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História

A gente brincava muito, entrava só pra dormir

História de: Alsira Soares Leite de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/04/2002

Sinopse

Nesta entrevista, Alsira recorda sua infância e comenta as mudanças que ocorreram no Morro dos Prazeres ao longo das décadas. Ela conta sobre sua infância no Morro dos Prazeres no pós Segunda Guerra Mundial, sobre as brincadeiras, as comidas, seus pais e vizinhos e a relação com o Casarão dos Prazeres. Fala de suas vivências em São Paulo e no Paraná, onde viveu em uma colônia de holandeses. Alsira conta, ainda, sobre o Morro dos Prazeres que encontrou nos anos 1980, ao retornar ao Rio de Janeiro, já adulta.

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História completa



IDENTIFICAÇÃO
Meu nome completo é Alsira Soares Leite de Oliveira. A data de nascimento é 30 do 5 de 1947. Local de nascimento, Rio de Janeiro. Eu nasci em Rio Comprido. A minha certidão de nascimento indica que nasci às seis e meia da manhã, no nº 280, Casa 82 da Rua Barão de Tefé. Era uma casa. Naquela época não existia hospital Nós moramos nesse endereço, que é lá no Morro dos Prazeres. No morro era dado esse endereço. 280 é no morro. Mas quando eu fui tirar a primeira identidade, saiu com Alsira com “s”. Precisa ver o bode que deu isso aqui. E interessante que está registrada na 4ª zona, 7ª circunscrição, que era a freguesia do Espírito Santo.

FAMÍLIA
Registro da neta E você não sabe da maior. A minha filha, quando foi ter a minha primeira netinha, - você sabe que eu tenho uma filha adotada. Mas é minha filha. Ela teve ali no Amparo Maternal, que o marido dela é da Petrobrás e ela tinha direito. Aí, minha filha foi ter o nenê lá. Ali é a Rua Barão de Petrópolis Olha a coincidência.Aí eu falei: “Pô. Mas eu nasci na rua Barão de Petrópolis”. E você não sabe? Fui eu que registrei minha neta, que o pai estava no Canadá, que o pai é da Marinha. Eu, avó, fui registrar minha neta que nasceu na rua Barão de Petrópolis, no mesmo cartório que eu fui registrada. Foi muita coincidência. Avós O meu avô paterno, quando eu nasci, já tinha morrido. A única que eu me lembro um pouco é da minha avó. Também meu avô materno já tinha morrido quando eu nasci. A única pessoa que eu me lembro realmente é da minha avó, que é do tempo lá do Getúlio Vargas, era muito getulista. Isso eu me lembro. Mas a origem deles? Nada. Pais Meus pais são Antonio Soares Leite e Siomara de Oliveira Leite.A minha mãe nasceu em Itaocara, cidade do Estado do Rio de Janeiro. São de origem dessa região. E o meu pai é do Rio de Janeiro com ascendência portuguesa. Meus avós paternos eram portugueses mesmo, mas não tive assim acesso a eles. Meu avô morreu em 45, minha avó parece que em 46 e eu nasci em 47. Não tive nenhum relacionamento com eles não. Papai era uma pessoa levada. Eu sei que o antigo Camisa Preta, o Miguelzinho Camisa Preta,-a música – e aquele MeiaNoite, o Edgar, eram da Lapa. Era muito levado. Mas depois que ele casou com minha mãe, ele ficou mais calmo. E o que eu me lembro dele...Sei que nasceu no Rio de Janeiro, mas não sei aonde. Não sei mesmo. Parece que nasceu em Niterói. Não tenho muita certeza não. Eu me lembro muito da Vila Pereira Carneiro, que meus tios moravam na Vila Pereira Carneiro, lá em Niterói, e havia uma relação muito grande com essa vila. Meu avô foi engenheiro. Na época, aqueles engenheiros sem estudo, mas com experiência. Imagina, meu avô Meu pai nasceu em 1909. Então, o meu avô trabalhava pro Conde Pereira Carneiro, dos navios. Ele tinha até direito a uma casa, na vila Pereira Carneiro. Então é o que ocorre? Mas eu não tive contato. Agora o meu pai, não tinha muito juízo sabe, mas conduzia a vida. E nos conduzia junto com ele. Ele trabalhava no cais do porto e tinha um caminhão. Tinha um ajudante chamado José Higino, que eu me lembro bem do José Higino. Como é gostoso a pessoa deixar lembrança pra você. Como é gostoso. Mas então, ele ia no cais do porto, pegava aquelas caixas que antigamente tinha. Não existia o container. Vinha tudo de fora. Até maçã. O Brasil não produzia nada. Nada vezes nada.Era pra seu próprio consumo. Agricultura individual. Então, papai pegava aquelas caixas e então propositalmente até – não sei essa parte – e deixava cair. Isso da época do Getúlio. Não existia mercado. Eram armazéns. Nós chegávamos e comprava 100 gramas, como eu te falei, de arroz: 100 gramas. Era muita pobreza mesmo. Eu vi muita pobreza. Sou da época de fazer a comida de porco – como é que chama? Como é que chama a comida de porco? Lavagem. Sou da época da lavagem. Um fedor desgraçado. Imagine como eu fui criada. Profissão do pai Ele era um tipo de contratado entre aspas. Você sabe. A turma do armazém dizia assim: “Olha, vai chegar 10 caixas de maçã. Tu vai lá e pega essas 10 caixas.”Papai levava essas caixas de maçã. Bacalhau, maçã. Azeite. Minha casa nadava em azeite. Quando acontecia um problema com o caminhão, ele não recebia. Quebrava o caminhão e ele ficava uns 15 dias. Aí nós sentíamos, alguma dificuldade. Está entendendo? Mas no morro eu nunca senti muita fome. Mas tinha muita gente passando fome. Muita gente. Por exemplo, teve épocas que meu pai parou, não sei porque. Tinha época que a gente tinha muito azeite lá em casa. Bacalhau, como eu falei, Mas tinha época que sumia. Agora não sei. Eu, no meu entender agora, eu calculo que seja por causa do caminhão estragar, alguma coisa, ele recebia de acordo com o que ele entregava. Era um caminhão de mil e novecentos e lá vai pedrada. Se não me engano fordinho. Mas ele carregava muitas coisas. Ele mesmo ia no cais do porto, pegava mercadoria, entregava e era pago pra isso. Inclusive acho que em Santa Teresa, agora no começo do mês, eu vi um armazém dessa espécie. Lá existe. Até uma senhora está com noventa e poucos anos.Aí eu subi lá pra visitar a mulher atual do meu ex-genro, marido da minha filha, ex marido da minha filha que eles são muito unidos. Aí fui visitar a Claudia e a Claudia não estava, fiquei esperando, e eu entrei nesse armazém pra tomar uma cerveja. Ainda falei pra mulher...Eu vi aqueles sacos que você falou. E aí falei: “Nossa Eu sou do tempo desses armazéns. Esse armazém me lembra muito meu pai.”Cheio de saco, barata, rato. Atividade da mãe Eu lembro muito da minha mãe costurando, de costas pra mim. Eu tenho verdadeira aversão das pessoas de costas pra mim. Minha mãe costurava pra fora, pra sobreviver. Eu sou do tempo da Casa Canadá. Depois da Adalgisa Colombo, mas aí já estava maior. Mas nessa época, minha mãe pegava muita roupinha de criança pra costurar. No Morro dos Prazeres subia aquelas roupas pra costurar. Não existia sistema de costura. A costureira fazia em casa. Então, ela sempre de costas pra mim, eu não me lembro do rádio. Eu me lembro dela sempre fazendo a comida. Horríveis. Sopa. Não sei. É isso que eu queria...Eu gostaria de encontrar uma pessoa pra me falar porque, se uma época tão farta e era uma época de muita miséria. Me lembro daquela sopa branca, com gosto de alho, aquela comida rápida. Não sei também se era um pouco de preguiça dela. E eu ali participando daquela comida horrorosa. Aí entra na da mulher do lado, com aquele panelões de ferro. Fogão de lenha. Usava muito fogão de lenha naquela época. Geladeira nem pensar. Imagine. Então, o que ocorre? Me lembro muito da minha mãe lavando roupa pra fora. Entregando pra dona Fulana, dona Sicrana. Pegava a roupa. Pegava roupa. Era bacia. Bacia. A água de poço. E ajuntava o pessoal. Minha mãe comandava isso. Comandou esse sistema. Ela juntou uma vez com novas pessoas do morro e foram lá ver negócio de água.Lá gritar, apelar pra vir a água. Aí eu me lembro que veio a água e depois levaram um bolo - eu fiquei com uma vontade de comer aquele bolo que ela fez com glacê de manteiga – pra levar pra dar pra aquela pessoa que forneceu aquela água, e passou a ter água lá dentro. Mas era muita miséria. Muita pobreza. Muita pobreza mesmo. Muita dificuldade. Só de ouvir falar em hospital.

