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História

A gente já sonhou tanto...

História de: Francisco dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/08/2011

Sinopse

Francisco nasceu na roça, em uma família de camponeses. Era o único dos oito filhos que gostava de estudar, e por isso foi, com dez anos, cursar o Colégio Técnico Agrícola de São Manoel. A paixão pela matemática apareceu no colégio, e nunca foi embora, sendo o curso escolhido na graduação. Lembra com carinho desse período da vida, quando mantinha um bar durante o dia e estudava à noite. Comprou uma casa para seus pais e uma kombi, com a qual vendia pão pela manhã, nas cidades vizinhas de Cerqueira César, onde morava. Vendendo pão conheceu sua esposa, e antes de se casar, foi lecionar matemática na Amazônia, através do projeto Rondon, experiência bastante marcante na sua vida. Ao voltar para São Paulo, começou a trabalhar no ramo de laticínios, ao mesmo tempo que deu aula de matemática à noite. Sua vida foi permeada por mudanças de cidade, de emprego, de desejos. Se orgulha muito dos diferentes caminhos que seus dois filhos cursaram, e percebe que os rumos que a sua vida levou, acompanharam os diversos sonhos que teve. 

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História completa

P/1 - Vou começar perguntando seu nome completo, o local e data de nascimento para ficar registrado.

 

R -Francisco dos Santos. Nascido na cidade de Cerqueira César, Estado de São Paulo, bairro Três Ranchos no dia 23 de março de 1950.

 

P/1 -E como chamam seus pais?

 

R -Meus pais são Pedro dos Santos e Geni da Silva Santos.

 

P/1 -E o que eles faziam quando você era criança?

 

R -Eu nasci na roça, num sítio e meus pais trabalhavam na lavoura.

 

P/1 -E como você descreveria os dois?

 

R -Meu pai era uma pessoa que trabalhava muito e não tinha nenhum nível escolar e conseguiu criar os oitos filhos com habilidade na lavoura. Minha mãe também era dona de casa. Uma pessoa que cuidava dos oitos filhos e de toda roupa dos filhos. E na roça também. Ajudava meu pai na lavoura. Era uma pessoa simples também, sem nenhum nível escolar. Pessoas que não tiveram oportunidade de estudo.

 

P/1 -Você está falando que vocês eram oito.

 

R -Somos oito irmãos.

 

P/1 -E você era do meio?

 

R - Mais ou menos do meio. Eu tenho quatro irmãos mais velhos e três mais novos.

 

P/1 -E como era essa casa que você passou com sete irmãos?

 

R -A nossa casa era num sítio pequeno, de oito hectares. Era feita de pau a pique. E reboco de barro. O piso da casa era de terra. Fogão a lenha, construído de barro também o fogão. Eu lembro que as camas eram feitas de pau a pique fincado dentro dos quartos. Com estrado de madeira e bambu. Os colchões eram cheios de palha de milho picados. E era onde a gente dormia. Uma casa muito simples. Não tinha móveis. Não tinha nada. Apenas uma mesa na sala e um banco, onde todos sentavam e comiam juntos. Um do lado do outro num banco dentro da cozinha. Não tinha recurso. Não tinha rádio. Não tinha energia elétrica. Não tinha televisão.  Não tinha o banheiro. O banheiro era no quintal feito em cisterna. Onde a gente fazia as necessidades. Água encanada não existia. A minha mãe buscava água há mil metros. Numa mina, numa nascente, que a gente utilizava para comer. Para lavar as roupas ela ia nessa mina. Para lavar a roupa da família toda.

 

P/1 -E como era o cotidiano de vocês?

 

R -Antes de começar a ir para a escola os mais velhos iam para a escola e os mais novos ficavam o dia todo em casa brincando, ficavam ajudando. Com quatro, cinco anos, já ajudava a tratar dos animais. Das criações de galinhas, porcos. E ajudava os afazeres em volta da casa. Mas era brincando mais juntos no quintal com brinquedos artificiais que a gente fazia. Carrinho de madeira com carretéis de linha, esse tipo de brinquedo. Usava chuchu e alguns tipos de legume para fazer boizinhos. E assim que a gente brincava na roça. Recordo de coisas muito bem que a gente fazia com dois anos de idade. Eu lembro essa história. Era um terreiro de terra mesmo, onde a gente ficava brincando. Todos descalços. Tudo junto os irmãozinhos. Felizes.

 

P/1 -E quando você foi para a escola?

 

R - Com sete anos de idade eu iniciei o estudo numa escola rural. Tinha uma escola a sete quilômetros de onde eu morava.

 

P/1 -Era a escola mais perto?

 

R -A escola mais perto. Desculpe. Sete quilômetros era a casa da cidade. A escola era a três quilômetros. Do qual nós fazíamos a caminhada a pé para poder fazer até o terceiro ano primário. O quarto ano primário só tinha na cidade, então para você concluir o quarto ano primário...

 

P/1 -Tinha que andar esses sete quilômetros.

 

R -Ou morar com algum parente na cidade ou não fazer o quarto. Mas todos conseguiram fazer. Todos os irmãos até o quarto ano do primário conseguiram fazer.

 

P/1 -E depois?

 

R -Em seguida, quando eu completei dez anos de idade, meu pai resolveu... Meu irmão mais velho tinha completado dezoito anos. Meu pai achava que era muito difícil continuar com os oito filhos na roça. E ele decidiu mudar para a cidade. Para trazer oportunidades para os filhos. Para que a gente pudesse continuar os estudos. Tivesse condições melhores de estudo.  Aí meu pai adquiriu uma panificadora na cidade. Onde todos os meus irmãos trabalhavam na panificadora. Meu pai e minha mãe. E foi aonde eu consegui fazer o quarto ano primário e concluir. Com dez anos de idade. O quarto ano primário.

 

P/1 -Depois você continuou estudando.

 

R -Os meus irmãos não tiveram oportunidade de estudar e foi um esforço muito grande do meu pai e da minha mãe e dos meus irmãos para que eu continuasse os estudos. Eu era de melhor habilidade nos estudos. Era o filho que mais gostava de estudar. E eu fui levado por um amigo do meu pai para o colégio técnico agrícola de Cerqueira César, que é um colégio que oferecia estudos para filhos de agricultores, era gratuito e internato. Ficava o dia todo. A semana toda no colégio. Estudo de manhã aulas práticas e a tarde aulas teóricas. Eu fui para o Colégio Técnico Agrícola de Cerqueira César. Que era um curso de iniciação. Que você fazia como se fosse um preparatório. Para depois você prestar um concurso, tipo vestibular para você ingressar num ginásio de uma escola de maior potencial, que tinham poucas no Brasil. Eu prestei concurso no Colégio Técnico Agrícola de São Manoel. Perto de Cerqueira César. E para ir de Cerqueira César ao Colégio Técnico de São Manoel a gente tinha de viajar de trem na época. As estradas eram de terra e não tinha asfalto. Em 1965 eu fui estudar no Colégio Técnico Agrícola de São Manoel. E fiz até a oitava série no Colégio Agrícola de São Manoel. Em 1969 eu interrompi os estudos no Colégio Técnico para voltar a morar na cidade de Cerqueira César para dar uma força para o meu pai e minha mãe. Meu pai estava muito doente na época e estava com dificuldades. Então fui fazer o colegial na cidade de Cerqueira César. Na Escola Estadual José Leite Pinheiro. Estudei três anos à noite. E durante o dia eu montei um bar. No primeiro ano. Para poder ajudar a renda da família. Do meu pai, da minha mãe e dos meus três irmãos mais novos.

 

P/1 -Voltando um pouquinho. Como foi estudar fora tão pequeno?

 

R -Quando eu fui para o Colégio Técnico Agrícola, eu me recordo como se fosse hoje.

 

P/1 -Você só vinha no fim de semana.

 

R -De quatro em quatro meses.

 

P/1 -Só no final do semestre.

 

R -Só. Minha mãe foi comprar uma mala, que era para ir para o colégio para colocar o material, que vinha uma lista. Nesse material vinha uma lista que tinha que ter duas calças, duas camisas, um par de botinas. Era um enxovalzinho simples. Que os pais conseguiam mesmo na época. Aí minha mãe comprou uma mala. Comprou uma mala grande, enorme de papelão. E quando colocou aquelas roupas sumiu dentro da mala. Aí eu fui eu com aquela mala enorme para a estação. Foi minha mãe, minha irmã. Todo mundo se despedir. Aí eu só ia retornar nas férias de junho. Ia para o colégio em fevereiro e retornava nas férias de junho e depois retornava no final do ano. Todo esse período no colégio. E foi muito difícil, porque nós éramos todos irmãos que ficavam juntos. Pai e mãe. Com toda dificuldade que a gente tinha na época de comunicação. De entendimento das coisas. Eu fui calçar o meu primeiro par de sapatos com onze anos de idade. E quando eu fui para o colégio fui com o mínimo possível no enxoval, porque meu pai não tinha condições de bancar tudo. Um enxoval grande. Mas foi o suficiente para estudar. Também no colégio a gente ficava interno e tinha atividades o dia todo. De manhã era aula prática e de tarde aula teórica. Realmente uma escola voltada para o estudo. E na época era uma escola voltada para o estudo só para filhos de agricultores. Depois mudou um pouco essa política, mais para frente. Mas a dificuldade que a gente sentia de ficar tão longe assim dos pais era a saudade da mãe. Muita. Escrevia cartas. Acho que a minha mãe tem muitas cartas até hoje. Escrevia cartas toda semana. Quando chegava dia das mães fazia festinha no colégio e a gente não dava para ver as mães. Uma que era distante. E outro que ficava dispendioso. Gastava muito para viajar. Então fazia festinha no colégio e a saudade apertava da mãe, dos irmãos. Mas tinha a parte prazerosa que era o estudar.

 

P/1 -E como foi essa relação com as outras crianças?

 

R -Não tinha dificuldade nenhuma em relacionamento. Fiz muitos amigos no colégio. Do primeiro ano até o quarto ano. A gente unida. Começou com uma turma de oitenta alunos.

 

P/1 -Eram só rapazes?

 

R -Só homens. Era um colégio só para masculino. Terminamos a oitava série com quarenta e oito alunos, mais ou menos. E tinha muita atividade no colégio. Atividades de esportes. Praticava atletismo. Todo tipo de esporte. Eu gostava muito de futebol. Então jogava futebol no sábado e domingo três, quatro vezes ao dia. Jogava futebol de salão de manhã no domingo. Não dava para ir para a cidade. Menor de dezoito anos não podia ir para a cidade sozinho. Só podia ir ao domingo durante o dia. A gente aproveitava.

 

P/1 -E quem acompanhava vocês? Vocês podiam ir sozinhos?

