Busca avançada



Criar

História

À frente, mas bem dentro do seu tempo

História de: Cynira Casado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/05/2013

Sinopse

A entrevista de Cynira Casado foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 02 de maio de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Cynira casado neta de imigrantes espanhóis e Italianos, conta que seus pais foram um casal muito apaixonados e felizes. Como primeira neta diz que sempre foi muito paparicada e mimada. Sua infância sempre foi rodeada de brincadeiras com seus primos e tios, já que na sua casa moravam 16 pessoa, que nunca brigaram durante todos os anos de convivência. Cynira fala que gostava muito de dançar e ir em bailes, mesmo que seu pai não gostasse e ficasse bravo com ela. Depois de passar por uma mudança de vida grande que foi morar na Alemanha, cynira explica que hoje mora no Butantã sozinha e é muito feliz.

Tags

História completa

Meu pai é filho de imigrantes espanhóis e minha mãe é filha de imigrantes italianos. Ambos são nascidos em São Paulo. Foram um casal extremamente feliz, extremamente feliz, um apaixonado pelo outro. Eu tive muita felicidade em nascer neste lar. Minha mãe vem de oito filhos, então eu tinha sete tios de um lado, e papai era de cinco, então eu tenho mais quatro tios pelo lado paterno. Eu fui a primeira neta, sempre muito paparicada, mimada, bajulada. Sempre falavam que eu era boa, bonita, inteligente, e a gente acredita! Então assim eu sou. Na minha casa morava os meus primos Emílio, Nelson e Lindaura. Passamos a infância no quintal, brincando nas férias, tudo com eles. Foi uma delícia. A minha mãe tranquila. Depois do almoço o meu pai não queria nem que ela tirasse o prato da mesa, eles iam para o quarto namorar. Depois papai ia trabalhar e mamãe ficava dormindo. A tarde uma tia minha fazia lanche, a outra me dava banho, quando mamãe acordava, estava quase tudo pronto. E o mesmo acontecia com os meus primos. Se as minhas tias tivessem que sair, a mamãe era quem fazia. Era uma harmonia muito grande. Vivíamos em 16 pessoas e nunca ouve uma briga naquela casa. Era feito um clube, sabe. Eu até escrevi uma crônica chamada ‘as portas do céu’, que fala das três portas que eu entrava, que levavam para um paraíso. A primeira de madeira, tosca, a outra dessas de mola, com vidros jateados, como essas de bang-bang e a última do quintal. Quando eu entrava na primeira, estava em casa, a segunda, da cozinha. Eram cinco fogões, então o cheiro era uma delícia! Era uma mesa enorme! Nós comíamos juntos, mas casa um fazia a sua refeição. Então se eu não estava gostando do bife da minha mãe, eu trocava pelo bolinho da minha tia. Se eu não gostava de peixe, eu trocava por outra carne. Se não queria batatinha cozida, comia batatinha frita da minha avó. Brincávamos muito, e com coisas muito simples. Tinha uma escada que dava para o quintal e lá era a nossa arquibancada de teatro. Nos vestíamos com as roupas dos nossos pais e lá éramos heroínas, branca de neve, cantores, a gente inventava mil coisas. É daí que vem o meu gosto por teatro. Eu queria muito ter estudado teatro, mas o meu pai não deixou. Bom, que mais? Outra brincadeira: nós tínhamos um tanque enorme, conjugado. O meu primo tinha um barquinho, que eles mesmos tinham feito. Então a gente colocava formigões lá dentro e a gente fazia guerra de piratas, tudo com os formigões no barquinho. Fazíamos escolinha, venda de café. A minha mãe fazia uns saquinhos de pano que a gente enchia de terra e fingia que era café. Quando chovia, papai trazia umas caixas de madeira imensas então nos escondíamos debaixo dessa caixa e era uma alegria! Às vezes a chuva prolongava e nós não podíamos subir para casa, ficávamos contando histórias, era muito bom. No verão, tomávamos banho de esguicho, eu só de calcinha e sutiã e meus primos de cueca. Ihhh! Esse esguicho era uma delicia. Íamos à horta da vovó e comíamos até frutas verdes. Ela ficava doida. Brincávamos de tantas coisas gostosas. Eu era namoradeira! Com quatorze anos eu já tinha os meus namoradinhos. Mas namorado hoje em dia tem outra conotação. Era começar a ir no cinema, dar a mão, não passava disso. Ah, e eu era uma bailarina! Meu pai ficava bravo. As vezes ele dizia: “aonde você vai?” e eu dizia que ia visitar uma amiga. Quando chegava em casa ele pedia para ver os meus sapatos. Nessa época o clube Homs era encerado e então ele dizia: “foi nada, você foi dançar!”