INFÂNCIA
Passeios com o pai Papai era um andarilho, por isso é que eu ando que nem uma condenada. Adoro andar. Papai pegava a gente: “Vamos lá hoje, no Cristo”. Aí fazia aquele farnel. Isso no tempo da farofa. Aí subíamos ali, até o topo nós andávamos. Eu quero ir com a Vânia. Eu andava com meu pai, a pé e agüentava. Não existia ali, não subia muito. Se não me engano, bonde não subia não. Ia até um determinado ponto. Se não me engano. Eu me lembro do túnel Inclusive eu falei pra Vânia. Tem uma escadaria na rua ali. Tem uma escadaria não tem? Eu vejo o grupo sentado em cima. Nós íamos levar comida pra papai. As vezes não estava com o caminhão. Era enorme aquela escada. Aí, o papai, a profissão dele era lanterneiro. Nós íamos levar a comida. Imagina. A pé, do morro. Subir aquilo tudo ali. Mas nós não víamos distância. O impacto da aventura. Eu me lembro de tanta coisa do Rio de Janeiro. Estive uma boa temporada no Rio de Janeiro. Eu não me lembro de temporais. Eu me lembro só assim. Aquela parte que fazia a comida era uma parte muito escura, estreita, horrorosa. Ou então o sol. Eu não me lembro dos temporais. Não lembro. Gozado não. Devia chover é evidente não? Passeio ao Zoológico Essa Rua Almirante Alexandrino é a Barão de Petrópolis? Me lembrei de um detalhe. Eu era pequenininha... Nós fomos no Zoológico, era uma coisa bem mais simples, mas existia. Meu irmão se perdeu da família.Quando eu nasci, ele tinha três anos. Ele devia ter uns cinco aninhos. Uns quatro ou cinco anos. Aí, ele se perdeu A família desesperada, os quatro lá procurando e os quatro perdidos. Aí achamos meu irmão e meu pai: “Você está louco?” Minha mãe contando: “Você tá louco? Porque você desprendeu da gente?”“Ah. Eu estava olhando o rabo da cobra.” (risos)

