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História

A fase carioca

História de: Odilon Alves da Rocha
Autor: Odilon Alves da Rocha
Publicado em: 12/08/2004

Sinopse

Blocos de Carnaval de 1955 no Rio de Janeiro.

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História completa

PENSANDO NO RIO
Talvez por influência daqueles filmes que vi, e, normalmente, versavam sobre as belezas do Rio de Janeiro, me tenha vindo a idéia de ir ver o carnaval carioca, ao vivo O cinema apresentava de forma bastante chamativa o retrato da Cidade Maravilhosa e eu, como milhões de brasileiros, tínhamos, de uma forma bem patente o pensamento fixo de poder usufruir um pouco, ao menos, daquele fascínio que nos transmitiam. Realmente, no final da década de cinqüenta, valia a pena se pensar em conhecer a então Capital da República. Nesta condição, eu a conheci. O Rio era considerado a cabeça pensante do País, já que, ali, estavam os Poderes da República. Isto quer dizer que a Presidência da Nação, o Congresso Nacional e os Tribunais Superiores, estavam todos sediados na bela cidade do Rio de Janeiro. Tive o privilégio de estar presente, quando da transferência dos Poderes da República para a nova Capital, construída no Planalto Central, especialmente, com o fim de recebê-los, numa concretização histórica, levada a cabo, pelo então Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Essa transferência foi, para os cariocas, um tanto ou quanto traumática , já que, perdiam eles o “status” de residentes na Capital Federal. Apesar de ter nascido em Pilar/PB, e não no Rio de Janeiro, também, senti o impacto da mudança Lembro que os meios de comunicação faziam as suas críticas com referência ao assunto, sendo esse, um dos temas abordados pelas Escolas de Samba, naquele carnaval de 1960 Recordo neste instante, uma das músicas mais cantadas no tríduo momesco daquele ano, que dizia em seus versos o seguinte: “Dizem, é voz corrente; em Goiás será a nova Capital; leve tudo prá lá, seu Presidente, mas deixe, aqui, o nosso carnaval ”No meu entendimento, aí estava expresso o desacordo do povo carioca, em referência àquela mudança. Em vendo o problema, como eu o vi, notava-se, claramente, que uma super estrutura administrativa estava sendo desmontada; não sei, se para atender o interesse de alguém Aquela história de que serviria para aprofundar a integração nacional e, também, como segurança da Capital, por interiorizá-la, não entendo, como sendo uma opinião plausível Calo-me, ante a primeira parte da opinião, porém, quanto à segunda, não vejo fundamento, haja vista, que àquela altura, as grandes potências já possuíam os seus foguetes espaciais de longo alcance, os quais, poderiam atingir um alvo qualquer, há milhares de quilômetros de distância Para mim, essa hipótese de segurança é descabida Mas, isso não nos interessa muito. A verdade é que lá se vão os Poderes da República, para Brasília, no dia 21 de abril de 1960. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, nessa data, deixa de ser o Distrito Federal e, por ato da Presidência da República, com o aval do Congresso Nacional, é transformada no Estado da Guanabara. Nós cariocas, perdemos alguma coisa, sim, mas, ficamos com as belezas naturais, pois elas são eternas e intransferíveis A essa altura, já residia na cidade há quase quatro anos e por isso, participei da lamúria daquele povo alegre e muito simpático Foi uma mudança a contra gosto, mas tivemos que nos conformar com a nova idéia. Dei umas pinceladas rápidas sobre a cidade Maravilhosa e, não detalhei os motivos que me levaram de Natal O pensamento inicial dessa minha atitude , foi se criando aos poucos, quando ainda estava no Exército. Alguns colegas, sempre os colegas, começaram a arquitetar um plano de irem estudar e trabalhar no Rio, após deixarem a farda. Participei desse grupo e como sempre, acreditei que fossem levar a sério o intento. Aprofundamos a discussão com relação ao assunto, e, cheguei a acreditar que viajaria um grupo, como planejado. Qual não foi a minha surpresa, quando às vésperas da viagem, eu, já com a passagem comprada, fui procurar os colegas e todos (eram uns cinco), alegaram a desistência de viajar. Nessa ocasião, uma senhora muito amiga da família havia passado as férias em Natal e me faz o convite, no sentido de que fosse, e lá, me hospedaria na sua casa. Acreditei mais uma vez No dia 6 de fevereiro de 1957, uma semana antes do carnaval, embarco no navio “Rodrigues Alves”, que fazia mensalmente, esta viagem. A embarcação era um misto de cargueiro e passageiro, ao mesmo tempo. Muita gente a bordo e a viagem seria um “sufoco”, já que o balanço da nau deixou algumas pessoas enjoadas, com umas poucas delas passando mal durante todo o percurso. Quanto a mim, senti de leve, apenas, nas primeiras horas de navegação; depois acostumei e não tive mais problemas. Quatro dias após sair de Natal, nos aproximávamos do destino. Ao longe, já se avistavam as primeiras luzes do Rio, distantes ainda, mas, começavam a mexer com as nossas mentes Aquela interrogação incrível tomava conta da minha cabeça. Será que vai dar certo? A tal senhora que se ofereceu para eu morar na casa dela, há menos de um mês, ainda estaria com a mesma idéia? O navio continua singrando os mares e, finalmente, adentramos na Baía da Guanabara, passagem obrigatória para o porto do Rio de Janeiro. Seriam umas 9 horas da noite, mais ou menos, quando o Rodrigues Alves solta as suas âncoras no fundeadouro e paramos num ponto que mediava entre o Rio e Niterói. Foram todos para o convés, a fim de apreciarem a cidade à noite. Muitas luzes coloridas sobre os prédios, mostrando as propagandas de alguns produtos; e lá, bem mais distante, um letreiro luminoso, instalado no morro da Urca, passando as notícias do dia. Essa foi a que mais marcou; não a conhecia, sequer, pelo cinema. Fiquei muito tempo lendo as notícias; nenhuma delas, porém, anunciava a minha chegada à cidade Após esses primeiros contatos, fomos dormir, já que a noite avançava nas horas. O navio atracaria no dia seguinte, pela manhã, um domingo, 10 de fevereiro de 1957. Agora, exatos quatro dias, desde a saída de Natal. No próximo capítulo, abordarei os detalhes do meu desembarque e primeiras impressões da terra e da gente carioca. NA GUANABARA Amanhece o domingo 10 de fevereiro de 1957. O dia estava bonito, com muito sol; a cidade vazia, sem quase ninguém pela rua. Algumas dezenas de pessoas se aglomeravam à beira do cais, à espera de algum conhecido ou parente, que acabava de chegar do Nordeste, a bordo do “Rodrigues Alves”. Não conheci ninguém. Tive uma sensação meio esquisita, de quem está sozinho e ainda mais, num lugar totalmente estranho. Identifiquei, apenas, um rapaz a quem conhecia, de vista, quando trabalhava numa farmácia no Bairro do Alecrim. Mesmo assim, não nos falamos, pois não havia a menor intimidade entre nós ambos. Dos quase duzentos passageiros do navio, somente dois eu conhecia bem; eram colegas do Exército, que fizeram o curso de Sargento das Armas, tinham sido aprovados e iam se apresentar na E.S.A ., na cidade de Três Corações, em Minas Gerais. Descemos do navio os três, juntos, cada qual com os seus pertences, que não passava de uma pequena maleta. Perguntamos a alguém como se iria para o Q.G. do 1o. Exército, onde ficariam os tais colegas; informaram-nos e nos dirigimos até a praça, em frente ao então Ministério da Marinha. Já sabíamos, não sei porquê, que, daquele ponto, poderíamos pegar o bonde que passaria pela Praça Duque de Caxias, onde estava situado o prédio do Ministério da Guerra, destino do meus dois companheiros de viagem. Aqui, nos separaríamos, quase para sempre Apenas um, daqueles dois, tive oportunidade de rever, cerca de uns trinta anos depois Falo, do então Cabo Diniz, hoje reformado da carreira militar, no posto de Capitão, já que fez o curso da Escola de Sargento das Armas, de que falei há pouco. O outro, não lembro mais quem era Vai ter que ficar no anonimato. Pegamos o Bonde 28, Barcas-Estrada de Ferro, no percurso de volta: 1o. de Março, Rosário, Visc. de Itaboraí, Visc. de Inhaúma, Mal. Floriano e pça. Cristiano Otoni, que fica bem ao lado do Q.G. Desci com os dois amigos, pois o meu destino era ficar ali por perto, pelo menos, eu imaginava Despedimo-nos, uns dos outros e desejamos boa sorte para os três, que a partir daquele momento, se separariam por décadas. Naquele instante, veio-me um desespero enorme Estava jogado às feras Se pudesse, voltaria na mesma hora; não sabia o que havia pela frente e não tinha a quem recorrer, apesar das promessas daquela contra parente de quem falei. Saí com a minha maleta na mão, não achava graça em nada, cheguei a me sentir como um desprezado, um abandonado Foi horrível aquela sensação Seguia, quase sem destino e sem rumo, à procura de um endereço, que me fora dado ainda em Natal. Fiquei tão apavorado, que nem sequer notei que o relógio da Estação D. Pedro II, ocupava quatro andares do prédio E saiba-se, que era uma das coisas, que tinha curiosidade de ver, quando chegasse ao Rio de Janeiro Continuei na minha caminhada solitária, atravessei o túnel que liga a Central do Brasil ao Bairro do Livramento. Foi um dos mais difíceis percursos, que percorri na minha vida Parecia que não iria encontrar o endereço, que tanto procurava Por ser um domingo, aquelas ruas estavam praticamente sem ninguém. Passavam uns poucos carros, apenas. A região era do cais do porto e tudo estava fechado. Depois de andar bastante, já meio cansado e arrependido, ao mesmo tempo, encontro um Gari, que estava varrendo a rua. Parei e perguntei se conhecia aquele endereço. O cidadão se aproximou, e, pelo sotaque, de imediato, notou que eu era nordestino. Perguntou-me de onde eu vinha. Disse-lhe. Encostou-se à parede de um armazém que nos fornecia uma sombra gostosa e começou a conversar comigo. Viu o perigo pelo qual eu passava, já que estava só, com uma maleta à mão e com as características de forasteiro, resolveu me ajudar. Não sei o seu nome, mas guardo, ainda hoje, uma lembrança muita simpática daquele encontro casual. Mostrou-me os riscos que eu corria naquele instante; disse-me que aquela zona era muito perigosa, por isso, ficaria comigo, até que viesse o ônibus para me levar ao Santo Cristo, bairro para onde eu iria. Foi de uma bondade a toda prova Não arredou pé, enquanto não peguei o ônibus. Recomendou-me, inclusive, ao trocador, que me indicasse o local onde deveria descer, bem em frente à Igreja do Santo Cristo, no bairro do mesmo nome. Aqui e agora, eu dou o meu muito obrigado, ao Gari anônimo Você foi de uma humanidade tão grande, que preciso deixar aqui o meu testemunho e os meus mais profundos agradecimentos, pelo que me fez, num momento em que eu estava correndo perigos, perdido praticamente, na região do porto do Rio de Janeiro. Finalmente, tudo o que me dissera aquele Gari, fora correto. Cheguei bem próximo ao endereço. Dali em diante, imaginava que as coisas fossem se tornar mais fáceis. Perguntei a alguém, que bebia uma cerveja preta barriguda, num bar, bem em frente à igreja e o cidadão me ensinou o caminho a seguir. A essa altura, já estava cansado, desanimado e com fome Seguindo a orientação que aquele Sr. lusitano me dera, finalmente chego à casa que eu procurava. Quando vi a placa com o nome da rua, quase não acreditei Vir de tão longe, passar por alguns atropelos, até chegar ao ponto desejado, era para se comemorar Fora um vitória Chamei pelo nome, a dona da casa. Viu-me e ficou surpresa Mandou-me entrar e a partir daí, as coisas foram ficando mais fáceis. O JORNAL DO BRASIL Lá para as tantas, chega um dos filhos da casa – Waldomiro – que, trabalhava na Western e estava saindo do plantão, naquela empresa telegráfica. Trouxe consigo um exemplar do ”Jornal do Brasil”. Eu já o conhecia ainda em Natal e sabia da lista de classificados para empregos. Enquanto conversávamos assuntos diversos, ia folheando o jornal, à procura de um provável emprego, apesar de estar no Rio, há poucas horas, apenas. Por não ter nenhuma especialidade profissional, se apresentava bastante difícil o problema de trabalho, para mim. Até que, comentando sobre as diversas propostas, optamos por uma que seria, talvez, a mais viável. Concluímos que deveria ser um emprego próximo de casa, para facilitar, tanto no deslocamento, de ida e vinda, quanto referente ao tempo desse mesmo deslocamento. Escolhemos o anúncio que solicitava um rapaz, que conhecesse bem a cidade, para o serviço de entrega, nos diversos bairros do Rio de Janeiro. Os meus interlocutores não atentaram para o detalhe, de que eu não conhecia o Rio, portanto, não teria condições de assumir o tal emprego Mesmo assim, decidimos que seria aquele. Na segunda-feira, pelas sete horas da manhã, fui com a dona da casa até o endereço indicado no “Jornal do Brasil”. Em lá chegando, já havia vinte e uma pessoas à minha frente. Era, apenas, uma única vaga. Já pensou? Às oito horas, o filho do dono da empresa vê a fila e seleciona os vinte primeiros. Eu estaria de fora, conseqüentemente. Pedi-lhe que me deixasse entrar. Relutou, porém, terminou aceitando os meus argumentos. Dentro da loja, os vinte escolhidos já estavam espalhados, nos os diversos balcões, cada um, com uma folha de papel pautado, para responder um questionário. Os demais candidatos já estavam respondendo as questões, quando me foi fornecido o papel da referida prova. Dei uma olhada rápida e vi que se tratava de um teste bastante razoável, fácil mesmo, especialmente, para mim, que há pouco tempo, deixara o Seminário; eram algumas questões de português, geografia e matemática. Comecei a responder depois de todos os outros, contudo, fui o primeiro a entregar o resultado. O Sr. Walter Spiller, Gerente Geral e filho do dono da empresa, deu uma olhada rápida nas respostas e mandou que eu ficasse numa determinada mesa, aguardando um pouco, que já falaria comigo. Não precisava ser nenhum adivinho, para desconfiar que eu seria o escolhido Minutos depois, quando os outros começaram a entregar, iam, de imediato, sendo descartados, com a promessa de que se fossem selecionados, receberiam a comunicação do chamado, por telegrama. Após a saída dos vinte concorrentes, (lembre-se, que eu fora o vigésimo primeiro, porque insisti bastante, para me submeter ao teste), o Sr. Walter vem a mim e pergunta se eu poderia começar naquele mesmo dia. Disse-lhe que sim. Fomos para o escritório, para anotações, cadastro e outros detalhes trabalhistas, exigidos pela empresa. Porém, o funcionário responsável por esse tipo de serviço, não tinha ido trabalhar, naquele dia. Pediu-me que viesse no dia seguinte. Terça-feira, 13 de fevereiro de 1957. Apresento-me à empresa: Spiller, Comércio e Indústria S/A, situada à rua da Alfândega, 111, Centro, Rio de Janeiro. Hoje o funcionário Diderot de Carvalho Filho, responsável pelo cadastro de novos empregados, foi trabalhar e providenciou os meus papéis. Antes, porém, o Gerente faz uma entrevista comigo. Disse-me que era um serviço externo, para o qual, exigia-se que o candidato conhecesse bem a cidade. Notou que a minha Carteira Profissional fora emitida há menos de um mês, na cidade de Natal/RN. Perguntou-me se tinha conhecimento dos bairros e ruas do Rio. Respondi-lhe que sim. Admirado, interrogou, como? Se a Profissional, há menos de um mês, tinha sido emitida no Nordeste? A minha resposta foi imediata; é que eu estava de férias em Natal e aproveitara para tirar a Carteira Ele aceitou a minha desculpa e não fez maiores comentários ao respeito. Apenas, quis saber há quanto tempo eu morava no Rio. Disse-lhe, que mais ou menos, uns quatro anos. Tive que mentir, para não perder a chance do emprego Na verdade , eu estava há pouco mais de quarenta e oito horas na cidade. Não conhecia nada, absolutamente, nada Foi uma temeridade, mas, era a luta pela sobrevivência Após os trâmites burocráticos, aquele funcionário que me cadastrou, foi me apresentar ao Chefe do Setor de Expedição, um alemão chamado Schimidt. Aliás, 90% dos chefes de sessões da firma, eram alemães, conterrâneos do dono, Sr. Eduard Spiller Júnior, à época, um cidadão de seus setenta e poucos anos de idade. O tal Sr. Schimidt me entrega um pequeno volume, para que eu o levasse a um cliente estabelecido à rua Maria Freitas, no Bairro de Madureira. Mais uma vez, fui testado. Perguntou-me se conhecia esse endereço. Já que eu estava naquele jogo, era para jogar Respondi que sim; muito embora, não tivesse nem idéia, de onde seria aquela rua Reconheço que foi muita “cara de pau”, de minha parte Com a encomenda e a nota fiscal na mão, saí às pressas e perguntei ao primeiro guarda que vi, como se iria àquele endereço? Respondeu-me que de trem, de ônibus ou de lotação (pequenos ônibus usados na época). Qual o mais rápido, perguntei-lhe? Sem dúvida o lotação, que teria o seu ponto final bem em frente à estação de Madureira, para onde eu queria ir. Onde eu “pego ”esse lotação? Aí em frente, na Av. Presidente Vargas. Cumpri a missão satisfatoriamente. Deu tudo certo, graças a Deus À tarde, nova viagem; agora, para Niterói. A mesma pergunta, se eu conhecia. A mesma resposta, de minha parte. Que conhecia, razoavelmente, pelos quase quatro anos, que eu morava no Rio O mesmo problema, perguntei a outro policial, como se podia ir a Niterói. Ensinou-me e fui sem dificuldade nenhuma. Na ocasião, não havia a ponte, toda a travessia era feita nas Barcas. Assim, tive oportunidade de conhecer o Bairro de Madureira e a Capital do Estado do Rio de Janeiro (à época), Niterói, num mesmo dia. Às vezes, nós temos que “pregar” uma mentirinha qualquer, para nos livrarmos de uma situação, que poderia ser bastante desagradável OS PRIMEIROS DIAS NO RIO Os meus primeiros dias na Cidade Maravilhosa foram de muita observação e curiosidade. Quase tudo era novidade para mim. Os prédios, os trens, os ônibus, com os números das linhas destacados, sobre a carroçaria, os bondes, as pessoas, os costumes, os alimentos e muitas outras coisas Foi uma mudança de trezentos e sessenta graus na minha vida. Como me adaptar àquilo tudo, era o grande desafio. Aos poucos, aguçando bastante os sentidos, modificando os gestos e os modos, fui a pouco e pouco, me transformando num quase carioca; claro, isso levou algum tempo. Não esquecemos as raízes, de uma hora para outra; tem que haver um trabalho, todo voltado para a nova adaptação. Eu precisava me acomodar à situação, já que pensava me demorar, além do previsto. A minha previsão era ver o carnaval e depois voltar. Aliás, não tinha a menor idéia de tempo, com referência à minha permanência na cidade. As novidades iam surgindo e aos poucos, eu ia assimilando o modo de falar, as maneiras, o comportamento e tudo que fosse necessário à integração. A primeira semana passou célere, talvez, pela grande mudança acontecida comigo. Quanto ao emprego, não houve grandes alterações. Com o passar do tempo, fui me adaptando mais e mais e ainda na primeira semana, já havia ido a vários bairros, Copacabana, Ipanema, Botafogo, Méier, Cascadura. Estava gostando do tipo de trabalho. Senti logo que, no meu caso, era o ideal; Pois, assim, tinha oportunidade de conhecer diversos pontos da cidade, sem que precisasse gastar nada do meu dinheiro Dessa maneira, juntei o útil, ao agradável, como se diz por aí Com o decorrer do tempo, e em poucos meses, já conhecia satisfatoriamente o Rio de Janeiro. Confesso, que até mais, do que muitos cariocas, os quais, normalmente, conhecem, apenas, os seus próprios bairros. Essa é uma situação mais ou menos comum, já que nas cidades grandes, existem bairros maiores do que as nossas cidades. Como