 

R -Sozinhos. No domingo durante o dia íamos para a cidade com os colegas. A gente ia à missa. Era normal na época.  Ia à missa de manhã e aí ficávamos um pouquinho na praça e depois voltávamos para o colégio porque já tinha atividades no colégio. A vida no colégio era muito boa. Porque a gente aprendeu mesmo como se virar sozinho. A gente aprendeu a cuidar das meias. Engraxar os sapatos. Arrumar a cama todo dia de manhã e deixar arrumadinho. Tudo certinho. O banho era uma coisa que eu não esqueço nunca. Meu filho outro dia falou: “Está muito fria a água.” Era água fria. Fora quatro anos tomando banho duas vezes por dia de água fria. E era obrigatório o banho. A gente saía de manhã e ia para a aula prática, por exemplo, voltava às onze horas. Tinha que tomar um banho. Já trocar de roupa. Colocar o uniforme. Almoçava. Dava um tempinho e depois entrava na aula teórica. Depois da aula teórica, alguns tinham atividade física. Treino de futebol. Outros tinham estudo. Só que antes de dormir, de se recolher, tinha que tomar banho. E às dez da noite apagavam as luzes e todos tinham que dormir. E no outro dia, cinco e meia da manhã tinha que levantar. Tinha disciplina no colégio. Disciplina. Eu digo que quase disciplina militar. Não servi o exército, mas era muito rigoroso. Com vigilantes, inspetores. Não podia ter desentendimentos. Qualquer coisa você já era punido. Então era uma lição. Uma coisa que se pudesse ter continuado o estudo nesse nível era excelente. Não se tinha bebida no colégio. Não se ouvia falar em drogas, em bebidas, em brigas. Era uma disciplina fantástica. E é um colégio que comportava na época do primeiro ano ginasial até o terceiro colegial. Tinha média de trezentos e cinquenta, trezentos e setenta alunos. E todos no mesmo local. O dormitório do primeiro ao quarto ano. Dormia quarenta nas camas beliche. Depois no colegial a pessoa já ganhava um apartamentinho para oito. Tinha quarto separado para oito alunos. Com banheiro individual no alojamento. Era como se fosse um alojamento de exército mesmo.

 

P/1 -E aí quando você ia para as férias para casa como era?

 

R -Quando eu saia para ir para o colégio meu pai já dava um dinheirinho. E aí eu fazia o cálculo. Eu vou gastar três de trem. Três reais para chegar lá. Uma vez por mês eu vou tomar uma sodinha e comer uma paçoquinha. Fazia a continha. Eu tenho tudo anotado até hoje sãs contas do que eu gastava. Porque eu tinha que apresentar para o meu pai e minha mãe. E para saber e reservar dinheiro da passagem de volta. Como eu ia visitar meu pai e minha mãe, que não tinha nem como eles mandar o dinheiro para mim. Para mandar dentro da carta era meio complicado. Então reservava aquele dinheiro escondidinho e comprava a passagem. Aí tomava o trem. Era uma Maria Fumaça que ia de São Manoel até próximo de Botucatu. Que é Rubião Junior. Lá você fazia baldeação do trem, na Alta Sorocabana. Aí pegava um trem que falavam de era um trem de passageiro. E dava mais ou menos quatro horas de viagem e chegava a Cerqueira César.

 

P/1 -Nossa, era distante.

 

R -Sim, é longe. Hoje não dá duzentos e sessenta quilômetros. Mas a dificuldade do percurso. O trem ia parando em todas as estações. Parava e isso tudo demandava um tempo enorme. Aí curtia as férias. Chegava às férias ia trabalhar para ajudar e juntar um dinheirinho para quando voltasse. E essa foi uma fase boa. Fase de infância. Fase que para a gente tudo era novidade. Era esperança. Que estava pensando no futuro. A grande realidade é que eu fui para o colégio agrícola pensando em poder me formar e ajudar meus pais e meus irmãos na roça mesmo. Na agricultura. Depois meu pai foi para a cidade. Mudou o estilo de trabalho. Foi mexer com comércio, então, eu também, na sequência da vida do meu pai com minha mãe. Ele passou dificuldades. Tiveram problemas financeiros, eu também resolvi deixar tudo para ajudá-los. Para dar um suporte.

 

P/1 -Foi quando você abriu um bar que você estava contando.

 

R -Exatamente. Abri um bar na cidade. Eu fiquei um ano e meio mais ou menos com o bar. Foi aonde eu conheci o meu sogro. Mas eu não conheci a minha esposa ainda. Via assim só, mas não tinha amizade. Depois desse bar. Eu vendi o bar. O dinheiro era do meu pai com a minha mãe. E comprei uma casa para o meu pai e minha mãe. E do lado dessa casa foi onde eu reservei um terreno para mim que eu construí. Comecei a construir a minha casinha.

 

P/1 -Que é aquela foto.

 

R -Aquela foto. Que é a casa que quando eu casei, fui morar nela. Então no fundo do terreno eu construí uma casa pequena. Aí nessa época que eu vendi o bar e comprei essa casa e fui morar com meus pais. Morava com meus pais eu e dois irmãos mais novos. Um dos meus irmãos mais novos, Orlando, já tinha casado. Ele casou com dezessete anos. E ele tinha um filho mais velho. Que ele veio morar para São Paulo e o filho ficou com a minha mãe. Bebezinho. E eu cuidava dele também, junto com a minha mãe. Do Alex. Ali eu comprei uma Kombi. Eu tive a ajuda de um amigo. Um compadre do meu pai. Ele emprestou para mim um dinheiro para eu comprar a Kombi para eu fazer a faculdade. Eu tinha terminado o colegial em Cerqueira César. Até no último ano do colegial fui presidente do grêmio. Fui um líder estudantil na época perigosa. Época da ditadura e tudo. Aí prestei vestibular na faculdade de Avaré e passei. Foi quando que eu vendi o bar.  Passei no vestibular. Passei na faculdade. Vendi o bar e comprei essa perua. O amigo me emprestou. E arrumei dez estudantes na cidade de Cerqueira César, que iam fazer a faculdade junto comigo. Eu saía de Cerqueira César seis horas da tarde com os dez na Kombi. Viajava vinte e oito quilômetros em estrada de terra para chegar a Avaré e fazer a faculdade. E retornava à meia noite. Só que eu tinha outra atividade com a perua. Meu irmão mais velho tinha adquirido uma panificadora também na cidade. Minha família. Sou neto de português. Acho que eles gostam de padaria. Aí meu irmão mais velho tinha uma panificadora e eu comecei a vender pão numa cidade vizinha, que se chama Águas de Santa Bárbara. Eu carregava a perua com os pães às cinco horas da manhã. Ia para essa cidade e até às nove eu vendia pão de casa em casa. Na época, a perua ia à rua da sua casa e entregava leite e pão na porta. E eu retornava de lá uma nove horas, mais ou menos e ia vender doce de leite. Da fábrica do Pingo de Leite Avaré. Aí eu vendia nas cidades vizinhas. Avaré. Piraju.

 

P/1 -Na fábrica pegava o doce.

 

R -Pegava e carregava a Kombi e ia fazendo os mercadinhos e bares nas cidades de Manduri, Piraju, Cerqueira César, Águas de Santa Bárbara. Cidades vizinhas. Retornava mais ou menos quatro e meia, cinco horas e já preparava a perua e pegava os colegas e ia para a faculdade. Foram três anos que eu fiz essa. Para conseguir.

 

P/1 -Que foi o tempo que durou o curso.

 

R -Que durou o meu curso na faculdade. Até eu poder me formar.

 

P/1 -Então vamos voltar um pouquinho no colegial. Que você era do Grêmio e tudo. Como é que foram esses três anos quando você voltou?

 

R -Quando eu voltei. Eu trabalhava no bar de manhã. Abria cinco horas da manhã e umas seis horas eu saía pra ir para o colegial. E o meu pai ficava. Como não estava muito bem de saúde, umas sete e meia fechava. E ali no colegial. Para mim em Cerqueira César foi muito difícil. Porque eu trabalhava muito. Trabalhava no bar o dia todo, mas eu estudava. Chegava do colégio e estudava até uma hora da manhã com dificuldade. Mas eu fui muito bem no colégio. Graças a Deus tinha as notas boas. Sempre fui um ótimo.

 

P/1 -Você sempre gostou de estudar?

 

R -Sempre. Sempre fui um ótimo aluno de matemática. Primeiro de matemática. Sempre as melhores notas eram as minhas. E sempre fui péssimo em português. Até hoje. A dificuldade é grande. Talvez essa dificuldade que eu tenho em algumas palavras em português seja a alfabetização. Porque os meus pais, tudo que a gente leva da infância. O consciente começa a funcionar, a gente começa a gravar aquilo lá. E muitas palavras que eu uso, às vezes hoje, foi que a minha mãe usa até hoje. Meus irmãos mais velhos. A minha irmã fala algumas palavras que estão gravadas na memória da gente. Às vezes a gente puxa esse assunto e fala muita coisa assim. Mas no colégio de Cerqueira César eu lembro. Eu queria achar alguém para formar o grêmio estudantil que foi liberado. Não podia manifestação nenhuma. E em 1972 já podia formar Grêmio. Formar Grupo Estudantil. Aí o professor de matemática, que era o senhor Dórico Cardoso falou: “Francisco, você é uma pessoa que sabe administrar, que já tem um comércio, que se comporta direitinho. Tem uma amizade muito boa, porque você não se candidata?  Porque nós precisamos de uma pessoa que a gente consiga desenvolver o esporte dentro do colégio. Você gosta muito”. E ele me convenceu que eu me candidatei à presidência do Grêmio.

 

P/1 - E aí você foi eleito.

 

R -Ganhei. Foi muito bom. Foi tão legal essa parte. Essa época de estudante. Tudo. As pessoas te admiram. Você passa a ser uma pessoa importante dentro do grupo. Da escola. É tão gostoso. Promovi vários campeonatos. Há pouco tempo eu estive em Cerqueira César. Acho que faz uns três anos e encontrei um colega. Ele falou: “Você sabia que tenho um diploma lá em casa. Um diploma assinado por você”. “Como?” “Quando você foi presidente do Grêmio, foram feitos vários campeonatos e vocês davam diplominha de participante. E você presidente assinava. Eu tenho em casa até hoje”. Coisas interessantes.

 

P/1 -E a parte social do colégio. Como foi? O que vocês faziam para se divertir?

 

R -O interior é um pouco diferente. Porque final de semana dentro do colégio, você no colégio. Tinha um intervalo, tinha uma cantina, mas no colégio mesmo é mais o esporte. Tinha a prática de esporte, na aula de educação física e algumas atividades esportivas no final da semana. Sábado e domingo a gente fazia jogos no colégio. Tinha Campeonato interno de vôlei e basquete. Futebol de salão. Sempre tinham os torneios. Que o professor de educação física promovia. Mas a parte social mesmo era um clube da cidade. Tinha um clube na cidade. O Clube Cerqueira César, e de noite no sábado a gente ia ao clube. Dançar. Se divertir no clube. Era o único local de diversão na cidade. Era um clube só e acho que até hoje em Cerqueira César tem um clube só. Cerqueira César Futebol Clube. E a amizade com as pessoas. Foi onde eu conheci a minha esposa. A esposa do meu irmão mais novo também estudou comigo. Jane é o nome dela. E ali que eu conheci a minha esposa. A minha esposa foi muito interessante.

