Busca avançada



Criar

História

A gente é que tem que carregar o peso da gente

História de: Maria Francisca Thereza Kazniakowski Squizato
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/03/2014

Sinopse

Maria Francisca Thereza foi tão esperada por seus pais, que só tiveram filhos homens antes dela, que seu nome foi consequência de uma promessa à Santa Terezinha. Uma grande contadora de histórias, Thereza cresceu em uma família relativamente libertária para a época e formou-se intelectualmente e religiosamente com as freiras Marcelinas. Ao sair do Colégio já foi morar sozinha, conquistando sua independência de pouco em pouco. Formou-se odontopediatra pela Universidade de São Paulo, onde seguiu carreira acadêmica por um tempo. Odontopediatria é a profissão que segue até hoje, e que adora. Aprende muito com seus pacientes, e ama crianças. Casou-se com Mauro, jornalista. A vida adulta do casal foi bastante marcada pela dinâmica repressiva da ditadura militar, e Thereza viu muitos amigos serem presos, exilados ou desaparecerem. Não se considera uma grande sonhadora, pois acredita na potência do cotidiano, do "dia de hoje", como diz. Porém, percebe que já realizou muitos sonhos durante sua vida. Conquistar sua independência foi a principal lição que aprendeu com o pai e o que mais valoriza. Segundo Thereza, sua vida foi guiada por esse saber: "A gente é que tem que carregar o peso da gente". 

Tags

História completa

P/1 - Thereza, eu vou pedir pra você repetir o seu nome, sua data de nascimento e o lugar onde você nasceu.

 

R - É, o meu nome é Maria Francisca Thereza Kazniakowski Squizato, nasci no dia 13 de fevereiro de 1939 na ci...em uma fazenda em Amparo, município de São Paulo.

 

P/1 - Tá, qual que era o nome dos seus pais?

 

R - Meu pai se chamava Mariano Rodolpho Kazniakowski e minha mãe Dalila Badejo Kazniakowski.

 

P/1 - Qual que é a história deles um pouco?

 

R - É, meu pai é um polonês nascido na Ucrânia, que veio para o Brasil em 1924 por ter perdido toda a sua família na guerra de quatorze a dezoito, se formou na Universidade de Varsóvia como engenheiro e resolveu vir tentar a vida no Brasil a conselho de um amigo que dizia que aqui era a terra promissora.

 

P/1 - Então ele já conhecia...

 

R - A minha mãe?

 

P/1 - Não, ele já conhecia alguém aqui em São... aqui no Brasil?

 

R - Não.

 

P/1 - Não.

 

R - É, ele conhecia...

 

P/1 - Era a informação que circulava lá, é que aqui...

 

R - Circulava lá. Aí ele veio com dois amigos... Infelizmente esses amigos durante a viagem, vieram em um navio Belvedere, que foi um navio que veio, vieram muitos judeus da Europa e a ideia era parar no Rio de janeiro e depois seguir para Buenos Aires. Mas quando ele parou no Rio de janeiro esses amigos chegaram muito doentes da viagem e eles morreram e o meu pai ficou mais tempo no Rio e amou o Rio de janeiro, achou o povo brasileiro, assim, maravilhoso. E ele sempre brincava, falava assim: "Que a fruta todo mundo chamava por um nome de uma coisa ruim, mas foi a melhor fruta que ele provou na vida, foi o abacaxi". E ficou no Rio de Janeiro algum tempo e por questões profissionais veio parar em São Paulo. E conheceu um, tio que era casado com a irmã da minha mãe e aí conheceu minha mãe que era uma catarinense que tinha também perdido o pai muito cedo e tinha vindo para São Paulo com três filhos... Pai não, eu errei...O tinha perdido...

 

P/1 - Tinha perdido a mãe...

 

R - ...o marido cedo...

 

P/1 - Ah, o marido!

 

R - E, e resolveu vir com os filhos para São Paulo porque os tios estavam muito bem aqui. Ela era uma professora formada e veio com a mãe, conheceu o meu pai e eles casaram em 1935. E...

 

P/1 - Quantos filhos ela já...

 

R - 1934...

 

P/1 - 34. Quantos filhos ela já tinha?

 

R - A minha mãe?

 

P/1 - É.

 

R - A minha mãe teve quatro filhos. É, eu sou a única menina de uma família muito masculina (risos), que foi, meu pai chegou a fazer promessa para Santa Terezinha, de quem ele era devoto...

 

P/1 - Para nascer uma menina?

 

R - Se viesse uma menina… O meu nome é por isso, porque o nome de Santa Terezinha é Maria Francisca Thereza.

 

P/1 - Ah, não sabia.

 

R - E eu tenho, esqueci de te mostrar, eu tenho uma, uma pequena imagenzinha de Santa Terezinha que acompanhou o meu pai toda a guerra e veio com ele da Europa... Papai era um homem muito culto, então ele nos proporcionava, assim, coisas maravilhosas, e tinha um amor pela natureza incrível, por isso que a gente tinha casa perto do Pico de Itatiaia, depois a gente também morou na Vale do Paraíba, ali perto de Cachoeira e sempre as nossas férias eram dentro da natureza. Ah, então, ou a gente ia para um… sempre para um lugar que ele sempre estava descobrindo e proporcionando viagens para todos, que naquela ocasião ninguém dizia que era ponto turístico, mas pelas estradas que ele ia abrindo, ele ia achando bonito e queria mostrar para os filhos. E papai nunca deixava os filhos e nem a mulher para trás. Nós viajávamos, sempre era o motorista, meu pai, minha mãe, nossa professora e a nossa babá. Se não desse para ir todo mundo, não ia. Ele mantinha uma casa aqui em São Paulo e uma casa sempre no local do trabalho dele.

 

P/1 - Então, porque daí ele, ele quando chegou aqui ele já começou a trabalhar...

 

R - Trabalhar como engenheiro...

 

P/1 - ...como engenheiro...

 

R - Não, antes não, no Rio ele teve que se sujeitar, porque não foi aceito o docu...o, o, diploma dele e ele teve que se sujeitar a trabalhar em escritórios de engenharia em funções que não eram de engenheiro. Aí meu pai sofreu muito, porque o meu pai na procura de fazer as coisas, ele se tornou sócio de uma pessoa, que eu preferia não citar nome, que foi padrinho até do meu irmão mais novo e quando veio a segunda guerra, ele por questões dos aliados e não aliados e ele era polonês, ele não podia ter nada. E aí, esse sócio que era compadre acabou tirando tudo do meu pai...

 

P/1 - Ah, porque daí ele passou tudo para o nome do sócio enquanto estava na guerra e depois...

 

R - Meu pai...

 

P/1 - Ele nunca devolveu.

 

R - Meu pai teve reconstruir a vida toda de novo depois e foi quando o meu pai resolveu se naturalizar como brasileiro…

 

P/1 - Sim.

 

R - Por questões mesmo que ele já tinha sofrido muito na guerra, aí aconteceu isso daí e ele então resolveu se naturalizar. Ele que se chamava Marian passou a se chamar Mariano Rodolpho Kazniakowski.

 

P/1 - Sim. E ele, daí ele...

 

R - Mas ele foi uma pessoa muito forte, uma presença muito forte na minha vida, porque às vezes me perguntam: “Mas e a sua mãe, qual era a sua ligação com a sua mãe?”. A ligação com a minha mãe era uma ligação mais, é, suave, porque meu pai, quando nós tínhamos doze anos, o presente dos doze anos era a chave de casa.

 

P/1 - Ah, então todo mundo ganhava a chave de casa...

 

R - Então ele chamava no escritório, sentava a gente em uma poltrona como essa ou parecida com essa, pegava uma bula de remédio e virava e falava assim: "Minha filha ou meu filho aqui está seu presente..." Em uma caixinha bonitinha, uma chave de casa e falava: "A partir de hoje você é um adulto, o que você fizer contra a sua saúde, talvez um médico possa te ajudar, o que você fizer contra a sua, a sua maneira de pensar, de se conduzir na vida, vai ficar com você, eu talvez possa te ajudar, mas é uma coisa que vai ser sua porque vai ficar na sua cabeça e lá ninguém entra, então você use sempre a sua cabeça para crescer no mundo e na hora que puser a cabeça no travesseiro não pense com a cabeça dos outros, pense com a sua cabeça, porque você é que tem que fazer a sua vida. A gente vem para essa vida sozinho e vai sozinho...

 

P/1 - Lindo mesmo.

 

R - ...Você tem a família que te apoia, a família é o maior esteio da vida da gente, mas leve isso daqui para frente..."

 

P/1 - Esse era o ritual de passagem dos doze anos...

 

R - De doze anos, de doze anos. E ele realmente respeitava e ele falava assim: "Quando você estiver sozinho e você tiver dúvidas, antes de você vir conversar, você pega um caderno e escreve do lado esquerdo tudo o que você acha que possa ser ruim em uma atitude, e do lado direito tudo o que possa ser bom, fecha o caderno e no dia seguinte você decide o que é melhor para você, se aí você precisar uma ajuda, seu pai, sua mãe..." Ele era muito católico, ele falou assim: "Até um padre de repente pode te ajudar ou um médico. Daí para frente minha filha, siga os seus passos, eu vou estar sempre do seu lado". E ele era assim com todos nós, eu com... Naquela ocasião para mulher era difícil, mas eu com dezessete anos, eu morava sozinha em São Paulo.

 

P/1 - Então...

 

R - Meu irmão tinha um apartamento e eu tinha outro.

 

P/1 - Entendi. Ah, vocês não moravam juntos.

 

R - Não. Eu estudava na USP, ele falou: "Você vai fazer a sua vida e o seu irmão vai fazer a vida dele".

 

P/1 - E o seu irmão é aquele que você falou que entrou...

 

R - Ele fez medicina na Pinheiros. Depois eu tive, o meu segundo irmão foi ser da, era da Marinha e o meu terceiro irmão fez economia, mas todos nós sempre meu pai individualizou muito, ele falava: "Não, não tem essa história, porque você é responsável por ele, ele é responsável por... Não, não, não, você é responsável por você, ele é responsável por ele, se vocês puderem se ajudar, vocês se ajudam, mas não contem com o outro para a sua responsabilidade”. Então nós fomos criados assim e minha mãe...

 

P/1 - Mas então vamos voltar só um pouquinho...

 

R - ...era companheira, era a mãe que, ali que estava na hora que chorava, na hora que estava doente, dava sempre um...muito carinhosa, mas nunca meu pai deixou de viajar com a minha mãe. Nós ficávamos ou com os empregados ou com... A partir do Admissão era os internos que naquela ocasião era a melhor opção para quem não podia ficar com os seus filhos em casa, porque tinham poucos colégios.

 

P/1 - Isso que eu ia te perguntar. Não, aí você me mostrou aquela foto da sua, da moça que foi sua professora e dos seus irmãos...

 

R - Exatamente.

 

P/1 - ...porque vocês não foram à escola.

 

R - Não. Porque papai, como ele construía estradas, para vocês terem ideia, a gente levava dois dias para chegar no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Hum.

 

R – Né?

 

P/1 - E quando vocês eram pequenos ele estava construindo a Dutra.

 

R - Ah, tinha que andar tudo junto, era aquela coisa, era um monte de gente andando junto. Então ele construiu o trecho da Dutra entre Cachoeira Paulista e Rezende na época do Eurico Gaspar Dutra, que deu nome para a estrada. Era a época que estava se formando melhor aquela Escola Militar de Agulhas Negras. Então, dali eu tenho uma linda lembrança que foi quando surgiu o sorvete Kibon...

 

P/1 - Olha, como foi?

 

R - Que nós saímos de Itatiaia de carro, que os carros, que os carros eram importados, que era outra, outra coisa, tinha que ir em Santos retirar o carro no Porto de Santos, né? Papai tinha um carro muito bonito, um Buick. E aí um dia ele virou e falou assim: 'Hoje nós vamos tomar um sorvete que vocês não conhecem’. E fomos para o Rio de janeiro, chegou no Rio de janeiro o Kibon, que era o Eskibon... E a minha mãe tinha um tio no Rio de Janeiro, imagine, era dono do morro Canta Galo.

 

P/1 - Do morro inteiro?

 

R - É. E da onde ele fez uma pedreira que asfaltou muitas ruas do Rio de Janeiro, depois aquilo foi tudo desapropriado. E, e o Rio de janeiro, mais ou menos a Zona Sul acabava no Leblon, depois era como se, uma estrada para ir ali para o lado da Barra, tinha um campo de golfe dos ingleses, eu acho, que a gente passava quando vinha. É, então na estrada meu pai ia nos mostrando tudo. Foi quando uns americanos, os primeiros americanos, que não foram muito bem recebidos vieram fazer a Usina Billings em Barra do Piraí, então a gente passava por ali... Um tio meu trabalhou naquela usina. E, e aí nós fomos tomar sorvetes Kibon na praia de Ipanema...

 

P/1 - Hum...

 

R - Que não tinha Vieira Souto, ali era tudo areia, que depois virou avenida, né, então é uma lembrança de infância bonita que eu tenho a gente tomando, é, sorvetes Kibon no Rio de Janeiro (risos). Então, e, mas eu perdi o fio... Onde eu...

 

P/1 - Não, legal, aí você estava falando que sempre vocês viajavam com a professora...

 

R - Viajava com a professora. É, então a gente acordava... Tinha um ritual...

 

P/1 - Sempre foi aquela mesma professora?

 

R - Sempre foi.

 

P/1 - Como que ela chamava?

 

R - Carmen Nair, mas a gente chamava só de Dona Nair.

 

P/1 - E ela foi professora de vocês quatro?

 

R - De nós quatro. O meu irmão mais velho depois foi interno no Colégio dos Maristas, na Domingos de Moraes.

 

P/1 – Hum.

 

R – O, o meu outro irmão que era muito levado meu pai não quis colocar lá, colocou no Colégio São Bento, no Centro da cidade.

 

P/1 - Hum.

 

R - E o meu irmão menor foi o único que não foi interno porque ele foi atropelado pelo nosso carro dentro da nossa casa por causa de um cachorro, que ele foi salvar o cachorro e ele foi atropelado. E aí então ele tinha uns regimes, ele ficou sofrendo do fígado muito tempo, o que hoje chamariam de Hepatite, então minha mãe não internou ele, ficou mais tempo e depois ele estudou em colégio externo, mas ele tinha uma diferença de idade com a gente. Eu estudei nas Marcelinas, entrei para lá em 1949, 1950 e saí de lá para ir para USP. E foi um período maravilhoso na minha vida, ao contrário do que muita gente diz que internato era um pavor, eu amava o colégio, porque eu não tinha meninas para brincar e lá eu tinha um monte e as irmãs eram italianas, eram fantásticas, carinhosas e brincavam com a gente, só tinha freiras, não tinha funcionários, as professoras todas eram freiras e...

 

P/1 - E nas férias você voltava, aí você encontrava os seus pais?

 

R - Não, aí era assim, se tivesse média no primeiro mês que você entrava para o colégio você não saía porque você tinha acabado de vir de férias, no segundo mês, é, tinha geralmente as férias de Páscoa, então saía, depois em Maio, que era dia das mães, que já existia, se você tivesse média você saía no domingo das mães para passar com a sua mãe, senão saía não, a mãe que fosse te visitar no horário de visita aos domingos. Em junho não saía porque já ia tirar férias em julho, porque aí tinha o mês de julho todo. Agosto não saía porque tinha acabado de chegar de julho, setembro saía se fechasse média nove e, e ao contrário das escolas de hoje a gente tinha aula de comportamento, civilidade (risos), é, Artes... As irmãs Marcelinas eram muito abertas, como até hoje acho que as freiras mais abertas que tem, porque tem faculdade de moda, faculdade... Elas são bem arejadas de cabeça, então nós éramos obrigados a, a ter uma parte artística muito, bem intensa, tanto é que eu aprendi dança, fiz nove anos piano, aprendi pintura...

 

P/1 - Tudo isso na escola?

