Busca avançada



Criar

História

A gente vai construir a nossa história

Sinopse

Jovens representantes da nova geração da Fercal compartilham suas expectativas para a comunidade e contam quais ações realizam para tentar concretizar esses anseios. Cinthya Gomes e Letícia Pedrina fazem parte da Comitiva “Se Deixar Nós Doma”, formada por meninas com o intuito de preservar as tradições e fortalecer a identidade da região, garantindo espaço para o protagonismo feminino. Alexandre Silva e Caio Eduardo são do Movimento SOS Fercal, formado por jovens que buscam melhorias para a comunidade, inclusive trazer lazer para os jovens de Fercal.

Tags

História completa

Meu nome é Cinthya Gomes da Silva, tenho 20 anos, sou da comunidade de Boa Vista. A Comitiva “Se Deixar Nós Doma” surgiu com um grupo de meninas que gosta muito do estilo sertanejo, o estilo mais simples, mais rústico, uma coisa antepassada que surgiu também aqui na Fercal e que é uma tradição. Nós gostamos muito de folia, Cavalgada, cavalo, essas coisas que achavam estranho pra meninas, mas a gente gosta muito e não queria deixar essa tradição morrer. Então resolvemos fazer esse grupo pra incentivar mais meninas, até mesmo pra tirar um pouco dessa vida que está chegando agora, com progresso, a gente muito presa no celular, essas coisas, e dar valor naquilo em que nossos pais foram criados. Aos poucos a Fercal estava perdendo um pouco sua identidade, a sua origem, essa origem da simplicidade, do rústico. Hoje eu sou apaixonada por essa cultura e eu sempre falo: se depender de mim ela não vai morrer, quero passar pros meus filhos, pros meus netos.

  Aos poucos, nós mulheres estamos ganhando espaço, mostrando que também gostamos das mesmas coisas que os homens, que nós não somos limitadas por sermos mulheres. Então a gente veio aqui mostrar que também não é tão assim sexo frágil como as pessoas dizem, que nós também temos nosso lado mais firme. Nosso primeiro evento foi a cavalgada que tivemos dia 23, pra mim foi uma emoção muito grande de vermos ali o nosso esforço, a nossa união, de todas as meninas de alguma forma ali ajudando, o apoio das famílias, toda a comunidade reunida em um motivo só. Foi muito emocionante olhar tudo aquilo e ver que tudo deu certo, que a comunidade pode fazer, que nós moradores da Fercal podemos ter união.

  A Fercal está além da administração da Fercal em si. Porque nós, jovens aqui da comunidade, queremos que a cidade de Fercal seja reconhecida. Porque muitas vezes você vai para algum lugar, até mesmo de fora e você fala: “Sou da Fercal”. Muitos não sabem. Às vezes é reconhecida pelas fábricas de cimento, mas não pela comunidade, pela cultura que aqui é criada. A Fercal foi considerada uma RA, uma Região Administrativa, mas não é o suficiente. Queremos mais ainda, queremos que a Fercal seja uma cidade grande, que seja uma cidade que traz muito prazer. Uma coisa que muitos não conhecem é a beleza que tem aqui, os rios, as cachoeiras, porque a Fercal não é reconhecida como cidade com o valor que é devido.

  Meu nome é Caio Eduardo Gomes da Silva, tenho 19 anos, e sou morador do Expansão, Alto Bela Vista. Uma história bacana da Fercal que eu pude acompanhar foi a criação do Movimento SOS Fercal, do qual eu faço parte. E uma das minhas conquistas, da galera, que eu gosto de contar foi o nosso evento que rolou dia 23 que eu acho superbacana, porque aqui na Fercal a gente não tinha um evento pro público jovem. A gente tinha o quê? Uma Feira da Lua que toca um forró, bota um funk de vez em quando. Quando a gente queria se divertir a gente fazia o quê? “Ah, vamos lá pro Jequitibá, vamos pro Conic, vamos dar um rolê em outro lugar”. A gente: “Não, vamos trazer o rolê aqui pra quebrada”. Que nem os meninos falam. Fizemos esse evento que trouxe um pouquinho de dor de cabeça, muita correria. Achei bacana, trouxe o slackline, trouxemos rock, MPB, umas músicas bacanas também.