MORRO DOS PRAZERES
Origem Você não sabia que aquilo era errado, mas você sentia. Eu por exemplo, eu sempre tive uma... Eu não sei se isso acontece com você, Paula. Você por exemplo diz: “Não, aqui não é meu lugar.”Eu sempre tive muito isso comigo. Está entendendo? Eu estar num lugar – eu não sou nada -, mas espiritualmente sim. Meu espírito está galgando, está ambicionando alguma coisa mais. Eu me lembro que eu tinha consciência que eu estava ali no Morro dos Prazeres mas sentia que ali não era o meu lugar. Ali era uma coisa temporária, como foi mesmo. Eu saí com sete anos de lá. Origem do nome Eu sei que o morro é o morro do Escondidinho, que falavam muito. Já se falava no Morro do Escondidinho. Morro do Escondidinho é uma coisa e Morro dos Prazeres é outra. Mas os dois eram juntos. Eles são quase juntos. Tem a rua Gomes Lopes que passa pelo meio. Eles já eram coligados. Não era Morro dos Prazeres. A rua do morro é subida.Era pra cima. Era pra cima. Eu lembro que eu via...Que eu falei, eu olhava pra cima e via muito mato. Não era um mato fechado, mas havia uma densidade. Uma coisa densa de mato, mato , mato. Capim, capim, capim e terra, terra. Isso deve ser o Morro dos Prazeres. E eu falei: “Não tinha muitas casas. Tinha muito quintal.” Eu tinha que voltar lá. Nessa via que nós descíamos – está escutando? Que nós descíamos, aí sim tinha uma concentração de casas. Mas saiam fora da rua principal, vamos dizer assim, do morro. Não havia muitas casas. Moradia Papai comprou um casebre ali. Nós éramos muito pobres mesmo. Nós morávamos de aluguel. Eu sou do tempo, – talvez ainda exista – das cabeças de porco. Era aquelas vilas com várias casas e um banheiro coletivo para todo mundo, um tanque para todos. Morávamos em quartos. Eu nasci no Morro dos Prazeres. Está aqui olha. Eu achava que você devia levar uma xerox disso aqui, para você constatar que realmente o 280 é no morro. O começo do morro. Tanto é que eu passei de carro um dia desses com uma amiga, e aí eu falei: “Nossa, eu nasci por aqui.” E ela: “Aonde?” Eu falei:“Eu não sei.” “Mas aqui é tudo morro.” Eu não queria falar pra ela que eu tinha nascido no morro. Porque eu achei que não era uma pessoa que merecia o meu passado. Mas sempre o passado está me... então eu ocultei. Mas bem que quando eu passei aqui pra pegar o túnel pra ir na rua Alice. Por que? Porque ela morava, ou mora nas Laranjeiras. Então, ela cortou por ali porque ali vai dar na Rua Alice, nas Laranjeiras, aí eu vi a entrada do morro. Bom, eu nasci em 47. Meu irmão nasceu lá no morro em 42. Não, espera aí. Meu irmão acho que não nasceu lá não. Meu irmão é de 1942. Eu sou mais velha que ele. Eu sou de 47 e meu irmão é de 44. Em plena guerra. Não, meu irmão não nasceu lá não. Meu irmão nasceu numa cabeça de porco – me lembrei – como é que chama? Botafogo, na antiga campina. Eles moravam lá, naquelas cabeças de porco, que era um quarto para famílias. Aí, com o caminhão comprado a troco de dívida, papai levou o material pra construir uma casa, e parece que tinha uma fossa. Foi qualquer coisa assim... Porque não houve dinheiro, porque não havia. Eu não me lembro de ver dinheiro naquela época. A vida era muito dura. Nós estávamos passando por um período igual agora. Nessa época atual. Casa A casa, ela era um barraco de tijolo. Quando nós fomos morar lá, era um cômodo. Com esse caminhão, papai fazia muito frete. Já existia frete.A vida parecida com a atual. E na época, ele carregou material pra uma pessoa, e a pessoa deu em troca aquele terreno ali, com um casebre. Mas era só um casebre. Eu morei em cama feita de ripa. Eu sou do tempo das camas feitas com um pedaço de caixote. O caixote pra mim, representa muita coisa. Eu lembro que o nosso beliche foi papai quem fez. Com caixote, nesse cômodo. Era separado com uma cortina. Depois, papai fez um quarto pra mim e meu irmão e ficou com o quarto. Mas era tudo pequeno. Me lembro que era tudo pequeno, e eu via muito porcos. Muito porcos. Essa casa é lá em cima. Onde eu nasci. Quando eu nasci, ainda era um casebre. Nós tínhamos também criação de porco. Teve uma época que nós tínhamos e morreu tudo de uma febre que deu. Todos os porcos.Era uma vida muito dura, uma vida muito. Vala Negra Havia muita criação de porcos, muita vala negra. Eu lembro das valas negras. É muito parecido com a atual. O Brasil em si, ele só se expandiu demograficamente. Vizinhança Minhas vizinhas eram essa Lisete. Eu tinha uma foto da Lisete. Morava um pouquinho acima. Tinha uma escada pra subir. Até uma vez eu caí dessa escada. Morava seu Emílio, que estava até com problema de pulmão. Existia muita tuberculose. Era assim. Morava seu Emílio em baixo, a família da Lisete do lado. Origem dos Moradores Olha, eles eram negros. Eu conheci essa gente... Quando eu nasci, simplesmente há uns 57 anos. Espera um pouquinho. Vou fazer as contas. Eu sou de 1947, tinha 59 anos que tinha terminado a escravatura e eu conheci escravos. Ali era um reduto também de escravos. Ali parecia um reduto de tudo. Eu não sei o que atraia... Negros. Negros. Muitos negros. Não que eu tenha nada contra os negros. Pelo amor de Deus. Mas eram muitos negros e pobreza. Então, era gente biscateira. Meu pai era um biscateiro. Meu pai sempre foi um biscateiro. Mas tinha profissão. Eram biscateiro, trabalhavam... Havia muito era feira naquela época. Os chapeiros, ajudantes de feira que carregavam aquelas caixas. Ali dava muito esse tipo de coisas. Não tinham profissões definidas. Olha, portugueses, eu lembro inclusive, o Censinho que veio com a mãe e o pai. Brincava muito com ele. É o nome dele era parecido com Censo.Chamava de Censinho ou Inocêncio. A gente chamava ele de Censinho. Eles vieram de Portugal sem nada. Sem eira nem beira. Um parente que pagou a passagem. Veio ele, um filho, uma filha – me lembro bem da filha - da postura de portugueses que são meio fechados. Imagina há quantos anos atrás. O garoto tem hoje quase a minha idade. Era um pouco mais novo do que eu. Então, o que ocorre? Eu brincava muito com o Censinho. Eles estavam ali provisoriamente. Havia uns portugueses - era um tipo de uma estalagem provisória. Você sentia que não era o “eu” deles. Por exemplo, um parente trazia, aí arrumava aquela casinha muito barata o aluguel ali. Muitos alugavam. E eu brincava com esse Censinho. Então, os portugueses aqui, na verdade, não tem muita história não. Veio de passagem. Brincadeiras No morro não havia essa super população. Tinha muito quintal. Eu lembro do quintal. Eu brincava ali fora, e eu olhava assim por céu – que eu gosto muito da lua. Adoro a lua. Sou mais chegada à lua do que ao sol. Então, eu olhava assim a lua... Brincava muito. Eu sou do tempo de brincar de roda, passar anel. Cantar “Passará. Passará. O que me deixa eu passar.” Até hoje. E aquela “Eu sou uma pobre viúva...”Mas brincávamos muito. Brincava muito mesmo. As crianças sabiam brincar. Não havia essa aberração de agora. Brincávamos no quintal. No quintal. Não no meu. O meu não tinha muito quintal não. Mas eu descia e ia brincar numa casa em frente. Tanto é que quando eu cheguei, quando eu fui lá em 1981, eu olhei e falei assim: “Eu brincava aqui. Eu brincava aqui.” Aí eu lembrei...Talvez agora eu indo, eu tenha uma memória melhor. Não vai entrar o choque. Vai entrar mais a realidade. Porque eu queria talvez, que aquilo fosse tudo igual. Eu falei pra Taninha: “Taninha, eu brincava aqui.” A Taninha já é menor. Ela devia ter uns dois aninhos na época. Mas ela lembrava de mim e do meu pai também. Então, o que eu falo é o seguinte: A gente brincava muito ali fora, entrava só pra dormir. Porque não tinha televisão, mas nós tínhamos a brincadeira, a pureza. Você não via ninguém pintado. Nada disso. Não via. E brincava muito. Era muito gostoso mesmo. Aquele: (cantando) “Que ofício dar a ela? De marré, marré, marré. Que ofício dar a ela? De marré, de si. Aí voltava: “Ofício de professora De marre, marre...” Brinquei disso. “Passará, eu passarei. Você me deixa eu passar. Se não for o da frente... Olha. Imagina. Gravar isso. E aquele: “Carneirinho, carneirinho Carneirão, neirão, neirão...” E aí todo mundo deitava no chão. Aquilo era tão gostoso. Era a pureza da nossa alma. Era aquele céu maravilhoso. Aquela lua. Que hoje as crianças não vêem. Eu me lembro que eu deitava no chão e tinha que levantar. Eu não queria levantar. Eu queria ficar olhando pro céu. Eu sou uma privilegiada. Graças a Deus, tenho muita memória boa. Tive um pai que me amou muito. Amou-me muito. Que meu pai me adorava. Amizades A Lisete eu não vi, porque infelizmente nesse dia que eu fui, o que ocorre? Eu tinha um compromisso...Olha, eu não faço isso, tanto que até hoje não faço isso. Eu quando tenho uma coisa, faço uma coisa só. Eu podia ter ido. Eu almocei na casa da Taninha, eu almocei lá. O marido dela tem uma casa de negócio de pesca. Tânia e Lisete. A Tânia. Quando eu estive lá, quer dizer, eu subi o morro... Estou até arrepiada. Então eu passo em frente e essa casa nem existe mais. Talvez fosse um reflexo da última vista que eu ia ter dessa casa. Isso deixou uma recordação. Algumas muito boas, como eu falei pra você. Foi lá que eu tinha como deitar, olhar o céu, que as crianças não tem. Não existiam crianças bravas. Não existia essa rebeldia. Nós éramos pacíficas.Eu sou do tempo que a minha mãe olhava pra gente tranqüila. Hoje há uma rebeldia incrível. Aí quando eu subi, tive vontade de ir lá. Então eu fui pra recordar mesmo. Pra voltar ao passado. Até meu pai. Falam muito dessas chácaras lá em baixo. Em 1980, tinha uma chácara, meu Deus. Estudos Eu comecei a estudar com um professor. Eram homens que nem eram formados professores, mas tinham uma certa cultura... Aí montavam na própria casa. No Morro dos Prazeres. Montavam uma saletinha, vamos dizer assim, Aqueles bancos de madeira – eu diria assim – bancos super desconfortáveis. As minhas perninhas curtas. Aquilo me incomodava. Aí eu sentava ali, ele vinha, ele...Era uma - como é que chama? Um negócio comprido assim. Espécie de uma gaveta pra você escrever. E sentada no banco. Era tudo junto. Ele separava por série. Quarta série, terceira série... Não existia escola pública. Ali não existia. Aqui não existia. Tanto não existia que eu fui aprender a ler com um professor, que se fazia de professor. Não era nem professor, mas tinha um certo estudo. Vamos dizer, um ginásio. Naquela época tinha o ginásio. Eu sou do tempo que tinha o ginásio. Quem fazia o ginásio... Meus pais eram alfabetizados. Tinham só o primário Aprendiam a ler. A ler e escrever. Não eram ignorantes não. Tinha muita gente lá que não sabia. Aí, o que ocorre? Eu me lembro que o homem passava aquelas lições do “A” e aí eu tinha que ir por cima da letra dele pra cobrir. Sou do tempo do “cobrir”. Aí depois, esse frei, frei Pisco arrumou pra gente ir pra escola, que era ali. Se eu for lá, eu vou dizer: “Foi nessa casa aqui. Aí, nessa escola ia gente muito pobre, não iam uniformizadas. Elas não tinham dinheiro. Eu me lembro que uma vez um garoto me deu um tapa, mas eu não estava bem. Comecei chorar e aí meu irmão veio me defendendo, brigando com o garoto. Não lembro o nome desta escola. Eu sei que as crianças tinham uniformes. Era uma casa. Ali na Barão de Petrópolis. Na Barão de Petrópolis. Eu via o trem passar. O bonde passar. O bonde cheio de gente. Eu via. Eu via o bonde passar. Aí, o que ocorre? Era uma casa, havia várias salas, que costumava existir salas. Várias salas de aula, vamos dizer assim. Ia toda uniformizada. O que era o uniforme pra mim? Era um símbolo. Ali não tinha colégio. Não tinha. Não sei se em outros lugares tinhacolégio do governo. Ali não tinha. Não tinha. Eu saí do Morro dos Prazeres com sete anos. Fiz oito anos em 1954. Eu fiz oito anos em Niterói. Me lembro até que papai me deu um bolo. Papai todo ano dava um bolo Famílias Eu lembro do pai da Lisete dela, Sr.Mário, negro, negro, mesmo. Da mãe dela eu não lembro. Lembro do pai dela. Lembro de alguns irmãos... Essa gente está lá. Ela não saiu. Eram todas famílias beneficiadas. Às vezes Mas, tinha muita pobreza. Tinha muita pobreza mesmo. Era um cômodo para muita gente, era, vamos dizer assim... Minha família era pequena: era eu, meu irmão, minha mãe e meu pai. Éramos pequena a família.A gente escutava. Eu lembro de uma menina do morro, que morreu queimada. Brincava muito comigo. Por causa de fogão, eu lembro, morreu queimada.Foi pro hospital, não agüentou, morreu. Não lembro o nome dela. Sabe a nossa brincadeira? Era fazer fogãozinho de lenha. Lembro isso agora. Pegava barro, amassava o barro, molhava o barro, amassava e fazia aqueles fogãozinhos. Faziam uns fogãozinhos de lenha. Nós víamos e fazíamos aquilo lá. Não havia assim maldade. Eu acho que eu vivi. Agora, quanto à jaca não dá pra pegar. Eu sempre lembro assim: as árvores sempre cheias, mas nós não podíamos cortar porque era uma coisa muito pesada. A fruta pão sim. Eu me lembro: “Ah. fruta pão.” Que é uma coisa menor. Às vezes servia com o café. Alimento com café. Usada como pão. Alimento no café. Igreja Frei Pisco, eu não me lembro. Ele era alemão. Eu lembro que eu ia na...Escuta, lembra esse detalhe. Preciso perguntar pra Lisete. Mas eu me lembro que eu ia na igreja todo domingo. Nós ganhávamos um cartão – falei pra você inclusive – nós ganhávamos um cartão pelo comparecimento nas missas. Porque aquele cartão, chegava no fim do ano, frei Pisco transformava aquilo num prêmio. Quando eu saí do Morro, eu tinha tanto consciência que aquilo era importante – acho que nem tanto a missa – vai me desculpar. Mas pelo prêmio. Porque nós éramos muito pobres. Eu sou do tempo em que não existia presente de Natal. Não havia essa propaganda do Natal. Eu sei do Natal porque minha mãe fazia alguns doces. Tinha muito doce de coco no pote. Não existia docinho. Muita pobreza. Bolo sim. Foi depois da guerra. E aí, o que ocorre? Então, eu dei esses cartões, imagina, quase o ano inteiro. Nós saímos de lá no mês de julho mais ou menos. Eram bastante cartõezinhos. Toda semana. Uma vez por semana. Olha a perspicácia. O porquê? Eu nunca vi um padre fazer isso. Atrair a gente para a igreja. Gostoso. E uma forma inocente. Quando eu saí, eu tinha muitos cartões. Aí, eu me lembro que era tão importante, que eu passei pra Lisete. Eu criança, eu lembro eu dando os meus cartões pra Lisete: “Olha, eu vou embora. Aqui ficam os meus cartões”. Quer dizer: Ela ficou com os dela e os meus. Era uma igreja mesmo. Eu liguei pra minha prima. “Você lembra da Igreja?” “Não.”A Lisete vai saber. Os moradores antigos entre a minha faixa etária de idade, talvez até mais – que tem gente lá de mais idade – vai saber do frei Pisco, um alemão. Ele era forte, loiro, alto. Ele que arrumou pra nós estudarmos nessa escola. Convivência no Morro Já tinha esse negócio de droga. Tinha um e outro viciado, mas não era...Morava muita família ali, mas muita família mesmo. Muitas famílias. E naquela pouca a vizinhança era uma boa. Muito boa. Muito boa. Havia um pouco de galinhas. Também. Mas havia famílias que tinham essa criação de galinhas pra sobrevivência e mercado. De porcos. Eu me lembro que faziam aquelas lavagens de porco, aquelas colheronas grandes, que no fim parece até... Os meninos eram muito levados, mas sem malícia. Eles corriam muito. Meu irmão, minha mãe teve muitos problemas com ele porque ele fugia de casa. Até trancavam pra ele não fugir. Ele sumia o dia inteiro com negócio de cavalo. Ficava em cima de cavalo andando pra lá e pra cá. Tinha cavalo. Porque no morro, eu não sei. Cada vez que eu volto pra cá ele está melhor, estão com uma visão melhor. No meu tempo teve um sofrimento muito grande. Pessoas muito pobres. Então eu não via tanto quanto eu vejo agora a parcela deles. Eu lembro que na parte de cima não era tão habitável. Ele não era tão habitável. Tinha muitos espaços entre casas. Eram casas simples, mas tinham muito espaço. Pra gente brincar como eu te falei. E eu lembro que aqui em cima, ele era muito mato. Havia muito mato. Muito mato. Mato. Agora um detalhe: Eu morei nesse morro, nasci nesse morro e nunca ouvi falar que uma criança foi raptada. E a vizinhança? Era no respeito. Eu nunca ouvi falar que estupraram uma criança, que mataram uma criança. Nós éramos respeitados, éramos amados. Nesse morro. Que beleza. Nunca ouvi falar que pagaram uma criança...nada. Não existia isso. E nós brincávamos, deitávamos em cima do morro. Subíamos o morro vindos da escola. Eu acho que estou sendo uma filha ingrata. Não sei agora. Eu acho que eu devia voltar. Voltar pra recordar e agradecer cada esse conviver da experiência, que eu disse. Foi uma coisa agradável. Não estou falando em desgraça. Você já percebeu que não saiu uma desgraça hoje? Nada. E eu acho que todos da minha época, vão pensar a mesma coisa. Faz um detalhe essa violência que está lá. Seria até bom botar o meu nome pra falar do perigo dos traficantes. Como alerta. Nós não tínhamos bar, não tínhamos nada, mas brincávamos. Nós éramos umas crianças livres, em uma terra livre. Vista do Morro Eu lembro bem da vista que tinha de lá. Porque nós tínhamos espaço pra ter vista. Eu lembro muito da chácara. Tinha umas chácaras -eu digo que não, mas eu gosto da terra. Eu peguei a baia limpa. Peguei a baia limpa Inclusive atravessava a baia pra ir visitar minha avó. Minha avó morava em São Gonçalo. Você sabe aquela lanchinha pequenininha que a água entrava dentro. Que horror. As janelinhas eram desse tamanhico, que as ondas cobriam. Não tinha essa lanchonas de hoje, grandes. Lanchas grandes não existiam. Só lanchinhas. Aquela balsa pra atravessar com o caminhão do papai. Papai, quando chegava feriado, botava a gente dentro do caminhão pra gente passar na balsa. Você levava quase o dia inteiro pra atravessar aquilo ali. Então, eu tinha muita relação com a baia. Eu lembro da baia por causa da minha avó. Mas o que ocorre é o seguinte: O Cristo, nós íamos a pé. Nós íamos a pé. Eu lembro. Saíamos de manhã cedo. Aquilo era o nosso passeio. Éramos filhos livres. Costumes Outra coisa que também não lembro é festa de aniversário. Nós não tivemos isso. Era dia de aniversário, e parabéns só. Também não tinha mais nada. Eu tinha que agradecer se tinha um pão dentro de casa. Tinha época que estava tudo bem. Esse caminhão papai perdeu muito tempo nas costas. Não sei porque tinha época que estava tudo bem, tinha época que não tinha. Ele trabalhava... Naturalmente o caminhão dava defeito, alguma coisa. Não. Ele trabalhava em oficinas... Como... Como é que chama? Ah.Meu Deus. Tem um nome. Particular de oficina? Agora me fugiu a palavra. Isso de não ter carteira assinada. Mas ele não cuidava. Durou pouco tempo. Sete anos. Mas eu saí, mas ficou gente lá. Ficou a Taninha, ficou... Eles fazem festa pra fora. Quando eu retornei sei que tinha um barco lá. Minha mãe acabou com a lembrança. Foi uma época até meio vergonhosa. Pra eles.A pobreza e a favela. O morro da favela. Eu guardei mais coisas do que eles. Chácaras Eu tenho um desejo de retornar às minhas origens. Entendeu? Em 81 eu fui lá, eu queria subir, pra ver aquilo ali. Talvez, influenciada por causa do meu pai. Lembranças do meu pai. Aquela chácara que marcou muito a minha pessoa. Eu lembro, a chácara de um português. E ele era tido como um... Nós os vassalos. Ele era um senhor total, vamos dizer assim. Que nós íamos na chácara pegar verdura também. Ficava esse empregado tomando conta pra nós não roubarmos. Eu sou do tempo do mil réis, que era tudo mil réis. Um tostão disso, um tostão daquilo. Essa porcaria desse dinheiro nunca muda. Só muda o nome. Era isso aqui. Mil réis. Com isso aqui você não compra nada. Comida Havia sobreviventes ali nesse lugar. Havia sobrevivência muito custosa. O pessoal usava muito angu. Feijão, angu, arroz.Não tinha esse negócio de compras, não, não, não. O que entrava de fartura, meu pai pegava... Por exemplo, biscoito.Nunca vi. Não existia. Hoje em dia, eu vou no mercado, minhas crianças: “Me dá esse biscoito”. Nós não tínhamos isso. Pra você ter uma idéia, eu fui conhecer o gosto de um Toddy aos 10, 11 anos de idade. Nós tomávamos café preto, mais um pão e manteiga. Pão. Pão. Quando tinha também. Posso falar uma coisa pra você? Quando nós fomos embora pra Niterói, meu pai ficou doente. Não sei. Era muita miséria. Acho que o casal em si... Como eu falei, eu encaro como estigma. Apesar de que eu adoro meu pai, mas meu pai tinha um estigma. E acho que isso não fez bem pra vida dele. Ele atropelou um homem, matou. Eu vi o homem morrer. Nós estávamos no caminhão. Perdi meu pai. Mas ainda oro por ele. Mas, veja bem, meu pai ficou doente, não sei por que cargas d’água, eu desmaiei na escola de fome. Eu conheci a fome. Eu desmaiei de fome. Isso já foi Niterói. Nós saímos não foi para progresso. Nós saímos da violência. A luta foi nós pagarmos aluguel, sermos despejados. Aí saímos de Niterói, fomos pra São Paulo. Aí cheguei em São Paulo e até que melhorou um pouco eu fui trabalhar. Em São Paulo fui trabalhar. Aqui não arrumava emprego. São Paulo era um rio de empregos. Aí já foi melhorando. Depois eu conheci meu marido, casei, eu fui batalhar no Paraná. Então, nós vivíamos vida de pobreza. Mesmo lá, nós não fomos... No morro, ou mesmo em Niterói, em São Gonçalo eu não me lembro de um biscoito, uma bolacha como diz os paranaenses. Não via assim fartura de comida, carne, nada, nada, nada, nada. Era o angu. Se eu pudesse comia angu todo dia. No café então, eu adoro. Era muito angu e eu ia pra casa dos vizinhos pra comer. Eles faziam doce como eu te falei. Como a família era grande, faziam muito panelão de angu, feijão. Era isso. Você não via compra subindo. Você não via movimento. Natal era doce de abóbora, porque abóbora é barato. Era doce de coco ralado. Não tinha panetone, não tinha nada disso. A rabanada sim porque eu vim de descendência portuguesa. Então tinha rabanada. Era rabanada, doce de coco, doce de abóbora, doce de mamão verde que eu odiava. Mamão tem sempre. Você pegava e fazia. Era muita pobreza. Não os ricos. Isso era outra questão. Mas ali mesmo. Caminhos Tem uma subida. Tem umas pedras, não tem? Que eu levei um tombo uma vez naquelas pedras. Eu me lembro... Não escorria uma água na pedra? A subida é do lado. Ali escorria água de monte. Que eu levei um tombo. Bati com a cabeça. Coisa horrível. Eu lembro da dor que eu passei. Existia limbo, mas eu criança não sabia que aquilo fazia cair. Então as mulheres desciam pra lavar roupa, pra fora inclusive.As suas e as das madames. Mas as meninas maiores do que eu – eu era pequena – as meninas maiores ajudavam muito em casa. Ajudavam mesmo: cozinhar. Eu lembro da Lisete fazendo lavagem, com essa colher grande, de pau. Eu me lembro de um pessoal...Vinha muita gente de fora. Você falou certo. Aí era um ponto de passagem pra ver o que ia fazer, porque talvez não existisse isso. Porque agora tem estalagens, tem albergues. Aquele tempo não existia isso. Agora tem. Mas naquela época não existia. Então as pessoas quando traziam o fulano... Ali seria um ponto de referência. De turistas não. De sobreviventes. Sobrevivência pra ver o que iam fazer. Contei o caso dos portugueses. Isso eu lembro. “Não estamos aqui para ficar. Estamos aqui por pouco tempo.” Não estavam provisórios. “ Até fulano alugar uma casa pra poder – a expressão do português -fazer a quitanda na frente e moradia atrás.” Usava muita quitanda. Eu me lembro dos panelões de ferro. Eles faziam aqueles panelões de angu, aquela raspa. Me lembro do angu, nessas panelas de ferro. Os vizinhos. Era muito angu. A influência do cativeiro vamos dizer assim. Havia muito angu. Havia muito preto, preto alforriado. O pai da Lisete, ele chegou menino. Aí já havia a lei do Ventre Livre. Mas a Lisete fez isso. Imagina. Você esqueceu que foram 59 anos depois? Meu irmão tem 56 anos. Meu irmão tem 50 e poucos anos e não faz mais nada. Mas não existia esse túnel. Não existia isso. Isso aqui era tudo mato. Tudo mato. Estou falando pra vocês. Daqui nós víamos...Eu via muito mato, muito mato. Capim. Aquele capim de mão. Meu irmão subia pra esses morros aqui. Aquilo dava bandido. Ele sumia por esses morros de cavalo, que era muito cavalo. Aquela época existia muito pessoas carregando móveis. Não existia quase carro. Os caras carregando... Os cavalos puxando aquela charrete. Uma vida parecida com... Paquetá. Era muito cavalo puxando. Mas não via movimento de compras como eu te falei. Não existia isso.