 

R - Tudo no colégio. Então as irmãs falavam abertamente, falavam: "Olha, os pais deixam quem quiser que a gente realmente forme as crianças, porque...” E os pais moravam longe, a maioria, então eu tive colegas, eu tive, eu tinha colegas que não iam nas férias para casa porque não tinham facilidade para ir, que morava no Mato Grosso, que morava no Amazonas, é, no Norte, Nordeste vinha muita gente estudar...

 

P/1 - Hum.

 

R - Então nas férias de julho que eram curtas elas nem iam para casa. As irmãs tinham uma casa em Campos de Jordão e uma casa em Santos, então as irmãs passavam as férias e elas...

 

P/1 - Daí elas levavam essas meninas que...

 

R - É, e eu conheci todos os Museus, Municipal... Municipal eu já tinha ido com o meu pai sim, mas... Desde pequeninha ele podendo, tendo alguma coisa que pudesse, um ballet, alguma coisa, um... E tinha muita ópera, então a gente ia, até em ópera o meu pai levava e a gente... Não tinha essa história que criança hoje faz o programa, né. Outra coisa também que marcava muito a gente, meu pai e minha mãe sentavam a mesa para a gente comer, mas era a mesa das crianças e depois eles iam sentar na mesa, a mesa para eles conversarem. Então a gente ia para a mesa dos adultos só com doze anos.

 

P/1 - Ah, por que será que era doze anos? Doze anos...

 

R - Doze anos meu pai marcava como sendo adulto, então tinha que entrar na conversa de adulto, tinha que conversar coisas de adulto...

 

P/1 - Então chegou a época dos seus irmãos já estarem na mesa dos adultos e você ainda não.

 

R - E nós ainda não. Calça cumprida (risos) de menino era com quatorze anos...

 

P/1 - Nem aos doze.

 

R - Era, parecia um bermudão, a calça curta com meia por aqui, né, era muito diferente, a gente... Eu sempre digo para os meus filhos, eu sou uma pessoa… Sempre fui muito feliz, eu passei períodos bem difíceis na minha vida, mas sempre fui muito feliz. Por quê? Porque meu pai era, foi muito forte, acho que como ele passou tanta coisa, ele passava o lado bom da vida para a gente, sabe, então, é, a gente tinha férias maravilhosas, tudo o que ele podia proporcionar... Férias eram férias, não tinha esse negócio de ficar com mil coisas como hoje que você... Eu morro de pena das crianças que passam o tempo todo em shopping center.

 

P/1 - Hum.

 

R - Eu entro no shopping center eu morro de pena das crianças, eu cuido de crianças, porque a minha especialização é crianças... Porque era fantástico, a gente brincava, a gente tinha outra... E vimos o mundo mudar completamente, do tempo que eu pegava o telefone assim e marcava hora para falar dois dias depois com o meu pai.

 

P/1 - Sim.

 

R - Se chovesse não falava, porque o telefone não permitia, né, marcava hora e tal. E tinha lugares que a gente tinha que ir no posto telefônico porque todo mundo não tinha telefone em casa.

 

P/1 - Hum.

 

R - Né. E como eu te falei, na minha época de faculdade quase ninguém tinha carro.

 

P/1 - Então, não, então vamos voltar só um pouquinho. Daí, assim, embora você tenha tido uma formação mais artística...

 

R - Isso.

 

P/1 - ...com ênfase nisso, você... Quando que você resolveu fazer odontologia?

 

R – Odontologia?

 

P/1 - Você já sabia que você queria fazer?

 

R - Bom, o nosso...

 

P/1 - Você optou pelo Científico?

 

R - ...o nosso, o nosso leque de, de procura de profissão, né, meu pai sempre falava para mim assim: "Minha filha, você não vai ser dona de casa". Porque tinha em São Paulo um curso que se chamava Lareira, que até hoje tem esse Grupo Lareira, mas que era para formar damas da sociedade e donas de casa. Não sei se você já tinha ouvido falar isso.

 

P/1 - Acho que já...

 

R - Que era do padre Calazans e de umas senhoras da sociedade paulista. Então lá você ia aprender decoração, arrumar o vaso de flores para você poder mandar nas empregadas. O meu pai falou: "Cai fora! (risos) O seu negócio não é esse, você vai pegar uma época que a mulher vai ter que ser de igual para igual, vocês estão aqui no tempo ainda de escravidão dizendo que não existe mais escravidão". Meu pai abria muito isso para a gente. E aí, é, ele então me, desde, é... Eu nunca vi meu pai brigar com a minha mãe na nossa frente, isso que acho que me trouxe essa felicidade também enorme e o nosso, a nossa disciplina, em vez de falar como hoje: "Ó, vai lá, você vai pensar um pouquinho". Falava: "Filho, olha, acalma um pouquinho, toma um copo d'água vai lá para o escritório, pega o livro tal, lê tal, depois você vai me contar". Era o castigo maior que a gente recebia dele. Então, (risos) meu irmão que era muito levado leu aquela comédia, é, negócio da juventude, como é que se chama?

 

P/1 - É Tesouros da juventude, da juventude.

 

R - Tesouros da juventude inteiro (risos), Monteiro Lobato inteiro.

 

P/1 - Entendi, quanto mais levado mais leu na infância (risos).

 

R - É. Então... Não, todo mundo tinha que ler...

 

P/1 - Sim, mas ele lia mais porque ele ficava mais de castigo.

 

R - ... Não tinha televisão. É. Não tinha televisão e rádio tinha muito pouco. Eu lembro, eu tenho uma lembrança que minha mãe diz que eu devia de ter uns quatro anos, eu sentada no colo do meu pai e foi a primeira vez que eu vi meu pai chorar, foi quando os alemães entraram em Varsóvia, Segunda Guerra.

 

P/1 - Hum.

 

R - E eu lembro a lágrima rolando do meu pai, meu pai escutando a BBC de Londres naqueles rádios capelinha imensos e aqui fazia blackout. A nossa casa tinha que ter um, um tecido escuro que quando escurecia...

 

P/1 - Vocês tinham que colocar...

 

R - ...todo mundo puxava aquilo para poder acender as luzes para São Paulo não ficar iluminado porque achavam que podiam vir bombardear São Paulo, né.

 

P/1 - Sim.

 

R - Então, eu lembro disso. Eu, nós tínhamos uma casa muito boa ali no, na Tomé de Souza, no Alto da Lapa, que foi uma das primeiras, primeiros bairros city de São Paulo, então meu pai tinha, nós morávamos primeiro ali e...

 

P/1 - Foi o primeiro bairro que você morou aqui em São Paulo? Foi o Alto da Lapa?

 

R - Não, eu, nós moramos no Alto da Lapa, depois como, é, a Diógenes era mato puro, então meu pai resolveu ele foi, nós fomos morar na, acho que foi isso que, o motivo que sempre moraram no Alto da Lapa e na Lapa porque meu pai era muito ligado com os amigos lituanos que moravam lá também no Alto da Lapa.

 

P/1 - Hum.

 

R - E aí depois meu pai, como gostava muito da parte de cultura, ele acabou ficando amigo de um grupo que era daquele Freitas Valle ali na Vila Mariana, na Domingos de Moraes. E meu pai então resolveu comprar uma casa ali na Domingos de Moraes onde é exatamente hoje a Estação Santa Cruz, que foi onde esse meu irmão foi atropelado. Que eram casas muito amplas que você entrava com o carro e dava volta, assim, por dentro da casa e saía por outro lado, né. Então, e nessa época da Segunda Guerra...

 

P/1 – Mas é, isso. Você estava contando, é.

 

R - É, nós estávamos no Alto da Lapa e isso marcou, foi a primeira vez na minha vida que eu ouvi falar em ladrão, porque entrou um ladrão na nossa casa.

 

P/1 - Vocês estavam lá dentro?

 

R - Eu estava com a minha avó porque o meu pai e a minha mãe eles, é, eram outros tempos, né, então tinham grupos por exemplo, que jogavam Bridge e aí, papai e mamãe saíram à noite e nessa noite... Minha avó não morou nunca com a gente, morou com uma tia, e ela foi ficar com a gente por algum motivo que eu não sei e aí o tal do ladrão entrou. E foi... Eu lembro da minha avó gritando, gritando, gritando, gritando e depois eu soube que era um ladrão que tinha entrado na casa. Mas também, é uma vaga lembrança que eu fiquei.

 

P/1 - Sim, você nem sabe o que aconteceu, né.

 

R - Nessa casa foi esse choro do meu pai, o ladrão que entrou e nós tínhamos um macaquinho, porque tinha tanto mato em volta e a gente dava comida para o macaco e o macaco vinha e disputava comida com o cachorro. Só que um dia a empregada foi brigar com o macaco e o macaco mordeu a empregada e aí meu pai chamou alguém para pegar o macaco e levar o macaco porque dava, deu muito trabalho a mordida do macaco na moça que trabalhava lá em casa. Então, a primeira casa foi lá no Alto da Lapa e era uma viagem para ir para casa.

 

P/1 – Do Alto da Lapa até o Centro.

 

R - A gente passava por um lugar que não tinha casa... Outra lembrança que eu lembro é que, que eu tenho, é que ali na região do Jóquei, na cidade Jardim...

 

P/1 - Hum.

R - ...eu tinha um tio que tinha uma farmácia... Um tio emprestado, que na verdade era um grande amigo do meu pai, que a gente também já chamava de tio, que não tinha filhos e ele tinha uma farmácia ali na Cidade Jardim e a Ponte da Cidade Jardim que vai para o Morumbi era de madeira, então quando o carro passava fazia assim: BLÁ-BLÁ-BLÁ-BLÁ-BLÁ-BLÁ-BLÁ-BLÁ-BLÁ. Sabe? (risos) e as crianças brincavam dentro do carro com aquele barulho e...

 

P/1 - Aí você lembra que quando você ia na casa desse tio...

 

R - Ah, lembro...

 

P/1 - Passava pela ponte que fazia barulho.

 

R - E às vezes a gente atravessava a ponte porque era uma grande fazenda do outro lado ali.

 

P/1 - Hum.

 

R - Que hoje eu acho que é a Casa da Fazenda do Morumbi. Mas são ideias mais... E o rio, é, bom, isso eu peguei com os meus filhos ainda. Quando os meus filhos eram pequenos eu pegava peixinhos na lagoa ali onde é o parque Villa Lobos hoje.

 

P/1 - Ah, porque daí você morava ali...

 

R - Os meus filhos mais velhos eu pegava o puçá e ia lá pegar peixinhos com eles atrás de onde é o Santa Cruz hoje. O Santa Cruz estava começando ali, porque não tinha a marginal e estavam fazendo ainda o CEASA. E, e as caçambas que passavam transportando terra da marginal nessa ocasião, eles não tinham água, não tinha muita luz por ali, tinha o clube Anhembi, tinha um vizinho meu de fundo, tinha o depósito do Mappin, né. E, e aí eles não tinham onde beber água, aí eles paravam na minha casa, que eu tinha acabado de comprar... Isso já foi em mil novecentos e sessenta e...sessenta, 1964, 1965, né. E, que eu fui morar ali porque como a USP, Cidade Universitária, eu lecionava na USP na Três rios, eu quis morar ali porque iria ficar fácil para mim. Mas infelizmente eu fiquei pouco tempo na USP porque meu filho mais velho sofreu um acidente muito sério e eu tive que levá-lo para fora porque aqui a medicina ainda não tinha chegado em um ponto para poder tratá-lo. Então eu fui para...

 

P/1 - Aí você pediu uma licença? Você se afastou?

 

R - Aí, é, a gente fala muito mal do governo sempre, né, mas aí eu descobri que o INSS da ocasião, dito por um médico que, que me atendeu dava direito a você ir para o exterior fazer as cirurgias ou tratamentos necessários que eles arcavam com, na ocasião, dez mil dólares.

 

P/1 - Que era muito dinheiro.

 

R - Muito dinheiro, tanto dinheiro que eu devolvi porque o tratamento do meu filho, essa cirurgia que eu fiz em Viena em uma clínica particular porque lá era muita coisa, é, era governamental, né, é eu fiquei lá hospedada, o meu filho muito bem tratado, em uma clínica particular, Eu apresentei todos os documentos e na ocasião ficou o preço de um dia no Sírio Libanês daquela ocasião. E aí...

 

P/1 - No tanto que então desses dez mil dólares...

 

R - Eu devolvi...

 

P/1 - ...você pôde devolver o dinheiro.

 

R - E foi muito rápido porque o médico fez uma, um, um laudo, eu fui e entreguei esse laudo no INSS, o INSS em menos de quinze dias me chamou em um, um banco, acho que Banco do Brasil se não me engano, não me lembro bem se foi Banco do Brasil, mas acho que foi Banco do Brasil e fez eu assinar um documento... Meu marido dizia assim: "Você vai perder tempo minha filha, que não sei o quê..." Mas quase na véspera de viajar, porque eu ia de qualquer jeito, é, na véspera de viajar me chamaram, me entregaram dez mil dólares em nota e fizeram eu assinar um documento dizendo que eu trazia os comprovantes e devolveria...

 

P/1 - Se tivesse...

 

R - ...o que não tivesse comprovante.

 

P/1 - Ahã.

 

R - E assim eu fiz. Eu me lembro que isso tudo eu fiquei lá vinte dias em Viena com ele em uma clínica particular e foi a salvação da cirurgia dele mesmo e me custou três mil e duzentos dólares.

 

P/1 - Então você devolveu seis mil e oitocentos dólares.

 

R - Eu devolvi o restante. Foi quando eu descobri que isso existia. E depois que aconteceu isso com o meu filho, eu soube de outros casos que não imaginavam, porque os médicos também não sabiam, eu acho, e foram também e receberam como eu, pelo mesmo caminho que eu fiz. Depois a cirurgia, graças a Deus a medicina aqui cresceu muito, né, então não precisa mais ir para fora. Aqui está melhor...

 

P/1 - Então, mas vamos voltar Thereza. Daí assim, aí, você estava me contando que daí o seu pai falava para você...

 

R - Exatamente, a profissão...

 

P/1 - ...que não era para você fazer esse curso de madame (risos).

 

R - É, dizia: "Nada de curso de madame".

 

P/1 - E você resolveu fazer odontologia.

 

R - É, ele falava assim: "Vocês não vão, vocês vão ter que trabalhar junto com os maridos e vão ter que fazer a vida e vê o que você gosta de fazer. Agora, não importa…” Ele falava assim: “...Não importa, de repente você até quer ser cozinheira, mas seja feliz, vá para uma profissão que você seja feliz". Aí eu fiquei pensando, pensando e fiquei com aquilo na cabeça e à medida que eu fui estudando com as Marcelinas e o curso era muito bom por sinal, eu fui me interessando muito pela parte mais ligada com a área médica.

 

P/1 - Hum.

 

R - Né. E, não sei por que também um irmão meu foi ser médico, porque não tinha nenhum médico na família, mas eu também não sabia que ele queria ser médico nem nada, aí quando eu cheguei, a gente tinha que optar no, se queria Clássico, Científico ou Normal. Normal, né, para professora, Clássico era Humanas, e Científico. Eu fui para o Científico e nós éramos internas oito só que quiseram científico.

 

P/1 - O resto todo mundo fez Clássico ou Normal?

 

R - Todo mundo Clássico. Todo mundo Clássico não. Clássico, é, assim, a metade fez Normal para ser professora e um terço desse restante que era, vamos dizer, um terço, foi para Científico e dois terços para Clássico.

 

P/1 - Hum. Vocês eram em quantas no Científico?

 

R - No científico nós éramos oito...

 

P/1 - Oito.

 

R - Internas, né.

 

P/1 - Fora as...

 

R - As externas que nós não tínhamos o menor contato.

 

P/1 - Ah era separado!

 

R - Não misturava de jeito nenhum.

 

P/1 - Vocês não estudaram...

 

R - Não, no Científico a gente tinha aula junto, mas era uma sala muito ampla e era dividido.

 

P/1 - Nossa! Mas por quê?

 

R - Porque não se comunicava, interna não se comunicava com externa, nem nada. Era muito rigoroso o colégio e, mas para a época era o normal, disciplina, o rigor, é, agora...

 

P/1 - Então você não teve, você não fez nenhuma amiga nesse outro grupo?

