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História

“A gente sabia que vivia feliz”

História de: Wilson Rigo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Ibirá. Família simples. Segunda Guerra Mundial. Pobreza. Estudos. Office-boy. Contador. Satisfação no trabalho. Própria empresa.

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História completa

 

P/1 – Doutor Wilson, por favor, nós pediríamos que o senhor falasse o seu nome, local e data  de nascimento.

R – Meu nome é Wilson Rigo. Nasci dia 16 de janeiro de 1935 na cidade de Ibirá. Uma cidade próxima a São José do Rio Preto.

P/1 – E o nome dos seus pais? 

R – Meus pais chamam-se Sebastião Rigo e Maria Josefina Rigo. Eles são também oriundos do estado de São Paulo, da região de Jaboticabal. E se casaram na cidade de Ibirá. E lá eles tiveram dois filhos. Eu sou tenho uma irmã e sou o filho mais jovem (risos). 

P/1 – E qual a atividade dos seus pais? 

R – Meu pai ele era um homem simples. Sempre foi pedreiro. A vida toda. E a minha mãe foi costureira. Eles lutaram muito para formar os filhos. E, mas foram um casal vencedor, porque após tantos anos de trabalho eles ainda deixaram um pouco de herança daquilo que fizeram. Tudo, com o maior orgulho. E eu posso dizer que o grande orgulho dos meus pais não foram o que eles deixaram, foram os filhos que eles deixaram para continuar com a família (risos).

P/1 – (risos) E a sua infância? O senhor passou na...

R – A minha infância eu, nós viemos para São Paulo na época da guerra. Em 1943. Uma época muito difícil. Porque estava tudo faltando. Se comia na época carne de baleia... E daí para a frente. Você entrava em filas para se comprar o pão com uma “senhazinha”, que não podia comprar mais. Porque não tinha farinha na época também. Mas conseguimos passar por essa fase. Depois da guerra houve um desenvolvimento muito grande. E daí para a frente eu fui estudando. E teve uma fase também quando eu tinha 13 anos, 12, 13 anos. Que eu fiquei internado no Seminário São Camilo de Lelis, para estudar para padre. Mas depois descobri que (risos) minha tendência não era essa. Depois de uns dois anos desisti. Mas foi muito bom porque também se adquire uma disciplina de vida muito interessante. E a minha formação religiosa é a católica. Ela é de família também. Então, depois disso eu acabei saindo do seminário. Os padres muito preocupados. Porque era a fase dos 13, 14 15 anos a gente precisa ser encaminhado na vida. E eles tiveram até a preocupação de encaminhar para o Palmeiras para ver se eu dava bom jogador de futebol ou não (risos). 

P/1 – (risos). 

R – Depois de alguns treinos eu acabei desistindo. Não pelo futebol. Mas pelo ambiente. Porque eu vinha em um ambiente muito disciplinado, né? E o ambiente fora da atividade do seminário era muito complicado. E  então eu não me adaptei muito bem a esse relacionamento. Acabei desistindo. Resolvi estudar que era melhor (risos). 

P/1 – (risos) E quando vocês vieram vocês se estabeleceram em que bairro?

R – Nós moramos inicialmente na região da Zona Norte. Aquela região ali do Carandiru, Vila Piva, Santana. E é uma região que eu moro ainda até hoje. E moramos sempre por ali mesmo. Meu pai como pedreiro acabou construindo a nossa primeira casa. Depois não deu, construiu a segunda. E aí foi se desenvolvendo melhor. E eu acabei estudando com dificuldade. Porque tinha que trabalhar e estudar. Então você trabalhava o dia todo e só estudava a noite. 

P/2 – E o senhor trabalhava com o quê, nessa época? 

R – Eu na época, o primeiro trabalho meu foi como gráfico. Uns dois anos. Depois eu entrei para trabalhar como escriturário. Trabalhei no Moinho Santista, trabalhei na Mesbla. E depois, logo em seguida, comecei na Nitroquímica. Comecei na Nitro Química em 9 de maio de 1958 quando eu fui registrado. Comecei um pouco antes, depois fui registrado dia 9 de maio, tsc, 9 de maio de 58 e trabalhei até 62, 63 até, normal, registrado. Aí depois de 63 a 65, dezembro de 65 eu trabalhei fazendo a contabilidade de uma empresa que chamava-se Riosan, brasileira. Que é uma empresa do Grupo Votorantin, que a Nitroquímica administrava. Essa empresa. E eu fui contador dessa empresa uns três anos. E nesse período eu trabalhava meio dia fazendo a contabilidade desse empresa do grupo e meio dia eu fui funcionário público do Ministério Público. Aí quando foi em dezembro de 64, de 65 houve uma mudança administrativa na Nitroquímica e aí eles me convidaram na época, o diretor era Domingos Barone. Me convidaram para que eu assumisse o cargo de contador. Naquela época então eu acabei assumindo o cargo de contador na Nitroquímica já trabalhando nesse prédio. Inicialmente nós trabalhávamos na rua Álvares Penteado. Depois na rua Antônio Prado. Depois viemos para esse prédio. Em 65 eu assumi como contador da Nitroquímica. Trabalhamos até 67, 68, não lembro bem o ano, aqui neste prédio ainda. Quando os escritórios foram transferidos para as fábricas. Eu fui para São Miguel Paulista, e fui morar em São Miguel Paulista em uma casa da companhia. Onde eu tive oportunidade de ter uma integração maior. Mas no primeiro estágio quando eu entrei na Nitroquímica e era na Álvares Penteado, teve até algumas passagens interessantes, porque a Votorantin tinha os escritórios no Anhangabaú. E a Nitroquímica na Álvares Penteado. Então na época o doutor Moraes ele ia sozinho andando a pé pelas ruas de São Paulo até o escritório da Nitro. Pela rua Álvares Penteado. Ali ele, em frente o Moinho Santista, encontrava-se também com o administrador do Moinho Santista na época. Que tinha um relacionamento com o Assis Chateaubriand. Que vinha de cartolinha e de bengala. Os pares conversavam e tal. Algumas oportunidades eu tive, assisti. Porque a gente esperava até o prédio abrir, porque abria às sete da manhã. Aí eu subia com ele no elevador e tal. Foi nessa época que teve uma passagem interessante. Porque eu era muito jovem ainda e fumava. Então o doutor Moraes em uma oportunidade falou para o ascensorista: “O senhor pára e espera.” Então ele sempre ia direto. Não parava no meu andar. Levava primeiro o doutor Moraes. Aí o doutor Moraes falou para mim: “O senhor desce comigo.” (risos). Porque eu era o office-boy que levava as demonstrações financeiras para o doutor Moraes na Votorantin. Eu fui, ele me fez todas as recomendações. Porque é que eu não deveria fumar. Porque é que os filhos dele não fumavam. E foi me explicando. Eu saí de lá muito assim emocionado pela importância que ele tinha e eu era um office-boy. E ele tomou todo aquele tempo para dar todas aquelas informações para que eu parasse de fumar. Já naquela época já existia essa preocupação (risos). Aí, conclusão: eu acabei tomando isso como uma bandeira e parei de fumar. Então isso foi alguma coisa que gravou em mim. Porque foi uma coisa importante que eu senti que aconteceu.

P/2 – E o doutor José ele tinha esse relacionamento aberto e próximo dos outros?

R – Não, ele era uma pessoa assim, muito propenso a ser político. Aquele homem que aparecia. Ele era alto, forte. Então ele tinha essa preocupação acho que com a saúde das pessoas, dos funcionários, né? Então ele acabou tomando essa atitude e isso acabou com que eu não fumasse mais. E durante a minha vida profissional eu fiz várias campanhas contra o cigarro. E que foram bem sucedidas. Porque muitos funcionários deixaram de fumar. E até hoje passam pela empresa para agradecer o fato de não fumarem mais (risos). 

