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História

A força da coletividade rompe barreiras

História de: Maitê Lourenço
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2021

Sinopse

A história de sua família e a lembrança do sorvete aos domingos. A infância cheia de atividades e repleta de criatividade. Os desconfortos da escola. Encontro com o Rap e toda sua importância na vida de Maitê. A procura por representatividade durante a adolescência. O sonho de jogar futebol e a peneira da Portuguesa com a Formiga. As amizades no cursinho pré-vestibular do Núcleo de Consciência Negra da USP. O estágio no Ministério do Trabalho e o ingresso na faculdade de Psicologia. Outros empregos e a decisão de empreender. Surgimento da BlackRocks e seu propósito social tecnológico. Os desafios de ser uma mulher preta retinta empreendedora e os aprendizados da vida profissional. A experiência em São Francisco. Sonhos coletivos para o futuro.

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História completa

P/1 – Vamos lá! Maitê, primeiro eu queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

 

R – Ok. Bom, prazer estar aqui com vocês. Meu nome é Maitê Lourenço Raimundo, eu tenho 37 anos, nasci no dia 08 de junho de 1984, no Hospital do Brás, na zona leste de São Paulo, sou oriunda da zona leste também e é isso.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?

 

R – Meu pai, falecido, Valter José Raimundo e minha mãe, Ivete Lourenço Raimundo.

 

P/1 – E o que eles faziam?

 

R – Meu pai, segurança da Sabesp, funcionário público, se aposentou e, infelizmente, faleceu logo na sequência. E a minha mãe, do lar, anteriormente era governanta, empregada doméstica e aí, depois, casou-se com meu pai e, como consequência, se tornou dona de casa.

 

P/1 – Como você descreveria, tanto seu pai quanto sua mãe?

 

R – Meu pai [foi] quem me ensinou a empreender, meu pai quem construiu toda uma estrutura, para que a gente pudesse se concentrar na educação. E minha mãe, a pessoa mais estratégica que eu já conheci na minha vida, que fez com que as filhas dela não perpetuassem o único trabalho que é lido como para uma mulher negra, que é o de empregada doméstica. E ela, muito sagaz, fez com que eu e minha irmã, a gente estudasse e não aprendesse a cuidar de casa, né? (risos) Para, justamente, evitar que a gente tivesse qualquer tipo de contato com essa profissão, que é muito importante, que é muito respeitosa. Meus pais, meus avós, minhas tias, minhas primas têm essa profissão, mas minha mãe quis que a gente não seguisse esse caminho e a gente sabe o quanto que o racismo está arraigado nessa estrutura de promover só cargos operacionais. Então, tê-la, estrategicamente, fazendo com que a gente só estudasse e não cuidasse da casa, foi muito sagaz e fez com que eu e minha irmã - tenho uma irmã de 39 anos, mais velha - atuássemos fora da linha de frente das casas.

 

P/1 – E você sabe como seus pais se conheceram?

 

R – Cara, boa pergunta. Não sei exatamente, eu sei que meu pai é de Ubá, em Minas Gerais e minha mãe é de Santa Mariana, Paraná, e eles se encontraram aqui em São Paulo. Não sei exatamente como foi esse encontro, vou perguntar, agora fiquei curiosa, mas não sei. Eu sei que eles namoraram durante um tempo, a minha mãe engravidou, a minha mãe era ainda governanta, por um período da gravidez ela ficou ainda trabalhando e, quando minha irmã completou seis meses de vida, eles decidiram se casar e foram morar onde minha mãe mora até hoje e onde eu nasci. Então, assim, eu sou a segunda filha, sou a caçula e minha irmã foi pra lá, com seis meses de idade.

 

P/1 – E como é a relação com a sua irmã, qual o nome dela?

 

R – Minha irmã chama Camila. A gente tem uma relação conflituosa, como bons irmãos. (risos) A gente é muito diferente, acho que a construção da nossa identidade foi feita bem diferente, uma da outra. Nós temos visões de mundo diferentes, nós temos posicionamentos diferentes. Isso faz com que a gente, de fato, não consiga ficar... eu brinco que a gente fica dois minutos bem, depois a gente já está brigando. Ela tem dois filhos, o Matheus e a Sofia, que são os meus amores. Com eles, eu me dou muito bem, cuido, zelo, brigo, brinco. Eles são as minhas paixões.

 

P/1 – Maitê, e como é a relação com seus pais?

 

R – Meu pai faleceu quando eu tinha onze anos. Então, foi uma relação infantil, de um pai que exigia bastante, ele colocou a gente em todas as atividades possíveis: karatê, natação, datilografia. Lembro que, logo que ele faleceu, eu falei pra minha mãe, foi uma das primeiras coisas que eu falei: “Ai, mãe, eu não aguento mais fazer datilografia”. Ela falou: “Não, pode sair, está tudo certo”. Então, ele sempre exigiu muito da gente. E sempre ofertou muito conforto. Eu acho que, quando as pessoas tratam de pessoas negras e falam que as pessoas negras sofrem restrições, por exemplo, alimentar, dentre outras, acho que tem que tomar muito cuidado porque, infelizmente acontece com a grande maioria, mas não dá pra generalizar. Eu tive uma vida muito confortável, diante de uma classe C, vou colocar assim. Sendo ele funcionário público e conseguindo, além disso, empreender, com algumas outras atividades. Ele comprava e vendia carros, comprava e vendia imóveis. Então, foi onde eu também aprendi a negociar, ser empreendedora, observar esses aspectos, ele conseguiu ofertar tudo isso pra gente. E a minha mãe é a minha grande inspiração. É uma mulher muito batalhadora, que teve até a segunda série, estudou até a segunda série. Depois entrou, já com 45 anos, na escola, para fazer o supletivo e ficou só até a sétima série. Meu pai tinha até o ensino fundamental completo, até a oitava série completa. Já a minha mãe conseguiu ir até a sétima série, diante de todas as dificuldades, de cuidar de uma casa, cuidar de duas meninas, de um desafio ali, de gerenciar tudo e, principalmente, depois, com o falecimento do meu pai, ela simplesmente teve que se entregar em todo o processo, pra cuidar de nós. Eu com onze anos, a minha irmã com treze. Então, foi um grande desafio naquela época para que ela pudesse gerenciar tudo. Meu pai era aposentado, ela se tornou pensionista, mas gerou todo um processo de conseguir ter um equilíbrio financeiro.

 

P/1 – E você sabe a história dos seus avós? Você chegou a conhecê-los?

 

R – Meus avós paternos, eu não conheci. Minha avó paterna faleceu, foi morar junto com meu pai e a minha mãe e faleceu meses antes de eu nascer. Minha mãe já estava grávida de mim, quando ela faleceu. Meu avô paterno faleceu quando meu pai era muito jovem, então, não tive contato. Mas meus avós maternos eu tive contato. Minha avó faleceu quando eu tinha dez anos, um ano antes do meu pai. E o meu avô faleceu quando eu tinha seis anos e é curioso que eu me lembro muito bem do meu avô. Eu me lembro do cheiro, eu me lembro do gosto da laranja que ele descascava, eu me lembro do sorvete que ele vendia. Meu avô vendia sorvete, era daqueles senhorzinhos, que usava buzina, que saía andando, com carrinho de sorvete. E, de domingo, era uma alegria recebê-lo, né? Porque aí a gente chegava, ele ainda não estava, mas quando ele vinha, ele já sabia que tinha que reservar o sorvete de limão para uma das netas, porque senão o bicho ia pegar. (risos) Então, [a gente] sentava-se em volta dele e ele oferecia o sorvete pra nós e era muito divertido, era muito gostoso. Eu e minhas primas, meus primos, a família inteira. E a minha avó também ‘se virava’. Eu lembro que, muitas vezes, a gente ia sem avisar, meio em cima da hora e ela, com pouca coisa, fazia muita comida, muita coisa, era muito fantástico ver a magia que ela promovia pra gente. E sempre muito simpática, sempre muito doce, sempre muito atenciosa. Essa era minha avó, Vitalina e o ‘seu’ Raimundo.

 

P/1 – Eu ia te perguntar exatamente isso: se tinha um cheiro, uma comida da sua infância, que era, assim, que leva você até a sua infância.

 

R – Eu acho que sorvete de limão é o que eu amava, amava muito. Até hoje eu gosto, gosto bastante desse gosto mais azedo, mais cítrico. Nossa, bom, o que eu amo até hoje é brigadeiro. Então, se falar que tem festa e oferecer bolo, eu recuso, mas brigadeiro…. Eu troco todos os doces possíveis e imagináveis pelo brigadeiro e sempre foi assim. Então, acho que minha infância me remete também a esse gosto, que perdurou por todos esses anos. Meus pais viajavam muito, a gente ia pro interior e meu pai gostava muito de pescar. Então, o cheiro de água, o cheiro do peixe. Até o cheiro do peixe mesmo, logo que sai da represa, do rio, enfim, é um cheiro de infância pra mim. O cheiro da grama, o cheiro de estar saindo de São Paulo, pegando uma estrada, eu acho que essas são as lembranças que eu tenho de infância que me fazem muito feliz.

 

P/1 – E você sabe a história do seu nascimento?

 

R – Eu fui uma filha planejada. Meus pais queriam ter uma segunda criança, meu pai queria muito um menino, então foi um pouco decepcionante pra ele (risos) ser mais uma menina. Mas, depois, lidou bem, porque a menina era mais terrível que qualquer coisa, fui muito arteira na minha infância. Cara, não sei muita coisa, acho que, quando eu chego, já chego num lar construído, estruturado. Minha mãe sempre fala isso, que eu nasci em berço de ouro, até tinha uma memória de um berço de ouro mesmo, de tanto que minha mãe falava, quando eu era pequena: “Você nasceu em berço de ouro, você nasceu em berço de ouro”. E acho que foi isso, não tem uma história específica. A minha mãe teve a minha irmã num hospital de primeira linha e já eu, num hospital particular, de plano de saúde, mas não tão bom quanto o da minha irmã. E a minha mãe se lembra que ela teve que andar bastante tempo, em um corredor enorme, sozinha, até chegar na sala de parto. E aquilo a mobilizou muito. Eu leio muito isso como, realmente, a solidão da mulher negra, o quanto as pessoas tratam um momento tão importante, que minha mãe planejou, quis, ali, como algo: “Vai lá, segue esse corredor sozinha, vai lá e tudo mais”. Então, é essa memória que a minha mãe trouxe, do momento do parto, o quanto foi violento. Acho que a violência obstétrica, que atinge grande maioria de mulheres negras, está posta aí, também no meu nascimento. E, logo depois, minha mãe disse que foi tudo bem, que não teve nenhum problema e que eu acho que, com dois dias, três dias, eu já estava em casa, já. Então, essas são as informações. Acho que tem que trazer a Dona Ivete, pra poder falar sobre essa parte, tenho certeza de que ela vai contar várias histórias. (risos)

 

P/1 – E você sabe como foi escolhido seu nome?

