiro vestibular foi bem assustador, mas eu consegui desenrolar, assim. Mas eu não passei no vestibular. E aí, nisso, eu comecei a ver algumas faculdades privadas, como educadora artística. Aí eu lembro que eu fui prestar para FPA, eu acho, Faculdade Paulista de Artes. Era para eu estudar lá, só que eu não tinha condições de pagar uma mensalidade. Porque eu acho que eu não estava trabalhando... não estava trabalhando, já tinha acabado o meu estágio. Porque eu começo a trabalhar com quatorze anos, meu primeiro emprego eu começo a trabalhar com quatorze anos. Só que, nesse período, eu estava desempregada, eu acho, já tinha passado o estágio, tinha acabado. E minha mãe, eu falei assim para ela e ela falou: “Não dá”. Eu lembro que eu chorei muito. Eu levei a minha mãe até lá, só que a minha mãe falou: “Não, você não vai fazer, porque não tem condições de fazer”. E daí, com isso, depois eu descubro a Biblioteconomia. Eu conheço também quando eu entro nos Correios, eu passo no concurso público. Tem um cara lá que ele tem uma irmã que é bibliotecária e daí eu acabo conhecendo-a. Nunca a conheci pessoalmente, a gente trocou telefone, assim. Quando eu fiquei sabendo que ela era bibliotecária, eu perguntei para ele assim: “Como que é?”, ele falou: “Vou te dar o número dela, aí vocês conversam”. Daí eu lembro que eu ligava para ela, o nome dela é Ana. E aí a gente conversava muito, ela me mostrava o universo de como ser bibliotecária, o que é Biblioteconomia. Eu conversei horrores com ela sobre isso, a gente também trocava umas mensagens. Daí eu comecei a pesquisar e aí eu lembro que eu fui prestar vestibular na FESPSP, que é a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. E daí eu faço, que é privado e nesse período já tem o Enem, só que o Enem, nesse período, é acumulativo. Tipo assim: você fazia um ano, daí, tipo, não tinha a questão do... acho que é do Fies... não, o Fies já tinha, mas não tem o ProUni, né? Só que ele é acumulativo. Você faz um ano, se você não faz nada, você acumula aqueles pontos e no próximo ano você faz. Era assim o Enem. Eu sou quase um dinossauro (risos). E ele é acumulativo. Eu lembro que eu tiro uma nota legal, daí eu acumulo com a nota do Enem e eu tive uma nota ótima. E daí eu consigo um desconto bacana. E como eu estou nos Correios, eu consigo me bancar, porque eu tenho um salário ok. E daí eu começo a fazer, cursar Biblioteconomia, ainda não sabendo direito o que era, mas eu sei que é um curso muito, bem versátil, bem abrangente, na área que eu quero atuar. Aí eu entro na graduação, daí é nesse período. 

 

P/1 - E como foi esse momento da graduação?

 

R - Foi bem interessante. Foi um momento bem corrido também porque, como eu falei, eu era carteira. Eu fui carteira até o fim do curso. No período de graduação, quatro anos, hoje em dia acho que é três anos, Biblioteconomia, mas no período quando eu cursei, eram quatro anos. E nesses quatro anos eu trabalhava como carteira e tal. E eu estudava à noite, era bem corrido, porque eu trabalhava, eu saía... porque carteiro, na época, não tinha horário fixo de saída, tinha um horário que era no máximo às seis horas da tarde, dezoito horas. Só que às vezes eu trabalhava, terminava o trabalho às duas da tarde, por exemplo, duas, três horas. E daí o Correio não segura você, você pode ir embora. E daí, para economizar, muitas vezes eu tinha que ir para o Centro. Ou às vezes eu ficava na biblioteca de lá, ficava até dar o horário, porque eu entrava para estudar às dezenove horas, ficava estudando, enfim. Ou eu emendava alguma coisa para fazer, até dar tempo. Então, era bem corrido. Mas foi um período interessante, um período tipo sem money, porque o dinheiro que eu ganhava era para pagar a mensalidade. E era um curso também interessante, era um curso cheio, tinha cinquenta pessoas em uma sala de aula. E era um curso bem forte, de exigência e tal. E eu era uma das alunas que não trabalhava na área. Eu acho que eu era uma das poucas, acho que só tinha eu e mais um rapaz que trabalhava em um museu, que não atuava em Biblioteconomia, todo mundo atuava. Então, era uma área muito 100%, assim, no estágio você já conseguia trabalhar e ganhava bem. Naquele período, porque os tempos mudaram (risos). Mas aí eu fui me identificando e tal. Lógico que teve algumas opressões dentro da faculdade, né? Já tive alguns casos de racismo, de alguns professores se autodeclararem, enfim. E tinha poucos alunos negros e negras, né? De mulher negra acho que tinha só mais duas pessoas, duas meninas negras. E tinha um rapaz negro, eu acho. Mas, ao mesmo tempo, a gente vai se colocando no nosso grupo. Eu fazia parte de um grupo que era totalmente subversivo na escola, a gente era chamado de “Faixa de Gaza”, era terrível, porque as pessoas nunca achavam que eu era bibliotecária. Porque tem o estereótipo dos cursos, que moldam as pessoas. E na FESPSP inicialmente eram dois cursos e depois virou três. Era Sociologia, Biblioteconomia e Administração. Administração vem bem depois, quando eu estava saindo que entrou Administração. E tem todo o estereótipo do que é ser bibliotecário e eu não me encaixava nesse estereótipo, até em vestimenta, tanto que as pessoas achavam que eu era socióloga. Que eu estava estudando Sociologia. Quantas vezes eu entrava no prédio de Sociologia, as pessoas já olhavam, porque as pessoas de Biblioteconomia e Sociologia não se integravam, não tinha uma integração. Os campus eram diferentes, um era na parte da frente e o da Sociologia era na rua de trás e eles não tinham essa interação. Eu frequentava, tinha bibliotecas, eu ia lá e tal, porque tinha muita coisa legal em Sociologia. Eu lembro até dos primeiros dias de aula, que eu lembro que eu errei o campus, eu fui para lá e depois que eu fui entender que não era lá, era outro campus. Mas era bem isso também, tinha a questão... só que aí o grupo que eu fazia parte era um grupo totalmente doido, era uma galera mais progressista. E tinha uma rixa dentro da sala de aula, de opiniões. Geralmente bibliotecário é uma galera mais conservadora e a gente não. E daí a gente fazia uma faixa, assim, era uma faixa de carteiras, que era a galera do fundão e a galera da frente. A gente falava que era a “Faixa de Gaza”, era muito engraçado (risos). E daí era um grupo que era tipo sem money, daí a gente rachava salgadinho para comprar, para comer na hora do intervalo. E era bem engraçado, porque era uma galera artista também, a maioria deles era bibliotecário, mas também tinha uma segunda profissão. Muitos eram ou da Sociologia, de História, ou era uma galera artista, bem das Artes Cênicas. Enfim, uma galera bem multicultural. E eu fazia parte desse grupo, era bem engraçado. Mas foi um período bem interessante para a minha formação. De aprendizado também, nesse período eu já estava no ativismo feminista forte. E eu estava também já muito ‘imergida’ no anarquismo. No anarquismo, no feminismo. Eu estava dialogando contra outras coisas, com outras ideias, então foi um período bem legal. Eu acho que... já tinha coletivo? Eu fiz parte de um coletivo feminista, não sei. Não sei se eu saí depois. Mas é um período bem legal, interessante.

 

P/1 - E como foi trabalhar nos Correios?

 

R – Olha, foi bem desafiador. Mas foi muito importante para a minha formação, porque... não só nos Correios, eu trabalhei de muitas coisas, fiz muitas coisas na minha vida. Os Correios acho que foi o primeiro emprego que eu fiquei mais tempo, eu fiquei acho que seis, sete anos nos Correios. E foi importante, porque lá eu soube que eu podia fazer qualquer coisa da minha vida. Eu me viro nos trinta. Porque é um trabalho totalmente braçal, totalmente corporal, operacional, é tipo como se fosse algo muito, também, precarizado. E é uma profissional muito invisível, ao mesmo tempo não, ao mesmo tempo sim. E masculinizado, né? Um ambiente muito masculino, muita testosterona. Tanto que eu fazia parte de um CDD, que é um Centro de Distribuição dos Correios, que ao todo tinha noventa empregados e tinha apenas quatro mulheres. E eu era uma dessas mulheres (risos). E era um trabalho, não tinha distinção de gênero, eu fazia o mesmo trabalho que os meninos faziam, o mesmo, assim. E eles testavam a gente, mulheres, faziam vários testes, para ver se você realmente ia encarar. Vários testes assim, bizarros. E era isso, passei seis anos da minha vida lá e foi uma escola para mim. E tanto pra lidar com as pessoas, no ambiente externo também, porque fora isso, quando você vai para rua, a rua não tem dono, né? A rua é isso. Tinha a questão da segurança, também. Eu já fui seguida na rua. Já fui... não, muitas coisas já aconteceram na rua (risos). Nunca fui assaltada, ainda bem, graças a Deus. Mas já fui seguida. Enfim, mas muitas pessoas te tratam muito bem, as pessoas têm muita confiança no carteiro. Já teve pessoas que já me puseram para cuidar de pessoas, tipo assim, tem uma história de uma mulher que ela cuidava de uma mãe, a mãe dela era doente, acamada e ela tinha que ir na farmácia, ou no mercado, não tinha ninguém para deixar. Ela me viu e falou assim: “Você pode ficar com a minha mãe? Eu já volto, daqui uns cinco minutinhos eu volto”. Eu fiquei com essa senhora lá na casa dela, entendeu? E, assim, pessoas te convidam para ir no aniversário do filho ou da filha, aniversário de fim de semana. As pessoas te dão muito presente, ganhava muito presente, muito presente. As caixinhas também. Então, é muita confiança. Mas, ao mesmo tempo, você recebe muito assédio, as pessoas têm loucura por pessoas de uniforme, eu acho, eu já recebi muitas cantadas de homens querendo que eu entrasse na casa deles sozinho. Não só comigo, mas os meus companheiros de trabalho recebiam também vários assédios. Isso é muito recorrente nos Correios. Mas é isso, me ensinou muito assim, de sei lá, carregar uma bolsa de dez quilos nas costas, de andar três horas por dia, três a quatro horas por dia. De tomar chuva, tomar muito sol na cabeça também. De correr de cachorro, de mordida de cachorro. De estar em ambientes talvez não tão seguros. De ser assediada pelos meus companheiros também de trabalho, por meu chefe. Então, de você saber lidar diante dessas mazelas, micro agressões, mas também de alguns prazeres, tinha várias festas legais, também, de fim de mês. Era uma doideira de coisas que eu já vivi nos Correios, que é um universo à parte. E também é um ambiente muito tóxico. Rola muito... é um ambiente tão hostil acho que para todas as pessoas que fazem esse trabalho, que geralmente tem muita drogadição, é um ambiente de muita drogadição, porque para aguentar um trabalho muito duro, às vezes eles regam com muitas drogas, para ficar um pouco mais confortável. Então, é um ambiente muito contraditório, ao mesmo tempo (risos).

