Busca avançada



Criar

História

A felicidade: uma bola, duas traves e quatro linhas

História de: Alexandre Mathias.
Autor: Thalyta Pedreira de Oliveira
Publicado em: 28/07/2021

Sinopse

Infância no bairro de Inhaúma, na cidade do Rio de Janeiro. Prática de futebol. Concurso e serviço à Aeronáutica. Desenvolvimento de projetos sociais como treinador de futebol para times femininos. Experiência nos Estados Unidos.

Tags

História completa

Projeto Cabine PNUD Realização Museu da Pessoa Entrevista de Alexandre Mathias Entrevistado por Breno Castro Alves São Paulo, 5 de novembro de 2009 Código: PNUD_CB015 Transcrito por Raquel O. Jordan Revisado por Leonardo Dias de Paula P/1 – Por favor, então, começando pelo começo, me diga seu nome completo. R – Alexandre Mathias. P/1 – E você nasceu onde? R – Rio de Janeiro. P/1 – Capital? R – Capital, 14 de novembro de 1964. P/1 – Maravilha. “Ah”, me diga uma coisa, onde você passou a sua infância, onde foi o seu período de formação? R – Eu nasci no Rio mesmo, na capital, na Lagoa, e fui criado em Inhaúma, né? Um bairro na zona norte do Rio de Janeiro onde eu morei boa parte da minha vida, até os 17 anos, quando eu acabei fazendo um concurso para a Aeronáutica. Passei, depois passei um bom tempo fora de casa. P/1 – Mas pensando na “Aúma” ainda. Aúma, é esse o nome? R – Inhaúma. P/1 – Inhaúma. R – É... um bairro pequeno, pouco conhecido até! É... até as pessoas... poucos conhecem, é um bairro pequeno na zona norte do Rio. P/1 – Me descreve um dia regular da sua infância em Inhaúma, ou da sua adolescência, mas enfim, da sua vida em Inhaúma, me descreve um dia. R – Naquela época que não tinha, como a garotada tem hoje, os Orkuts, MSN da vida, que a garotada chega em casa e vai correndo pra ver... checar seus e-mails né, suas mensagens, seus depoimentos. Aquela época era de a gente ir pra escola de manhã, chegar em casa, almoçar, ir pra rua soltar pipa e jogar futebol, né? Então, acho que a minha vida era como a da maior parte da garotada, pensar em final da tarde, noite, brincar de pique. Então, acho que tinha uma atividade muito mais natural do que talvez hoje em dia, né? Uma das preocupações que eu tenho, até no nosso trabalho lá com as meninas, é de voltar a ter um pouco do que a gente tinha antigamente, que eu vejo até... às vezes eu visito o local onde eu fui criado e a pracinha onde eu jogava pelada, que a gente chamava de rala coco, né? Um campinho de terra e... eu vejo lá, todas as vezes que eu vou, que às vezes eu passo perto quando eu vou visitar meu pai que mora lá perto ainda, eu não vejo nenhuma criança brincando, eu fico impressionado e pergunto: “onde estão as crianças?”, né? A resposta já sei: em casa no computador, provavelmente pendurados no MSN... P/1 – Mas eu quero que você me conte uma história de alguma coisa que aconteceu na sua infância, de alguma vivência na rua, algo que você teve que não aconteça mais hoje. Eu quero que você me dê um exemplo disso que você falou. R – “Tsc”... algo que não acontece mais hoje... P/1 – Que você fez, participou da sua infância, eu quero que você me conte essa história. R – “Ah”... era muito comum a gente jogar pelada, né? Chegar em casa, almoçar e tal e descansar e três horas da tarde, quatro horas, ia pro campinho lá jogar pelada. Quando eu era garoto era aquele esquema, né? “Cê” era novinho... então os mais velhos jogavam pelada na nossa frente e a gente ficava esperando uma brecha ali pra poder botar alguém, né? Ou tá em número ímpar, entrar pra jogar, ou então quem tinha a bola tirava a posição e a gente jogava. Mas, é... eu me lembro que não era muito aceito pelos pais no geral, né, jogar futebol. Acho que os pais preferiam que estudasse, né? Como era prática inclusive da minha mãe, que era professora, então queria que eu tivesse muito bem na escola, e