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História

“A gente não é lixo, a gente é ser humano”

História de: Wilza Santos de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2021

Sinopse

Pais e irmãos. Brincadeiras de infância. Casa de taipa. Responsabilidade e cuidados com a casa ainda criança. Estudos até a quarta série. Pausa nos estudos por conta da gravidez. Sonho em ser professora. Mãe solo. Trabalho em hotel. Trabalho doméstico. Filhos. Mudança para São Paulo, sozinha, em busca de melhores condições. Depressão. Gravidez. Volta para cidade natal e retorno para São Paulo. Trabalho na triagem dos materiais na cooperativa de reciclagem. Preconceito. Conscientização e educação ambiental. Rotina. Netos. Pandemia. Sonhos.

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História completa

P/1 – Wilza, pra começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e o local de nascimento.

 

R - O meu nome é Wilza Santos de Oliveira, eu tenho 48 anos.

 

P/1 – E onde você nasceu?

 

R – Em Oliveira dos Brejinhos, Bahia. E minha data de nascimento é de 1973. 24 de agosto de 1973.

 

P/1 – Quais os nomes dos seus pais?

 

R – O nome do meu pai é Wilson Bastos de Oliveira. O nome da minha mãe é Iraci Araújo dos Santos.

P/1 – O que eles faziam?

 

R – Eles trabalhavam como lavradores.

 

P/1 – E você sabe onde eles nasceram?

 

R – De Oliveira dos Brejinhos, também.

 

P/1 – E como eles se conheceram?

 

R – Minha mãe… meu pai a conheceu na cidade da Barra e meu pai é de Oliveira dos Brejinhos.

 

P/1 – Aham. E você sabe como eles se encontraram?

 

R – Não, não sei te dizer.

 

P/1 – E me fala uma coisa, como você os descreveria? O jeitinho.

 

R – Como eu descreveria meus pais? Que é um doce. O amor da minha vida, minha mãe, meu pai. Isso. Que eu os amo muito.

 

P/1 – Como é a relação de vocês?

 

R – Meu pai e minha mãe? Muito bem, maravilhosa minha relação com meu pai e minha mãe. Todos os domingos eu falo com minha mãe e com meu pai. Tô longe, tô distante deles, mas eu os amo.

 

P/1 – Distantes... Mas vão se falando, mesmo distantes?

 

R – Isso. Mesmo distantes, mas todo domingo eu falo com minha mãe e com meu pai. 

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Quantos?

 

R – Eu tenho seis irmãos.

 

P/1 – Quais os nomes?

 

R – O nome dos meus irmãos? Vou começar pela mais velha: Wilma, Wilson, Wilton, Robério, Jailton, Wilda e Wilza, que sou eu.

 

P/1 – Você é a caçula?

 

R – Não. A caçula é a Wilda.

 

P/1 – Wilda. Você é a mais velha?

 

R – Não, a mais velha é a outra.

 

P/1 – Como é a sua relação com os seus irmãos?

 

R – Muito bem. Graças a Deus, todos.

 

P/1 – Quando vocês eram pequenininhos, tinha alguma coisa que vocês gostavam de fazer juntos?

 

R – Ah, de brincar. Subir no pé de manga. E jogar pedra (risos). A brincadeira com meus irmãos era isso: subir no pé de manga, ficar correndo de esconde-esconde.

 

P/1 – E ainda na infância, você lembra de ter alguma comida, algum cheiro marcante, ou alguma data comemorativa que a sua família costumava festejar? Você lembra de algum costume?

 

R – Lembro, sim. Dia das Mães. Nós festejávamos. Nós fazíamos um almoço pra nossa mãe. E Dia dos Pais.

 

P/1 – Como era esse dia na sua família?

 

R – Nossa, nós juntávamos todos os meus irmãos. Era muito bom. Minha mãe ficava toda feliz, Dia das Mães.

 

P/1 – Vocês que cozinhavam?

 

R – Nós fazíamos o almoço pra ela. Nós mesmos.

 

P/1 – Como era o almoço?

 

R – Como que era? Nós cozinhávamos, nós fazíamos um churrasco, nós preparávamos... não sei se você já ouviu falar, você já ouviu falar em paralelepípedos? Uns paralelepípedos que calça, assim, na rua? Aí nós cortávamos a pedra, fazia, nós “ajuntávamos” o dinheiro, nós “ajuntávamos” o dinheiro, aí nós vendíamos as latas de pedra. Quebrávamos essas pedras, que hoje faz concreto, aquelas pedras. Nós quebrávamos na marreta. Aí nós “ajuntávamos”. Vendia a cinco centavos uma lata. Nós “ajuntávamos” o dinheiro, aí nós íamos comprar as coisas. Comprava a carne, fazia um churrasco. 

 

P/1 – Todo o mundo fazia junto?

 

R – No Dia das Mães. Todos nós. Era muito bom.

 

/1 – Você lembra qual foi o último que foi comemorado, assim?

 

R – Lembro. 2008. Foi bom.

 

P/1 – Ah, legal.

 

R – O último que eu passei, Dia das Mães, com a minha mãe. Até hoje ainda não passei, toda vez que eu planejo não dá certo.

 

P/1 – E, Wilza, você sabe a história do seu nascimento?

 

R – Não. Não sei. A única coisa que eu sei é que minha mãe me teve em casa. Eu nasci em casa, foi parteira. Essa é a única lembrança que eu tenho, que minha mãe falou que ela me teve em casa. Não teve em maternidade nem em hospital, não.

 

P/1 – Seus irmãos, também?

 

R – Todos nós. Foi tudo em casa.

 

P/1 – E você sabe como foi pra escolher seu nome?

 

R – Meu pai que escolheu, porque o nome do meu pai é “Wilson”, então ele colocou todos os nossos nomes com a primeira letra do nome dele.

 

P/1 – E, Wilza, você lembra da sua casa de infância?

 

R – Lembro. Da casa dos meus pais, lembro. Era uma casa feita de taipa. Lembro, sim.

 

P/1 – Como que era? Como que vocês dormiam? Como era lá?

 

R – Sabe como que a gente dormia? Era num… meu pai fazia uma… colocava duas madeiras, dois paus, assim, fincava no chão e pegava aquele saco de nylon e fazia tipo uma rede pra nós. Era assim. Aí depois, com o tempo, fez uma cama de madeira no chão.

 

P/1 – Dormia todo o mundo junto?

 

R – Aham. Dormia todo o mundo junto. Eu e minhas irmãs. Tinha a cama dos meninos e das meninas, tudo separado.

 

P/1 – Tem algum dia que foi marcante, que você lembra da sua infância, na sua casa? Teve um dia?

 

R – Hum, é muito dolorido, não quero falar. Não quero.

 

P/1 – Me fala uma coisa: brincadeiras dessa época, além de você subir no pé de manga.

 

R – Nossa, são muitas (risos). Eu brinquei muito na minha infância.

 

P/1 – É?

 

R – Muito.

 

P/1 – O que você gostava?

 

R – O que eu mais gostava? Era de boneca. Só que naquela época a gente não tinha boneca, não. Era… você conhece alvenaria? Umas alvenarias fininhas? Minhas bonecas eram essas. Aí, quando eu fui começando a ficar com uns treze anos, quatorze anos, aí nós começamos a fazer uns bonecos de pano. Eu, mais minha irmã. Ela está aqui. Ela veio passear, veio me visitar, ficar uns dias comigo. Ela não está aqui, não apresentei vocês, porque ela quebrou a perna. Quebrou o pé, o tornozelo. Aí nós duas rasgávamos as roupas tudo, sabia? Com a tesoura. Cortava, fazia umas bonecas de pano. Eram nossas bonecas. O brinquedo nosso era esse.

 

P/1 – E você lembra da sua primeira boneca?

 

R – Lembro. Foi um tio meu que levou daqui, pra nós.

 

P/1 – Como foi ganhar?

 

R – Era… foi uma Barbie que ele levou pra nós, meu tio.

 

P/1 – E como foi recebê-la?

 

R – Nós ficamos felizes quando ele chegou e deu o presente pra nós. Nós tínhamos o maior zelo com essa boneca, eu e minha irmã.

 

P/1 – Tinham outras atividades que vocês faziam?

 

R – Tinha. Nós tínhamos muitas atividades, porque minha mãe trabalhava. Eu com sete anos... nós, eu mais minha irmã, já cozinhávamos, sabia? Nós já cuidávamos da casa. Porque minha mãe tinha que trabalhar. Minha irmã ainda se queimou tudo, porque era um fogão de lenha bem alto e ela queimou toda a barriga. E eu fui atrás da minha mãe, porque minha irmã estava gritando, toda queimada. Nós já éramos… com sete anos, nós já éramos dona de casa, já sabia fazer tudo.

 

P/1 – Como era a região? Tinha vizinhos, vocês brincavam com os vizinhos?

 

R – Era um distante do outro. Hoje não. Hoje tem muitas casas lá. Mas era um distante de outro. Era na roça, assim. Muito distante.

 

P/1 – E os meninos ajudavam na roça e vocês ficavam em casa?

 

R – Em casa. Os meninos iam pra roça e nós ficávamos em casa, cuidando da casa. Porque meu pai mais minha mãe trabalhavam. Minha mãe trabalhava em casa de família e meu pai trabalhava como gari, recolhendo o lixo na rua.

 

P/1 – E escola, você lembra? Você chegou a estudar lá ou não?

 

R – Estudei lá.

 

P/1 – Que lembranças você tem dessa época?

 

R – Da minha infância de escola? Ah, eu estudei até a quarta série, só. Aí eu engravidei da minha filha mais velha e meu pai teve que me tirar, que eu estava… você sabe que esse pessoal do norte tem muita ‘rigidoria’, assim. Fica… quer prender, não gosta que a filha fique grávida. Aí ele me tirou da escola, para eu poder ganhar a minha menina. Mas depois que eu tive minha filha, aí eu voltei a estudar de novo. Aí depois eu fui mais arrumando filho e filho, falei assim: “Agora eu vou ter que cuidar dos meus filhos”. Agora que eu tô voltando a estudar (risos), depois de velha.

 

P/1 – E no período da escola, você lembra de uma professora que tenha te marcado?

 

R – A professora Fátima, esposa de Santana. Essa que me ensinou bastante.

 

P/1 – O que ela te ensinou?

 

R – Bastante, que eu não sabia ler, ela que me ensinou. Me ensinou a falar, que eu falava tudo errado, ela me ensinou um pouco. A professora Fátima e a professora Cátia. Essas daí.