 

P/1 - E como seguiu o desenrolar da sua trajetória mesmo, após se formar na faculdade, você mudou logo de trabalho, você fez estágio, como foi?

 

R – Então, no período da faculdade, que tem uma parte que é obrigatório o estágio, eu sei que tem sei lá quantas horas, porque eu não lembro mais. Eu fiz o estágio sem remuneração. E daí eu fiz estágio trabalhando nos Correios, mas aí eu dividia o meu tempo na biblioteca da faculdade, foi o jeito que eu encontrei. E daí eu trabalhava de sábado... domingo eu já trabalhei? Não, domingo era fechado. Mas eu trabalhei muito tempo de sábado. E nos horários que eu chegava mais cedo, durante a semana. Então, daí eu ficava me distribuindo nesses horários. Mas era legal, porque a bibliotecária de lá era uma pessoa super fofa, super querida e ela super compreendia também. Tanto que eu optei por não ter remuneração, para conseguir cumprir esse estágio. E daí eu peço demissão, depois que eu termino a graduação, eu falo assim: “Ah, eu preciso me arriscar, não dá mais”. Eu já queria sair dos Correios, só que daí eu, na realidade, não queria sair totalmente. Eu queria mudar de profissão, porque dentro dos Correios têm bibliotecário. Só que aí só tem um bibliotecário, que é na sede e aqui em São Paulo ficava no Jaguaré. Ou eu fazia um estágio lá, mas eu poderia mudar. Só que, nesse período, a chefia que me geria, ela não queria, ela não quis. Ela falou: “Não, eu não vou perder um funcionário, uma funcionária”. E daí ela começou a fazer vários impedimentos. Eu ainda fui conversar com a assistente social, que eu queria muito sair, mas eu não queria sair dos Correios, mas aí, minha última opção foi pedir demissão, porque eles não iam me liberar, não iam me liberar mesmo. Daí eu pedi demissão. E eu lembro que, quando eu pedi demissão, todo mundo falou: “Você é doida, sair dos Correios, né?” Porque eu tinha um cargo estável, tinha um salário fixo, não tinha a questão da preocupação de ser demitida, tinha um "plano de carreira’’, com muitas aspas. Mas aí era o quê? De eu ser carteira a vida inteira. Mas aí eu tinha a questão dos benefícios, né? Ia ter um nome na minha carteira chamado “Correios”, mas não é algo que me prendia, talvez seja uma coisa obsessiva por emprego. Eu tenho uma outra ideologia sobre trabalho. E acho que talvez isso tenha me salvado. Eu já pedi demissões várias vezes, nunca fui mandada embora, eu sempre pedi demissão (risos). E daí eu saio, peço demissão dos Correios. Eu fico acho que... quando eu peço demissão dos Correios, eu começo... acho que começo a estagiar? Não, minto! Eu saio dos Correios, só que daí tem um período que eu não consigo emprego e eu me inscrevo para trabalhar no Playcenter. E daí eu já tinha terminado a faculdade, daí eu vou trabalhar no Playcenter. Eu fico um ano Playcenter? Não, fico acho que uns seis meses no Playcenter. Eu trabalho no Playcenter nesse período, foi um ambiente muito legal de trabalhar, muito engraçado (risos). Mas também muito duro. Tem um outro lado também. Mas um período bem legal. Daí, nesse período, eu cumpro os seis meses e logo sou chamada, porque eu acho que eu me candidato a um trabalho, eu vou trabalhar numa empresa de advocacia. Daí eu sou chamada para ser bibliotecária dessa empresa, daí eu vou trabalhar na área jurídica, como bibliotecária. Eu saio do Playcenter, aí eu vou trabalhar lá. Isso, eu vou trabalhar lá. Daí, nessa empresa, que é uma empresa extremamente longe, na Zona Sul, Vila Olímpia, né? Para trabalhar com advogados, sou bibliotecária numa advocacia, num escritório bem famoso, numa multinacional, ela tem em outros países também. E eu passo a trabalhar lá, eu fico durante quatro meses, só. É, quatro, cinco meses. E daí logo eu sou chamada para trabalhar para um serviço público, porque eu já tinha feito um concurso para trabalhar como bibliotecária, numa rede escolar famosa, só que é do Governo do Estado e daí eles me chamam, daí eu aceito. Daí eu vou trabalhar no ambiente escolar, eu assumo o cargo de bibliotecária escolar. Eu fico nessa empresa, eu fico como servidora pública durante acho que sete anos também, trabalhando com adolescentes, sete anos. E daí vai fluindo, assim (risos).

 

P/1 - Como foi trabalhar com adolescentes?

 

R – Ah, eu adoro trabalhar com adolescente, foi ótimo! Eles são muito fofos, adoro, adoro. Trabalhava com ensino médio, trabalhava numa rede escolar aí que promovia ensino técnico, mas também tinha ensino médio. E foi ótimo. Só que assim, você trabalhar para o Governo do Estado é um trabalho sem money, você não tem recurso para comprar acervo, é um acervo precarizado, você tem que se virar nos trinta. Tanto que a parte de acessar esse catálogo também é precarizado. Então, eu fiz, eu montei a biblioteca de lá, fazia o meu melhor e foi muito legal. A escola onde eu atuei durante bastante tempo era uma escola ótima, muito forte, tinha vários projetos legais e tal. E eu também desenvolvi muitas coisas lá. E nesse período foi legal, porque foi na época que estava o Plano Nacional de Leitura, então eles acabam enviando alguns livros e foi bem quase no início da Lei 10.639, foi bem no início. Então, daí eu comecei a receber materiais de literatura protagonizadas por pessoas negras, e pessoas indígenas também. E lá eu montei um acervo de literatura não branca, nessa escola. Fiz alguns projetos também interessantes com os professores e tal. Mas foi um período bem legal, os alunos eram ótimos. Eu tenho toda uma questão de bibliotecas, de _______ não ser um lugar silencioso, eu tenho minhas ideologias e tal. Então, a minha vigência de bibliotecas é um ambiente bem vivo, bem efervescente, de troca de ideias (risos). Estou dando risada, porque eu lembro dos momentos. Eu lembro que, quando eu estava na biblioteca, eu tinha uma equipe que trabalhava comigo, dois fofos, eram duas pessoas muito mais velhas do que eu, eu era uma criança perto deles. E a gente fazia muita coisa legal. Eu lembro que lá  era o nosso momento de Psicologia, a biblioteca era o ambiente de Psicologia, as adolescentes iam lá ‘chorar as pitangas’ dos amores perdidos. Eu dava ‘reforço escolar’, entre aspas, né? Porque tipo, os alunos, às vezes, não entendiam o que os professores falavam, daí eu ia lá e dava um help para eles. Nossa! Daí, em ambiente escolar de biblioteca vão as pessoas mais estranhas, mas não normais nas escolas, né? Vão os nerds, vai a galera mais underground. Então, eles eram meus parceiros, minhas parceiras. Onde eles se sentiam seguros. Então, era bem legal. Às vezes as meninas faziam salão de beleza lá, pintavam a unha, conversavam sobre a vida. Então, eu fiz muita coisa, era muito legal, muito engraçado. E eu tenho contato com elas até hoje. Os adolescentes me ligam. Então, foi bem importante para a minha vida. Depois eu saio dessa escola, vou trabalhar em outra escola, mas é da mesma rede. Já é um ambiente diferente dessa escola e foi legal também. E daí depois eu saio, eu peço demissão. Mais uma vez eu peço demissão. Viva o anarquismo! Né? A gente pede demissão porque daí também eu não aguento mais ficar no ambiente público, pela precarização da Educação, de como esse ambiente escolar é tão hostil com os alunos, com as alunas. Eu começo a ficar meio doente com isso. E daí a minha saída é pedir demissão. Eu, nesse período, já estou com a Africanidades, eu já estou fortemente com o... eu já tenho um coletivo, tinha um coletivo feminista, é um coletivo anarcofeminista, que é um coletivo que trabalhava com cineclubes. Eu trabalhava com cineclubes voltados à temática da padronização das mulheres no audiovisual. Então a gente passava filmes e, depois da exibição dos filmes, a gente fazia rodas de conversas. E é um período bem importante também. E daí tem depois a livraria também, daí eu acabo saindo do ambiente escolar e daí fico num período também só com a livraria, é um período que eu vou só com a livraria também.

 

P/1 - Me conta como surgiu a ideia da livraria.