LAZER
Festas juninas Quando tinha dinheiro comprava legumes nessa chácara. Então catava serralha, catava fruta pão, como uma forma de subsistência. Então, esse português... Ele, Português, português, e tal. Papai soltava balão na chácara dele. Pedia pra soltar. Papai soltava muito e eram balões enormes. Não era balãozinho, não. Até hoje eu fico horrorizada. Eu tinha medo daquelas bocas. Papai soldava na oficina. Era meio louco. É uma pena papai não estar aqui. A boca do balão, aquelas buchas, eram feitas com... Como é que chama? Cera não. Era... Sei lá o que era. Sebo. Eu lembro papai passando sebo naquele saco de estopa. Mas aquilo era a boca do balão. Era isso aqui, era muito grande. Aquela roda, era uma coisa parabólica. Era deste tamanho a roda. Tanto é que os balões levavam um aviso: “Aquele que encontrar” Era um espetáculo Na chácara papai soltava os balões. E Eu lembro papai soltando... Um detalhe. Eu lembro papai com muitos fogos. Eu tinha medo dos fogos dele. Eu não gostava daquele barulho. Papai era muito agitado. Papai era barulhento. Papai era muito... Na época de São João. Véspera de São João. Papai, acho que era devoto de São João. Véspera de São João. Ele soltava muitos balões mesmo. Imagine quantas florestas, quantas casas. Aquilo não era um ano nem dois não. Enquanto a gente morou ali. Nós fomos pra lá, se não me engano em 42 ou 43. Nós não. Eu nasci lá.Meu irmão. Espera aí. Meu irmão nasceu em 44, que eu te falei? Vamos raciocinar. Meu irmão nasceu em 44 e eu em 47. Três anos. Nós fomos pra lá... Acho que 45... Eu tive um outro irmão que morreu lá. Morreu com oito meses. Morreu de meningite. Eu tive um irmão, chamado Arnaldo, que morreu lá. Antes de mim. Era meu irmão, esse menino que morreu e depois eu. O que morreu era Arnaldo. Ah. Ele é Alberto. Alberto, meu irmão nasceu lá. Nós fomos pra lá, se não me engano em 45. Alberto também é lanterneiro. Mas, porque nasceu um irmão meu lá, antes de mim. Eu sou de 47. 44 não. 45. Papai só tinha esse caminhão. Mas eu lembro muito da Oldsmobile, carro de cauda. Era carro de político. Você não sabia o que era luxo. Você sabia a diferença sua. Do papai. Você sabia que era. Mas, havia muito desses carros. Conversíveis. Mas só quem tinha carro era os que tinham sorte de serem, vamos dizer assim... Na época, de ser um artista, como ainda é o ídolo hoje. Mas, havia muita pobreza. Não havia muitas fábricas quase. Não existia.