 

R – Sim, sei. Meu nome era pra ser Isaltina, que é nome da minha avó paterna e a minha mãe se recusou, falou que de jeito nenhum (risos), que de jeito nenhum, que meu pai ia ‘se virar’, mas que o meu nome não seria esse. Meu pai passou uns dias sem saber e tudo. E ele leu uma revista, provavelmente, era da Maitê Proença e aí ele viu o nome “Maitê” e decidiu colocar esse nome. Minha mãe aceitou, obviamente melhor que Isaltina. Então, por isso que minha mãe é minha inspiração, porque ela conseguiu argumentar, até que o meu nome mudasse. (risos)

 

P/1 – Você lembra do bairro e da casa onde você passou a sua infância?

 

R – Sim, por sinal, estava lá no domingo. Minha mãe permanece morando no mesmo lugar. Pra mim, é muito bom estar lá sempre. É um bairro bem periférico, é um condomínio, conjunto habitacional e eu fui muito feliz lá. Eu acho que tem várias questões, né? Tipo: o racismo me perpassou lá. A violência perpassou também. Assim como, também, muitas coisas boas. Eu adorava andar de patins, ainda gosto muito de andar de patins. Então, eu passo por alguns lugares e falo: “Nossa, me acabava de andar de patins aqui, fazia isso, não sei o quê”. É muito bom estar em contato. Então, sempre quando eu vou visitar minha mãe, eu estou no local onde eu nasci. Até o quarto onde eu estudei, vivi e tudo mais, até os 32 anos. Trinta e dois ou trinta e um anos, eu acho. Trinta e um. Eu estou em contato, sempre, com esse local.

 

P/1 – E como é que ele é?

 

R – Acho que vou pro lado simbólico, assim: carrega extremamente memórias e muito orgulho de ser um local que meus pais conquistaram, ser próprio. Que a minha mãe tem um conforto lá. Ela consegue ter mobilidade, ela consegue ter acesso a vários lugares. Meus sobrinhos moram com ela, então, tem essa possibilidade de acesso para todo mundo. Acho que é um bairro periférico. A gente nunca... minha irmã sofreu um assalto uma vez, mas foi a única situação. De resto, a gente nunca passou por nada. Mas, infelizmente, pelo fato de estar na região, a gente sabia. Infelizmente, um colega da escola faleceu, alguém passou por alguma situação X. Meu sobrinho, por exemplo, que hoje tem dezoito anos, a primeira batida policial que ele teve foi com treze anos. Então, a gente sente medo de estar nessa região, não porque ela é violenta em si, mas porque, infelizmente, a gente tem um jovem negro e minha sobrinha também, com doze anos, mas especificamente meu sobrinho, que pode se tornar estatística e isso, pra gente, é muito triste, pensar na violência policial e em todo o processo de desvalorização da periferia, principalmente sendo ele um homem, se tornando um homem. Esse é um grande medo que a gente tem, mas eu tenho certeza que não é só relacionado ao bairro. Eu, aqui no Ipiranga, ele vindo pra cá também é o mesmo receio, porque a polícia vê só a cor da pele dele, não vai ver se ele tem algum tipo de passagem ou qualquer coisa. E, mesmo que tenha, não é direito nenhum abordar e trazer tamanha violência pra um jovem negro.

 

P/1 – E voltando ainda um pouquinho pra sua infância, quais eram suas brincadeiras favoritas?

 

R – Eu adorava inventar brincadeiras. Eu gostava muito de criar brincadeiras estratégicas: “Não, você vai pra lá, você vem pra cá e aí a gente faz, não sei o quê”. Encontrar o outro, meio que esconde-esconde, junto com alguma outra coisa e a galera entrava na minha, super brincava. Lembro que, já com mais ou menos nove, dez anos, eu pedi pra minha mãe um tubo de ensaio. E aí eu queria ser cientista, de juntar coisas, de ver o que dava. Então, me lembro muito bem que eu adorava misturar coisas e não só brincar de uma única coisa, mas sim, misturar. Nada relacionado com estética, de brincadeira de boneca, maquiagem, até hoje eu sou avessa a essas ações, especificamente (risos). Mas eu sempre fui muito de inventar, de ser a que coloca todo mundo pra fazer alguma atividade. Muito esporte, sempre gostei muito de esporte. Joguei futebol, dos treze até os 23 anos. Tentei ser profissional, não deu certo. Mas tem história aí (risos), na adolescência eu conto, na hora que você me perguntar da adolescência, eu conto. (risos)

 

P/1 – E você tinha um sonho de ser alguma coisa, assim, sonho de alguma profissão, quando crescesse? Como é que era?

 

R – Eu sempre me questiono de que eu não tenho recordação de uma profissão específica. Eu gosto muito de uma frase, não vou lembrar o nome da autora agora, que ela fala que a gente não pode ser o que a gente não consegue enxergar. Então, todas as profissões que eu me via e aí eu flutuava, em várias profissões. Desde cabeleireira, ao pessoal do supermercado que andava de patins. Eu amava andar de patins, então eu queria muito ser aquelas pessoas que andavam de patins no supermercado. Até hoje, eu me encanto, às vezes, eu fico: “Deixa eu ver a marca dos seus patins, o que você está fazendo e tal?” Também, eu acho que mais próximo da pré-adolescência, adolescência, eu queria muito ser caixa de Banco. E acho que, nesse momento, foi quando eu percebi que o racismo estava instaurado nas profissões também, porque eu via só as caixas e os caixas, pessoas brancas, né? Não via pessoas negras. Mas eu achava incrível cuidar do dinheiro das pessoas, ali, fazer os cálculos, mexer na caixa registradora, fazer o atendimento, ao mesmo tempo. Achava muito legal a dinâmica ali, do processo. Só que eu me questionei por que não tinham pessoas negras ali. Então, aquilo já foi um sinal de que não basta querer, tinha que, ainda, ver onde a gente se encaixa. Então, esse aprendizado já veio muito cedo. Já veio cedo, por conta do contato da escola e toda a discriminação que as crianças passam na infância. Mas, com relação às profissões, eu percebi, nesse momento, que, talvez, talvez não fosse uma profissão que eu tivesse que zelar, que eu tivesse que olhar, porque não tinha ninguém parecido comigo.

 

P/1 – E qual é a sua primeira lembrança da escola?

 

R – Cara, eu tive bastante dificuldade na escola, pra ser bem sincera. Eu acho que vai ser difícil uma pessoa negra não falar que não teve dificuldade na escola (risos). Eu me lembro do nome da professora: Berenice. Mas não me lembro de muita coisa. Pra mim, a escola sempre foi muito desconfortável. Não era um lugar que eu me sentia muito bem, ao ponto de, depois de muitos anos fazendo terapia, eu cheguei à conclusão de que eu fugi da escola. Eu fiquei internada com pneumonia, acho que umas sete vezes, durante a primeira série, até a terceira série. Assim, foi bem difícil esse momento. E eu acho que eu queria fugir, eu acho que eu queria sair daquele ambiente. Eu não queria estar. Um dos pontos que acho que é chave: meu pai coloca a gente no karatê, justamente na fase escolar e não fala nada. Só falou: “Vamos fazer karatê. (risos) Façam karatê”, ponto. Isso me ajudou a, minimamente, ter um lugar dentro da escola, porque eu batia nos meninos. Então, eu saía correndo atrás deles e batia, sabia onde mais doía, sabia onde que ele não ia conseguir correr atrás de mim. Isso foi muito importante e quando eu levava essas questões pra casa, a minha mãe falava: “Olha, resolve na escola, você precisa resolver na escola”. Era uma forma dela dizer que a gente não podia trazer, ficar mal, deixar aquilo envolver e tudo mais. Mas aí a gente aprendeu que tinha que resolver na escola e aí eu resolvia na escola mesmo e era isso. Então, todas as vezes que me chamavam de todos os nomes, que eu não vou colocar aqui, mas todos os nomes que eram extremamente negativos, eu ia atrás, eu batia, eu brigava. Eu acho que essa forma, mesmo que violenta, por mais que o racismo seja violento e aí a minha resposta era violenta, ela me aliviava um pouco dessa pressão, de ter que lidar com essas questões. Então, eu não julgo quem bate, quando acontece algo de racismo. (risos)

 

P/1 – Você lembra de alguma professora, algum professor que foi marcante no seu período escolar? Tanto pro bem, assim, quanto pro não tão bem. (risos)

 

R – Eu não tenho uma memória tão grande assim. Acho que todos os professores foram extremamente importantes. Eu tenho um apreço, um valor muito grande. Vi agora, no Google, que hoje é o Dia Mundial do Professor, nem sabia. Achava que era 15 de outubro, né, 15 de outubro? É. Mas hoje também é. Então, eu sempre tive muito apreço por eles, acho que a minha construção como profissional e como pessoa perpassa por eles. E todos eles, sem exceção. Eu gostava muito dos professores de educação física, (risos) eu amava educação física. Então, pra mim, era o lugar que eu tinha, ali, com muito respeito e muita consideração. E até lembro, no ensino médio, que as ‘minas’, os ‘minos’ mal queriam fazer a aula, não estavam nem aí, tudo mais. E eu queria, queria estar lá e até lembro que uma professora perguntou: “Nossa, que eu tenho muita curiosidade de saber como você é na sala de aula, porque você é tão dedicada aqui, queria saber como você é na sala de aula”. E aí eu falei pra ela que eu era mediana e era isso. (risos) Mas eu acho que, de todos, eu me lembro de uma história e tudo vai ser relacionado com questão racial. Eu acho que minha vida perpassa por todo esse processo. Eu me lembro, acho que eu estava, mais ou menos, na quarta ou quinta série e eu perguntei pra professora, a professora estava falando sobre o processo de escravidão, contando aquela história que a gente sabe que, infelizmente, é uma história que é mentirosa, da população negra escravizada e tudo mais. E aí eu perguntei pra ela: “Então, professora, depois que as pessoas negras foram alforriadas, o que aconteceu?” E aí ela respondeu: “Elas foram para as favelas”. Quando ela falou isso, me deu um start, assim, do tipo: “Espera, onde estamos, né?” E aí eu comecei a tentar buscar informações e foi quando eu tive contato com o Rap e aí o Rap abriu portas.  Aquela expressão que “o Rap salvou a minha vida”, eu acho que faz muito sentido pra mim. Nessa época, eu comecei a ouvir rap nacional, internacional também e comecei a entender. Não, o internacional nem tanto, por conta do inglês. Mas comecei a entender o que tinham feito, qual era o lugar que, de fato, aquela professora quis remeter e o quanto ainda nos veem nesse lugar. Então, foi importante ter passado por esse questionamento. Porque eu poderia ter ficado quieta, não ter falado nada, mas eu fui até ali, perguntei e isso me trouxe informações, subsídios, pra eu poder buscar mais informações e ver que ela estava completamente errada. Sim, majoritariamente estamos nas favelas, mas não é um processo que simplesmente “ah, foi”. Não, tem o extermínio da população negra nesse processo, tem gentrificação, tem todo um histórico aí, por trás, até chegar às pessoas negras na favela. Eu acho que, se a gente, na escola, entendesse todo esse processo, a gente estaria em outros momentos, discutindo o racismo estrutural, institucional, de uma outra forma. E até mesmo eliminando-o, não perdurando-o. Então, infelizmente, na escola, a gente não consegue aprender exatamente toda essa estrutura. A gente tem que buscar no paralelo e eu tive a sagacidade de buscar no Rap e no histórico de pessoas negras potentes. Que a gente não é esse grupo que só foi pra algum lugar, a gente foi um grupo que luta o tempo todo e que não deixa de lutar e correr atrás e gerar aí, mesmo que esteja na periferia, a gente movimenta aí, bilhões de reais no ano e isso é desvalorizado, mesmo assim.