 

R – Então, a livraria acho que é o resumo de tudo isso que eu contei um pouco para vocês, mas tem muita ver também com esse não lugar. Principalmente na área literária. Porque, como eu falei anteriormente, eu achava que eu não gostava de ler, só que a minha sorte é que eu sempre tive uma rede de apoio. Tenho uma família muito bonita, muito inspiradora. Eu tive contato com grandes mulheres, mulheres negras, com essas histórias. E a livraria nasce com isso, com a minha angústia, com essa inquietação. Lembra da adolescência, que eu falava que eu tinha um papel extremamente forte, que eu não sabia o que era? E isso consumiu minha adolescência inteira: qual é o meu papel nessa sociedade? E com a livraria eu descobri. E a livraria vem para isso, porque aí, depois, quando eu encontro a questão da literatura produzida por pessoas negras, para mim acontece uma catarse. Mas eu já tinha, talvez, lido, mas não tinha tido o mesmo efeito que fez na minha adolescência. E daí eu começo a ler essa literatura. E, no período da minha adolescência, a literatura negra, produzida por pessoas negras, cai no ostracismo. As pessoas não reconhecem. A década de noventa é uma década bem estranha (risos). Ao mesmo tempo é uma década bem interessante, bem legal, mas também tem as sombras da década de noventa, bem estranhas. E é um período que está bem no ostracismo, o racismo está fortemente. Tem as militâncias e o ativismo, mas naquele período as pessoas não estavam falando sobre. E daí eu conheço a literatura negra e tal. A literatura indígena eu também já conhecia, a literatura de pessoas não negras... não brancas, eu já conhecia. E daí eu começo já bolada. Eu faço Biblioteconomia. Só que, na Biblioteconomia, eu estou naquele lugar também que eu não sei se eu realmente queria ser bibliotecária. Tanto que eu penso em desistir muitas vezes, milhões de vezes, desistir da área de Biblioteconomia, porque eu acho que, às vezes, não dava para mim. Eu sempre fui uma pessoa estranha dentro da Biblioteconomia porque, como eu já tinha um trabalho de ativismo fora, eu sempre penso a minha existência através disso. E a Biblioteconomia é algo, às vezes, muito orgânico, de ser algo muito seriado. Tem coisa que você vê na Biblioteconomia que é algo, às vezes, num local não pensante, vamos dizer assim, né? É uma reprodução meio estranha. E, naquele período, a Biblioteconomia não pensava sobre a questão de raça, etnia e raça, subgênero, enfim. Nunca foi algo importante dentro da Biblioteconomia. Mesmo quando você classificava ou fazia uma filtragem sobre essa informação. Nunca foi visto como algo político, assim, fortemente. É lógico que para algumas pessoas eu acho que já era, mas nunca foi falado dentro da graduação. Acho que uma professora falava, mas não foi suficiente, passava despercebido. E a área cultural, dentro da Biblioteconomia, sempre foi vista como algo inferior. Os bibliotecários que iam para área cultural, porque era a área que ganhava menos, sempre ganhava menos a área cultural. E as pessoas falavam que era tipo: “Ai, você é doida de ir na área cultural, você não vai ganhar nada”, enfim. Sempre foi muito mal vista. Só que daí eu sempre quis trabalhar, eu fui trabalhar na área escolar, que é uma área que eu sempre gostei. Eu sempre gostei de fazer área de referência, sempre foi uma área muito forte, que é a área de mediação, área onde as pessoas vão te abordar, não sabem o que é. Eu sempre gostei de fazer isso e é algo que eu sei que eu faço bem, de entender quais são as mazelas que as pessoas querem suprir, vamos dizer assim. E daí, quando eu saio da graduação, eu começo a estudar sobre a área cultural, produção cultural, começo a fazer vários cursos sobre isso. E daí eu faço uma especialização de Gestão Cultural, porque também eu começo a trabalhar na área de pesquisa. Enfim, eu começo fazer algumas coisas, algumas paradas fora da Biblioteconomia. E eu começo a ver que eu posso trabalhar juntamente com a Biblioteconomia e daí eu começo a moldar. Aí, quando eu faço essa especialização, eu vejo que eu posso criar, eu posso também. Eu sonho com isso, é algo muito na utopia, mas eu começo a construir os tijolinhos dessa entidade, que é a Africanidades. E, dentro desse período, eu começo a criar meios, começo a pensar mais tecnicamente, mais cartesiano mesmo assim, de fazer um plano de negócio, começo a pesquisar o mercado, começo a fazer. Só que, nisso, eu tenho uma orientação, porque a ideia da Africanidades é a conclusão dessa especialização. Só que a minha orientação, na realidade, eu faço sozinha, a minha orientação não bota muita fé no que eu estou construindo. Mas é legal, a parte teórica do consenso, da construção de justificativa, da briga de defender a minha ideia, é bom, porque ela me ajuda e tal, enfim. Mas, na construção disso, talvez acho que eles não botam muita fé que realmente eu vou colocar isso na prática. Mas foi importante, até as minhas parceiras de curso também foram bem importantes na construção, porque elas viram nascer a Africanidades. Foi um curso bem legal de ter feito, conheci muita gente legal da área cultural, porque eu não conhecia muita gente da área cultural, antes disso eu conhecia a galera, mais da área do ativismo. E depois que eu fiz essa especialização na produção cultural eu pude conhecer mais e respirar isso, esse ambiente cultural, eu pude conhecer pessoas que fazem parte de ateliês de arte, de projetos importantes. Nisso saiu muitas parcerias, eu conheci pessoas que depois me chamaram para fazer outras parcerias com elas, de fazer projetos, enfim. E daí nasceu a Africanidades, aí eu termino a especialização, que foi um ano e meio essa especialização. E daí eu a concluo, acho que eu também não boto muita fé se realmente isso iria acontecer mesmo, na parte prática (risos). Porque também ela fica um projeto enorme, um projeto tipo gigantesco, ela vira quase um polo enorme cultural, porque eu vou trabalhar não somente com linguagem literária, mas também trabalho com gastronomia, trabalho com música, trabalho com gestão de cursos voltados com a área negra, com os saberes negros. Então, ela fica extremamente cara no papel, fica extremamente não viável para mim, muito cara ela fica. Mas fica lá, está registrado, documentado. Porque é possível fazer, mas ia ter um capital bem maior do que eu tinha. E daí é isso. A Africanidades nasce depois que eu termino o curso, em 2013 ela nasce, com todas essas influências que eu tive na minha vida. Então, acho que a Africanidades é o resumo de tudo que eu vivenciei. Desde a infância, da minha vida adolescente, a minha vida adulta, mas é tudo isso misturado, um caldeirão.

 

P/1 - E como foi, para você, perceber que realmente estava realizando, estava saindo do papel?

 

R – Ah, foi ótimo. Lógico que eu acho que às vezes a ficha demora a cair. Mas quando eu lembro, fazer parte da legitimidade da livraria, toda a parte burocrática de ser MEI, de registro, enfim, coloco assim. Daí eu comecei a fazer, foi uma coisa muito orgânica, de fazer, de tentar. Daí eu lembro da parte de escolha do acervo, começo com um acervo pequeno, de montagem de site, começo pelo e-commerce. Mas foi algo muito instantâneo mesmo, uma coisa foi puxando a outra. Mas eu acho que, inicialmente, não caiu a ficha, não deveria ter caído a ficha. Aí eu lembro que eu fiz meu primeiro evento, foi lá na Casa de Cultura M'Boi Mirim, foi uma amiga que me convidou, uma menina incrível, foi a Márcia ________, ela trabalha com economia solidária, em feiras. Durante bastante tempo... a conheci também, então a minha vida é muito recheada com networks, acho que a livraria só está de pé mesmo por conta de contatos, pessoas que eu conheci, que me chamam para fazer trabalhos, confiam em mim. E esse convite partiu a partir disso. A Márcia é uma pessoa que eu conheci num evento, de um evento cultural de um coletivo negro, ela estava lá vendendo, aí a gente ficou amigas e tal. E depois eu a convido para fazer uma apresentação nesse coletivo feminista que eu atuava. E assim ela começou a ficar recorrente desse coletivo, porque ela morava no mesmo bairro. E depois ela me chama para esse evento e daí foi o primeiro evento, foi meu contato com o público. Público externo, pra saber realmente se é validado meu produto, se é importante não somente para mim, mas para outras pessoas. E foi ótimo, de começar a caminhar um evento periférico também, um ambiente cultural periférico, com pessoas pretas. E eu lembro que eu vendi quase tudo ou vendi tudo. Eu lembro que eu fui com a minha irmã, ela me ajudou. Eu não tenho carro, né? Nunca tive carro próprio, eu tenho carro de terceiros, vamos dizer assim, mas eu próprio nunca tive também. Também é uma ideologia política, minha. E eu sempre andei de transporte público e eu já fui para vários locais com a livraria, já fui para fora de São Paulo, isso nunca foi um impedimento para mim. E daí eu sempre fui. Fui com a minha banquinha, a minha banca tenho até hoje eu acho, minha banquinha, minha cadeira. Daí a gente dava um jeito de montar, em qualquer lugar a gente montava a banca. E esse evento foi assim: eu lembro que eu vendi quase tudo, minha irmã me ajudou. E acho que foi até de madrugada o evento, se não me engano. Acho que foi. Foi uma festa sobre samba, foi bem legal. Porque é isso, né? Quando você faz um evento de feira de economia solidária, eu gosto muito de expor porque, além de você poder conhecer pessoas incríveis, você também, de tabela, acaba imergindo, vivenciando aquele ambiente, aquela festa também. Então, eu já fui em várias festas bem legais, assim, muito boas (risos).

 

P/1 – E você lembra das primeiras vendas? Você também vendia fanzine? Como era?

