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História

"A gente tem raízes"

História de: Custódia Samos Marcondes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/06/2001

Sinopse

Custódia Samos Marcondes nasceu no Marrocos, ainda quando o país era protetorado espanhol. De família originalmente espanhola, precisou passar parte da infância transitando entre a casa da mãe, no Marrocos, e a casa dos avós, na Espanha. A família veio para o Brasil quando Custódia era ainda pequena, em busca de uma vida melhor, e instalou-se por um tempo em um cortiço na região do Brás. Ao longo de sua vida, morou em sete bairros da cidade de São Paulo. Sua história traz cenas do cotidiano de uma família imigrante, da gastronomia espanhola, do contato com outras culturas, das perdas de parentes próximos e também de episódios divertidíssimos, como as peripécias dos amigos no dia de seu casamento. 

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História completa

P1: Bom dona Custódia, por favor pra gente começar eu queria que a senhora dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.
R- Meu nome é Custódia Samos Marcondes, eu nasci em Marrocos, mas, é considerado... é considerado espanhola porque quando eu nasci em Marrocos, Marrocos metade era espanhol, protetorado espanhol, e metade era protetorado francês. Então eu sou uma cidadã espanhola, porém nasci em Marrocos.
P1 – Certo. E a data de nascimento?
R – 25 de abril de 1948.
P1 – Em que local especificamente de Marrocos você nasceu? 
R – Tétouan é a cidade.
P1 – Certo. (pausa). E quê que seus pais, é enfim, estavam nesta conjuntura fazendo lá?
R – Meus pais são.., minha mãe é argentina e meu pai espanhol, e eles moravam na mesma cidade. Uma cidade chamada Lanjaron [Espanha, província de Granada], e se conheceram, e casaram-se e foram para Marrocos. E existe uma curiosidade: meu pai também pertenceu à Legião Estrangeira, não sei se você já ouviu falar. É uma união, são soldados de toda e qualquer nacionalidade e que fazem parte... é uma legião estrangeira. Não sei se hoje ainda existe. E eles foram pra lá, fazer uma nova vida e eu nasci lá. 
P1 – Eles já foram casados?
R – Já foram casados...
P1 – E conta um pouquinho a história do seu pai e da sua mãe... A sua mãe, você disse, que nasceu na Argentina, mas nessa época estava na Espanha...
R- Isto. O meu avô e minha avó vieram para a Argentina para trabalhar, para ganhar dinheiro, com a intenção de retornar e aplicar este dinheiro, como se faz hoje em dia. E foi assim que eles fizeram... passaram algum tempo na Argentina, trabalharam e o casal... e nessa ocasião minha mãe nasceu, e depois eles retornaram para a Espanha. No fundo todos nós temos o sangue espanhol, apenas minha mãe nasceu na Argentina porque meus avós estavam lá, como eu também nasci em Marrocos porque meu pai e minha mãe também estavam lá. Mas todos nós, a nossa procedência toda é espanhola. 
P1 – E você conheceu seus avós maternos?
R- Conheci, a minha avó e meu avô. Eles vieram aqui para o Brasil, faleceram aqui. A família do meu pai é que eu tive pouco contato, porque o meu pai faleceu muito cedo. Ele tinha vinte e cinco anos, adquiriu uma doença grave e veio a falecer. Ele não veio pra cá. Mas aí então, a minha mãe morava em Marrocos, e eu ficava com meus avós nas temporadas. Eu passava uns meses com meus avós na Espanha e outro tempo em Marrocos com a minha mãe. Era próximo porque era... tem o Estreito de Gibraltar. Então era uma noite de navio, de barco, não muito veloz não, naquela época. E era uma noite a travessia. Então eu passava uma temporada aqui outra lá até que nós viemos para o Brasil. Porque a família da minha avó, a grande maioria já estava aqui, e chamaram, por carta, que era o costume na época. E aí vim eu, a minha avó, meu tio, minha tia, que eram solteiros, eram jovens, e a mamãe ficou com meu avô e meu irmão, eu tenho um irmão, que também nasceu em Marrocos, e eles ficaram lá os três porque havia propriedades. E aí eles ficaram mais dois anos. Eles ficaram lá, até que venderam tudo e vieram pro Brasil, então a mamãe veio dois anos depois. Viemos no navio que chamava "Cabo Giorno" e que a minha tia tava me dizendo inclusive, eu perguntei pra ela, disse que esse navio já desmontaram ele, acredito que sim, uns cinquenta anos atrás. E nós viemos todos e fomos morar na rua Visconde de Parnaíba...
P1 – Vou só te cortar um pouquinho, porque eu tenho uma série de questões da sua infância que eu queria que você contasse também. É... então você teve bastante contato com seus avós maternos. Eu queria que você falasse os nomes deles, por favor.
R – A minha avó chamava Maria Orantes Puerta e meu avô chamava Antônio Samos Orantes.
P2 – Hã, hã...E descreve para nós como era a casa de seus avós.
R – A casa que eles moravam e que eu passei lá muito tempo com eles, era uma casa que ele mesmo construiu, era toda... a fachada toda era de pedras e ela tinha três andares. E a parte de baixo é como se fosse um sótão, era aberto onde eles tinham a criação de porcos, galinhas. Então, na verdade, era um escada grande e lateral, e aí tinha a sala muito grande. Eu lembro que eles tinham duas cozinhas com fogões e lareiras de pedra. Enfim, lá morava minha avó, meu avô e minha tia e meu tio. A mamãe morava em Marrocos. E a parte de cima, como eu contei, não era telhado, era aberto, onde a minha avó estendia a roupa. E eu lembro na infância, muito pequena assim, que no inverno, enchia de neve. E nós fazíamos brincadeiras de bola de neve de uma casa para a outra, e tinha muitas crianças, porque atrás, no fundo desse sobradão, dessa casa, era um grupo de ciganos que moravam lá. Não em tendas, em casas mesmo. Era como se fosse o bairro deles. E eu digo deles porque era meio separado. Eles não se misturavam, eles viviam entre eles. E havia uma certa rivalidade. Então a gente fazia guerra de neve, de bolas de neve, e era isso. A vovó, quando via as galinhas cantarem, descia correndo, pra pegar os ovos, antes que as galinhas bicassem os ovos. E tinha os porcos também, e era de lá, dessa criação, é que eles se alimentavam, supriam a casa. Matavam os porcos, as galinhas, os ovos... E no sítio também, eles tinham um sítio onde eles plantavam, tinha milho, tinha frutas e tinha também uma criação de coelhos. Então eu lembro muito bem, de eu ir pra esse sítio, que não era longe, era próximo de eu ir com meu avô, e tinha um burrinho, e nesse burrinho ele carregava as coisas, principalmente do sítio para a casa, para abastecer. E parte também eles vendiam, é uma maneira também de ganhar algum dinheiro. E meu avô também era pedreiro, então ele fazia casas. Então esse era o trabalho dele, assim, que sustentava a família. Era pedreiro, era construtor, e também parte das plantações eles vendiam. E esse era o sustento da família. Então foram essas propriedades, que depois eles ficaram para trás...
P1 – Para vender?
R - ...para vender. 
P1 – E a sua casa em Marrocos, você lembra?
R – Lembro. A mamãe quando ficou...Eu não lembro exatamente da casa onde nós morávamos com meu pai. A minha lembrança, porque eu era muito pequena, a minha lembrança já é quando a mamãe já era viúva. E a casa era pequena, era na frente de um parque, assim, tinha uns macacos em jaulas, mas era um parque aberto, não era fechado, não era um zoológico. O pessoal passeava, tinha bancos para sentar. Enfim, eu lembro um pouco disso e também lembro assim de histórias que a mamãe contava, que eu me perdia muitas vezes nas ruas de Marrocos, porque era muita gente e eu ia atrás do pessoal, eles faziam muitas feiras, era muita gente nas ruas. E eles usavam aquelas roupas longas, aquelas batinas, aquelas batas. Era fácil de se perder crianças por lá e eles gostam muito de crianças, eles pegavam para adotar mesmo as crianças. Não que eles roubassem, mas uma criança que estava perdida, eles adotavam em família. E então a mamãe tinha muito medo. Eu tenho essa lembrança, assim, vaga, de eu andando pelas ruas, solta no meio do pessoal, lá tem muitas feiras, sabe, o pessoal põem as coisas no chão pra vender. Então eu tenho essas lembranças ainda.
P1 – E qual que era a atividade de seus pais lá?