 

P/1 – E com quantos anos você engravidou da primeira?

 

R – Com quinze anos. 

 

P/1 – Como foi esse momento, pra você?

 

R – Nossa, eu escondi bastante do meu pai. E essa irmã minha que falava assim: “Você vai ter que falar sobre a sua gravidez”. E eu não falei, não. Minha mãe que perguntava: “Que barriga é essa, menina?” Eu falava: “Ah, foi de melancia, mãe!” Aí meu pai descobriu, ele mesmo descobriu. Aí eu fui e falei que eu estava grávida. Foi um momento muito furioso, meu pai ficou nervoso. Queria saber quem foi o homem que eu engravidei. Aí eu fui e falei pra ele. Aí ele queria que a gente casasse, eu era ‘de menor’, não tinha como. Aí eu fui morar com esse homem. Nossa, mas eu… eu era criança, nessa época. Aí depois meu pai foi e me pegou de novo, porque ele começou a judiar de mim, me bater. Aí meu pai me pegou pra morar junto com eles. E continuei com eles lá, meu pai. 

 

P/1 – Você contou pros seus pais?

 

R – Contei. Contei tudo.

 

P/1 – Quando você ganhou a bebê, você ainda estava morando com esse…

 

R – Estava. Todos eles. Aí depois começou a judiar de mim, eu separei dele e fui morar com meus pais. Meus pais me ajudaram a criar minhas filhas. Minha mãe e meu pai. Eu os agradeço muito. Se hoje meus filhos são todos educados, foi meu pai que me ajudou. Meu pai e minha mãe.

 

P/1 – No começo ele ficou bravo, mas depois… 

 

R – Ficou. Aí depois ele se acostumou. Arrumei outra gravidez, ele disse umas coisinhas, aí depois fui arrumando outra, do mesmo homem. E arrumei outra e ele começou… e ele aguentando, aguentando, aguentando. Até hoje, se eu chegar lá com meus filhos, eles me apoiam de novo, meus pais.

 

P/1 – E pra você, como foi o momento de ter que sair da escola?

R – Chorei bastante, porque eu não queria e ele não me deixou estudar. Chorei bastante. Eu queria estudar e ele não deixou. Mesmo assim, grávida, eu queria estudar, mas meu pai não deixou.

 

P/1 – E aí, como era o seu dia-a-dia?

 

R – Só dentro de casa. Ele não deixava eu sair. Do pré-natal pra casa.

 

P/1 – Wilza, eu queria saber, ainda novinha, o que você mais gostava de fazer, quando era pequena?

 

R – Lavar roupa, no riacho. 

 

P/1 – Como que era?

 

R – No domingo minha mãe “ajuntava” as roupas sujas e eu e minha irmã íamos pro riacho. Aí nós terminávamos, colocávamos a roupa no mato, pra secar, e depois nós íamos tomar banho, enquanto a roupa estava secando. Era…

 

P/1 – O que você gostava?

 

R – De lavar a roupa, só isso. E de terminar de lavar a roupa, aí nós íamos brincar. Tomar banho no riacho. Nossa, eu adorava.



P/1 – Era perto da sua casa?

 

R – Não, longe. Muito longe. Era uma caminhada boa. Pegar água na lata, eu também gostava, no jegue. Tudo isso eu gostava de buscar.

 

P/1 – E você pensava o que você queria fazer, quando crescesse? Pensava sobre isso?

 

R – Pensei muito e até hoje eu penso… ser professora. Mas não consegui, não. É isso.

 

P/1 – E por que você queria e quer ser professora?

 

R – Porque eu queria ensinar as crianças. Queria me formar e ser professora. Porque eu achava bonito a minha professora nos ensinando. É isso.

 

P/1 – Queria trabalhar com criança?

 

R – Aham. Com criança de sete anos. Era isso que eu queria.

 

P/1 – E na juventude, como foi começar a crescer?

 

R – A minha juventude, eu não tive nada. A minha juventude foram os meus filhos (risos). Trabalhar pra criar meus filhos. Eu criei sozinha. E meu pai sempre me ajudando. Eu sou mãe de nove filhos. Tem sete vivos e dois mortos. Então, trabalhei pra criá-los. Minha juventude... eu dediquei minha vida aos meus filhos. Hoje tenho… tem três aqui e tem três na Bahia. Uma é formada. Uma é assistente social, lá na Bahia. Dediquei a elas. Minha juventude foi elas. Agora, hoje que eu voltei à minha juventude, porque meus filhos estão criados. Hoje eu vou onde eu quero. Estão todos casados. Agora, se hoje eu morrer, vou morrer feliz. Só falta eu morrer mais feliz é fazer a casa pra eu dar pra eles. Aí vou ser mais feliz ainda. Eu falo pra elas: “Só vou morrer depois que eu fizer essa casa pra vocês. Tirar vocês do aluguel”. Aí eu falei pro Jair: “Jair, já comprei o meu terreno”. Que é o homem lá da cooperativa. E com o dinheiro daqui, que ninguém dá valor ao lixo, né? Com o dinheiro daqui. E vou fazer a minha casa com o dinheiro daqui, também. E vou morrer feliz, deixar meus filhos dentro de uma casa. É isso que eu quero.

 

P/1 – O que seus filhos representam pra você?

 

R – Tudo. Tudo na minha vida. O carinho, o amor que eles têm por mim é tudo. A atenção, principalmente essa daqui, é a mais forte. Sofre também, se eu adoeço, ela sofre também, por mim. Todos eles. Meus filhos são a minha vida.

 

P/1 – Tinha alguma coisa na juventude que você gostava muito de fazer?

 

R – Crochê. Crochê.

 

P/1 – Você ainda faz?

 

R – Faço. Faço.

 

P/1 – Então, você gostava de fazer crochê?

 

R – Eu, é. Eu aprendi a fazer crochê. E doce de calda, também.

 

P/1 – Com quem você aprendeu?

 

R – Foi com uma professora que o governo mandou lá pra Bahia, que eu aprendi.

 

P/1 – Você ficava horas fazendo crochê, cozinhava…

 

R – É. E eu aprendi a fazer crochê com sisal. Não foi com esses barbantes, hoje. Foi com sisal que eu aprendi.

 

P/1 – O que você mais gostava de fazer?

 

R – Eu gostava de fazer bolsas e porta-joias.

 

P/1 – Você vendia?

 

R – Nós fazíamos pra vender. Até hoje eu faço pra vender. Hoje eu sei fazer jogo de cozinha, de banheiro, de… sei fazer tapete. Aqueles redondos, tudo o que é tapete, mandar fazer, eu faço. Vestido, roupa. Tudo eu sei fazer. Aprendi bastante.

 

P/1 – Começou a trabalhar cedo?

 

R – Comecei cedo. Com dez anos eu já estava trabalhando, em casa de família. Minha mãe ensinou.

 

P/1 – Como era essa época?

 

R – Como que a gente trabalhava? É o mesmo de hoje (risos). Em casa de família. É fazer tudo: limpar, cozinhar, lavar, passar. O mesmo. Hoje eu entrei num… eu trabalhei uma vez num hotel e o gerente falou que eu estava de parabéns, porque teve gente que teve que fazer curso pra saber arrumar a cama, pra saber afastar o sofá, pra varrer. Quando eu entrei, o gerente falou que eu estava de parabéns, falei: “Foi a minha mãe que ensinou”. Se a gente fizesse mal feito, limpava a casa da minha mãe, ela batia na gente, sabia? Lavasse a louça mal lavada, batia. Então, hoje, a gente não passa vergonha. A gente limpa… hoje, se eu quiser trabalhar em casa de família, eu sei fazer tudo. Foi minha mãe que me ensinou. Cozinhar, nossa. Adoro cozinhar, também. Tudo minha mãe que me ensinou.

 

P/1 – E você lembra dessa família que você trabalhava?

 

R – Lembro. Só que hoje não estão mais vivos. Morreram. A Dona Santinha, trabalhei. Trabalhei com a Célia, com a Regina, na Bahia. Em casa de família. Lavava, passava e cozinhava. Essas duas, elas são vivas. Se hoje eu chegar na Bahia e elas precisarem de mim, vou continuar trabalhando com elas de novo, que elas adoram minha comida.

 

P/1 – Vocês tinham uma boa relação?

 

R – Tinha. Elas me ajudaram muito. A Regina me ajudou muito.

 

P/1 – E enquanto trabalhava, os filhos estavam com seu pai, com sua mãe?

 

R – É, ficava na casa da minha mãe. Minha mãe cuidava.

 

P/1 – E depois desses trabalhos, o que você fez?

 

R – Aí eu vim pra cá, pra São Paulo, porque eu tinha um sobrinho meu que morava comigo, aí eu vim pra cá, pra São Paulo, trabalhar aqui. Porque estava ruim lá na Bahia, o salário estava pouco, aí eu vim. Eu falei assim: “Eu vou primeiro e depois meus filhos vão”. E foi isso que eu fiz. Consegui um serviço no hotel, de arrumadeira. Fiquei trabalhando, aí depois saí desse serviço e fiquei em casa uns dias, parada. E depois começou a dar depressão, fiquei com depressão. Aí uma colega minha foi e me indicou pra esse serviço que eu tô hoje.

 

P/1 – Mas como foi a vinda pra cá? Quantos anos você tinha?

R – Quantos anos eu tinha? Eu estava com 38 anos.

 

P/1 – Então, antes de vir, você trabalhava em casa?

 

R – Em casa de família, na Bahia.

 

P/1 – Em casa de família. E essas duas mulheres foram as que mais te marcaram?

 

R – É. A Célia e a Regina.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque elas me ajudaram, também, a criar meus filhos. Me ajudaram muito. Essas duas aí que são marcantes na minha vida. Tinha uma senhora também, ela faleceu, que me ajudou.

 

P/1 – Você quer contar um pouquinho como era essa época?

 

R – Aí quando eu tive a Jéssica, aí essa senhora falou assim: “Você quer operar, pra você não ter filho mais?” Eu falei assim: “Eu quero”. E ela me ajudou bastante. Me levou pra outra cidade, mandou a filha dela me levar pra outra cidade, que foi a Dona Janice, que ela faleceu, já. Ela fazia comida e mandava eu levar os meus meninos pra dar a janta, almoço. Me ajudou bastante. A ajudei também, que eu limpava a casa dela, pra ela dar comida pros meus filhos. Tem coisa que eu não quero falar.

 

P/1 – Teus filhos te acompanhavam, às vezes, no serviço?