INFRA-ESTRUTURA
Água Minha mãe cozinhava, isso eu lembro. Inclusive eu fui queimada. Era com carvão. Sabe aqueles fogareiros? Até uma vez, a panela de feijão caiu em cima de mim. Não me queimou, me sapecou. Me lembro minha mãe gritando. Os banhos, eu sou do tempo da bacia. Da bacia. Não havia água corrente. E faltava muita água lá. A água lá era uma desgraça. Eu lembro muita gente carregando água. Eu lembro, por exemplo, nasceu criança, o pessoal passando correndo, com mulher parindo, filho preso na barriga, que não conseguia parir... Um tipo África, me representava muito a África atual. Eu lembro que eu criança, uma vez eu estava assim, eu tinha meus cinco aninhos. Aí passou um bando e ia uma mulher dentro de um lençol. Uma mulher dentro de um lençol e uns oito homens carregando aquele lençol. Eu me lembro o barrigão da mulher. Pra ser atendida no hospital porque ela não conseguia ter o filho, e o filho morrendo. Olha a miséria. E, o que eu ia falar?E o pessoal fazendo aquela lavagem pros porcos, pra tratar lá mesmo. Pobreza. Pobreza mesmo. Não era tão demograficamente habitado. Eu por exemplo, eu lembro, que nós morávamos em casa muito simples, mas tinha quintal. E quando eu voltei em 1983 – minto, em 1981- pra visitar, eu já achei aquilo muito saturado. Os morros não eram assim com uma casa em cima da outra... E não existia como essas construções agora, puxarem pra cima. Não existia isso. É interessante, não? Nós éramos muito pobres, miseráveis. Eu sou do tempo que não tinha sapatos. Muita pobreza no Brasil. Está entendendo? Tinha terminado a guerra. 1914-1918. Não sei se o Brasil esteve na guerra de 18. Não sei. Parece que esteve sim. Esteve sim.As coisas eram muito difíceis. Eu lembro que faltava muita água. Nós não tínhamos água encanada. Não tínhamos água. Eu sou do tempo do esgoto correndo a céu aberto. Das fossas.Então o que pode ocorrer é o seguinte: era uma barreira. Uma barreira. Como um feudo. Ali o castelo e nós. Ali era um feudo e nós os vassalos. A miséria. Nós íamos lá pra catar. Catar uma sobrevivência. Catar uma sobrevivência. E andava aquilo tudo ali. Você sabia que era uma pessoa importante e você não era nada. Você não era nada porque papai sem querer passava e isso não era nada. “Aí mora fulano”.Um fulano qualquer. Um status. Agora aquele lance que depois que veio água encanada jogava água no tanque. Aí a gente esfregava a roupa. Pra enxaguar, tinha que jogar a água de novo. E batia. E bacia. Banho e bacia. Banho era bacia. Não tinha chuveiro. Aí eu lembro das mulheres descerem com a roupa. Trouxa de roupa pra lavar roupa lá em baixo. Inclusive lavar pra fora. Havia muito, muito mesmo. As mulheres do morro sobreviviam muito lavando pra fora. A minha mãe costurando. Uns tempos teve a costura. Deve ser um período. Que foi após a guerra. Eu vi o após a guerra um pouco. Você imagina. Aí também ela lavou pra fora. Luz Era muito escuro. Eu lembro como se fosse assim uma terra muito escura. Talvez seja minha parte espiritual. Ali você que o campo mais ou menos – não sei agora. Tinha. Tinha luz. Nós nunca tivemos problema de luz não. Tinha luz.Ali não tinha problema de lampião. Eu não me lembro de lampião não. Na minha época tinha muita luz. Que mais que eu podia lembrar?