R – O meu pai era carpinteiro. Tanto a família do meu pai quanto do meu avô da minha mãe. Eles eram pedreiros, e depois, se tornaram construtores. A família do meu pai mora em Barcelona até hoje. E eles são construtores até hoje, prédios, casas, enfim, e o papai era carpinteiro. E a mamãe costurava, mas ela estudou, digamos assim, não era uma escola de formação técnica, nada disso, mas ela frequentava uma escola de irmãs, de freiras, que tinha lá na Espanha. Então ensinavam naquela época de tudo: a costurar, a bordar. Uma perfeita mulher. E foi onde a mamãe aprendeu a costurar e muito bem, que foi o sustento depois. Foi costurando que ela nos sustentou e que nós estudamos, e enfim... ela nos criou dessa maneira.
P1 – Você disse que seu pai faleceu quando você tinha quantos anos?
R – Três anos.
P1 – Três anos?
R – Três anos. Muito cedo.
P1 – Super novinha!
R – É, ele ficou muito doente.
P1 – É, teve uma doença?
R – Teve câncer no fígado. E aí, principalmente... Hoje em dia é difícil, naquela época praticamente impossível. Então ele faleceu muito cedo.
P1 – E aí, ela saiu de lá definitivamente?
R – Não. O papai... ela cuidou dele o quanto pôde, aí teve um momento que não era mais possível. Então ele retornou para a Espanha, ficou com a família, praticamente no hospital. E a mamãe continuou em Marrocos. Por isso que eu ia e voltava da Espanha pra Marrocos. Ela continuou lá. 
P1 – E como que era isso pra você? Viver em trânsito? Ter duas casas? A avó como segunda mãe, enfim.
R – Eu era muito pequena e isso tudo era muito divertido. E como ainda eu não frequentava a escola, eu não tinha compromisso algum, então pra mim era divertido. Pra cá e pra lá. Enquanto com a mamãe, matava as saudades, era a minha mãe, eu sentia falta. E com meus avós era tudo diferente. Eram vidas diferentes. Enquanto na Espanha, eu, como eram meus avós, meus tios, eu era muito paparicada, tinha tudo que eles podiam me dar. E tinha a novidade de ir pro sítio, de lidar, sabe, com animais, e era muito diferente. Já em Marrocos não, mamãe já morava na cidade mesmo e eu não tinha muito assim, lazer, brincadeiras, tal, porque na rua ela não queria que eu ficasse, que era perigoso. Então, o máximo que eu ia era nesse parquinho, que era em frente, era um parque, de bancos, tal, mas não tinha muita coisa. Então na Espanha realmente eu... onde eu mais brincava, onde eu tinha mais atenção inclusive. Porque ela tinha que trabalhar.
P1 – E essas brincadeiras eram...           
R – Ah!, sim. Brincadeiras... boneca. Eu estava contando que eu lembro que quando a minha avó matava os porcos, ela colocava eles, assim, no batente das portas? Não tinha porta, era só o batente. E ele era pendurado. Amarrava as quatro patas, e lá eles pegavam o sangue todo que era pra fazer a “morcilla”, que todos os espanhóis gostam. E retiravam a bexiga do porco, que era muito bem lavada, e dada pra mim, pra eu brincar, era uma bexiga que saía voando, que eu assoprava, enchia, enfim. Eram brincadeiras desse tipo. Lembro muito bem que eu gostava muito na época da colheita do milho, que a família toda participava. Nós tínhamos uma casa, no sítio, e todo mundo dormia no sítio, embora não fosse longe, mas porque no dia seguinte continuava. Então, na época das colheitas, era muito divertido pra mim. E colher milho, enfim. 
P1 – Você tinha um irmão?
R – Tinha. Mas ele sempre ficou com a mamãe. Ele é menor. Ele era menor, era muito pequeno, então ela não dava conta de cuidar dos dois. Então ela ficava com ele pequeno, aí quando a saudade apertava eu ia lá, ficava lá uma temporada, minha tia me acompanhava, pra ajudar a cuidar dos dois. E aí  foi assim até os seis anos.
P1 – E vocês iam pra esse sítio como? 
R – A pé!
P1- A pé?
R – A pé, não era longe. Quer dizer, não é como você ir daqui três, quatro quadras, acredito eu, não tenho ideia, talvez fosse uma caminhada de uma hora, duas horas, e tinha o burrinho que levava a carga. Nós íamos a pé e voltávamos a pé. Íamos quando clareava o dia, muito cedo, e voltávamos também, quando ia se pôr o sol.
P1 – Na época da colheita do milho, tinha festa? Pra...
R - Não, não, porque era só a família. Mas, digamos assim, era muito alegre essa época. E também na colheita das frutas, também, era uma época alegre. Não era festa, mas era alegre, era muito bom.    
P1 – Ah, tá certo.
P2 – Agora, como é que é, tinham que decidir o vir para o Brasil. Como foi que essa decisão criou corpo na família?
R – Porque a família da minha avó, os irmãos dela, já estavam aqui uma boa parte dos irmãos da minha avó estavam aqui. E a vovó tinha minha tia e meu tio, que eram jovens, não eram casados e nem namoravam naquela época. Meu tio tinha dezessete anos, e a minha tia devia ter uns vinte, por aí, e a vovó almejava uma situação melhor pra eles, um futuro melhor. Ela achava que se ela continuasse lá, eles iriam continuar naquela vida que eles levavam, do sítio, da cidadezinha pequena. É uma cidadezinha de águas, então não havia muitas possibilidades. E ela achou que vindo pra cá... E os irmãos dela escreviam, descrevendo aqui, o país, as maravilhas, e como era, porque naquela época, eu lembro, não tinha água dentro de casa lá na Espanha, e aqui as irmãs dela escreviam dizendo que tinha água encanada dentro de casa, e isso pra ela era deslumbrante, a ideia. (risos)
P1 – E a cidade lá era pequenininha? 
R – Pequena. Era uma cidade pequena, de turismo, de águas. Vivia mais do turismo mesmo. Então ela viu essa possibilidade do meu tio e da minha tia terem um futuro melhor. E como já estavam todos aqui, quando escreveram chamando ela não pensou duas vezes não. Ela reuniu as coisinhas dela e viemos. E aí eu vim com a minha avó, essa minha tia Maria e meu tio José.
P2 – Não o seu avô?
R – Não o meu avô. O meu avô ficou lá na casa e aí a mamãe foi de Marrocos com meu irmão. Foi lá pra Espanha. E foi ela então que pôs a venda, que tratou dos negócios, tanto do sítio como da casa, e uma vez concretizado, isso levou dois anos. Aí vieram também pra cá. 
P1 – Vocês têm uma formação religiosa, assim, na sua família? Seus avós, você aprendeu isso com eles?
R – Católicos. Todos.
P1 – Eles eram muito religiosos?
R – Não muito.
P1 – É?
R – Não muito. Meu avô ele era aquele espanhol, assim, que “hay gobierno soi contra”.  
P1 – É?
R – O meu avô, eu não lembro deles me levarem e me darem, assim, de frequentarem uma igreja, tal. Eu lembro muito das procissões. 
P1- Como é que era?
R – As procissões na Espanha, há muitos santos, cada dia tem um santo. E há, e eu lembro disso, a cidade inteira ia atrás da procissão.
P1 – Você botava uma roupa especial, pra ir?
R – Era roupa de Domingo. E então eu lembro disso, muita procissão. Mas igreja mesmo, de eu frequentar igreja? Não, não me recordo. 
P2 – Tinha alguma comida especial para o dia dos santos? Tinha um almoço especial?
R – Ah, sempre tem. Eles faziam sempre muitas roscas. Eu lembro no dia de São Marcos, que é, se não me engano... é isso, é o dia do meu aniversário. E eles fazem muitas roscas e colocam no pescoço do santo, sabe, enfiam no santo, nos braços, nas mãos, é... no pescoço. E assim, as comidas tradicionais espanholas.
P2 – Agora, a rosca tinha algum significado? Por quê que enfiava a rosca?