P/1 – (risos). 

R – Então esse foi um fato que aconteceu nessa época. Então retornando, depois de nós termos trabalhado aqui na Praça Antonio Prado, aqui na Praça Ramos, nós fomos para São Miguel Paulista. Eu fui. Morei na casa da companhia em São Miguel Paulista por sete anos. E em São Miguel Paulista, como contador eu tive a oportunidade de não só de exercer a função de contador. Com uma equipe muito boa. Em que durante os 16, 18 anos que eu fui contador da empresa eu tive orgulho de ter atendido sempre a fiscalização direitinho, sempre em ordem. Nunca tivemos uma autuação. Então foi uma empresa que era muito organizada nessa parte. Durante o tempo que eu estive foi assim a maravilha.

P/1 – Como foi essa sua transição de office-boy para...?

R – Ah, eu fui aqui para escriturário. De escriturário eu passei para auxiliar de contabilidade. Como auxiliar de contabilidade eu então participava da contabilidade da empresa, da Nitroquímica. E ao mesmo tempo eu fazia contabilidade de empresas menores que pertenciam ao Grupo Votorantin. Como a Riosan, por exemplo. E outras coisas que eram administradas por fora da contabilidade. Então eu acabei me adaptando bem a isso. Estudei na escola Álvares Penteado. Que era uma escola, na época, importante. Que formava pessoais no Largo São Francisco. E eu acabei então me adaptando bem. E quando surgiu a oportunidade, na transição de 65 para 66, então alguns funcionários foram transferidos. Uns foram para diretor, outros para isso, outros para aquilo. E sobrou a oportunidade de eu ser contador. Porque na época quem assinava como contador era uma figura que não era um especialista da área. Ele era contador mas não exercia a função. Mas tinha o privilégio de assinar. Depois eles acabaram profissionalizando melhor essa parte, dando a quem realmente executasse essa função, tivesse o privilégio de assinar e tal. E assim foi. Então eu acabei tendo essa oportunidade. E abandonei o serviço público. Que eu tive uma carreira rápida. Muito boa no serviço público. A minha intenção era ser promotor. Estudar Direito e ser promotor. Abandonei a idéia. Aceitei a proposta da Nitro. Fui para a Nitro e depois de passado tantos anos eu não me arrependo. Porque a gente era feliz e sabia. Porque tivemos oportunidade de desenvolver muitos tipos de trabalhos. E dentro da empresa, eu até estava comentando que eu além de ser contador da empresa, eu fui, eu tive oportunidade de ser primeiro secretário do clube. Fui presidente do clube, dois anos. E fui presidente do conselho uns oito ou dez anos. Então isso me trouxe assim uma participação grande nas atividades sociais da fábrica. E quando foi em 82 houve também uma atividade nova que surgiu pelo Banco Central que foi a formação das cooperativas de crédito. Então era um novo desafio. Eu aceitei o desafio. Fui o presidente fundador da cooperativa. E que se deu realmente maravilhosamente bem também. Sem problemas nenhum. Hoje é uma cooperativa de resultados excelentes. Agrega outras empresas do grupo também. Como associados do Norte e Nordeste. E eu mantenho contato. Para saber como é que isso caminha. E caminha muito bem realmente. E é uma… um orgulho que a gente tem de ter dado certo, também, né? Essa cooperativa quando foi montada também teve uma passagem muito interessante. Porque na época o, eu administrei muito tempo para o doutor Ermírio as atividades na Fazenda Monte Verde. Lá em Itapetininga. Que era uma área muito grande. Produzia carvão, lá se plantava eucalipto, pinho, tinha gado, enfim todas essas coisas. Eu fazia todos os demonstrativos, passava para o doutor Ermírio tudo isso. Isso caminhava também. E era preciso formar o quadro de funcionários da cooperativa. Então um ex-funcionário da Fazenda Monte Verde, um rapaz muito honesto, muito trabalhador e tudo, jovem ainda. Me telefonou pedindo para que eu arrumasse um cargo para ele aqui em São Paulo. Que havia acontecido um incidente com ele lá na fazenda e ele havia sido dispensado. Mas que ele não era culpado e tal. Eu disse: “Tudo bem.” Falei com o doutor Ermírio. Falei: “Olha lá o caso, que não cumpriu-se muito a justiça. O rapaz não teve culpa e está acontecendo isso.”O doutor Ermírio autorizou. Nós admitimos esse rapaz. Chamava-se José Henrique de Proença. Esse rapaz. Ele foi o primeiro funcionário admitido pela cooperativa. E até o gerente não gostou que eu tivesse tomado essa atitude e falou com o doutor Ermírio. O doutor Ermírio falou: “Não, nós, eu autorizei está tudo certo.” Esse rapaz trabalhou o resto da vida dele na cooperativa. Faleceu trabalhando na cooperativa. Teve um problema cardíaco. Mas ele foi um exemplo de um profissional competente. Isso foi uma particularidade que aconteceu na formação da cooperativa. Que se fez justiça. E isso é muito bom. Porque a gente  aprende com essas atitudes que a gente assistiu do doutor Moraes, dos filhos que vieram a se ter uma cidadania e um sentido de justiça também. Isso foi muito importante também.

P/1 – Agora, voltando um pouco. O senhor disse que foi morar em São Miguel...

R – Morei. 

P/1 – Como era a casa da...

R – A casa era muito boa, era...

P/1 - ...o bairro quando o senhor chegou lá? Como é que era o cotidiano?

R – Lá em São Miguel essa casa ficava na Rua Joaquim Camargo. Que é uma rua, travessa da Avenida Nordestina. Bem no centro ali de São Miguel. E eu tinha como vizinhos dois engenheiros da fábrica. E por sinal até os dois já falecidos. O Benedito Eustáquio, que era o vizinho da frente da minha casa. E o vizinho do lado que era o outro engenheiro. Agora não me lembro o nome todo dele. E então se formou uma família muito boa. Que era gente ótimas também de relacionamento. A minha senhora até hoje mantém relacionamento com a esposa do seu Benedito. Que ele veio a falecer. Ele faleceu nos braços da minha senhora. 

P/1 – Nossa.

R – Ele teve um ataque cardíaco. Ele era muito forte. E a esposa dele no desespero chamou a minha senhora. A minha senhora foi lá, voltou ele, tentou fazer com que ele voltasse mas não foi possível.  Mas essa senhora já fez mais de 80 anos. E foi feita a festa de aniversário dela de 80 anos lá na catedral de São Miguel. E foi muito bonita. E nós mantemos relacionamento até hoje com essa família. Então, não só esse pessoal, mas o restante do pessoal que agregava lá o clube, a fábrica, era assim um ambiente muito bom de trabalho. Ótimo. Então e o clube ele proporcionava uma atividade muito grande. Não só esportiva como social. Então você tinha toda uma programação anual para as festas, para as atividades esportivas. E participava de muitas atividades esportivas mesmo. Desde pugilismo, esporte amador como um todo, natação. E o clube formou muitos atletas em destaque na época. E no cenário amador como um  todo. E foi assim muito bom. Foi uma experiência ótima.

P/2 – Esses atletas eram funcionários da empresa?