SANTA TEREZA
O Morro dos Prazeres era o reduto da pobreza e Santa Teresa era o reduto, não digo riqueza, mas dos mais ou menos. Um poder aquisitivo muito melhor que o nosso. Então, muito pouca coisa nós... Tirando aquela brincadeira nossa de brincar... As crianças eram muito fechadas. Corridas de carro Eu lembro das corridas de carro. Tinha corridas de carro ali. Procura e sabia que tinha. E dos malucos?Também era corrida. Eles inventavam uma artimanha para ter corrida de carro. Não existia pista. Corriam ali, que ali eles pegavam aquela rua...Sabe os malucos daquela época. A rua ali não é...Como é que chama? Curvas. Justamente essa. Aí a corrida, faziam lá em baixo. Começava ali no Rio Comprido. Corrida de carro. Eu lembro que tinha. Passando pela rua Barão de Petrópolis. Subia e descia. Faziam ali de pista. Eu lembro. Eu tenho certeza. Durante o dia. E nós crianças ali. Bonde O bonde? Eu sou do tempo do bonde. O bonde vinha até um certo trecho. Tinha uma escola ali. Uma casa que era uma escola. As meninas todas uniformizadas que iam estudar ali. Meu pai não tinha condição de pagar escola. Aí as crianças sabe aquelas boininhas... Queda de edifício Ficava em frente, e se não me engano foi em 1954, um pouco antes de nós sairmos de lá. Caiu um prédio. Ele ficava em cima de uma pedra, se não me engano.Era de quatro andares. Foi uma cena muito triste na época. Caiu em frente ao Morro dos Prazeres. Se eu for lá, eu vou até te mostrar. Não com toda a precisão, mas vou dizer: “Ali.”Eu lembro até que eu estava com uma criança, larguei a criança. Quando eu vi o prédio... Eu me lembro que ele deu um estalo. Ele tinha sido condenado, as famílias não saiam dali. Aí um belo dia – belo não, um mau dia pra elas – eu criança, segurava a mão dessa criança. Eu estava até com uma laranja, lima da pérsia. Quando eu pego na laranja lima da pérsia, ouço aquele estalo. Se não me engano era a irmãzinha da Lisete. Eu estava na casa da Lisete. A casa da Lisete tinha uma varanda toda de madeira, com as cadeiras. Muito no estilo daquelas casas do Mississipi lá. É do Mississipi, Estados Unidos, aquelas casas de madeira com as varandinhas, que é uma sala curta meio disfarçada. Eu estava na casa da Lisete. Nós vimos. Eu então. Minha mãe costurando. Ele deu um estalo, uma coisa muito grande. Parecia um tiroteio porque ele subiu. No que ele subiu, ele rodou. Eu me lembro muito bem do telhado dele vermelho. O telhado vermelho. O telhado caiu e quando tudo aquilo bateu no chão lembro da fumaça. Subiu uma fumaceira Aí já começou os gritos, os gritos, os gritos. E eu corria, corria. Eu queria minha mãe. Eu larguei aquela criança, não na rua. Até Deus me perdoe que eu não devia ter feito aquilo. Mas foi uma questão de querer mamãe, mamãe, porque eu sabia que era uma coisa grave. Aí, logo em seguida foi os gritos, o susto. Aí veio o bombeiro e as crianças mortas saiam com o cadeirão, com metade do cadeirão preso no corpo.