R – Deveria de ter. Isso eu desconheço. Como eu vim muito pequena, a lembrança das coisas que eu tenho, assim, é tudo assim de uma criança de seis anos. Então dispersou muito, chegando aqui no Brasil, porque como a família já estava aqui há alguns anos, eles já falavam o português. Embora misturado, tal, mas então, enquanto a vovó estava viva, estava conosco, se falava ainda castelhano dentro de casa. Aí, depois que ela faleceu, eu tinha uns onze anos, isso acabou, sabe, dispersou. E aí passou a se falar mesmo o português. Um português misturado, castelhano e português, mas enfim, foi perdendo. E eu principalmente, como eu vim muito pequena, com seis anos, e fui me alfabetizar aqui no Brasil, isso foi fundamental pra eu perder o sotaque. E criança perde muito fácil. A minha tia e o meu tio, que vieram jovens, meu tio que veio adolescente, você nota na maneira que eles falam, que eles são espanhóis, você percebe, eles têm sotaque, embora estejam muitos anos, mas eu não.        
P1 – Lá na Espanha, você não chegou a ir pra nenhuma escola?
R – Cheguei, mas não para ser alfabetizada. 
P1 – Um pré?
R – Um pré, um jardim, alguma coisa assim, nesse sentido. Eu lembro, tinha uns bancos, era sala grande, e lembro só do lanche que eu levava, a minha merenda. Que a minha avó colocava, que era pão caseiro com chocolate. Com barras de chocolate. Eu lembro que esse era o meu lanche.
P2 – E, conta pra gente o que é a “morcilla”. A senhora falou da “morcilla”. Eu não sei, o que é? 
R – A linguiça. É a “morcilla”, ela é feita em gomos, é o sangue do porco, temperado com cebola, com temperos, essas coisas que eu lembro, assim. O sabor... embora eu encontre, compre até hoje, mas não é o mesmo sabor, não da mesma maneira como era antigamente, como era na Espanha e como era quando nós chegamos, que nós fomos morar na Visconde de Parnaíba, lá no Brás, que era toda uma colônia que morava lá.
P2 – De espanhóis?
R – Espanhóis. E lógico que eles faziam essas coisas. Nós comprávamos uns dos outros, uns faziam mantecal, outros faziam “morcilla”, outros faziam chouriço, enfim, todas as coisas que eles estavam habituados, que a gente tava habituado a comer na Espanha. E então, enquanto nós moramos na Visconde de Parnaíba, que a colônia espanhola estava lá, nós ainda comíamos essas coisas todas. Aí, uma vez que nós saímos de lá, aí acabou.
P2 – Quanto tempo a senhora morou lá na Visconde de Parnaíba? Foi o primeiro lugar que a senhora morou no Brasil?
R – Foi, foi o primeiro lugar. Provavelmente uns três, quatro anos. 
P2 – E qual que é a sua impressão mais forte desse lugar, da sua chegada no Brasil?
R - Desse lugar? 
P2 – Não. Da sua chegada no Brasil.
R – Da minha chegada. 
P2 – E depois desse lugar.
R – Esse lugar foi importante porque... Eu cheguei, já fui matriculada na escola, e encontrei muita dificuldade pra falar a língua. Eu lembro que a criançada ria muito de mim quando eu falava, porque eu só falava castelhano. E tem uma coisa interessante: quando nós chegamos no Brasil, que nós fomos morar na Visconde de Parnaíba, nós fomos morar num...como é que chama? 
P2 – Num cortiço?
R – Num cortiço. Que era comum naquela época, um cortiço. E a grande maioria era espanhol que morava lá, mas havia também italianos. A dona desse cortiço era italiana, uma senhora, ela e o marido. E eu lembro assim, que tinha uma padaria na frente, que pertencia também a esse casal. E o cortiço, a fachada dele, assim, na frente, era um portão de madeira grande de duas folhas, e era uma rua de paralelepípedo. Até por ser um cortiço, era grande, a rua, e o cortiço era comprido. E eles construíram assim: os dormitórios eram de um lado e a cozinha era do outro, ficava em frente. Então cada dormitório tinha a cozinha respectiva assim, em frente uma da outra. O dormitório em frente à cozinha. 
P1 – Mas uma cozinha pra todos os dormitórios...     R – Não...
P1 – Ah! Várias cozinhas...
R – Exato! Então cada dormitório, eram dormitórios grandes, abrigava uma família. Então esse dormitório era o quarto, era a sala, era tudo. Eram divididos, assim, com cortinas, colocadas, assim, pra dividir, e tinha a cozinha, em frente aos quartos. E lá tinha muitas famílias espanholas. E em frente a esse cortiço tinha uma fábrica de bala, de um italiano, do seu  Ângelo. E o seu  Ângelo usava a mão-de-obra de todas as crianças de lá. Então eu cheguei, e logo que eu cheguei... E foi assim, uma mudança total. Eu fui matriculada na escola, então eu estudava na Rangel Pestana, que o grupo escolar ainda existe lá.
P1 – Romão Puiggari?
R – Romão Puiggari, que era em frente à igreja do Brás. E eu, pra ir para a escola, eu pegava um bonde, dos dois lados. Tinha saída dos dois lados. E eu lembro que a criançada fazia isso: nós subíamos, quando o cobrador vinha de um lado, nós passávamos pro outro. Até ele dar a volta do outro lado, nós passávamos pro outro. E quando chegava ali na esquina, onde chegava ali na Rangel Pestana, porque subia toda a rua Piratininga, quando nós chegávamos lá em cima, nós descíamos e não pagávamos. E eu estudava de manhã, lá nesse colégio, e voltava, almoçava, me trocava, e ia para fábrica de balas. Embrulhar balas...
P2 – Seis anos de idade?
R – Com seis, sete anos de idade. E...
P1 – E ganhava…
R – E ganhava dinheiro. E toda a criançada da rua ia lá embrulhar bala, na fábrica do seu Ângelo...
P1 – E comer uma balinha, não dava? (risos)
R – Dava. Ele deixava. Mas era, assim...
P1 – Imagina, criança embrulhando bala.
R - É impossível. E ele deixava à vontade. Só que não as balas inteiras, as que quebravam. E quebravam bastante. Pra nós tinha até monte...
P2 – Até monte!(risos)
R – Até monte! À escolher. E nós chupávamos bala o dia inteiro, de sair com a boca até grudada, de tanto chupar bala. 
P1 – Só para complementar um dado, a senhora tava contando dos cortiços, que tinha os quartos que abrigavam as famílias e a cozinha em frente. E o banheiro, era coletivo?
R – Você sabe, eu não tenho lembrança do banheiro, mas devia ser coletivo. Acredito que não fosse só um, porque eram muitas famílias, mas eu penso que devia ser coletivo, sim. 
P1 – E a lavanderia também?
R – Ah, sim, o quintal era.
P1 – Tudo...
R – Tudo.
P1 – ...de todo mundo.
R – De todo mundo. Tinha os varais de arame e colocadas aquelas... aqueles paus compridos, aquelas varas, acho que de cana, e todo mundo estendia a roupa lá, no mesmo quintal. E se respeitavam aquelas que não trabalhavam. Talvez... é, lavassem a roupa durante a semana, aqueles que trabalhavam. Mamãe que trabalhava, costurava, saía fora a semana inteira, ela lavava a roupa de sábado, de domingo. Então devia ter algum acordo lá. Mas era, como é que eu posso dizer ...(pausa) era um cortiço, mas era, assim, algo muito familiar, muito gostoso. Não tinha bagunça, não tinha problemas. E precisavam uns dos outros. Era algo assim, que um precisava do outro.
P1 – Não tinha briga entre espanhol e italiano? 
R – Não, não.
P1 – Era todo mundo unido?
R – É, era uma coisa muito boa. Eu lembro de um senhor italiano, que ele era pintor, ele fazia quadros, eu admirava, lindíssimos. Ele fazia telas lindíssimas. E ele pintava, assim, as casinhas, a rotina lá, lá de dentro, sabe? Das crianças brincando, do varal com as roupas penduradas. E ele vivia disso, ele pintava telas, quadros lindíssimos.
P1 – E vendia.
R – E vendia. E era muito harmonioso, era muito gostoso. Eu lembro a criançada, todo mundo se dava com todo mundo. É algo assim: você vem pra um país, que são costume e língua diferentes, tá? Então você se apoia um no outro, você precisa de um, de outro, até você saber, conhecer, aprender. Eu lembro da minha avó, da dificuldade dela, pra ir comprar, fazer compras em uma feira, para comprar ovos. Ela não sabia pedir ovos. Ela falava “huevos” e ninguém entendia, era uma dificuldade muito grande. Então, essa união eu acredito que seja por aí, essa união das famílias. É uma questão de sobrevivência. (risos)
P1 – Vocês moraram muito tempo no Brás?