então minha mãe me apertava muito nesse sentido e não gostava mesmo que eu ficasse o dia inteiro jogando bola. Mas se deixasse, eu ia jogar bola o dia inteiro, muito embora eu nunca fiquei em recuperação em nada. Mas, é uma coisa que eu me lembro muito, até de hoje, porque eu fugia, né? Eu jogava, não tinha jeito. Minha mãe era professora, ficava o dia inteiro fora, né? Eu corria e chegava em casa e ia lá fazia tudo... ou então fazia antes. Ia lá, jogava, mas chegava em casa tinha que tá tudo pronto porque ela ia ver meus trabalhos, tinha que tá legal. Mas jogava pelada todo dia! Não deixava de jogar. E naquela época ela não se importava porque ninguém se preocupava como hoje em dia... dos pais, né, que levam o menino pra escolinha porque tem que se tornar um jogador de futebol de expressão pra ficar rico e pra garantir a família. Na minha época não tinha isso. Nenhum amigo meu de infância, né, hoje em dia é um cara famoso no futebol. E tinha muito cara que jogava pelada comigo que, “pô”, jogava, jogava muito mais do que muito jogador que a gente vê na televisão hoje aí, né? Até eu as vezes... Hoje, com 45 anos, “pô”, não sou nenhum craque mas acho que poderia estar na vaga de muitos que eu vejo as vezes pela televisão [risos]. Então era muito comum a gente fugir, jogar, ficar na rua o dia inteiro, né? Vejo hoje a garotada aí preocupada com chuteira e tal e a gente, “pô”, se não tivesse aquele chute da época, né, que era o máximo ali, era maior satisfação. Então... era o sonho, né, minha vida era norteada em jogar futebol, jogar pelada. Hoje em dia tem campo de grama sintética em tudo que é lugar, campo de grama natural bom em tudo que é lugar, escolinha – eu nunca frequentei a escolinha, aprendi a jogar pelada na rua, né, aprendi a jogar, não com o meu pai... Meu pai não esquentava muito com futebol, era mais com meu avô que é fundador de um clube lá no Rio de Janeiro... P/1 – É mesmo? R – É, meu vô fundou um clube no Rio de Janeiro e foi jogador de futebol também. Eu nasci, fui criado junto com ele. Até minha paixão pelo futebol e pelo, no caso em especial, Botafogo, né, deve-se muito a ele também. P/1 – Qual é que é esse clube? R – É o Evereste. É um clube da terceira divisão no Rio, né? Já foi... teve maior expressividade. Hoje em dia caiu um pouquinho... acho que problemas administrativos... P/1 – Mas tu participavas com teu avô? “Cê” acompanhou... assim alguma coisa do clube? Você acompanhava? R – A vida inteira, desde criança... P/1 – Sim. R – Desde quando comecei a andar, já meu vô me levava direto pro clube. Eu estava sempre com ele, né? Em todos os jogos eu acompanhava o clube, onde ia nos jogos, nos campeonatos no Rio de Janeiro, né? Ele chegou até a segunda divisão, né? Não chegou a jogar na divisão principal, mas eu ia em todos os jogos com ele, acompanhava... eu... os jogos, né? Era como se fosse um clube de coração, muito embora eu seja botafoguense, até por causa de meu avô que era botafoguense também. Até nos jogos do Maracanã meu avô ia. Meu avô era... a vida de meu avô era futebol. Tenho meu avô como maior ídolo da minha vida, como pessoa e como esportista, né? P/1 – Então, futebol “cê” traz... traz no sangue já, né? R – No sangue. Eu... minha vida é futebol. Eu tenho minha profissão, tenho minha atividade, família, mas minha vida sempre foi... a paixão pelo futebol sempre foi... norteada pelo futebol... Televisão em casa... “tô” preocupado com os canais de filme que eu tenho, “tô” preocupado com os canais que eu tenho de esporte pra assistir os jogos durante semana [risos]. Primeiro, que não era uma coisa muito comum, né, antigamente quando não tinha TV a cabo, quando a gente tinha, era o meu avô. Chegava na época de Natal, meu avô reclamava: “Pô! Não tem um campeonato pra a gente ver na televisão”, né? Então, acho que eu