. Depois que eu descobrir isso, quando voltava para casa eu esfregava os pés no chão, pisava em poças, tudo para tirar a cera que ficava. Agora a mamãe não. Ela dizia que eu deveria conhecer todas as coisas e me divertir. Agora papai me segurava muito. Veja só, ele era tão zeloso por mim que quando eu ia a praia ele vinha com uma tolha enorme e me cobria. Eu dizia: “mas papai, desse jeito eu não tomo banho de sol!” E ele dizia para eu esperar um pouquinho, ir para debaixo do guarda-sol e devagarzinho tirar a toalha. E eu, toma exibida, a rainha do frango assado, queria tirar tudo logo. Quando ninguém usava duas peças de maiô, eu usava. Quando ninguém usava biquíni, eu já estava usando. Eu era ousada, sempre a frente. Mas depois passou. Eu casei. Namorei muito moço rico, mas fui casar com o mais pobre. . Na casa da minha mãe tinham três empregadas, mas quando eu casei, eu não tinha ninguém! O meu marido é suíço e eu achava chique ser casada com um estrangeiro. Eu era muito apaixonada por ele. Eu era secretária. Depois fui para a Swift, trabalhei pouco tempo lá e fui para a Anderson Cleiton. Eu trabalhava para o doutor Humberto Rosa, que depois passou a ser presidente da Anderson Cleiton. Quando eu casei eu falei: “ah, eu quero ser mãe”. E olha que mentalidade boba: eu parei de trabalhar. Então era só esposa, dona de casa. Eu tinha mais de dez anos de casada e ele trabalhava para a Siemens. Ele falou que tinha o contrato na Siemens e nós íamos para Alemanha. Foi muito difícil porque os meus pais sempre foram muito alegres, participantes da minha vida, era muito difícil eu ir embora. Era só por três anos e eu disse que tudo bem. Quando cheguei lá, não eram só três anos. Era um contrato verbal e que nos ficaríamos para sempre lá. Quando ele falou isso eu entrei em depressão e falei que ali eu não ficaria! Eu disse que não ficaria pois ali não era o meu lugar. E outra, ele mentiu para mim! Eu não gostei, discutimos muito e nisso ele bateu o carro. Na Alemanha, o pessoal vem trazer o dinheiro do seguro em casa. Quando o dinheiro chegou, falei: chegou a minha oportunidade! Peguei o dinheiro, separei um tanto para ele comprar o que ele queria muito e o resto peguei, fui ao banco e coloquei só no meu nome. Peguei os meus documentos e joias. Esvaziei uma caixa de OMO grande, peguei um plástico, coloquei minha coisas dentro e joguei o pó de novo por cima. Falei: aqui estou segura! Vou comprar a minha passagem de volta. Quando ele voltou do trabalho pensei: ou ele me mata, porque europeu é louco por dinheiro, ou eu vou embora. Se ele me mata, tudo bem, porque a vida na Alemanha era muito chata! Se não morresse, tinha uma oportunidade de sair. Falei para ele que eu voltaria e ele ficou muito bravo. Toda saidinha que eu dava ele revirava atrás das minhas coisas. Ele não acreditava que eu tinha ido sozinha ao banco. Eu falava um inglês macarrônico, e foi com ele que eu pus o meu dinheiro no banco. Como eu não falava alemão, ele pensou que eu não conseguiria ir ao banco, então pensava que acharia o dinheiro em casa, e nunca achou! Então chegou o dia e eu disse que se ele quisesse que o casamento continuasse, ele deveria ir para o Brasil, porque na Alemanha eu não viveria. Se ele não quisesse, ele que fosse um dia para lá para terminarmos no papel. Não tinha outro jeito. Eu já tinha passagem comprada, já tinha ido ao consulado brasileiro. Se ele não me levasse viria uma Limusine do consulado me buscar. Ele não tinha mais jeito. Quando eu quero uma coisa, eu quero. Meu marido foi um pai que era assim: quando eles eram crianças ele brincava, era solicito. Quando ficava adolescente ele mudava. Depois eu descobri que o pai dele nunca foi amigo dele quando adolescente, então ele não sabia entrar na mocidade dos meus filhos. Quando voltou ele percebeu que eu não era mas aquela Amélia. Antes ele dizia: “eu não quero que você use este decote”, e eu não usava. “Não quero que você use cabelo cumprido”, e eu cortava. “A noite eu quero uma refeição diferente do almoço”, e eu fazia. Depois que voltei eu fiquei eu mesma, não dava mais colher de chá nenhuma. E ele se ressentiu. Nisso ele ainda era um bonitão, conheceu outra mulher, outra Amélia que se apaixonou por ele, e nos separamos. Mas eu não sofri. Só sofri por conta dos meus filhos. Agora eu moro no Butantã. Numa casa enorme, sozinha e não quero sair de lá. Conclusão: eu tenho uma vida feliz, viu!

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+