ESTUDOS
Em baixo do Morro tem uma chácara. Eu em vez de estudar aqui, eu fui estudar em Rio Comprido porque eu falei: “Eu não vou pagar escola. Meu marido pagava um bruta imposto de renda. Eu falei: “Ah.Tânia, eu vou pro Dom Pedro II.” Eu fiz segundo grau velha. Eu fiz segundo grau no Estados Unidos. De noite ele é... Como é que é o colégio de noite? Tomás Antonio Gonzaga. De dia, Estados Unidos. Fiz o primário muito mal e aí só fui estudar mais tarde. Porque foi uma luta criar filhos, viajar com o marido. Fui embora pro Paraná. Está entendendo? Muita luta. Então eu fui estudar no Estados Unidos que de noite é o Antonio Gonzaga. No segundo grau de lá. Entrei direto na Faculdade UFRJ.Aí eu falava com os colegas assim: “ Olha, aquela chácara...” Daí vi essa chácara. Agora é um condomínio lá. Muitas casas.Eu queria ir lá. Alguma coisa me impede?

CASARÃO DOS PRAZERES
Esse Casarão, que eu me lembro dele é de uma mulher magra à beça, proprietária, magra. Se não me engano era inglesa. Ali moravam muito ingleses. Por causa do clima. Eu sou do tempo que Santa Teresa não era tão povoado. Eu me lembro que nós passávamos... Íamos pegar fruta pão,você sabe. Ia com minha mãe, aquela tropa, aquela criança, todo mundo novo... Nós íamos pegar fruta no Casarão. Tinha árvore no Casarão. Nós íamos pegar lá e também espalhadas. Era uma fruta muito comum apesar de que eu não gosto de fruta pão. Até que há pouco tempo me deparei com uma delas. Então, o que ocorre? Era muito mato. Eu conheci mato. Mato. Eu sou do tempo que a gente pegava a tal da serralha pra fazer sopa. Conhece? Pois é. Há pouco tempo eu vi. Falei “Ah. Moço. Isso me lembra minha meninice lá no Morro dos Prazeres. Nós éramos pobres. Mas tinha época das vacas gordas” Aí nós saíamos pra catar serralha. Todos catavam serralha. Serralha é um tipo de uma verdura. Um tipo não. Ela é uma verdura comestível. Então fazíamos muita sopa, ensopadinho. Isso tinha ali no Morro dos Prazeres. E há pouco tempo eu me deparei, não sei aonde porque eu ando tanto. Tem um mês mais ou menos... Não sei se é uma feira? Serralha. Vou comprar. Vou comprar. Ah. Lembrei. Em Marechal Hermes. Se você passar por Marechal Hermes, lá tem. Falei: “Moço, pelo amor de Deus,eu lembrei da minha meninice catando serralha pra fazer sopa.”Então nós pegávamos serralha...Era a família atrás de serralha. Morava também uma tia minhatambém, com cinco filhos na travessa desse morro. Tia Lúcia. Ela era chifreira.Imagine. O marido não fazia nada. Uma miséria desgraçada. Juntava aquelas. E nós saíamos pra catar fruta pão.Nesse Casarão tinha... Morava uma senhora inglesa e tinha um mato muito grande atrás desse Casarão. E aí ela falava assim: Eu me lembro que estava eu com a minha mãe, um monte de crianças, com aquelas bolsas, catando... Eu me lembro que a mulher falou assim: “Entra. já vai dar assombração.” Por causa da instrução dela. Eu me lembro que ela falava assim: “Vai dar cinco horas e eu vou ter que entrar porque eu tenho muito medo de ficar aqui fora.” E aí minha mãe falou : “Por que?” Ela falou:“Não, porque aqui dá muita assombração.” Eu não sei se era o mato que causava essa impressão pra ela, mas ela tinha medo sinceramente. Ela morava sozinha naquele Casarão. Eu lembro dela sentada do lado de fora, magra. Magra, uma mulher magra. Morava ali. Era estrangeira por causa do sotaque pesado. Eu gravava muito as coisas. Tenho memória auditiva. Minha memória é muito auditiva. É mais auditiva que visual. Eu pouco vejo. Isso devia ser 1955. Não espera aí. Não pode ser 55 se eu saí em 54 de lá. Espera aí. Eu saí com sete anos. Isso devia ser 1953. Isso mesmo, 53. Era gente rica e nós pobres. Era como se fosse uma... Era como se você morasse perto assim de um convento. Eu não lembro...Eu me lembro da entrada dele. Ele tinha uma entrada meio longa. Tem várias entradas até hoje. Eu lembro da entrada meio longa. Não longo, longo, mas... Tem uma vereda?

CARNAVAL
Corso na Presidente Vargas No Carnaval papai se vestia... Era o símbolo dele. Ele com seu Emílio, que morava em baixo. Tinha um tal de um palhaço que venderam pro papai um sapato deste tamanho. Ele mesmo fazia aqueles madeiros, sei lá o que era aquilo. Naquela roupa de palhaço. Papai adorava se vestir de palhaço. O que eu me lembro de Carnaval... Papai com aquela roupa de palhaço ridícula. Meu pai ficou ridículo à beça. Muito, ridículo. Botava meia dúzia dentro do caminhão com aquela cobertura de lona, encostava o caminhão na Presidente Vargas. Imagina. Caminhão na Presidente Vargas. Eu criança e de pezinha ali, vendo o corso passar pra lá e pra cá. Eu, meu irmão e outros bobos que a gente levava. Pra poder assistir Carnaval. E eu achava aquilo bonito. Nós não nos fantasiávamos. Nós não. Não existia quase criança fantasiada.Papai sim. Eu não sei que raio que tanto prazer.Era ele descer o morro vestido de palhaço. Eu não entendo aquilo. Papai que era um homem assim tão estranho. Mas ele tinha essa característica. E também, chegava de noite, pegava o caminhão e tal e tal. Aí minha mãe ia só pra lá. Perdiam-se. Interessante. Não havia aquele perigo de deixar as crianças dentro do caminhão. Daquela cobertura de lona, criança dormindo. De madrugada, dormindo no caminhão. Isso eu me lembro. Carnaval existia. Sempre houve aquela folia do Carnaval. O pobre e o rico se misturavam. Englobava, vamos dizer assim. Como ainda até hoje. Mas era um Carnaval inocente. Outra coisa. Não havia perigo assim de seqüestro. Não sei porque? Havia muita pobreza, mas pouca violência.

PERSONALIDADE
Getúlio Vargas Alguma coisa eu lembro da morte do Getúlio. Eu lembro. Do alvoroço que foi a cidade. Uma coisa horrível. Tudo fechado dentro de casa, com medo de guerra. Uma guerra civil. Porque me parece que o Sul queria descer pra invadir o Rio de Janeiro. Foi um bafafá danado na época. Quando ele morreu eu morava. O rádio gritava aquelas notícias. Aí eu lembro da fila. Eu lembro da fila. Acho que me levaram lá. Não lembro dele no caixão. Mas eu lembro que parece que alguém foi lá e me levou. Desistiu. Minha avó e minha mãe que eram getulistas. Papai não era não.

MIGRAÇÃO
Mudança para Niterói Nós saímos mais ou menos em julho ou agosto de 1954. Minha mãe enjoou daqui. A casa era nossa. Tanto é que nós vendemos a casa. Nós vendemos a casa. Nós saímos e ainda ficou algum tempo ali aquela casa sendo nossa, alugada. Porque minha mãe falou: “Não quero criar meus filhos...” Meu irmão fugia.Meu irmão sumia naquele morro ali pra cima com aquele negócio de cavalo. Ia pra Santa Teresa, sumia. Já tinha, já tinha bandido, mas a perda, que eu falei pra você, o respeito a nós. Os moradores. Havia uma união. Havia uma confraternização até, sabe. Eu lembro que papai levava a gente pro hospital. Muita coisa assim. Por isso nós saímos. Fomos embora pra Niterói, São Gonçalo. Papai trabalhava no Rio de Janeiro. Aí de lá nos meus 17 anos fui embora pra São Paulo. São Paulo, Paraná. Casei em São Paulo e fui morar no Paraná, eu gostei do meu marido. Eu fiquei só, sem meus parentes. Meu pai faleceu em 1970. Vai fazer 32 anos que papai morreu. Papai faleceu em São Paulo. E minha mãe está viva, mas não está bem não. Agora vai ter que fazer a operação do coração. Está hospitalizada.