 

R – Sim, vendia também. Antes de abrir a livraria, eu comecei a vender fanzine. Eu já estava na especialização, escrevendo a livraria, mas aí eu comecei a vender fanzine. Eu vendi na época que eu estava naquele ambiente escolar. Tem uma cena que eu lembro muito bem (risos). Eu sou grevista, né? Nata. Eu lembro que eu estava numa greve forte dos professores, da Educação, eu estava lá de greve e eu estava em outra escola, que nessa escola ninguém fez greve, só eu fiz greve (risos). A bibliotecária fez greve, estava todo mundo tudo lá atuando, mas a gente estava em greve. E eu lembro que eu estava lá em frente à administração central, fazendo greve e eu estava vendendo fanzine. Eu lembro que eu vendia fanzine da Imprensa Marginal, que é uma editora de uma grande colega minha, é uma editora anarquista, anarcofeminista, que é da Marina, uma artista incrível. E ela tem uns fanzines e esse fanzine que eu vendia era sobre a história do feminismo. Tanto de grupos coletivos do exterior e também do Brasil, mas são grupos anarcofeministas, mais, né? E daí eu vendia, era volume 1 e volume 2, eu vendi muito bem, vendia muito bem esse fanzine e tal, vendi por bastante tempo. E eu comecei a vender mesmo, ser livreira a partir desses fanzines. Aí, depois, quando eu monto a livraria mesmo de fato, eu continuo a vender alguns fanzines dela e também de outras pessoas. Mas depois os títulos vão se modificando, eu começo a pegar de algumas editoras e tal e nas feiras e também na loja virtual. Tem também a venda e-commerce, né? Mas as primeiras vendas foram bem positivas. Eu lembro que eu vendi com algumas pessoas famosas, eu lembro. E nas feiras tinham algumas pessoas que vendiam também, sempre teve. Como pessoa do Quilombhoje, porque eu sou filha do Quilombhoje, é um coletivo literário de militantes negros, literatos negros, desde a década de oitenta, eles são bem atuantes, são pessoas incríveis. E a gente sempre se encontrava nas feiras, então a gente sempre trocava muitas figurinhas com outras pessoas também, outros livreiros que vendiam também sobre a questão da literatura negra. E a gente sempre se encontrava e dava dicas aonde iria ter um evento tal, enfim. E sempre rolou muito respeito, assim, a questão da concorrência eu acho que não existia, era um outro formato de viver essa questão do comércio mesmo, saca? Tanto que eu tenho muitos livros, assim. Eu lembro uma vez que eu fui fazer um evento, não lembro qual foi a feira que foi. Ah, foi de um rapaz que eu acho que era da Nigéria, ele estava começando fazer alguns eventos aqui em São Paulo, de cultura africana. E nisso ele convidou alguns empreendedores, afro empreendedores, para compor esse evento. E eu lembro que, quando eu cheguei nesse evento, tinha um outro livreiro, um casal de livreiros, vendendo praticamente quase os mesmos livros. E eles viram que eu estava e eu não os tinha visto. E eles passaram e tal, eles retiraram os títulos que eu tinha igual. Eles retiraram, para não ter esse lance de concorrência, sabe? Eles retiraram os títulos. E depois que eu percebi, a gente conversou e tal. Depois a gente ficou muito próximo, a gente se encontrava em feiras, porque é isso: o universo afro empreendedor, inicialmente, era muito pequeno, depois foi se ampliando e tal. Mas é isso, um lance de respeito mesmo. Então, é talvez um modo diferente de criar, de fazer parte desse ‘capetalismo’, né? Porque a gente não pode também ser uma negação disso, a gente faz parte, infelizmente, mas a gente pode criar um novo modelo. Mas eu tenho essas lembranças muito afetivas, de fazer parte desse mundo. Também, depois de um tempo, eu comecei a promover feiras. Eu fiz parte de um coletivo que fazia feiras, que promoviam o protagonismo de mulheres afro empreendedoras. Então, durante bastante tempo eu trabalhei organizando essas feiras, não somente como protagonista, mas sim de produzir esse protagonismo.

 

P/1 - Como foi essa época?

 

R - Foi ótima, porque eu pude acompanhar de perto como é essa construção. E também de ter esse privilégio de conhecer novas marcas, porque tem muitas marcas que iniciaram nesse evento que eu fazia. Nesse coletivo, que chama Mercado Negra. Que era eu e mais duas amigas minhas, que elas eram também, as duas trabalhavam com marcas de roupas, tinham uma grife e tal. E eu que trabalha na parte de livros. E a gente promovia, era itinerante e era uma feira que era tipo uma celebração de mulheres que promoviam o seu autossustento, através desses comércios. E aí a gente tinha uma preocupação também de fazer capacitação dentro dessa feira, de produzir um material que capacitasse essas mulheres. A gente fazia, às vezes, palestras de coaching, de pessoas que trabalhavam na parte de empreendedorismo mesmo. Elas falavam sobre isso, de como legalizar uma marca, de produzir um banner legal, de ter um cartão de visita, de fazer um portfólio bacana. Como também a gente trouxe a música, já trouxemos artistas para cantar, fazer pocket show. Mas é sempre uma celebração porque as feiras de economia solidária, mesmo quando elas davam... não somente as que eu produzia, mas mesmo as que eu participava, mesmo quando não ia ninguém, às vezes não tinha público, a gente não vendia, mas a gente tinha a gente, sabe? A gente conversava, a gente ria, a gente ria muito, de trocar figurinhas, contatos. E a gente celebrava que a gente estava lá, ia passar uma tarde ociosa ou não, mas a gente dava sempre um jeito de não ser tão ociosa. Então, o Mercado Negra via muito esse viés de fazer celebrações entre essas mulheres. E também de fazer esse protagonismo, porque muitas vezes a questão de ser empreendedor acaba criando muros, para dificultar a vida dessas mulheres. Às vezes ela não consegue pagar mensalmente essa taxa que é feita para o MEI, por exemplo, que eu acho que está em torno de, sei lá, sessenta e poucos reais mensais. Às vezes não têm, às vezes elas são informais. Às vezes elas não têm dinheiro para fazer um banner legal, não sabem como fazer. E não sabem onde atuar. E, às vezes, você tendo um local, uma rede de apoio, é mais fácil. A gente tem o grupo ainda de mulheres que faziam essa feira. Eu acho que faz uns quatro anos que a gente não atua mais como Mercado Negra, mas a gente tem ainda o grupo no Whatsapp. E é interessante, eu conheci muitas pessoas, muitas marcas incríveis, assim. Nossa, coisas surreais que eu pude estar lá, pude vivenciar. Então, foi bem legal, foi ótimo.

 

P/1 - Ketty, você falou que você fazia viagens com a livraria. Como foi isso?

 

R – Ai, eu cheguei, cheguei a fazer. Fiz interior de São Paulo. Fui também para... deixa eu ver... mais, assim, fora de São Paulo, eu fui para Florianópolis, fiz Flip. Foi legal como experiência. Tem algumas experiências que não foram legais, às vezes de venda, nossa, porque tem que colocar também no papel o que você está gastando. Alimentação, passagem, enfim. Mas de vivência foi ótimo, de aprendizado e também de networking. Porque é isso, as feiras geralmente são networking, a maioria das vezes. Alguém vai te chamar, em algum momento, isso é real, vai lembrar de você, vai te chamar, você vai ter uma venda de uma pessoa que vai passar pra você, é verdade. Isso é super verdade. Eu lembro uma vez que eu fui fazer um evento, eu estava numa feira nada a ver... nada a ver assim, pela temática da feira. Era uma feira de veganismo e só tinha empreendedores brancos, acho que eu era a única empreendedora preta e estava com uma temática preta. E daí eu lembro que veio uma mulher, uma mulher branca e tal, ela estava correndo, estava correndo de manhã. Ela passou na minha banca e daí ela queria um livro. Não, ela estava sem dinheiro, porque ela estava correndo e tal, mas a gente conversou muito, a gente conversou horas, falou o que era a livraria e tal. E ela queria um livro, que eu não tinha lá. Ela queria um livro sobre branquitude, se não me engano. E eu falei: “Ah, eu não tenho”, e tal. Eu indiquei e passou, passou meses. Depois essa mulher me ligou e ela falou assim: “Eu quero esse livro, não tem como você conseguir esse livro?”, eu disse: “Olha, eu não trabalho com essa editora”, e tal. “Mas eu quero comprar esse livro de você” – ela falou bem assim: “Não tem como você comprar?” Daí eu falei: “Tá bom, vou comprar esse livro”, eu comprei esse livro para ela, mas falei assim: “Eu vou comprar esse livro para você, mas vai ficar um pouco mais caro porque, vai ser a minha mão-de-obra, enfim”. Ela falou assim: “Não, eu pago qualquer valor, mas eu quero comprar esse livro de você”. E ela comprou. E assim como outras pessoas, in loco. Em Florianópolis eu fui para uma convenção de bibliotecários negros e eu conheci várias pessoas lá, algumas pessoas de Florianópolis e tal. Depois me chamaram para outros trabalhos. Como na Flip também, na Flip eu conheci outras pessoas, foi incrível a Flip. Eu conheci muitas pessoas legais, que até me chamaram para outros trabalhos. E fora de estar naquele ambiente, de você vivenciar algo, que é importante você vivenciar o presente, é isso. Você estar lá, você estar com aquelas pessoas, de comprar aquela ideia, de dar um pouquinho de você e também receber aquilo. Eu acho isso muito importante, isso é muito valioso. E as viagens é isso, assim, eu não fiz muitas viagens, já fui convidada para outras viagens, mas algumas não deu, por causa da pandemia; outras não deu, porque ia ficar muito inviável mesmo financeiramente. Mas já me chamaram muitas vezes para viajar para outros lugares, mas quem sabe, futuramente? (risos) Eu gosto de fazer feira, mesmo tendo... depois que eu criei o espaço físico, eu comecei fazer menos, porque é também de você querer que as pessoas vão no seu espaço, de trazer as pessoas para cá e daí eu diminuí bastante. Porque também você fazer feira é caro, porque geralmente você tem que pagar uma taxa nas feiras e tal. Mas eu gosto de fazer feira, você está tête-à-tête ali e, realmente, se o seu produto é bom, você vai saber; se ele não é bom, você vai saber. E ter jogo de cintura, é ali. Você vai ter jogo de cintura, você vai ter que convencer aquela pessoa a comprar o seu produto, independente do que ele seja. Pode ser um limão, se você for boa, a pessoa vai comprar, é verdade (risos). Você vai comprar lá, você vai convencer. Então, para mim é um teste, sempre é um teste. Eu gosto muito de desafio. E eu gosto de estar em ambientes que não são tão no meu conforto, acho que eu aprendo bastante, acabo testando os meus limites também. Eu gosto de estar em ambientes que me trazem esse desconforto, assim, de uma forma positiva, entendeu? E a mediação é isso, mediação você está sempre nesse ambiente de lidar com as pessoas, lidar com algo que você não vai tocar, você vai trabalhar com o imaginário. Então, eu gosto disso (risos).