 

P/1 – Que Rap que você gostava de ouvir, nessa época?

 

R – Obviamente, Racionais. Obviamente, obviamente. Mas eu gostava de RZO, eu gostava De Menos Crime, eu gostava, nossa, tem vários, até hoje, tem vários. Acho que acompanhar Negra Li, tudo mais, foi muito bacana, meu TCC eu falei sobre ela, num seriado que ela fez, o Antônia. Enfim, acho que o Rap perpassa pela minha história inteira. Desde esse momento, até os dias de hoje, o contato com meus amigos, meus amigos de cursinho. Dá até vontade de chorar (risos e choro). Com contato com meus amigos de cursinho, em tudo, o Rap foi super importante.

 

P/1 – E como é que foi a Maitê entrando na adolescência, crescendo um pouquinho?

 

R – Foi difícil, eu sempre fui meio gordinha, então, gostava mais de roupas largas e tudo mais. Então, o processo de me identificar, de ser identificada como mulher sempre foi mais complexo, assim. E gerava bastante incômodo. Acho que é um fato, ser uma mulher negra, retinta, gorda, num país que, até então, tinha só mulheres negras retintas, a Naomi Campbell, como uma referência. E aí eu não me identificava, porque ela era extremamente magra, norte-americana, enfim, totalmente fora do contexto. Então, o quanto que faltou essa representação de mulheres negras retintas. Nessa época, mais ou menos da adolescência, veio a Raça, revista Raça. E aí foi onde que, nossa, eu lembro que eu pegava a revista, eu fiz coleção de um ano inteiro da revista. Minhas amigas tinham Capricho, Atrevida, entre outras. E aí eu pegava a revista, ia na banca, de propósito, sabe? Podia assinar, mas não, queria ir na banca comprar. E até lembro que era Isabel Fillardis foi a primeira capa, eu não lembro o nome do moço que estava junto com ela e aquilo foi muito simbólico pra mim, foi muito importante ver aquelas revistas. E aí veio a Pathy Dejesus, entre outras mulheres, também pele retinta, mas ainda magras e tudo mais. Mas eu conseguia, pelo menos, me identificar ali, ver que aquelas mulheres pareciam um pouco mais comigo, nas tonalidades de pele. Mas sempre foi um processo muito difícil. Então, maquiagem, roupa, base... vim usar base depois dos vinte e poucos anos, porque aí consegui encontrar uma base da minha tonalidade de pele. Porque a gente fala “negro” no Brasil e esquece, que negros têm uma infinitude de tonalidades. E a minha é muito mais escura e é pouco, já hoje é pouco trabalhada nas bases, nas maquiagens e tudo mais. E aí foi um processo difícil de conseguir me ver como uma mulher, me tornando uma mulher. Nessa época, o Rap, as músicas, sempre me apoiaram. Eu gostava muito de ler, então, eu lia vários livros. Enfim, como já estava próximo do vestibular, eu lia. E, obviamente, futebol na minha vida, jogava futsal, futebol de salão e era o dia inteiro, se deixasse eu ficava o dia inteiro jogando, porque eu amava aquilo, queria muito ser jogadora. Eu consegui fazer peneira na Portuguesa, na época. Isso foi em 2001. Eu fiz peneira na Portuguesa e a Formiga tocou pra mim, ela fez um passe pra mim e eu chutei e errei. (risos) Ali eu tive certeza de que não era futebol de campo que eu queria e eu lembro que as meninas recebiam muito pouco, o salário era muito pouco. E eu fiz um cálculo de quanto que eu gastaria de condução para chegar até lá, que ainda era um lugar que era mais distante ainda do que o centro, ali, da Portuguesa, era em um centro técnico deles, que era mais distante. E aí, eu fiz uns cálculos e, assim, eu não ia ganhar nada se eu continuasse. E eu queria muito já ajudar minha mãe, a gente já, meu pai já tinha falecido, então a gente já estava passando por um processo bem difícil financeiramente, então, eu queria muito poder ajudar a minha mãe. Me lembro que, ao invés de eu pegar o ônibus que levava de volta, eu fui a pé do centro técnico, eu acho que eu andei, sei lá, uns quarenta minutos, mais ou menos. E eu cheguei à conclusão que não era aquilo que eu queria, não porque eu não amasse. Ali eu já estava me despedindo, estava me despedindo do futebol. Não porque eu não amasse, mas sim porque o desafio ia ser muito grande e que eu não ganharia um dinheiro que seria importante. Diferente dos meninos, os meninos falam: “Não, vou começar. Depois vai vir e tudo mais”, eu já tinha certeza que não ia vir, que não ia chegar, que não ia ter. E até hoje, vê a Marta e vê o Neymar. O que a Marta já construiu e financeiramente onde ela está e o Neymar e aí, obviamente, construiu bastante coisa, mas comparado às premiações e a tudo que a Marta fez, ele ainda é aquém e mesmo assim ganha muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito mais que ela. Então, isso foi importante passar. Consegui o meu primeiro estágio no Ministério do Trabalho, logo depois, também ganhando uma merreca de nada, mas consegui. Lembro que, nessa época, queria fazer Publicidade, aí fui procurar uma grande universidade, aqui em São Paulo. E, na época, acho que eram mil e quinhentos reais, o valor da mensalidade. Hoje, seria, sei lá, cinco mil reais, eu caí de costas pra trás, falei: “Nunca que eu vou conseguir!” Nesse mesmo tempo, eu tinha três atividades. Eu ia pra escola de manhã, ia pro estágio à tarde e comecei a fazer cursinho, à noite. E aí, no cursinho pré-vestibular, eu fiz no Núcleo de Consciência Negra, na USP. E foi outro espaço que a negritude me chamou e… eu vou começar a chorar de novo.... e que foi super importante (choro), porque eu conheci pessoas que são muito importantes até hoje, pra mim (choro). E, ali sim, eu tive um professor, que é o Billy, que é um cara fantástico, de Geografia, que mostrou diversos caminhos pra gente colocar a discussão racial num patamar que eu nem imaginava. De luta de movimento negro, de ações afirmativas, da importância de a gente ocupar esses espaços, de gerar possibilidades. E, nessa época, era época de balada de Black, Black Music, então a gente saía, ia pra Tietê, que é uma cidade aqui no interior de São Paulo, que o último domingo do mês de setembro, tem a festa de um santo negro, São Benedito. São Benedito? É, acho que é São Benedito. E que vai todo mundo, uma caravana enorme, que ninguém vai pelo santo, em si, mas sim porque era um santo negro e tinha toda uma cultura afro ali em torno e era muito bacana. Então, fui duas vezes, em dois anos seguidos, viajava e tudo em torno do contexto racial, das histórias, da valorização, seja norte-americana, com as músicas de R&B, ou seja, de ações regionais, aqui do Brasil, tudo mais. Eu tive muito contato com as religiões, com a discussão sobre as religiões de matriz africana. Eu vim conhecer regiões, as religiões, os espaços de tudo, muito mais tarde, mas ali eu tive contato com a discussão e uma discussão mais agregadora, mais de ouvinte mesmo, sem discriminações. Que já: “Ah, não, é tal, macumba. Ah, não, é tal coisa, não sei o quê”. Então, foi muito importante, pra mim, assim, esse momento e eu acho que, ali, eu me constituí como alguém, de fato, que sabe o valor da sua negritude, que entendeu que ali tem potencial, que criou toda uma história de valorização e que tem amigos. Eu tenho amigos até hoje, dessa época, tenho irmãs, irmãos que eu carrego comigo e já tem vinte anos. Nossa, vinte anos, vinte anos!

 

P/1 – E lembra de uma história marcante, do Núcleo, do cursinho?

 

R – Sim, eu acho que as aulas, em si, ver a grande maioria... acho que eu não tive professores brancos lá, não negros. Então, todos os professores eram pessoas negras, super capacitadas. Ser incentivada a prestar vestibular, a fazer uma faculdade. Isso foi super importante. Lembro de uma ação específica porque, pra mim, é muito coletiva, né? Eu tenho esse hábito, muito, de olhar o todo, não de marcar especificamente uma pessoa, mas sim como era. E foi muito mágico estar ali, naquele ambiente. Eu fiquei pouco tempo no cursinho, porque eu não dava conta. Eu chegava uma hora da manhã em casa e tinha que levantar seis horas, pra poder ir pra escola. Então, foi muito desgastante, eu não dei conta de continuar. E aí entra a meritocracia, “Eu tive a oportunidade de estudar e não estudei, né?”. Mas eu tinha três atividades para fazer durante o dia. Então, eu fiquei pouco tempo, mas foi muito importante, foi muito bacana ocupar a USP e ocupar a USP dentro de um núcleo de pessoas negras, um Núcleo de Consciência Negra. E lá estando e discutindo todo esse processo. Acho que o núcleo é muito assertivo, de estar ali.

 

P/1 – E como foi o primeiro estágio? O que você fez com seu primeiro salário? Lembra?

 

R1 – Lembro. (risos) Lembro exatamente. Eu trabalhava na área de treinamento, eu já entrei em RH (Recursos Humanos), na área de treinamento, no Ministério do Trabalho. A gente ficava na área dos fiscais do trabalho e lá, a gente organizava as agendas dos fiscais, aparecia os cursos, via as datas, disponibilidade, tudo mais. Meu primeiro salário, eu ganhava cento e noventa reais, (risos) no estágio de quatro horas. Deu pra eu comprar uma samambaia pra minha mãe, eu levei a samambaia do Centro até a zona leste, de ônibus. Comprei com muito gosto, toda feliz. Paguei a condução e sobrou uma merrequinha pra eu ficar, nem lembro o que eu fiz com esse dinheiro. Mas a minha mãe ficou muito emocionada, quando eu cheguei com a samambaia pra ela (risos) e eu também, porque eu fiz questão de dar uma coisa pra minha mãe, eu acho que foi muito simbólico, ela gosta muito de plantas e eu sabia que ela gostava de samambaia, eu vi a samambaia e levei a samambaia e foi isso. (risos)

 

P/1 – E como que foi seguindo, assim, a sua vida? Você já entrou na faculdade, ou teve um tempo de trabalho, como é que foi?