curiosidade, lembro um senso populacional de 1960, que indicava que a população de Copacabana, neste ano, era de cerca de 1 milhão de habitantes. Na mesma época, Natal possuía aproximadamente 200 mil habitantes. Por aí, se vê uma diferença enorme entre as duas cidades Um bairro como Copacabana, por exemplo, tem tudo que uma cidade de porte médio vem a ter; só não, a área. As cidades crescem horizontalmente e um bairro como Copacabana, tem o seu crescimento vertical, são prédios e mais prédios. Essas novidades iam me agradando e me fazendo gostar de tudo Na firma onde eu estava trabalhando, nos horários de folga do almoço, ouvia os comentários sobre o futebol. No meu segundo domingo, na nova terra, resolvi ir conhecer o Maracanã. Já o tinha visto por fora, quando passava a trabalho, indo de trem, ou mesmo de lotação. Achava-o gigantesco, em comparação com o nosso Juvenal Lamartine. Só me restava subir aquelas rampas e ficar nas arquibancadas, das quais tinha uma ligeira idéia, por que via no cinema, pelo “canal 100”. O jogo era entre o Botafogo e um outro time, que não lembro qual era. O meu problema, seria ver o “Garrincha” jogar Um outro motivo não seria necessário. Esse jogador era conhecidíssimo, não só no Brasil, como também, no exterior. Nesse momento, Pelé estava iniciando a sua carreira, enquanto o “Mané Garrincha” já era um nome nacional Fui ver o jogo com o meu vizinho Valdir. Esse moço era ourives e foi quem fez as minhas alianças de noivado e casamento. Era um grande artista, no seu trabalho. Com doze gramas de ouro, fez um belo par de alianças, para mim. Voltemos ao jogo. Descemos do Santo Cristo e quando chegamos à Av. Presidente Vargas, os ônibus, bondes e lotações, passavam todos completamente lotados. Não tivemos coragem de enfrentar aquela “barra” Resolvemos ir a pé. De onde morávamos, para o Maracanã, distava uns três quilômetros, no máximo. Dava, perfeitamente, para ir caminhando. E assim, o fizemos. O meu interesse era muito grande e a curiosidade de ver aquela monstruosidade, ainda maior Não éramos os únicos que iam a pé; centenas de pessoas também o fizeram. Pareceu-me melhor, do que ir apertado em um coletivo Já estamos subindo uma das rampas do maior estádio do mundo. Os meus olhos davam panorâmicas em todos os sentidos Era uma verdadeira festa. Nunca tivera a oportunidade de ver tanta gente, junta, num mesmo local, como naquela tarde de Botafogo, no Maracanã Não parava de admirar, tudo que via Foi uma tarde inesquecível para mim, ver Garrincha jogando no Maracanã, driblando os adversários, com aquelas suas pernas tortas A multidão que se dirigia ao estádio me impressionava; parecia um formigueiro humano Os trens paravam na Estação Lauro Muller e saltavam milhares de torcedores, vindos da Zona Norte, enquanto de ônibus, lotações e bondes, vinham os botafoguenses do Centro e da Zona Sul. Para mim, era um acontecimento inusitado Final do jogo, novo sofrimento. Tivemos que voltar a pé. Não conseguimos pegar qualquer condução. Era gente demais e desistimos do sacrifício Só se aventuravam os que moravam longe, em bairros distantes da Zona Sul ou Zona Norte O certo, é que depois de quase duas horas sentado naquele cimento da arquibancada, não lamentei, porque tive oportunidade de ver o maior jogador da época - Garrincha, dando os seus dribles, com as pernas que Deus lhe deu, para ser um dos maiores jogadores de todos os tempos Valeu a pena todo o sacrifício MEU PRIMEIRO CARNAVAL NO RIO Finalmente, chegou o que tanto eu esperava. Estava às portas do carnaval carioca Já no sábado, a cidade começava os seus preparativos para o tríduo de Momo. Parecia que neste ano de 1957, a alegria carnavalesca ia realmente contagiar todos que estavam no Rio de Janeiro Até os marujos americanos, de uma força tarefa que visitava a cidade, iriam cair no samba O Porta-aviões “Ranger”, um submarino nuclear e mais uns três outros navios de guerra, que acompanhavam a nave capitânia estavam sendo transferidos de uma base americana do Pacífico, para uma outra do Atlântico, “despejaram” os seus quase 5000 homens, nas ruas do Rio, com direito a sambar e dançar o frevo pernambucano Dançar frevo, sim Na ocasião, a música “Evocação”, uma feliz criação de Nelson Ferreira, fez muita gente executar coreografias individuais, na Av. Presidente Vargas, sob o som frenético da música de Pernambuco. Vi, inclusive, alguns dos marinheiros do “Ranger”, tentando marcar o passo Pena, é que os coitados não tinham a menor tendência para o malabarismo próprio, exigido pela música. Mas, de qualquer forma, valeu a intenção O problema deles era se divertirem e conseguiram, ao modo deles Quanto a mim, recém-vindo do Nordeste, não resisti e matei a saudade ouvindo e apreciando aqueles pernambucanos que davam um show, na apresentação das melodias da sua terra. Afora esse apêndice do carnaval da cidade, no restante, dominava o samba das Escolas e muitas músicas feitas especialmente para a oportunidade. Era um espetáculo que eu não conhecia com muita propriedade, tinha apenas uma boa idéia, através dos filmes carnavalescos, que ainda tinha visto em Natal. Ao vivo, havia uma diferença enorme. Era muito mais bonito, mais agradável e mais colorido do que eu pensara Uma grande festa, sem dúvida nenhuma. Descia para a Av. Rio Branco, ainda pelo meio da tarde e lá ficava até altas horas da noite. Não me cansava de apreciar a alegria do folião carioca; era realmente uma coisa contagiante, que mexia com quem se envolvesse. Acabei de dizer, que até os marujos americanos caíram no samba prá valer Imagine, eu, que tive como meta, na minha ida para o Rio, ver e aproveitar, ao meu modo a festa maior da Cidade Maravilhosa Tinha mesmo era que gostar e muito Sentia-me, como se estivesse sonhando Era uma verdadeira loucura, tudo aquilo que via. O desfile principal, das Escolas, Ranchos e Carros alegóricos aconteciam na Av. rio Branco, no sentido Presidente Vargas - Cinelândia. Este, era o corredor da folia. Milhares de pessoas, já pela manhã, começavam a se deslocar para a Rio Branco, onde, durante a manhã, aconteciam os desfiles informais de blocos pequenos e de foliões, com as suas fantasias, bonitas algumas, ricas outras, originais outras tantas e finalmente, aquelas que davam algum recado, ou expressavam alguma piada ou crítica aos Poderes constituídos Era um vai - e - vem de pessoas, como nunca dantes, tivera visto. Não é necessário que se diga, que tudo aquilo, para mim, teve um valor muito grande, especialmente, em matéria de lazer e diversão. Os carnavais de Natal, em relação àquele, deixavam muito a desejar À tarde, desfilavam os blocos maiores e mais organizados, tais como: “O Bafo da Onça” e o “Cacique de Ramos”. Quando essas duas agremiações carnavalescas passavam na avenida, havia todo um movimento que inebriava a multidão, fazendo-a incorporar a alegria frenética, que emanava dos seus componentes Era uma coisa indescritível As palavras me fogem e não sei descrever com a precisão necessária aquele espetáculo fantástico, que se descortinava à minha frente A alegria era tanta, que eu nem lembrava de me alimentar Nas proximidades do Teatro Municipal, quase em frente à Câmara de Vereadores, sempre estacionavam uns carros tanques, vendendo leite gelado. Aí, eu me fazia Bebia um ou dois copos de leite, comia um pedaço de bolo, ou pastel e já estava pronto, novamente, para voltar à atividade. O bom da folia, estava reservado para a noite. Nesse horário, acontecia o esperadíssimo desfile das grandes Escolas de Samba. Esse era um momento muito sério, na vida do carioca. Ter paixão por uma determinada Escola é uma das manias do povo carioca. É um problema bem semelhante ao futebol. Cada qual, tem a sua preferência e por isso, ri, pula, agita, grita e até briga, pelas cores da sua Escola preferida É uma “coisa de louco” Só vendo, para se poder medir a importância desse “fanatismo”, com referência ao carnaval O interessante, é que os de fora, também são contagiados por esse momento, formando um só grupo de aficionados foliões Não bastassem os desfiles de blocos, pequenas e grandes Escolas de Samba, Ranchos, Grandes Sociedades e blocos, os mais diversos, ainda havia a curiosidade pelo Baile, que à época, acontecia nos salões do Teatro Municipal. Essa, era um festa de grã-finos. A classe média, quase não tinha vez; salvo raras exceções Contudo, não deixava de ser um espetáculo à parte, dentro de um maior, que tomava conta de toda a Cidade Maravilhosa Posicionava-me, de tal maneira, que via o que estava acontecendo na avenida e ao mesmo tempo, apreciava o ingresso dos ricos foliões, que entravam pela passarela armada à frente do Teatro, com destino aos luxuosos salões, onde ocorreria o famoso baile. Foi nesse ponto privilegiado, que tive oportunidade de ver, ao vivo, como se diz hoje, artistas famosos de Hollywood, do cinema Francês e Italiano, tais como: Brigitte Bardot, Kim Novak, Jane Mansfield, Kirk Douglas e outros mais que não lembro agora. Esses astros eram convidados especiais da Prefeitura Municipal do Distrito Federal; hospedavam-se no Copacabana Palace e tinham a missão de abrilhantar, ainda mais, com as suas presenças, na grande festa. Milhares de pessoas se aglomeravam em volta da passarela, para terem o direito de verem essas figuras bastante conhecidas no mundo do cinema. E eu, como não podia deixar de ser, também, estava lá, aumentando o meu currículo, com referência a pessoas famosas QUINTA DA BOA VISTA Um dos meus primeiros passeios foi à quinta da Boa Vista. Era um complexo de lazer, formado pelo Jardim Zoológico, Museu Nacional, uma flora variada, parques de diversões, lago e muita área de lazer. Situada no bairro de São Cristóvão, a Quinta da Boa Vista foi construída, para servir de residência à Família Imperial Brasileira. É um local bastante aprazível, que dispõe de ótimas condições, para o divertimento do corpo e do espírito Aos domingos, normalmente, milhares de pessoas levam os seus filhos, para verem, principalmente, os animais, que ali estão, tais como: elefantes, leões, girafas, rinocerontes, zebras, tigres, ursos, camelos, jacarés, cobras de diversas espécies, macacos, também, de várias espécies e mais uma infinidade aves, sendo algumas delas, raras, às vezes, já em processo de extinção. Por esse motivo, torna-se uma visita bastante agradável para as crianças, já que gostam de ver animais diversos. Apesar de não ser mais criança à época, mas, sempre que possível, dava uma passada pela Quinta da Boa Vista, para ver os animais, as plantas, o Museu e as pessoas, também Como o dinheiro era meio curto, pouco desfrutava dos brinquedos do parque de diversões; contudo, aproveitava para um namorico passageiro, apenas para “enganar” o tempo, até chegar a hora de voltar para casa. Os meus domingos eram um tanto ou quanto vazios, já que não tinha parentes na cidade. Durante a semana, programava um passeio qualquer, para evitar a solidão, que geralmente, se apossa das pessoas que vivem sozinhas, principalmente, nas cidades grandes, como era o meu caso. Tudo isso tem que ser muito bem planejado, para poder dar certo; do contrário, surge um estado meio desagradável, que incomoda bastante. Quem viveu sozinho, e numa cidade como o Rio de Janeiro, sente esse torpor Na minha primeira ida à Quinta, absorvi todo o meu tempo, em contemplando os animais, especialmente, os menos comuns. Demorava-me às vezes, debruçado sobre as muretas, observando os movimentos, as ações e comportamentos de alguns deles. O meu tempo era suficiente e dava para fazer esse tipo de exercício, já que não tinha obrigações outras, que me viessem tomar o tempo Em locais apropriados, existiam verdadeiras feiras, onde se vendiam brinquedos, lembranças, comidas típicas, petiscos diversos e uma infinidade de outras “bugingangas”, como sói acontecer em lugares assim. Era, na verdade, um espetáculo múltiplo, que agradava e prendia a atenção dos visitantes. Durante o meu tempo de solteiro, fui várias vezes à Quinta da Boa Vista, como disse. Ao Museu, fui menos vezes. Achei - o muito importante, pela sua riqueza, em peças raras, que aqui estavam expostas. Lembro, que logo na entrada, há um esqueleto de um animal enorme; não recordo se de uma baleia, de um dinossauro, ou um outro qualquer O certo é que aquele arcabouço me chamou a atenção; fiz até algumas anotações sobre tudo o que vi naquele dia, mas perdi; não sei onde estariam aqueles papéis, com todos os detalhes daquilo que eu via Tenho, porém, alguma coisa, ainda, gravada na mente. Vou tentar passá-la para estas memórias. Quem sabe, algum parente que as leia, não teve a oportunidade de visitar esse Museu; ao menos, fica com uma pequena imagem, daquilo que eu vi, naquele ano distante, de 1957. Acompanhe-me, e, imagine que esteja ao meu lado, caminhando pelos salões do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro. Vimos o esqueleto gigante de que falei há pouco; agora estamos em uma outra sala, onde existem algumas múmias de pessoas que viveram há mais de 2000 anos atrás, no antigo Egito A primeira, apesar de eu ter perdido as anotações, lembro que se trata de uma jovem que fora cantora, no coro da Rainha Cleópatra VII, amante de Júlio César e, depois, mulher de Marco Antônio; aquele, cônsul, general e ditador romano, este último, militar e político romano, apaixonado por Cleópatra, de quem se tornou marido e veio a se suicidar, após a derrota naval em Actio, na costa ocidental da Grécia, no ano 31 a . C. A múmia dessa cantora, foi adquirida pelo Imperador D. Pedro II, que era um estudioso do assunto e profundamente ligado ao conhecimento humano. Em um corredor do Museu, lá num canto, se encontra um homem que viveu no Peru (se não me falha a memória) e teve o seu corpo mumificado, naturalmente, pelo efeito dessecante da areia onde fora enterrado. É uma figura meio macabra, pela aparência, mas que vale a pena ser vista. Em outros salões, vimos exposições de pedras preciosas, de vários tipos e tamanhos. Esse era um ambiente que deixava qualquer visitante embevecido, pela beleza, pelas cores e pela preciosidade das peças. Muitas outras peças estavam expostas ao público, mas, eram de menor valor histórico; não as tenho de memória, para descrevê-las, neste momento. Ao finalizar este capítulo, devo salientar que o passeio e visita à Quinta da Boa Vista, deveria ser um momento obrigatório para todos os brasileiros, pela infinidade de lições, que dali, sem dúvida, tirariam JARDIM BOTÂNICO Em continuando os meus passeios pelos pontos turísticos da cidade, hoje, vou dar uma paradinha no Jardim Botânico, onde existe uma grande coleção de plantas vivas, para fins científicos e educacionais. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro foi criado por D. João VI, quando de sua vinda de Portugal, para o Brasil, em conseqüência da guerra Napoleônica, no início do século XIX. Foi uma das grandes obras deixadas pelo Rei de Portugal, que por essa e muitas outras, demonstrou um grande carinho pela nossa terra. A visita a este ponto, é uma coisa muito interessante e agradável. São centenas de plantas, as mais variadas possíveis, lagos, riachos e muitas flores. Tudo feito com muito esmero e carinho. Adentra-se pelo ambiente e já se começa a sentir um clima gostoso, de muita sombra e cheiro de flores, dando a impressão de que se esteja em meio a uma mata muito bem cuidada Em continuando a alameda central do parque, postam-se as palmeiras imperiais, formando, como que uma guarda, em honra aos visitantes. São árvores enormes, frondosas e elegantes. Um alerta, que parece lembrar a importância daquele ambiente, a quem o visita. Percorri-o em toda a sua extensão, apreciando a sua beleza, expressa naquela quantidade enorme de plantas muito bem cuidadas, que fascinam as pessoas que, por lá, passam. Após uma visão geral, procurei uma das sombras existentes no local, sentei e fui matar as saudades de casa, redigindo uma cartinha, contando as muitas novidades daqueles primeiros tempos na Cidade Maravilhosa. Devo ter feito grandes elogios ao que via, já que, não conhecia em nossa terra, algo que se assemelhasse àquela beleza Devo aproveitar e dizer que gostava muito de escrever cartas, quando estava nesses ambientes saudáveis e gostosos. Escrevi cartas da Quinta da Boa Vista, do alto do Pão de Açúcar, dos jardins do Palácio Imperial, em Petrópolis, do Obelisco da Praça Paris, no Centro, do Silvestre, na subida para o Corcovado e de outros locais, que não lembro agora. Devia ser uma correspondência bem interessante, pois nelas, eu procurava retratar o momento que eu vivia, em cada lugar que visitava. Pena, que o tempo se encarregou de destruir esses documentos. Acredito que fossem uma espécie de reportagem, daquele local, onde me encontrava. Não tenho muita coisa, a mais, para acrescentar. Sei que era uma visita muito agradável, cheia de vida e da qual, guardo muita recordação, ainda hoje PÃO DE AÇÚCAR Essa visita era por demais esperada Bem antes de conhecer o Rio, já possuía todas as informações acerca dessa criação da natureza. Conhecia-o por fotografia, cinema, revista, livros, pessoas e etc. Por esse motivo, a minha vontade de vê-lo pessoalmente era muito grande, como deve acontecer com muita gente. Realmente, trata-se de um verdadeiro monumento natural, colocado à entrada da baía da Guanabara, tal qual um sentinela, que ali estivesse, para vigiar todos que adentrassem em suas águas A curiosidade era muito grande Queria sentir a emoção de ir até o ponto mais alto daquele morro granítico, com 404m de altura. O desejo de andar no “bondinho” era igualmente, grande Sabia tudo ao respeito, faltava colocar em prática. Uma linha de funicular liga o seu topo ao vizinho morro da Urca e daí à praia vermelha. Não se faz necessário frisar, que se trata de uma atração turística, conhecida internacionalmente como símbolo do Rio de Janeiro Para quem não conhece o Rio, devo dizer que, “linha de funicular” é um veículo tracionado por um cabo movido por uma força externa, no caso em apreço, no sistema aéreo do Pão de Açúcar, para transporte de passageiros e cargas, suspensos a um desses cabos, por roldanas. Apesar de parecer inseguro, posso dar o testemunho de que se trata de um meio de transporte seguríssimo. Apenas uma vez, houve um problema técnico e o bondinho ficou parado no meio da travessia, por algumas horas. O importante é que o risco é, praticamente, zero. Nunca houve desastre, desde a sua inauguração, há dezenas de anos atrás. Enquanto subia, apreciava a paisagem maravilhosa que se descortinava ante os meus olhos Fui até o segundo morro, há uns 400 metros de altura. Daqui, podia ver grande parte da cidade, lá embaixo. A visão é simplesmente linda Num ângulo de 360 graus, tem-se uma boa idéia da grandiosidade do Rio. Este, é mais um ponto turístico, que todo brasileiro devia conhecer Lá, estive por diversas vezes. As primeiras, fui só; de outras, fui com parentes ou amigos, no caso, servindo de cicerone, para quem, ainda não havia ido, até lá. De cada vez, uma experiência diferente. A vista é muito bonita. Em determinadas direções, podemos ver bairros muito distantes, há alguns quilômetros, do ponto onde nos encontrávamos. Nos dois morros, existe uma infra-estrutura, para suporte aos visitantes, no que se refere a restaurantes, bares, “souvenirs” e tudo que diga respeito ao bom atendimento, especialmente, a turistas, de um modo geral. A minha primeira ida ao Pão de Açúcar, foi um momento inesquecível, já que pude comparar e avaliar o que eu sabia e o que estava vendo. Digo que foram instantes bastante emocionantes, já que essa curiosidade estava se concretizando da forma que sempre imaginei e sonhei Valeu a visita