acabei me acostumando e isso absorveu de uma forma tão natural que eu sou o que eu sou hoje e gosto muito, o meu negócio é bola. Se vocês chegarem na minha casa, “cês” morrem de rir. P/1 – Você é daqueles que assiste jogo de outro time que nem torce, ou se tiver passando um jogo você assiste mesmo que seja de outro estado... ou? R – Sempre. Eu sou carioca, né? “Pô”, nasci na Lagoa, criado em Inhaúma, moro no Flamengo, né? Tenho uma paixão muito grande pelo Rio de Janeiro, mas não tenho nenhum bairrismo pelo Rio. Se jogar São Paulo e Peñarol, torço pro São Paulo; Se jogar Grêmio e, “porra”, Liverpool, torço pelo Grêmio, né? Torço pelo time do Brasil seja jogar ______________ e o XV de Piracicaba, ou esse jogo que tá passando na televisão? Tô lá assistindo. Eu curto futebol, tô lá torcendo, né? Torço pro bem do futebol brasileiro em especial, porque a gente precisa tá sempre bem, tá sempre na mídia, sempre ganhando pras portas estarem se abrindo pra gente, né? P/1 – “Uhum”. R –... acho que isso é importante, né, são... É lógico: eu gosto vários esportes também, mas acho que o futebol é um grande, entre aspas, é um grande embaixador que a gente tem aí pelo mundo, né, abre muitas portas aí pro nosso país, pro nosso povo. P/1 – Sim. R – Em todo o planeta. P/1 – Sim. Então eu quero que você tente fazer uma ponte entre como que essa sua vocação ou esse seu talento, afinidade, não sei, esse seu gosto pelo futebol, como que isso chega no seu profissional? Como que isso se liga ao seu trabalho? R – Tá. Eu, como te falei, eu, com 17 anos, entrei pra Aeronáutica, né? P/1 – “Uhum”. R - Muito novo, né? E passei um tempo fora do Rio de Janeiro tal, mas nunca deixei de lado o futebol. Até, durante um tempo eu quis muito ser árbitro de futebol, né, eu dirigia de forma amadorística muitas vezes. Até uma época que eu servi no interior de São Paulo, né, um amigo me convidou, eu atuava... eu apoiava em alguns jogos amadores a arbitragem dele como assistente. Tive convite até pra fazer curso de arbitragem, não fiz na época e resolvi fazer curso de treinador de futebol, né? Depois fiz o curso, né, de... uns cursos na Aeronáutica... fui pros Estados Unidos. Fiz curso treinador de futebol nos Estados Unidos, né, me formei lá, já trabalhei até com várias equipes americanas, inclusive a equipe Olímpica americana, equipe sub-17 nacional americana também. Represento até mais entidades aqui no Brasil dos Estados Unidos, né? E, por conta disso aí, acabei desenvolvendo muito futebol e conhecimento até de futebol no mundo inteiro, em especial até o feminino, até pelos contatos com os Estados Unidos, onde a prática do futebol feminino é muito grande. Lá, quando se fala de futebol, se fala em mulheres, em meninas praticando o futebol. Lá – como a gente aqui, o homem tem de jogar futebol –, menina tem de jogar futebol, é o esporte número um, né? E eu... algum... exame de 13 anos atrás, em 1996, eu... como tinha muito material que eu ganhava, né, até da própria Aeronáutica – o pessoal ia descarregar, ia jogar fora, eles pegavam muito material que não ia ser mais utilizado – e montei um “nucleozinho” de meninos onde eu morava, né, nesse bairro de Inhaúma, então fazia um entretenimento pros meninos, fazia muita brincadeira com as crianças, gincana, tal, atividades, uma coisa muito informal... P/1 – Espontâneo? R – Espontâneo, né? Fazia porque tinha muita garotada que estava lá e não tinha o que fazer, não tinham Orkut, não tinham MSN, não tinham computadores, não tinham Internet, né, na época, assim e tal. Então eu resolvi fazer atividades com os meninos, e a gente tinha um trabalho bem legal. A comunidade apoiava, ajudava, e, com isso, até que um dia as meninas me chamaram, né, chamaram num canto e falaram: “Alexandre, as meninas querem falar contigo ali”, e até uma menina chamada Aline – lamentavelmente perdi o contato com ela, nunca mais vi a Aline, né, queria até vê-la no futuro, mas nunca mais vi, se mudou, perdi o contato com ela, até por que ela... se soubesse dessa história, até onde nós chegamos... conquistamos muitas vitórias legais graças a ela ter iniciado aquilo ali. Aí, ela me chamou e falou: “Alexandre, as meninas querem conversar com você”. Aí eu olhei aquilo, parecia uma reunião sindical, né, “Caramba, eu vou lá ver o que que é”, “tão reclamando de alguma atividade que eu fiz, uma gincana, querem melhorar, vamos lá”. Aí... “tudo bem? Oi? Em que é que eu posso ajudar vocês?”. Aí, elas: “não, sabe o que é? A gente quer jogar futebol”. Aí eu olhei pra elas e falei: “vocês, meninas, querem jogar futebol?”. Aí elas, uma delas virou pra mim – se não me engano foi a irmã da Aline, a Olívia –, “não, se eles, os meninos, podem jogar, por que é que nós não podemos?”. E eu nunca mais esqueci delas falando aquilo ali, se os meninos podem jogar futebol, por que as meninas não podem? Aí eu pensei: “É, tá aí! Vou botar vocês pra jogar futebol”. E, ali, nós montamos aquele trabalho e tá ali até os dias de hoje. E daquele grupinho ali de meninas, inclusive uma menina que começou ali com a gente, que chegou inclusive à seleção brasileira – não através da minha equipe, né, foi através do Madureira, de uma outra equipe que ela passou a jogar no futuro, depois do futebol de campo, que o nosso era só informalmente... o time de society, de beach soccer, que a gente jogava era futebol de praia. Mas, ela depois esteve no Flamengo, quando o Flamengo montou um time, esteve no Madureira e acabou indo pra seleção brasileira. P/1 – “Uhum”. R – Ela tinha uma menina – uma irmã gêmea, inclusive –, que era surda e muda, que jogava conosco e que eu acho que inclusive era melhor do que ela [risos]. Mas não foi pra frente, parou de jogar; inclusive é mãe, é casada e tudo, tem filho já crescido, né? Mas nós começamos o trabalho ali, o negócio foi crescendo tomando vulto, conseguindo parceiros, né. Vamos dizer assim, nós não tínhamos nem o nome de um time, né, depois passamos a ter, porque eu falei “Pô! Qual é o nome do time que a gente vai dar?”. E comecei a conversar com os colegas, tal, “Coloca lá um time de um país”. E demos o nome do time de “Azurra”, alguém deu a ideia lá. “Ah” gostava muito da Itália, aí botamos o uniforme todo de azul e o nome de “Azurra”, né? Aí isso aí acabou que eu vim conhecer um amigo que é do consulado italiano, aí perguntei pra ele se algum problema usar o nome, o uniforme da seleção da Itália. É amigo até hoje, ele é delegado do Comitê Olímpico Italiano aqui no Brasil [risos]. Nós somos muito amigos, já trabalhamos juntos e aí você cria um leque de amizade muito grande também e, com isso aí, a gente desenvolveu um trabalho que foi, paralelamente, um trabalho técnico, né, um trabalho de desenvolvimento de um trabalho social também, né? Ajudando meninas, apoiando meninas, né? E, com isso aí, meninas de um cunho social acabavam se tornando até expoentes, tendo em vista que nós já tivemos meninas desse nosso trabalho que foram para a seleção brasileira, meninas que já foram pro exterior. Tem meninas que hoje estão em universidade nos Estados Unidos com bolsa de estudos, né, meninas que hoje a gente pode dizer: “são felizes através da prática do futebol”. P/1 – Que bacana. Eu gostaria que você desse uma sistematizada nesse processo que você falou, achei muito interessante, mas, como uma resumida. “Cê” falou que isso começou há 13 anos, não é isso? R – 13 anos. P/1 – Foi quando a Aline puxou você de canto, essa... esse episódio de formação do grupo, certo? R – “Uhum”. P/1 – Então, 13 anos, 1996? R – 1996. P/1 – De lá pra cá, me conta um pouco dessa trajetória com mais detalhes. Assim, tipo, como foi o começo e como se