 

P/1 -Como que foi?

 

R -Ela estudava.

 

P/1 -Você já conhecia o pai dela.

 

R -É. Ela estava na oitava série e eu já estava no terceiro colegial. Mais nova. Aí eu comecei a entregar pão na cidade, de manhã. Deixei de entregar pão um ano em Águas de Santa Bárbara e comecei a entregar na cidade. Eu ia com uma Kombi dirigindo e tinha um menino atrás entregando os pães. Aí nós passávamos na rua da casa dela. Só que os pais dela compravam pão de outra padaria. Eu passava e a perua tinha uma buzininha que fazia PA PA PA e as pessoas saiam para pegar o pão. E passamos na rua e o vizinho dela comprava o pão da minha padaria. E aí a mãe dela estava no portão. “A senhora não quer comprar pão? Experimenta um pão daqui” Falei: “Pega uns três pãezinhos e entrega para ela, experimenta o pão da padaria do meu irmão”. No outro dia quando eu parei a perua vejo duas meninas correndo. E vieram falar comigo. “Acho que a minha mãe vai pegar pão. E a outra era a mais nova. Minha cunhadinha e pegou o pão lá com o menino”. “E como funciona?” Vendia por mês. Anotava na caderneta, que se chamava. Anotava todos os dias quantos pegava e a pessoa pagava no final do mês. “Eu faço agora”. E era a minha esposa que conversou comigo. Aí ela começou todos os dias ela vinha e começou a paquera. Aí que eu fiquei sabendo da história. Que a mãe dela me viu. “Olha tem um menino que vende de padeiro. Muito bonitinho”. Aí que ela saiu correndo. Foi aí que a gente... Minha sogra sempre falava que ela foi o cupido. Que ela que me descobriu. E aí que começou o namoro.

 

P/1 -E como era o namoro?

 

R - Na época era um namoro bem vigiado. O pai dela era uma pessoa muito rigorosa. Pessoa séria. A gente namorava mais de final de semana. De sábado pedia autorização para ele para ir ao cinema. Ia à primeira sessão, porque às nove horas em ponto ela tinha que estar em casa.

 

P/1 -E a sessão começava que horas?

 

R -Começava às sete horas e terminava. Ia à missa de tarde e depois ia para o cinema. Saía e quando dava nove horas ela tinha que entrar. A gente ficava às vezes no lado de fora. No alpendre. Na área que se chama no interior. Conversando os dois. Namorando e sempre preocupados porque o pai ou a mãe vinha ver o que estava aprontando (risos). Aí ela entrava e eu ia para casa. No outro dia eu tinha que trabalhar também de manhã. Então o namoro era assim. Às vezes a gente conseguia dar uma saidinha. Para passear. Ficar no jardim até mais tarde. Porque no interior, tem muito das pessoas namorarem no banco do jardim. Sentava lá e ficava namorando. Era muito bom. E o namoro foi isso aí. Um namoro que despertou a paixão logo.

 

P/1 -E depois de quanto tempo que vocês casaram?

 

R -Dois anos de namoro. E resolvemos casar. E a minha preocupação era antes do casamento ter uma casa. Eu não queira realizar o casamento sem ter minha casa com os móveis e tudo prontinho. E eu consegui tudo isso aí. Ela tinha mudado para Jundiaí, minha esposa. O pai dela tinha falecido antes. Desculpa. Ela tinha mudado para Jundiaí e o pai dela ficou em Cerqueira César. E ela mudou para Jundiaí para morar com os irmãos que moravam aqui. Ela veio trabalhar em Jundiaí. Ela ficou um tempo em Jundiaí. Quase uns seis meses. Eu vinha de final de semana para namorar.

 

P/1 -Você já estava na faculdade?

 

R -Eu já estava. Aí eu namorar um final de semana para namorar. Para conversar e eu falei: “Eu quero que você vá embora que nós vamos casar”. Aí a pedi em casamento e tudo. E ela falou que ia. “Venha me buscar tal dia”. Peguei-a e levei embora para Cerqueira César. Quero viver com você. Quero casar com você. E não deu outra (risos).

 

P/1 -E o casamento? Você trouxe as fotos tão lindas.

 

R -Aí os programamos o casamento. Tudo planejadinho. Tudo certinho. Como havia explicado para você. E o pai dela acompanhando...

 

P/1 -E o pai dela aceitou na hora?

 

R -Aceitou. Ele me respeitava. Ele me tratava. O meu sogro, apesar de ser uma pessoa simples e tal, trabalhava de fiscal na prefeitura. Andava bem vestido, de paletó e caneta no bolso. Era uma pessoa muito portuguesa. Ele não tinha se naturalizado brasileiro. Veio de Portugal. A identidade dele era portuguesa. Era uma pessoa muito séria, muito tranqüila. Muito respeitável.. E ele me tratava com muito carinho. Quando eu falei para ele queria casar com a Maria Emília. Ela estava junto. Ele falou: “Bom. Se é do agrado de vocês, para mim…” A minha sogra me adorava. Ela sempre me adorou. Nossa. Ela foi a minha melhor amiga da minha vida. Daí foi que nós planejamos o casamento, tudo certinho. E tivemos a infelicidade de perder o meu sogro. Uma semana antes do meu casamento. Ele teve um derrame cerebral e faleceu. Aí a família foi de Jundiaí. Os irmãos dela. Todos moravam em Jundiaí. Todos foram no enterro do meu sogro. Eu queria mudar o casamento. Pensamos em mudar. Não. A minha sogra falou: “Era do gosto do Joaquim. Ele queria ver vocês dois casando”. E meu cunhado mais velho falou também: “Nós vamos realizar o casamento. Se você quiser cancelar a festa e o almoço. A viagem. Tudo bem, mas vai realizar o casamento e não vai ter problema nenhum”. E conseguimos realizar o casamento e deu tudo certinho.

 

P/1 -E a sua sogra era de Cerqueira César também?

 

R -Era de Cerqueira César.

 

P/1 -Acabei não perguntando a origem dos seus pais. Você começou a falar que o seu pai era português.

 

R -Não. Meu pai era filho de português. Meu avô era português. E minha mãe era descendente de italianos. Só que minha mãe… meu avô, por parte da minha mãe nasceu no estado de São Paulo. Na cidade de Tietê. Perdão. Porto Feliz. Que memória... A família da minha mãe era de Porto Feliz. Os tios. O pessoal todo era de Porto Feliz. E meu avô mudou para Cerqueira César. Mudou para um sítio. Comprou uma propriedade rural. E tem uma historinha rápida e muito interessante. Meu pai trabalhava na roça. Ele trabalhava por dia. E ele ia fazer a colheita. Capinar. E ele foi trabalhar com meu avô. Capinar o café. E lá ele viu a minha mãe. Ele não tinha condições. Meu avô tinha propriedade rural. Tinha um bom dinheiro. Tinha gado. Cavalo. Tinha tudo. E o meu pai morava com uma tia dele. Ele só tinha a roupa do corpo e disse que ia casar com essa menina. Ele conseguiu. Ele conta até hoje que tanto ele insistiu que conseguiu casar com a minha mãe. Contava. Que o meu pai também já faleceu.

 

P/1 -Aí ele foi pedir a mão dela.

 

R -Pedir a mão dela. E o cabra: “Como você vai pedir a mão da Geni para o Senhor João Pedro. Ele não vai te dar. Você não tem nem onde cair morto”. “Não. Eu vou conseguir”, e conseguiu. Eles contam uma historinha tão linda desse namoro deles.

 

P/1 -E aí seu avô deu a mão?

 

R -Deu. Casaram. Viveram sempre juntos. Fizeram cinqüenta anos de casados. Meu pai faleceu com setenta e seis anos e minha mãe ainda é viva. Minha mãe está lá em Cerqueira César.

 

P/1 -Então vamos voltar para o começo da sua vida de casado. Como é que foi?

 

R -Quando eu casei, a minha esposa...

 

P/1 -Você já tinha acabado a faculdade?

 

R -Eu terminei a faculdade e a minha esposa estava fazendo terceiro colegial. Aí nós casamos. E como eu tinha terminado a faculdade, eu passei num concurso para trabalhar na Vigor. Laticínios Vigor. Eu trabalhava no laboratório. Era analista de plataforma. Como eles chamavam. Fazia análise dos leites que recebia no laticínio de Cerqueira César. Laticínios Vigor.  E a noite eu lecionava matemática no Ginásio Águas de Santa Bárbara. E a minha esposa estudava a noite no colegial. No colegial de Cerqueira César. Eu trabalhava durante o dia e a noite ministrava aulas em Santa Bárbara.

 

P/1 -Todo dia?

 

R -As aulas não eram todos os dias. Tinha poucas salas de aulas. Eu dava aula de química e física. E matemática no colegial. Eram muitas poucas aulas. Eram só três séries que tinham. Tinha um primeiro colegial. Um segundo e um terceiro. Aula de matemática era duas vezes. Aula de química tinha uma por semana. Aula de física tinha uma por semana.

 

P/1 -Voltando um pouco. Você estudou matemática na faculdade.

 

R -Perfeito.

 

P/1 -E como foi esse tempo na faculdade?

 

R -Os três anos de faculdade. Eu não fiquei um ano de dependência. Apesar de trabalhar o dia todo, levantar de madrugada. Eu fui muito bem na faculdade. E no último ano de faculdade eu fui convidado para participar do Projeto Rondon, que era no Estado do Amazonas. Eram escolhidos alunos das faculdades do interior. Bauru, Jaú e Avaré. Nós somos da época. Dois de Bauru. Dois de Jaú e dois de Avaré. Para dar aulas, tipo Mobral no Amazonas. Então os alunos eram índios,pessoas que trabalham na Transamazônica, naquela época. Que foi em 1973. E nós saímos de Bauru de avião. Um avião. Eu lembro até hoje. Um DC-3, que foi utilizado na última guerra mundial. Fizemos uma parada em Campo Grande. Pernoitamos. Porque não tinha autonomia de combustível, e depois de Campo Grande fomos até Cuiabá, demos uma passada em Cuiabá. E de Cuiabá fomos até Porto Velho. De Porto Velho que nós nos deslocamos para a cidade onde eu fiquei sessenta e dois dias no projeto. Chamava-se Humaitá. Humaitá é uma cidade de quatro mil habitantes. Ficava à margem do Rio Madeira. A cidade sem recurso nenhum. Não tinha estrada. Para chegar à cidade ou se chega de avião ou de barco. Tinha uma distância de seiscentos e três quilômetros de Manaus e duzentos e oitenta quilômetros de Porto Velho. De barco até Porto velho eram cinco dias, porque você ia pelo curso do Rio Madeira e vai subindo a corredeira do rio. E para ir para Manaus era bem mais longe, mas demorava três dias. Você descia o rio sentido mar. Rio Madeira também. E era aqueles barcos que você vê até hoje. Superlotação, pessoal dormindo na rede. Tudo isso eu vivenciei no Amazonas.