EM BRANCO E PRETO
Não posso me furtar de tecer comentários ao respeito de uma das manias do povo carioca, naqueles saudosos “Anos Dourados”, do final da década de 50. Quero me referir à televisão. Inaugurada em 1950, a TV Tupi de São Paulo, foi a pioneira; logo em seguida, propagou-se por grandes cidades, como o Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras mais. Interessa-nos a televisão carioca. Foi esta que tive oportunidade de ver, pela primeira vez. Era, ainda, um aparelho com linhas bem diferentes das atuais; digo, até, de aparência meio feia, em relação aos de hoje. Poucos, tinham a satisfação de possuir, em casa, essa novidade da eletrônica. As lojas as exibiam, mas, os preços não eram nada convidativos Realmente, só uns poucos se aventuravam a comprá-lo. Na rua em que eu morava, entre umas cem casas, apenas uma, dentre essas, tinha um aparelho de televisão Veja-se, como era raro, o uso do televisor Estávamos, ainda, no ano de 1957. Para se ver um programa televisivo, precisávamos conhecer os donos da casa, ou então, fazer fila na calçada, pelo lado de fora, e ficar aproveitando uma “brechinha”, para se poder apreciar um pouco dos programas, que além de simples, eram mal acabados e transmitidos em preto e branco. O colorido para a televisão brasileira, aconteceu um pouco antes da Copa do Mundo de 1970; poucas pessoas puderam ver os jogos em cores; os preços dos aparelhos eram caríssimos Hoje, ao contrário, até nos ambientes mais humildes, todos têm o seu televisor colorido Os tempos mudaram, e, para melhor Naquela época, a coisa era bem diferente Para se ver um programa, tinha-se que aventurar um espaço de uns 10 ou 15 centímetros, na janela da vizinha, para se assistir um jogo do Maracanã, aos domingos; Alguns dos jogos eram transmitidos ao vivo; com o passar do tempo, creio que na década de 70, é que deixaram de efetuar esse tipo de transmissão. Parece-me que os torcedores deram preferência a ver o espetáculo em casa, tomando a sua cervejinha gelada, deitados na sua poltrona, sem correr risco e sem o sacrifício de enfrentar uma viagem ao Maior Estádio do Mundo. Realmente, era muito mais prático e confortável Acho que a partir daí, as rendas diminuíram, até cancelarem esse tipo de transmissão. Eu, praticamente, só via televisão nas lojas de eletro domésticos, nas minhas viagens pelos bairros, ou então, nos horários de almoço, nas lojas da Rua do Ouvidor. Aqui, aproveitava para ouvir os lançamentos musicais da época, nas vozes de Agostinho dos Santos, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, interpretando os dramalhões de Adelino Moreira e outros cantores da ocasião. Na casa onde estava morando, tinha me mudado daquela primeira, para a residência vizinha, de uma senhora idosa, que me acolheu, como se fora um seu filho. Quero, aqui, prestar a minha homenagem a essa criatura boníssima, que mais parecia minha mãe. Dona Maria; não sei o restante do seu nome Na sua casa, havia, apenas, um pequeno rádio, que essa figura inesquecível usava para ouvir, todas as noites, a pregação de Alziro Zarur, o fundador da Legião da Boa Vontade. Sentava-se dona Maria ao pé do rádio, colocava um copo com água e ficava escutando atentamente as palavras daquele pregador Às vezes, solicitava que lhe fizesse companhia; não podia lhe decepcionar, já que essa pessoa, foi no meu início do Rio de Janeiro, alguém a quem muito estimei, pelos seus conselhos e pelo seu modo de viver. Não tinha parentes. Era viúva e não teve filhos. Na ocasião, de cima dos seus setenta e poucos anos, foi alguém que marcou muito, na minha vida de solitário, em me dando apoio e orientando, sobre como deveria me portar naquela selva de asfalto Chorei muito, quando do seu falecimento. Ainda agora, em lembrar o seu nome e rememorar tudo o que fez por mim, as lágrimas começam a ameaçar Vou mudar de assunto, não que Dona Maria não mereça que se fale sobre ela, mas, para evitar o vexame, provocado pela saudade de pessoa tão boa e que tanto me apoiou Obrigado Dona Maria. Hoje, vou rezar para a sua alma, muito embora, saiba que, talvez, não precise de minhas orações, pois com certeza, a Senhora está em algum lugar, bem pertinho de Deus, já que Ele gosta dos mansos e humildes de coração Comecei a falar de televisão, mudei para o rádio de Dona Maria e fiquei meio perdido O certo é que, a televisão dava, ainda, os seus primeiros passos, naquele distante ano de 1957. A programação era bastante precária, assim como, a qualidade da imagem, que deixava muito a desejar, em relação ao tempos de hoje, com os grandes avanços das telecomunicações Só a partir de 1960 é que se deu um pulo maior, nesse sentido. Surgiu a TV Excelsior, no Rio e em São Paulo. Esta era o máximo, para a época, em matéria de equipamentos e programas. Os grandes musicais surgiram nessa ocasião. A programação se diversificou e agradou os telespectadores, que há essa altura, já era em número muito maior, do que na década passada. A consolidação desse meio de comunicação de massa, teve início no ano de 1965, com a entrada da TV Globo, que ainda hoje, domina a televisão brasileira. São essas, mais ou menos, as minhas memórias, ao respeito da televisão no Brasil, desde quando a conheci, nos meus primeiros anos de Rio de Janeiro.