 

P/1 – E, Ketty, qual o diferencial da Livraria Africanidades?

 

R – Olha, atualmente eu posso falar mais sobre o acervo. Porque eu acho que hoje em dia tem tantas iniciativas comerciais e culturais que trazem o mesmo acervo e o mesmo assunto e isso é muito bom. Mas eu acho que tem a ver com a qualidade de tratamento com as pessoas, o que eu oferto para as pessoas, porque não é somente o acervo. Porque vender é fácil, você compra e tal, mas é mais do que isso, né? É mais de quando eu mando um livro para uma pessoa, o que vai estar dentro disso, as informações que vão com isso, o modo que eu vou mandar um e-mail para essa pessoa, o modo como essa pessoa vai receber essa informação, como isso vai ser gerado. Então, acho que tudo isso já começa antes. Como ela vai fazer a compra, como vai ser esse ambiente, então eu acho que é um pacote completo. Sobre o acervo, o diferencial e, como eu falei, não só o acervo, eu trago muitas vezes obras que elas não vão encontrar em qualquer espaço. Eu gosto de trabalhar também com um acervo que seja nesse ambiente independente, o degrau, assim, de pessoas às vezes que não vendem em outros comércios, outras livrarias. E tem livro que realmente as pessoas só vão encontrar aqui no meu acervo, não vão encontrar em outro local. E é isso, eu acho. Eu gosto muito também desse ambiente, que eu não sei se é o ambiente ideal, mas para mim é, (risos) que eu trago e eu gosto muito desse ambiente com as minhas autorias, gosto de ter um ambiente que onde eu conheço os meus autores, são os meus protagonistas mesmo, da minha matéria-prima. Porque o livro é um artefato, é um objeto, mas se eu o quero vivo, eu quero conhecer além desse livro, desse objeto, dentro das páginas, quem escreve essas páginas. E eu gosto de ter um ambiente também muito íntimo com os meus autores, com as minhas autoras. Quando eu conheço, tem alguns que realmente eu não conheço, porque são falecidos. Ou às vezes não dá mesmo para conhecer, porque eles são de outros países, e acaba sendo algo muito distante. Mas a maioria deles, quase 70% do meu acervo eu conheço, eu lido com eles mensalmente, tenho contato com eles. Quando eu faço esse desdobramento para os meus clientes, as minhas clientes, eu acho que tem a ver com isso também, tem a ver de saber quem são, o que é minha matéria-prima. Quando eu faço minha mediação, eu sei o que eu estou vendendo, eu gosto do que eu estou vendendo, eu não vendo só por vender. Se eu vendesse só por vender, eu acho que a livraria não existiria até hoje, talvez. A livraria está em torno de oito anos, então eu gosto do que eu vendo. Eu só vendo o que eu gosto; o que eu não gosto, eu não vendo (risos).

 

P/1 - Como foi ter um espaço físico?

 

R – Olha, foi incrível, mágico. Porque tê-lo como e-commerce é fácil, ''fácil'' com muitas aspas, né? Mas você cria um ambiente virtual. Mas eu percebi que realmente é caro eu ter um ambiente físico e tê-lo, de fato, foi incrível. E o ambiente físico veio também por um convite de uma pessoa que eu conheci em uma feira de economia solidária. Por isso que eu falei, network é muito importante (risos). Essa pessoa que me convidou, é uma pessoa que eu conheci, eu fiz uma feira com ela, foi minha colega de feira, eu fiquei instalada do lado dela e daí a gente passou conversando a vida inteira. Ao invés de vender, a gente vendia, mas a gente conversava muito, nossa, a gente falou sobre tudo, assim, da vida. E depois disso ela me convidou para fazer algumas coisas, ela me convidou para escrever uma matéria, uma vez, sobre autoria negra. Ela estava fazendo algumas coisas. E depois de um certo tempo ela entrou em contato novamente e nisso ela tinha conseguido um espaço físico para o comércio dela e era um casarão muito bonito. E é um espaço onde ela ia morar também. Só que, como tinham muitos espaços vazios, ela ia locar alguns desses espaços. E aí ela pensou em mim e me convidou. Eu lembro que ela me chamou para fazer uma reunião. Na época a gente podia fazer reunião presencialmente, né? E daí eu fui e daí ela pegou e fez esse convite. E daí eu não pensei duas vezes, eu aceitei. Eu sou uma pessoa que quase não nego as coisas. Muito difícil eu falar não. Só quando está muito inviável. Mas eu sempre falo sim, aí eu falei: “Ah, bora, vamos fazer!” Então, ela me convidou e tal e daí, nisso, a gente foi se acertando. O produto dela não tem nada a ver com o meu, ao mesmo tempo tem. Mas também eu comecei a conversar com ela, ver como ia ser, nós conversamos muito sobre a questão da nossa inauguração. E eu lembro que eu fiz a inauguração, foi bem no fim do ano, foi linda a festa de inauguração, nossa, foi memorável. Veio gente de muitos lugares, lotou a livraria, foi uma festa. Teve dança de coco, samba de coco, teve slam, veio gente, nossa, que eu não conhecia presencialmente, mas conhecia de ler, de ver, pessoas bem inspiradoras estavam lá. Foi lindo. Eu não curti muito porque, quando você está organizando uma festa, você quase não curte a festa, está muito preocupada, resolvendo outras coisas. Mas foi lindo, quem esteve lá disse que foi lindo e tal. E daí a livraria nasceu e tal. Eu fiquei lá durante alguns meses, foi bem importante. Era uma sobreloja, era uma sala, uma sala pequena. Duas amigas minhas grafitaram o espaço. Duas não, três, foi a Nene Surreal, a Linoca e a Gabi Bruce, fizeram três desenhos lindos. Era bem aconchegante, era pequeno. E lá eu fiz muitas coisas, eu fiz muitos eventos. Nossa, muita coisa legal, muita gente de outros estados veio, muita gente de outros países, foi bem bacana. Pude vivenciar, pude estar com pessoas que eu nem rezava estar ao lado, pessoas bem ícones. E lá fizeram muita reportagem, fiz várias matérias com pessoas, muita gente fez filmagem. E depois de alguns meses eu percebi que lá também... eu não cabia mais lá. Fiquei lá... acho que chegou seis meses? Acho que nem chegou a seis meses. Não cabia mais lá. Uma pelo bairro, o bairro onde eu iniciei era o bairro das Perdizes, um bairro central, mas não tão central, mas é um bairro de classe média alta. Eu via também que o acesso para chegar lá não era tão fácil. Pessoas... o metrô não era tão perto. Mas era um ambiente que, tipo, não tinha nada a ver com a livraria. As pessoas que frequentavam lá não eram daquele bairro, só tinha duas ou três pessoas que frequentavam recorrentemente e eram pessoas pretas, eram mulheres negras. E daí eu via que a livraria precisava de mais. Sei lá. E daí eu recebi um outro convite, para fazer uma casa, que é um ambiente onde eu tinha mais familiaridade, que é um ambiente onde que eu fui nascida e crescida, que é na Zona Norte de São Paulo, que é uma região periférica. E era uma casa e lá eu poderia fazer mais coisas. Eu também não tinha tantas opressões assim, porque eu estava num ambiente de locação, não tinha tanta autonomia, do que eu fazia, do que eu geria. E lá eu tinha mais espaço, ia ser mais a minha cara, mais o que eu queria demonstrar. E daí, depois de alguns meses, eu fui para Zona Norte, que é o ambiente onde está até hoje. E foi outro mundo, outro universo. Que é uma casa, é uma casa coletiva, que é aberta para outros coletivos, outras pessoas que têm pensamento, que tentam visar e valorizar os saberes de memórias da população negra. O ambiente é para isso, né? Então, várias pessoas já usaram aqui, para protagonizar seus projetos. E fora a livraria também, eu vendo, vendia produtos de outros afro empreendedores também. E a casa também locou durante bastante tempo assistência psicológica, então tinha aqui atendimento psicológico, atendimento referente à saúde mental, com duas psicólogas negras. Já teve oficina de yoga kemética, que é yoga que se baseia em filosofia africana, que é de Kemet, que é o Egito Negro, Egito Antigo. E fora outras coisas. Essas coisas eram fixas, mas depois de um tempo teve outras coisas que não eram tão fixas, que tinha desfile de moda, teve oficina de culinária, de produtos naturais, estamparia africana. Tivemos vários lançamentos de livros, festas, shows. Que mais que teve aqui? Nossa, gente! Cineclubes. Nossa, a gente teve muita coisa aqui já, muitas coisas, muita gente já passou por aqui, pessoas de São Paulo, do Brasil, do mundo, pesquisadores já vivenciaram aqui. Pessoas que vinham para São Paulo, por exemplo, de Fortaleza: “Ah, estou passando em São Paulo, para conhecer a livraria”. As pessoas vinham aqui fazer pesquisa, me conhecer. Às vezes a pessoa nem vinha e comprava alguma coisa aqui. Mas ela vinha, às vezes. Às vezes a pessoa, engraçado, a gente almoçava juntas. Porque, como eu gosto de receber muitas pessoas, daí geralmente as pessoas vinham num horário... teve um caso muito engraçado de uma pessoa, que é a Fabiana Pinto, que é uma pesquisadora do Rio de Janeiro, a gente virou amiga. Ela me ligou... não, ela mandou uma mensagem, que ela é do Rio de Janeiro e ia passar um tempo em São Paulo e ela estava pesquisando sobre autoria feminina negra. Eu falei assim: “Ah, vem, né?”. A gente marcou uma data com ela e daí lembro que ela chegou bem cedo, ela chegou antes do que eu, aqui na livraria. E ela passou o dia inteiro, daí ela almoçou com a gente. (risos) E daí a gente fez um almoço, ela almoçou e tal. E daí, nisso, como ela ia ficar em São Paulo - ela fez uma entrevista comigo, que ela estava fazendo o doutorado dela - eu a chamei para vivenciar São Paulo, a gente passou a semana inteira juntas, a gente foi em vários eventos culturais, lançamento do livro X e ‘pararanpararan’.  E aí a gente ficou amiga, a gente ficou muito trocando ideia. E aí, depois, ela vai para Argentina, que ela vai concluir o doutorado ou o pós-doc dela. Ela escreve sobre a livraria. E depois ela vem para São Paulo novamente, a gente se encontra. E ela me indica para várias pessoas, todas as pessoas que vêm para São Paulo, ela me indica: “Você tem que conhecer a Ketty”, daí várias pessoas, assim, autores já me mandaram mensagens. E fui convidada para várias outras coisas que ela também me chamou. Ela, depois, me chamou para eu escrever um artigo na Argentina. E ela me convidou para assistir a banca dela de pós-doc. Foi linda, foi incrível! E recentemente ela me mandou mensagem, até.

