Busca avançada



Criar

História

A filha do visionário

História de: Eleusa Garcia Melgaço
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

Sinopse

Eleusa nasceu em Uberlândia, Minas Gerais, em 1931. Passou uma infância boa, convivendo com o campo e a cidade, a avó plantava verduras e legumes e o pai era um visionário, pensando sempre alguns anos na frente de seu tempo e apostando em projetos inovadores. Apesar da época em que viveu sua infância e adolescência, essa visão do pai fez com que Eleusa fosse criada com plena liberdade de escolhas e de, por exemplo, viajar e viver sozinha em outra cidade. Eleusa conta principalmente sobre as relações familiares e sobre o trabalho dos membros da sua família. 

Tags

História completa

P/1 – Bom dia Dona Eleusa.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Eu queria que a Senhora, por favor, para começo de conversa, dissesse o seu nome, a data do seu nascimento e o local aonde a Senhora nasceu.

 

R – Meu nome é Eleusa Garcia, de solteira, Eleusa Garcia Melgaço, de casada. Eu nasci em Uberlândia, no dia 8 de outubro de 1931.

 

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe?

 

R – Alexandrino Garcia e Maria Silva Garcia.

 

P/1 – Qual era atividade do seu pai, eu sei que a senhora se lembra dele, a sua primeira infância, como é que era a sua casa?

 

R – A primeira lembrança que eu tenho do papai já era na máquina de arroz, de beneficiar arroz. Eu sei que antes ele teve outras atividades, mas eu já me lembro dele na máquina de arroz, e eu devia ter na época o quê? Uns três, quatro, cinco anos, e ele já estava trabalhando na máquina de beneficiar arroz junto com o meu avô. A gente morava numa casa muito simples, mamãe conta que foi construída por ele quando eles se casaram, ele que construiu a casa, fez tudo, e essa casa existe até hoje, ainda está aí em Uberlândia, é uma casa que a gente tem muito amor, ainda mais sabendo que foi construída por ele. Ali nós moramos algum tempo e de lá nós fomos para a praça, hoje é a praça da prefeitura, que era ao lado da máquina onde papai trabalhava. E ali nós passamos um bom tempo, e ele sempre trabalhando, de dia, de noite, era aquela correria, aquela luta. Ele era muito amigo dos fazendeiros que traziam o arroz para ele, então, a nossa casa era muito frequentada por essas pessoas, esses fazendeiros aqui da região, da (Pendas?) estavam sempre na nossa casa. Papai sempre gostou de fazenda, então a gente cresceu ali naquele ambiente de máquina de arroz, fazendeiro, e nós íamos, em férias, a gente ia logo para fazenda, para a casa dos compadres dele, dos amigos, né? Então, da máquina de arroz ele já passou para o posto de gasolina, aí ele já estava bem na máquina, e ele achava que tinha que arranjar uma colocação para os irmãos que já estavam... Nós ainda éramos pequenos, mas os irmãos dele já eram moços e ele queria que todo mundo trabalhasse junto, foi quando ele adquiriu o posto da avenida, da Avenida Afonso Pena, ainda hoje tem o prédio lá, do posto, era um postinho pequeno, posto de gasolina, logo ele transformou aquilo, e em seguida ao posto veio a concessão Chevrolet, que durante muitos anos ele trabalhou ali com todos os irmãos e construiu o que ainda hoje existe lá, que é a central Chevrolet da Afonso Pena. E naquela época ele não só trabalhava na concessão, mas como papai, ele era mestre de obras, ele ajudava na construção daquilo tudo, ele tinha um pedreiro, um amigo português, o Eduardo (Sigadans?), que era quem trabalhava para ele, então os dois trabalhava de igual para igual, não existia naquela época em Uberlândia nenhum prédio com porão, e o papai quis construir um porão naquele prédio, então, foi aquela luta, porque deu água e tinha as cisternas, e aquela confusão toda, e ele ali trabalhando como um peão, até que construíram aquela obra que na época era uma maravilha, hoje está superada, né, que tem muita coisa melhor, mas naquela época foi muito falado, muito reconhecido o trabalho dele. E ele começou com a concessão nessa época, ele pegou a concessão Chevrolet, ele pegou a concessão, e assim, muito devagar, ele ia a São Paulo comprar as peças, buscar os carros, daí que começou, acho que foi mais ou menos no tempo da guerra, muita dificuldade de combustível e tal, então, aí começou o crescimento maior. E é o que a gente lembra, nós fomos crescendo juntos, né, e sempre morando lá embaixo, na praça da prefeitura, moramos lá muitos anos, e o papai sempre trabalhando com os irmãos.

 

P/1 – Dona Eleusa, e seus avós, que recordação que a Senhora tem dos seus avós, materno e paterno?

