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A Fazenda Papuda

História de: Américo Meirelles
Autor: Memórias Oleiras
Publicado em: 16/04/2019

Sinopse

A fazenda Papuda pertencia ao município de Luziânia. O trajeto no lombo de animais de montaria desde a fazenda até a dita cidade transcorria um dia inteiro de viagem e dois dias em carro de bois e situava-se onde hoje está localizado o Complexo Penitenciário da Papuda, na região administrativa da cidade de São Sebastião DF.

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História completa

A fazenda Papuda pertencia ao município de Luziânia. O trajeto no lombo de animais de montaria desde a fazenda até a dita cidade transcorria um dia inteiro de viagem e dois dias em carro de bois e situava-se onde hoje está localizado o Complexo Penitenciário da Papuda, na região administrativa da cidade de São Sebastião DF. A fazenda foi desapropriada pelo estado que passou para União em 1957. O nome da fazenda se deve provavelmente a um casal de negros escravos que os antigos encontraram na beira do córrego, denominado córrego da papuda e que a mulher era portadora de uma deformidade física, espécie de bócio, aumento do volume da glândula tiroide, ocasionando o papo ou papeira. A fazenda pertenceu ao Sr. Manoel José da Costa Meireles e foi transferida por herança ao irmão e genro senhor Josué da Costa Meireles, que foi casado com Maria Elísia da Costa Meireles. A partir de então a fazenda ficou para os herdeiros, filhos do Sr. Josué da Costa Meireles, conforme nos conta o seu neto, Sr. Américo de Jesus Meireles, morador da antiga fazenda por mais de 50 anos. Ele prossegue descrevendo os pormenores das divisas da grande fazenda, que era “compreendida numa área de 7 mil alqueires, partindo do rio São Bartolomeu até a Barra do Mato Grande, e da cabeceira rumo a Taboca, daí rumo a Canjerana até a barra com o Gama e por ele acima, até a barra da Cabeça de Veado de rumo a Cabeceira do Cachoeirinha e por ele abaixo até o São Bartolomeu e por ele acima até a barra do Papuda, portanto nos limites do Paranoá, Taboquinha, Gama e Santa Bárbara, todas grandes fazendas com muito gado”.

 

A edificação da fazenda seguia o modelo da arquitetura bandeirista com esteios de aroeira, telhas de barro e paredes erguidas em pau-a-pique e adobe. Na fazenda tinha a casa de morar, antiga residência da família Meireles, a casa do moinho onde fabricavam o fubá de milho, com uma máquina antiga feita de pedra e movida por água, artefato da engenharia antiga, além da casa do engenho, local de fabricação da rapadura e o açúcar, com matéria prima da própria fazenda, pois ali plantava a cana “Java”, “cana rocha”, além da cana “caiana”. Mais adiante existia a casa dos escravos, que chamavam de senzala, construída com cômodos amplos, pesadas janelas de madeira e bem arejada. O Sr. Américo nos conta de uma curiosa roda que os antigos diziam existir ali, cuja função era açoitar os escravos, e que essa roda era girada por forças das águas, entretanto ele não chegou a ver esta roda. No portal da janela que se abria para o quintal existiu um sino de bronze de aproximadamente 20 cm e que servia para anunciar os horários das refeições aos trabalhadores e moradores da antiga fazenda. No quintal carregado de verde, vicejavam várias espécies de árvores frutíferas, especialmente enormes mangueiras, jabuticabeiras, laranjeiras e outras. Na paisagem distante cercada por morros havia uma cruz de aroeira e que está fincada por lá até hoje, pois era costume dos fazendeiros antigos colocarem uma cruz no alto dos morros como símbolo do cristianismo e também para demonstrar a fé e proteção ao lugar.

 

A principal atividade econômica da fazenda era a pecuária, com a criação de gado para corte, gado comum, ou seja, o Gir cruzado com Guzerá ou Índio do Brasil, que geralmente era comercializado em Pires do Rio e também Vianópolis, e casualmente com algumas vendas para Barretos SP. A agricultura na fazenda se voltava para plantação de arroz, milho e feijão para consumo próprio. A fazenda chegou a ter 02 carros de bois que, além de contribuir para os serviços da fazenda, foram utilizados nas viagens até Vianópolis Go, especialmente para o transporte de sal. A viagem, bastante cansativa, durava em torno de 4 dias para chegar ao destino. Fardos de sal chegavam a estação de Vianópolis em vagões do trem, antiga Maria fumaça. A fazenda foi palco de festejos e romarias com fogueiras, oração do terço, leilão e muita catira em homenagem a Santo Antônio, São João, São Pedro e São Sebastião, pois era comum, naquele tempo a Folia do Divino passar pela fazenda, pois ela saía da região do Garapa indo até o Paranoá e voltava. O Paranoá ficava próximo a Planaltina e Luziânia, e na parte de baixo, ficava próximo a Unaí. Importante notar a confecção dos móveis para a fazenda, pois a madeira era retirada da matas da região. A maioria dos móveis foi confeccionada pelos escravos, que lavravam a madeira com o encho, e utilizavam o Balsamo, Aroeira, o Cedro, Moreira ou o Landim, todas consideradas madeira de lei. A fazenda recebia a visita do padre Bernardo para os serviços da igreja que naquele tempo chamavam de desobriga, sendo que o padre visitava a fazenda a cavalo. O Sr. Américo nos conta que, depois da desapropriação, o casarão da fazenda foi desabitado e com o tempo foi caindo e desaparecendo da paisagem.

 

(Texto adaptado de artigo do Sr. José Álfio e Américo de Jesus Meireles. Na foto de 02/10/1956 está o Casarão da Fazenda Papuda, com Lázaro Meireles, Américo de Jesus Meireles e Manoelzinho. Acervo de: Cora de Lurdes Meireles)

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