A MINHA PRAIA PREFERIDA
Cada um de nós tem as suas preferências, portanto, não poderia fugir à regra. Vou falar um pouco de um dos meus preferidos passeios e meio de lazer, enquanto residi na Cidade Maravilhosa. Sempre gostei; foi amor à primeira vista. Falo da praia da Urca, situada no bairro do mesmo nome. Apesar de não ser a mais próxima, mas, era onde eu me sentia melhor, pelo seu ambiente mais familiar e pela sombra de suas árvores, contornando o traçado da orla. Estava mais para uma baía, do que mesmo para uma praia. Situava-se ao pé do morro, que dá acesso ao Pão de Açúcar, vizinha ao antigo Cassino da Urca, onde se apresentaram grandes nomes do mundo artístico nacional e internacional, durante a década de quarenta. Aqui, me sentia muito bem , já que havia um detalhe muito importante para mim, que eram as sombras Devido à minha pele, sempre dei preferência a praias onde houvesse muita sombra. Tenho uma facilidade enorme de “queimar”, quando exposto por mais tempo, aos raios solares. Daí, evitar lugares onde haja muito sol, especialmente, nas praias. Mesmo com esse cuidado todo, em uma das vezes que fui à Urca, por causa de uma “paquera”, fiquei por muito tempo ao sol e como castigo, acredito que tive queimadura até de 2o. grau Foi um negócio muito sério Perdi a metade da semana no emprego, por conta dessa extravagância. Basta dizer, que nas duas primeiras noites, dormi sentado na cama, pois, não conseguia deitar. A minha única vestimenta nesse período, era uma simples cueca, isso mesmo, porque naquela ocasião, ainda era o modelo “samba canção” A “Zorba” ainda não tinha chegado ao mercado, ainda bem Se fora hoje, nem cueca eu poderia vestir Foi uma coisa horrível Nunca mais, pensei em namorar nas areias da praia Lembro bem, que quando cheguei a casa, aquela senhora, de quem falei há pouco, ficou abismada com a minha situação Como é que eu tinha chegado a um estado daquele? Chamou-me de louco Mandou-me passar no corpo leite de magnésia, só assim, poderia, ao menos, sentar Foi uma experiência desastrosa Ainda mais, que nem a namorada consegui segurar Vi, apenas, naquele dia e nunca mais Iludi-me com o “cupido” e ia me dando muito mal. Às vezes a cabeça não pensa e o pobre do corpo é quem paga De qualquer forma, valeu a experiência e não mais, caí em outra desse tipo A partir desse insucesso, dava o meu mergulho e ficava sentado sobre o muro que circunda toda a praia. Dali, me divertia, vendo tudo que acontecia nas areias, inclusive, as sereias, que iam aos montes, para se bronzearem Além da Urca, havia muitas outras que visitei, inclusive, tomei gostosos banhos, como: Copacabana, Ipanema, Leblon, Ilha do Governador, Sepetiba, todas no Rio; Icaraí, Saco de São Francisco e Jurujuba, em Niterói. Cada uma dessas praias tem um detalhe característico. Copacabana, por exemplo, não é um local ideal para banho de mar. As ondas são fortes, é mar aberto e precisa muito cuidado, para não afogar. Fui uma, ou duas vezes, apenas, para banho; depois desisti. Não fez a minha cabeça. Muita gente exposta nas areias, muita exibição e o mar, quase sempre bravio Salvava-se, pelos seus freqüentadores, que eram pessoas de classe média e média alta, com uma aparência, normalmente, bem cuidada, que agradava aos olhos Ipanema, bem mais sofisticada do que Copacabana. Era uma clientela bem mais chique e mais distante do povão Leblon, era o “supra sumo” da grã-finagem Acredito, que as poucas vezes que lá estive, eu era o mais simples e mais povo Aqui, sob os guarda-sóis, sentavam-se os “bacanas”, em cadeirinhas fincadas na areia, com as suas garrafas de whisky, bebericando, em comemoração aos lucros, nos seus negócios As minhas idas ao Leblon, deviam-se à amizade que tinha a um casal amigo, que fingia “gente bem”, e só freqüentava essa praia de grã-finos. Devo acrescentar, que junto com esse casal, também acompanhava uma “quase” namorada minha, que residia na Rua Presidente Barroso, bem ao lado da fábrica da Bhrama. Refiro-me a uma linda jovem, filha de portugueses, por quem tive uma certa atração; Ana Glória, o seu nome. Perdeu-se no tempo e não soube nada mais ao seu respeito Ilha do Governador com diversas praias, já era um lugar bem mais simples, onde nos sentíamos mais à vontade Freqüentei por diversas vezes, com a minha namorada à época, hoje a minha esposa - Igara - juntamente, com outro casal muito amigo nosso - Valdeci e Lurdinha, residentes atualmente em Natal. Gostava do ambiente. Lembrava a simplicidade das praias natalenses Estava com a namorada que eu adorava, com um casal conterrâneo e sua filha, num ambiente parecido com o nosso; só poderia se transformar num lazer maravilhoso Sepetiba era muito distante. Fui uma ou duas vezes, apenas. A novidade era uma lama preta, que diziam ser medicinal Não sei se era medicinal ou sujeira da praia. Nem banho tomei. Cheguei, vi, fiquei um pouco e voltei As praias de Niterói eram bem mais agradáveis Icaraí lembrava muito Copacabana. Muitos prédios, freqüentadores do tipo classe média, com um pouco de mistura. Contudo, um local gostoso de se ver e tomar banho As outras duas, eram bem mais distantes, por isso, com uma freqüência menor de banhistas. Eram praias mais selvagens, em relação às demais Assim, eu ocupava alguns domingos, indo às praias, para matar as saudades dos parentes distantes.