 

R – Eu me lembro bem de ambos. Esse lugar, esse local onde o papai comprou o primeiro posto de gasolina, ele pertenceu à minha avó e meu avô materno, inclusive lá era a casa da minha mãe. Antes de o papai comprar o posto uma pessoa comprou da minha avó o pedaço, construiu o posto, que mais tarde veio a ser do papai, e a minha avó morava no terreno do lado, então, ela era vizinha ali do posto. Era uma pessoa assim, extraordinária a minha avó, e ela não tinha um poder aquisitivo grande, mas os netos adoravam a vovó, porque ela fazia o desejo de cada um, a gente chegava lá, gostava de uma coisa, ela sempre tinha para agradar. Já o meu avô materno, ele era mais distante, porque eles não viviam juntos naquela época, então, a gente conhecia o vovô, ele ia na nossa casa e tal, mas nós éramos mais ligados à vovó. E os meus avós paternos, eles moravam numa chácara, e aquilo para a gente era uma maravilha, né, ir para a chácara, tinha até um riachozinho que passava no centro da chácara e eu lembro do vovô trabalhando ali com papai na máquina de arroz, e vovó trabalhando na chácara, ela tinha as verdurinhas dela lá, tinha a freguesia dela, ela vendia verdura ali, fruta, então é o que ficou da infância, essa lembrança dos dois.

 

P/1 – Essa casa já em frente à máquina de arroz, como é que era essa casa, descreve ela para nós, por favor.

 

R – Não, ela era do lado.

 

P/1 – Do lado.

 

R – Quando o papai trabalhava, ela era do lado da máquina de arroz, era uma casa, hoje ela não existe mais, ela pertencia ao Doutor Oscar Moreira, que ele morava numa casa do lado, a casa do Doutor Oscar existe, mas essa outra eles desmancharam e hoje faz parte do jardim da casa. Era uma casa simples, as janelas eram para a frente da rua, não eram afastadas, era uma casa bem simples, e o papai e a mamãe gostavam muito de sair, ir ao cinema, e nunca nos esconderam que iam sair, nunca deixavam a gente com ninguém, então, a gente ficava na janela, Walter, meu irmão, que era o mais velho, eu e o Luiz, ficávamos na janela dando tchau para a mamãe e para o papai, naquele tempo não tínhamos carro, eles iam subindo a avenida a pé, para ir para o cinema, a gente ficava dando tchau, eles saíam, iam para o cinema, a gente ia dormir, os três só dentro de casa, sem problema, e assim a gente foi. Mas logo depois, o papai comprou uma casa do outro lado, que fica na avenida, hoje aquela Avenida Nicomedes Alves dos Santos, naquele tempo ela chamava Travessa Tobias Inácio. Papai comprou uma casa ali, geminada, os pais dele moravam numa parte e nós morávamos na outra, aí já era uma casa melhor, já tinha jardim, já tinha um jardim não, que ela era na frente também, mas tinha horta, minha avó gostava de plantar, e ela já saiu lá da chácara dela e veio morar nessa casa também, junto conosco, né? Era uma casa geminada, vovó morava ali, tinha um quintal muito grande com muita fruta, muita verdura, essa foi a terceira casa nossa, nós passamos para lá. Mais tarde a vovó voltou para a chácara, que aí já tinha feito uma casa nova para ela lá, ela voltou para lá, que é na Rua Princesa Isabel, e nós passamos para a casa que era da vovó, que era maior, que era geminada mas era maior. E nós moramos muitos anos até que papai adquiriu, em 1950, a granja, aí eles mudaram para cá, vieram morar aqui na granja, papai nessa época não estava já muito bem de saúde, o médico aconselhou ele largar os negócios um pouco, e ele passou seis meses em Portugal, o Luiz nessa época estudava já interno, estava em Campinas parece, Uberaba, eu não me lembro bem, e o Walter era que ficava em casa sozinho, já aqui nessa casa da granja. E eles ficaram seis meses em Portugal, nessa época eu fui passar um mês lá com eles, papai chegou já, saúde ótima e tal, isso em 1950, aí surgiram já outros negócios e eles continuaram morando aqui na granja, e ele ficou cuidando ainda da Chevrolet, da central da Chevrolet, depois comprou a outra central daquela Garinco [Artigos Industriais], né, e todos os irmãos dele trabalhavam com ele, e o Walter nessa altura tinha dezoito anos, mas o Walter sempre foi muito sistemático, ele nunca quis trabalhar em conjunto, em sociedade com os tios, com o pai, ele quis um negócio para ele, então papai o emancipou e comprou a Intermáquinas pra ele, e aí ele foi trabalhar na Intermáquinas, ele tinha um sócio sim, o Seu Gabriel Isaac Tomé, mas aí ele foi trabalhar por conta dele e tal, até que trabalhou alguns anos com o Gabriel, depois sozinho, e ali ele ficou na Intermáquinas até que Deus o levou. E o papai sempre trabalhando com os irmãos, até que em 1954 surgiu a oportunidade da Telefônica.

 

P/1 – Nós vamos chegar lá, mas eu gostaria apenas que antes disso nós pudéssemos falar sobre essa sua infância. Como é que a menina Eleusa brincava, se divertia na rua, com os seus amigos ali, como é que era?

 

R – Como nós morávamos ali perto na Praça da Prefeitura, e tinha o jardim da praça e tem um outro jardim menor do lado de cá, que hoje os ônibus passam ali em volta, ficava em frente à máquina de arroz e à minha casa, e ali nós tínhamos uma turminha que brincava, a gente naquele tempo brincava na rua, pulava corda, jogava peteca, mamãe não gostava que saía para longe, então a gente tinha que ficar por ali em frente a casa brincando. Mas eu tinha as minhas amigas que moravam ali por perto, a Iodete, a Noêmia, a Yara, aquela turminha que morava ali por perto. Então, nós ficávamos na praça jogando peteca, jogando bola, e para sair eu só podia sair para ir à festa, ir as vezes, a um cinema com o Walter, meu irmão, aí com turma a mamãe nunca deixava, a gente domingo ia a missa nós dois, sempre fomos muito amigos, e saíamos só os dois. E a gente crescia assim, brincando muito, estudei num colégio particular até o terceiro ano primário, aquele lá da Dona Riulina Cotta Pacheco, depois passei para o colégio das freiras. Papai tinha uma irmã que era missionária de Jesus Crucificado, e ela não entendia porque é que eu não estudava no colégio das freiras, então, ela conversou com o papai que eu devia estudar num colégio só de menina e tal, que era uma formação melhor, então, eu passei para estudar no colégio das freiras, irmãs, e lá eu fiquei até terminar o ginásio.