 

R – Aham. Sempre, eu levava. As três mais velhas, eu levava pra me ajudar a terminar, que tinha outra casa pra limpar. E eu levava.

 

P/1 – Você comentou que perdeu dois filhos.

 

R – Foi.

 

P/1 – Perdeu novinho?

 

R – É, estava… os dois foram uma gravidez de sete meses. Aí eu não sei o que foi. Essa última que eu perdi foi um medicamento que eu tomei, que eu não podia tomar. Aí eu perdi. Estava grávida de sete meses. Mas não foi porque eu quis, não.

 

P/1 – Foi sem querer?

 

R – Foi sem querer.

 

P/1 – E como foi a vinda pra cá? Como você veio?

R – Como que eu fiz pra vir? Eu tinha uma geladeira e uma televisão. Aí eu vendi pra comprar a minha passagem pra eu vir. Foi assim que eu fiz. Vendi minhas coisinhas e deixei meus filhos lá. Eu falei: “Eu vou, vou arrumar um serviço. Aí quando eu arrumar um serviço, eu trago vocês”. Aí foi assim, todos os três vieram. Aí eu pagava a passagem, chegava aqui, não gostava, ficava chorando. Já vai eu de novo mandar de volta, pra ficar com a irmã mais velha. Todos os três foram e voltaram pra cá. Até hoje estão aqui. Estão todos casado, graças a Deus.

 

P/1 – E você lembra como foi essa viagem, quanto tempo de viagem?

 

R – Lembro. São 24 horas daqui pra minha cidade. Eu os mandava ir, tem um rapaz que leva na rodoviária, pra mim. Os deixava lá, com um conhecido meu, que é lá da Bahia. Os levava e os embarcava. Aí, no outro dia, umas nove horas, dez horas, chegava lá na minha Bahia, na minha cidade. Foi assim.

 

P/1 – E você lembra o que você vinha pensando?

 

R – Imaginando a viagem deles?

 

P/1 – Na sua.

 

R – Na minha?

 

P/1 – É.

 

R – Que eles iam voltar de novo. Vai, mas volta, que eles não ficam sem mim. O meu pensamento era isso. Eu falava assim: “Se vocês forem, agora não vou mandar dinheiro, mais, pra voltar”. Mas mãe é mãe. Manda de novo.

 

P/1 – E na sua vinda, no ônibus, sozinha, vindo para uma nova cidade, o que você estava pensando?

 

R – Pensava nos meus filhos. Eu deixar lá. Quando eu cheguei aqui, o primeiro prato de comida que eu comi, eu pensei neles (choro).

 

P/1 – Muita lembrança?

 

R – É forte (choro).

 

P/1 – Quer contar como foi o momento, chegando aqui?

 

R – Queria voltar de novo. E a minha mãe: “Você vai ficar aí, porque você é forte, você vai conseguir”. Foi uma mulher que me trouxe, pra eu trabalhar aqui. Aí eu fiquei. Aí arrumei mais dois filhos, que é a Jéssica e o Paulo Henrique. Aí eu continuei trabalhando. Os ganhei, a menina que eu estava trabalhando aceitou [que] eu trabalhasse grávida, assim mesmo. E aí começou... quando chegou a pior fase, deles irem pra creche. Dele ir pra creche. Porque o menino, eu estava grávida da Jéssica e a menina, não estava grávida. E eu falei: “Sabe de uma? Vou voltar pra minha cidade. E quando meus filhos tiverem grandes, eu volto pra cá”. E aí, quando eles completaram, a Jéssica completou quatorze anos e o Paulo Henrique completou dezesseis anos, aí eu voltei. Tô até hoje aqui, pra cá. Que eu não gosto muito da minha cidade, não. Lá é muito fraco. A gente ganha muito pouco, não dá pra criar filho lá. Lá a gente trabalha o mês todo pra ganhar 150, duzentos. Para criar um monte de filhos, não dava pra ficar lá. Não tem condições. Aí preferi aqui. Com a minha… a minha família, meus irmãos moram todos aqui, em São Paulo. Só ficou eu e a minha outra irmã, mais velha, lá.

 

P/1 – Sua mãe te deu forças pra vir?

 

R – Minha mãe me ajudou. Ela que me ajudou. Ela ficou com meus filhos e eu vim pra cá, em 1994.

 

P/1 – E qual foi o primeiro emprego, chegando aqui?

 

R – O primeiro emprego? Foi em casa de família. Meu primeiro emprego foi em casa de família.

 

P/1 – Como era essa casa?

 

R – Eu trabalhava lá no Bom Retiro. Trabalhei lá dois anos, com a Dalva. Aí ela foi embora e eu arrumei outro serviço, em outra casa, em Guarulhos. Aí eu engravidei do meu menino. Aí a mulher não aceitou. Aí eu vim morar com meu tio, aqui em Pirituba. Vim morar com meu tio, aí depois que eu tive meu menino, arrumei um serviço. Aí depois fui embora, com meus filhos. Foi assim, minha vida.

 

P/1 – Você não ficou com o pai dos seus filhos?

 

R – Não.

 

P/1 – Não deu certo?

 

R – Não deu certo, não.

 

P/1 – E você lembra da primeira impressão que você teve, quando chegou aqui em São Paulo?

 

R – Se eu lembro? Uma cidade muito bonita, que eu peguei com Deus que aqui ia dar tudo certo pra mim. Foi isso. A lembrança que eu tenho quando cheguei foi isso. As pessoas falando muito bonito (risos). Porque o baiano tem um sotaque diferente, e paulista, não. Têm uma voz muito bonita. Tem um sotaque bonito, o paulista.

 

P/1 – (risos) Você gosta?

 

R – Eu gosto.

 

P/1 – E como foi a decisão de voltar pra sua terra?

 

R – A decisão de eu voltar? Foi de eu criar meus filhos lá, porque eu não queria pôr meus filhos na creche. Estavam muito novinhos. Aí eu voltei. E falei assim: “Agora eu só vou vir quando meus filhos estiverem grandes”. A minha decisão foi essa, de eu ir embora, criar meus filhos e voltar quando eles estivessem grandes.

 

P/1 – Mas você gostou daqui?

 

R – Eu gostei, gosto. Até hoje tô aqui.

 

P/1 – E como foi voltar e reencontrar seus filhos?

 

R – Como foi? Foi muito triste, quando eu cheguei lá e achei meus filhos. Porque minha mãe ficou com eles. Tudo grande, aí nem me reconhecia. Foi triste. Tinha uma que nem queria me ver, a Vanessa, essa que é a mãe da Larissa. Se escondendo: “Essa não é minha mãe, não!” Falei: “Sou sua mãe”. Foi triste. E a mãe do Arthur… eu cheguei lá grávida dele. A mãe do Artur.

 

P/1 – Você foi perdendo o contato com eles, é isso?

 

R – Não, perde… naquela época era orelhão, o que tinha aqui. Não era? A gente ligava, só ficava caindo a ligação. Não dava pra falar. Só era com a minha mãe, mesmo. Pra mandar dinheiro, eu tinha que depositar dinheiro. Só falava mesmo com minha mãe. Não dava tempo.

 

P/1 – E como a Vanessa foi se aproximando de você?

 

R – Foi eu cuidando do cabelo dela. Trançando. Aí foi apegando. Mas deu trabalho pra Vanessa acreditar que eu era a mãe dela. “Essa não é a minha mãe, não!” Deu trabalho.

 

P/1 – Aí você trançava o cabelo dela?

 

R – Aham. Foi o que ela foi apegando. Porque eu a deixei pequenininha. Bebezinha. Nenhum deles me reconheceu, porque eu deixei tudo pequeno. Fiquei cinco anos sem ver. Aí depois, eu decidi: “Vou resgatar meus filhos. Vou morar sozinha com meus filhos”. Aí eu arrumei um terreno lá, uma pessoa fez uma casinha pra mim. Falei: “Agora eu vou morar sozinha”. Saí da casa dos meus pais. Falei: “Vou enfrentar a vida sozinha”. E foi isso que eu fiz, até hoje. Tô só, com meus filhos.

 

P/1 – Como que foi essa… não sei se é bem uma “decisão”. Mas como foi esse momento de sair de casa, com os filhos?

 

R – Foi assim, foi eu e minha irmã. Ela também tinha os filhos dela. Ela falou assim: “Nega, já está na hora de nós pararmos de ficar dando trabalho pros nossos pais. Vamos caçar um lugar pra nós e não ficar mais precisando de pai e mãe. Nós já somos ‘de maior’, nós já temos nossos filhos, nós é que temos que cuidar dos nossos filhos”. Falei: “Isso mesmo. Vamos”. Nós saímos, eu e ela com os filhos dela e eu com o meu. Nós fomos morar as duas, tudo junto, nós duas. Fizemos isso.

 

P/1 – Onde era?

 

R – Lá onde nós estávamos, lá na Bahia. Na nossa cidade, Oliveira dos Brejinhos. Aí nós saímos dessa casa, veio esse Bolsa Família pra ajudar e nós fomos alugar uma casa, mesmo, de verdade, porque a gente morava numa casa de palha, assim. Você já ouviu falar em casa de palha? Eu morava assim, mais ela, numa casa de palha. Aí veio esse dinheiro do Bolsa Família: “Nós vamos alugar uma casa. Juntando o meu dinheiro e o seu, dá pra nós morarmos”. E foi. Nós tomamos nossa decisão. Hoje ela tem a casa dela, lá na Bahia e eu tenho a minha. Foi melhorando a nossa situação. Mas foi doído. Foi muito dolorido, muito sofrido. A gente via o pai da gente trabalhando, se esforçando. Meu pai, correndo atrás, porque ele é catador de lixo, recolhe lixo na cidade. Deu tanto duro pra nos ajudar a criar os nossos filhos, agora está na hora de nós sairmos do pé deles. Tomar vergonha na cara e parar de deixar nossos pais sofrerem.

 

P/1 – E como é a sua relação com essa irmã?

 

R – Muito boa (risos), graças a Deus. Nós duas nos amamos. Ela está aqui, não tem como apresentar vocês, que ela está com o pé quebrado e ela está em outra casa, que lá tem mais… não tem muito degrau pra ela estar “coisando”. Mas ela veio ficar uns dias comigo, chegou aqui, levou uma queda e quebrou o tornozelo. Mas nós duas nos amamos, de verdade. Nós somos muito apegadas, nos damos muito bem, eu e minha irmã. Não posso ir vê-la, ela vem me ver (risos). Quando a saudade bate, ela liga: “Nega, tô indo!” E é assim.