R – Funcionários lá da fábrica. E então foi uma coisa assim fantástica. Em 1978, 77 por aí, 78, havia necessidade da gente ter como complemento do estudo uma formação universitária. Então eu fiz uma campanha dentro do quadro de funcionários que nós tínhamos como um todo, para que eles completassem os estudos tendo essa formação. Levamos um grande número de funcionários a fazerem a faculdade. Foi aí que eu fiz também Ciências Contábeis, pela Faculdade São Miguel. Foram quatro anos ótimos. Até hoje eu mantenho relacionamento com os donos da faculdade. De vez em quando eles me mandam uma lembrança em casa. Um relógio com o nome da faculdade. Porque eu tive oportunidade, inclusive, de dar um pouco de aula na faculdade também. Então eu era um aluno com mais idade dentro do grupo. Eu sempre fui convocado para isso. Aceitava, dei  despretensiosamente durante algum tempo. Não aceitei porque acumulava muito trabalho. Acabei saindo fora, preferi não dar aula. Mas foi uma passagem ótima também pela faculdade. Uma oportunidade boa para os colegas, funcionários da Nitro terem uma formação universitária também. E foi muito bom. A minha passagem por São Miguel foi maravilhosa.

P/2 – E o papel da Nitro no crescimento do bairro pelo que o senhor está falando é alguma coisa muito ligada.

R – Ah, totalmente ligada. O, a zona Leste, São Miguel, que vai da Penha para a frente, é em função da Nitroquímica. A Nitroquímica levou um contingente muito grande de atividades. Não só na parte industrial mas no desenvolvimento social. Teve oportunidade de trazer também para lá as faculdades e o ensino superior. Isso tudo foi em conseqüência da Nitroquímica. A Nitroquímica teve um papel muito relevante naquela região. E hoje quando se conversa com pessoas que moraram em São Miguel a mais tempo, conviveram lá, todos tem uma saudade assim inacreditável. É uma lembrança alegre do tempo que conviveram. Porque as festas eram realmente fantásticas. Enfim, tudo era muito bem. E a fábrica era uma fábrica que produzia, que oferecia emprego. A saúde também ao pessoal de uma maneira geral. Profissionalização. Então tudo isso foi muito bom. A Nitroquímica teve um papel extraordinário na região. Para o desenvolvimento.

P/1 – Ela oferecia essa base social também.

R – Ah, totalmente. Totalmente. A parte social foi muito bom. Tivemos muitos funcionários que estudaram na escola Senai que tinha lá. Não trabalharam na Nitro, mas foram aproveitados em outras empresas. E isso é algo sensacional. E a Nitroquímica tinha o seu próprio hospital, a sua própria enfermaria. Tinha a bicicletaria, tinha o restaurante, tinha o clube. Então ela tinha toda uma infraestrutura que foi uma filosofia nova. Isso em 1935 era inédito. Era inédito você trazer isso para o Brasil. Mas foi uma formação vinda dos Estados Unidos. A base inicial era francesa, da produção do fio. Mas o maquinário veio dos Estados Unidos. E os técnicos também americanos. Então isso tudo teve um desenvolvimento muito grande na região, e na própria Nitro. Então eu tive oportunidade de ter uma passagem importante pela companhia a nível de colaborar com uma série de atividades, né?

P/1 – Hum, hum.

R – E quando saí eu tive oportunidade de agradecer a todos pela oportunidade que foi dada. De eu ter tido, não só ser contador da empresa, mas terminar na gerência da fábrica, na parte administrativa. Mas também de ter participado de outras iniciativas que a fábrica teve. A Nitroquímica tinha na época se tinha fábrica de tintas, tinha loja no Rio de Janeiro, em Brasília, em Belo Horizonte. Então eu viajava para esses lugares para fazer inventários. Foi uma atividade boa. Depois fechou a fábrica de tintas. Aí fecharam essas atividades. Mas eu participei dessa atividade também. Foi muito bom.

P/1 – O senhor lembra qual era, ela começou produzindo...

R – Rayon, né?

P/1 – Isso, rayon. E ela foi agregando outra...

R – Foi, produtos químicos, malharia e foi desenvolvendo. Trazendo novos produtos e novas técnicas também. Que a tecnologia foi avançando. Então a medida que isso avançava a fábrica foi modificando, foi crescendo. Foi crescendo. E se percebeu algumas coisas, como a produção de explosivos não deu certo. Foi uma tentativa mas teve uma acidente em 50, 49 acabou não dando certo.

P/1 – Houve um acidente com explosivos?

R – Um acidente com explosivos.

P/1 – O senhor lembra assim como é que foi, mais ou menos?

R – É, não foi do meu tempo. Porque aconteceu pouco antes de eu entrar na fábrica. Mas os registros eu acabei manuseando. Então foi um acidente, porque tinha os túneis para se poder produzir explosivos. Para manter a segurança. Então em uma dessas fases acabou dando um incidente e faleceu lá uns 20 ou 30 funcionários nessa explosão. Isso acabou tirando o entusiasmo de se fazer algo, que se pensava em fazer algo até para o país como um todo. E acabou se desistindo dessa atividade.

P/2 – Isso foi na época da Segunda Guerra que se pensou em fazer explosivos?

R – Foi. Foi logo depois da Segunda Guerra, já se começou fazer no final da guerra e se manteve para, porque não se sabia o que ia acontecer (risos). 

P/2 – Pode voltar. Não terminou ainda (risos). 

R – Não terminou, é? (Risos). Mas depois se abandonou essa atividade. E a Nitroquímica foi então crescendo e junto com ela os funcionários também foram se desenvolvendo e dando oportunidades. 

P/1 – O senhor se aposentou em?

R – 89.

P/1 – 89. 

R – É. 89 me aposentei. Na época o diretor de Recursos Humanos, o senhor José Aires ele ofereceu, também em contato com o doutor Ermírio e tudo mais, para que eu fizesse, abrisse uma empresa e administrasse as residências. Principalmente da área do doutor Ermírio. Eu abri a empresa Santa Clara, que está em atividade até hoje. E nós passamos a administrar as propriedades de Laranjeiras, em Campos do Jordão, no Morumbi. E isso correu, acredito, que bem satisfatório. Porque até hoje nós fazemos essa atividade. Os funcionários são da Santa Clara mas todos trabalham nessas regiões. E nós administramos não só os funcionários mas as necessidades também. Então todos os pagamentos, todas as necessidades que tem lá nós fazemos tudo. Acompanhamos tudo. Conferimos tudo. Passamos isso tudo prontinho já. Já tudo administrado. E isso vem funcionando muito bem. Assim, a nível de relacionamento com a família. Isso foi uma atividade muito boa também. Porque eu acabei fazendo depois da aposentadoria. Então eu entrei praticamente em 58, janeiro de 58 na empresa. Nós estamos em 2004, 2005, né? (Risos). E eu ainda estou aí. Então eu tive oportunidade de passar por algumas gerações. Passei pelo doutor Moraes, que na época até o doutor Ermírio teve oportunidade, o doutor Ermírio morou na casa da Companhia São Miguel Paulista. Acho que o doutor Ricardo nasceu na época que ele morava lá. E depois eu trabalhei com o doutor Ermírio. Trabalhei um pouco com, o doutor Clóvis teve uma passagem rápida pela Nitroquímica também. E depois vieram os filhos, doutor Ricardo. Administrou a Nitroquímica uma época. Depois veio o doutor Cláudio. Também trabalhamos com o doutor Cláudio. E agora o doutor Fábio também está participando um pouco das nossas atividades. E a dona Ana, a esposa do doutor Ermírio tem um atelier. Os funcionários do atelier nós também, são funcionários da Santa Clara. O pessoal que trabalha e faz as peças artísticas. Então nós temos a oportunidade de ter essa participação também, né? Começamos lá no começo com o doutor Moraes, passamos pelos filhos, estamos com os netos. E agora vem os bisnetos (risos). 