 

P/1 – Como é que foi a primeira escola, essa primeira escola como é que era?

 

R – A primeira escola, Dona Riulina Cotta Pacheco era diretora, a Dona Zélia Pacheco, irmã dela, foi a nossa primeira professora, por sinal uma professora muito querida. Era uma escolinha pequena, e a gente ali, a escola era uma gracinha, e além de estudar a gente aprendia sapateado, aprendia uma porção de coisa, e nossos colegas naquela época eram os filhos do Seu Toninho Rezende, o Antônio, o Ismael, a Solange, a Lúcia, então, a gente tinha a turminha lá da escola que aprendia sapateado, o Antônio sapateava muito bem, e o Walter, meu irmão, também estudava lá nessa escola, então, teve uma passagem engraçada que nós, no recreio, a gente brincava de pique, era aquela... porque era uma escola que tinha a escola no fundo e residência na frente, então, tinha tanque de lavar roupa, tinha quarador de roupa, e o Walter foi se esconder debaixo do quarador, e quando ele quis levantar para correr, para não ser apanhado, tinha um prego e ele espetou a cabeça com o prego, então, foi uma coisa que marcou muito aquela escolinha, né, o Walter com a cabeça furada com o prego, e a nossa professora, a Dona Zélia, nos queria muito bem e nós também queríamos muito bem a à ela, e até hoje aquelas amizades que nós fizemos lá perduram, alguns já se foram, ainda somos amigos daqueles meninos lá, da Solange, Valquíria, Lúcia, Doutor Ismael, as amizades que a gente fez lá, o Dr. Zaire Rezende, estudava lá na época também, então, a gente ainda conserva até hoje a amizade dessa turma toda.

 

P/1 – E a Senhora fez o primário lá?

 

R – Eu fiz até o terceiro ano primário.

 

P/1 – Depois?

 

R – Aí depois eu fui para o colégio das freiras, e o Walter, ele era um ano mais velho do que eu, e nós estávamos juntos na escola, e o Walter parece que perdeu um ano, eu sei que quando nós passamos para o colégio das freiras a mamãe não achou justo que o Walter, sendo mais velho, ficasse atrás de mim, então, me fez repetir o terceiro ano primário (risos) para ele não ficar atrás, aí eu fiz o terceiro ano na escola da Dona Riulina, mas eu voltei para o colégio das freiras no terceiro ano ainda, repeti o terceiro ano no colégio das freiras, né?

 

P/1 – Esse colégio onde era?

 

R – É o Colégio Nossa Senhora das Lágrimas, chamava naquela época, na Praça Coronel Carneiro, existe até hoje, a direção era das irmãs missionárias de Jesus Crucificado, ainda é hoje, parece, só que hoje mudou o nome, Colégio Nossa Senhora das Dores. Eu amava o colégio, gostava demais, e eu tinha um problema muito sério de alimentação, eu não gostava muito de me alimentar, e eu gostava da comida do colégio, então, quando eu ficava assim muito ruim e tal para alimentar, mamãe me colocava semi-interna para eu tomar as refeições no colégio, porque lá eu comia bem, né, e eu achava aquilo o máximo, maravilha, né, passava o dia todo no colégio, almoçava lá, e lá passei bons anos.

 

P/1 – O que é que tinha de tão sedutor no cardápio do colégio?

 

R – Olha, não tinha nada de especial, tinha uma carninha moída que era deliciosa, mas acho que era a companhia, eu gostava muito de brincar, de jogar vôlei, eu acho que depois do almoço a gente saía, ia jogar vôlei, e a gente estudava também, tinha horário de estudo, né? Eu sei que eu achava maravilhoso ficar no colégio o dia todo e almoçar lá, e lanchar lá, tinha um lanche lá, as freiras faziam umas puxas que a gente lanchava, um pão com mortadela, e aquilo era uma beleza, né, a gente achava ótimo.

 

P/1 – A Senhora ficou nesse colégio até quando?

 

R – Eu fiquei no colégio até terminar a oitava série.

 

P/1 – Quarto ginasial?

 

R – É, o quarto ginasial.

 

P/1 – Aí a Senhora...

 

R – Aí depois terminei, aí nós fomos, foi 1947 parece, 1948, nós terminamos aí eu fui para o Rio, aí fiquei três anos no Sacre-coeur de Marie, fazendo curso científico e depois eu fui me preparar para a escola de Farmácia.

 

P/1 – Só nesse ponto, a Senhora era uma moça, uma mocinha de Uberlândia, saindo para estudar numa cidade distante, como é que a senhora chegou ao Rio?