FILHAS
Olha, eu não queria dar uma vida pras minhas filhas. Eu tive uma com 33 anos e a outra eu adotei. É adotada mas é criada igual. Não tem nada contra o lugar, veja bem, mas também não queria criar minha família lá justamente por causa desse tumulto. Você vê agora, vocês passaram. Eu graças a Deus dei uma vida melhor pras minhas filhas. Minhas filhas estudaram no Pedro II. Eu não sei. Eu não podia pagar a educação. Era baixa pra estar no Pedro II. Eu não tive isso e vou dar isso. Eu não queria. Inclusive quando eu vi aquelas pessoas ali, que não saíram, eu fiquei até um pouco assustada.

CASAMENTO
Viuvez Eu fiquei viúva com 33 anos. Perdi meu companheiro com 48 anos. Estava começando a progredir. Mas o que ele comprou passou a ser dívida do governo. Aí eu tive que pagar. Eu consegui retirar algum dinheiro desse seguro e o que prevaleceu de mim? O juízo. Mas primeiramente a proteção de Deus. Eu sinto muito a presença de Deus. E essa proteção é que me deu esse juízo. E o amor às minhas filhas. Eu morei numa colônia de holandeses, e um europeu, como eles sofreram muito, aprendi lá dentro a palavra “filhos”. Mas e os filhos? E os filhos? E aquilo me passou essa cultura. Passei anos dentro de uma colônia holandeses. Por causa da profissão do seu marido, ele pulverizava áreas lá do Paraná. Na colônia de holandeses, na Batavo. Hoje você compra tanto produto Batavo. Eu vi o início dessa cooperativa. Ele pulverizava essa Batavo. Então, quando ele começou a progredir, veio o acidente e muitas coisas que ele tinha comprado, virou dívida e eu tive que pagar. Mas aquela expressão que eu te falei, do juízo, que devo a papai do céu...Que isso é um dom. Ele não perdeu. O juízo é um dom. Você não ganha juízo. Então, o que ocorre? Eu comprei esse apartamento. Comprei depois um outro apartamento menor. Vivia com sacrifício porque eu fiquei com uma pensão muito pequena. Sempre sobrevivendo. Depois vendi e comprei essas quatro casinhas na praia. Alugo no Carnaval.

VIDA ATUAL
Então, vou lutando. Eu me dou ao luxo de dizer, graças a Deus estou sobrevivendo. Não sou nenhuma milionária, mas tenho alguma coisa. Moro onde eu gosto. Minhas filhas foram criadas aqui. Não que eu tenha nada contra o Morro dos Prazeres, veja bem, mas fico satisfeita de ter saído de lá. Principalmente agora, com essa violência. Agora não. Já há algum tempo atrás. Muita violência. Inclusive eu soube que há algum tempo atrás para subir não sei, mas tinha que pedir licença. Eu estudei no Estados Unidos e os colegas falavam comigo: “Por que voltar lá?” Eu terminei lá em 97, entrei na faculdade em 98.Então eles falavam pra mim assim: “Olha, pra subir agora tem que pedir licença, senão você não sobe.” E olha que tem toda a seqüência, que você participou do lance, que realmente existe. Olha, eu pretendo voltar não. Eu cheguei a um estágio que eu tenho que agradecer muito. Eu agradeço muito a Deus. Agradeço muito mesmo. Tenho uma filha que é enfermeira da Prefeitura, graças a Deus. A outra é casada com um oficial da Marinha. Agora, o sonho meu, não tenho não. Eu tenho vontade sim, de terminar a minha faculdade. Não pra trabalhar a ferro e fogo, porque eu gosto muito de ajudar.Inclusive minha filha agora vem: “Onde se viu. Não. Não faz isso não.” Entrei com essa fome desse conhecimento da experiência. Eu fui dona de firma, eu tive que lutar pra sobreviver com aquela firma. Eu tive que vender muita coisa pra pagar as contas que o homem deixou muita dívida. Passou também o encargo. Então eu já tive muito dinheiro naquela... Mas também não quero. A pouca experiência com a burrice até. Aquilo pra mim é uma mágoa. Uma vergonha. A minha vergonha é essa. É aquelas coisas que todo mundo tem. É o normal. Por que eu não fiz isso? Por que eu não tive aquela clareza? Mas isso vem aos poucos. O amadurecimento. Eu me sinto uma mulher muito amadurecida. Eu me sinto assim...Eu gosto muito de mim. O importante é que eu me sinto muito bem comigo. Eu gosto muito de mim. Gosto sim.Porque eu sou honesta, sabe? Eu sou uma pessoa alegre. Eu sou assim, Onde eu estou, as pessoas se distraem comigo. Hoje eu me vejo sozinha – praticamente sozinha – eu vou no mercado com carrinho e trago meus alimentos. Arroz, feijão, uma cerveja, que eu tomo o tempo todo, meu suco, minha carne, meu frango. Eu tenho horror do serviço de guardar minhas compras. Você falou uma coisa muito certa. Eu não lembro. Não lembro compras grandes em casa de ninguém. Não lembro. Você não via movimento de compras.

RELIGIÃO
Eu sou mística. Eu sou uma pessoa esotérica. Então, eu sou... É como esse hino agora: (cantando) “Povos juntos de todas as raças...” Então os povos juntos...Nós precisamos disso. Nós precisamos da união espiritual. A única religião que, Deus que me perdoe, que eu não aceito, é o Budismo. Não aceito. Porque eu sou uma filha de fé do meu Cristo. Eu acho que o Budismo tira o brilho de Cristo. Ele não tem tanta coisa assim. É o único que eu não aceito. Essa minha vizinha fala no preto velho. Ela é uma judia convicta. Ela ouviu falar de um preto velho ao meu lado. Então, há aí uma ligação espiritual. E também a indiana. Não tenho nada contra os indianos, mas também não aceito, devido que a tal religião deles, vários deuses. Não aceito. Meu Deus é único. Não sei se você já percebeu que eu falo muito em Deus. Mas, ao mesmo tempo... Não que eu sou uma pessoa assim... Apenas eles são de uma parte religiosa e o judaísmo. E tem aqui o judaísmo e são parte católica. E o espiritismo, eu freqüento um centro que é até espiritualista. O Tupiara. O Tupiara é um centro que faz cura, uma coisa mais... Não que eu tenha nada contra a Umbanda, nada disso. Freqüentei também, mas não é o que eu gosto Me sinto bem. O importante é isso. Eu, com certeza,tenho a impressão que o meu irmão não daria o mínimo, porque meu irmão não acreditaria no amanhã, porque o mundo dele é muito fechado. É aquele mundo dele de cavalo, fugir do morro. Mas eu queria cooperar mais sobre o Casarão.

FILOSOFIA DE VIDA
Porque eu sou de uma teoria. Vai em frente. Nunca reclamar. Eu sempre sofri. Eu sempre fui muito pobre. Meus pais parece que tinham o estigma da pobreza. Tem gente que veio ao mundo pra isso. E eu não. Eu sempre pleiteando alguma coisa, lutando. Você vê: eu solteira lá em São Paulo, fiz um curso. Só tinha o primário. Fiz um curso de auxiliar de secretariado Com pouco estudo, com muita dificuldade, mas aquilo foi abrindo, canalizando muita coisa pra mim, Então, eu lembro que eu estava sempre procurando alguma coisa, e aquilo me beneficiou muito. Inclusive eu fiz a pessoa assinar um documento, que se eu não tenho uma certa cultura, eu tinha perdido um terreno. Devido a essas experiências. Porque eu estou sempre alerta. Quero sempre ver algo mais. Ou manter o que eu tenho. Eu não sou muito ambiciosa. Já acho que eu tenho bem muito. Eu moro num lugar. Eu gosto dos meus vizinhos. Moro aqui há 21 anos. Eu gosto muito do meu ponto. Eu gosto de vida. Eu gosto de descer do ônibus e saber que eu estou dentro do meu prédio quando acontecem temporais.

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