desenvolveu, como... Dá um passo a passo aí do crescimento. R – Tá. Era... é... Isso é história pra duas horas aí [risos]. Nós temos que resumir bastante porque tem muita [risos]... P/1 – Em sete minutos, vai? R – Tem muita coisa aí... P/1 – Em sete minutos? R – Tá. É... isso como eu disse começou de... muito informalmente. Eu nunca ia esperar que um timezinho ali do bairro, né, de dez meninos ali que surgiram... Para você ter uma ideia, eu tinha meninas que jogavam conosco ali inclusive que eram... tinha meninas de 12 anos, tinha meninas de 25 anos, inclusive tinha uma que era... essa de 25 era mãe e tinha dois filhos, né, um dos meninos jogava comigo no time... trabalho dos meninos. Então eram idades variáveis. O negócio foi crescendo, a gente foi se organizando... _____ a cidade realmente se organizar, né? E depois aconteceu um episódio interessante, eu acho que ali, talvez, foi a parte que a gente iniciou um processo de organização, conheci de um convite de uma amiga que inclusive tem um programa no Rio de Janeiro chamado Bem Forte – um programa, uma produção independente, né, um programa de esportes, de variedades esportivas, de várias modalidades. Eu fui convidado pra uma festa de final de ano no programa dela e ela tinha um time do clube do Tijuca no Rio de Janeiro, um time forte, e ela convidou pra fazer a festa de final de ano num campo de society e eu levei essas minhas meninas! Que tinham ali idades variáveis, mas a maioria ali era até 17 anos. Fizemos um jogo amistoso e vencemos o jogo. E eu senti uma insatisfação muito grande por parte dessa minha amiga, por que eu pensei “perdeu a liga”, porque ela não se conformava de ter perdido o jogo para as minhas meninas, mesmo, minhas meninas... P/1 – Amadoras... R – ... Amadoras, né? Ao final do jogo ela veio me procurar e falou: “Alexandre, eu gostaria de fazer uma parceria e de unir o nosso time com você. Eu consigo um patrocínio pra você, a gente consegue uniforme, consegue tudo.” Nisso aí, eu levei o meu grupo pro Tijuca Tênis Clube no Rio de Janeiro, né? Juntamos com um grupo de meninas, fomos com um grupo muito grande representando esse programa Bem Forte, o Tijuca Tênis Clube, né? Formamos uma parceria: ela conseguia tudo, eu só me preocupava em treinar o time, né? Desenvolvemos esse trabalho em conjunto. Um episódio até engraçado que eu tenho... “ah”, minha namorada inclusive joga comigo hoje, já namora há alguns anos, né? Na época, ela começou a jogar conosco mas ela já tinha jogado duas vezes comigo. Ela ficou zangada porque, nas duas vezes que ela jogou, ela ficou no banco e, na segunda, uma vez ela entrou e só jogou cinco minutos, aí nunca voltou a jogar [risos]. Aí ela só voltou a jogar logo depois, [risos] e, hoje em dia, ela tá jogando bem com a gente já há bastante tempo, né? É uma jogadora muito boa, é elogiada por todos, é uma excelente zagueira, né? Já tem bastante experiência no futebol, embora ela tenha outra profissão, seja arquiteta. Mas ama o futebol, né, joga realmente com muita paixão. Então, depois nós começamos a nos organizar e um tempo depois, uns anos depois, acabei, em 2001, eu recebi um convite pra ir pros Estados Unidos e levar duas meninas, né? Até 13 anos, né? Para um trabalho que tinha lá numa entidade chamada Nike Sports Foundation, né. Eles estavam levando um treinador e duas meninas de cada, de vários países, – tipo uma seleção do mundo! – pra fazer um intercâmbio nos Estados Unidos com várias entidades. Então, nós passamos duas semanas, uma dessas meninas joga comigo até hoje. Passou um tempo sem jogar, né, voltou a jogar agora há pouco tempo, já tá na faculdade, mas voltou a jogar, né, a Marianinha. Na época ela tinha 11, 10 anos, 10 anos pra 11 anos. E ali que foi um grande empurrão, né, pra eu realmente ter a motivação pra trabalhar com futebol feminino, porque