 

R – Papai tinha uma visão inacreditável, você imagina que em 1950, quando ele foi para Portugal, ele foi com a mamãe em maio, eu fui em julho sozinha para encontrá-los e ele achava assim super natural, eu viajei naquela época que o avião era ainda bem devagar. Saindo daqui pousamos em Dakar, depois chegamos em Lisboa, lá eu passei com eles quarenta dias passeando, depois eu voltei de novo sozinha e para ele era a coisa mais natural do mundo. Eu fui para o Rio, ele me deu uma conta bancária, talão de cheque, eu fiquei três anos interna, depois eu fiquei mais dois anos estudando fora e tinha toda a liberdade, e ele achava que tinha que ser daquele jeito.

 

P/1 – Nesse episódio, essa temporada de Portugal, como é que foi, a Senhora, sua mãe e seu pai, passeando, onde é que ela levou a Senhora?

 

R – Portugal, a maior parte do tempo realmente nós ficamos em Portugal, principalmente os dois, papai foi para o Cheire fazer estação de água e tal, mas quando eu cheguei nós rodamos uma parte de Portugal, papai ainda tinha parentes lá em Viseu, nós fomos visitá-los, viajávamos muito de trem, depois de lá nós fomos conhecer uma parte da Espanha e fomos até Paris, mas naquela época papai não falava outra língua se não o Português e eu falava aquele inglês de escola, muito fraco, então a gente não tinha assim muita... Foi a primeira viagem nossa, primeira experiência fora do Brasil, então, foi uma viagem divertida mas um pouco sofrida, um pouco medrosa, porque nós fomos à Lourdes, fomos à Fátima, e sempre sozinhos e com aquela dificuldade da língua, mas papai achava tudo fácil, tudo tranquilo, e nós rodamos uma boa parte da Espanha, de Portugal, até Paris, e sempre fomos a teatro, fomos ver touradas, sabe?

 

P/1 – Aí a Senhora volta e vai estudar no Rio de Janeiro no Sacré-Coeur?

 

R – Aí eu volto, eu tinha ido nas férias, né, aí eu volto para o colégio interno, fico mais lá até o fim do ano, no fim do ano papai e a mamãe regressam, e já ficam no Rio que era a nossa formatura, terminando o terceiro colegial, terceiro científico na época, e daí eu fiquei me preparando para escola de Farmácia, que eu pretendia estudar Farmácia.

 

P/1 – Nesses três anos de científico as suas vindas nas férias para Uberlândia, o que a Senhora fazia aqui, como é que era o seu programa em Uberlândia?

 

R – As nossas férias eram assim, maravilhosas, porque como a gente ficava o ano todo fora e nós éramos muitas que estudávamos lá no Sacré-Coeur do Rio, de Uberlândia, parece que nós éramos oito de Uberlândia, então, quando a gente voltava para as férias era festa, né, então, todo dia tinha uma festa na casa de uma, na casa da outra. A mamãe morava aqui na chácara já, aí as meninas vinham para cá passar o dia, então, principalmente as férias de julho, eram assim muito boas, porque era só festa, sempre de um lado paro outro naquela comemoração, aquele encontro, né?. E nas férias de dezembro que eram umas férias maiores, geralmente o papai viajava conosco, íamos para a praia, ele gostava muito de ir para São Vicente, para Santos, Guarujá, então, a gente nas férias viajava com ele, e em julho a gente ficava aqui, e as férias passavam como um piscar de olhos né?

 

P/1 – E como é que era o trajeto do Rio para Uberlândia, a Senhora vinha como?

 

R – Não, já era de avião.

 

P/1 – E para São Paulo para temporadas na praia?

 

R – Nós íamos de carro, papai sempre gostou de viajar de carro.

 

P/1 – Quanto tempo demorava para chegar à praia?

 

R – Ah, a gente saía muito de manhãzinha daqui, chegava lá já mais tarde, quando nós fomos, o Walter já devia estar com uns quinze, dezesseis anos, nós fomos para aquele Parque Balneário Hotel, que hoje parece que até é de um clube de futebol.

 

P/1 – Em Santos?

 

R – Em Santos, o Parque Balneário era um hotel super chique, e papai toda vida foi uma pessoa muito simples, e nos criou também assim bem simples, então, nós chegando ao hotel e as quarteiras assim, o pessoal do hotel, os serviçais, ficavam preocupados: “O seu pai sabe quanto custa a diária do hotel? De onde vocês são, de onde vocês vieram?”, né, e ficavam assim, chegavam a perguntar para a gente se o papai sabia quanto que custava a diária do Parque Balneário, sabe? Porque o papai, quando saía assim com a gente, ele gostava de sempre dar o melhor, mostrar o melhor, então a gente se divertia lá com o pessoal. E eu me lembro, a primeira viagem nossa assim para ficar num hotel de luxo foi aquela, então, eles serviam o sorvete do abacaxi, dentro do abacaxi, e realmente aquilo me encantou, nunca tinha visto aquela maravilha, e o hotel era maravilhoso, o Walter só ficou um pouco frustrado, porque tinha boate mas ele não podia entrar, que não tinha idade, né, e nós passeamos bastante, foi assim uma das primeiras viagens, que marcou bastante, né, por ter acontecido esses fatos pitorescos, mas foi ótimo.

 

P/1 – E o Senhor Alexandrino saía com a família toda para passear pela cidade, ir à praia?