 

P/1 – Como foi, nessa nova casa, criar todos os filhos juntos e sobrinhos?

 

R – Foi muito bem. Muito bem. Aí ela veio pra cá também, viu? E eu fiquei lá na Bahia. Ela ficou nove meses: “Vou lá trabalhar na casa de não sei quem, que quer que eu vá”. Ela ficou nove meses aqui e eu fiquei com os filhos dela, que são cinco dela e esses. Foi muito sofrido. Nós já sofremos muito, eu mais ela, mas nós nunca abandonamos uma à outra. Aí outra vez eu vim e deixei meus filhos com ela, também, pra cá. E hoje tenho um sobrinho meu, também, que está aqui. Vai e volta, viaja e depois volta, fica com a gente. É assim: quando um meu quer ir, fica com ela lá na Bahia. Uma ajuda a outra. Nós duas somos assim.

 

P/1 – E depois dessa casa, como foi seguindo a sua vida? Aí você veio pra São Paulo de novo?

 

R – Aí eu vim pra São Paulo. Foi isso que eu fiz, porque as pessoas que me ajudavam, dois morreram, que era um casal de idoso que me ajudava. E a outra mulher, o marido dela faleceu, que ele trabalhava numa empresa lá e o marido dela morreu, aí não teve como ela me pagar mais, pra eu trabalhar. Não tinha condições de me pagar. Aí foi [quando] eu tomei minha decisão de vir pra cá, porque não tinha condições dela me pagar, eu falei: “É, vou ter que caçar outro lugar pra trabalhar, que eu tenho que acabar de criar meus filhos”. E foi assim que eu fiz, tomei uma decisão e vim.

 

P/1 – E aí você veio sozinha de novo?

 

R – Sozinha (risos). Viajei só e deixei eles lá.

 

P/1 – Chegando aqui, o que você foi fazer?

 

R – Chegando aqui, eu trabalhei num hotel, aí não deu certo. Aí fiquei tão preocupada aqui, pagando aluguel: “Meu Deus, o que eu vou fazer?” Já dois meses atrasado. “O que eu vou fazer?” Pronto, já começou uma crise de choro em mim, com medo de ir morar na rua, com meus filhos. Aí foi onde eu conheci uma colega minha, lá na nessa rua que eu morava. Não era aqui não, morava lá no Cantagalo. E ela falou assim: “No meu serviço está pegando gente!” Aí eu falei assim: “Tá?” “Mas lá é lixo. Você tem coragem de trabalhar?” Eu falei: “Pelos meus filhos, fia, eu vou catar até lixo. Não quero deixar meus filhos passarem necessidade”. Aí ela falou assim: “Então, vamos”. E isso foi bem numa segunda-feira. Aí chegou lá, eu fui pra fazer a ficha e o Cláudio falou assim: “Não, você já fica trabalhando”. Já me deu um uniforme lá, já vesti, aí me levaram pra conhecer lá o serviço, aí falou assim: “Aí amanhã você traga seus documentos todos, porque você vai continuar com a gente”. Aí eu falei: “Ai, meu Deus, que bom!”. Aí eu fui enfrentar lá na esteira, trabalhar com a esteira. Aí todo o mundo: “Tá gostando?” e eu falei: “Tô amando”. E tô até hoje. E agradeço ao Jair e a Cristiane, por terem me dado essa oportunidade. Lá eu me sinto muito bem, sabia? Tem gente que fala que fica rezando pra demorar pra chegar a segunda-feira, eu falo que fico rezando que chegue logo a segunda-feira, pra eu ir pro meu serviço, porque tem gente lá que trabalha com… porque a gente precisa, mas também ali tem que ter força de vontade. Tem muita gente que vai e desiste, que tem nojo de trabalhar com lixo. Eu não tenho nojo, não. Não tenho. Tem muita gente que chega assim: “Ai, isso aqui, esse serviço aqui, não é pra mim, não. Desisto”. Tem gente que chega lá e não tem coragem, não, sabia? “Aqui não é meu ramo, aqui não é pra mim, Deus me livre, como vocês aguentam trabalhar com isso?” Tem gente que fala isso. Já falaram, muitos. Teve um outro que passou mal, lá. Não aguentou. Falou assim: “Vocês são muito guerreiros de trabalhar num lugar desse”. Continuo até hoje. Tem gente, tem pessoas que entraram ali, que eu sempre… “Tá lá naquele serviço?” “Tô. De lá eu só saio quando o Jair disser assim: ‘Eu não quero mais você trabalhando aqui, Wilza’. Enquanto eles tiverem me querendo, eu tô lá”. Até hoje.

 

P/1 – Foi muito diferente da experiência que você tinha tido antes?

R – Muito, muito. Quando eu entrei lá, estava com começo de depressão. Foi muito bom pra mim, porque ali é uma psiquiatra, assim, na mente da gente, sabe? Separar as coisas, os materiais, fazer triagem. Ali é onde eu fui distraindo minha mente, tirando aquelas coisas ruins da cabeça. Um dizia assim: “Isso aqui é Pead, é PP. Isso aqui, Wilza, é… como é? É metal. Isso aqui é…”, falando os nomes das coisas. Aí foi onde eu aprendi. Isso aqui é sucata, é PP, é Pead. É… quer ver? Vários nomes dos materiais. “Treta Pak”. “Treta Pak”, que é o leite.

 

P/1 – A embalagem longa-vida?

 

R – É. Essa separação aí. Pead, PP, sucata e material fino, vocês sabem o que é? Fio de energia, essas coisas e alumínio, que é material fino. Essa separação foi a minha distração da minha cabeça, foi isso aí. Lá foi onde eu encontrei uma nova vida, uma nova família, porque lá eu tenho todo mundo como a minha família, não tenho como estranhos. Lá eu considero todo mundo uma família. Porque ali tem que ter pique de vontade, mesmo, pra trabalhar. Não são todos que querem trabalhar naquilo, não. Hoje nós estamos com cinquenta pessoas lá. Quando eu entrei parece que era só quinze. Hoje tem cinquenta pessoas e todos gostam. Está crescendo, a nossa cooperativa. Está crescendo bastante.

 

P/1 – Você fez amigos?

 

R – Tenho. Tenho amigo, tenho irmã, tem tudo lá! (risos) Tudo. Tem várias amigas lá, que eu amo de verdade. São todas senhoras: a Zilma, a Isabel, o Décio, que é um homem, o Slay. O que mais? A Rosângela. A Morgana. Tem muito. Tem que contar (risos). Tenho vários amigos lá. E mais, mais, minha amiga de coração mesmo, de verdade, é a Cristiane, a esposa do Jair. Que é tudo pra mim, é um tudo pra mim. Que eu já passei muito estresse, também, lá, sabe? E aí, num momento de fraqueza, a gente quer sair e ela dá conselho pra gente. Às vezes a gente altera com um colega de trabalho, e eles te chamam, têm paciência e com paciência a gente vai indo. E com isso já tem sete anos que eu tô lá, sete anos.

 

P/1 – Ela gosta de conversar com você?

 

R – Gosta. O Jair também. Eles, às vezes, compreendem que ali também é… às vezes, trabalhar com lixo não é fácil, não, fia. A gente passa por muitas coisas, entendeu? Mas ali tem coisa que o pessoal mais velho fala, que lixo é carregado. Então a gente tem que ser forte. A gente tem que entender o lado das pessoas. E tem muitos que não entendem. Tem outros que entendem. Pra trabalhar com aquilo ali a gente tem que ter pique de vontade, mesmo. Eu pensava que eu não ia gostar não. No começo, ai, meu Deus, eu não conhecia o que era PP, eu não sabia o que era Pead, eu ficava perguntando pras pessoas me ensinarem. Eu não quero ficar trabalhando aqui, mas pelo jeito acho que eu não vou passar na experiência, porque eu não sei. Aí foi com a Zilma, que me ensinou: “Ó, Wilza, isso aqui é PP, é Pead, tã tã tã”. Quem fica no final, às vezes não dá conta e o material está descendo. Eu já acostumei com tudo isso. Dedico minha vida ali. O dia em que eu não… eu fiquei seis meses encostada. E toda hora eu estava ligando pro Jair, querendo voltar. E não podia, porque a gente estava recebendo pelo Inss e ele falava assim: “Acalma, deixa o perito dar alta pra vocês”. Ficava ligando, que eu queria voltar a trabalhar logo. Fiquei seis meses, quase _____ aqui dentro de casa, querendo ir logo para o meu serviço. Eu queria cancelar esse dinheiro do Inss, que eu queria voltar a trabalhar. Minhas meninas: “Calma, mãe, está chegando”. Minha filha trabalhou lá, também, comigo. A mãe da Larissa. Ela não gostou, não. Ficou três anos. Que lá a gente não trabalha registrado, não sei se vocês sabem. A gente não trabalha registrado, não. E minha filha falou: “Ah, eu quero trabalhar registrado”. Mas ela não saiu porque ela não gostou, entendeu? Ela saiu porque queria trabalhar registrado, porque ela nunca trabalhou. Ela queria ter um registro na carteira. E ela está trabalhando registrado, hoje.

 

P/1 – E você se machucou?

 

R – Se eu já machuquei lá? Não, a minha cirurgia foi de umas varizes, que estavam me incomodando [para] trabalhar. 

 

P/1 – De pé, muito de pé?

 

R – Aham. Muito em pé. Aí eu fiz cirurgia. Mas lá eu nunca machuquei não, só uma vez, um cortinho que eu tive. Eu presto bastante atenção.

 

P/1 – E como foi voltar, depois da cirurgia, pra lá?

 

R – Eu voltei agora no mês de junho. De julho.

 

P/1 – Ah, é recente.

 

R – Tem dois meses que eu voltei. Cheguei, achei pessoal novo no serviço. Foi bom. Quando eu voltei, todo mundo: “Ah, Wilza!” Todo o mundo ligava: “Volta logo, Wilza, está fazendo sua falta aqui”. Não tem coisa boa... não tem coisa melhor do que o pessoal ligar e dizer assim: “Volta logo”, né?

 

P/1 – Antes de você entrar lá na cooperativa, você teve uma experiência no hotel.

 

R – Foi.

 

P/1 – Foi esse que você ficou quatro dias, só?