eu conheci o que era futebol feminino nos Estados Unidos, vi o que era possível fazer aqui e vi que era possível transformar as meninas aqui do Brasil, né, em expoentes do futebol e fazê-las felizes através do futebol, assim como os meninos são. E eu não via até então horizonte pra elas, né, no futebol. Hoje eu vejo, não através de se tornarem só expoentes, mas através de seu dia a dia, daquela... da prática esportiva, da sociabilização, que tem muitas meninas que eu já ouvi de pais, né, até recentemente: “poxa, minha filha era tímida, minha filha não interagia, minha filha quase não saia de casa, só queria saber de computador e ficar pendurada. Hoje em dia ela tem novas amigas, tem novas amizades, ela quer praticar um esporte”. Então, a gente fica feliz com isso tudo. E nessa época eu conheci um cara muito importante pra mim. O nome do meu time né, Team Chicago; a gente tem uma organização social também, né, uma instituição de meninas do futebol, que é o projeto social paralelo com alto rendimento. Mas o Team Chicago se deve a esse amigo, Hudson Ford, que é dono do Team Chicago nos Estados Unidos, que é um cara de uma origem social, de trabalhos sociais gigantescos, porque desde pequeno – ele é americano mas vem ao Brasil com missões indígenas, né, trabalhando com tribos Karajás. Ele diz até que ele começou a falar primeiro o Karajá, depois o português, depois o inglês. Em 2001, eu o conheci; em 2002, ele veio ao Brasil. Ele sabia que eu tinha esse grupo, que eu desenvolvia esse trabalho e era tudo fruto de eu arregaçar as mangas mesmo, de eu fazer meu trabalho, e ele vira pra mim e fala “Alexandre, você gostaria de usar o nome do meu clube e eu te ofereço todo um suporte pra você trabalhar?”. E foi aí que nós conseguimos, né, criar um processo de preparar realmente as meninas pra que desse oportunidade e com isso aí algumas já foram, né, eu tenho umas jogadoras que estão na Europa, eu tenho meninas que estão nos Estados Unidos, eu tenho meninas que estão aqui mas estão estudando, estão fazendo inglês, né? Mesmo que elas não se tornem expoentes, elas estão tendo ali uma base também cultural. E a gente acabou se tornando o Team Chicago, que é o nome do time dele lá... A gente criou aqui um núcleo chamado Team Chicago Brasil, né, a gente fez essa parceria que já existe há sete anos. P/1 – Bacana. E, tentando concluir: você está satisfeito com seu trabalho? R – Não completamente, acho que a gente ainda pode fazer muito mais. Eu procuro sempre me organizar a cada ano que passa, né? Eu sempre “tô” pensando já o que eu vou fazer pro ano seguinte. Eu acho importante, como a cada ano cresce o número de meninas, né, eu cresço mais, até por questões logísticas, por ser no Rio de Janeiro, a gente sabe que tem algumas questões urbanas e sociais que impedem a gente... P/1 – Sim. R –... um pouquinho do crescimento, eu procuro superar tudo isso, né, procurando locais como, por exemplo, hoje nós temos dois locais onde nós atuamos que são dois quartéis da Aeronáutica. Temos nosso suporte, onde nós temos segurança pra levar as meninas pra poder trabalhar... ficar mais fácil, né? Então, a gente não se desenvolve mais por questões logísticas mesmo, mas eu fico feliz que cada vez mais pessoas se aproximam, cada vez mais pessoas tentam, buscam nos ajudar, inclusive familiares, amigos que se oferecem a apoiar o nosso trabalho. Nos últimos tempos tem crescido bastante isso, né, mãos que se estendem pra ajudar as nossas meninas, inclusive até pessoas que já vieram do exterior apoiando mesmo, né? Inclusive, eu já tive até convite pra uma menina nossa ir morar, jogar, estudar na Inglaterra no próximo ano, uma menina de 15 anos, que completa 16 no ano que vem, né? A gente ficou muito feliz. Então, quando eu vejo situações como essas, pessoas se aproximando, pessoas