R – Moramos. Nós moramos nessa Visconde de Parnaíba, depois a mamãe chegou, morou lá com meu avô também. Moramos algum tempo, logo em seguida eles compraram uma casa com o dinheiro que eles trouxeram, na venda das propriedades, lá. Porém, muito mal administrado, sem orientação, compraram uma casa que, naquela época, era um lugar muito longe, em São João Clímaco. Não havia transporte, não havia uma infra-estrutura, foi muito difícil. Não se acostumaram, não teve jeito e venderam a casa.
P1 – Mas você tava com quantos anos nessa época, mais ou menos?
R – Olha, eu deveria de ter uns nove, dez anos. 
P1 – Ah, foi logo na sequência então.
R – Isto. E aí não deu certo, pra morar lá. E como a mamãe costurava, ela vinha costurar em casa de famílias, no Centro, ela costurava pra famílias alemãs, italianas, no Jardins. Então pra mamãe voltar pra lá naquela época, quarenta e poucos anos atrás, era praticamente impossível, aí ela dormia na casa de tios, de uns tios que tínhamos lá, na Visconde de Parnaíba. E ela vinha pra casa só no fim de semana, no sábado e domingo, e eu e meu irmão ficávamos com a minha avó e meu avô. Mas era impraticável naquela época, continuar morando lá, e aí resolveram vender. Venderam e, ainda assim, muito mal orientados, sem conhecimento nenhum, e acabaram perdendo tudo, porque as pessoas que compraram, é...
P1 – Deram um golpe?
R – É, não pagaram. E não tinham iniciativa, não conheciam ninguém, enfim, perderam tudo. E não era só a casa, era uma casa grande, era também o terreno, era bem grande. E, acabaram perdendo tudo. E aí de São João Clímaco, quando eles voltaram, nós fomos morar na rua Mendes Sá, é, também é, Mendes Sá é Mooca, é uma travessa da Radial Leste, quase Parque Dom Pedro. E aí, depois, nós ficamos nessa casa, até... (pausa) A minha avó faleceu, a minha tia casou, meu tio estava prestes a se casar também, então, aí, nós mudamos para a rua Wandenkolk, que é também uma travessa da Radial Leste, só que do outro lado, e para uma casa menor. Porque já as outras pessoas da família, a vovó já tinha falecido, enfim. Então tudo isso é nessa região, tá, Visconde de Parnaíba... Tirando esses poucos meses que ficamos mais no São João Clímaco, voltamos pra Mendes Sá e depois pra Wandenkolk, que é tudo lá no Brás. E da Wandenkolk nós saímos, porque houve uma grande enchente, eu tinha por volta de uns treze, quatorze anos, e houve uma chuva muito forte, de dois dias, e encheu. E era um lugar que enchia de água, Tamanduateí...
P1 – Ah! Era o Tamanduateí? Não era o Tietê?
R – Não, era o Tamanduateí, e encheu. E, nossa, muitas casas ficaram alagadas, ficamos três dias presos dentro dessa casa, sem poder sair, porque a enchente foi muito grande. As grades das janelas da casa... as janelas tinham grades, então nós não podíamos sair pela janela, e não podíamos abrir a porta e sair. Mesmo os bombeiros, os bombeiros iam com o barquinho, levavam café da manhã, pão fresco pra nós. Nós não podíamos abrir as portas, porque se não a casa seria invadida pelas águas, e tinha risco de vida, então ficamos três dias e três noite lá. E eu lembro que eu e meu irmão... dormindo em cima do guarda-roupa...
P1 – Nossa!
R - ...Encheu, perdemos tudo, tudo, e a mamãe ficava em cima do muro do quintal e nós em cima do guarda-roupa. E aí quando parou de chover, no terceiro dia, esperamos a água... quando tinha, que os bombeiros deixaram abrir a porta. Nós saímos ainda, a mamãe carregando a gente, a água na cintura dela. E aí saímos de lá pra nunca mais voltar, fomos morar na rua Augusta, que é subida, que não tinha como inundar.
P1 – Mas essa sua formação toda, escolar, foi então no Romão Puiggari? Porque tava sempre no Brás ou você, por conta dessas mudanças, foi mudando de escola também?
R – Mudei de escola. É, quando nós fomos pra São João Clímaco, lá eu não frequentei escola. Mas quando nós retornamos, isso foram poucos meses, quando nós voltamos, tem um grupo escolar lá no início da rua da Mooca, que eu estudei lá. Eu me transferi e foi lá que eu terminei o primário. Que naquela época era o primário, depois é o ginásio, e foi nessa escola, nessa lá da Mooca, que nesse grupo eu terminei o primário, lá. E depois estudei também, eu fiz, na época tinha, assim, o ginásio, e tinha o comercial, que eles chamavam. E eu fiz o comercial na rua da Mooca, uma escola de esquina, Piratininga, chamava a escola, e eu terminei lá. Então seria o ginásio. Fiz a primeira comunhão na igreja lá da rua da Mooca, que é famosa pelas comidas, que... as festas que eles fazem lá. Fiz a primeira comunhão também lá. 
P1 – E os seus avós, trabalhavam, ajudavam, enfim, enquanto eles estavam vivos? Ou ficavam mais...
R – Não, não. A vovó cuidava da casa, de mim, do meu irmão e dos meus tios, tal. E meu tio trabalhava, minha tia trabalhava, e minha mãe. Meu avô não. 
P2 – Quê que o seu tio fazia, os seus tios faziam? No quê que eles trabalhavam?
R – É... meu tio eu não lembro direito. Logo que nós chegamos da Espanha, meu tio foi trabalhar numa fábrica... Ah! Sim. Meu tio foi trabalhar na União, Açúcar União, ele trabalhava, operário, lá na fábrica União. Depois eu não me lembro mais, não me recordo mais qual era a profissão que ele foi trabalhar. Eu sei que já moço, tal, ele trabalhou sempre, como todo espanhol, com ferro velho. Sempre teve caminhão, provavelmente ele trabalhou uma época nessa fábrica União e logo em seguida ele deve ter se dedicado a isso.
P1 – Pelo ferro velho?
R – Ferro velho. E minha tia logo casou também, minha tia trabalhava lá perto, da Visconde de Parnaíba, tinha uma fábrica da Alpargatas. E a minha tia foi trabalhar nas máquinas, devia costurar, porque... não sei se vocês conhecem, eram sapatos de lona, e ela devia de costurar isso lá. Logo depois, ela casou e parou de trabalhar. E a mamãe era quem, realmente, praticamente sustentava a casa. Ela costurava muito bem, era costureira de alta costura, e ela trabalhava por dia, não trabalhava em oficinas de costura, ela trabalhava, assim, na casa de famílias ricas, alemãs, italianas, e ela ganhava, trabalhava por dia. Ela ganhava, eu lembro que era... Ganhava bem. E ela que sustentava praticamente a família toda. Não tive luxos na infância, mas nunca me faltou nada, sempre tive roupas boas e alimentação. Nós não tínhamos luxo, mas ela, o que ela trabalhava era o suficiente.
P1 – Custódia, e você, assim, nessa fase da infância e perto da adolescência, você teve bastante contato com seus avós. Como que era a disciplina, a forma de educar, eles eram muito rígidos?
R – Meu avô era muito rígido, meu avô era muito rígido. A minha avó já não, minha avó era carinhosa, eu tava sempre no colo dela, ela sempre fazia as minhas vontades, mas meu avô era muito rígido com todos, com a família toda. Eu lembro, assim, de histórias, nem tanto da mamãe, mas da minha tia, me contar que elas tinham horário pra chegar em casa, e se passasse um minutinho sequer, quando elas chegavam em casa elas já chegavam com medo. Ele era muito rígido, batia, batia mesmo, e muito duro, muito rígido. Sei, os costumes, a criação naquela época, o vovô passou pela guerra, então passaram... eles contam, a mamãe contava, minha tia conta, passaram muito aperto, eu não digo fome, fome mesmo, mas... Porque eles se viravam, tinham lá o sítio, tal, mas eles viviam se escondendo, não podiam ficar a céu aberto, era bombardeado, então eles se escondiam...
P1 – Mas com os netos, ele era mais ameno?
R – Mais ameno. Não, nunca pôs a mão em mim, e minha avó e meus tios não iriam permitir. Mas ele era muito rígido. A ordem dele devia ser obedecida. (risos) Era muito rígido. A minha avó não, assim, dizia ele que a minha avó me estragou: “Você estraga esta menina”. Realmente ela...
P1 – Sua avó continuou fazendo coisas da Espanha muito tempo, assim, ou...