P/1 – (Risos).

R – Que já estão aí.

P/1 – Já tem?

R – Já estão aí. Uma beleza. A moçada aí.

P/1 – E doutor Wilson, quando o senhor se aposentou a Nitroquímica ainda mantinha essa rede social ou isso com o tempo foi...

R – Ah, não. Ela manteve... Na época que eu estava se mantinha. Então e na época que eu saí a atividade ainda era grande. Para a senhora ter uma idéia o clube da Nitroquímica mantinha uma discoteca aos domingos, na época das discotecas, que era música ao vivo. Ao vivo na sede social. E aos domingos nós desenvolvíamos essa atividade onde comparecia duas mil pessoas, ou muito mais. E começava às sete da noite e ia até a meia-noite. Todos os domingos. E lotava. Então só por aí se vê que era uma atividade que comparecia um grande número de pessoas. E outras grandes atividades. Anualmente nós tínhamos a festa da cerveja. A festa da estudante mais bonita da região. E assim ia se desenvolvendo todos os bailes com música ao vivo. Lá, como presidente, eu levei o Noite Ilustrada e outros cantores da época que eram destaque. E eram apresentados todos ao vivo. Com orquestra, tudo. Porque era uma fase diferente da de hoje. Então se fazia esses bailes todos que deixou muitas recordações. E eram muito prestigiados. O pessoal ia mesmo a esses bailes. E no clube as atividades mais importantes era a prova pedestre que levou o nome inicialmente do avô do doutor Ricardo. E depois passou para Fábio Ravaglia. Onde o comparecimento dos atletas era em grande número. E era uma prova também considerada importante. E além disso nós tínhamos toda atividade esportiva do final de semana começava pelas categorias inferiores até os veteranos jogavam, tudo. E eram equipes boas. Reconhecidamente boas. E toda, as equipes de todas as regiões aqui iam jogar na Nitroquímica porque tinha um estádio bom, um vestiário bom. Tinha uma arquibancada boa. E as piscinas também muito boas. Na minha época, como presidente, nós construímos  o primeiro estádio coberto dentro da Nitroquímica também. Então foi um desenvolvimento muito grande. Mas quando eu saí a Nitroquímica tinha 3.500 funcionários. Tinha 1.500 contratada. Então a fábrica tinha aí 5.000 pessoas funcionando, trabalhando e agitando. Depois houve uma redução porque acabou fechando o rayon. E com o fechamento do rayon mexeu também com a casa de força, com a energia. Então houve uma grande redução. Só de perda de área mais de 40 mil metros de redução de ocupação de área. Então ela se concentrou mais dentro da área química. E aí o número de funcionários foi uma redução drástica. Passou, só um empresário de grande fôlego que faz isso. Porque abrir uma empresa dizem que é fácil, o difícil é fechar. E às vezes o difícil é até reduzir o quadro. E a redução foi muito grande. Passou-se a ter de 10% do que tinha. Passou a ter 350 funcionários (risos). 

P/1, P/2 – Nossa.

R – Então essa redução foi realmente violenta. E modificou todo o panorama de São Miguel como um todo. A tecnologia e a melhoria da fábrica como assim visual, tudo, foi investido. Melhorou, tem um conceito bom de qualidade. E eu tenho ido lá e eu achei muito boa, eu achei ótima.

P/2 – E essas instalações que vocês tinham: piscina, estádio, hospital?

R – Fechou tudo.

P/2 – Fechou tudo.

R – O hospital foi demolido. Na época, e nós colaboramos, para que fosse feito o parcelamento do solo de todas as áreas da Nitro Química. Tanto em São Miguel quanto em Guarulhos. E como eu estava bem envolvido com esse problema do patrimônio, então o doutor Cláudio pediu que eu participasse. Eu participei. E nós desenvolvemos todo o parcelamento do solo. De todas as áreas. E que foram áreas grandes. E essas áreas nós colaboramos também  na venda dessas áreas. Por intermédio da Santa Clara. Tivemos até uma autorização específica de venda de todas essas áreas. E conseguimos realizar a venda, grandes, o percentual maior foram todos nós que vendemos. E para atender as necessidades da desimobilização do patrimônio. Que isso aí gera despesa. Então fizemos esse trabalho que foi um trabalho também interessante, já na Santa Clara. Participando também dessa atividade. Então isso tudo foi conseqüência mesmo de uma expectativa de redução do quadro e de atividade em São Miguel.

P/1 – Nossa, deve ter havido uma revolução no bairro...

R – Uma revolução. É. Eu recebi inúmeros telefonemas assim, de moradores de São Miguel, de ex-funcionários, de pessoas ligadas ao clube com um sentimentalismo imenso. Pedindo de qualquer maneira para que se mantivesse o clube aberto. E não foi essa expectativa. A programação era outra, enfim. Decisão do empresário foge a esses conceitos. Mas a gente sempre tentou administrar da melhor maneira. Porque a gente sempre era uma referência de contato pela atividade que eu mantive dentro do clube, fora então eu sempre tive essa oportunidade. Mas evidentemente acabou sendo uma decisão maior. E o Grupo Votorantim, não só a Nitroquímica, mas outras empresas também foram desativadas por causa da mudança da direção dos investimentos. Da tecnologia que avançou, de outras prioridades também. Que não só as empresas do Grupo Votorantim teve como o país teve também. Então na minha época não se tinha assim um setor específico de tecnologia de informática. Não se tinha um setor específico de energia como tem hoje. E é um setor forte. Não se tinha um Banco Votorantin, que hoje tem o Banco Votorantim. Então passou a ter outras atividades dentro do grupo que não existiam, e algumas atividades que existiam deixaram de existir porque a tecnologia acabaram com elas. Vieram outras formas de produção mais avançadas. E aquelas que existiam deixaram de existir. Então muitas fábricas foram fechadas. E houve necessidade de também da desativação dessas áreas todas. Então a gente tem também colaborado com esse trabalho na Santa Clara, para desativar essas áreas também.

P/1 – Mas pelo que eu conheço da história do Grupo Votorantin, a Nitro Química sempre teve uma identidade muito forte...

R – Muito forte.

P/1 – Eu acho que foi o processo mais dolorido de todos os... em todo esse processo de fechamento.

R – Ah, sim.

P/1 – Porque a Nitroquímica tinha um, tem um, a gente sente até hoje na história...

R – Tem. Tem. Era um empresa que trazia de pai para filho a continuidade da sua atividade profissional. O pai queria que o filho fosse químico para trabalhar na química da fábrica. Queria que o filho fosse esportista para jogar no clube da fábrica. Queria que a filha fosse, isso era assim um orgulho de quem trabalhava lá, entendeu? Quer dizer, ele queria que isso fosse, que isso continuasse assim. E os filhos, muitos deles, trabalharam lá com a gente. O pai foi operário e o filho foi engenheiro, entendeu? Então era aquela, aquele orgulho que o pai tinha de levar o filho a ser aquilo que ele queria, que ele não pode ser porque ele não teve a escolaridade suficiente. Mas ele fez o filho ter para ser engenheiro da fábrica. Então isso muitos casos aconteceram assim. O próprio Benedito Eustáquio o filho dele foi engenheiro da fábrica. E o pai foi um funcionário da área da fiação. Assim, muito respeitado, era um funcionário que não tinha aquela formação técnica que o filho acabou tendo por ser engenheiro mas ele foi sempre muito respeitado. Trabalhou mais de 30 anos na fábrica. Naquele setor. Então, histórias assim na fábrica são muitas. E as famílias tinham orgulho de morar e viver lá mesmo. Porque viviam felizes. Então tem muitas histórias dessas.