 

R – Não, não entrei na faculdade. Eu entrei na faculdade com 24 anos, por conta do Prouni, uma ação afirmativa. Entrei em cotas raciais, também no Prouni. Então, não tive: logo saí do ensino médio e fui. O que eu fiz, eu entendi que eu não conseguiria emprego com a experiência que eu tinha, então eu fiz mais um técnico. Eu fiz um técnico de Administração e aí eu consegui um novo estágio, nessa instituição. Por coincidência, não foi proposital, mas foi coincidência, a empresa que vendia os cursos pros fiscais, eu me tornei estagiária dela. E foi por acaso, mesmo. E aí fiquei mais seis meses nessa instituição. Ali eu entendi, na Paulista, ocupar a Paulista, vestida de social. Eles davam uniforme. Era muito bacana, eu entendi que eu queria ocupar esses lugares, sabe, que eu queria trabalhar como uma executiva mesmo, como alguém que atuasse nesse contexto. E aí, na sequência, saí deste estágio, tive bastante dificuldade em conseguir uma nova colocação e entrei pro telemarketing. E, do telemarketing, fiquei sete anos numa empresa de telemarketing, trabalhei nove meses em linha, como operadora de telemarketing, depois eu fui promovida para área de qualidade, para fazer análise das propostas, verificar erro de português, enfim, toda estrutura das propostas em si. Fiquei acho que, mais ou menos, uns três anos nessa função e depois fui analista de qualidade, monitorando, dando treinamento, fazendo todo o processo. Foi muito importante ter trabalhado nessa empresa. Durante todo esse tempo eu me vi crescendo literalmente, profissionalmente. Uma pessoa extremamente tímida, que tinha uma dificuldade muito grande de se relacionar, com alguém que já estava dando orientação para as pessoas, treinamento, falando em público, fazendo diversas coisas. Então, eu amadureci muito nesse processo e eu acho que estar com pessoas periféricas, em sua grande maioria, pessoas negras, tive muito contato com pessoas trans nesse período, porque era uma profissão, é uma profissão, até hoje, que agrega esse grupo, mesmo que minoritariamente, infelizmente, a população trans ainda sofre muitas discriminações e majoritariamente está na rua, se prostituindo. Mas eu tive contato com pessoas e era muito bacana dar mentoria pra elas. Dar feedback, na verdade, era feedback pra elas, do que elas estavam fazendo, monitorando. E aconselhar e poder falar pra elas que o trabalho estava bom, que o trabalho estava ruim, que tinha que melhorar, ou não. Isso era muito bacana, estar em contato com gente parecida comigo. Isso foi muito importante pra mim. E aí, na sequência, eu saí. Eu já estava fazendo a faculdade e aí eu saí de uma função de analista, eu voltei a ser estagiária e aí eu fui estagiária numa empresa que fazia recrutamento e seleção de pessoas com deficiência. Também foi uma experiência riquíssima. Eu me lembro que a primeira entrevista que eu fiz, foi com uma pessoa anã, foi um anão e a cadeira que ele ia sentar era uma cadeira de rodinhas. Essas cadeiras, igual essa, que a gente circula, cadeira de rodinhas. E que ele ficou muito sem graça, porque ele precisava do apoio da cadeira, do chão, para que ele pudesse subir. E ele não estava conseguindo. E aí eu segurei a cadeira, tive que sair de onde eu estava, segurar a cadeira, pra ele poder se sentar nessa cadeira e ali acabou a entrevista. Ali acabou a entrevista, porque ele se sentiu extremamente vulnerável. E aí eu, muito sagaz, comecei a falar: “Pra que time você torce? O que você faz? O que você gosta de fazer? E tarará…”. E comecei a conversar com ele, foi muito descontraído. Quando ele saiu da sala, eu comecei a chorar, comecei a chorar, a chorar (choro) porque, caralho, que vulnerabilidade filha da puta que a gente coloca essas pessoas, sabe? E dali, eu entendi que eu precisava fazer coisas, mas não pelas empresas, eu queria que as empresas se danassem, eu queria fazer pelas pessoas, queria muito fazer pelas pessoas. Essa história é muito foda. E aí, conversava com todos os tipos de gente, com várias histórias, histórias terríveis, de perder a audição, de perder membros do corpo, de não conseguir, porque tem uma deficiência intelectual, não conseguir emprego, não conseguir diversas coisas. Então, foi um período muito importante de escuta, de entender que eu posso me sentar tranquilamente na cadeira que foi projetada para um único grupo, né? Que não foi pensado pra todo mundo. E poder ver esse outro lado foi muito importante pra mim. Deixa eu pensar. Depois disso, eu saí desse estágio, consegui trabalhar numa empresa grande de recrutamento e seleção online e dali foi quando eu entendi que eu queria empreender também. Então, eu via o movimento, via que tinha oportunidades ali e, junto com uma amiga, a gente decidiu fazer um site de elaboração de currículo, para poder auxiliar as pessoas a elaborar currículo. A gente fazia simulação de entrevista. Eu sempre gostei muito da área comercial, de falar com as pessoas, de entender quais eram os problemas. Detestava elaborar currículo, não suportava. Nossa, era a morte pra mim! Eu lembro que eu procrastinava, trabalhava de madrugada pra entregar de manhã, porque eu detestava elaborar o currículo, não suportava. E aí, como uma boa sociedade, que não começa alinhada com o papel de cada uma das pessoas, simplesmente acabou como um divórcio litigioso, de uma não querer olhar na cara da outra. (risos) De tamanho o processo que foi a dissolução da empresa. Eu acabei comprando a parte dela. Nisso, eu já tinha saído dessa empresa de recrutamento, já estava trabalhando em outra empresa, com recrutamento e seleção e fiquei conciliando um bom tempo com essa outra empresa de recrutamento, que era empresa de materiais elétricos. E aí, eu decidi comprar a parte dela, só que, como eu odiava elaborar currículo, falei: “Cara, tem que ter alguma forma, porque é tão manual… deve ter alguma forma de tecnologia, de automação, que possa ajudar”. Porque é tudo muito... toda estrutura é a mesma coisa, mudam algumas expressões, mas a estrutura, em sim, que era o que mais demorava pra poder colocar as informações ali, era muito chato fazer. E aí eu comecei a ir em eventos de inovação, tecnologia, “ative sua ideia”, “venha construir produtos inovadores”, até então não ouvia muito falar de startup, mas era mais ou menos isso. E, quando eu cheguei nesse universo, parece que algo se abriu de oportunidade: “Cara, tipo, tem um mundo aqui”, né? Nesse meio caminho também, por conta da faculdade, então fiz a Uninove, fiz Psicologia e, no último ano, uma professora falou que nosso TCC tinha que ser científico e pessoal, tinha que ter uma orientação científica e pessoal. E eu me lembro que eu queria muito fazer, eu queria terminar logo. Então, fazer uma pesquisa de clima na empresa que eu estava, já estava tudo certo. Já estava com a Cia de Currículos também, que era a minha empresa, então: “Ai, meu, rápido, vamos terminar logo isso e acabou”. E, quando a professora falou que tinha que ser pessoal, científico e pessoal, eu falei: “Puts, não dá pra ser uma pesquisa de clima. O que é pessoal pra mim? O que é pessoal? Aí eu me olhei no espelho e vi uma mulher negra, que não via, dentro da universidade, nenhuma discussão sobre questão racial. Eu tive pouquíssimas aulas que abordavam esse assunto, eu tive poucas discussões, até mesmo todas muito eurocêntricas. Freud, Jung, enfim, Skinner, norte-americano. Pouco se falando sobre até mesmo a população brasileira, né? E aquilo me tocou, quando a professora falou que tinha que ser pessoal e aí eu decidi fazer o TCC olhando para mulheres negras. Foi onde que eu fiz sobre o seriado Antônia, que foi um seriado que foi feito na Globo, que eram quatro mulheres da periferia, de Brasilândia, que viviam, e era muito legal porque era o protagonismo dentro da periferia, mas não era aquele protagonismo só de sofrimento. Elas conseguiram ser, literalmente, as protagonistas desse seriado. E eu fiz esse TCC, com muita dor. Primeiro porque, aí entram também os professores, que estão nessa micropolítica, a universidade, a escola, os lugares são micropolíticos. E reverberam esse racismo e o quanto há ignorância diante de assuntos que não são eurocêntricos. Quando eu falei que eu queria falar sobre mulheres negras, um professor e até outros me questionavam qual era a relevância científica: “E qual é a relevância científica?” E eu, na época, não sabia responder e aquilo foi uma violência tamanha, que eu reprovei. Eu, sendo bolsista e com muito medo, eu não dei conta e tive que reprovar, porque eu não conseguia escrever nada, só ficava mulher negra na minha cabeça, mulher negra, mulher negra, mulher negra, mas eu não sabia responder. Até que, no outro semestre, uma professora maravilhosa falou: “Então, tá bom, você vai fazer o seguinte…”. Ela criou o tema do meu TCC, então, “Mulheres Negras na Sociedade: uma Análise Psicossocial do Seriado Antônia, da Rede Globo”. Ela: “Toma, vai lá!” Aqui, vai falar sobre a história da população negra no Brasil, vai falar sobre a questão de gênero no Brasil, vai trazer o seriado com uma análise psicossocial, vai fazer uma conexão com isso e vai entregar, é isso”. Cara, aquilo destravou tudo ali, tudo que eu precisava. E foi muito prazeroso. Óbvio que fazer um TCC é um saco, mas foi muito prazeroso poder olhar pra esse tema, poder fazer, eu senti muito orgulho, quando eu terminei. E eu me lembro que um professor que falou que não tinha relevância científica, veio me parabenizar pelo trabalho, porque gostou muito e eu fiquei com muita raiva dele, quis enfiar o TCC na goela abaixo dele, mas me segurei. (risos) E consegui promover que essa discussão gerasse outros impactos ao ponto de, até mesmo sem ter a fama que eu vim a ter depois, os professores usarem como referência esse material e orientarem as pessoas que queriam falar sobre população negra para, talvez, pensar o mesmo trajeto que foi feito. Então, pra mim, foi muito bacana ter desbravado esse processo. E, com isso, eu comecei, durante as pesquisas eu vi que tinha um grupo, que era da Psinep, que são psicólogos, Associação Nacional de Psicólogos e Estudiosos de Relações Raciais no Brasil. E, logo que eu saí da faculdade, eles iam fazer um ano depois, um encontro em Recife. E, cara, foi muito importante ver um auditório inteiro de gente preta e que você não precisava, às vezes, você caía no desatino de perguntar a profissão, a pessoa falava: “Psicólogo”. (risos) E era muito bacana, ver muita gente preta, do Brasil inteiro, psicólogos do Brasil inteiro, inteiro. Negros que pautam relações raciais. E aquilo foi muito enriquecedor, pra mim, ir lá, me convidaram, falaram que tinha um grupo de trabalho de relações raciais aqui no Conselho Regional de Psicologia, aqui em São Paulo. E aí eu me tornei membro naquele mesmo ano, desse grupo. E olhando a questão racial e indo mais perto, já atuava na produção de currículos e percebia que só a maioria das pessoas brancas que compravam a elaboração do currículo. Para perceber essa automatização, eu precisava ir pra alguns lugares e cheguei nesses lugares com esse embasamento racial, de todos esses estudos que eu já estava fazendo. E olhar pro lado e não ver nenhuma pessoa negra ali, naqueles eventos de startup, me fez: “Cara, tem coisa muito errada aqui, né? Tem coisa muito errada”. E, com isso, eu falei: “Puts”. E aí eu me lembro muito bem que eu fui a um evento onde uma apresentação de Powerpoint. Aí, toda aquela coisa de ‘pitch’, de palavras em inglês e não sei o quê, ganhou vinte mil reais, de um produto que já dava na cara que não ia sair do papel, que tinha vários desafios ali. E eu pensei: “Cara, imagina um menino, uma menina da periferia, com vinte mil reais, que já está construindo, que já está fazendo coisas, imagina o que não vai fazer com esses vinte mil reais”. Falei: “Meu, isso é muito indignante, eu quero estar aqui, porque tem muita oportunidade e eu quero desenvolver algo que faça o meu povo mostrar o nosso potencial”. E dali surgiu já a BlackRocks, que não sei se é uma pergunta que você vai me fazer. (risos)

 

P/1 – Por que o nome, BlackRocks?

