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História

A floresta que nenhum abuso conseguiu queimar

História de: Mapuãni Huni Kuin
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2020

Sinopse

Desde o momento em que foi separada dos seus pais nas correrias com os patrões, passando pela exclusão de escola por ser indígena, foi morar na rua pra não ser abusada, se tornou chefe de cozinha na França até que retornou pra floresta que a havia parido. Uma história com muitas cicatrizes, lágrimas, descobertas e cantos, uma resiliência profundamente amazônica.

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História completa

   Minha avó contava para mim é que os velhos, tanto os pajés, os mais anciãos  tinham que se esconder para falar da tradição. Quando queriam passar os conhecimentos, a gente tinha que se esconder para poder falar a língua. Eu estou falando mesmo assim da tradição, os cantos sagrados, evocar os espíritos da Natureza, então a gente não podia muito estar ali contando, porque não tinha essa permissão do povo. A gente era visto como demônios.

   No seringal todos trabalhavam, inclusive eu que era criança, por ser muito criança, eu tinha 7 anos e não me esqueço dos homens que chegaram armados  e começaram a queimar as casinhas, tivemos que sair correndo. Mataram a minha avó! Foi uma grande separação da família. Eu fui deixada para uma família, porque eu não podia seguir com a minha mãe e com o meu pai, com as minhas duas irmãs, eu fiquei lá. 

   Fiquei em uma casa de não indígenas,  ficava trabalhando na casa, cuidando das crianças, limpando, trabalhando... Eu dormia com as crianças dele e um homem dessa casa começou a vir para me tocar.  "Bom, vai acontecer duas coisas: ou eu vou ficar e isso vai terminar muito mal ou eu vou ter que ir embora". Tinha um casal que trabalhava na casa também e eles me falaram  "Olha, a gente está percebendo que está muito difícil para você, a gente vai lhe dar uma pista, porque eu conheço muito o seu pai. Vai embora! Eles estão no sertão".

 

 Eu fugi! Saí do Acre com 11 anos fui pegando carona foram muitas etapas, desde encontrar pessoas, de ficar e trabalhar um pouco nas casas, nos lugares onde eu estava indo, até que finalmente encontrei com eles. Só que quando eu encontrei com eles, para mim, já tinha uma coisa ali, já tinha acontecido algo muito forte. Eu também não conseguia mais ficar com eles. 

Eu fiquei meses ali, convivendo e percebendo também que, para a minha mãe assim, foi um inferno. Um inferno porque ela estava num interior pequenininho, onde as pessoas  íam para a igreja e a recebíam como uma bruxa. E que ela também estava muito infeliz. Estava viva, mas muito infeliz,

Eu fui me matricular numa escola,  eu tive muito orgulho de dizer: "Ah, mas eu nasci no Acre, eu venho do povo Kaxinawá", eu lembro que a diretora da escola falou assim: "Eu não tenho vaga na escola".  Será que é por esse caminho a educação? O que é educação? Depois de tudo o que eu tinha já passado deu vontade, sim, de aprender, de ir para a escola, de me integrar, mas  eu fui muito cortada. Digo: "Então tá, tá tudo bem". Eu acredito que a gente possa também, por exemplo, ser o que a gente quer sem precisar pegar um livro da biblioteca do homem branco para poder comunicar. Eu acho que existe outra comunicação, eu já sentia que essa comunicação para mim era a que ia ficar, era aquela mesma ali da floresta.

 Então eu fui trabalhar em casa de família e vivi outra história forte também, com homem, como menina. porque  não quis ser abusada sexualmente por um homem, não permiti isso,e fui para a rua, vivi quase seis meses morando na rua. Eu convivia muito com as prostitutas, com o povo da rua, com os drogados, e vinha muitos convites. "O que você quer?" Aí eu digo: "Ah, gente, eu  quero comer. Eu só quero comer, eu só quero estar aqui, eu quero comer, não quero passar fome". E eu convivi com esse povo, que eu agradeço muito, viva o povo da rua! É muita proteção, porque eu vi muitas coisas acontecendo. De mortes, de coisas bastante fortes. Foi uma passagem  bem delicada, porque existiam códigos. Mas, para mim, tinha um código, que era proteção mesmo assim da terra, da Natureza, dos espíritos da Natureza.