elogiando, isso traz uma felicidade muito grande pra gente e ver que o trabalho que a gente tem, diário, de uma certa forma tá sendo recompensado, a gente fica muito feliz... E pela satisfação delas também, né, a minha felicidade é ver a felicidade estampada... P/1 – Certo. R – ... no rosto das meninas, né? Seja na prática diária das suas atividades, seja na volta pra casa que a gente... Uma das filosofias básicas é que volte pra casa melhor do que é, do que chegou, melhor tecnicamente, no seu treinamento, melhor na sua postura profissional, melhor na sua cultura e mais feliz, né? Então, quando a gente vê que ela voltou através... tá estampado nisso, através da sua declaração, a gente fica muito feliz. P/1 – Pensando no seu projeto então, essa é a minha última pergunta, eu quero que você me diga qual é o seu ideal. Como você... o ideal possível, não uma utopia mas, algo que você acha que seja viável de ser realizado nos próximos dois, três, quatro anos... Onde você acha que seria o melhor lugar possível pra vocês estarem daqui a médio prazo, assim, a alguns anos? R – Onde é o melhor lugar pra nós estarmos? P/1 – É, assim, o que você consegue... acha que seria o melhor pra realizar, entende? Tipo, não... não o lugar físico, mas o que... qual é o seu ideal possível pro seu trabalho? R – Tá. É, eu tento... A gente trabalha no nosso ambiente, das meninas que são afilhadas ao nosso trabalho, fazem parte do nosso grupo em torno de 100 meninas hoje... P/1 – “Uhum”. R – Tá. Vamos dizer próximo de 110, né? Mas eu gostaria de ver isso aí num nível muito maior, né? Eu tenho inclusive propostas até com 20 pessoas que já... se interessaram e a gente já... Nossa metodologia... A gente aplicar até em outros estados. E eu gostaria de ver isso aí multiplicado, e por muito, em todo o Brasil. Por que eu vejo que existe o sonho, o sonho de quê? Da menina, ela jogar futebol. Não é só de ela se tornar uma profissional em futebol, de ela ter espaço de jogar futebol, de ela poder praticar o futebol e... Muitas pessoas me perguntam, até em entrevistas – às vezes, quando a gente concede uma entrevista – sobre o preconceito, né? Isso na verdade existe, né? Eu acho até porque o futebol para o homem ele se tornou muito comercial, então existe uma barreira muito grande porque a gente vê, por exemplo, as escolinhas para os homens, os núcleos que existem, os clubes que existem. Existem muitos formadores de atletas expoentes ou descobridores de talentos pra se transformar em milhões de dólares no futuro, né? Então não se preocupam muito com a prática do futebol como entretenimento. P/1 – “Uhum”. R – Né? Então. E a menina muitas vezes busca isso. Eu recebo muitos e-mails de meninas que são formadas ou estão na faculdade querendo só praticar futebol, querendo só jogar. Eu sempre digo: “venha até nós”, né, a gente não tem processo seletivo nenhum. Eu não recebo só gente, meninas oriundas de comunidades, ou de projetos sociais. Eu recebo meninas da classe E à A. Porque eu acho que a questão social – a meu entender, né –, não é só a menina que é pobre, eu vejo menina de classe A que procura um ambiente de futebol, um ambiente esportivo porque ali ela tá se sentindo à vontade, porque ali ela tá interagindo, ela tá descobrindo amigas que talvez ela não tenha no outro ambiente que ela frequenta, sabe? Então, acho que essa questão do futebol tinha que se massificar, tinha que haver mais eventos e o evento que eu chamo não é aquele evento que se pensa muito, evento competitivo. Evento de futebol vale um troféu, vale uma medalha. Não! São eventos de confraternização, eventos que possam promover, geralmente, a paz. P/1 – Que bonito. Obrigado, Alexandre. R – Imagina. P/1 – Concluir isso. R – Obrigado a vocês pela oportunidade. P/1 – Que isso.
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+