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A Gatinha de Primavera

História de: Angelo Brás Callou
Autor: Angelo Brás Callou
Publicado em: 23/02/2020

Sinopse

Crônica de Natal e presentes inusitados de amigos secretos.

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História completa

A GATINHA DE PRIMAVERA

 

Por Angelo Brás Fernandes Callou

 

Para Claudio Marinho (in memoriam)

 

Hoje encontrei essa “linda gatinha” no fundo de uma gaveta. Ela tem mais de 30 anos. E uma história, no mínimo, inusitada. Minha prima Vera de São Paulo foi “sortuda” ao receber de presente de um amigo secreto, numa noite de Natal, essa legítima porcelana chinesa, da 25 de Março.

 

Eu presenciei o momento em que foi retirado o papel que envolvia tamanha preciosidade. Nenhum ator seria capaz de reproduzir a cara incrédula de minha prima, que, misturada à decepção, dava-lhe uma palidez inoportuna, com uma pitada rubra de raiva, pois se sabia, de antemão, quem era a “amiga secreta”.

 

A gatinha afrontava o bom gosto estético da prima, que sempre apreciei na casa dela: o jardim, os objetos de decoração, a gentileza, a generosidade e, sobretudo, a boa mesa. A mui amiga secreta fornecia, por meio da gatinha, a senha de sua inveja e do frágil verniz da convivência social que lhe cobria o corpo naquela noite de Natal. É este mesmo falso cristal que vemos hoje espatifar-se nas ruas, nas instituições, nas redes sociais, no seio familiar, quando o tema sai das trivialidades para a política.

 

Rimos. Nunca rimos tanto na volta para casa, com a nossa gatinha inanimada no colo. Foi um Natal inesquecível.

 

Passados alguns anos, o marido de Primavera, um amigo querido, divertido e loroteiro de primeira grandeza, infelizmente não mais entre nós, mandou-me um presente de aniversário. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que era a gatinha que arrancava risos. Desta vez, o biscuit estava mais tenebroso, pois minha prima customizou o objeto com adereços brilhosos e cores berrantes.

 

Quando um de nós estava completamente esquecido da gatinha, o tutor da vez presenteava-devolvia o refinado animal ao seu predecessor. De tão repetida a brincadeira, nos esmerávamos no disfarce do “presente”. Certa vez, embalei a gata, com capricho, numa caixa grande, para que o “sortudo”, já escaldado, não desconfiasse que ali se encontrava aquele ícone kitsch.

 

Não consigo me desfazer desse obscuro objeto do desejo. Várias vezes pensei em jogar a gatinha no lixo. Mas quando me lembro da alegria que ela me dá, desisto. Abandonar animais é crime!

 

Recife, bairro do Pina, 26 de janeiro de 2020.

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