 

R - Depois eu até me tornei porque nós nos encontramos na faculdade.

 

P/1 - Sim, mas durante toda essa convivência na escola não.

 

R - Não, a gente sabia todo mundo que era lá e todo mundo que era cá, mas não podia conversar, o recreio era separado, tudo separado.

 

P/1 - Nossa, eu não sabia disso.

 

R - Só a aula, a professora era igual.

 

P/1 - Entendi.

 

R - Entendeu? E, e...

 

P/1 - Como se tivessem dois mundos paralelos.

 

R - Isso (risos). E aí para espanto das irmãs, eu acho, todas nós entramos na USP.

 

P/1 - Todas as oito?

 

R - E todas direto. E foi o primeiro ano, o meu irmão estava batalhando, já tinha batalhado dois anos para entrar na Faculdade Pinheiros. Só que ele não ficou interno até o Científico, ele, meu pai tirou porque disseram que o colégio público era melhor do que o privado, naquela ocasião.

 

P/1 - Sim.

 

R - Então tinha um colégio que diziam maravilhas, fora o Caetano de Campos que estudou o meu outro irmão, é, que era ali na Gabriel Monteiro da Silva. E meu irmão foi para lá porque ele queria entrar na medicina e os Maristas eram fracos. Então ele foi para lá. Aí meu irmão falou assim para mim: "Ih Thereza, é difícil, faz o seguinte ó, nem queima a cabeça, a Medicina esse ano vai fazer o primeiro teste, porque o vestibular agora vai ser teste..." Mas eu ainda peguei, cada faculdade fazia...

 

P/1 - De uma forma...

 

R - De uma...

 

P/1 - Não era unificado.

 

R - Não era unificado e era exame escrito e oral e você ia sabendo à medida que você ia fazendo.

 

P/1 - Hum.

 

R - Né. E aí na odontologia foi isso e o meu irmão virou e falou assim: "Se inscreve na Pinheiros para você fazer o teste da Pinheiros porque o ano que vem a Odonto vai fazer a mesma coisa". E eu me inscrevi nos dois e felizmente eu entrei nos dois.

 

P/1 - Hum... E aí você escolheu.

 

R - Mas eu não queria Medicina, eu queria Odonto porque as irmãs davam panoramas mais ou menos do que você podia em cada coisa e eu não sei porque e, eu sempre tive muita aptidão para coordenação para coisas manuais, eu...

 

P/1 - Hum. É, que dentista tem esse lado, né...

 

R - É. E eu estudei piano...

 

P/1 - ...que é de restaurador, né.

 

R - Eu estudei piano até o nano ano lá com as irmãs, mas com a Magdalena Tagliaferro, com não sei mais quem e eles sempre falavam, mas música não era o meu negócio. Eu fazia porque toda menina tinha que fazer música, dança e pintura e o... Não podia. Ah, isso era muito interessante, nunca me deixaram...

 

P/1 - Espera só um pouquinho... Não podia... Só porque ele, ele vai trocar a fita

 

 

P/1 - Pronto. O que que não podia?

 

R - Sabe o que não podia que às vezes, não era bem como elas diziam: "Não é bem tocar violão porque é um instrumento de boêmio". E fazer crochê.

 

P/1 - Não podia fazer crochê?

 

R - Não fazia crochê, as irmãs não ensinavam crochê. Elas eram italianas, (risos) então eu aprendi...

 

P/1 - Que coisa louca... Por que será?

 

R - Eu fiz todo o meu enxoval, que eu tenho as minhas toalhas até hoje, bordadas em linho italiano, não sei que jeito, mas era crivo, bainha aberta, é, o máximo de, assim, mais comum que a gente aprendia um pouco, tricô. Mas era pintura de porcelana, era uma freira francesa que pintava divinamente, é (risos), mas ao mesmo tempo, na aula de prendas domésticas, que tinha nas Marcelinas...

 

P/1 - Hum.

 

R - ...a gente fazia um rodízio com as irmãs para aprender a passar, a cozinhar, a cuidar de uma casa, a fazer um arranjo de flores... Que hoje a gente vê esses arranjos bonitos e tal, elas já faziam, porque elas eram italianas e vinham com uma cultura do norte da Itália muito forte.

 

P/1 - Hum.

 

R - Então você tinha a dança, eram danças, era o ballet, né, e depois danças, todas as danças folclóricas que a gente aprendia eram europeias, não eram brasileiras. O máximo das brasileiras que a gente aprendia era a Quadrilha porque tinha a Festa Junina, né. E a gente, era o tempo que o inglês não era tão importante como hoje, era o francês o forte e com elas que eram italianas a gente também...

 

P/1 - Tinha italiano.

 

R - ...arranhava um pouco do italiano. Até uma certa... E elas falavam muito em italiano com a gente também. E enfim, e aí eu tomei gosto porque também quando foi os meus quinze anos tinha o famoso baile das debutantes e meu pai era sócio do Jóquei, era sócio do Paulistano e enfim, era sócio de um monte... E ele chegou para mim e falou: "Bom minha filha, agora você escolhe se você quer fazer o baile das debutantes ou se você prefere uma viagem". Como eu era muito moleca eu preferi a viagem e minha tia achou assim, o fim do fim, falou: "O que é isso, você tem que se apresentar..."

 

P/1 - A irmã da sua mãe?

 

R - É. Por quê? Porque era com quinze anos que você passava a frequentar alguma coisa à noite e entrar para a sociedade paulista. Mas o meu pai embora tivesse, pela profissão dele, que estar nesses lugares, ele não dava muito ênfase para essa coisa da, do burburinho paulistano de sociedade, o que está na moda o que não está na moda... E acho que como lá em casa era muito masculino também eu preferi a viagem. E aí eu fiz a minha primeira viagem sozinha...

 

P/1 - Com quinze anos?

 

R - Com quinze anos...

 

P/1 - Ai, que máximo, para onde?

 

R - Eu fui, não, eu fui para perto.

 

P/1 - Mas não importa.

 

R - Eu fui para Santa Catarina visitar as raízes da minha mãe. E...

 

P/1 - Você que escolheu?

 

R - É, eu que escolhi, mas é, um pouco inclinada pelos tios da minha mãe, pela minha mãe porque o meu, um tio da minha mãe falava assim: "Ah, seu pai é tão, é, liberal e tão coisa, você tem que conhecer as suas raízes lá do Sul também, não sei o quê, papapa". Aí eu fui para Santa Catarina e descobri que um tio da minha mãe que não era casado, ele não era dentista, ele era prático, como se diz?

 

P/1 - Protético.

 

R - Era um...

 

P/1 - Não.

 

R - Porque não tinha tanta escola de odontologia. Então ele fez um curso de prótese, mas ele dava um atendimento quase que dentário e chamava-se tio Bibi. E aí ele me... Eu fui no consultório dele e era um verdadeiro museu, porque depois quando eu entrei para a faculdade eu um dia liguei para ele e falei: "Ai, tio Bibi, venha conhecer minha faculdade que é o que tem de mais moderno em odontologia". E é aquilo que você viu naquela foto, né. Então, e ele veio e ele veio e ficou muito orgulhoso de eu segui mais ou menos o que ele gostava de fazer, né. Então eu acho que se existe alguma pe...alguma influência, mas também não chegou a ser uma influência...

 

P/1 - Foi por causa do tio Bibi.

 

R - Do tio Bibi. E meu irmão que foi para a medicina que também não tinha nenhum médico na família. E aí eu fiz a USP, graças a Deus fiz muito direitinho, então eu fui convidada já para ficar como estagiária, depois assistente voluntária na cadeira de odontopediatria.

 

P/1 - Então, mas vamos voltar. E aí no, na época, quando você entrou ainda era na Três Rios?

 

R - Na Três Rios.

 

P/1 - Hã.

 

R - E era uma coisa fantástica. A gente chegava, a primeira aula era às sete horas da manhã e saía às sete horas da noite, era tempo integral. Então a gente fazia nas horas vagas muito a vida do bairro, como eu te falei. Então a gente conhecia muita coisa.

 

P/1 - E como que era o bairro do Bom Retiro naquela época?

 

R - Ah, era lindo! Primeiro que os próprios, mesmo as casas, os prédios e você via muita família. É, era um bairro judaico, pelo meu sobrenome muita gente achava que eu era judia e era muito engraçado porque na hora que eu... Eu já tinha cheque, né, que nem todo mundo naquela ocasião usava cheque... E o meu nome era Kazniakowski, então na hora que eu ia fazer alguma compra, sempre tinha um acerto melhor do que quando (risos)... E eu falava: "Eu não sou...

 

P/1 - Ah, eles te davam desconto.

 

R - ...eu não sou, eu sou descendente, sou filha de polonês, mas eu não sou, né, israelita e tal". Muito pelo contrário, meu pai foi muito católico, era de, tinha genuflexório no quarto dele, ele ajoelhava pela manhã e pela noite. E, e ele era, era...

 

P/1 - Ele era mais do que sua mãe?

 

R - Muito mais. Eu sou a única mais católica da família e não obriguei nenhum dos meus filhos a... Só um filho meu quis fazer primeira comunhão, eu simplesmente batizei e... Porque eu acho que é uma coisa que a opção é de cada um, você abre o caminho se quiser segue, se não quiser muda de bandeira, né. E então era muito interessante, então quando chegavam os feriados judaicos os professores viravam e falavam assim: "Você veio à aula?" (risos) Uma coisa assim... Porque era um bairro judaico, entendeu? E a gente saía... E sabe o que a gente fazia que era muito gostoso, a gente fazia uma turma e ia estudar no Jardim da Luz.

 

P/1 - Ah!

 

R - Sentava lá no Jardim da Luz e estudava no Jardim da Luz porque a faculdade ela, ela era meio que pequena para tantos alunos que tinham...

 

P/1 - Hum.

 

R - ...porque era farmácia e odontologia.

 

P/1 - Hum.

 

R - Então quando a gente estava com uma prova mais assim e queríamos se concentrar mais a gente ia estudar no Jardim da Luz. E à noite nós tínhamos um grupo que fazíamos já um trabalho de rua para os moradores de rua.

 

P/1 - Olha que interessante! E aonde que vocês iam?

 

R - Fazíamos o Bom Retiro, a Vila Guilherme até onde tinha a corrida de trote que eu nem sei se existe até hoje.

 

P/1 - Ai, existe, existe, que é até um lugar que agora é um parque.

 

R - Exatamente.

 

P/1 - Que teve até uma feira ultimamente... Esqueci o nome.

 

R - É. E às vezes a faculdade ia competir ali no Clube Tietê que era na margem do Tietê. O Tietê era bem mais limpo, bem mais limpo, o pessoal ainda nadava um pouco ali no Tietê.

 

P/1 - Porque tinham aqueles campeonatos esportivos, né?

 

R - É, tinha.

 

P/1 - E tua faculdade era...

 

R - Entre faculdades...

 

P/1 - ...era muito masculina, né, também.

 

R - É. E nós tínhamos espaço para esporte, então quem jogava basebol ia para um campo dos japoneses não sei aonde... Às vezes a medicina já tinha aquele Associa... Associação Atlética Osvaldo Cruz ali atrás da faculdade, às vezes emprestava alguma quadra para a gente. O Santa Inês raramente, só nas férias, emprestava a quadra porque também tinha colégio interno e era muito rigoroso e era bem de frente ali.

 

P/1 - É, e um monte de rapazes ali, né.

 

R - E depois, mais tarde, é, o bairro foi modificando, a gente já começou a sentir...

 

P/1 - Vocês pegaram essa mudança do bairro?

 

R – No meu tempo de aluno não, mas no meu tempo já como assistente...

 

P/1 - Professora.

 

R - ...professora, a gente começou a perceber que já estava, alguns, já estavam subindo, sabe, para onde? Para Higienópolis...

 

P/1 – Sim.

 

R - ...e para Perdizes.

 

P/1 - Mas ainda continuava...

 

R – Continuava, mas...

 

P/1 - ...um bairro...

 

R - É, mais a gente percebia que muito funcionário já não era, israelita, né. E outra, outra brincadeira que os meninos faziam e era um dos trotes da faculdade, era ir ver o marco inicial do Corinthians no Bom Retiro.

 

P/1 - É, que é lá.

 

R - É. E...

 

P/1 - Tem até uma marcação agora, né.

 

R – É. Mas... E você via muita família e nos feriados judaicos você via aquelas famílias, parecia mesmo um dia santo no bairro, fechava o bairro completamente e só o que abria era a faculdade, o, os, os pontos ali que...a Politécnica, né, tinha muito movimento de estudante ali por causa da POLI e da, da Odonto. E a gente comia na faculdade.

 

P/1 - Tinha refeitório na faculdade.

 

R - Tinha refeitório na faculdade. Ou a gente ia comer na POLI ou o pessoal da POLI vinha às vezes comer na nossa faculdade, porque não tinha tanto lugar para, tipo como tem hoje fast-food, não tinha. Ou a gente comia em padaria, porque era estudante e a mesada era curta, né (risos), ou comia na padaria que era ao lado da faculdade ou de vez em quando um dia que era aniversário, alguma coisa de alguém, a gente arriscava ir em um daqueles restaurantes judaicos, comia uma bela de uma carpa recheada que era uma delícia de, um prato judaico, né...

 

P/1 - Ah... Recheada com o quê?

 

R - Eles recheiam com uma espécie de uma farinha, às vezes a ova de peixe, né, e era uma delícia, uma delícia. E, e comia também, às vezes, na cantina, festejava lá na cantina Monte Verde que depois ficou famosa e acho que abriu franquia, nem sei. É, mais foi um, um período muito gostoso da minha vida. E a, e a gente também ia em um... Eu tinha um professor vegetariano que já fazia a cabeça dos alunos e tudo mais meio para ser vegetariano que era na Avenida Rio Branco. E a gente ia a pé numa boa do Bom Retiro...

 

P/1 - E era puxado, né?

 

R - É. E ia em uma churrascaria que depois...

 

P/1 - Na Rio Branco era esse vegetariano?

 

R - Vegetariano.

 

P/1 - Olha! Você lembra como chamava?

 

R - Restaurante vegetariano...

 

P/1 - Ah, chamava assim.

 

R - Vegetariano. E tinha a...

 

P/1 - E a churrascaria?

 

R - Essa churrascaria também tem uma história interessante em relação à São Paulo, porque o restaurante hoje é um restaurante caríssimo que se chama Máximo que é uma fortuna, mas tudo começou em uma churrascaria na Avenida Rio Branco, da mãe desses rapazes que hoje já estão senhores. Inclusive o Máximo hoje acho que tem um restaurante dentro da Globo, né. Então nós íamos na churrascaria da família do Máximo lá, que era também na Rio Branco. Era o máximo de farra em termos de poder pagar uma refeição no tempo de estudante porque não tinha essa coisa de papai ir cobrindo tudo que vai se gastando como hoje.

 

P/1 - Então, aí nessa hora, nesse momento você já morava sozinha...

 

R - Ah, sim. O meu pai...

 

P/1 - Você escolheu o bairro, você escolheu Perdizes porque você já estu...tinha estudado lá?

 

R - Não, aí tudo opção, cabeça do meu pai. Meu pai falou assim: "O dia que você entrar na faculdade você vai ter o seu lugar para morar, o seu apartamento..." Aí a minha tia falou: "Não, vem morar comigo, moça que mora sozinha não presta!" Era o termo que se usava "Não presta". "Vai virar o quê? papapapa..." Meu pai falou: "Não, ela vai morar sozinha". Aí, como eu tinha estudado anos nas Marcelinas e as Marcelinas me acompanham até hoje, elas foram a minha segunda família, então o meu pai falou assim: "Olha, vamos ver um apartamento nas Perdizes porque além de ter sua tia e sua avó lá em baixo..." Que era na Cândido Espinheira perto ali do, do Parque Água Branca...

 

P/1 - Do parque.

 

R - "...você tem as irmãs que são sua segunda família". Aí minha tia falou: "Ah, então põe no pensionato das Marcelinas". Mas aí não dava certo eu ir para o pensionato porque o pensionato tinha hora para entrar.

