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História

A gente tem sonho

História de: Sebastião Rosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Sebastião Rosa é mineiro de Monte Carmelo, nasceu no dia nove de março de 1953. Trabalha desde os sete anos, e já teve muitas experiências profissionais. Foi em busca de esperança de uma vida melhor em Brasília no final da década de 70 já casado com Antônia e com um filho. Tião disse que o sonho de quem estuda pouco não vai muito longe, mas ele se tornou uma liderança respeitável no bairro do Fercal.

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História completa

Nasci no dia 9 de março de 1953 na cidade de Monte Carmelo, Minas Gerais. Eu nasci na beira do Rio Paranaíba, quase divisa de Minas com Goiás. A gente estudava num rancho de palha de coco, era distância de dois quilômetros da residência. Tinha que subir uma serra, inclusive passando nas invernadas, onde tinha muito gado bravoIa de manhã; passava na roça, trabalhava um bocado. Quando dava o horário da escola, ia pra escola, estudava até certas horas, que é lá pelas três da tarde, aí passava, voltava pra roça de novo pra depois voltar pra casa. Chegava em casa à noite. A gente ainda tirava um tempinho, que toda a vida criança tira um tempo e brinca, né? Eram umas brincadeiras que a gente fazia com sabugo de milho, brincadeira de chutar bola com lobeira, pescaria no Rio Paranaíba. 

 

  Não existia um chuveiro, não tinha um fogão a gás, então, dava certa hora, apagava as lamparinas e dormia. Nós somos doze irmãos, eu estou na sétima posição. Eu comecei a trabalhar com 7 anos de idade. A gente pegava coco de babaçu a semana toda e no final de semana a gente quebrava pra vender a castanha pra manter a compra de casa, que era o açúcar, era querosene, essas coisas que a gente precisava em casa. Eu tinha um sonho de ser alguém na vida, de estudar, mas como não morava na cidade, era complicado, tinha vez que passava três meses sem ter professora. Às vezes ficava seis meses estudando na cidade e voltava pra roça. Estudei pouco. E o sonho de quem estuda pouco não vai muito longe, não.


  Eu vivi com meus pais até os 11 anos de idade, quando a minha mãe faleceu. Passou dois anos e meu pai faleceu, então eu perdi os dois e fui morar na casa de um irmão. No começo da minha vida para o trabalho, eu não conseguia sozinho ganhar o dia de um adulto, por exemplo. O dia do homem tinha que ser eu e meu irmão trabalhando. Eu morei na faixa de seis anos com esse meu irmão, até inteirar 16 anos, e daí fui caçar meu destino. Fui trabalhar em Três Marias, na barragem, construir casa pra Cemig.


  Um dia eu falei: “Eu vou embora pra minha cidade, não vou ficar mais em Três Marias”... Eram nove horas da noite, peguei um ônibus, cheguei em Paracatu. Fui no guichê da rodoviária e perguntei qual o ônibus que saía primeiro, se era de Monte Carmelo, se era pra Unaí, ele falou: “Sai o de Unaí primeiro, seis horas da manhã”. “Então é nesse que eu vou.” Em vez de ter ido pra minha cidade, eu vim pra Unaí. Quando cheguei, eu desci numa rodovia, estrada de chão, uns seis quilômetros até onde eu ia. Já era de noite, fui descendo. Cheguei na beira do Rio Preto e lá tinha umas canoas. Só que era um dia de festa e os canoeiros estavam tudo do lado da festa; eu cheguei do lado oposto. Ninguém me atendeu pra me passar na canoa, lugar cheio de mato – nadei e atravessei o rio, à noite.