 

P/1 -Mas vocês saiam de Humaitá e iam para outros lugares.

 

R -É. Ali a gente aproveitava o final de semana. Porque as aulas… a gente já levou todo material preparado. As apostilas. Tudo prontinho e as aulas eram à noite. E durante o dia todo tinha folga. E no final de semana. Sábado e domingo a gente aproveitava para fazer atividades na própria cidade. Pesquisas. Conhecer o seringal. Pegava o rio com o barco e pegava o rio acima e ia conhecer o maior seringal do Amazonas, na época. Para mim foi uma coisa muito importante ver como extraía a borracha. Como funcionava o pessoal que morava lá no meio do mato. As pessoas. Que tinham um rádio de pilha, que a professora… Ela aprendeu a escrever o nome e dava aula para as crianças. As pessoas que moravam lá nunca tinham saído daquele local. E foi muito, coisas incríveis que eu vi lá no meio da selva. Pessoas que saíam com balaio nas costas para buscar a borracha. A gente pensa hoje que você vê um seringal, que é uma árvore do lado da outra. Lá não era. Ele tinha as trilhas lá no meio da mata e ele sabia onde tinha o pé. Colhia uma e andava um quilômetro para achar outro pé. Para colher a cumbuquinha de borracha. Para levar para o acampamento. Para a vila. Para eles prepararem e aí vinha o barco para recolher. E o barco vinha cada três, quatro meses recolher e trazia mantimentos, tinha a troca. Essa foi uma experiência muito boa que eu passei lá. E vi muitas coisas boas e muitas coisas irregulares. Pessoal extraindo madeira naquela época. Eu tenho fotos. Eu conheci uma serralheria nas margens do afluente do Rio Madeira que era tudo automático. As toras chegavam ao rio e subiam por esteiras e aí o barco para carregar madeiras, que eram preparadas, era francês. Em 1973, já se fazia. Já se praticava a devastação da nossa Amazônia, já naquela época era muito grande. Eles desciam umas madeiras pelo rio. Cortavam as árvores e faziam um tipo de uma cunha. Uma prendendo na outra. E soltava no rio. E quando chegava próximo desse afluente enroscava num barco e arrastava para o afluente e de lá ia para fora. Para fora do Brasil. Ali também nós aproveitávamos finais de semana para ir para Manaus. Conhecer Manaus. Tive a oportunidade de ir três vezes. O sonho de quem ia ao Projeto Rondon era poder ir para Manaus para comprar alguma coisa na época. Na Zona Franca. Então, comprar um projetor de slide. Em Cerqueira César um professor me encomendou, que ninguém tinha. Um amigo meu pediu para comprar um toca fita. Hoje é CD. Toca fita de fita de cartucho grande. Que tinha antena elétrica. Ia ser o único na cidade que ia ter. Até para eu viajar para lá eu fiz um empréstimo no banco. Para levar dinheiro para trazer para o pessoal. Recuperei o dobro do dinheiro que eu emprestei porque eu vendi muita coisa. E trouxe muito presente. Canetas. Canetas Cross. Isqueiro, na época era eletrônico, que eles falavam. Um isqueiro que ninguém tinha aqui. Só na Zona Franca que tinha. Secador de cabelo portátil. Era uma novidade. Ninguém tinha. Eu consegui ir três vezes de Humaitá até Manaus, mas pegando carona de avião. Porque não tem como meio de transporte. Então escutava o barulho de avião, eu ia para o aeroporto de Humaitá. Era um aeroporto de grama e terra. E ali descia aviões que vinham trazer carne para o pessoal que estava construindo a Transamazônica. A BR-603. E também vinham aviões do exército, o Búfalo. Do Quinto Batalhão de Infantaria da Selva. Eles desciam ali e pegavam pessoas que estavam trabalhando na estrada com balaia e levavam para Manaus. E também trocavam a equipe de policiais do acampamento. Que o quinto batalhão de infantaria da selva tinha um acampamento no meio da selva. Que é a defesa da selva amazônica. E eu pegava carona nesses aviões. Ia até Manaus e na segunda feira de manhã pegava carona para retornar para Humaitá porque à noite eu tinha que dar aula. E com isso a gente conseguia comprar. Cada vez que ia comprava as encomendas.

 

P/1 -E na volta você pegava essa carona dessa mesma forma?

 

R -Dessa mesma forma. Ia para o aeroporto. Sempre tinha. Toda semana tinha aviões que vinham. Quase todo dia vinha aviões para trazer mercadorias. Na verdade são monomotores. Aviões que cabem dois passageiros e tem um motorzinho só. Eu viajei de Humaitá a Manaus com um piloto catarinense. E para mim era novidade. Eu nunca tinha andado de avião. Já ir de São Paulo até Porto Velho de avião foi uma grande novidade. Lá se chama táxi aéreo. Aí peguei uma carona com ele e perguntei: “Como você faz para sobrevoar de Humaitá até Manaus? São seiscentos e três quilômetros e um avião que tem uma velocidade baixa. Não pode sobrevoar muito alto. E só tem um motor. Você não tem medo?”. “Eu já desci aqui na selva forçado. Aí já comecei a ficar com medo.” “De cair?”. “Não. Eu vou sobrevoar mais ou menos no curso do Rio Madeira. Porque se der alguma pane a gente desce na água. Dá um jeito de descer na água. E eu faço essa viagem aqui três vezes por semana”. Foi onde eu consegui encaixar com ele minhas idas e vindas. Junto com ele.  Fiz amizade com ele e tudo. Tenho até fotos com ele. Ia até Manaus e ficava no departamento do DERA. Tudo por conta. Você usava camisa do projeto Rondon em Manaus. Ficava alojado no departamento do DERA. E aí ia para o centro da cidade a noite fazer as compras e ir passear. Você ia a qualquer restaurante você não pagava nada. Aí você ia lá e comia um tucunaré no tucupi. Ia ouvir umas músicas à noite. A vida noturna em Manaus é um absurdo. É muita boemia. Eu me recordo. Na minha época, fui uma noite na Cabana do Baré. A pessoa que é nascida lá é baré. Então nós fomos à Cabana do Baré e tinha um cantor lá. Chamava-se Carlos José. Estava cantando. Na época era jovem. Essa era o que a gente fazia. E a outra viagem que eu consegui também que para mim foi muito importante. Esforcei-me muito para conseguir foi para a Bolívia. Quando nós estávamos lá, aí nós combinamos no final de semana. Uma viagem de aventura. Nós queríamos ir pela Estrada Madeira-Mamoré. E para isso nós pegamos de Humaitá até Porto Velho. Já estava passando o ônibus. Apesar de que chegava aos córregos e pegava balsa. Se chovesse o ônibus não ia. Era uma dificuldade muito grande. E já estava passando o ônibus. E nós pegamos em seis até Porto Velho. Chegando a Porto Velho nós alugamos um táxi. Quatro no banco de trás e dois no banco da frente com o motorista. Era um Aero Willys. O Aero Willys tinha uma câmbio em cima. No volante. Banco grandão que é uma delícia. Bom para namorar. E nós fomos com o camarada. Combinamos o valor. “Eu levo vocês até lá. E lá tem que saber a manha. Como vão atravessar a fronteira. Tinha que chegar e se apresentar. E aí vai atravessar num barquinho e atravessa do lado da Bolívia”. Nós fomos a Guajará-mirim. Não estou muito certo. Acho que do lado do Brasil é Guajará-mirim e do outro lado é Guayaramerín. Não estou bem certo. São dois nomes. A mesma cidade só que do outro lado do rio. Só que essa viagem a gente acompanhava a antiga trilha do trem. Onde o trem Madeira-Mamoré passou. Eu tenho fotos. A coisa mais linda. A selva. Você vê os rios. As borboletas. Uma coisa fantástica, e a gente ia parando. As pontes. Aquelas pontes sobre os rios. Não sei como eles construíram. Pela história foram os franceses. A ponte da Estrada Madeira-Mamoré, tudo de ferro.  Sem coluna. Um arco. Uma engenharia que hoje é considerada moderna. E nós passávamos por cima dessa ponte. Os caras colocavam tábuas. E virava uma passagem para o carro. Passava um carro. E nós fomos até a divisa da Bolívia. E atravessamos do outro lado. Ficamos umas quatro horas do outro lado. Conhecendo a cultura do pessoal, que também na época dava para perceber a diferença dos brasileiros e das situações. Por exemplo, os militares do lado do Brasil. O pessoal na cabine. Confortável. Com uniforme. De botas. Armas. Tudo bem. E do outro lado os policiais de chinelo havaianas. Da Bolívia. Quer dizer, um pessoal muito carente. Uma miséria muito grande. Nessa cidade que eu fui. Lógico que na Bolívia tem cidades maravilhosas. Mas essa aí, infelizmente era assim. E o povo começava a andar pelo meio da rua. Muita troca de coisas. E não tem carro. Como Humaitá, onde eu fiquei, também não tinha carro. Só moto. Porque não tem estrada. Não tem necessidade de ter carro. Não tinha na época. E muito ouro branco. O comércio é só ouro branco. Inclusive eu comprei um anel de ouro branco, que é a escala da vida que chama.

 

P/1 -Tem até hoje?

 

R -Eu dei para a minha namorada, que é a minha esposa.

 

P/1 - E ela tem até hoje?

 

R -Tem até hoje. Quando ela põe e alguém vê, admira. E não eram muito caras essas coisas lá. Você conseguia com jeitinho e tal. As pessoas davam brinde para a gente. Quando sabia que era de São Paulo, do Projeto Rondon. E eu lembro que nós tínhamos uma máquina de foto e o pessoal queria que a gente tirasse fotos deles. E tinha uma menina que foi com a gente. A Marli. É uma loira bonita, de Bauru. E os caras perguntavam se ela era Miss Brasil. Miss Brasil. Eu tinha dificuldade. Todos nós tínhamos dificuldade porque ninguém falava espanhol. Ninguém que foi no grupo. Foi tudo na raça. E chegamos lá tudo cheio de terra. Que era muito pó na estrada. Tudo cheio de pó. Mas não nos preocupamos. Atravessamos. Limpamos na beira do córrego e atravessamos. Isso foi uma coisa de vida muito interessante para mim. Essa passagem de sessenta e poucos dias no Amazonas. E para mim isso foi uma lição de vida. Um conhecimento que me ajudou muito.

 

P/1 -E quando voltou?

 

R -Quando voltei terminei a faculdade e casei.

 

P/1 -Como foi o começo da vida de casado?