 

R – Saía, papai gostava, ia para a praia, a gente ia conhecer, ele tinha amigos lá em São Vicente e a gente ia visitar, e naquela época aquelas praias ali perto de Santos que eram todas desertas, Praia de Anchieta, a gente ia passar o dia com esses amigos dele lá, esses patrícios, era uma época boa.

 

P/1 – E quanto tempo demoravam essas temporadas na praia?

 

R – Quinze dias era o máximo que o papai ficava, geralmente a gente ficava duas semanas, isso quando ele era mais jovem, porque depois que ele ficou com mais trabalho, com mais responsabilidade ele já não tinha tempo de passear mais, aí já saía menos.

 

P/1 – A Senhora, nesse tempo em que estudava, a Senhora chegou a ter alguma atividade profissional, mesmo nos negócios do seu pai?

 

R – Não, nunca, eu estudei, eu cheguei a fazer vestibular, fiz até o segundo ano de Farmácia.

 

P/1 – No Rio?

 

R – No Rio, na Praia Vermelha, e quando eu vim nas férias eu conheci o Valdir, que hoje é meu marido, e aí larguei os estudos.

 

P/1 – Como é que foi esse conhecimento...

 

R – O que foi uma paixão para o papai, o papai nunca se conformou de eu não ter terminado os estudos, ele morreu com essa mágoa, ele falava que eu podia ter esperado e formado, mas na época eu não pensei nisso e deixei.

 

P/1 – Foi num período de férias que a Senhora voltou para Uberlândia?

 

R – É, foi num período de férias, que eu vim para as férias em Uberlândia, como eu estava te contando, que a gente fazia muita festa, muita coisa, e as filhas do Sr. Francisco Caparelli eram nossas colegas lá do colégio do Rio, então, elas deram uma festa na casa delas, uma festa assim de férias, e lá eu conheci o Valdir, ainda voltei mais um semestre para o colégio, mas no ano seguinte eu já não voltei mais.

 

P/1 – E nesse meio tempo vocês se correspondiam?

 

R – É, a gente trocava cartas, o Valdir esteve lá uma vez, e aí eu não voltei mais.

 

P/1 – E essa paixão foi assim avassaladora?

 

R – (Risos) E graças a Deus perdura até hoje, é da idade da telefônica.

 

P/1 – A Senhora não teve a menor dúvida em trocar o seu curso de Farmácia por...

 

R – Não, não tive, interessante, não tive. E eu nunca desobedeci o papai, uma ordem dele, se bem que o papai dava ordem assim, ele falava, mostrava e a gente tinha que ter responsabilidade para resolver, quando eu quis ir para o Rio estudar interna, ele falou “Olha, que colégio interno não é brincadeira, ficar longe de casa”, ele mostrou, “você quer ir?”, falei: “quero”, “então vai, mas só volta depois que você tiver terminado os estudos.” Tanto que os primeiros tempos você acha horrível sair de casa para o colégio de freira interno, mas eu jamais disse a ele que eu estava achando ruim, que eu já conhecia bem papai, né, a única coisa que eu não fui obediente foi em deixar os estudos, aí ele também falou: “você quer casar, você vai casar, as consequências são essa, essa, essa, você não vai formar, mas você então assuma a sua responsabilidade de casar”, então, graças a Deus, até agora eu estou assumindo.

 

P/1 – O pedido de casamento ocorreu num período relativamente curto, não é?

 

R – É, foram o quê? Um ano, um ano e meio, que eu conheci o Valdir em julho, nós casamos em novembro do ano seguinte, até não era idéia da gente casar em novembro não, a gente ia casar mais para a frente, mas como o papai e a mamãe completavam vinte e cinco anos de casado em novembro de 54, aí ele falou: “Por que não casarmos na mesma data da mamãe e do papai, né?”, aí marcamos o casamento na mesma data e aí nós nos casamos no mesmo dia deles.

 

P/1 – Que dia que foi?

 

R – 27 de novembro de 54.

 

P/1 – Nós vamos falar um pouco sobre esse dia, só que precisamos trocar a fita, a Senhora nos dá licença só um segundo?

 

R – Está bem.

 

P/1 – Dona Eleusa, a Senhora disse que o seu pai, a preocupação dele, tinha uma preocupação com a educação dos filhos.

 

R – Com a educação dos filhos. Ele achava que a maior riqueza que ele poderia deixar para nós era o estudo, né? E naquela época ele queria que todos nós fizéssemos Economia, aquele tempo era Ciências Econômicas o curso, ele achava que era o curso que ia ser do futuro, e, infelizmente, nenhum de nós fez, né, porque o Walter, que era o mais velho, não fez, não estudou, ele fez só Liceu de Uberlândia, o Luiz partiu para a Engenharia, que desde pequenininho ele falava que queria ser engenheiro, e eu parti para a Farmácia e parei no meio do caminho, né, então, esse sonho ele não realizou não.

 

P/1 – Eu queria que a Senhora descrevesse como é que foi esse 27 de novembro de 54, seu casamento coincidindo com as bodas de prata dos seus pais.