P/1 – E hoje existe alguma associação de aposentados? Eles mantêm?

R – É, existe. Existe uma, eu até trouxe um jornal que está aí, da Associação dos Aposentados que eu compareci muitas vezes. Tem jornal aí também. E em São Miguel quando havia festas não só comemorativas de aniversário do bairro de São Miguel, da própria Nitroquímica. E tem um jornal que eu trouxe aí que tem, compareceu o doutor José, compareceu o doutor Antonio, compareceu o doutor Ermírio. Comparece o doutor Ricardo. Foi acho que 350 anos do bairro de São Miguel. Tem esse jornal, eu trouxe, na capela comparece todos o pessoal. Aparece o Zampieri, o Wilson Zampieri que é dono da faculdade. O bispo na época também. Então esse jornal trás toda uma descrição do comparecimento da família. Eu estive presente também. E então é toda uma história que envolve uma ligação muito grande. A Nitro Química teve uma importância grande também porque a Nitro Química em Itapetininga ela produzia o carvão que ia para a Siderúrgica Barra Mansa. E então era uma produção grande que era necessária, que essa Siderúrgica Barra Mansa não dava para tocar sem carvão também. Então isso tudo era produzido nas fazendas da Nitroquímica. 

P/1 – Que estão desativadas hoje?

R – Hoje está com a Citrovita, né? Hoje produz laranja. E é uma que hoje ficou até uma coisa maravilhosa. Eu estive lá já faz alguns anos, mas eu estive lá, e eu tive oportunidade de ver os pomares. É uma coisa linda de se ver (risos). 

P/1 – (Risos). 

R – É, é mais bonito do que a plantação de eucalipto. Porque a plantação de eucalipto eu tenho ótimas lembranças. Porque o eucalipto cresce muito, então fica aquelas avenidas que separa as quadras toda coberta de folhas. A gente caminhava com o Jipe ali, assim com velocidade, porque era um tapete de folhas para se andar. Era uma coisa muito bonita. Mas tinha que se cortar tudo para produzir o carvão. E hoje não, a laranja você planta e tem um pomar maravilhoso. Que hoje se exporta e se deu muito bem. Se deu muito bem a Citrovita está lá em Catanduva, né? (Risos). Mas a produção de laranja é lá em Itapetininga. Então...

P/1 – Era instalação da Nitro?

R – Da Nitro. Era as fazendas da Nitro. Quando eu saí a Nitroquímica ainda tinha 11.700 alqueires lá. Era uma área bastante grande… Com as outras fazendas do grupo. E era uma área que aproximadamente de uns 30 mil alqueires. Então uma área muito grande e extremamente produtiva. Quer dizer, esse é um detalhe importante dentro de um conceito que a gente tem hoje de ocupação de áreas, que a área toda era produtiva. Então isso é uma expectativa que o empresário precisa ter e sempre foi feito assim. Então é importante.

P/1 – O senhor que acompanhou todas essas gerações quais são as diferenças fundamentais que o senhor consegue ver no empresário que o senhor conheceu criando a Nitro e essa geração que está se preparando agora?

R – Olha, eu acho que o Grupo Votorantin hoje é outro. Ele cresceu muito. Quando, na época do doutor Moraes eram empresas básicas, conhecidas e bem identificadas com as necessidades que o país tinha na época. O doutor Moraes era um homem que tinha uma visão ampla. Então acabou, ele acabou desenvolvendo isso tudo de tal maneira que ele conseguiu centralizar e desenvolver isso. Agora, com a mudança que foi gerado não se pode mais se concentrar em uma única pessoa. Uma única, o número de empresas que o Grupo Votorantim tem hoje (risos). Mais de 200 então não dá para agüentar. Hoje tem que ser profissionalizante mesmo. Que é o que está ocorrendo. Então tem que ser para cada cargo um profissional. Profissional hábil, bem pago, responsável e que gera resultados. Isso é importante. E naquela época na maior parte das empresas do Grupo Votorantim a gente não sabe bem porquê, mas é uma realidade, o corpo de funcionários das empresas eram pessoas que se dedicavam com amor, com dedicação. E deu certo. Eu não sei se é por que é uma empresa de origem extremamente nacional. Então tinha aquela bandeira para carregar. Isso deu certo. Hoje não. Hoje com as atividades são muito amplas, então esse pessoal que está aí, se bem que eu não conheço todos, né? Os demais primos. Mas da parte do doutor Ermírio que eu mantenho relacionamento, com o doutor Cláudio, por exemplo, com o doutor Fábio, com o Marcos. Que é um pessoal que a gente se conheceu mais e tem acompanhado mais eles são pessoas extremamente dedicadas. Quer dizer, especializaram naquilo. Sabe cobrar, sabe trabalhar, sabe fazer. Isso não é aquele empresário que manda não. É empresário que sabe mandar porque sabe o que faz. Então é importante isso. E eu pelo menos com esse pessoal novo a gente tem visto isso. Hoje pra tocar essas empresas todas é necessário ter realmente um corpo de funcionários de profissionais. Não se pode mais só ser paternalista. Não tem que ser, encaminhar para o profissionalismo. E eu acho que é por aí que está indo. A grande mudança foi essa. A grande mudança foi essa. 

P/1 – Agora, o senhor sente que algum valor, alguma coisa ainda permanece? Mesmo nesse...

R – Ah, permanece. Permanece. Eu acho que da ramificação dos três irmãos e da irmã ainda mantém esse paternalismo muito forte. Muito forte. Forte mesmo eu sei. Eu sou testemunha disso, porque eu sei como o doutor Ermírio, por exemplo, trata os empregados que são nossos mas que trabalham para eles. Então eu sei com que, eu sei como ele faz. Então é, tanto é que os nosso funcionários que são admitidos para trabalhar com eles só saem por aposentadoria. O, não sai por outro motivo, entendeu?

P/1 – Olha que interessante.

R – É interessante. Quer dizer, eles fazem questão de ficar até o fim, até se aposentarem porque é por aí. E esse sentido de paternalismo já existe arraigado há muito tempo. Eu por exemplo, já fui convocado várias vezes para atender o funcionário que já foi aposentado. Porque o doutor Ermírio manda comprar uma casa e manda dar para ele (risos). 

P/1 – Nossa! (risos). 

R – Isso aconteceu com o Plácido, que foi o motorista do doutor Moraes, depois foi motorista do doutor Ermírio (risos). 

P/1 – Eu entrevistei o Plácido.

R – E eu comprei a casa para ele. O caseiro que trabalhava há 40 anos lá em Campos do Jordão. Seu Sebastião. Nós compramos casa em Campos do Jordão e demos para ele também. Então foi a pedido da família. Quer dizer, é um sentido paternalista. Que existe ainda até hoje muito arraigado. De atender, de, e algumas coisas a gente acompanha dentro do grupo que são interessantes. Em Campos do Jordão há pouco tempo houve uma, um questionamento de um desses irmãos, primos que estão aí agora. O por que é que, acho que a Votorantim pagava ainda uma pensão para uma senhora que estava ainda em Campos do Jordão. E pagava há quanto? Há 40 anos, né?

P/1 – (risos). 

