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História

A fé, a vida e as feridas do meu filho Gabriel

História de: Cíntia Torres
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2021

Sinopse

Cíntia conta sobre seu filho, Gabriel, que tem dermatite atópica. Narra com a dor de uma mãe as feridas - não do corpo, mas da alma - e o sofrimento que seu filho por vezes sente, que também dói nela. Conta o envolvimento do Gabriel com a fé e com a igreja e das dificuldades de sua doença. Dos sonhos interrompidos. Mas fala, acima de tudo, sobre o amor incondicional de uma mãe para seu filho.

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História completa

Teve uma época em que o meu filho Gabriel se perdeu um pouco. Ele se envolveu muito pela fé, passou a ir a uma igreja que passava na televisão - e, nesse tempo, eu questionava alguns valores. Todo domingo ele frequentava, mas eu não.

 

Até que um dia ele falou para mim: “Mãe, eu tenho 16 anos. Os médicos falaram que a dermatite atópica que eu tenho não tem cura e eu me vejo, às vezes, me acabando de tantas feridas!”

 

Às vezes, ele fala: "Nossa, eu sinto que estou apodrecendo”. E falou também que podia fazer de tudo, como virar rebelde sem causa e usar droga, fazer qualquer outra coisa na vida. “Mas eu estou buscando a Deus, fervorosamente buscando a Deus. E você, que sempre foi uma mãe muito presente não está indo comigo”. Nem eu, nem minha mãe, e nem a minha menina ia. E, realmente, eu pensei “Eu não fui, eu não conheço, por que eu estou julgando sem conhecer? E se estão tratando ele tão bem, por que eu não vou?” E eu comecei a ir e vi que não é aquilo que a mídia fala tanto. Meu filho foi muito acolhido e muito bem tratado. As igrejas maiores têm os propósitos financeiros, mas você não é obrigado a fazer nada.

 

Mas ele teve um envolvimento emocional muito grande com a igreja bem na época de alguns exames. E ele apostou muito na fé: achou que os resultados iam dar bem menos do que deu. E quando chegou a hora, os valores tinham aumentado muito. Ele ficou muito chateado, mas não demonstrou tanto. No retorno da viagem do hospital das Clínicas, em São Paulo, para casa, em Araçatuba, nós paramos em um posto para comer e deu uma crise de choro nele, um desespero, que todos que estavam ali naquela lanchonete choraram. O motorista desceu e foi ficar com ele, o dono da lanchonete foi abraçar ele, ficar com ele, porque realmente foi muito chocante ver o desespero. Aí ele até deu uma esfriada, sabe? Hoje, não que ele não tenha fé, mas não tem aquele fervor que teve naquela época.

 

É desesperador ver o Gabriel assim porque ele nunca teve nada. O Gabriel apresentou um processo alérgico quando era criança: a roupa, à lactose, mas fez tratamento. Fora isso ele não apresentou nada. Ele levava uma vida normal, foi uma criança que brincou muito! Ele sempre foi muito reservado, os amigos dele eram poucos, mas sempre muito sincero, muito intensos. E de repente...

 

Se me contasse cinco anos atrás que ele estaria passando por isso, eu falaria: "Não, isso é uma mentira, você está me enganando!" Porque foi muito rápido todo o processo alérgico. E dá desespero.

 

Alguns jovens não seguram as pontas e tentam o suicídio. E é uma coisa que a gente sempre teve muito cuidado: sempre quando está muito triste, a gente procura não deixá-lo sozinho. Teve noites e noites que a gente revezava, eu sem dormir, minha mãe, meu padrasto ou minha menina, porque a gente tinha medo de ele tentar fazer alguma coisa, apesar de a gente ter aquela confiança muito grande nele, saber do amor que ele tem pela vida. Mas a gente sabe que não é fácil.

 

Um dia, ele não estava muito bem, com uma crise muito forte. Mas eu trato ele normal - respeito as limitações, mas cobro dele fazer algumas coisas. Eu saí para trabalhar de manhã e quando voltei na hora do almoço, ele ainda estava no quarto deitado. Aí falei para a minha mãe: “Mas por quê ainda deitado?” Ela falou: "Deixa o bichinho descansar!” Aí eu comecei a chamar e só escutava ele resmungar. Entrei no quarto e ele estava totalmente inchado, deformado, com ferida para todo o corpo.

 

Durante aquela noite ele teve uma crise muito forte e o pescoço dele estava tão deformado de inchado que ele sabia que a glotes estava inchando e que ele ia morrer. Eu acredito que na cabeça dele, ele não estava se matando: ele estava morrendo.

 

Quando eu entrei e vi aquilo, falei: "Você se troca agora que nós vamos para Santa Casa”. Ele: “Não vou!" “Para de brincadeira, Gabriel, vamos trocar essa roupa logo e vamos!” O Gabriel segurou no meu braço e falou: “Você não está entendendo! Eu desisti, eu não quero mais, eu não mereço mais isso. Para mim chega, eu cheguei no meu limite!”

 

Eu acho que para uma mãe não existe coisa pior do que ver tudo que você mais ama sofrer - e você sentir aquele sofrimento e ao mesmo tempo ter que respeitar. Todo mundo fala que a gente tem que ter respeito pela decisão deles. Mas você não vai aceitar simplesmente: então eu vou parar aqui e vou ver meu filho morrer sem eu fazer nada? Na hora eu fiquei brava: "Se nós viemos aqui, nós vamos continuar! Se você chegou até aqui é porque você aguenta!" Já fui pegando a roupa, ele se trocando, aí a gente ligou para a emergência, ele tomou medicação e ficou bem. Ficou tudo bem...

 


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