 

R – É, foi uma festa bonita e muito tumultuada, porque papai morava ainda aqui na granja, naquela casa debaixo, não existia essa casa aqui de cima, e o papai sempre gostou que tudo fosse feito em casa, nada fora de casa, então, o meu enxoval, desde o avental da cozinha até o vestido de noiva foi feito aqui em casa, ele trouxe bordadeira, costureira, e era tudo aqui em casa, foi tudo feito aqui em casa, assim como tudo que deveria servir no dia do casamento foi feito aqui em casa, ele mandou vir de São Paulo um caminhão de bebida, de lataria, de tudo, porque tinha que ser tudo uma festa aqui em casa, do casamento, né, do casamento e das bodas dele. Então, foi tudo muito bem preparado, e nessa baixada aqui ele mandou passar um trator para fazer estacionamento dos carros, e a fazenda estava linda, ele mandou armar lá embaixo, que tem uma piscina bonita, ele mandou armar todas as mesas do buffet em volta da piscina, para a festa do casamento, que ele gostava muito, e começou de manhãzinha com uma alvorada com a banda de música, uma alvorada linda para eles, para mim, mais para eles, que estavam completando vinte e cinco anos de casado, depois, aí o casamento civil foi aqui em casa também, que tudo para ele tinha que ser aqui em casa. O casamento civil transcorreu tudo normal, depois do casamento civil, o Walter, meu irmão, morava lá embaixo, lá onde ele... até onde ele faleceu, e na casa dele ele, eu esqueci o nome da rua, na casa dele ele deu um almoço, o almoço do casamento e das bodas foi na casa dele, então, foi tudo num dia só, o casamento civil, o almoço na casa do Walter e à tarde o casamento. Tinha à tarde o casamento e a benção deles, né, e nós nos casamos no colégio das freiras, lá embaixo, onde eu estudei, e quando estava tudo arrumado, aquela maravilha, e nós descemos, o casamento seis horas da tarde, nós descemos para o casamento, mas ninguém se lembrou assim que eu precisava de alguém para me ajudar para aprontar, então, na hora de eu me vestir, de eu me aprontar, eu tive que me virar sozinha, mamãe me ajudando, porque ninguém lembrou de um cabeleireiro, nada, nada. Então, eu me aprontei e tal para o casamento, na volta do casamento que nós chegamos, que os convidados vinham chegando, estacionando os carros todos, caiu uma chuva que parecia que o mundo ia acabar de tanta chuva, e a casa lá não era grande, papai tinha feito um toldo na porta da cozinha já pensando que poderia chover, porque era novembro, e aquilo foi enchendo d’água e a água caindo e molhando os convidados, aquela loucura, e tinha um bolo muito grande dos noivos, e eles foram passar o bolo pela janela o bolo bateu em cima quebrou, enfim, foi um caos. E os convidados que foram chegando e parando os carros, numa determinada hora quiseram ir embora, porque não tinha jeito, não tinha jeito de servir, não tinha jeito de ninguém se movimentar, porque era para ficar tudo em volta do pátio, em volta da piscina, e aí ficou todo mundo aglomerado dentro de casa, nos quartos, para todo lado. E a pessoa vinha para pegar o carro, o carro estava atolado, porque papai tinha passado o trator, e foi quando começou a usar sapato de cetim, as senhoras muito chiques com sapato de cetim, pisavam o salto do sapato, enterrava na lama e ali ficava, e aquele desespero, e a mamãe aflita e eu chorando, porque não tinha jeito. Eu deixei para tirar as fotografias depois que eu trouxesse os convidados em casa, eu ia voltar para tirar fotografia na cidade, não voltei, eu tenho apenas algumas fotografias que um irmão da mamãe tirou lá na capela e tirou antes. Eu não tenho fotografia, assim de casamento, eu não tenho, porque não deu para voltar para a cidade, não era essa maravilha de asfalto que é hoje não, era uma estradinha de terra pequenininha, quarenta e seis anos atrás. A Floriano Peixoto era toda de terra, aí o povo foi atolando, foi aquela confusão, não podia servir ninguém, então, como tinha muita bebida, muita coisa, o pessoal ia pegando as garrafas de bebidas, de uísque, quem podia ir embora ia. Aí no dia seguinte nós tivemos notícia de que todo mundo estava lá no Bar da Mineira, que era o bar da época, tomando bebida que tinham levado daqui do casamento, e nós, numa determinada hora, vamos embora, né? Nós íamos para Araxá, vamos viajar, porque não tinha jeito, nem para a gente ficar dentro de casa não tinha jeito, aí um irmão do papai, tio Zé Maria, foi nos levar, e o Walter, meu irmão, emprestou o carro dele, que disse que o carro dele era mais confortável, era um Mercury. E quando nós estamos chegando perto de Araxá, estrada de terra, aquela chuva, aquela lama, o pneu fura, o pneu do carro, e o meu tio vai trocar o pneu e cadê a chave de roda? Não tinha chave de roda para trocar o pneu, só sei que madrugada com muita chuva, né, aí ficamos ali na beira da estrada até que passou um caminhão, desses caminhões que você pode imaginar, assim, caindo aos pedaços, aí o Valdir falou: “O jeito é a gente ir embora”, aí pedimos uma carona no caminhão e fomos. Chegamos em Araxá já amanhecendo o dia, pegamos um táxi e fomos para o Barreiro, aí o meu tio ficou esperando passar alguém, para emprestar uma chave para trocar o pneu, voltou aqui em Uberlândia, pegou outra chave de roda, arrumou o carro e voltou, porque nós íamos viajar naquele carro, e assim foi a nossa chegada no Barreiro de Araxá, aí nós chegamos de táxi, pegamos um táxi lá. E a mamãe, coitada, ficou aqui desnorteada, porque tinha coisa, assim, sobrou tudo, não tinha como distribuir, aí o que que eles fizeram? Encheram uma caminhonete de doces e salgados e foram distribuir nos patronatos [organizações que oferecem abrigo e educação a crianças pobres], patronato aqui, tinha um no Rio das Pedras, né, então, distribuíram tudo para os patronatos e para as creches, porque não deu para consumir as coisas, não tinha como servir, por causa da chuva. E o papai, no dia seguinte, com o trator desatolando carros dos convidados que tinham ficado atolados aí, então, foi uma coisa assim que marcou muito.