CONHECENDO A CIDADE
A minha vida continuava normal, com relação ao trabalho. Cumpria religiosamente o regulamento e andava tudo muito bem. Os chefes gostavam do meu desempenho e com pouco tempo, adquiri a confiança deles todos. Já disse, que esse tipo de emprego veio numa hora certa. Pelas circunstâncias normais, eu tinha a oportunidade de conhecer cada vez mais a cidade, como um todo. Diariamente, fazia parte do meu trabalho, viajar pelos diversos bairros. Era uma beleza, já que havia a oportunidade de conhecer muita coisa. Posso até dizer, sem falsa modéstia, que muitos filhos da própria terra, não conheceram tão bem o Rio de Janeiro, quanto eu Foi-me bastante útil o aprendizado. Após uns dois anos, prestando os meus serviços na sede da empresa, fui transferido para a fábrica de bijuteria, situada no Bairro de São Cristóvão, onde fiquei lotado no escritório. Aqui, acabaram as minhas chances de andar pelo Rio, no entanto, já não me fazia falta, pois o que precisava saber e conhecer, com referência à Cidade Maravilhosa, já aprendera nos dois anos anteriores. Trabalhei com o Sr. Max, um outro alemão, neurótico de guerra, mas, com quem me dei muito bem Ajudava-lhe na confecção da folha de pagamento do pessoal, eram cerca de 120 trabalhadores e emitia as ordens de serviço, para os pedidos de mercadorias. Senti, em princípio, pois já estava acostumado a dar as minhas “voltinhas”, lá por Copacabana, Ipanema, Méier e outros bairros mais. Mas, a firma necessitou os meus serviços em outro local, prontamente, tive que a atender. O restante dos meus dias, trabalhando para a firma Spiler Comércio e Indústria S/A, não sofreram qualquer modificação, que viesse a merecer destaque. A grande mudança neste período aconteceu, com referência à minha vida sentimental. Tive a felicidade de conhecer Suami, uma jovem paranaense, com quem namorei quase um ano. Após, ou ainda, durante o namoro com esta jovem, tive a ventura de conhecer a namorada, que depois, veio a ser a minha esposa, Igara. Foi uma história meio longa, mas, que vou abreviar o bastante, para não incomodar o leitor. Suami, a primeira, surgiu em a minha vida, através de endereço conseguido na Casa do Estudante. Tivemos alguns meses de contato, apenas, por correspondência. As minhas cartas deviam ser bastante interessantes, pois, por intermédio delas, cheguei a namorar a paranaense, quando a mesma veio ao Rio, para fazer um curso de biblioteconomia, na Fundação Getúlio Vargas. Nos dávamos muito bem, quando a moça “trancou” a matrícula, para voltar à sua terra, por motivo do falecimento do Sr. seu pai. Lamentei, mas nada pude fazer. Continuamos nos comunicando por meio de cartas, como acontecera antes de nos vermos pessoalmente. Igara, a quem eu conhecia, apenas, superficialmente, em casa de amigos comuns: Valdeci e Lurdinha, dos quais, falei em capítulo anterior, aumentou a sua freqüência a este endereço e num determinado dia, quando comemorávamos o aniversário da dona da casa, aconteceu o melhor Nos declaramos, mutuamente Lá para as tantas, sentindo a necessidade de uma conversa mais proveitosa, deixamos a festinha e “inventamos” de ver um filme que estava em cartaz no Cinema Plaza, no Passeio Público e que recebia elogios da crítica especializada Título da fita:”Suplício de uma Saudade” Foi vendo este lindo romance, que eu e Igara, iniciamos o nosso Com a viagem de Suami de volta para a sua casa, não tinha esperanças que retornasse ao Rio; isso pesou muito na minha decisão. Creio, que esse, foi o fator preponderante, na nova opção tomada, tanto por mim, quanto pela própria Igara. Finalmente, nos entendemos às mil maravilhas e menos de dois anos depois, contraímos matrimônio. Uma curiosidade nessa história toda, é que Igara teve oportunidade de conhecer as minhas duas namoradas, anteriores a ela, das quais, sempre falou muito bem Este foi um fato que me pareceu bastante interessante Por isso, também, deixei que o cupido me acertasse a sua flecha e, em conseqüência, estamos casados até hoje e tivemos dois filhos, que são motivo de muito orgulho, para nós dois