  Por coincidência, cheguei numa festa, lá está ela, minha esposa, que é a Antônia. Ela estava com a aliançona no dedo, noiva. Tinha uma colega minha, a gente conversando, ela falou: “A Antônia vai casar daqui a 30 dias”. Eu falei: “Não, quem vai casar com a Antônia vai ser eu”. O noivo dela não estava lá por perto, tinha viajado. Nós dois fomos dançar e aí comecei a conversar com ela. Eu brinquei: “Se você jogar essa aliança fora, eu vou pôr aliança no seu dedo com o meu nome”. E assim aconteceu. Namoramos três meses, noivamos e casamos. A gente vive há 37 anos, graças a Deus. Então pra mim deu certinho, é aquela história: viver sem ela é complicado e eu tenho certeza que pra ela também é. Viramos dois assim que um depende do outro, não tem como.


  A gente casou no dia 7 de setembro de 1977. Aí fiquei um ano lá em Unaí, perto dos pais dela, e depois viemos aqui pra Fercal, pra trabalhar na Grupi Materiais de Construção. Da Grupi veio o chamado pra trabalhar na Votorantim. Eu comecei a trabalhar de servente mesmo, era faxineiro do laboratório. Foi aí que começou a fluir alguma coisa melhor. Toda vida meu serviço foi esse, é serviço bruto, mas começou a melhorar em termo de emprego. Na Votorantim, a chefe do laboratório era a Marília. Estava tendo umas vagas, uma vaga melhor do que faxineiro, que era de analista físico, então eu perguntei pra ela se ela não podia me colocar numa vaga daquela. Ela falou: “Vou fazer uma experiência com você: se você passar, você vai ser classificado. Se não passar, aí tem o caminho da rua”. Fiz o teste; todo mundo calado. Passou uma semana, ela me classificou no laboratório como Analista Físico II. Daí, fui subindo.


  O meu sonho era de ver a Fercal uma cidade muito boa pra se morar, uma cidade onde não existe violência, uma cidade bem arrumadinha, que a Fercal tem tudo pra ser isso. Aqui, como é uma zona rural, é local de mata, local de morro, de montanhas, que podia ter um turismo. Quando eu mudei para aqui, não tinha água encanada, não tinha energia, as ruas não eram asfaltadas e até era muito difícil. Hoje nós estamos vivendo bem, em vista do que era. Eu lembro quando a Caesb mandou furar esse poço aqui na comunidade, lembro da gente pegar caminhão e ir em outra cidade que estava mudando as redes, arrancar aqueles canos do chão pra fazer rede aqui na Fercal, que até hoje ainda tem deles aí no chão. E a gente pegava as ferramentas, ia cavar, fazer vala, botar os canos dentro e a Caesb chegava e ia ligando a água pro pessoal.


  Eu era louco pra ver isso funcionando pra todo mundo!


  A energia? A gente andava isso aqui, era mato e não tinha nem uma lâmpada aqui pra dizer. Essa rodovia, não tinha. Era lamparina que a gente usava, vela. Aqui O Mundo das Tintas tinha um transformador de energia na época, mas era só da empresa. Dessa empresa passou a fornecer a quase todos os moradores. No final da história ninguém tinha energia, porque distribuiu com tanta gente que a energia não dava pra fornecer, era fraca, acabava. Nós saímos várias vezes dentro do mato à noite emendando fio que a chuva, o vento, tinha derrubado; não tinha rede, não tinha nada, era passado na gambiarra. Então hoje melhorou, evoluiu muito.


Tem jeito de melhorar? Eu tenho certeza que tem: melhoramento na cidade, reformar uma pracinha, bem feitinha, gramado, toda iluminadinha, é muito importante. Que na minha cidade eu fui zelador de uma fonte luminosa, onde tinha animais, tinha jacaré, tinha seriema, tinha saracura, tinha peixes. Então à noite tinha uma praça, enchia de gente. E eu ficava lá, tratando os animais. Era lindo aquilo ali! Tinha um viadutozinho que passava por cima da água, o pessoal passava, andava em volta nas calçadas. Então dava pra se divertir, era uma maravilha, você ia pra lá de dia de domingo, sábado, passear na praça. Isso eu tinha vontade ver na Fercal.

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