 

R – Não, esse foi lá na Barra Funda, não foi num hotel. Foi num… limpando escritório. Não tem uns prédios ali em frente do Palmeiras? Fiquei só quatro dias. Não me senti bem lá. Não me senti bem. Além de limpar as mesas, o pessoal da mesa ficava olhando, assim, pra mim eles estavam dizendo: “Ai”, olhando a minha cor. Botei na cabeça que aquilo ali não me fez bem, não. Ali, não. Fiquei só quatro dias lá. Eu falei pro… liguei pro escritório, que eu não podia trabalhar mais lá, que eu não queria ficar mais. Eu fui até devolver o dinheiro do Vale Transporte. Levei e eles falaram assim: “Não, o dinheiro pode ficar pra você. Pela sua honestidade. Porque tem gente que recebe, não trabalha e nem devolve”. E eles até me deram o dinheiro do Vale Transporte, pra mim. Eu não gostei de lá. O povo olhava pra mim com uma cara de nojo. Pra mim, eu não me senti bem, lá.

 

P/1 – Você nem chegou a falar com eles, disso?

 

R – Não. Eu cheguei e falei com minha irmã, a outra que mora lá no Cantagalo. Falei: “Não gostei, não. Parece… não sei se é a minha cor, o povo não foi com a minha cara”. Eu falei assim com minha irmã: “O povo não foi com a minha cara”. E minha irmã: “Você não vai ficar em serviço nenhum”. Falei assim: “Vou. Um dia eu arrumo um serviço que eu vou ficar certa”. Tô até hoje na cooperativa de reciclagem. Trabalho com tanto amor. Me dou tão bem lá.

P/1 – E aí você saiu de um lugar que se sentia super mal, pra ser muito bem recebida...?

 

R – Aham. Eu trabalhava com tanto medo que teve o segundo dia, já a supervisora chegou, porque lá nós não temos encarregados pra estar gritando com a gente. Lá, não. Onde eu tô trabalhando hoje, não tem encarregada pra gritar [comigo]. Lá a gente é tratada com amor. É com amor. Eu apavorei tanto, que eu quebrei o suporte de papel do banheiro, porque ela falou assim: “Você ainda não terminou isso aqui?”

 

P/1 – No escritório?

 

R – Sim, nesse escritório que eu trabalhei. “Você ainda não terminou esse banheiro?” Eram quatro banheiros pra eu lavar. Eu tinha acabado de entrar, que eu era da… eu entrava das duas às dez. Duas e meia, era pra eu lavar quatro banheiros, tudo grandão, não dava conta, às duas e meia, estar esses quatro banheiros. Apavorei, lavando nas carreiras, quebrei. Também nem pisei meus pés lá, nunca mais (risos). Lá, eu limpando na carreira, fui pôr o suporte, quebrou a peça de pôr o papel. Nunca mais pisei meus pés lá. Aí eu liguei pro escritório, avisando que eu não ia mais. E lá na cooperativa não, só o que a Cristiane… só o gesto dela falar comigo, ela já me trata com amor. É lá que eu tenho o amor, da Cristiane. Tem paciência com a gente, a Cristiane. O Jair também, tem paciência. Às vezes a gente… não é todo dia que a gente chega lá bem. Às vezes a gente chega estressada. Eles conversam com a gente. Lá a gente… eu tenho amor nessa cooperativa. Eu tenho o carinho de muita gente lá dentro, eu sei que eu tenho. Lá eu me sinto bem.

 

P/1 – E aí, quando você chegou lá, você já contou isso, o que tinha acontecido com você. Ter esse espaço pra abertura… 

R – É, eu já contei com muita gente lá. Pra muita gente. Todo mundo sabe, lá, minha vida, como foi, como não foi. E essa menina que me indicou lá saiu, ela ficou cinco anos fora, lá e depois voltou de novo, está lá. Falei: “Aqui é nosso lugar, nega ‘véia’”. E aí eu conversei com a Isabel, pra pegá-la de volta, né? “Pega, que ela está até hoje sem trabalhar”. Cinco anos, ficou sem trabalhar. Falei: “Aí, foi na onda da sua mãe”. A mãe dela não queria ficar, que o dinheiro era pouco. Falei: “Pouco. Pouco, mas está dando pra a gente viver. Meus filhos nunca passaram fome. Pouco, mas está dando pra pagar aluguel, está dando pra sobreviver”. A mãe dela tirou e depois ela ficou arrependida e eles não pegaram ela. Ela não voltou mais lá, e depois, quando a gente falou que lá o salário tinha aumentado mais um pouquinho, que dava agora pra ela trabalhar: “Manda ela ir lá, pra ver se eles não pegam ela”. E aí pegou, graças a Deus. Ela tem dois anos já, lá, com a gente.

 

P/1 – E, Wilza, você estava falando que muita gente entra e sai lá, né? Os cooperados.

 

R – É. Tem cooperado que não fica, que não consegue trabalhar. Tem uns que tem ânsia, têm nojo. Tem muitos que entram lá e não ficam, têm nojo. Fala assim: “Ah, isso aqui não é meu ramo”. Quando a gente morrer, a gente não vai levar nada, filho. A gente vai tomar terra na cara, só isso. Tem muitos que falam: “Ah, aqui não é meu ramo, não”. Teve uma menina mesmo que entrou e passou mal lá. Eu nem passo, não. Vocês não... você já foi na cooperativa de reciclagem? Você viu como é lá, o serviço? Eu adoro trabalhar ali. Adoro. 

 

P/1 – E como é, pra você, ouvir essas pessoas, às vezes, comentando isso? Você conversa com elas?

 

R – A gente conversa. A gente conversa com as pessoas. Mas aqui é assim mesmo. Aqui tem vezes que a gente vê rato. Rato morto, cachorro morto. Aí teve um dia que a mulher falou bem assim, que teve uma menina que estava com nojo, aí a mulher falou bem assim com ela: “Daqui a uns dias só falta vir uma cabeça de gente, aqui” (risos). Aí que a menina apavorou e não ficou, não! (risos) Não ficou. Aí é que ela… só ficou só um dia. Aí eu falei: “Isabel, tu correu com a menina” (risos). É muito bom, lá.

 

P/1 – Você já achou alguma coisa inusitada, bem diferente?

 

R – Não. Não. Mas às vezes vem cachorro morto, gato. Porque às vezes tem uns moradores... que nós não deveríamos receber isso, que às vezes tem que tirar foto e mandar pra esses prédios. Tem morador que embala, embala, embala bem embalado e a gente não sabe o que é, quando vai abrir, é uma surpresa. Mas depois a gente tira foto e envia, que não pode, nós não podemos receber esses materiais. Mas lá não é fácil, não. Mas é gostoso (risos). Pra mim, eu adoro lá.

 

P/1 – Já achou algo bom?

 

R – Já. Muita gente já achou.

 

P/1 – Tipo o quê?

 

R – Eu já achei duas notas de euros. Ouro, assim, aliança, essas coisas. É. Eu achei duas notas euros, foi até a Cristiane que trocou pra mim. De cinquenta euros, duas notas de cinquenta, deu quatrocentos e pouco. Tem gente que acha coisa boa lá no lixo. Dólar, essas coisas. Acha muito, lá.

 

P/1 – Wilza, me conta uma coisa: como funciona esse seu trabalho? Na cooperativa tem coleta, né? Tem caminhões que coletam o material…

 

R – Tem. Antigamente, quando eu entrei… eu já fui até coletar na rua, sabia? Corria atrás, jogando saco de lixo. Eu já trabalhei também, lá. Quando eu entrei.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Ah, aí eu fiquei só uma semana, só, trabalhando. Mas foi muito bom.

 

P/1 – É?

 

R – É, coletar assim, na rua. Tem uns caminhões. Aí tem uma turma que faz a… escolhe as pessoas que vai. E eu, curiosa, eu queria saber como é, aí eu pedi pro Jair mais a Cristiane, que eu queria trabalhar na rua um dia, pra eu ver como é. E eu fui, trabalhei uma semana. Aí tinha uma outra menina, que era mais forte, ela aguentava pegar o sacão pesado, que é de vidro, é muito pesado, eu não aguentava. Falei: “Cláudia, pega lá, que aquele lá eu não aguentei, não” e ela jogava em cima. Os mais leves eu ia pegando, os pesados eu deixava pra ela, pra jogar em cima. E o motorista ia andando e a gente correndo atrás do caminhão e jogando saco de lixo. Já trabalhei também. Agora, hoje, nós temos uns caminhões que a gente é conveniado com a prefeitura e eles passam os materiais pra gente. O ______ eles ajudam a gente nessa parte. Hoje não tem mais aqueles caminhões pra gente estar na rua, fazendo a coleta. Hoje a gente recebe a coleta pela prefeitura.

 

P/1 – E essas coletas são de condomínios?

 

R – É, de condomínio.

 

P/1 – Só condomínio?

 

R – É. Só condomínio, essa coleta que a gente recebe.

 

P/1 – E aí, como funciona? Vocês recebem o material…

 

R – Aí nós recebemos e nós vamos triar esse material. Nós fazemos a triagem, aí depois vai pra uma prensa, vai prensar, aí depois vai pra vendagem.

 

P/1 – Você faz a prensa, também?

 

R – Tenho vontade de trabalhar na prensa, pra prensar. Nunca fui, ainda. Só na triagem, mesmo, que eu trabalho. Mas eu tenho vontade. Essa semana, mesmo, a gente estava falando sobre a prensa. Falei assim: “Se eu for trabalhar na prensa, oxi, eu vou botar o chicote pra estralar naquela prensa, hein!” Eu tenho vontade de trabalhar. Tem muitas pessoas, mas como eles colocam, assim, as pessoas mais, que têm mais experiência para fazer mais fardos. E como eu sou bem na triagem, trio bem, eles preferem a gente lá, pra triar também porque, se nós não triarmos, nós não produzimos pra prensa. Então, tem que ter gente que trabalha bem na triagem.

 

P/1 – E a triagem separa pelo tipo de material?

 

R – É. Eu tô na apara. Já ouviu falar apara? Que é a sacolinha. Eu tô nessa aí. E na Bopp. Eu trabalho nesses dois.

 

P/1 – Qual é esse?

 

R – Bopp? É pacote, saquinho, pacote de salgadinho, bolacha, chocolate. Essas coisas que eu pego.

 

P/1 – Material com plástico?

 

R – Isso. Tem vezes que tem um sorteio. Às vezes eu caio no leite, que é a Tetra Pak. Eu caio nesses aí, tem vez, também. Tem um sorteio pra ver onde a gente vai cair.

 

P/2 – Eu percebi, na outra cooperativa que a gente foi, que eram todas mulheres, na parte da triagem. Tem algum motivo? A mulher é mais atenta?