R – A minha avó?
P1 – É. Sua avó, sua mãe?
R – É. A princípio sim. Logo que nós chegamos, nós todos continuamos com os mesmos hábitos, comidas, enfim, tivemos os mesmos costumes. Aos poucos foi modificando, porque um irmão da minha avó, ele era casado com uma italiana, ele se casou aqui, e ela fazia macarrão, porpeta, e então isso tudo foi introduzido. Então foi mudando e já não era mais apenas a comida espanhola, foram se adquirindo novos hábitos e também com a convivência com as famílias italianas, e passa receita daqui, de lá, enfim.
P1 – Então vocês foram bem influenciados pela tradição italiana, aqui no Brasil?
R – Fomos, fomos bastante.
P1 – Vocês frequentavam as festas italianas do Brás, da Mooca, Bexiga?
R – Naquela época não tinha as festas que têm hoje, tá, isso é mais recente. Mas a convivência era muito grande, de italianos e espanhóis. As colônias eram grandes lá, sabe, e depois, com o tempo é que foram mudando pra outras regiões. Mas nessa época eram italianos e espanhóis, e havia essa influência, até de língua, de você aprender a falar, de você usar palavras, espanhol falando alguma coisa de italiano.
P1 – Você lembra de alguma...
R – Não, eu não lembro, eu só lembro bem dessa influência, da minha família gostar muito de macarrão, com molho e queijo. Isso eles não comiam na Espanha, era uma comida que não... Até poderia ter uma casa ou outra, mas não era. Eu nunca... não lembro de nunca ter comido macarrão com molho de tomate, eu vim comer aqui no Brasil, e isso tudo foi mudando, embora ela continuasse fazendo os “pucheros”, as “paellas”, muita batata... Que espanhol gosta de batata, muita “fritada” e os embutidos, que faz parte da alimentação espanhola, e vinho também. Eu lembro que meu avô, o café da manhã, na mesa tinha vinho, nós tomávamos vinho na Espanha. Aqui não, no Brasil não, mas na Espanha fazia parte do café da manhã...
P1 – E as criança também davam uma bicadinha?
R – Não, não era bicadinha, bebia.
P1 – Ah é? (risos)
R – Bebia, é saudável. (risos) Nós bebíamos mesmo vinho no café da manhã.
P1 – Bom, e você disse que você foi pra rua Augusta, depois desta enchente.
R – Isto. Aí fui só eu, minha mãe e meu irmão. Aí meu tio se casou e meu avô ficou com a minha outra tia. Aí foi só eu, minha mãe e meu irmão.
P1 – Em que altura da rua Augusta vocês moravam?
R – Ah, no início, por volta lá... existe até hoje, uma doceira Pandoro.
P1 – Mas é de lá do Centro?
R – É, mais pro Centro.
P1 – Do que pro Jardins?
R – Sim, sim, bem mais aqui pra baixo.
P2 – O quê que a sua mamãe falava quando ela mudou pra Augusta? 
R – Que lá não tinha perigo de encher de água. Ela ficou traumatizada, porque era subida, pra encher onde nós morávamos precisava encher metade da cidade. Então, por isso, ela escolheu morar lá, que era bem alto. De lá, de uns dois anos, mudamos pra Frei Caneca, que é paralela à rua Augusta. E depois de lá a mamãe faleceu, também, antes de eu casar, e aí eu casei e continuei morando na Frei Caneca.
P1 – Era casa?
R – Era casa, era casa. 
P1 – Era sobrado?
R – Não, era casa.
P1 – Casa térrea.
R – Casa. E aí depois que ela faleceu, logo depois, eu já tava noiva naquela época, e então a mamãe faleceu em dezembro de 69, e em abril de 70 eu casei.
P1 – E como é que você conheceu o seu marido?
R – Eu conheci meu marido na loja, trabalhando. Foi assim: eu entrei na Eletroradiobraz, naquela época chamava-se assim, como extra, porque naquela época, as lojas não ficavam abertas até as dez horas da noite, como hoje ficam, até tarde. As lojas fechavam às seis da tarde, e na época de fim de ano, em dezembro, elas ficavam das oito da manhã até às dez da noite e eles contratavam extras. E eu fui contratada como extra, nessa época, de dezembro. Eram férias escolares e lá fui eu pra só passar dezembro, dezembro e janeiro, durante as férias escolares. E eu gostei muito, eles também gostaram de mim, e eu continuei. Na época em que eu entrei, eu era ajudante de vendedor, eu levava... era a sessão de moda, eu levava as roupas até a expedição, e ajudava também com clientes, quando tinha muitos, mas eu não atendia, eu era mais ajudante, lá no departamento. E logo depois então, que eu fui efetivada, aí eu passei para vendedora. Aí eu trabalhei, foi assim, emprego, emprego, dizer assim, tirando a fábrica de balas foi o meu único emprego. Eu comecei lá com quatorze anos e saí já depois de casada, eu já tava esperando o primeiro filho. Eu trabalhei na Eletro dez anos.
P1 – Onde ficava?
R – Ficava no Brás.
P1 – No Brás.
R – Eu morava na Frei Caneca e eu ia até o Brás, que lá era a matriz, era a loja, a maior delas. E depois eu fui transferida de lá do Brás, eu fui pra uma mais próxima de casa, que é onde tem o shopping hoje, é ao lado do Paraíso, tinha uma Eletroradiobraz numa esquina. Era pequenininha a loja, mas tinha um bom movimento, se vendia bem, porque tinha a Sears, que a Sears antigamente... A Sears é que é onde tem o shopping hoje, e eu trabalhei lá como vendedora. Eu deixei de ser vendedora de...
P1 – Roupas.
R - ...roupas e fui vender eletrodomésticos, e ganhei bastante dinheiro lá.
P1 – Ah, é?
R – Ganhei, bastante.  
P1 – Você ganhava por comissão?
R – Por comissão. E naquela época as indústrias, eles faziam promoções, então... um era a Arno, então como vendedora, é lógico, eu ganhava além da comissão, eu ganhava prêmio da Arno. Então eu vendia só Arno. Outra época era a Walita que fazia promoção, então eu vendia só Walita. (risos) Enfim, foi uma época muito boa. E depois de lá eu fui transferida pra Paulista, abriu uma loja Eletroradiobraz naquele Center 3 que tem até hoje também. Tem uma loja lá que era conjugada, era loja e supermercado. Já lá eu fui como subgerente, eu já era subgerente lá. E foi assim.
P1 – Você foi subindo de extra pra vendedora de roupas...
R – De aprendiz pra vendedora, de vendedora para encarregada e de encarregada para subgerente.
P1 – E o seu marido trabalhava lá?
R – Conheci ele no Brás. Ele tocava, ele fez conservatório, ele tocava piano. E quando ele entrou, ele não trabalhou muito tempo na Eletro, mas eu o conheci, ele foi trabalhar na sessão de música, de instrumentos musicais, e foi lá que nós nos conhecemos. Eu tinha... tava fazendo quinze anos.
P2 – Você o conheceu com quinze anos?
R – Com quinze anos. E casei aos vinte e dois, nós namoramos sete anos.
P1 – E como é que foi o flerte, assim, dentro da loja?
R – Ah, bateu o olho, falei: “é esse! (risos) É esse, não tem jeito, é esse!”. E foi esse mesmo. Teve altos e baixos, um namoro longo e você acaba... sabe, acaba ficando monótono, ficando enjoado. Nós brigávamos, desmanchávamos, voltávamos, nós não tínhamos jeito.
P1 – E ele fazia demonstração?
R – Isso, ele era o vendedor.
P1 – Ah, ele era vendedor.
R – Era vendedor. E como vendedor, como ele estudou nove anos no conservatório, ele adorava música, então ele conhecia todos os instrumentos, tocava tudo, então era muito mais fácil convencer alguém a comprar um instrumento musical tocando, e ele vendia instrumentos musicais.
P1 – Vocês se casaram em 60 então?
R – 70.
P1 – 70, perdão.
R – Em 70 nós nos casamos.
P1 – E como é que foi esse casamento? Teve festa?
R – Teve. É gozado, quando nós nos casamos, eu morava na Frei Caneca, então eu casei no cartório na rua Augusta, e o cartório era na mesma... mais ou menos na altura da mesma igreja, só que na Frei Caneca. A igreja é Divino Espírito Santo. E nós casamos, então, de manhã no cartório e de tarde na igreja, e a festa... e uma tia dele que morava em Pinheiros nos ofereceu uma festa na casa dela, é uma casa grande sabe, onde é a [rua] Henrique Schaumann, e a minha festa foi no quintal da casa dela. Hoje em dia, esse quintal, essa casa foi demolida, e o quintal dela é exatamente, pra você se localizar, é onde tem o Bora-Bora. Um barzinho que é...