Mas é isso, geralmente as pessoas vêm e ficam aqui. E é isso, o espaço físico é para isso também, para acolher as pessoas, mesmo quando as pessoas não vêm para comprar, mas para conhecer. Para estar um pouquinho aqui, para gente trocar essas informações. Tem autores também que às vezes não querem vender livros, às vezes... não vender livros, mas tipo, tem um livro X, mas não querem às vezes vender para mim, elas me dão. Já recebi várias doações de livros, de pessoas que me dão o livro para eu dar para outras pessoas, por exemplo, de autores. Tem uma autora de Brasília que me mandou acho que dez títulos, dez exemplares do livro dela, para eu dar, do modo que eu quisesse. Então, é isso, de muita troca, muita contrapartida também. Então, o espaço físico é muito isso. Estou sentindo muita falta, né? Com a pandemia foram encerradas as atividades, suspensas durante esse período pandêmico. Eu tô esperando quando, realmente, reabrir. Por enquanto não vejo necessidade de abrir, porque eu acho que a gente ainda está em análise. Realmente não sabemos o que vai acontecer futuramente, mas eu estou muito otimista, que acho que talvez no ano que vem eu possa reabri-la, e continuar a fazer todas as ações que estavam aqui, já.

 

P/1 - Ketty, quais foram ou são os seus maiores aprendizados, ao longo dessa sua experiência, como empreendedora negra?

 

R – Ah, o aprendizado é constante, diariamente. Mas eu acho que a questão de trabalhar com o impossível. Eu acho que é uma grande aprendizagem, trabalhar com o impossível, de escuta também, de saber escutar, eu acho que é um grande aprendizado. Muitas coisas... eu aprendi muita coisa como empreendedora, de realmente testar os meus limites. E, como eu não tenho funcionário, sendo empreendedora, eu aprendi a fazer tudo, audaciosamente. Lógico que nem tudo a gente consegue fazer bem, mas eu faço tudo. Lógico que eu peço, às vezes, ajuda para os universitários, universitárias, mas eu aprendi a fazer tudo, assim, do meu jeito. Então, eu acho que é isso: você também ter humildade de saber escutar, humildade de aprender novamente, procurar fontes específicas. E também lidar com esse impossível, lidar com o que o mercado quer também. Mas nem sempre o que o mercado quer é o que você quer também. É também de ter alguns limites, de também aprender a falar não, de entender os seus limites também. E tem coisas que às vezes não é para mim, não é para a Livraria Africanidades e está tudo bem, sabe? Eu não vivo de moda, a gente não vive de moda, a gente vive de vida mesmo. A vida não é moda. Então, é isso, acho que eu tô em construção. E é difícil também, às vezes, de me autodeclarar empreendedora, de pensar nesse campo, porque como está muito orgânico a vivência, de organizar o que eu faço, no meu aprendizado. E é isso, também de saber lidar com essas inspirações todas. Eu tento muito lidar com pessoas que vieram antes de mim também, saber como eles sobrevivem, sobreviveram. E entender também o meu papel, nesse roteiro todo. Porque é isso, a gente, muitas vezes... tem gente que acha que inventou a moda, a gente não inventou nada. Acho que as coisas sempre estiveram aí. Muitas vezes elas não eram visíveis para o grande público. E a gente teve essa vantagem social de ser visível para muitas pessoas, às vezes a gente também não é visível, mas a gente está aí, nessa contemporaneidade toda. E por que eu não posso também dar essa visibilidade para essas pessoas que vieram antes de mim? Já que eu tô, às vezes, na frente, mas eu posso apontar os caminhos onde que eu percorri e eu ainda percorro. Então acho que o empreendedorismo tem a ver com isso, também.

 

P/1 - E qual o espaço da literatura na sua vida, na sua história? O que significa, para você?

 

R – Ah, a literatura, para a minha história, acho que é tudo. Eu tenho, talvez, uma visão diferenciada, que eu vejo que as narrativas não são somente da parte formal, dentro do livro, não é uma literatura certinha, cartesiana. Eu acho que a narrativa é tudo, assim, desde o que você fala, o que você veste, o que você come. Acho que tudo isso é narrativa. Tem a questão também do ambiente que a gente quer, acho que tudo é narrativa. Então, eu acho que tudo contribui para essa construção desse império que eu construí, dessa rede que eu construí, do que eu quero também do mundo, tem a ver com isso. Porque é isso, a partir do momento que você não tem, você não se vê, não tem nome, não tem título do que você quer, você pode fazer, você pode construir, né? Então, acho que a Africanidades têm a ver com isso. A partir do momento que eu via que talvez não conhecia lugares, locais, uma literatura que me descrevia, que eu não estava lá especificada, eu construí um ambiente onde eu consegui me ver. E eu percebi como eu era múltipla, como eu tinha mil facetas, como eu, como a população que eu represento e daí eu construí esse ambiente, essa instituição, que é um pouco de mim, né? E eu acho que é isso, a questão da literatura. A literatura é muito mais do que nós pregamos muitas vezes, eu acho que às vezes a gente limita muito o que é literatura. Porque a gente também coloca nesses moldes, né? O que é uma literatura perfeita? E como essa literatura pode ser escrita também? Quantas vírgulas, quantas pontuações, quantos espaços, parágrafos ela pode ser construída? Se ela é realmente literatura, né? E quem pode escrever essa literatura? Quem realmente pode construir essa literatura? Se a literatura é feita por todos, pode ser construída por todos e por todas e por todes? É uma pergunta que a livraria às vezes põe em pauta para o universo também, para a sociedade. Ela recebe essa pergunta, mas também coloca em xeque de volta, em contrapartida. E quem responde muitas vezes somos todos nós. E às vezes pode ser que não encontre resposta, mas ao mesmo tempo, o que eu pretendo é que a gente possa ser o que a gente quiser, sem peso nenhum. Ter uma leveza dessas vidas. Sem pressões. Porque eu também me pergunto muitas vezes, porque muitas vezes eu faço coisas que eu acho que às vezes não sou eu por inteira, sabe? Acho que a gente tem tantas opressões dentro de si mesma, que obrigam a gente a fazer algumas escolhas. Então, eu 100% Ketty, será que eu escolheria isso? Não sei (risos). Será que eu escolheria ser uma livreira, com uma livraria especialista em literatura negra? Não sei. Será que eu escolheria ser outra coisa? Pode ser, nunca vou saber, né? Porque nossas vidas também são demarcadas através de uma história que é uma catástrofe, que é uma grande violência, então eu nunca vou saber disso. E como a gente lida com isso? Eu estou lidando da minha forma, para que outras gerações talvez sejam impactadas, que elas possam ser realmente plenas. Seja o sol do meio-dia. Tenha aquela luz que possa, talvez... agora acho que talvez trilhar o seu próprio caminho e trazer outras pessoas, acho que isso a nossa geração está fazendo, mas que elas possam talvez caminhar com a sua subjetividade e que ela possa ser 100% ela mesma. 

Então, eu acho que a literatura tem muito a ver com isso, as memórias que eu quero também que sejam empregadas. E é uma coisa que eu também tô muito pensando sobre isso, cada vez mais eu tento diminuir memórias que falam muito sobre a questão da História mesmo, da questão da escravidão. Eu acho que todo mundo sabe que é uma história que não tem como ser apagada, é uma história importante para a formação, é importante que ela não seja esquecida, mas eu posso propagar outras histórias também e dizer que nós podemos escrever outras histórias, posso falar sobre amor, posso falar sobre astrologia, sobre botânica, sobre mercado financeiro, sobre empreendedorismo. Posso falar sobre outras narrativas, que isso me permeia também, me faz ser uma mulher, uma mulher negra, uma mulher negra, periférica, com tantas facetas, com tantas intersecções. E isso também tem a ver comigo. Então, é isso, acho que é um universo amplo, porque eu sou universal também. Então, a narrativa tem a ver com isso, eu tento fazer de vir de um campo específico, mas a minha ideia é que esse campo específico seja um campo universal. Porque muitas narrativas que eu trago aqui não colocam um codinome, um personagem negro. Ela descreve um personagem. Se você interpreta como ela [acha que é] uma pessoa negra, é através do seu imaginário. E quem escreve isso, também é através do seu imaginário. Porque é um exercício que eu faço muito, em alguns lugares. Quando você fecha os seus olhos e você imagina um perfil de uma pessoa, imagina que ela seja um escritor, uma escritora, uma pessoa bem-sucedida na área literária, você vai imaginar um estereótipo, um perfil de pessoas brancas, principalmente de um homem branco. Você não vai canalizar isso com um perfil de uma mulher negra, de um homem negro, até de uma criança negra, que tem várias crianças escrevendo também. Mas se eu colocar em um ambiente violento, um ambiente vulnerável, um ambiente agressivo, geralmente você vai descrever como um ambiente onde pessoas negras podem ser vistas, vivenciar essas vidas. É por isso que eu falo que as narrativas não colocam ali personagens negros. Isso é de acordo do que você faz, da sua trajetória pessoal, do que você acha onde que pessoas pretas, pessoas não brancas podem viver, onde elas podem permear. Eu mesma, como livreira, bibliotecária e vivendo nesse mercado literário, eu estou num ambiente não considerado para mim, muitas vezes. Um ambiente que não é para mim, considerado. E é um ambiente, para mim, extremamente confortável. Mas eu percebo que muitas vezes as pessoas não esperam me encontrar como bibliotecária, como livreira, como dona de uma livraria. E é isso, talvez me encontrasse se eu tivesse uma outra vivência, infelizmente. Então, acho que as narrativas quebram... pelos menos as que eu trago, é para quebrar esses estereótipos, quebrar esses paradigmas. E as narrativas, como também a gente trabalha com narrativas negras e para pensamento negro, a questão da prática e teoria andam juntas, elas não são uma coisa ou outra. Ou você lê ou você dança. A gente lê e dança junto. A gente festeja e a gente faz política juntos. Quando eu falo desse letramento racial, que é através do movimento hip hop, do samba, do grafite, através de tantas vivências, é literatura também, é uma narrativa. E quando você fala com um jovem, que está dentro de uma escola que o que ele faz não é conhecimento, você está fazendo uma outra coisa e de uma outra forma, porque é através do ambiente dele. Então, por isso é importante trazer isso, esse letramento racial, esse letramento crítico e racial de vivência. Então, para mim tudo é narrativa, tudo é narrativa.