R – Então ele queria saber por que? Então nós fomos levantando. Porque pensava-se que fosse da Nitro Química, mas não era, era da Votorantim. Essa senhora trabalhou em 1940, 41 por aí, na Votorantim. Trabalhou um ano só. Ela adoeceu. E adoeceu e o doutor Moraes  mandou para Campos do Jordão. Só que ela não teve mais condições de voltar a trabalhar. E ela ficou sendo atendida pelas freiras no hospital. E a Votorantin pagou durante esses 40, 50 anos a pensão dela lá. E continuava pagando. Aí nós fomos visitá-la lá em Campos do Jordão e tudo. E essa pessoa ainda estava viva, trabalhando. Então durante o tempo que ela era mais jovem ela ajudava nas atividades e recebia a pensão que Votorantim pagava. Mas ela se agregou ao hospital. E agora ela estava muito velhinha já, sem condições de continuar trabalhando. Então o hospital estava cuidando dela assim como paciente mesmo. Mas de fim de vida. Você viu que interessante? Então essas coisas acontecem dentro da empresas (risos). São particularidades extremamente interessantes. Porque se descobre que...

P/1 – Permanecem.

R – Que permanece, permanece. Eles não cortaram não. Continuam. Não tenho certeza se ela está viva ainda. Porque eu tenho acompanhado todo ano eu faço um acompanhamento sobre esse caso. Não tenho certeza se ela está viva ainda. Mas até...

P/1 – E o doutor António? Eles sabem disso tudo?

R – Sabem.

P/1 – Dessa pessoa?

R – Devem saber, devem saber.

P/1 – Lembram...

R – Não, não lembram (risos). Ninguém mais lembrava. Ninguém mais lembrava. Porque foi um caso isolado. Veio uma ordem do doutor Moraes para pagar e continuou pagando. Continua pagando. Mas não abandonou a pessoa não. A pessoa não tem família, não tem ninguém. E eles cuidam até hoje. Até a última vez que eu, eu tenho um funcionário em Campos do Jordão, pedi que ele fosse lá todo ano para fazer uma visita para ela. Ela já estava de cama o ano passado, retrasado. E a gente faz esse acompanhamento também.

P/1 – Interessante, isso permanece durante a história da empresa toda.

R - Da empresa toda. Foi uma ordem que foi dada, foi cumprida até enquanto ela vivesse. E ela estão pagando até hoje.

P/1 – E o senhor acha que nesse mundo moderno aí que já está e que vem vindo, o senhor acha que as próximas gerações vão conseguir manter?

R – Olha, eu acho que vai ser difícil. Eu acho que as próximas gerações vão tentar fazer as coisas mais estanques. Mais formal. Cumpre-se os deveres, as obrigações tudo direitinho e tal mas de maneira menos paternalista. Eu acho que essa é uma tendência. Porque é uma questão de modernização. E ninguém segura a modernização, né?

P/1 – Sem dúvida.

R – Eu acho que é o caminho. 

P/1 – E hoje se fala em investimento social, em responsabilidade social. Talvez isso seja canalizado para isso, né?

R – É, porque veja bem, o paternalismo hoje ele é muito grande ainda dentro do grupo. Para se ter uma idéia eu tenho ainda atendido alguns pedidos do doutor Ermírio. Então tem lá o caso Parati, por exemplo, que é uma cidadezinha pequena. Mas em Laranjeiras onde tem o condomínio é um pouco fora da cidade. E vivia um pessoal nativo da região. Então sempre surge um caso ou outro de uma pessoa que precisa de um atendimento médico. Volta e meia ele telefona: “Rigo, está acontecendo, vê uma pessoa aí...” “Pode deixar doutor Ermírio.” Então eu fui lá, eu já cheguei a tirar a pessoa da maca, chegou na ambulância de Parati. Por dentro da Beneficência Portuguesa. Carregar na maca, por lá dentro tudo essa pessoa. Internar. Acompanhar a internação, acompanhar o tratamento. Às vezes não um mês, mas seis meses, um ano, dois anos. E até retornar essa pessoa para lá e não é funcionário não é nada. É um pedido que alguém faz e ele atende, manda atender aqui. Isso é comum. Já fizemos isso mais de uma vez. E então a família atende. Sempre que surge um caso que se solicita alguma coisa eles atendem. Vem, nós acompanhamos. Fazemos questão de acompanhar. Acompanhar o retorno. Evidentemente nem todos têm a oportunidade de voltar com vida. Mas aqueles que são tratados aqui, tudo direitinho, retornam, tudo bem. Mas a família atende. Esse que é o grande resultado. Quer dizer, eles nunca dizem não. Chega lá pede, eles atendem e aquilo que a gente pode fazer a gente faz. 

P/1 – E o senhor tem conhecimento de alguns investimentos nessa área social que a Votorantim esteja fazendo hoje? Investimentos enquanto empresa? 

R – Olha, eu, a Nitro Química ela foi uma empresa que investiu muito na parte social. Quando não se tinha esse conceito a Nitro Química tinha essa preocupação e investiu. Então eu acho que dentro das empresas do grupo Votorantim foi a empresa que mais investiu no passado. Depois como houve uma mudança muito grande de se fazer na área de Recursos Humanos, mudou tudo. Então as empresas passaram a não ter mais os seus hospitais, os seus médicos. Então passou-se a adotar os planos de saúde e foi daí para a frente. E nem todos deram certo, mas... (risos). Mas a parte social foi desenvolvida por aí. E então há um sentimento quanto a isso sim. E eu vejo também alguns funcionários nossos que precisam de algum atendimento maior, um acompanhamento de escolaridade, por exemplo, e eles se prontificam a pagar. Nós temos lá um filho de um funcionário que está fazendo a Escola da Marinha no Rio de Janeiro. Eu que quem está pagando é o doutor Cláudio (risos). Então essas coisas eles pagam. Pagam faculdades. Principalmente para o nosso pessoal. Dentro das empresas eu realmente depois que me afastei da Nitro fiquei um pouco afastado do que eles vieram, vinham fazendo. Então eu não tenho mais esse tipo de participação. Não posso mais falar sobre isso. Mas no passado a Nitro Química realmente teve essa preocupação.

P/1 – Agora, só uma curiosidade. Voltando um pouco. O senhor conheceu a sua esposa na Nitro? Lá em São Miguel, não?

R – Não, não.

P/1 – O senhor já foi casado para lá?

R – Eu já fui casado. Eu casei, fui para lá. Tive um filho só. Meu filho fez estágio na Nitro, na área de Informática. Depois resolveu fazer, ele deixou, ele fez dois anos de Engenharia Química. Justamente porque o pai trabalhava lá, né? (Risos). 

P/1 – (Risos). 

R – Depois desistiu e meu filho na época namorava até com a filha de um funcionário da Nitro que trabalhava na área química. Então influenciado: “Ah, eu vou estudar química e tal.”. Depois desistiu, fez Mecânica. Então acabou indo por outro caminho. E eu só também, só tenho um filho e duas netas. Só as meninas.

P/1 – E o senhor não conseguiu fazer ele trabalhar na Nitro (risos)... 

R – Não consegui.

P/1 – Quase. 

R – Quase, é. Ficou lá uns dois anos mas depois saiu e aí tomou outro caminho. E eu só tenho duas netas também. Uma tem cinco anos, outra tem 11. São as meninas mais lindas do mundo. Vão dar um trabalho danado (risos). 

P/1 – (Risos) Moram lá em São Miguel também?

R -  Não, não. Moram em São Paulo. Moram em São Paulo. A minha nora é professora. Então estão encaminhadas.

P/1 – E o que o senhor faz hoje no seu dia-a-dia? Como é o seu dia-a-dia hoje?