P1 – É.
P2 – Dois andares?
R – Dois andares. E tem um posto de gasolina na esquina. Foi lá a minha festa de casamento. E, engraçado, os amigos do meu marido, ele morava no Tatuapé, então todos os amigos dele foram convidados, foram todos, e eles aprontaram uma peça pra gente, sabe? Eles raptaram o meu marido Otávio e levaram ele, fizeram brincadeiras para marginal, tiraram a roupa dele, deixaram ele de cueca, ele estava muito gripado, com febre, foi um... Enfim, essas brincadeiras... E na época foi gostoso, foi bom, foi divertido. Enquanto levaram ele, eu dei falta, fui procurar, “onde está o Otávio?”. Aí outra turma, um outro grupo de amigos, falou assim: “Ah! Levaram, tal, mais vai lá, você vem com a gente, você convence eles a trazerem de volta”. E eu no sentimento fui...
P1 – E isso no meio da festa?
R – No meio da festa.
P1 – A festa rolando solta...
R – Rolando solta. Todo mundo comendo, bebendo e ele sumiu. Aí inocentemente fui. Entrei no carro, num fusquinha, e fui atrás. Só que eles não me levaram lá. Eles me levaram pro Ceasa, perto de onde eu moro agora. Me levaram pro Ceasa, de vestido de noiva, de véu, (risos) com buquê na mão, tudo o que eu tinha direito, luvas, tal. Me puseram em cima de um carrinho desses que carregam caixotes, e andaram comigo o Ceasa todo. E os feirantes, foi uma festa, de noite, os feirantes iam jogando as coisas pra mim. Então eu vim carregada de flores, de couve-flor, (risos) de alface, tomate, pepino e flores. Ah, em profusão. Foi, assim, sabe, foi um... No fim, quando andaram comigo, assim, no Ceasa todo, que eu me vi no chão, saí correndo, levantei o vestido e ó, perna pra que te quero! E aí voltamos pra casa. Conclusão, os convidados todos levaram, fizeram a feira, porque eu vim assim... O carro veio abarrotado de legumes, verduras e flores.
P2 – Olha só. E o seu marido também é descendente de imigrante também, ou é imigrante?
R – Meu marido, a família é italiana, da mãe dele, e o pai é português. Também, os pais são brasileiros, mas os avós é que são da parte do pai dele, portugueses, e da mãe dele, italianos.
P1 – Quando vocês casaram, a sua mãe já havia falecido?
R – Já, ela faleceu em dezembro e eu casei em abril. Já não tinha... Aí eu já tava sozinha, eu e meu irmão. Tinha ligação com os meus dois tios, mas aí já havia um afastamento muito grande com os outros da família, os tios da minha mãe. Já tinha um afastamento, e tinha os dois só, quer dizer, a família é bem pequena.
P1 – E vocês foram morar aonde depois de casados?
R – Eu morava na Frei Caneca e fui morar em outro lugar, na Frei Caneca também. E lá eu morei dois anos e depois de lá eu fui pra Pinheiros, pra rua Cristiano Viana. Lá também eu fui morar na Cristiano Viana, era um sobrado enorme, imenso. E aí eu já tinha... quando eu tinha o primeiro filho, eu não quis continuar lá naquela casa, porque tinha muita escada. O quintal tinha escada pra descer, enfim... era muita escada e muito trabalho com criança pequena. E aí nós começamos a procurar uma casa que fosse térrea e tivesse um quintal grande, para poder... para criança poder brincar, e foi aí que eu fui pra Perdizes. A Cristiano Viana, hoje em dia, muitas casas foram derrubadas, inclusive a que eu morava, porque passa a Avenida Sumaré, que vai sair lá perto do cemitério, naquela altura. Então foi aí que eu fui morar na Perdizes, na rua Iperoig, nessa rua Iperoig eu morei dezesseis anos. Era uma casa térrea, um quintal imenso, uma jabuticabeira imensa, que toda a vizinhança usufruía dos frutos. Aqui em casa ninguém gostava de jabuticaba eram imensas e doces...     
Fim da fita 1     
P1 – Então, a senhora tava contando sobre a jabuticabeira...
R – Era uma jabuticabeira de um vizinho, que morava, assim, ao lado lá, que tinha plantado. A jabuticabeira tinha uns setenta anos, era enorme, então a vizinhança na época... Aí era uma festa a vizinhança, a gente fazia é churrasco, a gente fazia uma festa, todo mundo ia e todo mundo colhia e faziam doces, e faziam licor. Tinha uma senhora lá do lado, que ela fazia um licor delicioso de jabuticaba. O quintal era grande, de goiaba, enfim, era um quintal bem grande, uma época muito boa. Aí nasceu a minha filha, Gabriela...
P1 – Quando você mudou, já tinha o primeiro filho?
R - Já tinha o Marcelo. E lá também nasceu a Gabriela e nasceu o Felipe. Na verdade, o Marcelo, o primeiro, faleceu lá naquela casa, ele tinha seis anos, teve um aneurisma, então foi assim, fatal. Foram uns dois, três dias, e ele faleceu lá naquela casa. Mas o Felipe então, veio depois de sete anos que ele faleceu. Aí eu achei que a Gabriela sozinha era muito pouco, e veio o Felipe. Então nós moramos lá dezesseis anos. 
P2 – Quando nasceu o Felipe você parou de trabalhar?
R – Não, eu parei de trabalhar quando nasceu o Marcelo.
P2 – Marcelo, o primeiro.
R – O primeiro. Porque não tinha mãe e a minha sogra já tinha uma certa idade, ela morava no Tatuapé, não tinha muita habilidade, assim, pra cuidar de criança. Criança exige, ela já era uma senhora de idade, então eu não tinha ninguém, e não tinha como, eu precisei parar de trabalhar pra cuidar da criançada. 
P2 – Na educação dos seus filhos, você passou coisas que você recebeu na infância, lá na Espanha? Ensinamentos, práticas cotidianas, enfim...
R – Da Espanha em si não, porque chegando aqui com seis anos, eu praticamente me tornei uma brasileira, sabe? Então aprendi a ler e escrever, tanto que conversando ninguém diz que eu sou estrangeira. Eu fui adquirindo os hábitos, costumes daqui, então o que eu passei pro meus filhos... Agora, o que eu passei sim pros meus filhos, é que a mamãe, como lutou muito, muito jovem, ficou viúva e teve que sustentar os dois filhos, e saía de manhã e voltava à noite e com a falta do pai, então, a minha mãe sempre foi muito rígida. (pausa) Não lembro de surras dela, só lembro de uma vez que ela me bateu foi muito, uma única vez, eu lembro, mas ela se fazia respeitar. Então a mãe, ela me passou, isso que eu passei para os meus filhos, ela sempre foi muito firme nas decisões, não tinha “sim, sim, sim, não, não”, ou era sim ou era não. Então, essa firmeza, inclusive de caráter, isso sim eu passei para os meus filhos. Então é uma criação que eu passei pra eles e é assim até hoje, de uma mãe assim, meio controladora, meio enérgica, sabe, de costumes, de moral, dessas coisas, sou muito rígida.
P1 – E eles têm quantos anos hoje?
R – A Gabriela tem vinte e seis anos e o Felipe vai fazer dezenove anos no mês que vem. Tem dezoito anos. E é assim...
P1 – Vida dizia que tem que ser rígido mesmo... (risos)   
R – Eu trago tudo aqui, na mão, no pulso firme. Principalmente porque agora, a um ano e meio, eu estou viúva, meu marido faleceu em um acidente. Nós tínhamos um chalé, em um camping, aqui em Cabreúva, e como tem muitas árvores, muita folha tal, o telhado ficava sempre cheio. Ele subiu, embora com toda a segurança, e como subiu sozinho, a gente não estava junto, não sei o que aconteceu, mas ele sempre tomava o maior cuidado, ele acabou caindo, escorregou, porque o banheiro tem laje, mas o chalé não é laje, só as telhas. Então, ele se desequilibrou e caiu, caiu dentro do chalé, bateu a cabeça e foi assim, fatal. Então foi assim, algo muito dramático. E então, principalmente agora, eu já era assim enérgica, mas principalmente de um ano e meio pra cá então, eu que tomo todas as decisões e tudo mais. Então eu acho que eu fiquei mais ainda, mais controladora.