 

P/1 - Como é o seu dia a dia, hoje em dia?

R – Então, é bem intenso (risos). Ainda mais com a pandemia, acho que a pandemia, com home office, você trabalha muito mais, você não sabe distinguir o que é lazer e o que é profissional. Pessoal e profissional. Eu trabalho constantemente, mesmo quando eu não estou... eu tenho outros empregos, outros serviços, sou quase o pai do Chris (risos). Eu tenho dois, três empregos (risos). Mas eu tento conciliar, tem dias que eu estou mais focada em uma parte desse emprego, nesse trabalho, de outros aspectos. Mas a Africanidades me consome todos os dias. Desde a questão da venda, da construção dessa venda, da questão do marketing, do plano de divulgação, de ferramentas tecnológicas, de pensar em planejamento, de pesquisa também. Eu sou ativa, sou muito ativa. Eu sempre tô fazendo alguma coisa, assim, tenho ideias mirabolantes, fazer parcerias, pesquisas, então eu trabalho constantemente. E para mim não é ruim, eu gosto muito de atuar. Às vezes, eu preciso, ai, dar um respiro. Através de ler, de assistir outras coisas, mas eu tô sempre bolando alguma coisa. E a trabalho também. E, ao mesmo tempo, trabalho a gente fala, geralmente, associa sempre a algo triste, algo ruim. Fala trabalho, é algo que você não gosta de fazer. E a minha construção de pessoa, que eu adquiri no decorrer do tempo é isso: trabalho é sinônimo de algo que eu gosto de fazer, realmente. Porque é isso, eu tive essa vantagem social de sempre atuar em áreas, no decorrer, depois de um tempo, de coisas que eu realmente gosto de fazer. Quando eu não gosto mais de fazer, eu largo, eu peço demissão e tal. Então, a livraria, como eu falo, a livraria ainda faz o meu olho brilhar, então estou com ela, é o que me move. As pesquisas também que eu gosto de fazer, gosto de atuar, universitária, eu amo demais. Porque é isso, eu tenho uma ferramenta muito potente, eu me vejo muito potente onde eu atuo, independente de onde que seja. É uma construção, mesmo que seja uma construção que as pessoas não vejam e não percebam a importância dela, mas para mim é, eu vejo resposta muito imediata. Quando eu sou abordada por um usuário de biblioteca, de um modo que eu vou construir juntamente com ele, dele pegar um livro, dele construir um pensamento dele e possibilitar essa leitura para pessoas que não são consideradas leitoras, eu já estou no lucro. De estar em um ambiente de crianças, de possibilitar delas terem esse tipo de literatura. De construir também um pensamento de pesquisa, de possibilitar narrativas de pessoas consideradas não tão produtoras de conhecimentos. De falar, eu gosto muito, por isso que eu vou falar muito do campo do feminino, do campo periférico, de falar de mulheres, de mulheres negras, enfim. Agora eu estou muito atuando na área do grafite. Na área das artes, da ________ da arte, então eu estou focando muito sobre isso, de pensar sobre isso, de ler sobre isso, de consumir sobre isso. Então, para mim, é muito voltado para a sociedade. Eu jogo muito essa ideia para a sociedade. Mesmo que eu não seja talvez aclamada, citada, também não ligo para isso. Eu participo muito de pesquisas que, às vezes, não vão vincular o meu nome, mas eu sou muito consultada, de consulta de pessoas que estão construindo pesquisas, me chamam às vezes para fazer uma facilitação, para conhecer esse ambiente, enfim. E às vezes eu não sou citada, mas eu pelo menos construí um espaço, é uma ponte ali. Para mim é muito importante, trabalhar comigo, com meu ego, com a minha perspectiva de ser também um ser humano melhor. Também como empreendedora, como pessoa física e jurídica também. Então, eu acho que é isso, um campo muito... o meu trabalho é um campo muito amplo. Eu sou hiperativa, eu confesso que eu sou hiperativa mesmo, às vezes tem pessoas que ficam incomodadas, muitas vezes, pessoas que convivem comigo. Mas eu tô sempre bolando alguma coisa, tem muito haver com a minha característica mesmo. Não é uma coisa forçada, é uma coisa muito natural, espontânea. Às vezes pinta, eu tive muitas ideias no ônibus, de repente vinha uma ideia, até numa caneta. Tanto que o projeto da Marielle Franco foi no ônibus, assim, loucamente. Cara, fui ver isso... eu gravei um áudio falando e depois eu mandei para uma amiga minha: “Você acha que é viável?”, tal. “Nossa, acho legal! Bora construir isso” “Bora construir isso”. Eu gosto muito dessas construções, principalmente construções coletivas. Isso faz parte... é um trabalho, é um trabalho, um ambicioso trabalho. Então, eu falo que são todos os dias assim. Às vezes tenho que dar uma cortada, né? Baixar a bola e tal (risos). Mas eu gosto muito do que eu faço, gosto muito mesmo, acho apaixonante. 

 

P/1 – Você quer falar dos outros trabalhos? Assim, a gente já entendeu que são muitas coisas, mas tem outras atividades que você ainda se envolve em coletivo?

 

R – É, sim, eu tenho. Ó, tem um trabalho sobre mulheres do rap, que virou uma publicação, em uma websérie, que é um projeto que tenta trazer o protagonismo de mulheres que trabalham com a palavra, mas uma palavra rimada. A gente faz a história delas, de vida, mais a questão dela ser uma mulher, uma rapper, uma MC, que é uma Mestra de Cerimônia. Daí, é lógico que vem o contexto do machismo, vem o contexto social, o contexto étnico-racial. E nem todas elas são mulheres pretas, mas algumas são mulheres não brancas, têm mulheres indígenas também, enfim. E esse projeto virou uma publicação e foi incrível, foi incrível fazer, porque a gente mergulhou no universo delas. Elas recebiam no ambiente onde elas queriam. A gente conheceu um pouquinho de cada universo e nisso virou uma websérie. Tem esse projeto, que é um projeto lindo, talvez tenha uma continuidade, não sei ainda. Tem esse projeto do grafite também, que é bem parecido com isso, mas voltado para mulheres negras, mulheres do grafite, mulheres negras. Eu também vivenciei o universo delas, e tudo mais. Também tem a publicação, websérie. Tem também um audiovisual, que é a vida de uma personalidade incrível do grafite, de uma mulher incrível, que ela é uma das pioneiras de grafite em São Paulo, que eu tô por trás disso. Que mais? (risos) Que mais? Ah, já fiz parte de alguns coletivos aí. Tem coisas minhas, né? Tem algumas pesquisas minhas também que, às vezes, eu gosto de estudar. Que eu gosto muito de pensar da parte de vista da literatura também, de como essas narrativas são formadas. Gosto muito de pesquisar sobre isso, a questão da prática oral, enfim, principalmente do campo periférico, étnico-racial. Tem mais coisas que eu tô fazendo? Tem as coisas da livraria também, que eu fiz, é um grupo de estudos sobre a Bell Hooks. Tive uns ciclos de roda de conversa sobre letramento racial, que foi muito bom, eu queria sair desse campo formal da escrita e mergulhar em outros ambientes. Consegui trabalhar com pessoas que são fora de São Paulo, eu queria muito pessoas do norte, do nordeste e do sul também. E das pessoas também ter esse encontro, que às vezes as pessoas não se conhecem, estão falando a mesma coisa e não se conhecem, de poder partilhar essas ideias todas. Ai, eu vou esquecer de alguma coisa que eu estou fazendo, enfim. Mas inicialmente é isso, que eu vou vivenciar, tô vivenciando também. E outras coisas que vão pintar, que sempre rola algumas coisas. Teve esse lance da Marielle também, que foi uma coisa pensada, de fazer uma publicação de... porque quando o... ainda é, né? Quando a Marielle faleceu e o Anderson, ficou um vazio e um questionamento, dessa dor que invadiu todas as pessoas, principalmente mulheres negras e não foi estancada essa do... esse sangue. E daí eu falei assim: “Não, por que não vomitar tudo isso em uma publicação em uma escrita, né?”. Daí a gente pensou em fazer uma escrita, uma escrita que falasse de vários tipos de violência, de feminicídio, não somente da Marielle, mas da sua vida cotidiana. Algo muito pessoal e íntimo. E ele era baseado em um único título, era um título único. E era um texto contínuo, era como se fosse uma corrente. Uma pessoa escrevia, e a outra pessoa escrevia, escrevia e escrevia. 