 

R -A vida de casado. Eu vejo hoje, a pessoa mora antes junto. Meu filho ficou vivendo três anos e depois casar. A vida de casado no interior era muita rotina. Era trabalho, casa e estudo. Mas é boa. Sempre tive uma vida boa de casamento. Sempre me dei bem com a minha esposa.  Ela ficou grávida, a primeira gravidez veio o segundo grande baque na nossa vida. Ela perdeu os filhos. Os primeiros eram gêmeos. Ela ficou grávida e eram dois meninos. Eu tinha recurso para fazer todo o pré natal. Eu a levava no melhor médico da região, que era em Piraju. O Doutor Farid. Era considerado o melhor médico ginecologista que tinha. Que cuidava de gestantes. Só que no sexto mês ela começou com um volume muito grande e foi aí que o médico achou que eram gêmeos. Só que na época achava, porque não tinha ultrassom. Você não sabia sexo e não sabia nada. E ela começou a passar muito mal. Ela é pequena. A estrutura óssea é pequena. Ela tinha que dormir sentada. Porque doía. Apertava. Sufocava ela. Parece que apertava o coração. E a gente foi cuidando. O médico falou que ia marcar uma cesárea quando chegasse. Só que não deu. Com seis meses e vinte e três dias estourou a bolsa. Na época meu irmão tinha uma panificadora e tinha um carro bom. Tinha um Galaxie. Eu a peguei no carro e imediatamente fui para o hospital, que é na cidade vizinha. Dá uns vinte e poucos quilômetros. O médico levou para a sala e disse que ela estava com dilatação. Para ter o parto. Ele começou a examinar e não nascia e chamou de lado e disse: “Infelizmente as crianças... a sua esposa está com muita febre. Muita febre interna e um dos bebês, para mim já está morto. Só escuto um coraçãozinho bater. Por enquanto. Se fizer a cesárea tem um risco muito grande. Ela não está bem. E dá para fazer o parto normal. Só que o parto normal vai ser dolorido também. Corre o risco da outra criança não sobreviver”. Eu sozinho no hospital. Só eu e ela. “Você tem que decidir. Você tem que falar para mim o que eu tenho que fazer”. E na hora acho que Deus me deu uma luz. “Quem tem que fazer é você, mas eu quero a minha esposa. Você vai salvar ela e ela vai me dar outros. Você vai salvar ela. O resto deixa por conta de Deus”. Daí resolveu fazer o parto normal. E realmente o primeiro já estava morto e o outro também morreu na hora do parto. Também faleceu. Não viveu, mas eles tinham problemas. Eram dois homens. Estavam formadinhos. Sexo, tudo, sabe? Eu fui lá e vi os dois. Tive que registrá-los. Fui ao cartório. Tive de comprar dois caixões. Colocar os dois lá no necrotério com os caixãozinhos e eu peguei os dois um em cada braço e fiz o sepultamento deles. Sozinho. E ela lá no hospital. Mas Deus é tão bom que para ela foi ótimo. Ela se recuperou. Fez todos os tratamentos e aí resolveu engravidar de novo. Aí resolvemos e ela ficou grávida do Maurício. Quando nasceu foi uma… até hoje ele é uma alegria para nós. Então falei: “Olha. Deus me deu os dois. Com saúde. Sem nenhum probleminha nos dois. Ótimos. Com tudo”. E ela foi muito bem no parto dos dois. Não teve nenhum probleminha. Graças a Deus. Quando nasceu o Maurício, eu morava em Cerqueira César e eu deixei de trabalhar na Vigor e fui trabalhar no Doce de Leite Avaré. Na Vigor eu fazia um cargo de analista de plataforma, mas eu mexia muito com os produtores de leite. Com a captação do leite. Eu fazia toda a pesquisa. Aí o Doce de Leite Avaré começou a desenvolver um trabalho muito forte. Começou a vender muito e o donos dos Leite Avaré. Eram quatro sócios, mas tem dois irmãos que estudaram junto comigo. O Lauro e o Marcelo. Aí o Marcelo falou comigo: “Francisco, eu quero que você vá trabalhar comigo”.  “Mas o que eu vou trabalhar na fábrica?” “Olha, tem que fazer um curso em São Paulo para fazer os custos. Planilha de custos de todos os produtos que nós vamos produzir. E eu quero convidar você porque eu sei que você vai lá e você é bom em matemática. E você vai fazer tudo isso. E eu vou te contratar como chefe do escritório. E você vai ganhar o que você ganha na Vigor. Você vai ganhar tranquilo. O que você ganha aqui eu pago. Eu quero que você vá trabalhar comigo”. Meu pai já tinha trabalhado com o pai dele. Então tinha uma amizade muito grande. Jogamos futebol junto. Eu e o Marcelo. “Quero que você vá trabalhar comigo”. E fui trabalhar com ele, no escritório e fazia toda essa parte realmente. A única pessoa que tinha as receitas e manipulava as receitas. E comecei a determinar o que o técnico de laticínio tinha que fazer. Diminuir o açúcar ou aumentar isso. O custo aqui assim. Tempo. Tudo. E aprendi a fazer doce. Tudo sobre doce de leite. E eu fazia também a responsabilidade do escritório. Pelo pagamento dos produtores de leite. Tudo que se movimentava sobre a captação do leite. E isso eu trabalhei lá até 1974, 1975. Aí um dos donos lá comprou a fábrica Doces Muzambinho. Aí foi que ele fez a proposta para mim: “Francisco eu quero levar você para lá. É o único cara que vai cuidar de tudo para nós lá. Eles compraram a fábrica de Doces Muzambinho. Que lá não vai poder estar nenhum dos sócios lá. E você vai para lá como gerente geral. Vai como gerente de produção. Gerente de compra de matéria prima. Responsável por toda fábrica. E o contador nós temos lá. O financeiro é um deles. Assumir a parte operacional”. Foi quando eu mudei para Muzambinho. E lá em Muzambinho eles alugaram um imóvel para mim. Pagaram o aluguel. Com vinte e sete anos já fui gerente de empresa. Eu tenho, acho que a sombra do passado a gente não pode estar se apegando. Mas eu não fui muito de planejar, de ter um projeto de vida. Eu mudei muito de empresa. E mudei muito assim, pensando no momento. No hoje, como se diz. Eu quero os meus filhos estudando. Eu quero meus filhos bem. Eu quero dar tudo para eles. Quero dar tudo para a minha esposa e quero ter uma vida boa. E isso que eu pensava. Entendeu. E há pouco tempo agora que eu refleti essa forma de agir. Então nessa época que eu fui para Muzambinho eu era o gerente. Só que eu não adquiri nada de propriedade, que eu fiz. Eu lecionava à noite também.

 

P/1 -Você continuou dando aula?

 

R -Algumas aulas que eu dava. Como eu sou formado na faculdade três anos, eu poderia dar aulas no colegial. Química e física. Uma cidade que nem Muzambinho tinha três aulas de física e três aulas de química por semana. Nem um professor queria sair de Guaxupé ou de Poços para ministrar essas aulas durante a semana. Então o diretor soube que eu era formado, que eu poderia ministrar as aulas. E foi atrás de mim. E tinha uma cidade chamada Monte Belo que eu também era quem dava as aulas. Só que nem comparecia. Mas tinha que ter o professor, senão não se formavam. Aí o Wellington de Oliveira era o diretor e o filho dele era o âncora da Rede Globo na época. Foram atrás de mim e eu peguei e ministrava essas aulas. Mas foi um ano só que eu ministrei essas aulas. E eu fiquei na fábrica.

 

P/1 -Quanto tempo?

 

R -Eu fiquei até 1978.

 

P/1 -Cinco anos?

 

R -É. Só que a sociedade deu problema. Tiveram problemas financeiros. Requereram concordata e praticamente fecharam a fábrica. Aí trouxe a minha esposa para Jundiaí. Na casa da mãe dela. Com a minha mudança todinha. Eu tinha dinheiro para receber lá. E eu precisava receber. E eu fiquei morando na própria fábrica. O diretor tinha feito uma suíte e ele não ia mais para lá. Eu fiquei dormindo na suíte. Fiquei com o meu carro, uma TV. A mudança amontoei na casa da minha sogra. E nesse período que eu estava nasceu o Fabrício. Em Muzambinho. Depois eu vou voltar um pouquinho do Fabrício. Aí eu deixei família em Jundiaí e fiquei lá até conseguir arrumar uma forma de receber. Vim para Jundiaí e uma semana depois foi convidado pelo diretor da Danone para trabalhar em Botelho, Poços de Caldas. Na fábrica da Danone. Então, é isso que eu estou dizendo. Eu mudei muito. Eu não tinha um projeto. Eu vou começar assim nessa empresa e vou crescer aqui. Sou gerente e vou tornar diretor. Presidente. Eu acho que gerente era um cargo máximo. Então foi aonde numas coisinhas eu pequei. Mas em Muzambinho, por exemplo, eu tinha uma vida boa também. Fui muito feliz lá. Minha esposa gostava. Tinha boas amizades. Foi onde nasceu o Fabrício. “Vou ficar grávida. Vamos arrumar mais um”. A gente sempre acompanhou o que ela teve de probleminha nos primeiros. A gente sempre, antes de arrumar o segundo, via direitinho como estava. Fazia todos os exames. Em Guaxupé sempre tive a felicidade de pagar médicos bons. Os melhores médicos de Guaxupé. O Doutor Herbert que cuidava da maioria das pessoas da região. Cuidou dela e ela ficou grávida. Marcamos o parto. Já estava mais evoluído um pouquinho. Vai ser cesárea e vai ser em tal dia. Estava tudo certinho. Aí nasceu o Fabrício. Que eu tenho a foto dela saindo do hospital e depois eu tenho a foto dela chegando a casa. O Maurício ficou doido esse dia. Queria pegar de qualquer jeito. Foi uma alegria muito grande para nós. O Fabrício. Sempre foi do jeito que ele é hoje. Sorridente, alegre, feliz. Trata a gente com o maior carinho. A mãe dele então... Tem uma paixão. Dá gosto. Compensou o que eu falo que a gente passou. E Muzambinho foi essa trajetória. Tinha boas amizades. Tinha participado do Lions Clube. Lá consegui comprar carro zero. Mas foi também uma coisa que...

 

P/1 -Como foi ficar longe da família?

 

R -Também longe dos meus pais. Eu já era habituado. Porque eu estudei em colégio agrícola. Para a minha esposa foi um pouco difícil. A família dela. A mãe dela, como o pai tinha falecido um pouco antes do casamento. A mãe dela mudou para Jundiaí com os filhos. Então, eu lembro quando eu mudei para Muzambinho. Eu saía de lá para vir à Jundiaí. Era um sufoco. As estradas não eram duplicadas. De Campinas até Casa Branca e até Guaxupé a estrada era horrível. Não tinha acostamento. Era mão dupla. Quer dizer você ia e vinha. Era a mesma pista. Caminhões. Eram terríveis as estradas. E os carros nessa época, não eram evoluídos. Não eram muito bons. Eu tinha um TL. Depois eu comprei um Corcel. Corcel 1977. Carro bom. Eram quatro marchas. Não tinha quinta marcha. Não desenvolvia na estrada. Não tinha ar condicionado. Não tinha nada, mas eu viajava. A cada três meses. É aquilo que eu te falei. Eu não media esforços para viajar. Da família da minha esposa eu ia à casa de todos. Depois que eu mudei para São Paulo. De lá eu ia passear. Eu ia para Cerqueira César. Eu morei cinco anos em Muzambinho. Nenhum irmão meu foi na minha casa. O irmão da minha esposa. Em Muzambinho eu sei que foi três vezes. Meu irmão. Alguns não foram. Minha sogra foi uma vez, mas alguns nem foram. Mas eu vinha. Eu vinha para passear. Meu sonho era esse. Pegava final de semana. Pegava o carro e ia à casa de alguém. Fazer churrasco. Era isso que eu fazia. Adorava. Era paixão do churrasco. Ai dessa época.