P1 – Vocês moraram dezesseis anos em Perdizes, como você tinha dito, e depois?
R – Isso. E depois o meu marido estava trabalhando numa firma de cosméticos, quando nós mudamos pra lá, essa casa já era antiga, já era velhinha, tinha até porão embaixo, e já não estava dando mais para ficar lá e nós viemos procurar um outro lugar. E o dono desta firma onde o meu marido trabalhava, ofereceu uma casa em Pirituba, e foi quando nós viemos para este lado. E foi assim, uma mudança assim, total, porque quando nós viemos para Pirituba a casa era excelente, muito boa.
P1 – É aonde você mora agora?
R – Não. 
P1 – Não?
R – Não. Esta casa era uma casa excelente, mas o lugar onde ela estava é que não era tão bom. E quando nós mudamos pra lá, isso já a alguns anos atrás, o lugar faltava, não tinha infra-estrutura. Como ainda não tem, assim, banco próximo, essas coisas assim, não têm, um supermercado maior também não tem. Então eu senti muita diferença nisso, mas logo me adaptei, e nós moramos oito anos nessa casa. Aí depois nos mudamos para a Freguesia do Ó. 
P2 – Mas, só um pouquinho. Ficando aí em Pirituba, o quê que a senhora lembra? Tem alguma... como era Pirituba nessa época? O quê que era marcante?
R – Uma coisa que me marcou muito quando eu cheguei lá pela primeira vez, é que eu olhei que as casinhas, elas não eram acabadas, não tinham acabamento, eram todas de tijolos, esses tijolos baianos, quadrados, tudo aparente, sem acabamento. Você vê que é um povo humilde e que com muito sacrifício compravam os terreninhos e depois construíam as suas casinhas, e iam construindo aos poucos. Então, algo que me chamava... Eu morava nas Perdizes, são casas mais antigas, prédios, era diferente. E quando eu fui morar pra lá, não que me importasse com isso, não, mas o que me chamou a atenção, principalmente, foram essas duas coisas. Era a falta de um comércio maior, local, e o que me chamava atenção era isso, que as casinhas todas eram sem acabamento, eram de tijolos. E que com o passar dos anos isso foi mudando. Lógico que há regiões ainda, lá, é Vila Mirante, Pirituba, Vila Mirante é no fundo de Pirituba, ainda há essas casinhas que não estão acabadas, que serão acabadas um dia.(risos) Mas boa parte já não é...
P1- Já tem um aspecto mais de bairro periférico, assim...
R – Com certeza. 
P2 – E aí vocês mudaram pra a Freguesia do Ó.   
R – Mudamos para Freguesia do Ó, quase Piqueri, lá, é uma travessa de [avenida General] Edgar Facó, um prédio lá. E lá moramos neste apartamento, nesse prédio, até quando aconteceu o acidente do meu marido.                  
P1 – Que ano que foi, Dona Custódia?
R – Há um ano e meio atrás.
P1 – Hum.
R – E aí meus filhos não quiseram continuar lá, porque traz lembranças e tudo mais, era um pai muito presente, muito amoroso, enfim. E aí então nós viemos pra cá, pra Vila Hamburguesa. Eu já estou há um ano e meio aqui na Vila Hamburguesa, não, um ano e meio não, porque eu ainda continuei lá na Freguesia do Ó por um tempo. Aqui vai fazer... ainda vai fazer um ano, não um ano na Vila Hamburguesa. 
P1 – E como está sendo a adaptação nesse bairro novo, depois todo um périplo por vários bairros da cidade?
R – Olha, não teve problema pra nos adaptar. É, o problema maior, foi assim, dos meus filhos acostumarem com ônibus e se localizarem, mas, assim, o bairro é muito bom, sabe, tem uma infra-estrutura, todo o comércio, supermercados, bancos, é um bairro muito próximo de Centro, de Lapa, de tudo, enfim, é um bairro excelente.
P1 – E a vizinhança como é que é?
R – Não conheço ninguém.
P1 – Ainda não?
R – Não, não conheço ninguém. É assim, eu me dedico à casa, eu não trabalho desde que os meninos nasceram, mas eu tenho uma atividade que me toma muito tempo, eu faço parte de um grupo que fundou um lar de idosos carentes. Idosos que não têm família, então eu tenho toda uma atividade voltada pra isso. Nós fazemos almoço, nós fazemos bazares, eu sou voluntária nesse lar, faço plantão. Então é uma atividade intensa, então é um corre-corre, e mesmo que apartamento é difícil você...
P1 – Ah, é apartamento.
R – É apartamento. É difícil você ter um contato. Quando ainda nós temos a família, que a gente é jovem, que tem criança pequena, a gente se encontra no “play-ground”, você troca figurinha lá, você acaba se conhecendo, mas apartamento é muito difícil. Eu sei que tem uma senhora, uma senhorinha de idade, que mora do meu lado, e os de frente eu não conheço.
P1 – E a Vila Hamburguesa surgiu como opção por quê? 
R – Porque eu não queria sair da região em função deste lar, em função deste grupo.
P1 – Ah! Ele fica lá...
R – Ele fica em Pirituba. 
P1 – Ah, tá... 
R – Eu encontrei esse grupo em Pirituba. 
P1 – Qual que é o nome mesmo, do grupo? 
R – É... Grupo Assistencial Espírita Solidariedade, é um grupo espírita. E foi quando eu fui morar lá em Pirituba que eu encontrei esse grupo, que eu tinha assim, ideal de fazer alguma coisa e foi com ele que eu me... E hoje eu faço parte deste grupo. Além da parte assistencial, também as tarefas desse grupo que é um Centro Espírita. 
P1 – E a senhora é praticante espírita também?
R - Sou, desde que eu passei pra lá. Foi assim, eu sempre gostei muito de ler, e quando eu morava nas Perdizes eu tinha uma amiga que tinha uma biblioteca dentro da casa dela, e sempre li muito, de tudo, o que viesse eu lia. E uma ocasião eu pedi pra ela, eu falei pra ela “olha Gladys, eu queria ler algo diferente, você não tem aí um livro diferente, algo para mudar?”, tal… eram muitos romances, isso e aquilo, eu falei “eu queria algo...” e ela disse “Ah, Custódia eu tenho um livro aqui muito interessante, leva!”. E eu peguei, levei e não abri, só me chamou a atenção o título do livro, chamava O Livro dos Espíritos. E eu peguei aquele livro, levei para casa e depois que todo mundo se acomodou eu peguei o livro e comecei a ler. E ele é grosso, ele é grande, ele tem...
P2 – Escrito pelo Allan Kardec? 
R – Allan Kardec. E eu me dei conta que eu terminei de ler esse livro quando estava amanhecendo o dia. Porque lá, estava... Esse livro é perguntas e respostas. Não é uma história, tal, é dividido por assuntos, e eram perguntas e respostas. E aquilo começou a me responder um monte de coisas que eu muitas vezes me perguntei e não tinha respostas, inclusive é bom comentar, que quando eu morava nas Perdizes, em frente à minha casa tinha um convento, as freiras do Sion, e era um noviciado, tanto que eu, assim... você me perguntou se a minha avó, se os meus avós me deram uma educação religiosa, tal... Não deram não, éramos católicos, mas assim, de frequentar mesmo a igreja, não. E nessa ocasião, quando eu morava nas Perdizes, eu tinha... eu me questionava muito, e foi quando essa minha vizinha, também nas Perdizes, me deu esse livro. Mas eu peguei muita amizade com as freirinhas lá em frente, e o Felipe não era batizado. Nasceu e eu não batizei, a Gabriela sim, mas o Felipe não. Eu tinha minhas dúvidas, eu ia de vez em quando na igreja, mas o padre dessa igreja, Santa Rosa de Lima, na rua de baixo... ele... eu tinha uns questionamentos, tal... e elas me perguntavam “você não vai batizar o Felipe?”, e eu ficava assim, tal... aí eu disse “olha, eu tenho minhas dúvidas, eu não sei não...” Conclusão: acabei batizando o Felipe lá na capelinha do Sion, lá das freirinhas, ele é batizado lá. E enfim, e eu tive assim bastante contato, tanto que os meninos, até o Felipe chegou a frequentar, a estudar lá no Sion, só que na Irmã Isabel, que é na parte da tarde. E esse livro, então, ela me emprestou, e veio assim, “O livro dos Espíritos” então veio assim, de encontro a algumas perguntas, algumas coisas que eu tinha dúvidas, e que estas freirinhas e os padres não conseguiram responder para mim, e foi lá que eu me encontrei. E foi assim que então despertou a minha atenção. Aí um primo do meu marido frequentava um Centro e um dia, numa reunião familiar, ele disse que frequentava, e eu me interessei, fui. Não era um Centro, era na casa de uma pessoa, gostei, mas ainda não era tudo aquilo. Foi quando eu mudei para Pirituba que eu comecei então a procurar se tinha e encontrei esse grupo, esse Centro, e foi lá realmente que eu comecei a estudar mesmo, a estudar, a saber, aprender, mais do que eu tinha entendido quando eu li o livro, e me adaptei muito bem, me encaixei perfeitamente no grupo e aí o ideal deles era esse lar de idosos. Fundamos e com muito sacrifício e muita luta, fizemos bazares e almoços, e montes de coisas. Compramos uma casa caindo aos pedaços, e essa casa foi reformada por um primo do meu marido, que tem uma construtora, e hoje as vovozinhas estão lá. E nós fazemos plantão, minha filha faz plantão lá também, todos nós, meu marido fazia plantão lá também, todos nós. 