A EXPOSIÇÃO SOVIÉTICA
Princípio dos anos sessenta. O Brasil passava por uma transformação política, após ter assumido a Presidência o Dr. João Goulart. De tendência esquerdista, aceitava a infiltração de idéias de centro esquerda, que começavam a tomar conta do País. Por esse motivo, talvez, a então União Soviética, veio fazer uma exposição no Rio de Janeiro. O local escolhido é o antigo campo de futebol, do São Cristóvão Futebol Clube, no bairro do mesmo nome. É uma área bastante grande e foi totalmente tomada pelas estruturas que abrigariam a feira expositiva. Tive a oportunidade de conhecer o local, antes e depois de construído. À época, ficou conhecido como o maior vão coberto do mundo. Não sei, se de lá para cá, edificaram um espaço maior do que aquele. Eu disse v ã o Por quê ? Simplesmente, porque não havia colunas de sustentação, para apoio da cobertura da obra. Existiam as paredes laterais, que variavam de altura, partindo do centro, mais altas, para diminuírem, à medida que se prolongavam para os lados da construção. A obra tinha uma forma ovalada; não era exatamente circular. Um projeto arquitetônico, bastante arrojado para a ocasião. A cobertura da construção era de cabos de aço, que saiam de cima de uma parede, até a sua paralela, distante, na parte mais larga, uns 150 metros, aproximadamente. Sobre esses cabos, foi colocado um plástico especial, formando assim, a cobertura do prédio, que serviu, inicialmente, para alojar a Exposição Soviética. Nos dias atuais, a mesma construção está sendo utilizada pelas Escolas de Samba, para construírem os seus carros alegóricos, no mesmo local. Daí, tem-se uma idéia da área Visitei a tal exposição várias vezes. Gostava de ver as obras, as artes e o que havia de melhor, no mundo comunista, daquela época. Porém, um dos objetos que mais apreciava era a réplica do 1o. Sputinik, que lá, estava exposta. Havia uma sessão contínua de filmes, falando sobre o progresso espacial Soviético, inclusive, lançamento do Sputnik, o qual, era um objeto de forma esférica, com um metro de diâmetro, mais ou menos, e com antenas que saiam dessa mesma esfera, de um metro e meio de comprimento, talvez. Aquilo me fascinava, já que sempre gostei desse tipo de assunto. No mesmo setor onde estava o tema espacial, havia, também, uma fotografia da face oculta da lua. Por sinal, uma cópia da mesma foto, também, fazia parte do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, de que falei, um pouco atrás. Quanto ao restante do material exposto, eram máquinas diversas, automóveis, prédios, hidrelétricas e mais uma série de objetos outros, de menores valores. Lembro que dos automóveis russos, não gostei; achei-os mal-acabados e até mesmo, grosseiros, em relação ao padrão americano, que era o que conhecíamos naquela época. Digo assim, porque no mesmo tempo, o Brasil produzia, apenas os modelos: Fusca, Gordini e DKV Vemag. Estávamos iniciando, ainda, o processo de industrialização automotiva. Esses, eram os primeiros passos. De um modo geral, o carioca aceitou muito bem aquela exposição. Dentro do pavilhão, além dos objetos soviéticos, havia parques de diversões, comidas típicas e mais uma série de novidades, que atraiam os visitantes. Para finalizar, das exposições que vi, tanto no Rio de Janeiro, quanto fora dali, foi a que mais me impressionou e a que mais gostei. A coisa foi montada de tal forma, que produzia uma dinâmica em quem visitava, evitando aquela apatia natural, que quase sempre, se apossa das pessoas, nessas ocasiões Os Soviéticos foram sábios, na montagem do “layout” da sua da sua feira e corresponderam a expectativa, tanto é, que todos os dias, o pavilhão estava sempre lotado de visitantes.

O ASTRONAUTA
Falei ainda há pouco, da Exposição Soviética, que tive a oportunidade de visitar, quando instalada no Rio de Janeiro. Agora, dentro do mesmo assunto, pelo menos, dentro da mesma área geográfica, vou falar daquele piloto fantástico, que foi o primeiro homem a subir ao espaço. Refiro-me ao astronauta Yuri Alexeyevitch Gagárin, (1934-1968), que realizou a bordo da cápsula Vostok, a 12 de abril de 1961, o primeiro vôo orbital em torno da Terra, com 1h 48m de duração, atingindo, no apogeu, uma altura de 302 km. Uma coisa que lembro bem, é que nesse mesmo dia, eu e mais alguns colegas de trabalho, havíamos ido bater uma radiografia do tórax, para as nossas fichas funcionais, da firma onde trabalhávamos; Spiler Com. e Ind. S/A . Estávamos num Centro de Radiologia, na Rua México, quando liguei o meu rádio de pilhas, para ouvir o Repórter Esso, às 8 horas da manhã, daquele 12 de abril. Ficamos perplexos, quando Heron Domingues, locutor exclusivo daquele jornal falado, anunciava, com bastante destaque, que um observatório famoso da Inglaterra havia detectado sinais de rádio, de um objeto desconhecido, que deveria estar circundando a terra, a uma velocidade de aproximadamente 45.000 quilômetros horários Até aquele momento, ninguém tinha notícia de um veículo terrestre, que pudesse desenvolver tamanha velocidade Havia uma gravação do referido objeto, do tipo “bip”, que o acompanhava, enquanto efetuava aquela volta em torno da Terra. A notícia caiu como uma bomba Todos os demais noticiários se referiram àqueles sinais estranhos, vindos, ninguém sabia de onde; imaginava-se mui vagamente, que poderia ser alguma arma secreta da União Soviética Horas depois, após o pouso de Gagárin, a agência Tass informa que um Astronauta Soviético havia completado uma volta em torno do nosso Planeta. Ao ver a Terra, de uma altura de 300 kms, o primeiro homem a subir com êxito ao espaço sideral, Yuri Gagárin disse, para o mundo : “a Terra é azul” Pois bem, o famoso astronauta, logo após a sua façanha, começou a viajar por diversos países, fazendo palestras, sobre o maior feito do homem, até aquele momento Como não podia deixar de ser, o Brasil foi um dos escolhidos, para ver e ouvir o Herói mundial A sua vinda, aconteceu nas proximidades do período em que ocorreu aquela exposição de que falei. O Herói se apresentou no Sindicato dos Metalúrgicos, no Bairro de Benfica e lá, eu estava, no meio de uma multidão, para ver de perto o homem que fora o escalado para aquele feito Vi-o passar, bem perto de mim. Era um cidadão de 1,75m, mais ou menos, bem claro, de compleição atlética, por força da sua profissão, como Major da Força Aérea Soviética. Já no Sindicato, falou da sua missão (em russo, é claro), e disse que a partir daquela façanha, não era mais um cidadão russo e sim do mundo Foi bastante ovacionado, nas palavras que dirigiu ao público presente ao acontecimento. Era muito simpático e agradou a todos os que lá estavam, para vê-lo e ouvi-lo. Uns seis anos depois de nos ter visitado, Yuri Gágarin morre, quando fazia vôos de treinamento num jato de combate. Era o ano de 1968 e o nosso Herói estava com 34 anos de idade. CINELÂNDIA A Cinelândia é um dos pontos mais marcantes do Rio de Janeiro, pelas múltiplas opções de lazer, de cultura e arte que possui. Situada bem no coração da Cidade, tem a maior concentração de casas de espetáculos, como cinemas, teatros e casas de diversões diversas. Sempre que me sobrava algum tempo nos feriados, costumava dar um passeio pela Cinelândia, onde tinha oportunidade de me distrair, vendo um filme ou até mesmo uma peça de teatro. Bem no centro da Cinelândia, ficava a Praça Marechal Floriano, circundada de um lado, pelo Teatro Municipal, do outro, pela Biblioteca Nacional e Escola de Belas Artes e, finalmente, de um terceiro lado, pela Câmara de Vereadores e os Cinemas Pathé e Odeon, além de alguns bares e o Clube da “Bola Preta”. Tive a oportunidade de visitar algumas vezes a Biblioteca Nacional, que possui um acervo muito grande, com alguns milhares de livros, destinados a estudos e consultas, para estudantes e pessoas avulsas. Aqui, existem obras famosíssimas, escritas, algumas há dois ou três séculos atrás. Para os intelectuais, é realmente, um ótimo ponto de referência. Vizinho à Biblioteca, está a Escola Nacional de Belas Artes, com uma coleção bastante apreciável de peças raríssimas, de pintores clássicos, antigos e modernos, além de esculturas valorosíssimas, também, de artistas diversos. São dois ambientes que valem plenamente uma visita, para que a pessoa tome conhecimento das grandes obras ali expostas Essa, é uma área mais intelectualizada da Cinelândia, procurada por estudiosos de várias idades. Em contrapartida, numa área bem próxima, se desenvolve a cultura bem atual da 7a. arte - o cinema. Num raio de poucos metros, existem diversas casas exibidoras. Por serem cinemas bastante antigos, não têm uma boa freqüência de público, aqueles da Cinelândia. As boas casas de exibição, estão situadas bem próximas, porém, já estão na área do Passeio Público, como, os cinemas: Art Palácio, Metro Passeio e Plaza. Neste último, como citei um pouco atrás, foi onde eu e Igara juramos amor, um ao outro, vendo o filme: “Suplício de Uma Saudade”. No Art Palácio, durante um ano que ficou em exibição, fui quatro vezes, em meses diferentes, para ver a mesma fita: “A Noviça Rebelde” Aliás, um fato interessante, que observei dos cinéfilos, nesse cinema, nas vezes que fui ver o filme; eu não fora o único a ver a película uma, duas, três e quatro vezes; ouvi vários deles, que disseram a mesma coisa Também, é bom que se diga que o filme ficou em cartaz, no mesmo cinema, durante 1 ano No Cine Metro Passeio, tive a chance de ver, também, bons espetáculos, tais como: “Ben Hur”, “Os Dez Mandamentos” e outros mais, que não lembro agora. Essa casa exibidora era das melhores da Cidade; para a época, não havia ambiente mais apropriado e confortável, para esse tipo de espetáculo Em toda a Cidade do Rio de Janeiro, havia três Cines Metro; eram: o Metro Passeio, Metro Tijuca e Metro Copacabana. Todos, dispondo do mesmo conforto e com as mesmas qualidades técnicas. Lembro que os aficionados por cinema, antes das exibições, sempre davam uma passada pelo Magazine da Mesbla. Era uma loja de departamentos, onde se podia comprar, praticamente, tudo. A variedade e o sortimento de mercadoria eram muito grandes, além de usar um sistema de financiamento que agradava a sua clientela. O Magazine Mesbla, tinha um detalhe que não se pode esquecer. Sobre a sua fachada, existia uma torre, na qual, estava o famoso Relógio da Mesbla. Era uma identificação, para as pessoas que circulavam pelo Passeio Público, especialmente, aquelas que não possuíam relógio, para conhecimento das horas. Pessoas excêntricas apareciam pela Cinelândia, mudando um pouco a rotina, especialmente à noite No horário noturno, eu evitava o local, talvez, pelo alto grau de excentricidade dessas pessoas, que procuravam aquele lugar para se exibirem A Cinelândia era uma terra de contrastes, porém, agradável e bastante interessante