 

R – Essa é fácil responder, não fui eu que criei, não. (risos) Durante essa ida pros eventos de startup, tudo mais, eu acabei, na verdade, por coincidência, eu já estava atuando também como psicóloga, eu estava num espaço feminista, que era a Casa de Lua e tinha uma moça que é da Minas Programam e ela falou: “Maitê, tem um grupo, que eles estão, criaram, pra pessoas que querem entrar na tecnologia, de empreendedores e tal. Você tem a sua empresa e tal, você não quer entrar?” Falei: “Nossa, quero”. E aí ela me colocou e o nome do grupo de WhatsApp era BlackRocks. E eu achei legal, falei: “Poxa, que bacana!” E aí tinha um moderador, que é o Michel Cursino, que é um cara que, sem ele, o BlackRocks não existiria em nada, nem esse logo, nem nada e que ele que moderava esse grupo e ele oferecia bolsas de vários eventos, de várias ações que eram pagas, ele oportunizava que a gente entrasse, tal. E aí, o conheci só pelo WhatsApp mesmo, expliquei o que eu fazia, ele gostou e tudo mais e começou a conectar quem estava no grupo, para participar dessas ações. Eu comecei a me enfiar em tudo, em tudo, em tudo, porque eu não queria elaborar mais currículo. Queria poder entender como é que eu faria pra eliminar um pouco esse processo. Tentei contratar pessoas, tentei ver, terceirizar, mas nada dava certo, porque mantinha aquela mesma estrutura que eu tinha que revisar, que eu tinha que entender, que eu tinha que elaborar. E aí eu comecei a ir aos eventos, só que não saía nada do papel, porque eu estava encantada com aquele lugar. E aí eu lembro que eu cheguei no Michel e falei, mandei um ‘textão’, assim, pra ele, falando: “Nossa, tô muito preocupada, porque eu tô indo em todos esses eventos e eu não tô colocando em prática na minha empresa, mas, ao mesmo tempo, eu quero muito estar, porque eu entendo que a população negra tem que estar nesses lugares, eu penso muito em fazer alguma ação, que eu não sei o que é, mas eu penso muito em fazer uma ação voltada para população negra, pra que a gente possa entrar nesses espaços, a gente possa envolver ações e nossos negócios. Vejo muito potencial e não sei o que é, mas eu quero muito participar”. Ele falou: “Maitê, eu só estava esperando um líder para tomar conta disso. Então, se você quiser usar o nome, fazer o processo, a gente se encontra de quinze em quinze dias, pra poder te orientar, do que que acontece no ecossistema de startup, pra poder te ensinar, pra que você possa se tornar essa líder”. Nossa, foi tudo o que eu precisava, assim, né!? Foi tudo, tudo, tudo que eu queria. E a gente começou a se encontrar de quinze em quinze dias e isso foi extremamente importante. E aí ele me conectou com um designer, pra poder fazer o logo. Falei: “Olha, quero muito que seja a cabeça porque, infelizmente, quando falamos de população negra, ainda trazem a questão do corpo, tudo é muito relacionado com a dança, com o ventre, tudo o mais, okay, mas eu quero muito que a gente seja cabeça, quero que tenha algo relacionado à nossa inteligência, nossa intelectualidade, tudo mais”. E aí veio o diamante. Aí o diamante da cabeça, BlackRocks, diamante negro ou rocha negra. Então, a cabeça estruturada, a inteligência sendo valorizada, então pode ser um turbante, pode ser um diamante, você consegue ver todo o valor da população negra dentro desse logo. E aí, foi isso, assim, foi: “puts, é isso!” Quero valorizar cada vez mais nossa intelectualidade e eu, até hoje, graças a Deus, consigo fazer isso.

 

[Segunda parte da Entrevista]

 

P/1 – Maitê, queria voltar um pouquinho antes da BlackRocks, pra perguntar pra você uma coisa: como foi desistir do futebol? O que você sentiu?

 

R – Eu tô falando que vocês querem me emocionar, né? Terrível você, Bruna. Bom, acho que estar num mundo, sendo uma pessoa negra, é optar pelo esporte como saída pra vida, né? Como alternativa mesmo, real, de oportunidade. Então, conheço diversas pessoas negras que tinham o esporte como primeira profissão, que tinham o esporte como possibilidade, muitas vezes até a única possibilidade profissional, muitas vezes. Eu acho que abandonar essa ideia foi, realmente, arriscar pra algo que eu não sabia o que viria pela frente. Porque aí, como profissional do esporte, eu saberia que eu viveria, de uma certa forma, financeiramente dentro de uma certa restrição, mas que eu viveria daquilo que eu já estava acostumada, do que eu já sabia, que seriam os treinos, seriam os desafios dos campeonatos, que seriam os desafios de desenvolver todo um trabalho que eu já via outras meninas fazendo, que eu já tinha experiência, de poder perguntar pra professores que, até então, foram profissionais durante um período da vida e que depois deixaram de ser e se tornaram técnicos, se tornaram pessoas comuns, trabalhando com o esporte amador, entre outros. Acho que tomar essa decisão, foi tomar uma decisão de sair realmente de uma zona mínima de conforto e desbravar um mundo que eu não sabia se me acolheria, se eu seria uma pessoa que teria algum tipo de retorno, sucesso, entre outras coisas, se é que é possível trazer algo mais tangível, nesse sentido. Então, foi uma decisão corajosa pra uma menina de dezessete anos, que pensou muito na família. Pensei muito na minha mãe, na possibilidade de ofertar um suporte pra ela, em detrimento a um sonho que eu tinha, que eu sabia que eu não ia conseguir galgar muitos lugares e também porque eu errei o chute (risos) que a Formiga tocou pra mim, eu fiquei abaladíssima. (risos) Mas entendendo que é um desafio muito grande você trabalhar no esporte e sabendo que o desafio financeiro é uma grande questão, principalmente pro esporte feminino.

 

P/1 – Eu fiquei também pensando um pouco sobre a faculdade, além disso. Como foi ocupar esse espaço pra você e não se enxergar, nas matérias, nos seus colegas, nos seus professores? Como foi esse momento?

 

R – Sim, eu acho que, só de optar pela Psicologia, já foi um desafio. Porque eu não conhecia, até então, psicólogas negras, não sabia que era uma profissão em que era possível conciliar relações raciais, periferia, os desafios do nosso dia a dia com essa profissão, por exemplo. Coisas que hoje a gente vê que tem, não só mercado, mas muito valor para as pessoas que buscam. Tem muitas pessoas que buscam, mulheres negras, periféricas, que atendam população Lgbtqia+, que atenda, entre outras coisas, sabe? Então, se tornou um valor muito importante, que eu consegui identificar depois que isso é válido para as pessoas também. Mas ter escolhido, eu acho que pelo fato de eu ter sido bolsista do Prouni diante de uma cota social, inclusa de uma cota racial, porque eu entrei também nas cotas raciais, me fizeram não escolher a Psicologia, mas a Psicologia me escolheu. Eu brinco que, assim, eu tinha cinco opções, eu coloquei quatro Relações Públicas e uma Psicologia. E, por conta de ter escolhido a cota racial, eu tirei 74 por cento da prova, não foi um valor de cem por cento, não foi um valor tão pequeno, mas, como o número de vagas era muito restrito, então, as pessoas que tinham notas maiores, conquistavam as vagas. Por isso que eu acho que é um absurdo as pessoas falarem que cotista é... (risos) muito pelo contrário: a gente tira nota muito melhor que muita gente que passa sem ser cota. E aí, acabou que foi a Psicologia, dentro do número e das escolhas, acabou sendo Psicologia o curso. Então, eu brinco que não fui eu que escolhi a Psicologia, foi a Psicologia que me escolheu. E, quando eu chego na faculdade, como eu fiz uma faculdade que é lida como segunda linha, então tinha pessoas negras. Acho que, na sala, eu não me recordo, em algum momento, que não tinha pelo menos uma pessoa negra junto comigo, ou, até mesmo, tipo, de estar na universidade, de ver pessoas negras circulando por aquele espaço. Mas era uma faculdade lida como de segunda linha. Então, eu já sabia que o desafio empregador seria muito maior pra mim, porque eu não estava na PUC. Como eu tinha passado em outras universidades, só que elas, todas, exigiam… então, teve uma universidade que começava seis e quarenta e cinco, no Brás e eu saía da Lapa às cinco e quarenta e oito, então, nunca que eu ia conseguir chegar em uma hora no Brás, de metrô, de condução e tudo mais. Então, jamais conseguiria. Uma outra faculdade era de primeira linha, era integral o curso. Então, como ser uma pessoa que trabalhava, que dependia do trabalho pra conseguir ir pra faculdade, como é que eu deixaria o trabalho, para estudar integralmente? Então, foi uma coisa que, simplesmente, não houve qualquer tipo de possibilidade. Então, o fato de eu ter entrado na Uninove, numa faculdade que é lida como segunda linha, não foi porque não houve competência ou qualquer coisa do tipo, como as pessoas falam e sim que era viabilidade de ser na Barra Funda, eu trabalhava na Lapa, então, tudo isso fazia diferença ali, pra mim. E estar dentro da universidade é uma coisa muito louca pra nós, acho que uma população periférica, porque é um universo para além do universo corporativo, que você já tem uma linguagem, que você já tem uma estrutura, que você já tem que trabalhar de uma certa forma. Na universidade, você tem uma outra língua, que é acadêmica, que é de pensar nessas estruturas que negam a nossa existência e que a gente ainda tem que estudá-las pra afirmar que nós temos uma profissão. Então, eu acho que é muito dolorido. Eu vejo muitas pessoas negras que desistem de cursos, que atuam, que acabam sofrendo muito dentro do processo universitário e eu atribuo muito a isso. Como é que a gente fica num lugar que diz que são saberes e que esses saberes ignoram, tiram totalmente, invisibilizam a nossa existência. Quantos estudiosos da sua área, negros, você leu. Quantos livros foram construídos por pessoas negras? Cadê a psicologia africana, pra gente estudar. Cadê os saberes africanos, das diásporas, pra gente estudar. Eu vim conhecer Frantz Fanon, que é um psiquiatra, que foi um psiquiatra, muito renomado, fala sobre relações raciais, depois que eu saí da universidade. Por que que eu não o estudei dentro da universidade, sendo que a gente estava falando sobre processos psíquicos. Então, isso tudo foi muito difícil, assim, foi um processo bem complicado e que durou cinco anos e meio, porque eu reprovei numa matéria. Então, foi bem dolorido pra poder gerar, pra poder sair de fato, com um diploma, que eu percebo que muitas pessoas sofrem neste processo, também por conta disto, não só por conta disto, mas também por conta disto. Então, foi um grande desafio, perceber que a universidade pouco discute, mas que eu tenho certeza de que hoje e até então, antes e outras pessoas pretas, que trabalharam e trabalham muito: Cida Bento, Maria Lúcia Silva, entre outras estudiosas de relações raciais, hoje já estão sendo mais discutidas, porque os alunos estão levando pros professores (risos) essa obrigatoriedade de falar sobre isso. Então, me conforta saber que essa geração que está vindo, não vai passar pela mesma coisa que eu passei, isso é bom pra mim.