Eu saí da rua porque eu lembrei desse rapaz que trabalhava na portaria e eu voltei para mim mesmo e disse: "Ah, eu vou pedir ajuda, não é? Eu vou lá, porque não mereço, não quero ficar aqui. Tudo bem estar aqui, eu não quero continuar aqui". Voltei, conversei com ele que ficou super feliz, chorou muito quando eu apareci e me levou para a casa dele, a mulher com os três filhos, eu fui aceita como mesmo da família. Então fui trabalhar no supermercado que foi onde conheci meu ex-marido que era francês. Nós moramos 2 anos em uma favela em Fortaleza até que fomos pra França.

 

 Eu quero trabalhar, não quero ficar aqui dependendo da minha sogra, era o que pensei quando cheguei lá, meu marido bateu na porta do restaurante, a dona do restaurante saiu e ele perguntou: "Vocês estão precisando de alguém?"  "É, o restaurante vai abrir daqui a uma semana. Estou precisando sim". Fomos apresentadas e ela falou assim: "Você pode vir, a gente vai ter a entrevista com você, você quer trabalhar?" Eu digo: "Quero". Mas eu não falava Francês, não é? Aí ela falou para mim assim: "Você fala Francês?" "Falo Francês". "Então a gente pode continuar amanhã". "Tá bom" (risos). Mas eu não falava e era para trabalhar como assistente de cozinha, logo comecei a trabalhar. Quando ela me pedia para buscar uma cenoura, eu trazia uma batata, e ela percebeu muito que eu não falava, mas aí ela olhou assim para mim e falou: "Olha, você tem muita vontade e você vai ficar, eu vou lhe ensinar o Francês". E assim fiquei trabalhando com ela

 

 Tive a minha filha na França e aí tivemos uma sociedade com quatro amigos, de abrir um projeto que se chama Sol Semilla, que é de onde vem essa minha história da cozinha, com a cozinha intuitiva, Superfood. Entrei no mundo que é o mundo de que eu gosto, que é esse mundo da alimentação ligado com o que eu vivi. Então, quando eu conheci essas pessoas, entendi que eu podia também ficar em Paris de uma maneira mais diferente, a gente ia buscar, por exemplo, no Peru, a maca. Aqui, o açaí, valorizando pequenos produtores. Criei uma cozinha que é puramente intuitiva para comunicar com esses alimentos, porque a cozinha vegana. Porque o produtor de cacau, ele é do Equador, ali do Peru, e as variedades são variedades muito, muito boas. Então eu digo: “Gente, estou entrando num projeto que é, realmente, um sonho para mim, porque eu posso ficar aqui fazendo o que eu gosto. Claro que não estava pegando a acerolinha do pé, mas criei esse projeto de cozinha intuitiva para comunicar sobre esses alimentos, já viajamos para visitar os pequenos produtores e ficamos lá oito anos com esse projeto até que eu voltei pro meu próprio povo. 

 

Mas de todas as memórias Que a gente possa, todas nós mulheres ou a humanidade, que a gente possa lembrar dessa criança interna que a gente tem, levar assim no dia a dia a gente a entrar em contato com essa criança interior e não esquecer de rir dos defeitos das coisas, que, às vezes, não são tão fáceis, da vida. Que a gente possa estar sempre com essa criança aflorada na nossa vida, no nosso cotidiano, porque é muito mais leve quando a gente tem essa alma de criança. Porque eu estou falando de criança porque quando eu lembro da minha história, que muitas coisas não foram contadas em detalhes, em detalhes, mas eu lembro dessa criança que pisava no chão, que tomava banho, que subia nas árvores, que ia para Samaúma com as outras crianças, e essa leveza da criança.



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