 

P/1 -Aí depois que vocês saíram de Muzambinho?

 

R -Então. Dessa época eu saí de Muzambinho. Minha esposa ficou aqui e eu fui trabalhar na Danone. Aí eu fiquei como auditor nas filiais. Que a Danone não tinha. Comecei a trabalhar como auditor lá. Eu viajava muito. Minha esposa continuou.

 

P/1 -Aí vocês não se mudaram para Poços de Caldas?

 

R -Ainda não. Minha esposa continuou com a mãe dela uns seis meses. E eu fiquei viajando. Camanducaia. Ficava um mês. Ia para Botelho. Um mês. Varginha. Um mês. Ficava em pensão. E eu fazia auditoria na filial e levantamento da bacia leiteira. Compra de leite. Isso que eu comecei a fazer. Aí o diretor me convidou para ser gerente fixo em Botelho. E olha, são coisas que a gente jovem precisa entender. A gente precisa também saber quantificar. Pensar naquilo que a gente ganha na época. Naquilo que a gente tem para ter um projeto de vida e firmar para ficar tranqüilo futuramente. Ele me convidou. Eu tinha quilometragem de carro. Um ótimo salário e casa para morar. Casa boa. Um gerente num laticínio de leite na época recebia quarenta mil litros de leite numa plataforma. Ganhava bem. Aí eu fui falar com a minha esposa. Ai meu Deus do céu...  Aí surgiu o problema. Ela foi lá para conhecer a cidade. Ela não queria mudar. A cidade era muito pequena e não tinha recurso nenhum. E ela estava com a mãe aqui. Ia ficar muito longe da mãe. Para frente de Poços de Caldas. Aí com muito custo ela resolveu ir. A mãe dela foi ficar trinta dias com a gente. Nós mudamos para Botelho e os meninos não estavam estudando ainda. E eu fiquei como gerente do laticínio. Deu um ano, mais ou menos que eu estava trabalhando lá. Os donos do Leite Avaré fizeram contato comigo novamente. Perguntaram para o meu pai onde eu estava. Meu pai falou que eu estava trabalhando de gerente da Danone lá em Botelho. Aí eles ligaram lá. A minha esposa que atendeu. Aí quando eu cheguei a casa ela estava sorrindo. “O que aconteceu?”. “Olha você teve uma proposta. Para ir embora para São Paulo agora”. Aí começou. “Você não vai? O Marcelo está ligando para você. Para você ir para São Paulo”. Olha o desafio. Eu comecei como analista de plataforma. Chefe de escritório. Gerente de produção em Muzambinho. Auditor e gerente de filial de compra de leite e estava sendo convidado para ir para São Paulo para ser gerente de vendas. Tudo isso eu não afirmei nada. Sabe quando você toca todos os instrumentos e você não usou nenhum? Então eu fui pulando e para mim tudo era diversão. Aí: “Ah, e o seu pai falou que você está muito longe. Que que eu vou fazendo com os meus filhos aqui”. Fazia sessenta dias que ela não ia a cabeleireiros. Não saía. Era horrível mesmo a cidade. Apesar de que quando eu morava em Muzambinho, que não é longe, ela adorava. Porque Muzambinho podia ir a Poços de Caldas. Mas Botelho... A cidade era horrível. De cinco mil habitantes.  Nem cidade. Aí ficou, ficou, ficou, puxa vida... E aí eu fui lá para Cerqueira César e conversei com Marcelo. “Já aluguei um apartamento na Casa Verde para você. Está montado lá a filial. Está tudo montadinho. É para você tomar conta. Nós vamos começar a distribuir leite em São Paulo. Leite pasteurizado de saquinho em São Paulo. Vamos concorrer com a Vigor e a Paulista e você é o homem certo para fazer isso. Vou te pagar isso. Quanto você ganha lá?” “Ganho tanto”. “Então vou te pagar isso e mais um tanto por fora. De ajuda de custo. Aluguel e o carro, tudo. Olha a oportunidade. Oportunidade de ouro hoje. Se for pensar hoje. É ganhar dez mil reais por mês no mínimo. Entendeu? Ter um apartamento para morar. Ter tudo”. Porque nessa época, as empresas que estavam crescendo. Estavam começando. Eles ganhavam muito dinheiro, mas não tinha diretor, presidente. Tinha o dono e tinha gerente. Gerente era a peça principal dentro. Sendo que gerente… hoje não existe gerente mais. Hoje é gestor. Ou é o líder. Porque gerente é aquele que não desenvolve nada. A verdade é essa. Gerente. Ele fica olhando as coisas só. Ele não tem criatividade. Ele não determina nada. E o líder não. É aquele que cria. Que determina as coisas. Que modifica. Que traz novidades. E o gerente naquela época era um cão de guarda ali. Para cuidar do patrimônio do cara. Ele queria uma pessoa para isso. Aí eu vim para... A minha esposa falou: “Agora você tem que vir embora. Vamos embora. Vamos embora. Aqui não vou morar mais. Não quero ficar aqui. Não quero ficar aqui”. Aí eu fui lá a Poços de Caldas falar com o diretor. “Doutor Aguiar. O senhor me deu a oportunidade. Eu sou um homem”. Estava com trinta anos ainda. “Sou jovem ainda, mas sou uma pessoa que já estou há bastante tempo com grandes responsabilidades na empresa e não quero deixar na mão. Mas eu tenho que ir embora. Porque senão vou perder a minha esposa. E eu não vou perder. Que ela vai. Ele não vai ficar aqui.  Ela não quer mais ficar aqui”. “Mas você tem um futuro aqui dentro. Amanhã ou depois eu ia transferir você para Poços de Caldas. Você podia ser um gerente geral. Você é uma pessoa tal e tal”. “O senhor me desculpe, mas eu vim determinado. Eu tenho que ir embora”. “É um pena saber que tem mulher que ainda manda no homem”. “Espero que ela continue mandando e gostando de mim. E eu gostando dela, sabe?”. Ainda me deu uma dura. “Está bom. Vou te liberar. Que dia você quer ir embora?”. “O mais breve possível”. “Está bem. Vou te liberar. Liberou o fundo de garantia e me deixou ir embora”. “Um dia você vai voltar ainda”. Aí foi que eu mudei e vim para São Paulo. 1980 que eu vim morar na grande cidade, São Paulo. Sem conhecer nada em São Paulo.

 

P/1 -E você não conhecia ninguém também?

 

R -São Paulo não. Eu conhecia em Jundiaí. A grande maioria dos parentes era de Jundiaí. Vim para São Paulo sem conhecer ninguém. Nada. Nós mudamos para um apartamento. Ficamos mais isolados ainda. Na Casa Verde, num apartamento de dois dormitórios. Pequeno. Eu tinha os dois meninos pequenos. O Maurício e o Fabrício. A minha esposa. Eu falei: “Agora você vai estudar. Vai voltar e fazer faculdade”. Tinha se formado professora primária. Queira que ela fizesse faculdade.

 

P/1 - Ela não trabalhou?

 

R -Agora ela trabalha. Lá não. Ela não trabalhava. Ela só veio trabalhar aqui em São Paulo quando ela terminou a faculdade e ela começou a lecionar. Ela não trabalhava. Ela cuidava, mas eu sempre tive empregada em casa. Nós tivemos uma pessoa que morou dez anos com a gente. A Maria. Que criou e cuidou dos dois meninos. Ela sempre teve. Deus me abençoou que eu sempre dei uma vida boa para eles. Nesse sentido.

 

P/1 -Você estava falando da mudança para São Paulo. Para a Casa Verde. Que a sua esposa voltou a estudar. Você falou para ela voltar a estudar.

 

R -É. E os meninos. Nós matriculamos na Escolinha Estrelinha Azul. Os dois pequenininhos já iam para a escola. Tem a foto dos dois na escola. De uniforme. Estudaram na Escolinha Estrelinha Azul. Depois foram para o Nossa Senhora das Dores. Que era um colégio bom. Sempre estudaram em colégios bons.  E eu continuei a trabalhar no Avaré até 1985. De 1980 a 1985. Começo de 1986 a empresa deu uma balançada também. A situação financeira não estava muito boa também. E começaram a me cortar algumas coisas. Foi aonde eu recebi um convite para trabalhar na Vigor. Em São Paulo. Então de gerente de vendas no Avaré e vim para a Vigor trabalhar no Belenzinho como gerente de produção. Olha quanta mudança. Era a segunda vez que eu trabalhava na Vigor. Já tinha trabalhado na Vigor no começo da minha carreira. Em 1972 de analista lá no interior. Fui trabalhar na Vigor de São Paulo. Trabalhei de 1986 a 1991. Foi uma fase muito boa também. Apesar do Sarney. Foi uma fase que se ganhava bem. Apesar de gatilho. De inflação. De tudo. A Vigor me proporcionava um bom salário. Um ótimo salário. A Vigor foi uma grande empresa nessa época. Crescimento. Vendia muito leite. Não existia o leite ainda de caixinha. O leite tetrapak. O leite longa vida. Só tinha o leite de saquinho. Eu trabalhava na produção das dez da noite às seis da manhã. Trabalhava seis dias e folgava dois. Fiquei seis anos trabalhando.

 

P/1 - Nossa. Trabalhando muito.

 

R -Foi uma loucura isso. Mas era muito prazeroso.

 

P/1 -Trabalhava período noturno?

 

R -Trabalhava noturno e teve um período que eu trabalhava das seis da manhã às dez da noite. Acho que uns dois anos.

 

P/1 -Nossa!

 

R -Não. Das seis da manhã às duas da tarde. Perdão. Depois das duas da tarde às dez da noite tinha outro turno e depois das dez da noite às seis da manhã. Eram três turnos e a gente revezava. Um ano trocava de horário. Eu preferia a noite porque eu entrava às dez. Então chegava sete e meia em casa. Dormia e levava as crianças na escola. Passava o dia todo. Eu gostava mais do horário da noite na época. Minha esposa fazia faculdade. Para mim foi bom. Foi um período muito bom para mim na Vigor. Mas ali, vou eu mudar novamente. Eu estava bem, com um cargo bom. Poderia ter um crescimento ali dentro da empresa. Uma evolução forte dentro da própria Vigor. Ela cresceu muito depois disso. Apesar de agora ela ter sido vendida, mas ela cresceu muito depois que eu saí. De 1991 até 2000. Ela cresceu muito. Demais. Aí eu resolvi deixar para trabalhar por conta. Por conta própria.

 

P/1 -O que você foi fazer?