 

P/1 – E como funciona a BlackRocks?

 

R – Então, depois de entender que o ecossistema de startup é extremamente rico de recursos, de possibilidades, existem aí dados de que os fundos de investimento estão mantendo seu valor e crescendo seu valor, parados, porque não estão conseguindo investir, então tem oportunidades dentro do ecossistema de startups. Olhando pra isso, eu quis muito desenvolver algo que pudesse conectar as pessoas pretas a esse universo a estas possibilidades de desenvolver os seus negócios tecnológicos. Estão todos voltados para tecnologia, então, quando as pessoas falam: “Ah, uma startup é algo que está começando, né?” Eu tento sempre dizer pra elas que não necessariamente, que existe sim um “estar up”, que é estar começando, como se fosse em inglês essa expressão, mas “startup” é um termo pra estabelecer uma justificativa de quais as diferenças de um negócio tradicional com um negócio tecnológico. Então, uma startup precisa ter uma estrutura que coloque a tecnologia como meio, para que ela possa escalar e, de uma certa forma, ser repetível. Eu entrego o mesmo produto para vários clientes e a tecnologia me ajuda com isso. E, pelo fato de eu entregar o mesmo produto, eu consigo escalar com maior facilidade, consigo fazer com que muitas pessoas acessem. Esses são os dois termos bem importantes para afirmar que um negócio é uma startup. É diferente de um negócio tradicional em que, se eu atender dez clientes, eu consigo ali, se eu colocar os custos ali, tudo bem, mas se eu tiver que aumentar, eu preciso aumentar os custos, eu preciso desenvolver mais maquinários, criar mais uma estrutura, um espaço maior, pra poder aumentar o meu número ali, de clientes, escalar. Já a startup não, ela estrutura um mecanismo e pode atender dez mil pessoas e, de um dia pro outro, atender um milhão de pessoas, porque ela já tem uma estrutura ali, que é possível dela atender, sem aumentar o custo, tanto quanto o tradicional. Então, é um meio bem específico, ainda muito ‘nichado’, que ainda são poucas pessoas que têm conhecimento, mas que a partir do momento que as pessoas começam a ter conhecimento, a mentalidade de construção de negócios começa também a ser dessa forma, trazendo escala, trazendo possibilidade de alcance. E eu acho que tem um ponto aqui, que eu conheci, de uma forma empírica, que é a população negra, quando entra nesse mercado, ela não vê a lucratividade, a escala, como o público não negro vê, no mundo inteiro. Então, pensar um aplicativo de mobilização, pensar um aplicativo de entrega de produtos e serviços, precisa ter alguém que receba bem menos, pra poder ter um lucro, né? E essa é uma lógica muito capitalista, muito tradicional, muito, né, infelizmente, que está no nosso dia a dia. E, quando a gente vê startups que são lideradas por pessoas negras, elas têm uma preocupação muito grande de oferecer conforto, justamente pra quem está na base, justamente oportunizando pra quem ali, que está fazendo a ação acontecer também, que está envolvido, esteja envolvido integralmente, que tenham benefícios. Então, foi lindo perceber que não só a gente está olhando pro impacto, pensando na fundadora, no fundador negro, mas também pro próprio negócio, que já gera esse impacto social, esse impacto positivo também na sociedade. De uma certa forma, isso é muito bacana. Então, a BlackRocks, hoje, é uma aceleradora de negócios. Então, a gente tenta trazer uma startup, um negócio que está no ponto A e fazer com que, em meses, ela chegue num ponto B, ou que ela seja com um tanto de conexões e que ela possa ampliar suas conexões, para que ela possa crescer, pra que ela possa ser maior, enfim, pra que ela possa desenvolver a sua solução e, cada vez mais, agregar valor, tanto pra negócio em si, então, trazer empregabilidade para as pessoas, desenvolver seu próprio negócio, ter lucratividade, como também para a sociedade, que é um ponto que a gente também sempre busca desenvolver. É ousado e, ao mesmo tempo, necessário, porque um empreendedor sozinho não alcança os mesmos lugares. Nós fizemos um estudo recentemente com a Bain & Company, que a gente identificou que as startups lideradas por pessoas negras não acessam os mesmos lugares, porque os agentes de investimento, de aceleração, buscam sempre indicação de pessoas próximas. E aí, as indicações, sendo de pessoas próximas, automaticamente não acessa a população negra, que não está tão próxima desses grandes players. Então, olhar pra isso e poder fazer com que eles cheguem cada vez mais a ter acesso ao capital, a ter acesso a pessoas que podem abrir caminhos, a ter acesso aos clientes que podem oportunizar que a empresa tenha lucratividade, sustentabilidade, isso é muito importante pra gente.

 

P/1 – E tem alguma história marcante, com algum empreendedor que trabalhe com vocês?

 

R – Eu sempre vou olhar pro coletivo, né? Eu acho que vou trazer uma história recente, mas que isso acontece desde o primeiro dia que a gente começou a realizar ações. Todas as vezes que a gente se junta, empreendedoras e empreendedores negros, pessoas que estão querendo empreender, parece que abre um portal de oportunidades. Assim, todo mundo se sente muito motivado para fazer aquilo, até mesmo desistir (risos). Ou até mesmo ver que aquele não é o caminho e que está tudo bem tentar encontrar o seu lugar. Então, não tem um momento que a gente não se junta, quatro, cinco, oito, dez, quinze, vinte pessoas, trinta pessoas e que não gere essa sensação de que a gente está indo pra um caminho muito bacana e juntos, sabe? Juntas e juntos. Pra gente, é muito bonito ver isso acontecer. De, por exemplo, na primeira edição, uma senhora foi acompanhar o filho e viu toda aquela movimentação, tudo mais, e chegou pra ela um convite para que ela pudesse, como terceira idade, fazer um curso de games, para criação de games. E ela vendo toda aquela movimentação, todo mundo em mentorias e conversando, interagindo, deu o ‘start’, ela falou: “Não, eu vou fazer sim, que eu mereço e tal”. E aí ela, meses depois, em outro evento, falou que ela estava fazendo o curso, porque ela queria criar um joguinho pros netos dela (risos). Então, não tem nada a ver com a gente. Se ela quiser comercializar, ela entra como uma startup, mas o bacana foi ver que a mobilização não era só, não foi só por conta daquelas pessoas que estavam interagindo. Agora, recentemente, recebi mensagem de um negócio que está completando cinco anos e na época que iniciou, estava iniciando, a gente fez mentorias, então, poxa, poder entender que também tem um caminho aí, que a gente auxiliou, apoiou. Recebi até um brinde da empresa, falando, já agradecendo os cinco anos, é muito gratificante. Enfim, acho que tenho diversas histórias em que eu percebo o quanto que essa conexão é ancestral, essa conexão é muito potente, essa conexão é muito necessária e é uma conexão que a gente, muitas vezes, sem falar, a gente já sente que é um ambiente que não... que é totalmente diferente daqueles ambientes que a gente está em minoria nos espaços e quando a gente se vê em maioria, é muito bacana. Seja online agora, por conta da pandemia, ou seja, o presencial, que também é muito potente.

 

P/1 – E qual é a importância, para você, individualmente e também socialmente, de promover esses espaços e promover o acesso da população negra em geral, a ambientes de inovação e de tecnologia? O que significa isso, pra você?

 

 

R – Assim, pessoalmente significa que eu vou poder ter produtos e serviços que eu vou me sentir representada e ser respeitada por ser uma pessoa negra e vou poder comprar aquilo com muito gosto, com muito valor. E sei que aquelas soluções vão agregar no meu dia a dia, como já estão agregando. Acho que esse é um ponto de perceber que a lógica do mercado pode ser mudada por um menino, uma menina periférica, que está criando uma solução, que vai… eu sempre brinco, que eu quero muito quebrar as grandes empresas de tecnologia e eu sei que vai ser uma pessoa negra, na periferia, que vai quebrá-las e mostrar que tem um valor, que o Brasil também tem esse valor. Socialmente, eu acho que é uma responsabilidade. A partir do momento que eu sou bolsista de uma universidade, eu acho que eu tenho uma entrega, uma responsabilidade de entregar algo pra sociedade. Acho que, a partir do momento que a gente faz faculdade, a gente tem uma entrega para a sociedade, mas, no caso de ser bolsista, me traz essa responsabilidade maior ainda. Então, acho que, socialmente, para Maitê, é importante fazer ações dentro da área profissional que ela atua, para que ela possa devolver tudo aquilo, todo aquele conhecimento que, no final das contas, volta pra mim de novo (risos) e agrega, de uma certa forma, para todos. Acho que essa é uma entrega social. Pensando no BlackRocks, acho que nada mais justo do que criar uma instituição que, num primeiro momento, é sim uma instituição sem fins lucrativos, mas que já vem desenvolvendo estrutura para se tornar uma empresa comercial e que pensa nesta disrupção entre o que é social e o que é sustentável, de uma forma produtiva. Então, a BlackRocks, desde o seu primeiro momento, nunca deixou de cobrar os seus serviços, os seus produtos, as suas ações, porque a gente entende que a gente está entregando um valor pra sociedade. E que as grandes empresas, quem se beneficia aí, com o racismo, precisa sim, se envolver, investir nessas ações. Então, poder discutir desse lugar, né? Não só de perda, de problemas da população negra, mas sim como potência e o quanto que a gente precisa receber por isso. Eu brinco que é uma forma de reparação histórica. Então, o entender que todos os nossos trabalhos, todas as nossas ações precisam ser remuneradas, precisam constar ali como possibilidades de desenvolvimento, porque a gente lutou muito, meus ancestrais lutaram muito pra gente chegar até aqui. Então, eu não posso dar o que eles me ensinaram de graça, pra quem sempre negou a existência deles. Então, acho que é uma forma muito importante, socialmente também, de entrega.