PRAÇA PARIS
Ao lado e à frente da Cinelândia, está a Praça Paris. Ambiente bastante agradável, pela disposição das suas plantas, seus jardins, seus bancos, suas fontes, em chuveirinhos para o alto e pela sua ótima localização, em referência ao centro da cidade. Este local, algumas vezes, tive oportunidade de freqüentar, com diversas finalidades. Algumas, para me livrar do calor intenso que domina o Rio, durante o verão, outras, para passear com a namorada, e finalmente, para ler algum livro. Havia algumas sombras acolhedoras, sob as árvores do parque e sempre gostei de usufruir das mesmas. Aos domingos, sempre existiam pela Praça Paris alguns turistas, aproveitando a beleza do local, para tirar as suas fotos, como recordação da visita à cidade. Não tenho fotografias tiradas ali, já que eu não era turista e sim habitante e morador. Começando nas proximidades do Passeio Público, do qual já falei, esta praça se prolongava até as proximidades do Bairro da Glória, onde está a igrejinha do mesmo nome, erigida sobre um local meio elevado, formando uma vista muito bonita. Bem à frente da praça, está o cemitério dos pracinhas brasileiros, mortos durante a 2a. Guerra Mundial. Os restos mortais dos nossos heróis foram trasladados do Cemitério de Pistóia, na Itália, para esse monumento, construído especialmente para recebê-los. Tratava-se, pois, de ambiente bastante agradável e acolhedor. Era comum, aos domingos, algumas famílias passarem as tardes nesse lugar, se deliciando com a beleza do mesmo, pelas suas plantas muito bem distribuídas, ornamentando de uma forma bem estruturada os jardins do parque. Afora a praça, propriamente dita, em formando o conjunto, como um todo, temos bem próximo o Monumento aos Pracinhas. É uma construção de configuração bem moderna, composta de duas torres, simbolizando mãos, em oferenda, numa área grande, acessada por alguns degraus, onde se realizam as solenidades referentes ao assunto e sob esta área, que serve de teto para o restante do monumento, estão: uma capela, um museu com algumas peças usadas na 2a. Grande Guerra e o cemitério propriamente dito, onde se encontram os restos mortais dos nossos heróis, da campanha da Itália. Sobre cada túmulo, uma lápide identificando o soldado. Algumas, porém, apenas com a seguinte inscrição: “Este, Deus sabe o seu nome”. Foram militares encontrados mortos, num estado em que não foi possível identificá-lo, possivelmente, pela dilaceração do corpo, provocado por explosões de bombas, granadas, etc. Nas paredes laterais que circundam o cemitério, os nomes dos mortos, datas de nascimento e falecimento, suas patentes e unidades militares de origem. O cemitério dos “Pracinhas” é lugar para se meditar sobre os horrores da guerra. Ali, nos transportamos no tempo e vemos quanta barbaridade foi cometida, por conta de idéias sem fundamento, postas em prática por um punhado de irresponsáveis genocidas. Em circundando o belo monumento, jardins muito bem cuidados complementam o conjunto arquitetônico que homenageia os nossos soldados, que deixaram os seus lares e partiram para o campo de batalha, na 2a. Guerra Mundial. Meu tio Biu, de quem falei um pouco atrás, foi um dos componentes desse contingente de brasileiros que esteve presente no teatro de guerra. Graças a Deus, nada sofreu. Faleceu muitos anos depois, talvez, por causa de uma doença raríssima, que paralisa algumas partes do corpo; uma junta médica que o examinou, disse que, provavelmente, tenha adquirido o vírus, quando ainda na Itália, provocado por baixas temperaturas, que por lá, teve de suportar. Vou encerrar este assunto, deixando o meu repúdio aos monstros causadores da grande tragédia que se abateu sobre o mundo, entre os anos de 1939/1945.

PALÁCIO DO CATETE
Um dos prédios mais importantes do Brasil, por ter abrigado durante décadas o Presidente da República, funcionando como palácio dos despachos presidenciais. Endereço obrigatório, especialmente para políticos, por ocasião de seus contatos com o Chefe da Nação. O antigo palácio presidencial, após a mudança da Capital Federal para Brasília, foi transformado em Museu da República, guardando em suas dependências documentos, obras de arte, objetos e algumas lembranças pertencentes a diversos presidentes brasileiros, que por lá passaram. Um dos cômodos do prédio, era o quarto do Presidente Vargas. Aqui, no dia 24 de agosto de 1954, Getúlio se suicidou, com um tiro no peito, após um movimento de forças opositoras, contra a sua permanência à frente dos destinos do País. O local está disposto da mesma forma, como no dia que Getúlio praticou o ato tresloucado. Umas poucas peças e sobre a cama, o pijama tinto de sangue, usado pelo Presidente naquela madrugada fatídica. Chamou-me a atenção um quadro exposto em uma das paredes, com a fotografia ampliada de Getúlio Vargas, recebendo o então Presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, na Base Aérea de Natal. A visita do ilustre Presidente Americano, estava ligada à necessidade de implantação de bases militares americanas no território potiguar. Foi uma missão bem sucedida, já que, ficou acertado, que seriam construídas duas bases militares: aérea e naval. Sobre esse assunto, devo dizer que existe uma vasta literatura, dando detalhes de como funcionou o acordo. Aqui, apenas, devo salientar que o projeto militar americano, nos trouxe muitos benefícios, já que, por Natal, passaram milhares de aviões dos Estados Unidos, que se dirigiam aos campos de batalha na Europa, porque a autonomia de vôo daquelas aeronaves não lhes permitia efetuar a travessia do Atlântico, saindo do território americano. Devido a distância menor entre Natal e Dakar, na África, os bombardeiros americanos faziam escala em Natal, de onde levantavam vôo para o Velho Mundo. Pelo pouco que foi dito ao respeito do assunto, dá para se ver, claramente, que a Capital Potiguar teve um importância muito grande, no contexto que se referiu à 2a. Guerra Mundial. E lá, no Museu da República, está exposta a foto que representou a nossa participação no conflito mundial. Nesse Palácio do Catete, ou Palácio das Águias, como também era conhecido, por causa das estátuas dessas aves, que encimam o frontispício do prédio, tive a oportunidade de ver uma solenidade muito concorrida de público, quando da recepção dos atletas que conquistaram a 1a. Taça Jules Rimet, para o Brasil, no campeonato mundial de futebol, em 1958. Vi, como muitos, também viram, artistas da bola, como Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Zagalo, Belini (capitão do time) e os demais jogadores, que tão bem, nos representaram nos campos da Suécia. Foi uma recepção digna de heróis, comandada pelo então Presidente Juscelino Kubtschek, das sacadas do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, nos primeiros dias do mês de julho de 1958, logo após a consagração do nosso futebol em gramados europeus. Alguns anos depois desse acontecimento, fui morar bem próximo a esse Palácio, agora, já museu, pois os Poderes da República tinham sido transferidos para Brasília; a rua Andrade Pertence, onde moramos, ficava há poucos metros do Catete. Havia casado há bem pouco tempo, e, como a renda do casal era pequena, ficamos residindo numa casa antiga, em dois cômodos, que eu e Igara, transformamos na nossa primeira residência. Apesar da simplicidade da casa, o ambiente era muito bom, de classe média. Éramos cercados de edifícios luxuosos e a casa onde nos instalamos, era das poucas que ainda havia pelo local. A primeira residência do casal Odilon e Igara, foi, portanto na rua Andrade Pertence, no Bairro do Catete, zona sul da Cidade do Rio de Janeiro. O ponto era magnífico, perto do Centro da cidade e não muito longe da famosa Zona Sul. Naquele ano de 1963, já era bastante badalada a Zona Sul do Rio; em relação aos bairros da Zona Norte, parecia que estávamos em um outro mundo. Os costumes, os comportamentos das pessoas, o comércio, os divertimentos, tudo, afinal, diferia dos bairros da Zona Norte da cidade. Constituía, realmente, um privilégio, se poder morar nos bairros da Zona Sul, pela facilidade que se tinha, em relação a quase tudo que se necessitava, para viver bem, numa cidade grande. Recordo com muita saudade o tempo que residi na rua Andrade Pertence, vizinho ao Colégio Santo Antônio Maria Zacaria, apesar do pouco dinheiro que dispúnhamos, para viver. Um momento que lembro, desses dias vividos no Catete, foi o 1o. de abril de 1964. Havia rebentado a Revolução de 31 de março. O País estava vivendo um clima de muita tensão, que culminou com o movimento deflagrado nas últimas horas do dia 31 de março e primeiras horas de 1o. de abril de 1964. Lembro que estava gozando umas férias forçadas, do banco onde trabalhava, por conta de uma greve que já durava uns doze dias. Na ocasião, o Brasil vivia quase sempre paralisado, por força de greves e mais greves, decretadas quase todos os dias Parecia brincadeira O trabalhador acordava, começava a se preparar para ir trabalhar, ligava o rádio e ouvia as notícias, que geralmente, versavam sobre o descalabro que imperava de norte a sul do País. Como estava em período de greve, acordei mais tarde, naquele dia 1o. de abril de 1964. Liguei o meu radinho de pilhas, para tomar conhecimento do andamento da greve dos bancários, que era a minha categoria e não ouvi o sinal de nenhuma das 22 emissoras de rádio da cidade. Fiquei tranqüilo, pensando que as pilhas tinham acabado a carga As estações de televisão iniciavam as suas transmissões, por volta do meio dia, portanto, ainda estavam desligadas às 8 da manhã. Desci para comprar o leite do café matutino, num supermercado próximo. Ao chegar à rua, senti um clima estranho Alguma coisa que eu não sabia o que era, exatamente, deveria estar acontecendo Quando chego à rua do Catete, não vi um carro sequer Os bondes, nem sinal, apesar do barulho que faziam, com as suas rodas de ferro Olhei em direção ao Palácio do Catete, vi tanques de guerra, no meio da rua, como se estivessem a fechá-la Ato contínuo, virei-me para a posição oposta, a mesma cena Uns carros de combate do Exército, atravessados no início da rua do Catete e muitos soldados, equipados, como se estivessem em uma operação de guerra Caminhei um pouco e vi as lojas fechadas. Fiquei meio atordoado Cheguei a pensar que fosse feriado Voltei para casa, contei a Igara o que tinha visto e ficamos à espreita, tentando ouvir algum sinal, que elucidasse a questão. Não identificamos nada Nesse dia 1o. de abril, o nosso café da manhã não teve leite e nem pão fresco; foi café puro, com pão dormido Lá para as tantas, resolvi ligar o rádio mais uma vez. Percorri o “dial” e ouvi apenas uma emissora no ar; era a Rádio Nacional, que transmitia uma mensagem política, diferente das que estávamos acostumados a ouvir. O locutor era um alto oficial do Exército, que dava as primeiras notícias sobre o golpe militar, que a partir daquele instante, já se considerava vencedor. Falava, exatamente, que os transmissores da Nacional tinham sido retomados pelas forças revolucionárias e passariam a transmitir informes, acerca do movimento iniciado poucas horas antes. Ficamos atônitos, pois àquela altura dos acontecimentos, já tínhamos uma certa simpatia pela política do governo federal do Presidente João Belchior Marques Goulart (Jango). Andávamos lendo alguma coisa acerca de comunismo, socialismo e outros ismos mais, e a verdade, é que estávamos com a cabeça meio virada Também, naquela idade em que nos encontrávamos, vinte e poucos anos, o não convencional, “entra” com mais facilidade. Quem me fornecia algum material para ler, era o meu amigo Valdeci Araújo, de quem falei atrás; “De Moncada a Sierra Maestra”, foi um dos seus livros, que pude ler. Falava das vitórias de Fidel Castro, na Revolução Cubana. Pelas leituras e pela mídia, recebíamos muitas informações favoráveis à luta desenvolvida pelo líder cubano, que culminaram com a implantação do regime comunista, naquela ilha do Caribe. Além do mais, estávamos na década do “protesto”, da “Juventude Transviada”, dos movimentos libertários, em todos os sentidos e de uma mudança generalizada na sociedade, como um todo. Sacramentada a “Revolução Redentora”, o alto Comando Revolucionário decreta feriado bancário por três dias, o plano seria evitar a retirada de dinheiro dos bancos, talvez, para não financiar uma contra-revolução. Achei ótima a medida, pois assim, teria mais três dias de folga Diga-se de passagem, eu estava adorando aquela “confusão” Os meios de comunicação, só davam notícias censuradas pelas forças armadas; ai de quem tentasse “abrir o bico” Aliás, por causa disso, a Rádio Mayrink Veiga teve os seus transmissores lacrados, no mesmo dia. Ela era a porta-voz do Governo Federal, transmitindo discursos do então Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, Leonel Brizola, em nome de uma “cadeia da legalidade” Oito dias depois de deflagrado o movimento, eu e Igara fomos fazer uma visita rotineira ao apartamento de Valdeci e Lurdinha. Aquele, recebera ordem de ir à sua casa, três dias depois de rebentada a Revolução. Ao chegar a casa, queimou todos os livros que falavam do movimento Castrista (de Fidel Castro) Voltou imediatamente ao C.A M. Centro de Armamento da Marinha , onde estava embarcado, e de “prontidão”. As Forças Armadas ficaram muito tempo no estado de alerta máximo; havia essa necessidade, para que se pudesse “sufocar” quaisquer movimentos, ou tentativas, contrárias à ordem imposta pela “Revolução Redentora”, como lhe chamaram , no início. Não é demais, se dizer, que o assunto dominava todas as conversas. Os comentários eram sempre dirigidos ao tema revolucionário; era o assunto do momento e não havia como se fugir dele. Finalmente, decorridos alguns dias, eu, Igara, Valdeci, Lurdinha e todos os demais conhecidos e amigos, mudamos de idéia e passamos a apoiar as medidas implementadas pelo Comando Revolucionário. A ordem e a disciplina voltaram a imperar. Aquelas greves diárias, acabaram. Toda a administração pública, passou a atender os princípios que lhe são inerentes. Para finalizar, digo, que o Brasil mudou, de um estado de quase anarquia, para um de ordem, moral e disciplina. A Revolução Redentora de 31 de março de 1964, na minha opinião, trouxe mais benefícios, do que malefícios, ao País.