 

R -Aí foi uma das coisas que eu sofri bastante. Eu resolvi montar distribuição de venda de leite. Comprar caminhão com o fundo de garantia. Nós saímos em dois da Vigor. Um amigo meu, que é amigo até hoje. Uma pessoa que eu considero muito, que é o Antonio. Que também teve as dificuldades dele. Agora voltou para São Paulo. Está se recuperando também. Nós pegamos o fundo de garantia e aplicamos o dinheiro. Naquela época dava uma fortuna. E compramos três caminhões e montamos três freguesias de leite. Só que pouco tempo depois o Collor nos catou. Tem que lembrar ele agora. Pegou nosso dinheiro e nós passamos uma dificuldade muito grande, muito grande. Eu pagava aluguel na época e eu lembro que nós precisamos se desfazendo das coisas. Vender caminhão para pagar as contas e não ficar devendo para ninguém. Esse meu sócio foi embora para Araguari, morar com o sogro. Com os filhos dele. Todos pequenos também. Hoje já estão todos formados. E eu fiquei em São Paulo. Firme. Fui até com uma freguesia. Acertando até pagar. Não queria ficar devendo para ninguém. Acertando as contas e tudo. Aí eu tinha comprado um Gol. Um Golzinho a ar. Era o carro que eu tinha. E não tinha dinheiro para comprar pneu. Queria ir para Jundiaí e não tinha dinheiro para comprar pneu. Queria em Jundiaí passear e não tinha dinheiro pra comprar pneu. Aí um dia o Fabrício disse: “Meu pai…” Eu não esqueço essa frase. As crianças marcam a gente. “Quando a gente era rico, a gente ia à churrascaria toda semana”. (risos). “Pois você vai comer carne daqui uns cinco anos, meu filho. Fica tranqüilo que logo o pai já acerta”. Foi uma fase. Um ano. Um ano e pouco muito sofrido. A minha esposa lecionava. Era professora. Já tinha o seu salariozinho.

 

P/1 -Ela já tinha se formado. O que ela estudou?

 

R -É pedagogia. E ela...

 

P/1 -Começou a dar aulas.

 

R -Quando ela entrou na faculdade ela já começou a dar aulas. Ela lecionava e ajudava um pouquinho. Mas eu pagava aluguel. Tinha mudado. Para a Casa Verde mesmo. Sempre morei na Casa Verde. E eu mandei um currículo para a Batavo e fui convidado para assumir a gerência de vendas do pequeno varejo. Voltando para o comercial. Como eu tinha tido sucesso nas vendas de leite do Avaré, porque eu fui gerente de vendas. Um diretor pegou o meu currículo e me contratou para trabalhar na Batavo. Trabalhei um ano e meio na Batavo como gerente de vendas. E aí eu dei uma levantada de novo. Troquei o carrinho. Já comprei um Monza. E comecei a fazer churrasquinho todo final de semana. E trabalhava aqui em Barueri. E nesse ponto eu tenho muito que falar sobre a minha esposa, porque ela segurava muito. A minha esposa é uma pessoa que não tem. Ela se arruma direitinho. Gosta de andar bem vestida. Gosta de se cuidar e tudo, mas não é uma pessoa que esbanja dinheiro. Pessoa que cuida da casa. Nós tínhamos a Maria que morava com a gente. Ela sempre cuidou muito das crianças. Dos meus filhos. Tudo. Se não fosse isso aí... Quando a  gente passa uma situação difícil. Eu fiquei muito deprimido uma época. Passa por uma situação que você acha que nunca vai passar. Eu achava que nunca ia passar dos quarenta anos. Nos trinta anos, serviço eu perco um aqui e amanhã já estou trabalhando em outro lugar. Pareciam tão fáceis as coisas. A gente enxerga as coisas sem projetar. Sem ter um plano de carreira. Eu nunca fiz plano de carreira. Agora. De três anos para cá que eu comecei a fazer. E estou indo bem, porque eu mudei a fórmula. Mas sempre fui assim. Sempre nesse estilo de achar que arrumo outro. Não tem problema. Fato é que na maioria da saída das empresas, eu que pedi para sair. Eu não fui dispensado. Eu não fui mandado embora. Eu quero sair. Não sei se foi porque aconteceu isso comigo. Não era para ter acontecido. Trabalhar tantas vezes em tantas empresas. Aí eu estava na Batavo e um diretor da Batavo foi para a Parmalat. E a Batavo também estava ruim. Não estava bom. E os diretores de lá, aquele que morreu na TAM, o Rino. Ele assumiu a Parmalat aqui no Brasil e trouxe um diretor dele, que é o Carlos Elezur. E o Carlos foi me buscar. “Francisco, vem trabalhar comigo”. Aí fui trabalhar na Parmalat. Eu entrei. Eu trabalhei na Vigor de 1986 a 1991. De 1991 a 1995 eu trabalhei por conta. Tive essas freguesias. Não. Em 1993 que eu trabalhei na Batavo. Até quase 1995. Em 1995 vim para a Parmalat. Trabalhei até 2003 na Parmalat como gerente de vendas do pequeno e médio varejo de São Paulo.  Essa é uma trajetória maluca. O que eu fiz. Às vezes eu falo para as pessoas. “Não é possível. Eu trabalhei no Leite Avaré duas vezes. Na Vigor duas vezes e na Batavo duas vezes. Eu trabalhei na Batavo e na Parmalat com o mesmo diretor”. Porque todo mundo me queria. Mas porque eu tinha umas qualidades, mas não tinha uma definição do que eu queria. Então eu me dedicava cem por cento as empresas. Às vezes, pode ser até que eu tenha deixado de dedicado algumas coisas a família. Porque, quando eu pego um coisa para fazer, eu quero fazer mesmo. Esse é o meu estilo de trabalhar. Agora que eu estou mais tranquilo, estou mudando, mas eu sofri muito nessa época. De trabalhar na Vigor, na Parmalat. Na Parmalat principalmente. Cuidava de muita coisa. Então o estresse vinha demais. Também gostava de beber um pouquinho de cerveja. Um pouquinho de alguma coisa. Saia do serviço e ia tomar umas bebidinhas. Sempre me dando bem em casa. Sempre tratando bem meus filhos e minha esposa. Mas nunca tendo aquela vida de projetar alguma coisa para falar: “Amanhã eu estou com esse carro. Vou guardar dinheiro para comprar um novo”. A única coisa que, até foi por conta que o Fabrício. Quando ele completou dezoito anos, o Fabrício, ele fez o ITESP. Acho que desenhista e projetista. Fabrício sempre foi determinado. O Maurício sempre foi de chorar, de respeitar. O Fabrício falava para a mãe: “Eu quero isso aqui”. Sempre foi mais determinado. Quando eu estava trabalhando na Parmalat ele falou: “Pai, eu vou me formar. eu estou fazendo estágio numa empresa de desenhista e eu terminando o terceiro ano eu quero, eu estou guardando dinheiro, eu quero ir para Austrália”. Ele queria ir para a Austrália. Como ele planejou o negócio, para um ano depois. Quando ele completasse dezoito anos. “Eu quero tirar a minha carta e eu vou para Austrália. Eu não vou fazer faculdade agora. Eu vou para Austrália.  Eu quero ir para lá”. Eu e a mãe dele compramos a passagem. Ida e volta. Planejamos tudo. E quando ele foi estava tudo pronto. E ele voltou de lá. Ele ficou um ano lá. E quando ele voltou, ele insistiu para eu comprar. Eu pagava aluguel. Morava num apartamento bom em Santana. De três dormitórios, com suíte, condomínio com lazer completo. Duas vagas de garagem. Gastava em condomínio e aluguel um dinheiro. “Pai, não pode continuar assim. Você vai ter que comprar um imóvel”. Foi que o Fabrício insistiu tanto que hoje eu tenho o meu apartamento. Graças a Deus. Ele me fez comprar um apartamento. Se não fosse a influência dele, eu estava no lugar até hoje, eu tenho certeza que eu estava pagando aluguel até hoje. O Fabrício e o Mauricio, principalmente o Fabrício com a mãe dele fomos… queira em outro lugar, mas compramos no Imirim mesmo. E consegui comprar esse apartamento que eu estou morando até hoje. Mas foi porque o Fabrício... Às vezes eu falo: “Fabrício. Está vendo o que você fez. Foi você que fez comprar o apartamento”. Porque depois que eu saí da Parmalat em 2003.

 

P/1 -O que aconteceu?

 

R -Em 2003 a Parmalat resolveu ter aquelas confusões financeiras e tudo. Eu já estava morando neste apartamento. Não estava pagando aluguel. Só condomínio, e eu tinha pego um fundo de garantia muito bom. Tinha vendido dois carros. O apartamento praticamente. Financiei dez mil reais. Pouquinho. Fiz um financiamento em dez anos que termina esse ano que vem agora em fevereiro. Uma prestação baixinha. Um valor bem irrisório. Graças a Deus. Aí em 2003 quando eu saí da Parmalat, inventei de mexer por conta própria. Montar escritório. Não acertei. Fui trabalhar numa outra empresa também. Trabalhei seis meses. O pessoal achando que estava pagando muito e não deu certo. E me desliguei da empresa. E fiquei fazendo consultoria. “Você não quer cuidar. Eu tenho duas fazendas. Meu filho quer montar isso e montar aquilo.  Você não quer ir lá trabalhar comigo?”. Fiz contrato de gaveta. Fiquei dois anos trabalhando com isso. Fiquei mexendo com tudo que você imagina nas fazendas. Criação de bovinos. Suínos. Porque eu fiz técnico agrícola também. Lá fiz horta, plantação de trigo. Engorda de boi. Criação de peixes. Tudo que o menino queria fazer na fazenda eu instalei para ele. Fiquei uns dois anos. Depois também, acaba. “Eu não quero mais, ele vai para os Estados Unidos, com meu pai”. Estou eu de novo procurando serviço. E foi nessa correria. Desde 2003 até o ano de 2009. Aí em 2009 eu resolvi mexer com outro serviço. Trabalhar como corretor de imóveis. Fui bem, graças a Deus. Mas sempre a minha esposa aguentando, coitada. Agora com o salário dela sempre me ajudando.

 

P/1 -Até hoje ela dá aula?