 

P/1 - Sim.


R - Não podia entrar depois de seis horas da tarde ou sete e pouco...

 

P/1 - E o teu curso acabava às sete.

 

R - Às sete no Bom Retiro. E aí meu pai arrumou um apartamento ali na Cardoso de Almeida, é, um, era praticamente um apartamento, mas na verdade era uma segunda moradia, era uma moradia em cima de um ponto comercial, era como se fosse um apartamento.

 

P/1 - Hum.

 

R - E, e falou: "Você vai morar aqui". E aí eu fui morar nas Perdizes por isso.

 

P/1 - Hum.

 

R - E ia de bonde que o bonde o ponto final era em frente dos dominicanos e, ou pegava um ônibus que tinham, que o ponto final era em frente da PUC onde eu me casei porque o meu marido estudava na PUC.

 

P/1 - Ah, você casou na Capela da PUC!

 

R - Casei na Capela da PUC. Eu queria casar nas Marcelinas, mas não era permitido fazer na capela das Marcelinas casamento, então eu casei na PUC onde ele se formou, é, estudou Direito. Bom, e por isso que eu fui morar nas Perdizes, era bastante longe para mim, porque o ideal era eu morar perto da faculdade mesmo.

 

P/1 - Sim.

 

R - E era um bairro bem residencial, mas meu pai...

 

P/1 - E o que que, que você fazia para se divertir nos, no tempo livre, que era pouco, né? Acho que mais fim de semana...

 

R - Fim de semana. Muito cinema porque foi a época, imagine, época do lan...Tiveram os grandes cinemas de São Paulo, foram lançados mais ou menos nessa ocasião. Foi o Marrocos, né, depois tinha... Ai, como chama? Era um que é na, em frente da, dali do Largo Paissandu...

 

P/1 - Acho que tinha Cine Paissandu.

 

R - Bristol.

 

P/1 - Bristol?

 

R - É. Então o cinema era o máximo do programa da, do dia, né, e à noite a gente às vezes, é, reunia, assim, em clube, eu ia para clube, é ou mesmo às vezes eram festinhas nas, na, a gente vivia muito em casa também, né, então tinha muita festa em casa. É, minha tia era uma festeira famosa em São Paulo, então tinha sempre festa. Então vinham os meus primos que estudavam, o meu primo que estudava na POLI, então tinha estudantes da POLI, o meu primo, o meu irmão que era da medicina tinha estudantes da medicina... Então foram meus contemporâneos dessa época umas pessoas que hoje estão aí, né, que, por exemplo, Raul Marino, um grande neurologista, foi colega de turma do meu irmão, muito meu amigo, namorou algum tempo uma amiga minha também e a gente se reunia nas casas, mas a gente estudava muito, a verdade é essa. Não dava muito tempo também, então era mais cinema, às vezes a gente ia fazer piquenique que hoje não se faz mais, né. Juntava um grupo e ia fazer piquenique no Horto Florestal, era uma viagem, né. Horto Florestal, depois Ibirapuera. Ibirapuera eu me lembro... Ah, foi uma festa linda 1954!

 

P/1 - Ah, você lembra da festa do quarto centenário.

 

R - Ah, Quarto centenário! Gente, foi um sonho aquilo!

 

P/1 - É? O que que... Onde você foi?

 

R - Todas as mulheres tinham que vestir roupa branca com preto e um detalhe vermelho, que eram as cores da bandeira de São Paulo, então eu me lembro direitinho do meu vestido, era um vestido xadrezinho branco e preto com detalhe branco e um laço, é, vermelho. E aí teve municipal, teve a inauguração do, do Sho...do Parque Ibirapuera, por isso que eu me lembro, Pavilhão Japonês, lindo maravilhoso! É, foi uma festa linda! E teve uma noite que foi emocionante porque teve uma chuva de prata no centro de São Paulo no Vale do Anhangabaú e meu pai tinha escritório na Líbero Badaró, então nós fomos todos para...

 

P/1 - Para o escritório...

 

R - ...o Viaduto do Chá...

 

P/1 - Ah, para o viaduto mesmo.

 

R - ...para ver a chuva de prata. Então jogaram uns papéis de alumínio que deu a maior poluição (risos), aquele monte de papel de alumínio e holofotes, assim, sabe, iluminando e aquilo ali parecia uma chuva de prata, uma coisa maravilhosa, assim, sabe? Então o quarto centenário foi uma festa, assim, linda, para a época, né, foi maravilha. Outra coisa que eu lembro bem que foi uma polêmica, mas isso já foi bem depois, já foi na época da repressão que eu passei, perdi muitos amigos na...

 

P/1 - É? E como foi depois?

 

R - Ah... Essa época?

 

P/1 - É.

 

R - Ah...

 

P/1 - Você estava na faculdade ainda...

 

R - Eu estava na fa... Não. Eu já lecionava.

 

P/1 - Ah, você estava... É verdade, você já tinha formado...

 

R - Eu já estava lecionando. E eu lecionava, é, o meu namoro com o meu marido foi...

 

P/1 - É, então, isso que eu ia te perguntar. Você falou que não sei quem namorava a sua amiga...

 

R - Meu mari... Meu marido era diretor de jornalismo da Victor Costa nessa época. Ele chama Mauro Guimarães Squizato, mas era conhecido só por Mauro Guimarães. E...

 

P/1 - E onde você conheceu?

 

R - Pois é. Antes do meu marido eu desmanchei um casamento na porta da igreja (risos).

 

P/1 - Ah, é?

 

R - É.

 

P/1 - Então conta, ué! Que foi o seu primeiro namorado?

 

R - Não, não. Eu namorei, o meu primeiro namoradinho, é, foi em Campinas naquela época que você viu aquelas fantasias...

 

P/1 - Ah...

 

R - ...já tinha ali um, um menino que, de uma família muito amiga... Depois mais tarde a gente se encontrou quando eu estava para entrar na faculdade.

 

P/1 - Quantos anos você tinha ali?

 

R - Ah...

 

P/1 - Foi antes de entrar na faculdade.

 

R - É. E ele era um amor platônico, né, porque eu ficava doente, o pai dele era o meu médico, ele sentava na, no, no pé da minha cama e ficava lá me olhando, me olhando, brincando e se tornou um grande desembargador hoje em dia. Eu prefiro também não citar nomes.

 

P/1 - (Risos) Está bom. Mas a história é boa.

 

R - (risos) É. E aí... Bom, pas...

 

P/1 - Aquele foi o primeiro namorado. E depois, aí passou...

 

R - Não, aí depois na faculdade eu tive um namorado, é, que nós namoramos uns quatro? Quatro, cinco anos...

 

P/1 - Quase toda a faculdade então?

 

R - Não, eu comecei a namorar com ele no terceiro, no segun...Do segundo para o terceiro ano, mas depois a gente continuou. E, mas aí quando, distribuímos convites, começou a chegar presentes e aquela coisa que faltava uma semana, eu lecionando na faculdade, com o meu consultório na Xavier de Toledo...

 

P/1 - Ah, porque você começou a dar aula e já abriu o consultório também.

 

R - Abri o consultório junto com um colega que também fez a mesma especialidade que eu, é den... Mas eu fiquei muito pouco tempo ali na Xavier, eu fui logo para a Avenida Angélica, é, e montamos um consultório de odontopediatria e com tudo, todo esse meu esquema, aí esse meu namorado chega e fala assim: "Tudo bom, tudo bem, mas nós vamos casar e você não vai trabalhar mais".

 

P/1 - Ah, tá.

 

R - Aí eu...

 

P/1 - E ele era dentista também?

 

P/1 - Dentista. E não ia morar em São Paulo.

 

R - Aí eu falei: "Tudo bom, tudo bem, mas eu fiz um planejamento de vida (risos) e não é este. Então está aqui". Tirei as alianças, entreguei para ele (risos) e falei: "Encerrado, não tem segunda conversa". Aí, foi o primeiro “auê” na família, nos amigos, tudo, porque, é, a mulher ainda era muito criticada nessas atitudes, sabe?

 

P/1 - Hurrum.

 

R - Então os amigos dele passaram anos sem falar comigo. Hoje em dia são grandes amigos meus também porque são colegas de turma. Eu outro dia mesmo a gente fez cinquenta anos de formados...

 

P/1 - Aí você viu todo mundo.

 

R - Fomos na USP... Não, eu sempre vejo porque alguns contatos a gente permanece bem, né, os mais...que pensam, que seguiram um pouco de carreira universitária e que têm os mesmo objetivos profissionais você leva com você por muitos anos, né. E, enfim... Aí, mais uma vez meu pai demonstrou assim, uma, uma, eu digo uma amizade, um amor por mim muito grande, falou: "Minha filha decidiu está decidido. Não quer voltar atrás não vai voltar atrás". Minha mãe balançou, como toda mulher, balançou (risos). E a minha mãe falava assim: "Pensa bem minha filha, ele é ótimo e olha, eu acompanhei o seu pai a vida toda e não me arrependo disso..." "Mãe, não tem conversa, acabou, acabou, acabou, acabou."  Bom, aí passou, eu...

 

P/1 - Mas isso ele só foi te falar no final?

 

R - Só...

 

P/1 - Só antes de casar?

 

R - Porque ele veio me trazer a chave de um apartamento e eu ia morar em Santos.

 

P/1 - Ah, você nem sabia disso.

 

R - Não, ele achou que ia fazer a maior coisa do mundo para mim.

 

P/1 - Que era uma surpresa.

 

R - Mas aí eu falei: "Você não me conhece então". Aí tivemos uma conversa bem, bem séria ali, tudo, e aí para ence... Para cortar bem o que que eu fiz, aqui não tinha curso de pós-graduação...

 

P/1 - Sim.

 

R - ...nem especialização. Aí eu fui pela USP fazer uma especialidade em Buenos Aires, porque Buenos Aires era um centro melhor de odontologia, na ocasião, do que aqui.

 

P/1 - Que aí que você fez o...

 

R - Aí eu fui ter uma especialização de ortodontia preventiva e móvel que a, que aqui não se falava ainda, com o Doutor Pedro Planas que era um espanhol que estava lançando esse tratamento. Aí eu fui para Buenos Aires, fiz esse curso, é, pela USP e voltei para a cadeira de odontopediatria e resolvi tocar a minha vida. Aí meu pai tinha um grande amigo que se chamava Doutor Aluísio Teifelt e ele, é...

 

P/1 - Como ele chamava? Aluísio...

 

R – Gren...Treifeldt Greenhalgh, que era o pai desse Greenhalgh dos, esse menino, esse menino, eu chamo menino porque eu vi ele menino, é, do segundo casamento do pai dele... E esse grande amigo do meu pai, é, ele era de Campinas e amizade de muitos e muitos anos. E ele estava se candidatando a Deputado e naquela ocasião a contagem de votos era manual no Ibirapuera. Eu tinha tirado férias na USP e meu pai, é... E aí tinha um pessoal que ia para fiscalizar aquela contagem de votos. E meu pai chegou para mim e falou: "Ai Thereza, você está de férias, o tio Aluísio está sem quem ajude... Você não pode dar uma mão no Ibirapuera?" Eu falei: “Pai, (risos) queria tanto essas minhas férias..." Porque nessa ocasião o meu pai já estava ali na Bertioga fazendo levantamento de coisa na Bertioga. "Ai, depois você vai minha filha, se você quiser você vai viajar, faz..." "Está bom pai, está bom, está bom, está bom..." Aí eu fui e o meu mari...o meu atual, o meu marido, né, ele era diretor de jornalismo e, e, ele sempre foi muito da área política e aí ele, por acaso eu estou lá no Ibirapuera e esse senhor conhecia e, e me apresentou e "Muito prazer"; “Muito prazer" . E vamos lá contar os votos, né. Só que encerrava às cinco ou seis horas da tarde, um negócio assim, fechava as urnas e ficava aquele negócio...

 

P/1 - Aí, a partir daí que ia começar a contagem...

 

R - Não, contava durante o dia. Interrompia a contagem e continuava no dia seguinte.

 

P/1 - Ah, guardava tudo... Sim, sim.

 

R - E aí, Doutor Aluísio... Eu não tinha carro nessa ocasião. E no Ibirapuera e chovia a cântaros e aí o Doutor Aluísio foi me levar até a porta para ver se arrumava um táxi ou alguém que me desse uma carona. E aí eu encontrei com o meu marido. Encontrei com, que, é, encontrei com ele, ele, é... Doutor Aluísio perguntou se ele podia me dar uma carona.

 

P/1 - Onde você morava daí?

 

R - Eu morava nas Perdizes.

 

P/1 - Sim.

 

R - E ele trabalhava nas Ruas das Palmeiras.

 

P/1 - Hã. Então era...

 

R - Porque a televisão era ali na Rua das Palmeiras onde tem ainda alguma coisa da Globo por ali.

 

P/1 - Hum.

 

R – E, e aí a gente foi conversando e tal e... E aí ele falou assim para mim: "Não, você não vai trabalhar de graça para o Doutor Aluísio porque nós estamos pagando gente para fazer isso, então eu vou pegar seu nome e você entra e, e você ganha alguma coisa". Eu falei: "Ótimo! Então amanhã eu já falo para o tio Aluísio que ele não precisa me dar o dinheiro para o, para o lanche, né" Brincando assim, porque na verdade eu almoçava com ele, né, e eu tinha já um, um salário também na faculdade. Mas aí eu topei, eu falei: "Então está bom, está bom". E aí a gente teve mais contato, conversamos e tal e... Mas, e eu estava em um período assim, de, é, estudar muito, pensando em tese e aquela coisa toda. Terminou, eu fui para Bertioga descansar, que minha, meu pai tinha uma casa muito gostosa lá e, que foi uma casa até que a gente presenciou a saída do Jânio, porque ele se refugiou lá naquela praia...

 

P/1 - Ah...

 

R - ...na casa do Vicente de Carvalho, que tem ali no final da praia, né.

 

P/1 - Do poeta?

 

R - É, que era a casa dos Antônio...do, do pai do Antônio Ermírio de Moraes.

 

P/1 - Sim.

 

R - E enfim, e fui para lá. Aí quando eu voltei tinha um outro Mauro Guimarães que tinha dado um tombo imenso aí na praça (risos) e aí uma amiga da minha mãe, é, minha mãe tinha vindo para São Paulo fazer umas compras e ficou no meu apartamento e era perto da casa de uma amiga da minha mãe e, e aí ela encontrou com a minha mãe: "E a Thereza, e tal, não sei o que, não sei o que..." "Ah, ela trabalhou aí nas eleições, e tudo. E até um, um que é diretor aí da, da Victor Costa ligou em casa que está precisando falar com ela e tal..." Aí ela virou e falou assim: "Qual... Quem é, quem é o rapaz?” Né. Aí ela falou assim: “É Mauro Guimarães". Ela falou: "Ai, Thereza, nem dá o recado (risos), não vale nada! (risos) Jornalista, mas não vale nada". Aí minha mãe não me deu o recado.

 

P/1 - Hã.

 

R - Não me deu o recado (risos). Foi muito engraçado. Aí passou, aí um dia toca de novo o telefone e era o atual meu marido e: "Eu liguei, deixei recado, acho que foi a sua mãe, depois foi uma empregada e tal, não sei o quê. Ah, eu tenho uma turma de amigos muito legal e um deles parece que conheceu você em, ou o seu irmão, qualquer coisa... Ah, vamos sair juntos..." A gente ia muito a teatro, então a gente ia assistir peça de Sérgio Cardoso, Maria Della Costa, essa época de teatro, né. “Ah, olha, vamos então ao teatro, depois a gente janta junto, tal, é um grupo legal e tal”; “Está bom, está bom, vamos lá”. Então eu fui e aí a gente começou a sair, assim, como amigo e tal. Aí eu tive que voltar para a Argentina para fazer uma segunda fase e, e quando eu voltei aí eu soube que ele também tinha terminado um noivado. Conversa e tal, aí a gente começou a namorar, entre namorar e casar foi um ano, aí casamos e, e eu, mas assim, namorávamos (risos), isso... Eu Falo assim: "Olha, Videli, realmente foi uma época muito, assim, avançada”. Porque hoje algumas coisas estão mais avançadas, mas, é, a gente tinha um respeito maior eu acho, sabe, entre as pessoas... Ah, mudou muito isso e eu acho que perdeu muito também uma coisa bonita das amizades, porque hoje você tem fases de amizades, né, e eu, às vezes eu vejo que eu trago amizades, assim, que vem vindo de muito tempo e é como se eu tivesse encontrado ontem, né.