  Meu nome é Alexandre Silva Gomes, tenho 18 anos, sou morador da Fercal. No dia 27 de janeiro deste ano de 2015 a gente participou, eu e mais dois amigos meus, de uma reunião dos líderes comunitários pra saber como ia ficar a questão da RA da Fercal, se ela ia ser extinta, se ela ia continuar sendo uma cidade satélite. Nisso a gente viu que a decisão dos líderes comunitários foi não fechar a BR, não se manifestar, esperar a resposta do governo. Só que a gente pensou: “Ah, mas por quê? Só eles que vão decidir alguma coisa? Não. Vamos fazer, vamos movimentar”. No outro dia de madrugada, era três horas da manhã, a gente juntando madeira pra fechar a pista às cinco horas. Quando a gente avistou o primeiro ônibus e a gente fechou a BR, aí paramos os caminhões todos, os caminhoneiros começaram a ficar com raiva da gente, queriam sair na porrada com a gente. Fui correndo pra parada pra chamar o pessoal, discursei. E tipo assim, a emoção de estar ali, entrar naquele ônibus e chamar o pessoal: “Vamos lá porque a gente tem que acordar, a gente tem que se movimentar”. Foi, tipo, do nada, três jovens fechando uma BR, os jovens chamando, gritando, aquela emoção ali foi muito importante na minha vida, foi um dos momentos que eu falei: “Cara, eu posso fazer diferente”. Muitos falam que foi uma atitude radical e tudo o mais, mas assim, foi o pontapé para o nosso grupo SOS Fercal. E a gente já conseguiu várias coisas a partir daí. Você sentar com os jovens e falar: “Véio, vamos pensar aí, vamos resolver algum problema. Vamos fazer o evento?”. “Vamos.” “O que a gente vai precisar?” “Ah, a gente vai precisar de apoio da administração? Vamos atrás.” As pessoas se mobilizaram pra correr atrás de alguma coisa. A gente está aqui pra dar continuidade nisso, pra correr atrás. Isso pra mim é muito importante, é um momento da minha vida que está sendo fantástico, de estar participando, de estar se organizando. É claro que você aprende muita coisa com as pessoas mais antigas porque a gente também depende disso, dos conhecimentos que são passados e tudo mais. Então esse momento foi muito importante na minha vida. De fechar aquela pista, de lá até aqui, eu posso dizer que eu era só um cidadão normal na minha comunidade, mas desses seis meses pra cá mudou muita coisa, eu sou uma pessoa nova.

  Meu nome é Letícia Pedrina dos Santos, tenho 15 anos. Eu sou lá do Córrego do Ouro, fui criada lá, cresci lá. Nossa Comitiva “Se Deixar Nós Doma” foi criada agora, tem uns oito, nove meses. Desde que eu nasci, da barriga da minha mãe eu me vi em Folia, em cavalgada, em reza... eu gosto. Nós meninas, essas 32 meninas, estamos querendo fazer isso, trazer para o pessoal a nossa cultura, mostrar como é que é. Quando você vai, você participa, você fala: “Nossa, é muito bom”. A nossa cavalgada foi assim, o povo foi, gostou. O pessoal daqui da Fercal, tão próximo de onde a gente faz folias, rezas e não vão, quando foram na nossa cavalgada falaram: “Nossa, muito bom mesmo, amei! É diferente, a cultura, as músicas, o estilo, divertir, é totalmente diferente”. Amaram. Então a gente está querendo que outras pessoas que não conhecem admirem também o nosso lado, da nossa Folia do Divino, que aqui ocorre em setembro, outubro. A Folia dos Santos Reis, que é de dezembro, janeiro, aqui. As catiras também. Se Deus quiser, mais pra frente, a nossa Comitiva tá querendo formar um grupo de mulher tocando, que aqui na região, na Fercal, não tem mulher que toca viola. Eu mesma, o meu pai me deu uma viola de presente, agora eu vou entrar na aula. Pra nós mulheres aprendermos a tocar a viola, pular a catira e mostrar que não é só homem. Porque é acostumado comitiva de homem, catira de homem, muito pro lado machista, e a gente tá querendo mostrar o nosso lado mulher, que a gente pode ser capaz de ter um grupo de catira, de tocar, de pôr a mão na massa e ralar mesmo. E mostrar que a gente pode levar pro pessoal a nossa cultura e mostrar que mulher também, se deixar nós doma.

  A gente vai construir a nossa história com o tempo, e cada vez, cada página, cada começo vai ser uma coisa diferente. Esse é o nosso objetivo: fazer que cresça, mas não perder o meio que começou, que é. A gente quer evoluir, porém manter o jeito que era antigamente, é isso aí.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+