 

R – É. Na nossa, também, são várias mulheres. Só tem dois… três homens, na triagem. A mulher é mais, é… desenvolve mais. A mulher desenvolve mais, na produção.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Eu mesma, eu tenho por mim, que eu desenvolvo muito. Bastante. Eu produzo muito.

 

P/1 – E você sabe se é um diferencial da cooperativa que você trabalha, trabalhar com embalagens que têm plástico? Ou não?

 

R – Se é um diferencial?

 

P/1 – É.

 

R – Não. Pra mim, são todos iguais. Todos. Não… pra mim, não tem diferença nenhuma no trabalho, que eu já me acostumei mesmo. Trabalhei com todos os materiais que tem lá, eu já trabalhei. Então, pra mim não tem diferença nenhuma. São todos iguais, pra mim.

 

P/1 – E você sabe se as pessoas, de uma maneira geral, assim, a sociedade, sabe da importância de reciclar materiais tipo salgadinho, bolachas, que você estava falando?

R – Olha, pra falar a verdade, tem muitos que não sabem a importância que é. Tem muitos que não sabem. É a verdade. Eu falo, porque tem gente que pergunta: “Você trabalha onde?” “Eu trabalho numa cooperativa de reciclagem” “E o que é isso?” Não sabe, né? Pra perguntar o que é isso, o que é reciclagem. Tem gente que não sabe. Tem gente que não sabe, é a verdade. Aí eu vou explicar: “É uma cooperativa de reciclagem, é lixo, sabe esses lixos que tem na rua? Aí vai pra nossa cooperativa e nós vamos reciclar”. Aí eu tenho que explicar o que é. “Esses sacos de lixo que você joga aqui, é isso que nós vamos triar”. Tem muitos que não sabem, não. Tem gente que não sabe nem o que é o material. Entra lá, a gente tem que ensinar, porque não sabe o que é. Tem gente que eu falo: “Olha no fundo de uma Tupperware, que você vai saber o que é, o que está escrito ali dentro. Você vai ver duas letrinhas e você vai me dizer”. Tem gente que chega aqui em casa e eu falo: “Leia o que tem aí no fundo e você vai ver: é PP”. É, muita gente… já fiz isso aqui em casa, ver o que é. Que eles chegam me perguntando, colega vem pra cá: “Você tá trabalhando onde?” “Numa cooperativa de reciclagem”. Eu tenho umas primas que moram em Osasco: “Você trabalha aonde?” “Numa cooperativa de reciclagem” “É o que, mesmo, reciclagem?” “É lixo”. Eu falo. Não tenho vergonha. A partir do momento em que eu fui pra rua… e outra: que eu fui pra rua trabalhar no caminhão, meu filho. Vergonha é roubar e não poder carregar. E é um serviço digno. É isso.

 

P/1 – Antes de você começar a trabalhar com reciclagem, como você enxergava isso? Mudou depois que você começou a trabalhar?

 

R – Mudou, mudou. Eu enxergava o lixo. E hoje, não, pra mim é tudo dinheiro que nós jogamos no lixo. Pra mim, hoje, tudo é dinheiro. Eu mesma, na minha casa, eu não jogo mais. Eu ajunto e vou vender também. Eu não jogo mais o lixo, que nem, tem material dentro de casa, Tupperware e essas coisas, que a gente jogava no lixo e hoje eu sei que não é. É dinheiro que nós estamos jogando no lixo. Tem muitas coisas que a gente joga no lixo e ninguém sabe que é dinheiro. Muitas.

 

P/1 – O que você acha que deveria acontecer, pra que mais pessoas tenham consciência disso?

 

R – O que eu acho? Se todos fizessem isso, tivessem consciência, a humanidade era mais limpa. Nós teríamos uma humanidade bem melhor, de todos. Limpar o planeta. É isso.

 

P/1 – O que você acha que tem que ser feito pra ensinar as pessoas a fazerem isso?

 

R – É mostrar. Mostrar pro Brasil todo, pra todo mundo ver. Chega gente lá filmando, eu não tenho vergonha. Eu quero que todo mundo saiba como é, a importância pra nós isso aí. Eu não tenho vergonha, fico de frente da câmera, não tô nem aí. Tem umas que vira a cara, que não quer mostrar. Eu não, me mostro. Porque eu não tenho vergonha. Não tenho, não.

 

P/1 – E aqui, com a sua família, você conversa sobre isso? Amigos, já vai ensinando, né?

 

R – Converso. Aham, lógico. As minhas filhas, eu ensino: as sacolinhas de material são separadas. Porque às vezes tem gente aqui que está reciclando, porque recicla aqui no lixo. Que o lixo é colocado aqui, de frente. Aí recicla. Aí eu mando pôr a comida separada, resto de comida. Eu mando pôr tudo separado. Ensinei tudo aos meus filhos. Depois que eu voltei pra… quando eu não trabalhava, misturava tudo: era plástico, comida, tudo jogava no lixo. Hoje não. Fico com dó. Fico com dó, porque as pessoas vão reciclar. Tem material aí que as pessoas reciclam, vai pegar comida, caco de vidro, tudo, corta a mão. Então, tem que separar. É o certo, se todos fizessem isso, era melhor pra nós.

 

P/1 – Conta pra gente qual é a importância de separar o lixo. O que muda na rotina de vocês, receber um lixo limpo, separado?

 

R – O que muda pra nós? A produção é melhor pra nós. E outra, muda muito. Muda, porque esse lixo não vai parar… esse lixo que vem tudo separadinho, não vai parar onde não deveria. É limpar o Rio Tietê, essas coisas. Tudo isso. Limpar a humanidade. É importante pra todo o mundo. Viu, depois que fizeram essas mudanças de… que fizeram essas cooperativas de reciclagem, viu como o rio maneirou mais as PET? Não maneirou? Você viu? Primeiro era muita PET no rio. Agora está mais limpo, não tá? PET é dinheiro.

 

P/1 – Então você acha que o seu trabalho é importante, pra preservação do meio-ambiente e do planeta?

 

R – Isso. Isso mesmo e muito. Eu tenho sete anos lá. Tô aprendendo muitas coisas também, porque eu falo assim: “Ai, meu Deus, o que é a humanidade?” Queria saber muitas coisas e até hoje ainda tô aprendendo. Tô aprendendo muitas coisas lá, viu? Muitas. Muitas, mesmo, que o Jair passa pra gente. Ele coloca no celular dele e passa pra nós as coisas. E a gente vai aprendendo. Através do Jair, que ele também adora esse serviço, se esforça muito. 

 

P/1 – E, Wilza, quais são os maiores desafios do trabalho, pra você?

 

R – O maior desafio? Deixa eu ver... o maior desafio, pra mim, é na hora do sorteio, porque eu não quero ir pra limpeza, eu quero ir pra triagem. É na hora do sorteio, que às vezes tem que ir pra limpeza, e eu quero ficar na triagem.

 

P/1 – Como funciona o sorteio?

 

R – Eles entregam um papelzinho e mandam a gente escolher. 

 

P/1 – Legal.

 

R – É. Aí a gente vai ver. Aí quando fala assim… quando eu abro o meu, eu falo: “Ai, graças a Deus! Ai, caí no PP, graças a Deus!” Aí quando vou pra limpeza, aí é… eu prefiro ficar na triagem, lá no lixo. Não quero limpar o escritório, não quero limpar nada, prefiro ficar na triagem. 

 

P/1 – E o sorteio acontece toda semana?

 

R – É de quinze em quinze. Tem que mudar as pessoas sempre. A gente não pode ficar só naquele material, eles mudam.

 

P/1 – E você sente que seu trabalho tem sido valorizado cada vez mais pelas pessoas?

 

R – Sim, eu sinto que o meu trabalho é valorizado lá. Eu sinto.

 

P/1 – Que é importante?

 

R – Que é importante. Nós recebemos elogios. Eu sinto.

 

P/1 – E fora de lá? Quando você vai contar pras pessoas onde você trabalha.

 

R – O pessoal fala que eu sou uma guerreira. É o que o pessoal fala, que eu sou guerreira.

 

P/1 – Você se acha uma guerreira?

 

R – Eu acho (risos). Eu acho que eu sou uma guerreira. Até a Cristiane fala: “Você é guerreira, Wilza”. Acho, sim.

 

P/1 – E seu pai trabalhava como gari, não é? Que você me falou.

 

R – É, meu pai trabalhava como… ele ficava recolhendo os lixos na rua, num caminhão, lá na Bahia. Trabalhou até os quarenta anos fazendo isso. Hoje ele não trabalha mais, ele é aposentado, de tempo de serviço, mas trabalhou. Meu pai tem 85 anos, já. Acho que é isso mesmo.

P/1 – Quando você via seu pai trabalhando com reciclagem, vocês conversavam disso? 

 

R – Não, meu pai nunca conversou sobre isso com a gente. Quando eu fui trabalhar… 

 

P/1 – E o seu pai, seu pai trabalhava…

 

R – É, ele nunca falou isso pra nós, não. Sabe onde que eu vim acordar o tanto que ele sofreu? Foi quando eu fui trabalhar aqui, na rua. Eu chorei jogando. Me deu uma dor aqui no braço. Eu falei: “Meu Deus, como meu pai sofreu pra nos criar, trabalhando nisso”. Foi, eu chorei. A primeira semana que eu fui trabalhar pra recolher lixo na rua. Eu chorei. E a Cláudia: “Chora, não, Wilza, por que você está chorando?” “Tô chorando porque o tanto que meu pai sofreu pra nos criar, quantos anos”. Eu chorei, a primeira semana, porque é duro. Chorei mesmo.

 

P/1 – Foi aí que você viu?

 

R – Aham. A realidade. O tanto que meu pai sofreu pra cuidar, nos criar. Foi a parte ruim, ali, também, nesse dia que eu trabalhei na rua. Com quatro dias, eu comecei a chorar. Meu pai, correndo na rua. Nesse dia eu chorei.

 

P/1 – Você falou com ele?

 

R – Falei. No domingo eu liguei, falando que eu trabalhei igual ele, na rua, na semana. Mas eu estava feliz, sabia? Mas eu chorei lembrando o tanto que ele sofreu. Aí no domingo eu falei com ele: “Pai, trabalhei a semana toda igual o senhor, recolhendo lixo na rua”. Falei e chorei bastante. Falei com ele que eu chorei. Que ele estava de parabéns, que ele foi um pai herói, um pai guerreiro. Tudo isso eu falei.