 

P/1 - Hum.

 

R - E enfim... Mas aí a gente namorou, noivou, casou e... Mas para namorar era dificílimo, por quê? Ele saía... Não tinha gravação em televisão, não tinha nada disso porque que esse rapaz está fazendo agora, era tudo ao vivo...

 

P/1 - Era ao vivo...

 

R - ...com uma censora como você sentada na cadeira...

 

P/1 - (risos) Como eu não, viu.

 

R - (risos) Não, mas você não é censora. Mas assim, sentava do lado do microfone e o meu marido entrevistando o, aquele, aquele mundo político todo, né, e o DEOPS em cima, né, foi muito pesado. A gente perdeu alguns amigos nessa fase, bons amigos. E...

 

P/1 - Tanto do seu lado quanto do dele.

 

R - É, é.

 

P/1 - Você conheceu pessoas na faculdade...

 

R - Não, eu fui muito... Eu mesma, gozado, eu não era, vamos dizer, eu não era tão engajada, mas eu tinha o meu pensamento que não, agora a gente pode dizer, que eu não era à favor. E, e a USP, é, na ocasião, foi tida como um foco revolucionário.

 

P/1 - Hum.

 

R - Então a vida de todo mundo era muito...

 

P/1 - Vigiada.

 

R - Vigiada. E, e eu sou muito católica, é, e nisso eu frequentava, quando eu saí das Marcelinas eu passei a frequentar os dominicanos.

 

P/1 - Nossa, que eram os...

 

R - Eu tinha aula de teologia nos dominicanos...

 

P/1 - Nossa!

 

R - À noite, toda quarta-feira. E o meu confessor era o Frei Carlos Josaphat...

 

P/1 - Sim.

 

R - (risos) Época de Frei Betto. Mas eu não era ainda, eu não era engajada naquele movimento político, mas tinha um pensamento já meio formado. Aí um dia o Mauro quando soube que eu frequentava os dominicanos, virou para mim, eu ainda não tinha casado com ele, virou e falou: "Olha, você se cuida porque, é, tem todo um... Tudo bem, eu sei que você é católica..." Porque ele não frequenta igreja... "Você é católica e tudo, mas se cuida, tal, papapapa..."; “Tá bom”.

 

P/1 - Porque eles estão...

 

R - Aí...

 

P/1 - ...com uma atenção em cima dos dominicanos.

 

R - É. Eu te falei que eu tenho um irmão que foi para a Marinha, não te...

 

P/1 - Sim.

 

R - Eu te falei. Esse meu irmão, a gente embora estudasse todos separados e depois que a gente saiu de casa, porque na verdade eu saí de casa com dez anos, né, e voltava só nas férias.

 

P/1 - Hum.

 

R - Então para mim a família sempre foi festa, sempre. E...

 

P/1 - Que o teu cotidiano era, era longe desses...

 

R - O meu cotidiano era...

 

P/1 - ...dessas pessoas.

 

R - ...o que o meu pai tinha estipulado, era a minha vida mesmo e... Agora, sempre que a gente se encontra é festa, porque ninguém intrometeu na vida de ninguém, ninguém... Todo mundo só se ajuda e nunca se atrapalha (risos), né.

 

P/1 - Hum.

 

R - Bom, aí, o que que aconteceu. O professor do meu irmão, da Marinha, que era muito amigo do meu pai veio ser um do comando da Marinha que foi um dos comandos mais fortes da época de 1964 a 1968 aqui. E o, esse que me conheceu menina e, é, eu frequentava a casa dele, como frequentava a casa do Lacerda, como frequentava a casa de outros, é, me achou em uma fotografia nos dominicanos, na aula de teologia. E ele veio para São Paulo e o meu irmão me ligou e falou assim: "Olha, ele pediu para você ir jantar amanhã com ele na casa dele". Eu falei: "Eu não posso, eu dou aula". Ele falou assim: "Acho melhor você ir". Aí eu cheguei, jantei, tudo normal, gostava muito deles por sinal, tudo normal e tal. Terminou o jantar ele virou para mim e falou: "Thereza, vem cá um pouquinho no meu escritório que eu quero conversar".

 

P/1 - Hum.

 

R - E aí eu vi uma mesa enorme que, que era maior do que uma escrivaninha comum, cheia de fotos, assim, todas dos dominicanos.

 

P/1 - Sim.

 

R - E aí ele perguntou: "O que você faz aqui?" Eu falei: "Eu faço teologia". Ele virou para mim e falou assim: "Minha filha, você é como se fosse minha filha, abra o jogo e me diga o que você faz aqui". Eu falei: "Eu faço teologia! Agora eu vou dizer diretamente para o senhor, eu tenho um irmão que é militar, meu pai foi militar lá na terra dele, todo mundo é militar, mas eu não vou dizer que eu sou à favor desse movimento, mas eu não sou engajada em nenhuma, nenhum dos setores que eu sei que tem". Aí ele virou e falou assim: "Olha, é melhor você parar de frequentar. Isso eu estou dando um conselho como eu daria para um filho meu". Bom, isso foi em uma...

 

P/1 - Que ano foi isso?

 

R - Isso foi um ano antes de eu casar, 1963 para 1964. E, e aí eu tinha aula no dia seguinte na faculdade...

 

P/1 - Então foi antes do Golpe, né?

 

R - Foi antes do Golpe, foi bem antes do Golpe, porque tudo começou beeem antes. Agora, tinha, eu tinha um aluno que ele não passava, ele ia de dois em dois anos na... Que era de, de es...de, vamos dizer, de esquerda para fazer, é, a, vamos dizer, fazer grupos dentro da faculdade. Mas todo mundo sabia e ninguém ali era tão criança assim, porque eu acho que todo, eu acho que a gente era mais politizado um pouco do que hoje em dia...

 

P/1 - Do que se é hoje.

 

R - ...eu acho. Então a gente sabia quem era quem e tudo mais.

 

R - Tá.

 

P/1 - Tá.

 

P/2 - Trocar de fita.

 

P/1 - Vamos voltar lá onde... Você só terminar o raciocínio de lá.

 

R - Então, e aí o, ele me perguntou, depois dali eu saí da...

 

P/1 - Você saiu dos Dominicanos. Aí você saiu.

 

R - Não, não saí dos Dominicanos.

 

P/1 - Não?

 

R – Não saí, mas olha o que aconteceu. Aí, eu dava aula na, na USP...

 

P/1 - Quem tirava essas fotos?

 

R - Ah, eles tinham gente para todos os lados. Olha, você, falando assim...

 

P/1 - Então era alguém infiltrado que estava lá nos Dominicanos...

 

R - Ah sim! Tinha infiltrados de todo as áreas.

 

P/1 - Sim.

 

R - Então a gente e os, a gente passou a viver uma época que você não tinha liberdade, por exemplo, de eu apresentava: "Olha, uma amiga minha, tal..." Você, você não falava nada, imagine que você ia falar alguma coisa...

 

P/1 - Hum. De onde veio, para onde vai.

 

R - Nem para onde vai, nem qual é a minha intenção. É...

 

P/1 - Porque você podia ser...

 

R - Dentro, às vezes, eu soube de casos dentro da família, né, por exemplo, um, um rapaz que o pai se suicidou porque ele era militar e o al...esse rapaz que era muito amigo nosso, é, resolveu se engajar em um movimento bem radical, na ocasião, um movimento forte mesmo, é, o pai tirou o pátrio poder dele, pegou o filho dele e deserdou e depois eu soube que o pai se suicidou. Quer dizer, foi uma coisa que hoje todo mundo fala: "Ah, foi um Golpe, passou, aquilo lá..." Mas na ocasião a gente viveu uma época das bruxas, sabe. Eu que estava na USP, de vez em quando você ouvia algumas coisas, então você ia lá dava aula e ponto final. É, depois é que veio aquele movimento maior que aí já teve questão com Jovem Guarda, que teve, teve uma caça às bruxas dentro do meio jornalístico também, né, que aí ninguém sabia o que que dizia, se era verdade, nada era verdade. Um grande amigo, é, um amigo, é, você vai para um jantar, você sai, isso aconteceu com a gente, então saía na rua você via que tinha um carro parado ali mais adiante, aí dali a pouco você pegava o seu carro, você via que aquele carro te acompanhava e, e em uma dessas um dos nossos amigos que estava no jantar sumiu, entendeu?

 

P/1 - E nunca mais ninguém soube.

 

R - É, porque eles achavam que isso, se você convidasse uma roda para a sua casa, você estava sempre fazendo alguma coisa, combinando algum, é, sabe? Era bem difícil. Mas enfim, essa época a gente perdeu alguns amigos, e companheiros de faculdade. Uma colega minha das Marcelinas que o marido era da medicina e tudo o mais, perseguiram, perseguiram. Eles não tinham, não eram políticos realmente, a prova é que eles foram acolhidos pelos Estados Unidos e hoje tem cidadania americana porque não quiseram mais voltar porque no meio universitário se deram muito bem. Então teve muita fuga nisso, muitos se auto exilaram e outros s...

 

P/1 - Eles sabiam que iriam ser pegos.

 

R - É, eles sabiam que iriam ser pegos. Então para, por sim ou por não saíam, né. E, mas a gente viveu essa época, foi uma época, foi eu acho que a pior época em termos de convivência que a gente podia ter, sabe, porque cerceavam um pouco a liberdade, embora... Eu continuei frequentando os Dominicanos, continuei...

 

P/1 - Todo esse tempo você continuou?

 

R - ...mas, mas nessa semana que, que houve essa, esse questionamento, na semana seguinte foi quando teve a fuga do Frei Beto, que teve um monte de padres que foram, que tiveram que se, é, que sair, que se exilar e tal. E dali dos Dominicanos foram bastante.

 

P/1 - Sim.

 

R - E algumas outras pessoas e...

 

P/1 - E, e assim muitas pessoas que, que frequentavam...

 

R - Mas os padres, os, os freis sabiam que eles estavam sendo observados. Ah, sabiam! Ali...

 

P/1 - Mas também sabiam quem eram vocês, né, por exemplo, tinham claro que você estava lá por conta...

 

R - É, é, esse, eu digo assim, que ele me avisou mesmo como parente com medo que eu titubeasse e estivesse indo para algum lugar. Mas ele sabia... Agora, durante muito tempo, é, até, até que, que as coisas acontecessem, veja como são as coisas, depois esse meu irmão que fez medicina, ele tinha quebrado o galho para não fazer serviço militar por causa da faculdade e aí pegaram lá o sujeito que isentava, que você pagava um tanto para...meu irmão fez isso. Meu pai tinha criticado muito, mas ele fez e aí chamaram ele de volta e ele não podia mais fazer CPOR, porque aí ele podia ter feito CPOR que era aos domingos e chamaram ele de volta, e ele foi ter que servir em Quitaúna, na época do Geisel, o comando do Geisel em Quitaúna.

 

P/1 - Nossa!

 

R - (risos) E, e ele...

 

P/1 - E ele já médico formado...

 

R - Não, não era médico formado, estava estudando.

 

P/1 - Sim...

 

R - E aí Dona, a esposa do Geisel e a filha, elas tinham um tratamento médico que tinha que tomar injeção, esse meu irmão, como ele era da medicina...

 

P/1 - Ficou dando injeção...

 

R - ...Ele era da enfermagem do, do quartel ao invés de ... Coisas, assim, muito gozadas que aconteceram.

 

P/1 - E quanto tempo ele ficou? Um ano?

 

R - Ele ficou... Não, ele foi liberado pelo Geisel, eu vou te contar por que. Porque ele estava lá já há uns três meses e o filho do Geisel, de bicicleta, morreu atropelado por um trem em Quitaúna e aí meu irmão teve que acompanhar o corpo e Dona, a, a...

 

P/1 - A Dona Luci.

 

R - Luci e a filha, como é que ela chamava?

 

P/1 - Não lembro...

 

R - Para o Rio de Janeiro. E o meu irmão foi para o Rio de Janeiro levar o corpo e tal, aquela coisa toda, só que era próximo de um fim de semana e a gente tinha parentes no Rio de Janeiro e o meu irmão resolveu dar uma emendada porque eles iam dar três dias de folga para o meu irmão. E um amigo do meu irmão falou: "Ah, nessa eu vou e encontro com você lá".

 

P/1 - Sim.

 

R - Na volta eles sofreram um acidente de carro na Dutra e, e aí o Geisel dispensou o meu irmão do serviço militar...

 

P/1 - Porque tinha ido acompanhar o corpo...

 

R - Acompanhar o corpo e na volta tinha sofrido acidente.

 

P/1 - Entendi.

 

R - Então o meu irmão não perdeu o ano de medicina por isso (risos).

 

P/1 - Por causa do acidente. Mas ele machucou muito?

 

R - Ah, machucou, bastante, foi ali em Cachoeira Paulista e eu estava chegando, eu estava em casa e três horas da manhã veio a polícia na porta, tocou a campainha da minha casa e, e eu vi polícia falei: "Putz! O que será que aconteceu?" Sabia que o meu irmão estava no Rio, falei: "Tocaram errado". Aí eu abri a porta era um policial dizendo: “Olha, queria avisar a senhora que Mário Roberto Kazniakowski sofreu um acidente e pediu que viesse nesse endereço avisá-la porque não tem como avisar o seu pai na fazenda…” Porque não tinha facilidade de avisar, né. Aí eu fui, peguei meu tio e nós fomos para lá e o meu tio ele tinha problema de surdez, não dirigia, e eram quatro horas da manhã, ele falou: "Não, vamos pegar um Cometa e vamos de ônibus e de lá a gente volta de ambulância". "Está bom". Aí fomos. Aí fomos para lá, aí eu...

 

P/1 - Aí quando chegou na altura do acidente vocês desceram...

 

R - Não, aí...

 

P/1 - Já estava no hospital.

 

R - Já estava no hospital. Aí que, todo mundo fala da medicina, da, do serviço de saúde de hoje, eu encontrei, cheguei no hospital, nós já chegamos de manhã e aí, não tinha ninguém para atender na Casa de saúde, ninguém, ninguém. E aí, começamos a bater palma, porque olhava para um quarto as camas vazias, colchão descoberto, aqueles colchões de crina, sabe, e, e aí escutamos assim: "Ô, ô, ô.." Em um quarto, né. Aí apareceu o enfermeiro que nessa altura estava dando comida para os frangos que iriam ser a canja de alguém (risos)...

 

P/1 - Só tinha uma pessoa no hospital inteiro...

 

R - Olha gente, vocês não sabem a diferença que era. Era Casa de... Santa Casa de Cachoeira Paulista, aí pegamos o meu irmão e os dois que estavam com ele, pusemos em uma ambulância e vivemos para São Paulo. E, e aí depois, Dona Luci foi visitar o meu irmão no hospital...

 

P/1 - (risos) Virou grande amiga...

 

R - ...que teve, que...

 

P/1 - É, porque...

 

R - ...minha mãe ficou emocionadíssima, porque tinha acabado de perder o filho e vem ver...

 

P/1 - É, porque é uma...

 

R - Né.

 

P/1 - É, porque na verdade dentro da loucura é uma história...

 

R - É uma atitude bonita, é uma atitude dela bonita e, e aí depois o meu irmão quando voltou, saiu do hospital, ele recebeu a dispensa do serviço militar e terminou o curso dele de medicina. Mas... Bom, e eu estava, eu tinha parado...

 

P/1 - Você tinha...É, então, daí...

 

R - Na época quando eu conheci...

 

P/1 - É. Isso.

 

R - ...o meu marido. Então, aí o meu marido, é, a gente para namorar era muito difícil, porque eu saía da faculdade às onze horas da noite e ele às vezes saía da televisão duas, três horas da manhã, porque tinha os...