R – Ah, o meu dia-a-dia hoje é assim: eu tenho a empresa aqui na Rua Marconi. Para a gente poder prestar serviço para todos esses negócios. Então eu venho pelas sete horas da manhã, eu continuo estando no escritório nesse horário. E faço a parte financeira da empresa. E pela manhã ele logo me procuro comunicar com Campos do Jordão, com Parati. Com a própria residência aqui no Morumbi para saber as necessidades do dia para que acompanhe tudo isso. E não só faço a parte da empresa como o que vem dessas áreas com necessidades de depósito, pagamentos, outras coisas, a gente faz também. Porque a gente acompanha também todas as reformas na área da construção civil tudo. Por exemplo, em Parati tem a residência e depois fora da residência tem uma vila que chama Vila Oratória. Lá tem mais duas casas que a dona Ana comprou para fornecer para os funcionários morarem. Então essas casa precisam de reforma. Recentemente foram reformadas. Acompanhamos tudo direitinho. Então há necessidade de se fazer um acompanhamento em cima de tudo isso. Então eu venho pela manhã, vejo todas essas necessidades, faço tudo isso, acompanhamos. E dentro da Santa Clara no começo nós tínhamos uma quadro grande de funcionários. Tínhamos mais de 40 funcionários. Depois com a mudança da legislação da área de segurança nós deixamos de ter os seguranças. Então houve uma redução dos funcionários. Como eu tenho um sócio só, quer dizer, são só em dois, temos uma contadora e temos uma secretária. Então nós fazemos uma parte da nossa atividade, mesmo porque eu vinha participando do desenvolvimento na área de parcelamento de solo, na área imobiliária da própria Nitroquímica, nós passamos também a ter um pouco de atividade imobiliária. Dentro da própria Santa Clara. Mais trabalhando com a parte de desenvolvimento industrial. Área destinada à empresas, a galpões, a depósitos. Mais essa área. Então nós temos uma atividade também voltado para isso. Quando a gente então se ocupa uma parte do tempo com essa atividade também. Mas a maior parte nós dedicamos realmente a esse grupo de funcionários que exerce as funções dentro das necessidades da família do doutor Ermírio. E às vezes a gente evidentemente atende não só aquilo que a gente tem a responsabilidade de fazer, mas surgem assuntos diversos que a gente corre atrás. Corre atrás por uma questão de afinidade que nós temos, a gente não se preocupa com o ganho. A gente se preocupa em atender. Então é sempre uma preocupação que a gente tem e sempre surgem muitos assuntos diferentes. E alguma solicitação e a gente vai atrás. Uma pesquisa, por exemplo, em Campos do Jordão para saber para se manter a parte de Campos do Jordão, por exemplo, voltado ao turismo. Voltado àquilo tudo, porque a família tem uma área grande lá. Temos os funcionários. É atrás do Morro do Elefante. Eu não sei se vocês conhecem. Tem 18 alqueires ali. Então é uma área grande. E então nós fizemos uma pesquisa de mercado grande. A pedido do doutor Antônio Ermírio para ver se o grupo teria ou não interesse de ampliar de maneira a preservar o ambiente normal que existe hoje lá sem o desenvolvimento atrapalhado, sabe como é que é. Então nós fizemos um trabalho até muito interessante. Encaminhamos isso para o doutor Fábio. E às vezes vêm alguns pedidos realmente, por exemplo: a pesca predatória no Rio de Janeiro. Que envolve aonde tem lá em Parati a residência. Então nós fizemos uma trabalho interessante também porque envolvia a Polícia Federal, para evitar a pesca predatória. Então eu estive em Parati, fui em Angra. Fiz um trabalho interessante sobre isso também. Tive a oportunidade de fazer um vôo de helicóptero também para pesquisar as áreas onde há essa pesca. Isso são atividades que a gente faz na intenção de colaborar também para se manter aquilo que nós temos ainda de bom nesse país. Sem que se aconteçam... (risos). Então essas coisas a gente faz. Surge um pedido a gente corre atrás.

P/1 – Muito interessante, né? Porque são áreas diferentes.

R – Diferentes, diferentes. E a gente faz com o maior prazer. Porque é uma oportunidade que a gente tem também de sentir esses problemas. Então a Santa Clara hoje é uma empresa voltada a atender a família e atendê-los da melhor maneira, né? 

P/1 – E no lazer o que é que o senhor gosta de fazer?

R – Ah, no lazer eu quando posso eu pesco (risos).

P/1 – (Risos) Não é a pesca predatória, né?

R – Não. Não. É aquela pesca esportiva: pesque e solte (risos).

P/1 – (risos)

R – Que é a melhor pesca que tem, né? Que hoje não se pode pescar mais quase nada também. Então quando se pesca tem que soltar também. Então, eu quando jovem ainda tive a oportunidade de jogar um pouco de futebol, praticar algum esporte. Hoje eu tenho uma chacrinha também que eu cuido aqui em Juquitiba. Pequenininha, tal. Mas eu me dedico também a ela. Cada 15, 20 dias eu vou lá dar uma olhada e ver. Eu gosto também. E quando não eu gosto muito do mar. Então o mar é uma delícia (risos). Não só de ver, e você ter o panorama do mar é muito interessante. Então minha parte é mais assim de lazer é essa. (riso).

P/1 – (riso) Quer perguntar alguma coisa?

P/2 – E essa iniciativa da Votorantim que está tentando recuperar a sua história? O que é que o senhor acha disso?

R – Olha, eu participei… Quando eu estava na Nitro Química, o doutor Fábio contratou uma senhora que chamava… o sobrenome dela era Mota. Ela desenvolveu um trabalho muito grande para desenvolver a história da Nitro Química. Eu achei extremamente interessante na época. Foi um trabalho grande. Acredito que até bem feito. Que resgatou muita coisa da Nitro Química. O doutor Fábio tem um livro sobre isso. E ele também montou na época, eu até tenho, eu tenho um jornal que eu deixei aqui também onde eu participei de um coquetel da... para se formar a história do clube. Se resgatar a história do clube também. Esse, e eu não tive acesso a esses livros mas eu sei que o doutor Fábio Ravaglia tem esse livro. E o doutor Fábio ele sempre foi uma referência na fábrica. Ele foi uma pessoa assim, um símbolo de funcionário dedicado e que todo mundo adorava. Quer dizer, então os funcionários, aquele cara que todo mundo aprende a respeitar e gostar. É uma pessoa extremamente dedicada, honesta, trabalhadora. E ele tomou essa iniciativa e fez isso lá. Eu não tive acesso aos livros mas eu sei que foram feitos. Que não foram editados. Mas eu achei muito interessante, tive a oportunidade de colaborar em tudo que foi necessário na época. Porque a minha participação na colaboração foi muito grande. Porque era a documentação da empresa desde a sua instituição e eu tinha acesso a tudo isso. Então eu tive oportunidade de fornecer para ela todo material necessário a fazer esse trabalho. Da nossa área nós demos todo apoio. Foi uma iniciativa muito boa. Eu achei formidável.

P/1 – E o senhor acha que isso está preservado, essa documentação?

R – Está toda preservada. O doutor Fábio tem todo esse material. O doutor Fábio embora tenha se aposentado como diretor da Itaú Cimento, ele continua amando na Nitro Química (risos). 

P/1 – (Risos) É uma identidade forte essa.

R – Muito forte, muito forte. E até na época quando eu ainda era contador da Nitro ele queria que eu fizesse uma formação superior em química. Eu na realidade não tinha nada de formação química, né? (Risos). Então eu acabei, eu cheguei a fazer até o cursinho. Cheguei a fazer, tudo, e freqüentei. Mas eu vi que eu não tinha tendência para estudar aquilo, aquela área de química. Então eu acabei não, não me entrosando e acabei depois fazendo Ciências Contábeis, e tudo mais, e coisa. Fazendo outros cursos superiores mas não mais química.

P/1 – Química. Não conseguiu (risos).

R – Mas ele tomou a iniciativa de me levar para essa área. Então ele realmente é uma pessoa fantástica. 