 

P/1 – O que ele falou pra você, você lembra?

 

R – Nesse dia a internet estava ruim. Não teve nem como a gente conversar, assim, muito. Porque a internet aqui, quando chove, cai. Aí não deu pra conversar muito. E aí pronto, passou. Mas ele ia falar uma coisa. E no outro dia era pra eu ligar e não tive tempo, que era na segunda-feira, não tive tempo de ligar de novo. Mas ele ia falar uma coisa pra mim. Agora, o que foi, eu não sei. Não lembro mais.

 

P/1 – E, de modo geral, como você acha que as pessoas enxergam o trabalho de vocês?

 

R – Lixo. Tem muitos que enxergam lixo. Tem muitos que não… Olha com nojo pra gente. Faz cara feia. Tem muitos que fazem isso. A pessoa repara a gente como um lixo, também. O olhar é conhecido. Eu conheço pelo olhar. Que nem agora, às vezes a gente vai num restaurante lá perto e a gente vai com o nome, com a camisa, com o nome, e aí já olham assim, com a cara, pra gente. Pra mim, eles ficam falando da gente como um lixo, também. Tem muitos que fazem isso. Muitos.

 

P/1 – Como você se sente?

R – Eu não… de primeira, eu tinha vergonha. Agora, hoje eu não tenho, não. Vou num restaurante com a minha camisa suja, não tenho vergonha. Vou num restaurante e lá nesse restaurante nós somos… o dono do restaurante trata a gente super bem. O dono do restaurante que a gente vai e almoça. Nós vamos com uniforme. Hoje eu não tenho vergonha, não. Vou com uniforme. Eles têm que entender. As pessoas têm que entender que a gente não é lixo, a gente é ser humano. “Vamos, vamos”. As meninas: “Não, deixa eu trocar” “Vai assim” “Deixa eu trocar de roupa” “Não. Vergonha é roubar. Agora, porque você está com uniforme sujo, porque trabalha no lixo, você vai ter vergonha? Não. Vamos”. Tem uma menina lá que tem vergonha. “Vamos”. Quando ela entrou. Agora ela já está indo junto com a gente, já está [se] acostumando [a ir] junto com a gente. “Vamos”. Já vai no restaurante tomar café com a gente com a roupa suja. Não tem problema. “Vergonha é roubar e não poder carregar”, eu falo assim com ela. “Aqui é um serviço digno, filha. Você não vai ter vergonha, de jeito nenhum. Vamos. Vai acabar nossa vergonha e vamos”. Tem muitas que eu ensino lá, isso. “Ai, vou trocar de roupa” “Não, vai assim mesmo”, eu ensino. É assim que eu faço com as pessoas que entram lá. “Vamos no Banco?” “Ah, vou trocar de roupa” “Não, vai assim mesmo. O Banco sabe que a gente trabalha aqui. Ele vai ver o nome ‘reciclagem’. Tenho certeza que o gerente sabe que a gente trabalha com reciclagem. Vamos”. Eu falo desse jeito com as pessoas, lá dentro.

 

P/1 – Quais foram os maiores aprendizados desde que você entrou, que você tira pra sua vida?

 

R – Das pessoas?

 

P/1 – De qualquer coisa, pode ser das pessoas, do ambiente...

R – Do ambiente, a maior aprendizagem… os materiais. Pra mim, foi trabalhar… triar. Para mim, o maior aprendizado foi esse. Aprendi muito. Foi triar. E com as pessoas, também, me ensinando. Me ensinou bastante, a Zilma. Foi a maior, foi essa, que eu queria aprender. Queria, porque eu gostei de trabalhar lá e eu queria aprender. Foi isso aí. Que eu tinha medo deles dizerem assim: “Ai, ela não sabe, não sei o que, não vai ficar”. E eu gostei de lá. E eu queria aprender. A minha aprendizagem foi triar.

 

P/1 – Você consegue pensar no momento mais marcante, lá dentro? Um dia muito especial ou difícil? Um dia que foi marcante.

 

R – Que foi marcante? Foi o dia do jogo do Brasil. Nós deixamos de triar e fomos assistir o jogo (risos). Aí o Jair ligou falando: “Que farra é essa?” E nós compramos pipoca, comida, fizemos lá. Eu tenho até hoje a filmagem. Foi muito gostoso. “Vai, Brasil!” O dia mais marcante foi esse. Que o Jair nos dispensou, mandou nós irmos embora (risos). Foi esse. Foi uma farra, foi uma festa. O mais marcante lá foi esse aí.

 

P/1 – Tem a história de alguma pessoa com quem você trabalha, que tenha te tocado de alguma forma, também? Que tenha sido importante conhecer, pra você? 

 

R – Se eu tenho uma história? 

 

P/1 – É, se tem alguma pessoa com quem você trabalha, que a história dela tenha te tocado, tenha te marcado.

 

R – Que a história dela tenha me marcado? Tem. É a Rosângela. É a Rosângela.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque ela é uma guerreira lá dentro. Ela é uma guerreira. Os patrões falam assim: “Preciso de uma carga pra tal dia”. E ela consegue. É a Rosângela, porque ela é uma guerreira lá dentro. Trabalha que nem homem. Tem, sim. 

 

P/1 – E, Wilza, como é o seu dia a dia, então? Você vai cedo pra lá?

 

R – É. Eu saio daqui cinco e meia, chego lá às seis e meia. Aí chego, me troco. Aí a gente vai na padaria, toma um café, quando volta, já vamos pra esteira, entra às sete horas. Mas antes era das oito às cinco. Aí, como teve que fazer dois turnos, que nós não estamos… não estávamos dando conta, aí teve que contratar mais gente e teve que fazer dois turnos. Agora eu trabalho das sete às três. Chego aqui em casa quatro e meia, quatro e cinquenta, que eu subo devagar naquela ladeira (risos). Você viu a ladeira? Subo devagarinho.

 

P/1 – E o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer, sem trabalho?

 

R – Crochê. Meu crochê. Termino de fazer as coisas em casa e vou fazer crochê. Fico em cima da minha cama, lá, fazendo crochê. É isso que eu faço.

 

P/1 – E hoje você tem relacionamento?

 

R – Se hoje eu tenho uma pessoa? Tenho. Tenho, sim.

 

P/1 – Quer falar um pouquinho dela, como vocês se conheceram?

 

R – Eu o conheci aqui mesmo. Aqui mesmo, no morro, mesmo. 

 

P/1 – Faz tempo que vocês estão juntos?

 

R – Quatro anos que eu tô junto com ele. Quatro anos (risos).

 

P/1 – E como foi pra você se tornar avó?

 

R – Ai, nessa parte aí vai me doer. Não quero. Essa parte aí, não. Foi muito… eu não queria que minhas filhas arrumassem mais filhos. Não. Nenhuma. Nenhuma, amém. Mas, se Deus quer, a gente tem que aceitar. E depois que nasceu, prontinho, me apeguei (risos). Mas eu não queria, não, que ela é muito nova. Falei assim: “Eu não quero meu sofrimento pra vocês”. Eu sempre falava: “Ai, vocês evitam e eu não quero que vocês passem pelo que eu passei, porque eu sofri pra vocês estarem desse jeito hoje, viu? Sofri bastante. Não quero”. Aí foi que… depois conformei. Depois, se vir mais, é bem-vindo (risos). É bem-vindo.

 

P/1 – A Larissa é a mais velha?

 

R – A Larissa é.

 

P/1 – Como foi conhecê-la e começar a se relacionar com ela?

 

R – Como foi? Foi quando a mãe dela veio pra cá, porque eu não conhecia a Larissa, a Larissa nasceu lá na Bahia. Porque eu vim trabalhar, pra depois eles virem, né? Aí chegou com dois anos, aqui. Ai, mas era chorona. E eu falei: “Ai, meu Deus, será se eu vou acostumar?” (risos) E aí foi indo, foi indo e eu fui me apegando à ela, me apegando. A mãe dela saía e ela chorava querendo ir: “Deixa, pra ela se acostumar comigo, senão não vai se acostumar. Todo canto que tu vai, se vai no banheiro, ela já chora”. Aí fui me apegando, me apegando e hoje meu amor é muito grande pelos meus netos. Amo meus netos mais do que meus filhos. A mãe do Artur fala: “Ê, mãe, hoje tudo da senhora agora é só com o Artur, só com o Artur”. Falei: “Agora vocês já eram, porque você acabou. Agora você vai trabalhar, pra ter suas coisas, porque agora minha vida é Artur”, quando o Artur nasceu. Que a Larissa não estava aqui não, quando o Artur nasceu. A Larissa estava na Bahia. E eu fiquei com o Artur aí até… aí depois a Larissa voltou de novo, a mãe dela foi e voltou, aí eu me acostumei com eles, pronto. Ninguém quer sair de perto de mim, onde eu tô… e onde eu vou, também. Eu viajei pra Bahia em 2016 e levei os dois, o Artur e a Larissa. E agora eu quero ir com tudo, mas não posso, é tanto! Não posso. Eu falei: “Não, a vó vai ter que dar um jeito!” Queria viajar com todos, mas não consigo, não. Não posso levar eu, sozinha, todos. Não, é só a Larissa e o Artur, mesmo. Os pequenos vão ficar, quando eu for.

 

P/1 – Hoje você tem uma ótima relação, né?

 

R – Tenho. A Larissa é tudo pra mim, a Larissa é meu braço direito, minhas pernas. A Larissa me leva, me acompanha pro hospital. Chega lá, parece uma adulta, sabia? Conversa: “Vovó, vamos”. Chega lá: “Toma o remédio certinho, pra senhora sarar, tá?” Chega aqui, quer me dar o remédio, quer… que eu fiz minha cirurgia, até banho a Larissa… porque quando a gente faz cirurgia, que chega enfaixada, não pode tomar banho embaixo do chuveiro. A Larissa que me limpava, que fazia comida. A Larissa é tudo pra mim, hoje. Eu vou fazer exame de vista, ela que escolhe meus óculos. Tudo. Tudo, tudo. A Larissa é tudo.

 

P/1 – E a pandemia, como afetou vocês?