 

P/1 - E sempre teve turma noturna de odonto.

 

R - Sim, desde que eu estudei tinha turma noturna.

 

P/1 - Ah...

 

R - Então eu dava aula das sete ao meio dia, fazia consultório à tarde e à noite eu voltava, alguns dias da semana, não eram todos, eu voltava para o Bom Retiro e dava aula até às onze da noite.

 

P/1 - Sim.

 

R - Aí eu saía às onze da noite e ia jantar na, em uma cantina com o meu marido para conversar, para poder namorar e jantar (risos), chamava-se Cantina, é, essa famosa Esperança...

 

P/1 - Hum.

 

R - Mas no tempo dos pais ainda deles, ali na Treze de Maio.

 

P/1 - Ah, sempre foi aquele mesmo lugar a Esperança?

 

R - Sempre. E aí, é, ali era um reduto meio jornalístico também, então a gente chegava e o pai do Giovanini, o avô do atual dono dessas, dessa franquia, ele cantava e tocava...

 

P/1 - Do Giovanni Bruno?

 

R - Não, do Giovanni Bruno não. O Giovanni Bruno...

 

P/1 - Era outro Giovanni...

 

R - ...era outro reduto de jornalista...

 

P/1 - Que era...

 

R - ...que era em frente da TV, da televisão Excelsior que depois fechou, né. E então a gente ia ou em um, ou em outro, que eram dois italianos, mas a gente gostava mais da Esperança porque eles, meia-noite eles fechavam a porta e fim, e a família ia jantar, os funcionários iam jantar e a gente jantava também e o velho tocava, cantava...É, foi uma época muito gostosa. Depois... E assim a gente namorou, porque ele não tinha tempo para namorar e eu também não tinha muito tempo para namorar. E casamos e depois de um ano que nós casamos veio o primeiro filho.

 

P/1 - Ahã.

 

R - E eu continuei ainda trabalhando até esse meu filho sofrer um acidente e foi quando eu tive levá-lo para fora e não eram os Estados Unidos ainda, era Viena, aí tive que ir algumas vezes para lá, que é o que eu contei para você...

 

P/1 - Sim. Que esse tempo que...

 

R - ...sobre aquela questão do INSS.

 

P/1 - E você ficou licenciada da faculdade?

 

R - Não, não, não. A USP era muito pobre, então às vezes para fazer as provas dos alunos e para dar algumas matérias, a gente levava material do consultório da gente porque o da USP ainda não estava atualizado, porque dependia de uma burocracia tal de dinheiro e de coisa que quando o material chegava para a gente...

 

P/1 - Já...

 

R - ...já estava superado.

 

P/1 - Sim.

 

R - Então às vezes a gente comprava do próprio bolso, hã, até papel sulfite para fazer prova, eu peguei esse tempo de USP, sabe, A...aí, a verba, tinha assim, duas verbas para cada cadeira e, e como eu não sabia o prazo do tratamento desse meu filho eu aí pedi demissão, porque eu não achei justo segurar uma verba...

 

P/1 - Hum...

 

R - É...

 

P/1 - Sendo que eles não iria poder repor o professor..

 

R - Repor uma outra pessoa. E tinha muita assistência voluntária, então foi quando entrou uma outra menina que depois, é, trabalhou comigo também no consultório, foi uma excelente professora que depois também largou porque também casou com um italiano e foi para a Itália e... Então foi por isso que eu deixei a USP.

 

P/1 - Quantos anos tinha o seu filho nessa época?

 

R - Quando ele sofreu o acidente?

 

P/1 - É.

 

R - Ele tinha seis para sete anos, estudava no Lourenço Castanho e estava indo para a aula e um ônibus desgovernou ali na Faria Lima, bateu no carro que estava parado e não tinha cinto, carro não tinha cinto e ele estava lendo uma revistinha do lado da minha mãe atrás, o motorista na frente, a porta abriu e ele atravessou a Faria Lima, ali perto do Hamburguinho da Faria Lima e teve fratura, mil faturas, não morreu... Eu sempre digo que eu tive quatro filhos ao invés de três, porque esse foi o segundo, é, ele reviveu, né, foi a segunda vida dele. E, e aí depois aí comecei essa batalha que foi até os dezoito anos dele, sempre tendo que levar para operar, é, na fisioterapia e tal e ele recuperou, graças a Deus, uns 90%. E, então, aí...

 

P/1 - Aí depois você, quando você, aí você saiu nessas primeiras cirurgias, você, você saiu da USP...

 

R - Eu saí nessa saída, é, a cada vez que eu ia... Mas eu não me desliguei da USP, quer dizer eu...

 

P/1 - Você pediu demissão...

 

R - ...eu parei de ser professora, mas aí o que que aconteceu, um colega meu de turma que foi depois até reitor da USP, o Miaki Sao... Reitor, reitor não, foi diretor da odontologia e na época que o reitor, também foi meu colega de turma, o Flávio Fava de Moraes, então, eles me deram muita força, então eu fui para Viena e meu filho fazia o tratamento e eu frequentava uma, a Universidade em Viena, na parte de... Só que lá é medicina que depois vai para odontologia...

 

P/1 - Uma especialização da medicina...

 

R - E a odontopediatria lá era muito fraca. E quando eu fui, fui sincera, nós fomos com a intenção de eu trazer alguma coisa, mas se deu ao contrário...

 

P/1 - Você acabou dando...

 

R - Eu é que levei alguma coisa de odontopediatria para lá, porque eles eram muito radicais na, na dentição, é, infantil, né, até a mista. E aí eu fui algumas vezes e depois o tratamento... Aí, eu sem querer trouxe tantos clientes para, para esse médico de lá que ele passou a frequentar, a frequentar e dar aula na América Latina. Então ele vinha para São Paulo, ele vinha para o Rio, chama Doutor Rano Milese, que hoje já está aposentado e foi o precursor da microcirurgia no mundo porque ele pegou a Segunda Guerra e começou na Segunda Guerra e depois passou para os americanos tudo aquilo que ele já tinha, então ele dava aula para os americanos. E foi ele que atendeu o meu filho. Então, esse agradecimento eu devo ao atual INSS, que naquela ocasião não se chamava INSS, era um outro nome. E que eu, eu tinha direito por causa do meu marido, porque a USP...

 

P/1 - É, era outro sistema...

 

R - ...era governamental, era completamente separada, você não contava tempo para INSS, né, para aposentadoria.

 

P/1 - Porque seu filho era dependente do seu marido, né?

 

R - Do meu marido. E então deu tudo certo, mas, é, aí depois meu marido, por questões de cabeça também, resolveu sair da Globo quando nós nos casamos porque tinha uma ajuda americana muito forte, né, e, e ele não queria. Aí ele trabalhou no Jornal do Brasil muito tempo, foi vice-presidente do Jornal do Brasil, depois...

 

P/1 - Mas aqui em São Paulo?

 

R - Aqui, aqui ele, ele foi diretor da sucursal do Jornal do Brasil, diretor da sucursal do... Depois ele até, é, para o...fez uma, uma parte quando O Globo "botou" a direção aqui ele foi diretor também e foi diretor de jornalismo também da Bandeirantes. É, viveu, a gente viveu muito a época de Ademar de Barros, né, depois... Ele foi jornalista durante muitos anos, muitos anos. Aí depois ele, uma época, ele resolveu ir para parte priv... Uma, é, ficou diretor de comunicação da FEBRABAN, depois diretor de comunicação da PAM, onde ele se aposentou, que ele era muito amigo do Rolinho quando a PAM começou a crescer demais e aí o Rolinho falou: "Ai Mauro, vem me dar uma mão na comunicação, né". Então ele ficou como diretor de comunicação na PAM até três anos atrás. Esse é o meu marido, mas a gente... Eu brinco muito que nós não temos nada em comum profissionalmente...

 

P/1 - Sim.

 

R - Né. Ele, e sempre foi muito independente o negócio nosso de trabalho, amizades... A gente era, os amigos se comunicavam, mas cada um tinha...

 

P/1 - Tinha o seu grupo de amigos.

 

R - É. E aí nesse meio tempo apareceu televisão. Eu me lembro da primeira televisão (risos) quando montaram a primeira televisão em São Paulo. Quando eu casei com ele eu falei: "Eu nunca imaginei, né, porque...que eu fosse casar com um homem de televisão". Aí minha mãe depois que eu já estava casada, ela veio a descobrir que o Mauro Guimarães que a amiga tinha falado não era o mesmo Mauro Guimarães.

 

P/1 – Sei. Até porque daí já tinha casado, né (risos).

 

R - É, é, ai, ai... Não, mas é, acabou sabendo assim... E era muito engraçado isso, esses dois nomes, porque o nome profissional dele misturava muito... E o do outro era o nome só, né (risos).

 

P/1 - E você, então, aí depois... E você sempre continuou com o consultório...

 

R - Consultório. Agora, eu tive uma época muito feliz também na minha infância porque o papai como tinha sempre uma fazenda, é... Por exemplo, quando a gente foi para Bertioga não tinha luz, a minha casa era iluminação à gás. Isso meus filhos já tinham nascido, quer dizer, coisa de quarenta anos atrás não tinha luz na Bertioga, não tinha esse litoral norte que tem.

 

P/1 - Hum.

 

R - É, os índios saíam ali do pé da serra, conheceram meu pai. Meu pai como estrangeiro ele absorvia muito essa coisa, né, toda de preservar e tal. Então saíam uns índios ali do pé da Serra da, da Serra do Mar, perto de Itaguaré, por ali, tinha uma, uma tribo...

 

P/1 - Guarani?

 

R - Isso. E eles faziam feira de troca, praticamente, na Bertioga...

 

P/1 - Com o que eles produziam...

 

R - Eles produziam o quê? Aquelas coisas que índio fazia, né, é, peneira, aquelas coisas, uns jacás que eles põem no rio para, como é que chama...

 

P/1 - Para pescar? Não sei.

 

R - Para pescar, é, pente com umas peninhas, é, flautinha, uma espécie de uma flautinha. Então eles saíam ali do pé da serra à pé, dormiam na garagem da casa do meu pai, na enseada da Bertioga que era perto, ali no final da enseada, quase já São Lourenço e dorm...pernoitavam, chegavam noite adentro ali, pernoitavam e quatro horas da manhã iam fazer a feira. Depois eles voltavam, pernoitavam ali e era bonitinho, porque eles sempre deixavam uma lembrança para os meus pais...

 

P/1 – Hã. Ah, então eles...

 

R - ...ou era ovos ou às vezes...

 

P/1 - Ah, porque eles traziam as coisas que eles produziam, é, artesanato, mas também...

 

R - Eles produziam de comida, milho... Hã, depois a mamãe ajudou muito o negócio da medida que, que tinha já um pouco mais, eles estavam um pouco mais próximos, né, começaram as casas ali que eram fazendas, né, ali. O que que eles, é, a, a praticavam, a, aquela, artesanato de Taboa. É, e, e a mamãe então trazia muito para São Paulo, levava para Santos para comercializar um pouco para eles. Então o meu pai pegou essa época ali na, na Bertioga. Só tinha a colônia do SESC, não tinha mais nada, depois tinha a casa do meu pai, depois tinha essa casa do Antônio Ermírio lá em baixo, que era a casa do Vicente de Carvalho e tinham três famílias suíças que tinham casas na passagem ali, o resto era tudo caiçaras. E, e então a gente pegou e não tinha luz, não tinha telefone, o, o gás passava uma vez por semana pela praia... E agora virou aquele litoral norte que eu e meu marido não vamos, nos recusamos porque não tem nada...

 

P/1 - Nossa, é muito diferente do vocês viveram.

 

R - Ah, estragou tudo, né. A, a, isso é um detalhe que eu acho que não precisa entrar na fita, mas, é...

 

P/1 - Tudo o que você falar vai entrar na fita. Então não fala.

 

R - Então não posso falar (risos). Mas é um negócio bem legal que tinha ali na enseada, na, na praia de São Lourenço, eles, ali tinha um fenômeno que chamava Ardentia. Em noite de luar você entrava na água, o seu corpo ficava prateado e parecia um raio de luz atrás de você...

 

P/1 - Quando você fazia assim... É.

 

R - E hoje não tem mais.

 

P/1 - Porque acho que aquele tipo de plâncton...

 

R - Foi embora.

 

P/1 - É, desapareceu.

 

R - Foi embora.

 

P/1 - Eu lembro disso.

 

R - Era lindo! A gente puxava picaréra, peixe que pegava, né, é uma outra época, ali do litoral que eu lembro bem era isso. E, agora, São Paulo mudou muito. E na fazenda também, na fazenda, meu pai tinha uma fazenda ali em São Carlos, a gente pegava o trem dentro da fazenda para ir para São Carlos. passava um trenzinho e parava em Itirapina e aí a gente ia para São Carlos. E também a iluminação era lampião de gás, né. Então quando, é, tem a passagem, quando o homem chegou na Lua nós estávamos na Bertioga e aí o caiçara que ajudava lá o meu pai virou para o meu e falou assim: "Doutor Mariano, o senhor sabe, eu estava pensando, o senhor é um homem tão inteligente, tão estudado, o senhor acredita que o homem está lá mesmo?”. “Que nada, ele está em um deserto, porque americano é muito danado e tirou essa foto e está enganando o mundo inteiro". (risos)

 

P/1 - Mas assim como ele muita gente, né.

 

R - Ai, ai.

 

P/1 - Ô Thereza, E  hoje em dia o que que você, como é tua rotina, tua vida profissional...?

 

R - Bom, aí a minha, a parte profissional do meu marido me acrescentou muito também, né, porque a gente viajou muito...

 

P/1 – Por que? Ah, sim.

 

R - Aproveitou, levou os filhos, quer dizer, a gente conhece muita coisa por esse mundo afora, né. E...

 

P/1 - Porque você acompanhava ele um pouco nas viagens...

 

R - Acompanhava, acompanhava.

 

P/1 - E levava as crianças.

 

R - É, porque como eu me afastei depois, né, da faculdade e também tinha esse tempo de tratamento do meu filho e ele tinha que receber muito, então, político, empresarial, porque Jornal do Brasil, por exemplo, recebia muito, então eu recebia em casa, não tinha essa história de muito buffet como hoje, hotel, evento, você... Às vezes ele ligava para mim, eu ainda estava na faculdade, ele me ligava cinco horas da tarde e falava: "Thereza, ó, vão oito pessoas jantar lá em casa hoje, está bom?" Isso duas horas da manhã. Aí iam discutir política, iam discutir matéria, iam discutir tudo. Hoje se faz isso em restaurante, né, naquela época não, vinha para casa mesmo. E então eu vi, eu vivenciei muito também essa parte dele. Porque o Mauro, nós somos do tempo da construção de Brasília.

 

P/1 - Hum. É verdade...

 

R - Não é? Então a gente viu os acampamentos sendo feitos em Brasília.

P/1 - Você chegou a visitar?

 

R - Muitas vezes. E o Mauro era, o… Eu tenho uma fotografia em casa, eu não estou presente, por isso que eu não trouxe, do último almoço do Juscelino Kubitschek foi com o meu marido.

 

P/1 - Olha!

 

R - Ele veio para São Paulo para almoçar com os amigos e meu marido estava junto. Na volta, na Dutra, houve o acidente e ele morreu.

 

P/1 - Nossa!

 

R - Ele morreu. Então, passou pela minha casa, eu tive que, que ser meio cicerone apesar de ser dentista por causa da profissão do meu marido eu tive que, é... Pela minha casa acho que passaram praticamente todos os políticos da época, né.

 

P/1 - Quando você fala da época...

 

R - Jânio Quadros...

 

P/1 - ...desses anos 1960.

 

R - Ó, dos anos 1960, é, dos 1960 para cá.

 

P/1 - Quando você casou e...

 

R - Não, renúncia de Jânio Quadros, depois da renúncia de Jânio Quadros. É, o meu marido foi, é, junto com um colega dele de profissão, é, meio pombo-correio do casamento da filha do Jânio, porque ela casou com um jornalista que depois não deu certo.

 

P/1 - A Eloá.