P1 – E a Vila Hamburguesa fica perto de Pirituba então?
R - É assim, é... nós estamos do lado de cá da Marginal e eles estão do lado de lá.
P1 – Entendi.
R- É só atravessar a Ponte do Piqueri. (pausa) É próximo, por isso que então eu não queria sair desta região, entre Vila Hamburguesa, Lapa, Pirituba, Freguesia do Ó, aqui, tudo...
P1 – Pra continuar sua atividade no grupo.
R – Pra continuar minha atividade no grupo, porque na verdade se eu me afastar vai ser meio difícil, porque eu tenho atividades à noite, e aí à noite fica mais difícil. E meus filhos têm a vida deles, minha filha faz faculdade, meu filho faz cursinho, deverá entrar na faculdade, eu não posso ficar dependendo deles. 
P1 – Entendi.
R- Então por isso que eu gostaria de continuar morando aqui na redondeza, mesmo porque eu tenho minhas caronas, os amigos que vão lá e que também eu… eu… embora seja próximo, mas para eu ir até lá, se eu for de ônibus, tenho que pegar duas conduções. Mas é que eu tenho amigos que moram na Lapa, então eles me pegam, me dão carona, eu vou junto com eles, volto com eles, então...
P1 – Já tem todo um convívio...
R – Todo um esquema, toda uma... um quadro já todo pronto. (risos)
P2 – Tá certo. E dona Custódia, eu queria que a senhora contasse pra mim, como é o seu dia-a-dia hoje, o seu cotidiano? O quê que a senhora faz todo dia, desde que levanta, enfim...
R – Bom, eu... o meu marido antes fazia muitas coisas na rua, e hoje em dia, então, eu vou na feira, coisa que eu não fazia.
P1 – Ele que fazia a feira?
R – É, eu ia com ele no sacolão, nós íamos no sábado, o supermercado. Hoje eu faço feira, comprei um carrinho de feira, aprendi a dirigir carrinho de feira, vou à feira, uma travessa da Chile. Vou no supermercado, faço compras no supermercado, que eu fazia com ele, vou sozinha. Às vezes, quando a minha filha não está trabalhando, ela vai comigo, às vezes num sábado, porque ela trabalha às vezes no sábado e domingo, ela faz plantão. Ela trabalha na Sabesp, ela é química, trabalha no laboratório de análise. Então fazem também plantão de sábado e domingo, nem sempre ela pode ir comigo. E enfim, passei, porque... O meu marido era assim, um companheiro, assim, de vinte e quatro horas. Então tudo, até para comprar uma roupa, ele estava junto comigo, em todos os lugares. Então o meu cotidiano era esse. Eu estou vivendo, assim, uma mulher mais assumida em tudo, estou indo atrás, estou vendo preço, banco, que eu não fazia, enfim, estou independente. (risos) E eu assumo, então, todas as tarefas da casa e tudo que diz respeito ao andamento da casa. Fora essa outra atividade, então o meu dia é cheio, repleto. 
P1 – Tá certo. Eu estou encaminhando pras perguntas finais, você tem outras colocações, que você gostaria de fazer?
R – Não, eu acho que não.
P1 – Mais específicas?
P2 – Não, eu acho que tá dentro. 
P1 – É... Então, antes que terminasse, eu queria que a senhora contasse para a gente, se a senhora tem um grande sonho que a senhora gostaria de realizar.
R – Olha, existiam assim, não um grande sonho, existem planos. E quem sabe, daqui a algum tempo, de eu ir com meus filhos até Marrocos, até a Espanha. Provavelmente eu não vou saber me localizar lá, onde era, enfim, mas conhecer, saber pisar. A gente tem raízes. Então saber de onde eu vim, conhecer o lugar, mas mesmo assim para passeio, digamos assim, não é um grande sonho, mas é algo assim que seria muito bom. 
P1 – A senhora nunca voltou pra lá?
R – Não, nunca.
P1 – Depois que veio...
R – Não, não. 
P1 – E manteve contato com parte da família que tenha ficado lá?
R – Não. Eu propriamente tive algum contato com a família do meu pai, tive já uns anos atrás, mas não houve convivência, então não há laços. Embora são a minha família, eu quero bem, mas não há laços porque não houve convivência, não teve a convivência das famílias. Eles foram pra Barcelona, a família da minha mãe ficou em Madri, em Lanjaron, depois viemos pro Brasil, então foram quebrados,não tem. Teve uma época que eu mandei cartas pros meus tios, lá, eles mandaram fotos de lá pra cá, da família. Mas, hã...
P2 – E qual que é a expectativa de pisar no solo de novo, onde você nasceu?   
R – Sabe que eu não sei? (risos) Só quando eu estiver lá. Provavelmente eu não vou saber onde era a casa, o que...Você procura justamente o lugar, a casa onde você morou. E eu tive uma experiência péssima alguns anos atrás. Que eu fui até a rua Wandenkolk procurar a casa onde teve enchente, onde eu morei lá, não existia mais. Metrô, passa o metrô lá, derrubaram tudo. E dá um vazio, dá uma sensação muito ruim. Talvez se eu for pra lá não tenha essa sensação, porque eu não vou saber localizar onde era. Mas é mais pra ver mesmo, o lugar, os costumes, as pessoas, só, mesmo, acho que como turista mesmo. 
P1 – Dona Custódia a senhora fala ainda o castelhano, não?
R – Falo, muito mal. O sotaque eu mantive, consigo ler, embora eu não tenha sido alfabetizada lá eu consigo ler, não sei escrever, escrever aí eu já fico embananada. Mas o meu castelhano é muito reduzido, porque eu era criança, eu tinha seis anos. Eu não tenho um grande vocabulário, é muito resumido.
P1 – A senhora não lembra de nenhuma musiquinha de infância em castelhano?
R – Não, não lembro.
P1 – Era muito novinha.
R – É.
P1 – Tá certo.
R – Eu lembro de uma coisa, que... não que eu cantava, mas que a minha avó me dizia. Quando eu ia dormir, ela dizia assim: “con Dios me acuesto, con Dios me levanto, com la Virgen Maria y el Espíritu Santo”. É a coisa que eu tenho, assim, da infância, da minha avó me falar, mas eu não lembro de musiquinhas não. (risos)
P1 – Tá joia. E, bom, só pra encerrar, eu queria saber quê que a senhora achou da experiência de ter dado esta entrevista, contado um pouco da sua história hoje.
R – Nossa, foi fantástica! Porque sabe o que acontece? Assim como eu estou te contando tudo isso, nós temos lembranças, de vez em quando a gente lembra da nossa infância, da nossa juventude, tudo isso, a gente tem lembranças. Mas, assim, todas duma vez reunidas, vem coisas que você não lembra mais, porque você mexe lá no fundo do baú. Então tem coisas... e como eu disse, chega até... a lembrança fica tão viva que traz até odores, paladares. Então tudo isso, tem coisas que você não lembra, e trazendo isso tudo lá do fundo, mexendo em todo o passado, você acaba trazendo coisas que você já tem como esquecido, como perdido, mas você resgata. E é muito bom, foi muito bom.
P1 – Tá bom, então a gente queria agradecer só, a participação, sua colaboração...
R – Obrigada a vocês, para mim foi um prazer.
P1 – Obrigada a gente.

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