A ideia é que mantivesse os erros ortográficos, não tivesse revisão. Porque eu aprendi que uma vírgula muda muita coisa. E uma vírgula também de como eu vejo e a pessoa vê, enfim, são visões de mundo diferenciadas. E daí foi uma narrativa construída através de uma chamada pública, que foi uma parceria entre eu e as Blogueiras Negras. Aí a ideia que fossem mulheres negras, mulheres cis e trans. Sim. Que poderia ter sido... Que vivessem e estivessem em qualquer lugar no Brasil, fora do Brasil. Independente do seu conceito intelectual e da sua faixa etária também. E daí foi feito assim. Daí, tipo, as pessoas escreviam, mandavam, elas publicavam lá. A ideia é que elas não apagassem nada e era algo contínuo, daí foi construído. 

Só que daí a ideia primeiramente era para ter sido publicado nas Blogueiras mesmo, mas ficou tão interessante essa narrativa que a gente pensou em fazer uma publicação, e daí ficou um e-book, que era uma coisa mais viável. Esse projeto demorou para sair, porque são muitas pessoas envolvidas. Eu estou lidando também com direitos autorais dessas pessoas. E com um pessoal que eu não conheço quase ninguém, enfim, a gente pensou: “Ah, vamos publicar um livro”, mas livro é caro, e daí a gente vai ter que vender e vai ter que ficar escravo dessa venda para pagar todas as dívidas, enfim. E aí a gente fez uma publicação gratuita, um e-book, que saía gratuitamente, que cada um poderia compartilhar do jeito que quisesse, e ia ficar. E aí foi. 

Daí o mais legal que a gente teve a benção da Anielle, da família da Marielle, foram super fofas conosco. Eu tive várias conversas com Anielle até, e ela escreveu o prefácio dessa obra. Foi bem legal, foi bem importante. Ela depois deu o depoimento falando como essa obra é importante para a memória da Marielle e tal. Porque na realidade, a gente está falando da Marielle, mas a gente tá falando de nós, né? E vice e versa. Falar da Marielle é estar falando de nós, no contexto de ser mulher negra e de todas as suas perseguições das indagações sociais que isso engloba. E esse foi um projeto bem legal, demorou muito, foi bem demorado, porque é isso, né? Projetos e projetos, demora mesmo. E é isso assim... Essas são as principais coisas... (risos)

 

P/1 – E Ketty, quais são os seus sonhos hoje, pessoais e profissionais, de projetos, enfim?

 

R - Ai, hoje? Ai, eu quero continuar com a livraria, é um projeto pessoal. E quero continuar com as minhas pesquisas mesmo, quero cada vez mais conhecer outras coisas também. Eu adoro escrever projetos, eu gosto muito de fazer projetos, gosto de escrever projetos. E concretizar projetos, de pesquisa mesmo, eu acho bem bacana. Mas eu vejo também que eu tenho muita vontade de parar, na realidade. Eu vejo também que a livraria tem data de vencimento, vamos dizer assim. Não é para agora e tal, mas eu visualizo isso, eu acho que logo mais a livraria não vai ser mais necessária. Tanto para mim e socialmente. Eu vejo muitas iniciativas e eu acho isso muito benéfico, iniciativas nascendo. Acho que todo dia nasce uma iniciativa legal sobre produção literária negra assim. Cada dia nasce uma autoria negra, sabe? Então eu fico muito feliz, eu vibro bastante. E eu vejo que logo mais talvez não seja mais necessário. 

E eu viso também, não sei se eu falei também, o meu empreendimento não é um empreendimento comercial, é um empreendimento também social e cultural. A livraria, é lógico que eu vendo livro e tal, quero lucrar, mas não é somente isso que me alimenta. Eu poderia estar fazendo outra coisa, poderia mesmo, e faço outras. Tanto que eu faço outras coisas também que é meu conforto, por isso que eu trabalho tanto. Porque a livraria, eu não vejo ela como algo que eu possa construir ela economicamente. Mas sim outras coisas, outras coisas vão me dar muito mais orgulho de ter e tal.

Mas eu vejo também que ela não vai ser para sempre, e para mim está tudo bem assim. E que bom que ela não vai ser para sempre, porque a livraria nasce através desse contexto social que é contexto do racismo. Eu só tô com a livraria porque existe um racismo. Se não existisse racismo eu não estaria com a livraria. E eu lido muito bem com isso. O meu holofote é através do racismo. Então que bom que ela não exista, que bom que não precisa ter iniciativas tão específicas para ter valorização e falar assim: “Nossa, nós escrevemos, nós temos epistemologias”, né? E é isso assim, então meu projeto… às vezes eu penso em ver algo fora da livraria também, não sei se isso é possível, mas eu penso nas coisas. Penso também em morar em outro país, outro lugar, penso em sair de São Paulo, penso muitas coisas assim. Penso em fazer outras coisas também. Penso em me aposentar e ter uma casa na praia, gosto muito de praia, mar. Penso em ter minha casa da praia, sabe? Ficar tranquila, plena ali, olhar o mar assim e tá tudo bom, tá tudo certo (risos).

 

P/1 – Ah, a gente está caminhando para o fim, mas queria saber se você gostaria de acrescentar mais alguma coisa, alguma coisa que eu não tenha instigado, deixar alguma mensagem, enfim. 

 

R – Ah, eu sei lá, falei tanta coisa assim. E ao mesmo tempo é interessante pensar, igual, eu sou uma pessoa muito tímida, e já fui muito mais. Sempre pensei que a minha vida não era e não é importante pras pessoas. E tá aqui compartilhando com vocês esse momento para mim está sendo bem especial. E deixa eu ver... Ah, acho que eu já falei muita coisa, vou complementar algumas coisas talvez. Acho que a ideia é sempre que eu não seja maior que a livraria. Eu acho que é isso também. Acho que o que eu oferto é muito maior do que eu e tem que ser, tenho muita preocupação sobre isso. Não quero ser uma influenciadora, uma influencer. Nada contra os influenciadores e influenciadoras. Mas eu acho que a minha matéria-prima é muito maior do que isso e tem que ser mesmo. 

E é isso, eu tento fazer algo que possa inspirar outras pessoas e que elas possam ser o que elas quiserem. Possam vender livros, ou não possam fazer nada também, sem peso assim. Acho que a nossa vida é muito baseada em pressões. Pressões sociais, pressões culturais, e a gente pode construir uma outra forma. Lógico que nem todo mundo talvez tem esse livre arbítrio, né? Às vezes a gente não tem esse livre arbítrio, mas quem pode... Eu vejo que eu posso escolher. Muitas vezes a gente é narrado, é colocado em alguns locais para fazer isso acontecer, mas a gente pode fazer de um modo diferente. Acho que é isso, o que eu tenho que falar acho que... Vai, depois disso vai ter alguma coisa que eu vou falar: “Nossa, eu poderia ter falado isso diferente, poderia ter feito isso diferente”. Vai acontecer isso, essa angústia, é natural (risos). 

Ai, outra coisa que eu acho que é importante eu falar também, que a minha história não é feita de meritocracia, isso não existe. Isso é uma balela que inventaram para serem hierarquizadas tanto as questões de raça, quanto as questões de classe. Então meritocracia não existe, minha vida poderia ter sido muito diferente. Eu poderia ter sido uma médica, sei lá, uma pop star. Se não fosse o racismo, se não fosse todas essas questões. Eu poderia ter aberto a livraria com quatorze anos, que tem várias pessoas, vários gênios aí. Poderia ter me formado na faculdade com vinte anos de idade, que eu demorei para ingressar no ensino superior. E poderia ser diferente, eu poderia também não ter a livraria, poderia ser uma operadora de telemarketing, e tá tudo bem. Mas entender como essas vidas são marcadas, né? Então tem pesos, tem agressões, micro agressões, e minha vida não é, não sai disso também. Apesar de ter uma livraria, de estar num contexto tão bacana na minha vida. Mas para falar que realmente que meritocracia não existe (risos).

 

P/1 – E como foi para você ter dividido um pouco os seus encontros, suas experiências e seus projetos aqui com a gente? 

 

R - Eu gostei bastante, quero muito agradecê-las. Por me proporcionar esse momento, acho que é um momento único, vou lembrar, lembrarei sempre. Eu acho que traz alguns sentimentos, de mexer talvez com sentimentos que estejam adormecidos ou não. E ao mesmo tempo é legal também de revisitar, de trazer essa memória, tem coisas talvez que eu tenha esquecido, que não está tão presente aqui. Mas falando, estar revivendo é positivo, acho que é importante eu ter contado, de estar aqui compartilhando com vocês esse momento. Porque parece para mim que muita coisa parece que foi ontem. Falei: “Nossa, ontem aconteceu isso”. E também a respeito de pensar como as pessoas achavam que eu era e o que eu ia me tornar. Porque acho que ninguém jamais pensou que ia ser uma livreira, que eu ia ser uma dona de uma livraria. Amigos, amigas, sabe? Professores nem se fala. Porque eu nunca fui uma pessoa brilhante, eu nunca achei que eu fosse uma pessoa... E eu ainda acho que eu não sou, não sou uma pessoa brilhante, de pensamento, de intelectualidade. 

Enfim, eu sou sim uma possibilidade, e eu tô confortada com isso. Eu sou um pouco avessa à academia, eu tenho meus... Tanto que eu não me considero acadêmica, não sou uma pessoa acadêmica. Gosto muito da minha vivência de rua, eu sou da rua, sou da vivência da prática. Mas eu acho importante que as pessoas tenham vivências acadêmicas, principalmente as pessoas que não são brancas, acho que é essencial. Mas eu tenho o meu contexto, outro contexto. Eu sou da rua, tenho orgulho disso, gosto muito da minha origem, de ser periférica, de ser uma mulher negra. Eu tenho muito orgulho disso. E eu faço questão de colocar isso. Então eu acho que é importante ter compartilhado isso, tenho muita paixão de quem eu sou e de quem eu me tornei. Atualmente eu tô quase quarentona (risos). E eu tenho muito orgulho do que eu me tornei, da minha história. Então acho que é importante de eu ter falado, de eu ter compartilhado isso.

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