 

R - Não, Eloá era a mulher.

 

P/1 - Não, Eloá era a esposa. Como chamava ela? Esqueci...

 

R - E... Como é?

 

P/1 - Ah, esqueci.

 

R - Eu também esqueci agora. Então todos, é, Fernando Henrique eu lembro da USP, porque, é, era da época da USP que, época da, é, o Serra, Diretas Já, tudo isso a gente pegou e pegou ao, ao lado disso, o que falo para os meus netos, o que eu acho que foi a maior revolução mesmo na minha vida, que eu presenciei, é a chegada da informática, de televisão, depois informática, telefone, todas essas facilidades. Porque a política, a gente vai vivenciando e vai vendo que às vezes a história se repete um pouco de maneira diferente, com roupagem diferente. Então esse, esse Greenhalgh de agora eu nunca tive contato com ele mais depois de adulto, mas a minha mãe carregou esse rapaz no colo por causa da amizade do pai dele que não tinha nada a ver com a cabeça do PT. É tão engraçado, não? Mas ele é político e o pai dele era Ademarista "roxo", "roxo" (risos). Então, tem essa parte aí que acrescentou muita gente na minha casa que, que eu fui obrigada, e me deu prazer em algumas ocasiões, de muita gente que, que passou pela televisão e, e que, e deu uma abertura muito grande, né. Então os meninos perguntam, falam: "Vó, mas como que era, o que vocês faziam de noite quando não tinha televisão?" (risos) Falei: "Olha, a gente lia muito e tinha uns programas de rádio muito engraçados que, e as novelas". Né? Então eu tinha uma moça que trabalhou na minha casa, ela assistiu O Direito de Nascer. Aquilo, ninguém saía na rua enquanto não acabava no rádio O Direito de Nascer, né.

 

P/1 - E eram muito longas as novelas, né.

 

R - É, e era tão interessante tudo isso, a evolução...

 

P/1 - Duravam muito tempo, né...

 

R - É, demorava muito tempo...

 

P/1 - ...no ar.

 

R - ...E sabe uma coisa que eu dei muita risada uma vez, foi quando começou a televisão era tudo ao vivo, né, e tinha a Odete Lara que fazia a propaganda dos produtos, que hoje chamam comerciais, mas naquela época era propaganda. E aí, (risos) ela antes do jornal foi fazer a propaganda do liquidificador e resolveram ligar o liquidificador e dizer que ele era silencioso, só que entrou no microfone com um barulho que ninguém aguentou, então (risos) o cameraman puxado o fio e a máquina foi junto, então ele puxando o fio da ... para desligar.

 

P/1 - Você lembra disso?

 

R - Olha, virou piada. Depois... Tem coisas, assim, cômicas, né, que a gente presenciou e...

 

P/1 - Mas quando a televisão chegou você, vocês...

 

R - Era um caixotão maior que essa...

 

P/1 - Mas vocês logo tiveram televisão?

 

R - Sim. Graças a Deus a gente tinha um poder aquisitivo, assim, razoável, né, então...

 

P/1 - Porque não eram muitas famílias que...

 

R - Não...

 

P/1 - ...que tinham, né?

 

R - Não. Tinha televisão... Aí, nossa, chegou vai comprar. É, meu pai... Olha, eu sou do tempo que tinha conta corrente no Mappin do meu pai e a, a conta vinha no final do mês, vinha uma conta, vinha uma conta do açougue, vinha a conta da padaria, vinha a conta da quitanda, não tinha supermercado, né, depois que veio o Pegue e Pague. E, e quando você era cliente do...ou de alguma loja como por exemplo era o... Porque o Mappin era uma loja inglesa, né.

 

P/1 - Hum.

 

R – Então, tinha um restaurante belíssimo com orquestra, homem de cartola na porta, tapete vermelho, abria a porta para você, quer dizer...

 

P/1 - Isso quando era ainda do outro lado do viaduto, né, no Centro velho. E co...mas quando passou...

 

R - Não, nesse prédio em frente ao, ao Municipal. É, então meu pai...

 

P/1 - Ah é, o outro lado acho que...

 

R - Não...

 

P/1 - ...Não, aí não é do seu tempo ainda.

 

R - ...o outro lado o meu pai tinha escritório ali na Líbero Badaró ao lado daquele hotel, até hoje tem o prédio lá...

 

P/1 - Hotel Othon.

 

R - É, que, que fechou também, né.

 

P/1 - Fechou.

 

R - Então, aí meu pai, a gente ia encontrar com o meu pai no, no escritório, atravessava o Viaduto do Chá, passava pela Light que é aquele prédio que virou...

 

P/1 - Shopping...

 

R - ...acho que shopping. E ia almoçar no, no Mappin. E aí o Mappin era um melhor do que o Harold (risos), porque tinha cabelereiro, tinha salão...tinha salão de beleza, tinha restaurante, tinha mercearia, tinha, é, o andar feminino, o andar masculino, alfaiataria e tudo importado, né, então era um luxo só. E a, a vida acontecia ali naquele pedaço. Era a Rua Direita algumas coisas, depois tinha o Centro, aquele Largo do Café, né, que era onde se negociava muito e tal e Barão de Itapetininga.

 

P/1 - Que tinha o comércio mais chique.

 

R - É.  Então, mas até a Ciça perguntou: "Quem fazia a roupa?". Ninguém entrava em loja geralmente e comprava roupa feita, você ia para costureira, eu lembro que, eu, eu me lembro que a loja que comprava roupa para mim, se chamava Casa Valentim, que era uma loja de criança, para coisa de criança. E sapato era uma sapataria que chamava Joia que era... E, e não tinha, assim, trezentas sapatarias, entendeu, era mais ou menos você andava naquele pedaço ali. E era muito chique a Praça da República, Avenida Paulista, né, então a gente circulava... Papai, porque papai, graças a Deus, papai estava em uma época que ele estava bem de vida, né, e então eu tive essa felicidade de poder estudar em colégio bom... É, agora, a escola pública era o que tinha de melhor para... é que o meu pai chegava em um tanto: “Vamos para a escola pública”. Os meninos iam para a escola pública. Eu não fui porque papai ficava pouco em São Paulo então...

 

P/1 - E aí você ficou interna e aí era...

 

R - É. Eles também foram internos, mas no colegial, que agora chama o quê?

 

P/1 - Ensino Médio.

 

R - Médio, eles saíam e iam para a escola pública e o meu irmão do meio saiu e foi para a Caetano para se preparar para a Marinha, que ele queria fazer Marinha. Fez engenharia naval e depois se especializou em mergulho nos Estados Unidos e é isso.

 

P/1 - Entendi. Não, e então, mas aí você estava falando do seu cotidiano hoje.

 

R - Meu cotidiano hoje...

 

P/1 - Que eu perguntei para você.

 

R - Eu ainda tenho consultório...

 

P/1 - Hum.

 

R - ...até hoje, só que de uns anos para cá meu marido teve um problema de saúde, se aposentou e então eu resolvi, eu trabalho meia semana no consultório e meia semana eu dedico para a família, eu curto os meus netos, que eu já tenho...

 

P/1 - Quantos netos?

 

R – Bom, tenho essa nora maravilhosa que está casada com o meu filho caçula, o meu filho do meio, o, está no segundo casamento, tem mais dois meninos e a, a enteada dele, a Luísa; e o meu filho mais velho separou e tem um filho que mora em Minas que se chama Eduardo. Então quando eles podem eles vêm para a casa da avó, porque nenhum filho quis morar muito em São Paulo, agora o mais velho é que voltou e... Então eu fico nisso e saio menos. Antes a gente viajava muito, eu aproveitei bastante, eu só... Ah, às vezes tem amiga minha que fala: "Thereza, você não tem depressão?" Eu falo assim: "Eu não tenho tempo para ter depressão, né" (risos). Porque eu trabalho, tenho um monte de coisas para fazer, né.

 

P/1 - Você sempre trabalhou na mesma área da, da odonto.

 

R - Sempre.

 

P/1 - Sempre com pediatria?


R - Eu sou odontopediatria há cinquenta anos. Há mais de cinquenta anos, né, porque no último ano eu já...

 

P/1 - Já...

 

R - ...estava praticando a especialização lá na cadeira. E gosto muito da minha profissão, ver as crianças, é, eu acho que criança é uma luz maravilhosa, então ela te obriga a todo dia você estar muito viva, você estar muito presente, você se atualizar, né. Dentro da medida do que eu posso eu estou sempre correndo atrás para aprender com eles, não só com os meus netos que são... É aquela história, avó não fala mal de neto, mas eles são realmente muito, muito bonzinhos, são ótimos e me deu muita sorte, graças a Deus. Mas eu aprendo muito com os meus clientes, muito, eles estão me ensinando todo dia alguma coisa, todo dia eu estou correndo atrás. E a, e estou sempre me reciclando porque para você ficar hoje em dia em qualquer profissão você tem que acompanhar, né.

 

P/1 - Hum. Muito rápido, né?

 

R - É. Então sempre estou fazendo algum curso.

 

P/1 - Espera só um pouquinho.

 

R - Tenho, agora eu já tenho, quer dizer, clientes meus que já trouxeram os filhos e agora os filhos já vão trazer os filhos para mim, né. Mas aos pouquinhos eu estou já saindo porque eu estou com setenta e dois, né, então chega uma hora...

 

P/1 - Você tem um assistente, alguma coisa que, que...

 

R - Não.

 

P/1 - ...trabalhe com você?

 

R - Não.

 

P/1 - Não.

 

R - Não tenho assistente. É uma coisa que às vezes eu falo de... É ruim falar isso para algumas pessoas, né. Eu acho que tem umas profissões que você tenta passar, mas quem comanda é o seu cliente. Então eu penso assim, sempre pensei assim, se uma pessoa me procura é porque ela quer ser tratada por mim...

 

P/1 - Hum.

 

R - Ela não quer ser tratada por um assistente meu, isso eu falo para os meus médicos amigos também, sabe. Eu acho assim, "Ah eu quero ir no doutor Fulano de tal". Chega lá quem te atende é um assistente, ele pode ser tão bom quando, pode ser...

 

P/1 - Mas não é a pessoa.

 

R - Mas não é a pessoa. E como eu trato com criança e é um, um ciclo relativamente curto, eu posso, eu tenho uma, uma, uma auxiliar que me auxilia, dá as coisas, assim, mas...

 

P/1 - Mas não um outro profissional que trabalha com você...

 

R - ...o trabalho não. Eu prefiro às vezes, por exemplo, alguma coisa que eu já não faço porque eu estou já terminando, quer dizer, tentando aos poucos acabar, é, determinadas coisas eu já delego para um outro profissional, que se a pessoa quiser ela aceita ou não. Então por exemplo, a ortodontia móvel, eu fazia, hoje não faço mais porque é uma ortodontia lenta e que é esse curso de pós-graduação que eu fui fazer que é uma, é, são anos de trabalho que você faz uma boca e eu não tenho perspectiva desses anos que eu julgo que às vezes vá precisar, então não acho justo começar um trabalho sabendo que eu não vou entregar pronto para a pessoa. Então eu já tenho alguns profissionais que eu delego. E que iria abrir frente, né, para outros também. Porque para trabalhar junto é muito difícil na profissão, até o, eu digo a pele, que é muito importante na nossa profissão. É...

 

P/1 - Como assim, eu não entendi.

 

R - Eu acho que...

 

P/1 - Como é a pele?

 

R - A parte humana do profissional...

 

P/1 - Ah, sim.

 

R - Sabe? Eu acho que todo mundo que vai de uma forma ou de outra para um profissional de saúde, ele está carente de alguma coisa, ele está precisando de alguma coisa. E muitas vezes ele vem para você com alguma coisa que não depende só da sua especialização, então às vezes, por exemplo, eu pego uma criança que ela vem tão estressada por outros problemas, que ela está com alguma moléstia de boca pelo estresse que ela tem, então não é justo que eu chegue para a minha atendente e fale assim: "Manda Fulano entrar". Senta na cadeira e eu já chego ele já está de guardanapo, já está todo paramentado e não pode falar comigo e não pode dizer...

 

P/1 - O que que ele está sentindo.

 

R - ...nada. Não, eu tenho que receber ele lá, tenho que saber como ele passou da última consulta, né, tenho que conversar um pouco com ele para ele se sentir à vontade, né. E depois, até porque eu acho que a criança, principalmente a gente que trata de criança, desde que nasce até a adolescência, é, tem uma fase oral que é muito importante, que eu sempre digo para as mães, não sei se cabe aqui, mas... A fase oral da criança na primeira infância, ela é mais importante do que as fases que virão depois, porque você está entrando na maior privacidade da criança é a fase oral, né. Então você introduzir a sua, a mão, dentro da boca de uma criança é uma coisa muito séria, é uma coisa que você pode dar um trauma para ela para o resto da vida. Ela vai sentar estressada para o resto da vida. Então eu sempre falava para os meus alunos, falo: "Olha, vocês são obrigados a ter odontopediatria porque é uma matéria obrigatória..."

 

P/1 - Hum.

 

R - "...mas vocês não são obrigados a ser odontopediatras..."

 

P/1 - Hum.

 

R - "...Então, vocês vão aprender aqui a respeitar a criança no contexto criança, depois vocês vão entrar na boca da criança. Porque se não depois vocês vão querer ser adultos e vão botar cadeira com massagem, vão botar não sei o... Mas o terror continua".

 

P/1 - Ahã.

 

R - Agora, as crianças de agora, a maioria não são tão traumatizadas, né, até porque estão vivendo em outra época, né. E são mais desinibidas e tudo. Mas a criança para mim é um cristal, é, sob todos os aspectos, reflete luz, você tem que tocar com cuidado...

 

P/1 - Hum...

 

R - ...não dar trincas, né, e conversar de olho no olho para ela aprender a ter aquele, sabe, a parte humana, né. Ela aprende a se abrir com um profissional, aprender a respeitar o profissional, sabe. E às vezes as mães ficam aborrecidas comigo porque eu viro e falo assim: "Não, hoje eu não vou fazer nada"; "Ai doutora eu tenho que trabalhar, eu tenho que entrar não sei que horas". Eu falo assim: "Filha, quando for assim nem traga, porque ela é ela, você é você... Está certo, ela tem que entender que você trabalha, que isso, que aquilo, mas ela também está fragilizada, né, agora está com dor, é, uma emergência, você faz aquilo e depois você tenta chegar nela, né..." Mas eu respeito muito nessa parte e eu tento passar na minha vida o que o meu pai me deu. É o respeito primeiro pelo ser humano e sobretudo a si próprio, né, você se respeitar a si próprio para você poder passar esse respeito para os outros. Então, às vezes eu fico contando as histórias para as crianças que eles me perguntam e tudo e aí eles falam assim para mim: "Vó, mas como é que era assim, porque a minha professora ela não faz assim..." Eu viro e falo assim: "Não, mas é, o meu colégio era diferente, eu não podia virar as costas para sentar, dar as costas para professora, hoje vocês põem o dedo no nariz da professora, não é assim?" (risos) Eles dão risada, mas é, foi uma mudança muito rápida, a juventude... Fica difícil de, é, acho que você, é pegar essa mudança, né, fica muito difícil. É, eu lembro que na fazenda a gente, por exemplo, era tudo feito na fazenda, não tinha essa história, não tinha enlatado, né, não tinha supermercado, então a gente tinha que aprender a cozinhar, a fazer o molho, a fazer tudo desde a fruta, fazer o suco, fazer o doce, fazer...bater a manteiga, tirar a gordura, né. É, a fazenda da minha mãe tudo era feito lá... Aí você hoje chega, em cinco minutos você faz o supermercado, né? É tão diferente...

 

P/1 - É, e resolve todos os problemas, né.

 

R - É. Mas a gente tentou passar isso e é muito difícil passar, porque hoje o convívio também está tão... A gente convive pouco, né. Eu acho que a gente convive mais com o trabalho, hoje em dia, do que com a família. Ah, uma outra coisa que era tradicional na minha época e o meu pai não admitia e passou para a gente, um conselho que ele dava, falava: "Olha, o dia que, não tem que ter o dia que é obrigado ir á casa do pai e da mãe, a casa do pai e da mãe é sempre aberta para os filhos. Agora a casa dos filhos, depois que eles casam não é aberta para os pais. (risos) Você sempre telefone antes..."

