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A gente deixa o nome

História de: Yoneko Seimaru
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/09/2011

Sinopse

Yoneko Seimaru deu seu depoimento ao Museu da Pessoa em 19/02/2011. Yoneko, nascida em 1933, em Registro, São Paulo, nos conta a história da trajetória de sua família, imigrantes japoneses que vieram tentar um futuro melhor no Brasil. Sobre as muitas andanças do pai em busca de um futuro melhor narra: “O sonho dele era voltar para o Japão com um monte de dinheiro.”

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História completa

Meu nome é Yoneko Seimaru. No registro, nasci em 1933. Sou a última filha de minha família. Minha diferença de idade para a irmã mais velha é de vinte anos. Mas, para entender isso, vou contar a história do meu pai.

O meu pai nasceu no Japão. O sonho dele era ganhar dinheiro. A província dele é em uma ilha, longe de Tóquio. Bem pequeno, já trabalhava como pescador. Veio para o Peru porque pensou num futuro melhor. Ele, um amigo e um primo.

Ele não sabia que no Peru não chovia. Chegou lá e ficou assustado. Numa parte do Peru, nunca chove. Depois de Lima seguiu para uma cidade de imigração japonesa. Mas como o sonho dele era voltar para o Japão com um monte de dinheiro, e ali não dava muito, só o sustento mesmo, procurou outro país, a Bolívia.

Foi lá, arrumou serviço na construção de estrada de ferro. Mas naquela época já havia muita droga, fumo... muito fumo. Ele falou assim: “Aqui não tem futuro para trazer a família”. Então procurou o Chile. E o Chile era um país muito bom para a pescaria. Como ele era pescador, deu certo. Pescava peixe. Ah, mas não dava para vender... não tinha saída, não tinha quem comprasse. Aí resolveram vir para o Brasil, passar os morros dos Andes. Primeiro voltou para o Peru, e dali saíram para o Brasil. E sei que levaram algum tempo, vieram andando. Nunca perguntei quanto tempo.

Sei que ele tinha um monte de coisas – carabina, bússola, facão, rede para dormir. E ele sempre contava que de três coisas tinha muito medo quando anoitecia: índio, cobra e onça. Estavam sempre os três: meu pai, o primo e um amigo, andando... Quando chegavam a um rio que tinham que atravessar, ele tinha facão. Ele cortava madeira, cortava cipó, trançava, jogava no rio e atravessavam. Sempre os três. Assim conseguiram chegar a Belém do Pará.

Chegaram a Belém do Pará e encontraram um engenheiro japonês. Logo no dia seguinte meu pai arrumou serviço e começou a trabalhar lá. Trabalhava no picadão. O engenheiro media as terras e ele trabalhava no picadão. Mas disse que via muita cobra sucuri, cobra muito famosa. Veio para o Brasil para ser engolido por cobra sucuri? Não, não dá!

Aí ele foi para Manaus, para plantação de pimenta-do-reino; mas ele não conseguiu trabalhar na pimenta-do-reino, foi para a borracha. Aí pegou maleita, quase morreu. Então procurou vir para São Paulo, começou a descer para São Paulo.

Trabalhou bastante na Central Sorocabana, no cafezal. Guardou dinheiro e desceu para Registro, na colônia japonesa. Aí ele comprou terreno em Raposo, depois de quinze anos... Isso tudo demorou quinze anos! E minha mãe todo esse tempo lá, esperando. Ele nem tinha mais o contato dela. Comprou o terreno, comprou uma casa, decidiu retornar para o Japão. Para buscá-la. Foi lá, viu o filho que tinha deixado com 3 anos, já era moço. A filha que tinha deixado recém-nascida tinha 15, 16 anos. Ninguém conhecia o pai.

E ele convidou todos eles para virem morar no Brasil, disse que tinha comprado um terreno e a casa. Os filhos não aceitaram e nem minha mãe; ela disse que ele tinha deixado eles jogados quinze anos, imagina agora ir atrás...

Aí ele falou assim: “Não posso deixar o terreno em Registro. Vamos passear no Brasil, trabalhar dez anos, guardar dinheiro e voltar”. Aí minha mãe aceitou e veio. Os filhos também vieram. Foram direto para o sítio, plantar arroz, banana e café.

Nesses dez anos aconteceu a guerra, não deu mais para voltar. Eles tiveram mais dois filhos aqui. Meu pai adoeceu, faleceu, e minha mãe nunca voltou, também faleceu no Brasil. Ela teve meu irmão e eu já perto dos 40 anos. Eram dois no Japão e dois aqui. Por isso os vinte anos de diferença da minha irmã para mim. Nasci em Registro, passei a infância no sítio. Não tinha nada lá. Ia brincar na vizinhança. Depois começou a guerra; aí é que não podia sair mesmo. Havia os soldados, todo mundo morria de medo. Eles entravam nas casas, acho que procurando livros, bebidas, coisas assim, que os japoneses traziam do Japão. Se a casa tinha forro de madeira, pegavam um toco de madeira e cutucavam para ver se tinha alguma coisa guardada lá em cima. Eles vinham aqui no sítio. Meus pais, quando escutavam o barulho de cavalos, corriam para o mato, deixavam só nós dois, eu e meu irmão, porque nascemos aqui. Morríamos de medo! Tínhamos 6, 7 anos. Eles perguntavam assim: “Cadê papai?”; “Não sei... papai não tá”. E a gente morria de medo; eu tremia que nem doida. Mas eles não iam atrás, no mato. Se não achavam nada dentro de casa, iam embora.