 

R -Dá aula. Acho que ela vai aposentar. Eu estou com dificuldade na minha aposentadoria. Vai dar entrada de novo agora. Devo me aposentar também. Dentro de sessenta dias, mais ou menos, devo me aposentar. Eu dei entrada na minha aposentadoria e o juiz não considerou um período da Parmalat. A Parmalat teve que comprovar. Porque toda a documentação que eu pequei na Parmalat eu não tinha reconhecido firma dos diretores. Do pessoal que ia assinar.  Então tive que ir atrás de tudo isso de novo. O período que eu trabalhei na Vigor à noite. Em câmara fria. Insalubre. Eu tenho toda a documentação, de engenheiros. Não considerou. Então eu tenho que tirar agora e juntar toda a documentação e dar entrada novamente. Talvez eu consiga me aposentar. A minha vida foi isso. Sempre de luta. Trabalhar muito. E deixar, às vezes, até um pouco de acompanhar mais os meus filhos. Quem acompanhou mais os filhos foi a minha esposa. Em tudo. Sempre acompanhou em tudo. Eu não posso deixar de falar deles que eles são maravilhosos. O Fabrício foi para a Austrália e ficou lá. E aprendeu o inglês. Voltou determinado que queria ser ator. Ele entrou para trabalhar numa empresa, no lançamento da Smirnoff Ice. Ele entrou nessa empresa. Ficou um ano e pouco trabalhando de vendedor de bebidas quentes. No centro, nos Jardins. Em tudo. Mas fazendo curso de ator. E quando ele terminou o curso de ator. Ele trabalhou na novela. Fez uma novela no SBT. Depois que ele fez essa novela. Para fazer a novela, ele saiu do emprego. Eu não queira. Falei: “Continue trabalhando. Você vai ser um diretor dessa empresa. Você vai bem lá. É empresa multinacional”. “Não, não é isso que eu quero”. O Fabrício é determinado. “Eu quero ser ator. Não adianta que é isso que eu quero”. Aí ele fez essa novela e depois ficou fazendo comercial. Comercial e teatro e foi. Até que ele conseguiu esse convite. Há uns três anos e pouco ele trabalha como apresentador na TV Mix. Ele está bem, Graças a Deus. Está morando sozinho já. Há três anos falou: “Pai, eu vou mudar”. Alugou um apartamento na Bela Vista e mora lá. Tem que ir lá de vez em quando com a mãe dele levar as coisas, mas está lá morando sozinho.  E o outro mais velho, o Maurício também fez o CPOR. Fez oito anos no CPOR, mas resolveu casar. O Maurício também tem uma história. A vida da gente é cheia de história de coisas que acontecem. Que a gente acha que não vai acontecer. O Maurício casou com a minha sobrinha. Meu filho mais velho é casado com a minha sobrinha, prima dele. Com quinze anos de idade eles já se paqueravam. E quando começaram a namorar, ele já tinha mais de dezoito anos. Já estava no CPOR e começou a namorar. E vieram contar para mim. Antes não contavam. Namoraram uns três anos sem contar para mim.

 

P/1 -E o seu irmão também não sabia?

 

R -Meu irmão sabia, só que tinha medo de falar para mim. Meu irmão lá do interior sabia. Desconfiava. Que ele ia muito para Avaré. Meu filho ia para Avaré. Pensei que ia para ver a avó. Para ver os primos. Mas já estavam namorando. E acabaram se casando quando ele terminou o CPOR. O meu irmão mora em Avaré numa chácara. Ele já tinha construído lá. Construíram uma casa muito boa lá. Ele e a Michele. Minha sobrinha. Faz quatro anos que eles estão casados. E agora que ela ficou grávida. E vai me dar uma netinha,  Isabela. Agora está todo mundo paparicando. Agora todo mundo já sabe o sexo. Já sabe o dia que vai nascer. Já estão fazendo chá de bebê. É tão lindo você ver lá o ultrassom. Ver mexendo. É tudo muito maravilhoso. E ele sempre gostou de farda. Sempre gostou desse segmento. Eu queria que ele fosse engenheiro. Ou advogado. Não. Não sei o que. Formou-se. Fez faculdade e tudo. Formou-se, mas o negócio dele é farda. Quando ele saiu do CPOR. No CPOR a pessoa fica oito anos. É contratado e depois é dispensado e fica na reserva. Ele fica oito anos como primeiro tenente. Tem um bom salário. Tem tudo. Fica no exército comandando. Que nem na Praia Grande. Ficou no Forte lá. Escolheu lá. Depois ele sai e tem que cuidar da vida pessoal dele. Ele saiu de lá e ficou um ano trabalhando em Avaré. Arrumou um serviço numa distribuidora. Estava trabalhando. E falou: “Não. Eu não quero isso. Vou prestar concurso para a polícia militar”. E eu sempre preocupado com as coisas. “Não tem o que se preocupar. Nas coisas, existe Deus e o diabo. Existe o bom e o ruim. Existe escuridão e existe a luz. E você tem que conviver com os dois. Se você eliminar a escuridão, como você vai viver só com a luz. Não tem”. Então tudo na vida você tem que entender. Eu tinha uma preocupação. Polícia. Puxa. O Mauricio vai ser polícia. Não é possível. O que eu fiz? Comecei a pensar. Será que não é perigoso? Um pouquinho da minha sombra assim sumiu. O consciente falou: “Não, ele quer. Vamos apoiar”. Ele foi a Sorocaba e passou no concurso. Fez um curso de um ano e começou a trabalhar na Polícia Militar de Avaré. Trabalhando na parte interna. Aí quando ele... o ano passado, ele falou: “Pai, vou fazer uma tentativa. Resolvi e vou prestar concurso na Escola Militar de oficiais do Barro Branco. Se eu não passar eu vou sair da polícia. Mas se eu passar…” Ele fez. E eu me sinto orgulhoso. Dez mil candidatos. É hoje uma das escolas mais procuradas. Porque ali você tem um ensino fantástico. Inclusive o Comandante Geral do Estado de São Paulo, que é o Camilo. Que foi pelo nomeado pelo Alckmin, esteve no dia da posse deles, explicando. A juventude toda quer, porque ali você já sai como oficial, comandando. Saiu como tenente. Com um ótimo salário. Você ali já sai como bacharel. Sai falando inglês e espanhol. Aprende corretamente. É o que eles alegam. Ele estudou lá, o Comandante Camilo, que é coronel. E ele falou: “É um orgulho ter um filho passar num concurso desses”. E ele conseguiu passar. Entre dez mil, tinha sessenta vagas.  Ele ficou em trigésimo nono. Conseguiu passar. E agora começou esse ano. Essa a história do Fabrício e do Maurício. Tem que orgulhar a gente.

 

P/1 - Você contou isso. E quais são os seus sonhos?

 

R -A gente já sonhou tanto. Na verdade meu projeto de três anos para cá, estou projetando o seguinte: saindo a minha aposentadoria, eu tenho uma saúde boa, eu não pretendo parar de trabalhar agora. O meu projeto é eu mudar para o interior. Só que com essa vinda do Maurício para cá, ele vai ficar quatro anos aqui estudando. A minha nora grávida. Ela trabalha em Avaré. Ela precisa vir para cá. Ele precisa ir para lá. Eu tive que mudar um pouquinho essa forma de pensar. Acho que vou ter que ficar mais quatro anos em São Paulo. Mas nesse período de quatro anos, eu estou projetando uma empresa que eu assumi agora. A gerência de uma distribuidora. E montando um projeto de montar distribuidora para pessoas. Então eu vou tocar esse projeto. Até ver o que acontece para mim. E se sair a minha aposentadoria, eu tenho que continuar mais quatro anos aqui. Eu estou com sessenta e um. Mais quatro. Até os sessenta e cinco. E aí vou ter a minha neta para cuidar. E tudo. Já mudei o projeto de não fumar. Porque eu quero brincar com meu neto ainda. Porque eu acho que eu não tinha um pensamento de até quando eu quero viver. Para mim a coisa começou hoje e acaba hoje. E isso foi difícil de entender. Eu sou muito fraco em leitura. E comecei a ler algumas coisas. Peguei um livro para ler. Comecei a entender. Do que é o significado da gente estar aqui. Objetivar a viver mais. Cuidar do corpo para viver mais. Espiritualmente a gente não vai ficar aqui mesmo, mas tem que cuidar do corpo. Então o meu pensamento. O meu projeto é esse. Cuidar-me. Ter saúde. Para poder brincar com meus netos ainda. Que eu possa ver o meu filho formado na Academia. O Maurício, que é o sonho dele. Que eu possa ver o Fabrício bem, numa grande emissora de TV. Ele está trabalhando para isso. E viver bem com a minha esposa. São trinta e cinco anos de casado e não tem nada. Eu cuidar dela. E ela cuidar de mim. E ela cuida muito bem. Porque eu sou meio relaxadão. E ela cuida muito bem. De casa e tudo.

 

P/1 - E como foi contar a sua história?

R -Olha. Eu acho legal. Muito legal. Eu só gostaria de incluir um único detalhe. Posso falar um detalhezinho do meu pai.  É uma historinha que eu esqueci contar. Meu pai teve um período muito interessante na vida dele. Ele comprava boi.

 

P/1 -Isso antes de você nascer?

 

R -Não. Quando eu estava estudando no Colégio Agrícola de São Manuel, o meu pai começou uma fase. Foi onde ele ficou muito ruim de situação, que eu precisei sair para cuidar dele. Ele comprava boi em Piracicaba. Lá de Cerqueira César cento e vinte, cento e cinquenta bois e levava pelas estradas. Em 1967. Tocando. Ele tinha uma tropa. Tropeiro. E tinha os amigos. Inclusive um irmão da minha esposa trabalhava com ele. Eu nunca imaginava que ia casar com a minha esposa. O Orlando, irmão dela era peão, junto com meu pai. E meu pai fazia muito dessas viagens. Então ele tinha muitas histórias. E uma vez eu fiz uma viagem dessas, eu tive o prazer, de com quinze anos de idade, viajar cinco dias a cavalo. Ter a experiência de dormir assim na tralha, no pouso. Nós saímos de Piracicaba com os bois tocando e atravessando Charqueado, São Manoel, Botucatu. Subia a serra com os bois. Demorava um dia. Dormia lá no tal de lava-pés em Botucatu. Tudo isso aí. E eu queria dizer isso aí. Porque foi uma grande experiência e uma admiração que eu tinha pelo meu pai. Pelo que ele lutou. Pelo que ele fazia. Ele fazia isso. E foi uma loucura. Ele fazia isso para sustentar os filhos todos. E foi onde ele teve uma infelicidade financeira. Que morreram os bois e um monte de coisas. E depois eu precisei deixar para viver com ele, mas essa foi uma experiência muito boa da minha vida. Que eu não posso esquecer falar. Que é você poder ser tropeiro, boiadeiro. Quem fala isso nem… meu filho nem imagina. O Fabrício, por exemplo, não sabia nem tirar leite de uma vaca. E a gente tem toda experiência de vida. Pode falar.

 

P/1 -Não. Era isso. Só terminando.

 

R -Eu acho interessante. Pena que a gente não faz um roteiro. A gente vem aqui e fala.

 

P/1 - Mas como foi para você a experiência de contar?

 

R -Foi ótimo. Eu acho pouca gente que eu falo isso que eu falei aqui. Que eu conto as passagens da vida da gente. Para pouca gente. Eu sou muito fechado nessas coisas. Eu achei maravilhoso. Isso aqui é ótimo. Pudera a gente deixar isso gravado para os netos, bisnetos. Ou para algumas pessoas depois.

 

P/1 -Agora vai poder.

 

R -Isso é uma coisa rica. De a gente poder deixar. Eu só posso agradecer o convite e estou feliz por ter participado. Espero ter correspondido à expectativa um pouco.

 

P/1 -Obrigado por ter participado.

 

R -Eu que agradeço. Nossa. Para mim foi ótimo. Fico feliz.

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