 

P/1 - Hum.

 

R - "...se você precisar muito ir, senão você espera ser convidado". (risos) É, ele era bem europeu nessas coisas. E ajuda muito, porque é uma verdade.

 

P/1 - E é assim que você faz?

 

R - É assim que eu faço. Assim que eu faço. Eu posso passar, já moraram em São Paulo, eu posso passar em frente, está morrendo de vontade de ver meu neto, mas se eu não combinei eu não paro. Porque, meu pai falava assim: "Olha, você chega de prontidão, nem sempre a pessoa está disposta a te receber porque ela está em um momento que para ela está difícil. Às vezes ela acabou de... Não está bem, aí você vai ficar achando que ela já está de má vontade com você, que não está com..." E ele falava assim: "As coisas, as brigas familiares às vezes começam por essas coisas, porque um não respeita a privacidade do outro".

 

P/1 - Do outro.

 

R - Né. E, imagine, quem, ninguém abria a gaveta de ninguém na minha casa, carta, gaveta, esse negócio: "Ah, me empresta um lápis". Entra no quarto e pega... Não, tem que respeitar, bate na porta, aí entra, hoje em dia mudou muito, né. Agora os meninos, os meus filhos mesmo eu já não consegui fazer o que eu, o que eu tive, né porque já é outra época... E a gente tem que ser aberto para aceitar...

 

P/1 - Para as adaptações.

 

R - É.

 

P/1 -  Ô Thereza, e quais são os seus sonhos hoje?

 

R - Olha, para falar bem a verdade, sonho eu já realizei, eu já tenho como realizado alguns que eu não imaginava que eu fosse realizar. Por exemplo, ver meus netos, porque a minha família não é longeva, eu já sou a ponte da pirâmide, eu não tenho mais tios, eu não tenho mais ninguém acima de mim.

 

P/1 - Hum. Seus pais, seus pais já morreram...

 

R - Meus pais faleceram... A minha, a família da minha mãe toda morreu com cinquenta, sessenta e poucos anos.

 

P/1 - Nossa!

 

R - É. Eu já perdi dois irmãos, só tenho um irmão vivo.

 

P/1 - Que é o do meio?

 

R - É, não, é o mais velho.

 

P/1 – É o mais velho.

 

R - E aí, é, eu brinco, por exemplo, com o meu clínico que é um guru na minha vida, eu falo assim: "Olha, quando eu vejo esses médicos dando alguns conselhos, eu fico pensando na minha família". Porque os meus dois irmãos que eram esportistas, nunca fumaram, só bebiam raramente, socialmente, foram os dois que foram primeiro. Esse meu irmão médico que trabalhou para caramba, não tinha hora para comer, não tinha hora para dormir, gostava nas horas de folga não ter nada, não ter compromisso muito com a vida, tomar sua cerveja, fumou feito um louco, ainda é o que resta, ele é quatro anos mais velho, é, do que eu. Quer dizer, eu e ele somos os...

 

P/1 - Vocês são muito próximos, né?

 

R - Muito. Minha mãe teve es... (risos) É, naquela época não tinha esse negócio de controle, tudo certinho, não sei o quê. Bom...

 

P/1 - Um filho por ano, né?

 

R - É. Um filho por ano... Não, a mamãe teve de dois em dois anos, certinho assim.

 

P/1 - Ah...

 

R - O último é que é um pouquinho menos de dois anos. E, e uma outra questão, né, que a gente nesse meio tempo, essa, vamos dizer, essa abertura da parte de sexualidade, de tudo, né, que eu só tive homens na família e, e depois fui para colégio interno e todo mundo falava: "Ai, mas era muito tabu, muito tabu". Eu falo: "Não, na minha família não podia ter muito tabu porque tinha muito homem, né". (risos)

 

P/1 - Você que era a diferente.

 

R - É. Não, e segundo as Marcelinas, desde o primário davam educação sexual e isso em 1949. Não dava aula, mas chamava na medida da idade ia conversando com as internas e alertava sobre os, o que hoje tenta se alertar, né. E, e o meu neto me fez uma pergunta, acho que esse a Ciça nem sabe, mas... Meu neto mais velho me fez uma pergunta outro dia que o meu marido virou e falou assim: "Mas que pergunta que ele te fez!" Porque o meu marido não parece, parece muito avançado, mas não é tão avançado assim, ele vem de família italiana, né, então eu acho que eu já sou mais para o norte, assim, já é mais, a cabeça é um pouco mais... Aí meu filho virou e falou assim: "Vó, qual foi a primeira vez que você viu uma camisinha?"

 

P/1 - Olha.

 

R - Eu virei e falei: "Ô meu filho, você sabe de uma coisa, a primeira vez que eu vi a camisinha eu vou te contar o que que nós fizemos com a camisinha. Eu devia ter nove anos, tinha um primo de nove, tinha aquela turminha ali fantasiada, sabe, em Campinas e as camisinhas vinham em caixas, era importado, era uma caixa e vinha igual vem luva hoje em dia”.

 

P/1 - Hum, que você tira direto.

 

R - É. E não era enrolada...

 

P/1 - Ela vinha aberta.

 

R - Era como se fosse um dedo de luva.

 

P/1 - Ela vinha aberta.

 

R - E esse meu primo descobriu a caixa de camisinha do pai dele e saiu distribuindo feito bexiga.

 

P/1 - (risos) E todo mundo ganhou.

 

R - E aí a gente ó fuuuu, assoprando lá e... Minha avó aparece, minha avó era uma fera, minha avó era muito brava, aquela senhora que você, ela era muito brava. Menina não podia cruzar a perna, tinha que andar só de meia, não podia usar sandália porque estragava o pé, minha avó era "fogo". Quando ela viu aquilo, eu me lembro tão bem, ela ficou tão vermelha, ela ficou tão vermelha e tão brava e catou aquela caixa assim: "Todo mundo já para o castigo!" Botou cada um em um quarto na casa da minha tia e sobrou criança porque nós não éramos da casa, então vai para o escritório, o outro vai para não sei o quê... "E a hora que o seu tio chegar aqui..." Porque os filhos da minha mãe sempre eram os culpados e os filhos da minha tia com quem ela morava eram os santos. Mas foi um "santo" que pegou a caixa. E aí ficamos lá a tarde inteira esperando por esse tio chegar do escritório. Quando esse... Ele era um italiano, engenheiro também, trabalhou muitos anos com o Matarazzo. E aí ele chegou em casa e ele dava um assobio quando chegava em casa e ninguém apareceu no assobio dele. E aí a minha, minha avó falou para ele, falou assim... Deve ter falado o que que era, né. Ah, ele deu uma gargalhada sonora: "Cadê a caixa?" E a avó sumiu, pegou a caixa e sumiu, ele virou e falou assim: "Podem encher todas! Um dia eu explico para vocês para que serve isso sem ser fazer bola". (risos) Aí eu contei isso para o meu neto, meu neto pegou falou assim: "Como vó?" Porque ele tem doze anos agora, né: "Como vó? Então como que era?" Virei e falei assim: "Era uma coisa branquinha compridinha assim, ó. Parecia essas bexigas que hoje fazem mil...Só que era pequena, né. Então foi a primeira vez que eu vi camisinha foi assim meu filho". Ele virou e falou assim: "Ah, bom... ". Acho que ele pensou que eu iria dar uma outra explicação...

 

P/1 - É...

 

R - ...alguma outra coisa, né. Mas foi assim mesmo, quer dizer, já, eu devia ter o quê, uns nove anos e já tinha a famosa camisinha e era importada.

 

P/1 - Ô Thereza, e como é que foi contar a sua história hoje?

 

R - Olha, eu vou ser bem sincera para você, eu não queria vir.

 

P/1 - Hã (risos). Por que que você não queria vir?

 

R - Eu não queria vir porque eu acho que é uma história muito comum a outras pessoas da minha época...

 

P/1 - Ahã...

 

R - Entendeu? Mas essa, como houve essa, acho que essa mudança tão grande, às vezes a Ciça, a, a vivência da família da Ciça acho que foi uma pouco diferente da vivência da minha família. E, e muito diferente, por exemplo, da vivência da família do meu marido porque ele é descendente daqueles italianos que vieram aqui para o norte do estado e meu sogro foi depois, é, como é que se diz isso? Trabalhou com café. O tio dele tinha uma moeda, aí no interior, uma moeda que era da cidade porque ele era dono de tudo quase na, na cidade.

 

P/1 - Sim.

 

R - Então, são vivências completamente diferentes. Eu sou de um pai estrangeiro que perdeu todo mundo na guerra, que não sei o quê… Eu falei: "Mas quantos não perderam, quantos não vieram? Esse navio mesmo que meu pai veio, quantos vieram pelo mesmo motivo, né, na esperança de outras coisas e tudo..." mas aí a Ciça falou: "Não, mas a senhora é tão independente, a senhora é tão arrojada, a senhora é tão..." Porque eu, meu pai me ensinou a ser eu mesma, então... Ah, tem uma passagem que ficou, assim, meio marcada para mim, que meu pai me..., é, eu saí cedo de casa, então, por exemplo, minha prima saia para comprar um sapato, discutia três horas com a minha tia porque tinha que comprar o sapato. Eu não, eu saía comprava o meu sapato. Quando a minha mãe via eu já tinha um sapato, está certo? Então passou, aí eu fiquei grávida, quando eu fiquei grávida a minha mãe estava em Santa Catarina e minha mãe ficou muito preocupada porque eu estava grávida e trabalhando, e como que eu vou trabalhar? Que viesse, o primeiro filho... "Mãe, estou ótima, estou trabalhando, está muito bem, tudo muito bem, tudo..." Bom, aí minha mãe veio para São Paulo e veio com enxoval para o meu filho e para a filha e para o filho, um monte de coisas porque ela era muito habilidosa, e ela só falava assim para mim: "Ai, não se preocupe porque o enxoval eu dou". Eu: "Está bom, está bom..." Aí ela veio quase na hora de eu ter o bebê e virou para mim e falou: "Ai Thereza, eu precisava sair para comprar um vestido para mim que eu queria um vestido que vai ter o casamento não sei de quem..." Falei: "Ah mãe, por isso não, vamos, né". Peguei o carro e vamos. Quando ela estava comprando o vestido eu me dei conta que eu nunca tinha saído com a minha mãe para ela me ajudar a comprar alguma coisa. E aquilo, eu não sei se já estava grávida mesmo, né, virei e falei assim: "Gente, coitada da minha mãe, a única filha, já não tem mulher na família e ela não teve esse prazer, né".

 

P/1 - Hum...

 

R - E aí eu lembro que eu estava na Barão de Itapetininga com ela e quando eu saí da loja que eu entrei no carro eu abracei com ela. Mas eu chorei tanto, tanto e pedi desculpa para ela.

 

P/1 - (risos) Não deve ter entendido nada.

 

R - Aí ela virou e falou assim: "Minha filha, não precisa ficar triste". Quase que ela me disse assim: "Nem eu me dei conta disso". Porque ela pajeava muito o meu pai, minha mãe punha a roupa do meu pai esticadinha na cama todo dia. Eu, coitado do meu marido, se fosse esperar ele saía nu, né (risos). Porque eu trabalhava, ele trabalhava (risos).

 

P/1 - Então, mas aí você estava falando que você não queria vir, mas aí...

 

R - Mas eu não queria vir...

 

P/1 - ...o que que te convenceu?

 

R - Então...

 

P/1 - Foi a Ciça.

 

R - ...aí a Ciça, a Ciça virou e falou: "Nossa senhora, a senhora tem tanta coisa, a senhora é tão independente, a senhora faz... Meu Deus, a senhora viveu tantas coisas de mudança, né..."

 

P/1 - Hum.

 

R - "...É, a senhora viveu vida de fazenda, teve no Pico de Itatiaia quando ninguém falava ainda em Itatiaia, é, o seu pai que veio, que passou uma guerra, como é que encontrou a sua mãe, a educação que ele te deu. O teu colégio interno que todo mundo fala que é péssimo ser interno e você adora o colégio..." De fato eu adoro as freiras, cada filho que nascia minha mãe estava na maternidade e as freiras também. É, no meu casamento as freiras foram também e depois fizeram eu passar lá para elas me cumprimentarem. Então tem umas passagens assim que a Ciça vira para mim e fala assim: "Nossa Dona Thereza, eu acho que a senhora tinha que contar um pouco”. Aí depois eu falei... Ela falou para mim então eu: "Está bom Ciça, não sei o quê". Aí o meu marido que é muito brincalhão virou assim: “O que que você vai contar lá?” Eu virei e falei assim: "Eu não sei o que que eu vou contar porque..."

 

P/1 - Nossa, você sabe sim, hein!

 

R - É...

 

P/1 - Para quem não tinha prática (risos), você sabe contar sim.

 

R - Não, isso é bondade sua. Mas aí depois eu falei: "Ciça, eu acho que não vou não". Aí ela falou: "Ó Dona Thereza, fica inteira, em liberdade. Mas sabe, eu achava que a senhora tem coisa para contar porque a senhora viu São Paulo crescer, a senhora viu, é, enfim..." A senhora, não, que ela me chama de Thereza. E aí eu falei: "Está bom Ciça, então vamos lá. Vamos, vamos lá, eu vou ver o que que sai, não sei o que que eu vou falar..." Ela falou: "Ah, pega umas fotos". Por isso que também faltou foto, porque eu não sou de ficar...

 

P/1 - Sim, mas são...

 

R - ...e eu não sei viver muito... Eu acho legal isso que vocês fazem, mas eu não vivo muito do passado. Você estava perguntando o meu sonho é olhar para frente e ver, e ver o dia de hoje e continuar vendo o dia de amanhã e, e que eu sempre digo para os meninos. Eu falo: "Gente, viva o dia, bem o dia, porque é aquilo que a gente tem agora”.

 

P/1 - Hum.

 

R - Então eu não sou muito sonhadora ainda. Porque eu tenho amigas às vezes que falam assim: "Ai, eu quero ver o meu neto casar". Eu não, não sei se eu quero ver o meu neto casar. Eu quero que ele seja feliz e a, a cota de felicidade eu já tenho deles, né. Agora, é óbvio que se eu conseguir acompanhar a minha família por mais tempo eu vou ser muito feliz. Mas eu vivo muito o presente, sabe, com aquelas minhas coisas que eu tenho na cabeça. O meu, o meu ensinamento do meu pai que foi muito forte na minha vida, da minha mãe que foi minha companheira do achego, como eu digo, mas não da formação.

 

P/1 - Hum.

 

R - Né. E a minha religião, que eu, eu sou, talvez tenha trazido também isso do meu pai.

 

P/1 - Hum.

 

R - Quer dizer, até isso acho que me pesou muito. Então hoje eu sigo a minha religião, não obrigo ninguém a ir à igreja comigo. Ontem mesmo fui questionada: "Mas teus netos não vão fazer a primeira comunhão?" Eu falo: "Não, eles vão fazer a hora que eles acharem o que é melhor para eles". E, e dentro da minha religião eu levo aquilo que eu posso muito à sério. Então eu, mas respeitando sempre aquilo que o meu pai me ensinou, o que a minha cabeça pede...

 

P/1 - Hum.

 

R - ...Não o que eu quero determinar para os outros. Eu acho que ele me ensinou que a gente tem que aceitar um pouco as coisas como os outros são e não como a gente queria para a gente, né. Então nada me pertence, eu sou muito me parece agora que eu estou fazendo depoimento, mas eu sou muito desapegada das coisas, sabe? Eu, eu acho que você tem que viver feliz para passar um pouco de felicidade para os outros e não ser um peso para os outros, né. A gente é que tem que carregar o peso da gente.

 

P/1 - Hum...

 

R - É por aí.

 

P/1 - Obrigada viu Thereza, por você vir contar a sua história.

 

R – Imagina. Ah. Mas é por isso que eu achei que eu não... Realmente eu acho...

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+