 

P/1 – Peripécia.

 

R – É, foi.

 

P/1 – A atividade do Senhor Valdir qual era, Dona Eleusa?

 

R – O Valdir ele é advogado, na época ele advogava e ele tinha um escritório junto com Homero Santos, e o Cleanto Vieira Gonçalves, ele se formou em Belo Horizonte, veio para cá, porque ele não é daqui, ele é de Pequi, ele se formou em Belo Horizonte, veio trabalhar aqui, porque ele era primo da Dona Lia do Colégio Brasil Central, e ela o chamou para trabalhar aqui, que disse que era um lugar muito promissor. Ele ia para Divinópolis, mas aí a prima o chamou para cá que, aqui o campo era melhor tal, e ele veio e logo abriu um escritório de advocacia, ele com o Doutor Homero, eles eram criminalistas, aliás, eles iam assim muito bem, de repente, o Valdir vira para a política, aí ele vai ser vereador...

 

P/1 – Aqui em Uberlândia?

 

R – Aqui em Uberlândia. Se candidatou a vereador, foi vereador aqui duas legislaturas, e depois ele se candidatou a estadual, deputado estadual, foi quando nós mudamos para Belo Horizonte. Ele foi eleito e durante três legislaturas ele serviu Belo Horizonte como deputado estadual, mas quando ele tentou o federal ele perdeu, ele perdeu e aí ele já estava meio desiludido com a política e deixou a política. Aí, alguns anos ele trabalhou ainda na Casemg [Companhia de Armazéns e Silos do Estado de Minas Gerais], no governo. Da Casemg ele passou para a  ABCMF, que era nossa, hoje não existe mais, lá em Belo Horizonte, era uma firma que tinha em Belo Horizonte, e hoje ele está aposentado, nós temos uma fazenda em Pequi e ele cuida mais lá da fazenda, está para lá, advocacia nunca mais ele exerceu, o que foi uma pena, que eu falo que ele vai prestar contas a Deus, porque ele era um excelente advogado e ele nunca mais advogou, se envolveu na política e a carreira dele ficou perdida.

 

P/1 – E como é que era ser esposa de um político, esposa de um político não é a melhor profissão do mundo, não é?

 

R – É, não foi muito fácil não, mas o Valdir tinha, se é que é virtude, ele tinha uma virtude, ele não misturava muito as coisas, por exemplo, ele não recebia eleitor na nossa casa, ele tinha um escritório, ele tinha um escritório na Assembléia, então ele recebia o eleitor dele sempre na Assembléia ou no escritório dele, ele nunca recebeu em casa. Chegava em casa ele era o pai, ele era o marido, ele foi assim, quando as crianças eram pequenas ele era muito dedicado às crianças, então, ele saía da Assembléia, era dedicação integral às crianças, só que viajava muito, chegava ao ponto de quando eu fui ter, acho que o segundo ou terceiro filho, ele não estava lá, eu falei: “o menino vai nascer e ele não vai chegar”, mas graças a Deus chegou. Então, mas ele militou na política muitos anos, mas nunca deixou a política interferir. Interfere, porque tem lá as ocupações dele e tudo, mas ele nunca trouxe para casa os problemas da política, nas férias nós íamos para Uberlândia, ele corria a região, que aqui era a região dele, e ele atendia no escritório na casa da mamãe, aí ele atendia o eleitor dele.

 

P/1 – São quantos filhos da Senhora com ele?

 

R – Nós tínhamos quatro, hoje nós temos três, que o nosso filho mais velho, o único homem que nós tínhamos, o Reinaldo, nós perdemos, ele morreu com vinte e dois anos, e nós temos três meninas. (tosse) E agora tosse.

 

P/1 – O nome das suas filhas, por favor?

 

R – É Regina Helena, Eliane e Eleusa Maria, pela ordem de idade, e o que nós perdemos era o Reinaldo, era o único homem que nós tínhamos.

 

P/1 – A Senhora, durante todo esse tempo, a Senhora e Sr. Valdir, nunca tiveram algum tipo de atividade vinculada aos negócios do Sr. Alexandrino?

 

R – O Valdir trabalhou algum tempo nessa firma lá em Belo Horizonte, a ABCMF era uma firma que fazia, não sei te dizer o que é que era...

 

P/1 – Componentes eletrônicos?

 

R – Componentes eletrônicos, né? Que ele trabalhou lá parece que oito anos, depois ele aposentou também, eles venderam também, acabaram com a empresa tal. E eu, eu sempre pertenci, sempre não, de alguns anos para cá eu pertenço à diretoria e tal, mas nunca exerci nada, hoje eu tenho o meu trabalho, que é uma agência de turismo, apesar de ela chamar ABC Turismo, mas ela não tem vínculo com a Algar, eu tenho um sócio, mas o Valdir não participa da agência de turismo, a agência é minha mesmo.

 

P/1 – A Senhora dá expediente lá?