P/1 – E uma curiosidade. Com toda essa ligação que a Nitro tinha no bairro, esse investimento social, o senhor lembra de caso de greves na Nitro?

R – Ah, sim. Lembro de vários casos. Um deles inclusive o, quem estava comandando a greve era o Almir Pazzianoto (risos). Trombei com ele na portaria da Nitro em uma daquelas atividades grevistas e tal. E, porque havia um movimento sindical muito forte. E o movimento sindical ele nem sempre foi muito, muito, eu diria, justo para a atividade que ele foi criado. Ele foi muitas vezes direcionado para um setor mais político do que voltado a atender o desenvolvimento profissional, o desenvolvimento do interesse do operariado. Então tem esse aspecto também dentro das greves. Mas eu assisti muitas greves. Então ali para entrar na fábrica a gente tinha que brigar primeiro. Ou não podia sair mais (risos). Depois que você entrava você não podia sair. Se você estivesse fora não conseguia entrar. Tinha esses problemas porque havia os piquetes, aquele negócio todo. Mas tudo bem. Eu, passamos por essas fases. E porque tinha setores da Nitroquímica que não podiam parar. Porque perdia-se a produção. O operário entrava e ia dobrando. Ia dobrando a produção porque não tinha como parar. E o sindicato não deixava o grevista, o pessoal que estava fora entrar. O pessoal até queria entrar. Mas às vezes não conseguiam (risos). 

P/1 – E era uma fábrica de segurança, também? Tinha todo um problema de segurança, né?

R – Tinha um esquema total também de segurança. Então não podia deixar de ter seqüência na produção. E uma fábrica que envolvia setores perigosos, como você mesmo diz, que a segurança vinha em primeiro lugar. Esse também é um setor importante. Mas passei por várias greves lá.

P/1 – E a diretoria era aberta à negociação?

R – Ah, sim. Sempre se negociava e tal. Não se chegou assim a extremos. As greves foram resolvidas. Quem mais vivenciou essas greves todas (risos) foi o doutor Hélio. Porque o doutor Hélio era diretor da fábrica. Hélio Fernandez Gonzalez, né?

P/1 – Hélio Fernandez Gonzalez.

R – Ele foi o que mais teve oportunidade de ter um tratamento com esses grevistas, com esse pessoal todo. Mas sempre acabou se chegando a um acordo, a uma solução nessas partes. E as greves foram resolvidas. Feitos acordos, dados os aumentos ou os benefícios. E foram superados. Então  não tinha tanto. A Nitroquímica foi uma empresa que como foi criada em 35 então ela teve fases excelentes e fases que o mercado nacional ou internacional não correspondeu e então ela teve fases não tão boas. Mas teve fases muito boas. Muito boa a Nitro Química. Fases assim muito boa de, e teve fases que não foram boas. Tem esses problemas também. E nas fases que foram boas ela também ajudou muito outras empresas do grupo de uma maneira ou de outra.

P/1 – Muito bem. Bom, doutor, nós estamos chegando ao final do nosso depoimento. Alguma coisa que nós não tenhamos te perguntado e o senhor acha que é importante registrar, alguma passagem?

R – Não, não. Eu diria que desses 31 anos que eu estive dentro do grupo, que eu trabalhei como funcionário, eu diria que a minha atividade foi mais voltada na área administrativa, na área contábil, na área de administração da fábrica, na área jurídica. Onde eu tive oportunidade de sempre participar muito dos processos e orientação na área jurídica também. E então foi assim anos que passaram tão rápidos que agora a gente fala: “Não é possível que tenham passado tão rápidos e tanta coisa.” E tantas lembranças que ficaram e lembranças, e momentos bons. Que nem eu disse no começo: “A gente sabia que vivia e vivia feliz.” Porque se tinha assim uma segurança, uma dedicação ao trabalho. A uma profissionalização daquilo que se fez. E se fez sem muita pretensão em estar ganhando, estar isso, aquilo. Mais uma pretensão em realmente prestar um bom trabalho. Que essa sempre foi a principal intenção. Então eu durante a minha estada na Nitroquímica eu estive voltado a isso. Então eu me sinto assim realizado. E eu vou dizer para vocês uma coisa: eu agradeço a Deus todos os dias a oportunidade de ter me dado, de ter vivido essa vida e ter tido o trabalho que eu tive. Entendeu como é que é? Não me arrependo. Teve um ponto da minha vida que eu tive que optar: ou ser funcionário público ou vir para, preferi vir para as empresas. Não me arrependo. E eu me sinto muito realizado. Vim de família pobre que lutou com muita dificuldade, também tem isso. E nada foi fácil. Mas eu acredito que tudo que se consegue na vida tem que ser com certo sacrifício mesmo. Porque assim a gente aprende a dar valor. Eu tive essa orientação com os meus pais também, que sempre foram muito rígidos na disciplina. Hoje nem todos são (risos). Mas eu tive essa formação, graças a Deus. E religiosa também. Então eu agradeço a Deus. Eu sinto muito feliz por ter dado essa oportunidade de ter trabalhado e com essas pessoas que. Na realidade no Grupo Votorantin a gente aprende a ter cidadania. Aprende-se a ser um cidadão. E não só como pessoa mas um cidadão respeitado por todos aqueles com quem a gente convive. Com amigos de trabalho, com os superiores de trabalho. Ou mesmo com os próprios acionistas donos do Grupo Votorantin. Que a gente teve com o doutor Moraes um relacionamento assim fantástico, que era um homem, tenho algumas lembranças muito boas deles. Mas depois vim com o doutor Ermírio que é uma pessoa que eu sempre me relacionei muito bem. Eu tenho a oportunidade de ir até hoje à casa dele e cumprimentá-lo. A última vez até passeamos juntos no jardim, abraçados. Então são coisas que a gente não esquece. Mas depois quando vieram os netos, não por estar dando esse depoimento aqui não. Mas vocês conhecem também. Vocês sabem. São jovens assim extremamente educados. Então a gente mantém um relacionamento ótimo com esse povo. Então isso tudo é gratificante. Então às vezes me perguntam. Eu falei assim: “Eu tive passagens boas dentro do grupo, tive.” hoje eu guardo como lembrança a carta que quando o doutor Antônio foi candidato que família toda assinou. Eu guardo essa carta até hoje. Convocando para a passeata.” Não sei se vocês têm essa carta?

P/1 – Não, não temos essa carta.

R – Se vocês quiserem eu até forneço. Todos. O doutor Cláudio assinou na época, o doutor Antônio e o doutor José, doutor Clóvis. Todos os filhos que estavam em atividade. Então eu guardo como lembrança que foi uma passeata fantástica da qual eu participei, da qual eu vesti a camisa para que tivéssemos uma outra direção nesse estado. Infelizmente não foi possível. Mas guardo boas lembranças dessa época também. E guardo até a lembrança, as assinaturas para a convocação dessa atividade que foi muito boa. Então isso tudo nos trás ótimas lembranças. Pelo convívio que eu tive e que eu continuo tendo. E sempre foi muito boa. Muito bom com esse povo todo, né? E vocês que, não sei se vocês tem algum convívio maior, ou um conhecimento com eles, vocês vão ver que realmente são todos pessoas assim mesmo. Como eu estou dizendo. Que eu sempre tive essa imagem. Então é por aí (risos). 

P/1 – Tá ótimo.

R – Tá bom?

P/1 – Então nós agradecemos muito seu depoimento, suas lembranças.

R – Não, eu estou à disposição inclusive para mais algumas coisas que eu trouxe. Está aí à disposição. Se for necessário outras também estou à disposição para fornecer, tá ok?

P/1 – Muito obrigada.

R – Muito bom. 



 

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