 

P/1 – E eu sei que tem bastante desafio, mas quais foram os principais, de empreender? Como é que foi?

 

R – Acho que o estar sozinha é um grande desafio, por ser empreendedora. A sensação de que você está sozinha, de que você tem que tomar uma decisão, você não tem experiência, de que se você pudesse ver como é que as empresas fizeram aquela etapa, ficaria muito mais fácil. Eu acho que isso é um desafio e é um desafio que eu trago, tamanho, que eu não permito que as startups que passam pela gente tenham essa sensação de que estão sozinhas. Eu sempre falo: “Ó, tem um colega do lado, tem não sei quê, vou te colocar em contato com um mentor, calma, faz isso, vamos te colocar em contato com aquela empresa, com aquela ação”. Então, já se tornou um valor institucional nosso, não permitir que as pessoas sintam que elas estão desamparadas ou sem essa possibilidade. Acho que esse é um grande desafio de ser empreendedor, é perceber que, cara, será que tem alguma outra forma que as pessoas fazem, fizeram, que eu posso me beneficiar só de entender um pouco, de ouvir um pouco, pra quebrar um pouco essa rotina? Acho que esse é um grande desafio que eu ainda sinto, mas eu tento ofertar pras startups, pros negócios, num espaço menor, para que não aconteça. Eu acho que o desafio de ser uma mulher empreendedora, uma mulher negra retinta, de cabelo crespo, óculos, com corpo não necessariamente padrão, é um grande desafio. Eu acho que há alguns traços que são aceitos, meus, então, de uma certa forma, eu consigo estar em alguns lugares, mas eu acho que ter esse confronto o tempo todo, sendo estabelecido pelas pessoas, porque, às vezes, eu nem me vejo como uma mulher, numa negociação eu estou me vendo negociando as ações com a BlackRocks. Mas eu percebo que o tratamento, muitas vezes, é um tratamento que tem os seus questionamentos em relação a se fosse um homem no lugar, se falariam daquele jeito, se fosse uma pessoa branca no lugar, falariam daquele jeito, se fosse um homem branco naquele lugar, falariam daquele jeito. Então, acho que o desafio é este. Como BlackRocks é, ainda, a falta de discussão sobre a questão racial no Brasil. Ainda vem como uma ação acessória, ainda vem como uma ação que é benéfica para quem está sendo visível. Ainda acham que estão fazendo um favor pra gente, sendo que o desenvolvimento econômico do país só vai acontecer quando a população negra estiver totalmente integrada. Então, esse é um grande desafio, a meu ver, do quanto que falta ainda a discussão racial sair do raso, da beirada e ir para um espaço muito mais profundo, para uma discussão muito mais concreta que o Brasil, obviamente, pela sua estrutura e pela sua dívida, não vai querer nunca fazer qualquer tipo de discussão dessa.

 

P/1 – E os aprendizados que você experienciou, assim, durante a sua trajetória profissional?

 

R – Nossa, diversos, de vida, de forma de pensar. Cada dia eu aprendo mais, cada momento eu sou confrontada com outros pontos de vista e eu não estou falando de pessoas brancas, não, tá? As pessoas brancas precisam só ouvir, mesmo. (risos) Tô falando muito mais de hoje estar em contato com jovens, com pessoas mais idosas, com pessoas de fora. Ter contato, tive oportunidade de sair do país e ver a forma como os Estados Unidos lida com a questão racial dentro do ecossistema de startup é diferente do que a gente lida. Então, o aprendizado foi também importante, ver a forma como os Estados Unidos tem diversos problemas e desafios e que a gente aqui acha que tudo é incrível, maravilhoso também. Foi um grande aprendizado. Enfim, acho que pensar a gentrificação, pensar no processo que a gente chama aqui, no Brasil, de higienização. E pensar que isso impacta também no mundo dos negócios, isso, pra mim, é um aprendizado diário de perceber o quanto o racismo está instaurado em todas essas ações. E aprendizado do dia a dia, de perceber que a minha mãe, acessando as redes sociais, tem um determinado conhecimento, um aprendizado diário que ela troca comigo. A minha sobrinha, que me ensina pra caramba (risos), com doze anos. Meu sobrinho que vem trabalhar comigo, depois de um tempo. Então, isso, assim, é muito bonito perceber que o tempo todo a gente está ensinando e aprendendo, ensinando e aprendendo, ensinando e aprendendo. Isso é muito legal.

 

P/1 – E como é que foi essa experiência nos Estados Unidos? O que você tirou dela, enfim?

 

R – Eu fui pros Estados Unidos, fui pra Califórnia. Califórnia foi um dos estados que tinha uma população negra antes do boom tecnológico muito grande. População negra, na Califórnia, era de trinta por cento de pessoas negras do país. E, simplesmente, chegar lá e ver que, de trinta por cento, caiu para seis por cento, me fez muito me questionar o que aconteceu. Então, um país que tem um processo de desenvolvimento, obviamente, muito grande, mas tem um uso de drogas muito exposto, muito visível, assim, muitos moradores de rua, muitas pessoas que vão para as ruas por ‘N’ motivos, mas principalmente por conta do uso de drogas. Eu fui pra São Francisco, que é uma cidade extremamente rica e extremamente cara e que gera toda essa estruturação de moradores de rua, de pessoas usuárias de droga nas ruas. Acho que aquele brilho de imaginar que nos Estados Unidos tudo é perfeito, tudo é maravilhoso, que as pessoas, nossa, falam: “Não, é muito melhor”. Já fui sem, e já tive certeza de que é isso mesmo. Quando eu cheguei lá, o que me surpreendeu muito foi a história negra, na Califórnia. Eu tive a oportunidade de ir, estar na frente do prédio de um dos fundadores do partido Pantera Negra. Fui ao Museu da Califórnia, que tinha uma exposição sobre os Panteras Negras, a história em si, né, de tudo, Oakland, sendo uma cidade extremamente negra. Cara, foi muito importante ter vivenciado isso, porque o que chega pra gente de cultura afro, de cultura negra, perpassou ali, para aqueles espaços. E ver de perto, então… fui ao cinema assistir um filme que era O Último Homem Negro de São Francisco, era o nome do filme. E ver as críticas feitas que, de fato, São Francisco está cada vez mais diminuindo o número de pessoas negras, então, gentrificação, que é o processo de cobrar mais caro pelos lugares, estabelecer ali uma higienização, realmente, daquele lugar, pra cobrar cada vez mais caro, por conta do Vale do Silício, as regiões ali,  do vale, então, San Francisco, São José, entre outras cidades, estão ficando cada vez mais caras e a população que era nativa, que já existia antes do boom tecnológico, está se afastando cada vez mais. Eu peguei Uber com um motorista que é de Palo Alto e ele demorava uma hora e meia para chegar em São Francisco, para poder trabalhar ali, na região de São Francisco e falou: “Faz sentido? Faz porque, onde eu moro, as pessoas pouco pegam Uber e aí eu preciso vir pra cá, pra conseguir me manter”. Então, uma hora e meia de carro, pra você poder trabalhar, isso demonstra o quanto de abismo que existe dentro dessa estrutura. Mas, também, muitos movimentos negros olhando pra tecnologia, muitas ações pensadas, desenvolvidas por pessoas negras. Eu acho que foi muito importante ter vivido essa ação. Andei nesse carro tecnológico, autônomo, que uma mulher negra estava dirigindo e que era uma parceira, então, uma posição bem colocada também. Então, foi muito bacana ter tido contato com pessoas negras lá e pessoas não negras também. Tive contato com brasileiros lá. Foi muito bacana ter tido essa experiência. Além disso, eu fiz também um intercâmbio pelo Ivoti, que é um intercâmbio profissional do consulado americano, de três semanas, em seis cidades diferentes, em seis estados diferentes. Então, também foi uma experiência muito enriquecedora, ter contato com diversas pessoas, falando sobre empreendedorismo, falando sobre o digital, falando sobre empreendedoras mulheres. Então, foi muito legal, muito legal também. E eu espero poder viajar cada vez mais, que eu adoro viajar, quero muito poder conhecer a África, quero muito poder voltar. Minha primeira viagem internacional foi pra Paris, eu fui palestrar lá e também conhecer um pouco do ecossistema lá. Então, espero poder conhecer o mundo aí, pra desbravar todos e pensar como a gente pode fazer com que a população negra, cada vez mais ocupe, cada vez mais espaços.

 

P/1 – E como é o seu dia a dia, hoje?

 

R – (risos). Não almoçar? (risos) Nossa, meu dia é bem corrido, é um dia, hoje, graças a Deus, que é um dia de gestão. Então, eu faço gestão dos programas, das ações que a gente tem da BlackRocks. Eu divido essa gestão com a Elisabeth Rocha, hoje, que trabalha junto comigo e que vem sendo o braço direito da operação. A gente, hoje, tem diversos programas acontecendo, então, são programas de aceleração, são programas de um festival de inovação. Venho estruturando uma forma de investir nos negócios, liderados por pessoas negras, então também é a construção de algo, tirando algo do papel também. Cara, é um dia muito corrido, assim, né? Começa às nove horas, porque eu determinei que eu faça atividade física antes, tô concentrada, pelo menos duas vezes na semana é obrigatório fazer essa atividade física e aí fica o dia inteiro, depois, tenta ali, o máximo, almoçar e de forma decente, não sou boa na cozinha, então (risos) é um outro desafio. E, com isso, termina o dia aproximadamente sete, oito horas da noite, depois de muito trabalhar, fazendo todo o processo aqui, interno, nosso. Mas é isso: pra crescer, a gente precisa fazer isso, fazer o quê? (risos)

 

P/1 – E como é que a pandemia alterou, afetou a sua rotina, o seu trabalho, sua vida pessoal? Como é que foi?