 

R – Ai, graças a Deus aqui correu todo mundo bem, ninguém pegou. Foi tudo ok, graças a Deus. Eu fiz a cirurgia e eu passei mal lá, na cirurgia e eu fui fazer o teste pra ver. E aí disse que eu já tinha tido. Já tinha tido, mas nem sabia. Graças a Deus, tive e não sabia. No começo eu passei mal aqui em casa. No começo da pandemia, fiquei cinco dias sem trabalhar, com uma falta de ar. Mas ninguém sabia, estava escondido aí essa doença, estava calado. Tive uma falta de ar. A comida sem gosto, me dando febre. Tive uma febre alta. Fui pro hospital, passaram Paracetamol. Aí fiquei tomando e comecei a fazer meu chazinho da… que a gente, no Norte, toma chá. Foi o que eu melhorei, com mel, essas coisas, foi o que eu melhorei e voltei a trabalhar. Mas disse que eu tinha pegado a doença e não sabia. Eu falei: “Amém, que correu tudo bem”. Foi tudo um pouco difícil e um pouco, que a gente teve que ficar afastada do serviço. A gente ficou quase um ano sem trabalhar. Foi um ano em casa, que a gente trabalha com lixo, a gente não podia, que estava contaminado. Nós ficamos quase um ano sem trabalhar, todo mundo.

 

P/1 – Mas vocês receberam?

 

R – Nós recebemos em casa. A prefeitura nos abasteceu, graças a Deus, fez um auxílio pra nós. Nós recebemos, sim.

 

P/1 – E como foi voltar pra cooperativa, depois de um ano?

 

R – A nova vida, de novo (risos). Foi, depois de um ano.

 

P/1 – Wilza, qual é a importância da reciclagem na sua vida? Ela mudou?

 

R – Mudou. Mudou e muito. Mudou. Pra mim, mudou. E muito. Eu não esperava comprar meu terreno aqui, porque hoje eu já tenho o meu terreno, pra eu construir. Mudou. Eu bebia muito, hoje, pra mim, eu não… eu tive muita mudança. Eu gostava de tomar umas cachacinhas, sabe? Hoje eu não bebo mais, não. Parei de beber. Porque sempre esse pessoal na cooperativa me dava conselho. Às vezes eu chegava lá “beba”. Bebia muito. Mudei bastante, engordei, eu era dessa “finurinha”. Engordei. Mudei. Mudei bastante.

 

P/1 – Pra melhor?

 

R – Do que eu era? Hoje eu tô bem, filha. Não tenho casa ainda, mas eu tô bem. Tô bem, do que eu era antes. Tô bem. Muito. Tinha vezes que não tinha o que comer, hoje eu tenho. Abro meu armário e tenho. Tinha vezes que eu ia trabalhar sem saber o que é que meus filhos iam comer. Hoje meus filhos, eu saio, meus filhos hoje já estão adultos e eles trabalham, mas mesmo assim eu preocupava. Mas hoje não deixo meus filhos passarem necessidade. Mudou, sim. Quando eu entrei, o pessoal… às vezes eu não tinha o que levar pra comer, o pessoal dividia a comida, pra mim. Eu não vou mentir. Não minto, não gosto de mentira. O pessoal dividia a comida pra me dar. Mudou muito. Mudou muito, muito, muito, mesmo. Hoje, todo dia eu tenho a minha carninha pra eu levar, tenho a marmita, todo dia, pra eu levar e tinha dia que eu estava trabalhando preocupada, porque eu não tinha o que trazer amanhã: “O que eu vou levar amanhã, pra comer?” Hoje, não. Mudou minha vida. Mudou bastante. Bastante, mesmo. Sofri muito. E eu agradeço muito o Jair e a Cristiane, por terem me dado essa oportunidade. Eu acho assim: tem vezes, quando eu tô lá, às vezes tem gente que fala besteira, que vai mandar gente embora, eu já fico com medo de ser eu, sabia? Meu coração fica tutututu, com medo: “Meu Deus, vai mandar gente embora, quem é?” Eu fico com medo, já. Fico com medo de ser eu, sabia? Eu tenho medo. Quando o povo começa com bochicho: “Ah, vai mandar gente embora” “Ah meu Deus, será que sou eu?” Me dá um medo. E como eu gosto de lá, não queria que ninguém saísse, que ficasse lá, trabalhando. Tem gente que fala: “Ah, vou sair”. Eu: “Não sai não, está tão bom. Não sai, não”. Dou conselho. “Não, Wilza, mas a gente tem que caçar melhora”. Agora está melhorando muito a cooperativa. Melhorou muito. Quando eu entrei, teve uma vez que o pagamento da gente era trezentos reais, quatrocentos. Agora mudou. No mês passado faltou três reais pra gente tirar três mil. Mudou bastante. E eu não saí. Estava ganhando trezentos, quatrocentos, pro resto da vida. “É aqui que eu gostei e é aqui que eu vou ficar”. Enquanto eles tiverem me querendo, eu tô lá. Mudou bastante.

 

P/1 – E você sabe como seus filhos, seus netos, seus amigos, as pessoas que… seus pais vêem, enxergam o seu trabalho? Você fala sobre a importância com eles? Como é pra vocês e pra você construir tudo o que você vem construindo e todas essas mudanças positivas? Você vê que são frutos, também, do seu trabalho. Como é isso, pra você?

 

R – No começo eu levei… uma filha minha foi lá, ela não gostou nada. Chorou, sabia? Né, minha preta? (choro) Ela chorou bastante, porque ela não queria que eu trabalhasse. A mãe do Artur. Até hoje ela fala: “Ai, sai, mãe”. Não saio, não, não saio, eu gosto é de lá. A Vanessa, mãe da Larissa, também: “Não sei como é que você aguenta, mãe, ficar naquele serviço. Não é o serviço, é que tem algumas pessoas que são chatas, né mãe?” E eu falo assim: “Tem gente lá que vai ter que me engolir. Tem gente que… tem umas pessoas que gostam de…”, porque não tem uma empresa pra não ter disse-me-disse. E eu tô lá até hoje aguentando, falei: “Elas vão ter que me engolir”. Porque às vezes tem bastante… tem confusão, mas a gente vai aguentando, mas agora, essa aqui, não. Ela ficou com raiva do lugar que eu estava trabalhando, no lixo. Ela não gostou. A mãe do Artur não gostou, não. Chorou de verdade, viu? “Mãe, eu não esperava que a senhora estivesse trabalhando num lugar desse” – chorou - “Pra dar vida a nós”. Eu falei: “É. Isso mesmo”. Só isso que eu tenho a dizer.

 

P/1 – Que nem quando você fala do seu pai, né?

 

R – Aham. Ah, hoje eu ligo lá do serviço, de chamada de vídeo, e mostro: “Ó, mãe, onde eu trabalho”. Eu tiro foto. Cadê meu celular? Eu tiro foto, ligo pra minha mãe em chamada de vídeo: “Aí, mãe, ó. A esteira, aí, ó a esteira funcionando. Ó o pessoal trabalhando”. Eu tiro foto e mando pra minha mãe. Meio-dia, na hora do almoço, ela liga e eu vou lá mostrar a ela. Agora já tem uns quinze dias que ela falou assim: “Tu ainda está trabalhando no mesmo lugar?” Falei: “Tô, no mesmo lugar, mãe”. Sempre eu tô mostrando, eu ligo pra ela, eu falo: “Tô no mesmo lugar, não saio daqui não, mãe. Enquanto os chefes estão me querendo, eu tô aqui. Vou aposentar aqui” (risos).

 

P/1 – E, Wilza, quais são as coisas mais importantes pra você, hoje?

 

R – As coisas mais importantes pra mim? Meus filhos, meus netos, meu pai, minha mãe e Deus.

 

P/1 – E quais são seus maiores sonhos?

 

R – Humm, tem tantos (risos). Tem tantos. Primeiro, meu sonho é construir minha casa e deixar meus filhos agasalhados, morrer em paz. E meu sorriso, que logo, logo eu vou arrumar (risos). Meus dentes. Só isso. Saúde, né? Só isso que eu quero.

 

P/1 – A gente está começando a caminhar pro fim e queria saber se você gostaria de deixar alguma mensagem pras pessoas, sobre a importância da coleta, da separação dos resíduos e a importância da reciclagem, né?

 

R – A importância da reciclagem? Ai, espera aí, tem que gravar aqui. A importância da reciclagem é limpar o planeta, limpar a humanidade. Deixa eu ver, que é muita coisa. Tinha que estar gravado. Que às vezes é tanta, que eu esqueço. Esqueci, passou um branco.

 

P/1 – Sem problemas, mas é só se você quiser falar pras pessoas, assim, a importância delas reciclarem.

 

R – Delas reciclarem?

 

P/1 – Porque isso muda a vida e muda as pessoas, né?

 

R – Isso. Muda a vida e muda o planeta, né? O que eu tenho a dizer pras pessoas é que não desperdicem os materiais. Recicla, na sua casa, na empresa. Recicla. Tem cooperativa, se não quiser reciclar, doa pras cooperativas, que isso é muito importante pra todos nós, pra limpar o planeta e limpar a humanidade. É isso que eu tenho a dizer.

 

P/1 – Se você puder falar de novo a mensagem que você gostaria de falar pras pessoas sobre reciclagem… 

 

R – O que eu tenho a dizer pras pessoas é que eles não desperdicem, não desperdicem os materiais. Recicla na sua casa, na empresa, onde quer que for. Se não for jogar fora, doa pra empresa, tem muitos… doa pras cooperativas de reciclagem. Que é pra limpar o planeta e limpar a humanidade. Isso é muito importante pra todos nós.

 

P/1 – Você gostaria de acrescentar alguma coisa da sua história ou falar algo que eu não tenha te perguntado, de algum momento?

 

R – Deixa eu ver... 

 

P/1 – Ou falar alguma coisa, deixar uma mensagem… 

 

R – A mensagem que eu queria deixar é que eu quero agradecer a vocês por estarem aqui me dando essa oportunidade e agradecer a Cristiane e Jair por todo o carinho que eles têm por mim e que eu os amo muito. Só. Algo mais?

 

P/1 – Como foi, pra você, dividir um pouquinho da sua história com a gente, lembrar de momentos marcantes, desde a infância?

 

R – Foi muito bom. Eu gostei. Chorei. Lembrar de muitas coisas. Obrigada a vocês!

 

P/1 – Obrigada a você, foi muito gostoso. E queria te falar uma coisa: seu sonho é ser professora, era ser professora, desde novinha. 

 

R – Isso.

 

P/1 – Eu acho que existem muitas formas de ensinar e ser professora. Tenho certeza que seus netos aprendem muito com você. Eu aprendi muito com você, também.

 

R – Tá.

 

P/1 – Você me ensinou, foi minha professora, hoje. Muito obrigada!

 

R – Nada (risos).

 

P/2 – Legal, obrigado. Foi muito legal, viu?

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