 

R – Dou, eu trabalho lá. Nós somos os representantes em Minas da Pousada do Rio Quente, com exceção do Triângulo Mineiro, porque eu falei: “o Triângulo Mineiro não pertence a Minas mesmo não”, o Triângulo nós não podemos explorar, o resto de Minas é nosso, nós somos os únicos representantes em Minas da Pousada do Rio Quente, Minas e Espírito Santo também.

 

P/1 – Como é que é o seu dia-a-dia, com essas atividades todas, como é que...

 

R – Quando eu era mais nova eu trabalhava nos dois horários, mas hoje eu já não trabalho mais, eu só trabalho num horário, eu trabalho só na parte da tarde. Eu cuido mais da parte financeira da loja e atendimento às vezes, assistência ao cliente, né, eu tenho um sócio que está na frente de tudo, Seu José Maurício Miranda, então ele é mais presente na agência, e eu trabalho, mas sem muita atribuição para mim, vigio a parte financeira, cuido da parte financeira e estou sempre ali na agência mas sem muita responsabilidade.

 

P/1 – Mas tem algum tipo de contato em relação com cliente?

 

R – Eu não atendo cliente, eu dou uma assistência mais assim, fazer uma relações públicas com o cliente, eu estou na loja eu converso com o cliente e tal, não vendo o produto, mas estou sempre ali, às vezes, o cliente quer uma explicação, o cliente quer saber como é que é e tal, eu estou sempre ali perto deles.

 

P/1 – Dona Eleusa, como é que a senhora, depois de todo esse tempo, embora não estando diretamente vinculada aos negócios do seu pai, como é que a senhora enxerga hoje, na distância do tempo, esse conjunto de organizações, esse serviço que a CTBC e a Algar prestam para essa comunidade, como é que a Senhora vê o resultado de todo aquele pioneirismo que o Sr. Alexandrino teve lá?

 

R – Tudo foi plantado por ele, né, que ele tinha uma visão, assim, ele enxergava muitos anos na frente. Eu acredito que muito foi da visão dele e uma parte foi realmente do mundo que desenvolveu muito, né? Ele entrou numa área, que é a área de telefonia, que foi a que mais se desenvolveu nos últimos tempos, mas não deixa de ter sido a visão dele, né? Quando ele entrou em telefonia, o papai ele acreditava que era importante, mas ele pensava mais em servir a comunidade, que a comunidade estava mal servida, nós não tínhamos telefone, então ele queria servir. O papai gostava de servir, mas ele, com certeza, dentro do íntimo dele, ele sabia que ele estava plantando alguma coisa muito importante para o futuro, e foi o que aconteceu, essa explosão que a telefonia deu, tudo hoje depende do telefone, e eu acredito que isso tudo já tem, o responsável por tudo, para nós, foi ele, né, e o mundo que desenvolveu muito nessa área.

 

P/1 – Seus filhos tem algum tipo de encantamento com as telecomunicações?

 

R – Não, as meninas, a mais velha é estritamente mãe e esposa, ela não tem atividade nenhuma, a segunda, que é a Eliane é que é mais voltada, ela até morou aqui em Uberlândia dois anos, trabalhou na... onde ela trabalhou?

 

P/1 – Image TV?

 

R – Na Image TV, e gostava muito, era apaixonada por aquilo lá, mas ela teve que voltar para o Rio, que o marido trabalhava lá. Ela voltou, mas ela era uma das que é encantada, apaixonada com a Algar, eu acredito que até algum dia ela volte a trabalhar com a Algar. E a Eleusa Maria, que é a caçula, ainda está estudando, já é casada, tem um filhinho, mas ela está estudando, ela fez decoração e não era o que ela queria, não tinha vocação para aquilo, hoje ela faz Administração de Empresa, e ela fala que vai ser a minha sucessora na agência de turismo, eu não sei também se isso vai acontecer, se é isso que ela quer realmente, ela gosta, ela já trabalhou comigo na agência e ela fala: “oh, mãe, a hora que você aposentar eu vou ser a sua sucessora na agência.”

 

P/1 – Dona Eleusa, para terminar, quais são os seus sonhos, assim, o que é que a senhora vê para o futuro, o que é que a Senhora pensa, o que a Senhora gostaria de fazer mais, o que a Senhora sonha?

 

R – Olha, eu acho que, como mãe, eu sonho em ver minhas filhas bem, meus netos, que estão aí crescendo, bem, porque no mundo de hoje a gente tem que torcer para tudo dar certo, para as pessoas viveram bem. O que é viver bem? É ter paz, é ter uma profissão, cumprir bem o que pode fazer. Então eu, assim, meu sonho maior é ver todo mundo bem, porque eu já... não estou realizada, porque você nunca está realizado, mas eu já cumpri muita coisa, mas as minhas filhas estão começando, os meus netos, eu tenho neto que está com um ano de idade, então, a gente sonha ver esse pessoalzinho todo bem, pelo menos trabalhando, bem colocado, estudando, assim como papai sonhava eu sonho com esses meninos todos formados, todos estudando. Não quero grandes coisas para eles não, eu quero que eles sejam felizes.

 

P/1 – Quantos netos são?

 

R – São seis, a mais velha tem vinte anos e a mais nova tem um ano.

 

P/1 – Está ótimo, beleza Dona Eleusa, muito obrigado.

 

R – Obrigada vocês.


Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+