Tinha problema de querosene, era um litro por mês. Meu pai ia comprar um litro de querosene na prefeitura. E sal também. Isso era só com os japoneses. Tinha um senhor que conseguia falar português, tinha mais amizade com o pessoal, com o prefeito, não sei com quem. Esse senhor falava assim: “Se judiar de japonês, como os brasileiros vão trabalhar? Brasileiro trabalha porque os japoneses dão o serviço. Se toca o japonês, como vão trabalhar?” Aí foi melhorando.

Os brasileiros trabalhavam nos sítios dos japoneses. No nosso sítio eram sempre três, quatro famílias. Eles ajudavam na plantação de arroz, colhiam café, trabalhavam na lavoura mesmo. Eu também trabalhava, com 10 anos comecei a trabalhar. Fazia de tudo: plantava arroz, milho, feijão, colhia café, chá, fazia tudo. Enquanto isso, ia para a escola.

Com 10 anos me formei no primário, na escola do sítio. Depois nunca mais estudei. Começou o ginásio aqui em Registro quando eu tinha 16 anos. Pedi muito para o meu pai me deixar estudar, mas ele não deixou. Falava que mulher não precisa estudar. Meu irmão não estudou também...

Depois que terminou a guerra o pessoal ficou mais calmo, começou a ter a associação dos jovens, associação dos japoneses, aí começamos a nos reunir. A gente brincava, os moços jogavam beisebol, atletismo, futebol, e a gente ia junto pra torcer. A gente conhecia um, outro, conhecia todos os jovens lá.

Não tive um namoro, a família decidiu. Quando chegava a época de casar, alguém vinha falar com a família. A família do noivo arrumava um padrinho e ele vinha falar. Assim arrumavam o casamento. Meus pais falavam que fulano de tal era bom, fulano de tal não era muito bom. Era tudo combinado dentro de casa, a gente não ia dar a resposta na hora, nem meus pais, eles perguntavam pra gente. E eu queria estudar, não queria casar. Mas ele obrigou, né? Então tinha que me casar. Mas nunca me esqueci de querer estudar. Depois que comecei a ter filhos sempre pensei em estudar.

Não estudei ginásio. Muito tempo depois comecei a estudar língua japonesa. Hoje eu sei falar e escrever na língua japonesa. Tinha 68 anos, comecei a estudar a língua japonesa. Na vida atual fiz um monte de coisas que não podia fazer antes. Como cerimônia do chá, cerimônia de ikebana, dança japonesa. Todas essas coisas comecei a praticar na associação.

Tenho quatro filhos, três homens e uma menina. Quando minha filha começou a estudar, a mais velha, procuramos vir para a cidade, sair do sítio. Registro era calma, não era que nem agora, cheia de carro, cheia de movimento. Vendemos o sítio e viemos para a cidade. Meu marido tinha caminhão, ele fazia transporte; isso durante doze anos.

Depois os meus filhos começaram a acompanhar o pai. O mais velho, quando chegavam as férias da escola, começou a ir para São Paulo. Ele voltava e dizia assim: “Mamãe, papai dorme ao volante. Perigoso”. Era a época que abriu essa BR. Aí a gente conversou com ele e falou assim: “Vamos trabalhar na terra em vez de em cima do pneu?” Ele largou porque a gente começou a falar: “Não viaja mais. Não fica mais em cima de roda. Fica dentro de casa, em cima da terra mesmo”. Comecei a falar bastante e ele falou assim: “A única coisa que eu quero fazer na minha vida é vender caldo de cana”. Aí começamos. Se é caldo de cana, temos que arrumar uma pastelaria. Aí abrimos uma pastelaria. Não sabia fazer pastel. Trouxemos um chinês lá de Santos, um conhecido. E ele está até hoje, isso tem 37 anos. São dezesseis funcionários.

Depois da pastelaria, meu marido sofreu um acidente com o nosso carro. Bateu. Ficou uns três anos meio abobado. Mas com o tratamento ele voltou, conseguiu voltar, mas não voltou mais a trabalhar. Ele começou a fazer serviço com os amigos, futebol... fazia coisas que gostava de fazer. Gostava muito de futebol, atletismo. Ele morreu em 2002, faz nove anos.

A mais velha estudou Turismo, o outro Economia e Contabilidade, o outro também, Economia e Contabilidade, o outro Engenharia, e estão trabalhando. O único que está como vendedor é o terceiro, que está em Registro. Ele nos ajuda na pastelaria.

Até a hora do almoço fico na pastelaria, depois faço o que quero – a associação, a igreja, as amigas. E ainda faço ikebana, cerimônia do chá, a dança. A vida continua, né? Eu mesma sempre pensei assim: não adianta ficar chorando, falando, resmungando, porque um dia a gente tem que ir, partir. Então por isso me apego muito na religião. A gente tem que lutar até o fim. Tendo amizades, dá pra lutar. Sozinha mesmo é que não dá pra lutar. E meus filhos ajudam muito.

Meu marido ajudava muito os jovens que queriam ir para o Japão. Na hora que terminava de fazer a papelada, ele falava assim: “Vocês não podem esquecer três verdades. Uma, ave bonita deixa a pena quando morre. Outra, onça bonita deixa o couro quando morre. E gente?”, ele perguntava. Ninguém falava nada. Ele dizia: “A gente gente?” Ninguém falava nada. Ele dizia: “A gente deixa o nome”. É mesmo verdade.

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