 

R – Nossa, a pandemia alterou completamente, né? Muitas... Eu fazia muitas reuniões com empresas, com instituições, até mesmo com os negócios e eu saía bastante e eu, desde 2014, eu trabalho home office. Então, assim, pra mim: “Ah, nossa, vamos voltar pro normal”. Eu falo: “Normal é home office, então inventem outra história, porque é home office e eu gosto assim”. Mas eu saía bastante, então, eu ia muito para as reuniões, para ter contato com as pessoas, às vezes, ficava num determinado lugar, pra poder receber essas pessoas e tirar isso foi difícil. As nossas ações eram majoritariamente presenciais, majoritariamente não, a gente fazia todas as ações presenciais. E chegou à pandemia, num momento que já estava num processo de transição, já queria automatizar algumas ações, então, as mentorias, tentar fazer algo que a gente conseguisse, de uma forma mais online e a pandemia chegou antecipando tudo, antecipando todos os processos, todos os projetos e, principalmente, exigindo da gente ações. Num primeiro momento, veio uma necessidade muito grande de trabalhar filantropia, então, de ajudar as pessoas em relação a: “Puts, não vai ter água, não vai ter sabão, não vai ter alimento. Como é que elas vão fazer, já que vai ficar em lockdown e tudo mais”. Mas eu entendi que eu precisava fazer algo que fosse contínuo e muito bem, né? Eu tenho uma premissa de que o crescimento deve ser contínuo e estruturante, lento, contínuo e estruturante. Então, não ia adiantar querer fazer diversas coisas e sair buscando auxílio para ofertar cesta básica, sabendo que eu não ia dar continuidade com isso e que seria um outro desafio, além do desafio que eu já tinha. Então, eu entendi que eu não sou uma supermulher, entendi que eu tenho as minhas capacidades, eu tenho os meus limites também. Foi um primeiro ponto, um primeiro aprendizado da pandemia, que não dá pra acolher tudo e que, pra ter o crescimento que eu desejo, a mudança estrutural nesse ecossistema de startup, eu precisava ter foco, pra poder continuar lentamente, contínuo e estruturando tudo isso que a gente vem criando. Então, foi um grande desafio. E, depois, foi tentando tatear o que era possível fazer, como os negócios estão. A gente percebe: cada vez mais as pessoas estão mais sobrecarregadas, então, trabalhar o que a gente trabalhava antes, que era mais a parte técnica, a gente começou a dividir um pouco a parte técnica, mas também uma parte de acolhimento. Então, a gente estabelece momentos de escuta para esse empreendedor, para essa empreendedora, a gente tenta ali, colocar em contato com pessoas que possam, ali, dar suporte, incentivo e não só demandar ações e atividades para que sejam feitas, porque a gente está em isolamento ainda. Por mais que já estejamos sem lockdown e tudo mais, mas a gente ainda está muito isolado, ainda tem essa necessidade de permanecer cada vez menos em contato, em distanciamento social, então isso também gera pro empreendedor e empreendedora, uma não possibilidade de estar em contato com outras pessoas no seu dia a dia. Então, o processo de aceleração saiu de uma ação só técnica, para também ser muito mais humana, muito mais próxima das pessoas. A gente já tinha isso, mas a gente intensificou, porque entendeu que não daria pra não ter essa ação que as pessoas queriam. E se torna até um diferencial no nosso programa, porque a gente trouxe isso pra uma ação efetiva, de acompanhamento, de um olhar, de uma tensão que exige de nós, mas, em compensação, traz um retorno muito grande, porque essa empreendedora, esse empreendedor tem um suporte e mostra seu desenvolvimento através desses acompanhamentos. Então, é bem importante. Foi acho que o maior aprendizado. E um outro ponto também: hoje a gente está no Brasil inteiro, a gente consegue gerar negócios na Paraíba, no Rio Grande do Norte, sabe, Belém, Manaus. A gente tem contato em Cuiabá, a gente tem contato com o Brasil inteiro e isso antecipou o nosso interesse de desenvolver ações no Brasil, fez com que a gente tivesse essa oportunidade. Então, vejo por pontos negativos, obviamente, a quantidade de mortes, o quanto que isso impacta no nosso dia a dia, o quanto que essa instabilidade impacta e todos os prejuízos que a gente está tendo com essa má gestão que nós estamos tendo, mas também vejo pontos positivos, que é poder se aproximar cada vez mais das pessoas, mesmo através do online.

 

P/1 – Tem só mais quatro perguntas, é rapidinho.

 

R – Tá bom, vai dar tempo.

 

P/1 – Eu queria perguntar pra você o que a BlackRocks representa na sua história.

 

R1 – Eita! Bom, BlackRocks, na minha história, representa todo o meu histórico. Então, quando eu falo dessa menina que batia nos meninos, porque eles eram racistas, hoje eu vejo a importância de estruturar muito bem o meu discurso, os argumentos, então, os dados, as informações, para que a gente rebata informações errôneas e até discriminatórias, sobre a questão racial. Então, os estudos que a gente vem desenvolvendo, as ações que a gente vem fazendo, então, de uma certa forma, me trouxe essa resiliência pra eu lutar realmente olhando pra tudo isso. A menina que adorava juntar coisas, cientista e tal. Então, como pensar a psicologia, as relações raciais, tecnologia, startup, meu Deus, né, que loucura é essa?! Então, trazer tudo isso pro caldeirão da bruxa aqui, fazer alguma coisa, pra mim, é muito legal. Acho que o esporte, de pensar na coletividade e entender que cada um tem o seu papel, cada um tem a sua função e que dá pra ganhar um campeonato com cada um sendo estratégico e jogando no seu campo. Acho que isso é um ponto que eu trago da minha história. Enfim, acho que meus pais, a forma como meu pai negociava os terrenos, os carros, as coisas e hoje eu negociando com startups, com grandes empresas, com ações. A minha mãe exigindo de a gente estudar, quanto que eu tenho que ter comprometimento com os estudos, com as ações que eu venho fazendo, principalmente com a palavra que eu tenho. Então, isso eu aprendi com os meus pais também. Eu acho que, se eu for tirar, assim, um retrato, BlackRocks, pra mim, é a junção da Maitê e toda a história, mas também a junção do João, da Maria, do Antônio, de todas as pessoas negras que perpassam por mim e que eu pude conhecer, ouvir, entender, desenvolver conexão, perceber que ali tinha uma potência, a pessoa perceber que a BlackRocks é uma potência. Então, enfim, acho que é um compêndio de tudo e uma pitadinha de ódio (risos) bem grande, uma pitada bem dosada de ódio, que é o que eu sinto quando eu vejo que as coisas ainda estão do jeito que estão. Então, as pessoas falam: “Ah, nossa, você faz o que você adora, porque você, nossa, você é uma pessoa boa”. Não, não, eu sou uma pessoa que odeia o que a gente vive, eu não suporto pensar que a gente vai continuar vivendo dessa forma, então, eu decidi fazer algo pra mudar tudo isso, pelo menos um pouquinho, pelo menos na vida de algumas pessoas.

 

P/1 – Quais são os seus sonhos, hoje?

 

R – Meu sonho, cara, é complexo pensar num sonho específico, né? Mas eu queria que, pelo menos, a minha sobrinha não tivesse que justificar a existência dela como sendo três vezes melhor, sabe? Tendo que fazer muito bem aquilo que um homem branco, medíocre, não faz nada e ganha o título, pra poder fazer. Meu sonho é que a gente consiga descansar, pelo menos uma semana, duas semanas, sem ter violência, até batendo na própria porta ou nem batendo, já entrando com tudo e destruindo tudo. E não estou falando só de mim, tô falando de uma forma coletiva sobre isso. Acho que meu sonho é poder ganhar dinheiro, trabalhando com aquilo que a gente gosta, sem ficar sentindo a sensação de que você está deixando alguém pra trás, que alguém está ficando, que alguém que, sabe, tem um potencial enorme, não está conseguindo, pelo fato de ser só uma pessoa negra. Acho que, sei lá, meu sonho, meus sonhos não são sonhos muito objetivos, assim, que eu acho que eu tô conquistando, eu tô fazendo de tudo pra conquistar as coisas que eu tenho desejo. Mas eu sonho com coisas que eu não precise ficar, o tempo todo com a guarda alta, esperando a porrada vir, pra poder me defender. Eu sonho que a gente possa, um dia, descansar, sem precisar ter que ficar provando a nossa existência o tempo todo.

 

P/1 – Maitê, agora a gente está terminando mesmo, faltam só as perguntas mais conclusivas. Eu queria te perguntar se você queria acrescentar alguma coisa que eu não te perguntei, alguma história, alguma coisa que você queira falar, ou deixar alguma mensagem também.

 

R – Acho que não tem nada, acho que minha história é essa. Eu fico muito feliz e emocionada, porque eu estava conversando com meu psicólogo, que um dos meus grandes medos era todo esse trabalho um dia cair na invisibilidade. Cair no esquecimento, simplesmente as pessoas ignorassem todo o trabalho que está sendo feito, todas as ações que a gente vem desenvolvendo. E não só como Maitê e BlackRocks, mas sim todas as mulheres negras e empreendedoras que estão desenvolvendo ações, todas as atividades que um dia vai chegar alguém que vai pegar no meio do caminho e vai falar: “Não, fui eu que desenvolvi, tal e tal e não sei o quê” e pouco vai ver que a história vem de antes. Vem antes da Maitê, vem antes da minha mãe, vem antes de um monte de gente. E eu acho que poder ter um espaço desse, que queira discutir essas histórias, que essas histórias fiquem arquivadas, que um dia, quem sabe, daqui cem, duzentos anos, essa história possa ser ouvida, isso, pra mim, é muito gratificante. Então, só tenho a agradecer vocês, de verdade. Quando veio a notícia, eu falei: “Nossa, cara, eu não achava que era agora!”. Eu pensei, sei lá, eu bem velhinha, contando a história e tal (risos) e poder falar com as coisas acontecendo, nesse momento, assim, é muito gratificante. É importante poder ter isso. E o que eu espero é que não se perca, que a gente não tenha necessidade de guardar isso só na memória de algumas pessoas, que isso possa reverberar e que possa ser disponibilizado para diversas pessoas. Então, só agradecer mesmo. Acho que poder provocar vocês para que, cada vez mais, busquem narrativas pretas, né? Que a história não é feita só por um único grupo. Então, acho que é importante isso e só, acho que tenha nada, não. (risos)

 

P/1 – E o que você achou de ter participado dessa entrevista, contado, assim, um recorte da sua história porque, pra contar, seria preciso todos os seus anos, né? Mas o que você achou?

 

R – Achei a proposta muito bonita, de pegar mulheres empreendedoras, que estão fazendo essa história acontecer e nesse momento, que a discussão sobre empreendedorismo está tão envolta de diversas ações, de precarização do trabalho, de falta de alternativas para os grupos que a gente representa, entre outras coisas. Então, achei super importante, assim. Espero que, de verdade, a gente possa, sabe, que isso possa ir pra outras pessoas, possa acessar diversas “Maitês” aí, que buscam referências, que buscam pessoas pretas, que possa olhar e falar: “Cara, é possível, mesmo eu sendo da área X, é possível eu me espelhar e ver tal pessoa”. Então, assim, que bom que vocês fizeram isso, que bom que vocês estão fazendo isso. Parabéns pelo trabalho, é só parabenizar, mesmo.

 

P/1 – Muito obrigado. Eu sabia que essa ia ser a melhor entrevista! (risos) Obrigada, Maitê, eu fiquei muito feliz de você ter aceitado. Nossa, tô emocionada, assim, de fechar todo esse projeto dessa forma, muito significativo.

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