CRISTO REDENTOR
Estou diante de um dos mais belos monumentos da cidade do Rio de Janeiro. Tenho, à minha frente a beleza e a grandiosidade da estátua do Cristo Redentor; aliás, desta maneira, podem falar habitantes de vários bairros da cidade, já que a referida imagem é vista de pontos, os mais diversos possíveis. Impressionou-me tão belo cartão postal, logo que o vi, no amanhecer daquele dia que chegara ao Rio. Na ocasião, não havia iluminação ao monumento, o que, prejudicava a visão noturna. Vou fazer um pequeno histórico do assunto, para situar o leitor, que não teve a ventura de ver aquele colosso. O monumento está situado no Corcovado, um morro proeminente, na cadeia de montanhas que circunda a baía da Guanabara. O Corcovado, com 710 metros de altitude, se eleva de modo impressionante pelo seu perfil à guisa de uma enorme proa de navio. Esse seu aspecto característico, prende a atenção de todos que o conhecem. Acredito que este mesmo sentimento, tiveram as pessoas encarregadas de erigir a imagem do Cristo naquele local. Em minhas anotações, consegui alguns detalhes que devo contar, para abrilhantar um pouco mais, esta história. Vamos às dimensões da estátua: pedestal, 8 metros; cabeça, 4 metros; mão, cada uma, 3 metros; numa altura total de 30 metros; cada mão, pesa 8 toneladas; a cabeça, 20 toneladas; o revestimento, 205 toneladas; a construção demorou 5 anos para ser concluída, de 1926 a 1931. A base do monumento é uma nave, com capacidade para 100 pessoas; na parte externa deste santuário vê-se em todo o redor, baixos relevos, representando passagens do martírio de Cristo. Tive a ventura de ir algumas vezes visitar e ver aquela imponência magistral, que funciona, pelo mundo afora, como sendo o cartão postal da bela cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. A primeira vez, fui só. Peguei o bonde de Santa Teresa, até o final da linha, na estação do Silvestre, que é a 1a. parada, para quem vai subir pelo trem, vindo do Cosme Velho. Adorei o local. Já em plena montanha, talvez, há uns 200 metros de altura, com relação ao nível do mar. Ambiente adorável, para quem quer fugir da agitação e do calor do centro da cidade. O local é tão gostoso, que quase fiquei por aqui Mas, a meta seria conhecer o Cristo Redentor, de quem eu já era bastante familiarizado, pelas informações do Seminário, e dos meios de comunicações. Só me faltava chegar bem próximo, pegar e examinar ao vivo, aquilo que conhecia sobejamente Deixei o Silvestre para uma outra oportunidade. Não faltaria tempo, já que estava decido a permanecer na cidade, até, sabe Deus, quando Vou continuar a subida até o Cristo. Lá vem o trenzinho, que diverge um pouco dos trens convencionais, já que possui uma engrenagem sob o carro motriz, com uma espécie de dentes, para poder segurar a composição na descida e dar apoio à tração, quando está em subida. É um meio de transporte bem interessante e até romântico. Lembra um bonde, na sua estrutura. Deve transportar uns 100 passageiros, talvez. O tempo da viagem é longo, uns 35 minutos, mais ou menos; contudo, não dá para cansar, já que a paisagem que se descortina diante dos olhos do visitante é simplesmente deslumbrante Por quase todo o percurso, de um lado e do outro da linha férrea, uma flora exuberante, parte da floresta da Tijuca. Um arvoredo muito bem dosado, com várias espécies de plantas, dentre elas, algumas muito bonitas e floridas. Nesse ambiente de pura natureza, vemos alguns animais de pequeno porte, que por lá ainda existem, apesar da perseguição dos homens. Uns poucos riachos também compõem aquele conjunto. Finalmente, um clima maravilhoso e repousante, próprio para quem esteja necessitando de um revigoramento físico e mental Do Silvestre, partimos para a próxima parada, nas Paineiras. Aqui existe um hotel, em plena mata, ideal para quem precisa se desligar da vida tensa da cidade. Tudo em volta é muito lindo e muito natural. Em se hospedando por aqui, é como se estivesse na própria selva amazônica. A pessoa esquece a vida atribulada da cidade e passa a respirar o ar fresco e puro daquele ambiente. Deixamos as Paineiras e vamos continuar a nossa jornada de subida até o Cristo Redentor. Agora já falta bem menos. Continuamos uma ascensão, num ângulo de uns 40 graus. É bastante íngreme o percurso. Veja, que para se percorrer uma distância linear, relativamente pequena, temos que subir cerca de 710 metros, até o cimo da montanha. Dezenas de vezes por dia, o trajeto é feito pelos trenzinhos, especialmente, em época de férias, quando os visitantes da cidade se deslocam até lá, para conhecer aquela maravilha da engenharia nacional, personificada numa imagem do Cristo, de braços abertos, como que abençoando a Cidade Maravilhosa Chegamos ao final da linha férrea e estamos bem próximos do nosso objetivo. Quase no topo da montanha, um estacionamento para os automóveis. Os carros chegam ao local, através de uma estrada muito bem conservada, que também corta a mata, até o seu ponto final. Esta viagem, já não é tão romântica quanto aquela feita no trenzinho. É muito rápida e não dá para se apreciar a natureza, que é uma das coisas mais importantes do local. Prefiro a subida pela via férrea, mais gostosa, apesar do barulho das rodas de ferro sobre os trilhos, durante todo o percurso Vimos o estacionamento dos carros e começamos a subir uns degraus que irão nos levar até a estátua. Antes, passamos por diversas lojas de “souvenirs”, restaurantes e outras mais, como acontece em todos os ambientes turísticos. Já vemos o pedestal e a imagem, um pouco acima. Temos, porém, que escalar algumas dezenas desses degraus, até atingirmos o topo da montanha, onde se encontra o monumento. É meio cansativo, mas, ao final, vale qualquer sacrifício Finalmente no plano, onde começa o pedestal. Uma área de uns 1500 metros quadrados, cercado por uma grade de ferro, ao seu derredor e daqui, a visão magnífica de vários bairros do Rio de Janeiro. Tem-se, especialmente, uma vista muito bonita da Zona Sul, por estar mais próxima; não fossem os diversos morros que se espalham pela cidade, ver-se-ia, talvez, todo o perímetro urbano. Daqui de cima, não sabemos se devemos admirar a grandeza da imagem ou da cidade, que está lá embaixo, há quase um quilômetro, sob os nossos pés É um cenário indescritível. Não tenho condições de retratar com precisão toda aquela beleza É uma coisa fantástica Creio, que no mundo, não exista paisagem semelhante A natureza fez, apenas, aquela e deixou para os cariocas As demais cidades devem morrer de inveja, por causa disso Mas, fazer o quê? A agraciada foi São Sebastião do Rio de Janeiro A visita ao monumento do Cristo Redentor foi um momento dos belos da minha vida, não desmerecendo alguns outros que aconteceram. Tudo que envolve esse passeio, é diferente do normal. Só o pode avaliar, quem lá esteve e apreciou aquele clima, aquela paisagem, aquela viagem, curta, mas muito gostosa, através da mata da floresta da Tijuca, até a extremidade do penhasco do Corcovado. Algumas vezes fiz o mesmo trajeto; e cada vez, sentia uma sensação mais agradável do que a anterior. Pena é não se poder encaixotar a montanha do Corcovado, com a sua estátua, a mata que a cerca, a vista belíssima, em volta do monumento e sair em exposição por todas as cidades do Brasil, a fim de que os brasileiros apreciassem aquela criação fantástica, tanto da natureza, quanto dos homens, também

COPACABANA
Durante os anos que morei no Rio, Copacabana foi um dos bairros mais badalados e importantes da cidade. Tinha vida própria e independente. Era realmente “sui generis”. Tudo aqui funcionava, como se fora uma urbe emancipada. Conheci-a nos primeiros dias, depois da minha chegada à cidade. Achei-a diferente, pelo seu movimento comercial, pela sua gente, pelos seus muitos prédios residenciais, pela sua orla marítima, onde poucos se aventuram a entrar no mar, por ser bravio e até pelos seus cachorrinhos, muito bem cuidados, especialmente, quando em época fria, que saem às ruas do bairro, vestidinhos com roupinhas mais quentes, para não “resfriarem” Copacabana é fora de série Com uma população bem maior do que várias capitais brasileiras (cerca de 1.200.000 habitantes), tem uma vida totalmente diferente de outros recantos do Rio de Janeiro. Edificada numa área muito pequena, entre os morros e o mar, está o famoso bairro, conhecido mundialmente, através de músicas, filmes, postais e outros meios de comunicação. Era reduto da classe média e média alta, dos meus tempos. Tive alguns conhecidos que moravam ali. Alguns deles, gastavam quase todo o salário, para ter o direito de dizer que residiam em Copa, forma carinhosa de tratar o lugar Era chique morar aqui Realmente, os que assim pensavam, não estavam exagerando Tudo de bom, à época, se concentrava naquele pequeno pedaço de terra, minado de arranha-céus, por todos os lado. Tido como um ambiente mais sofisticado, os turistas que visitam o Rio o preferem para hospedagem, daí, a grande quantidade de hotéis, especialmente, na Av. Atlântica, bem em frente à praia. Como curiosidade, lembro que certa vez, contei quantos estabelecimentos desse gênero havia nessa avenida; e, só do grupo “Othon”, eram 7 hotéis, sem contar com outras empresas hoteleiras. Assim, não há necessidade de se tecer maiores comentários ao respeito. Um dado como esse, é o bastante. Restaurantes, bares, lanchonetes e botequins existem às centenas. Em matéria de alimentação, não se pode estar melhor servido. Grandes cadeias de lojas, casas comerciais, as mais diversas, além de uma ótima infra-estrutura de serviços públicos e privados, completam a facilidade que é comum ao habitante e morador de Copacabana. Quase não se nota diferença entre a noite e o dia por aqui. A vida noturna é bastante intensa, por causa das centenas de casas de shows, boates e uma infinidade de outros ambientes, para dar vida ao bairro, nas 24 horas de cada dia. Assim conheci aquele recanto da Zona Sul, nas décadas de cinqüenta e sessenta. Havia algo especial por aqueles lados, que tanto agradavam e prendiam as pessoas. Tinha-se a idéia de que estávamos em um outro país, pelo ordenamento das coisas e pelos costumes de quem por lá morava. Naquela ocasião, bem que me agradaria residir em lugar tão evoluído, mas, os recursos eram escassos e tive que me contentar em morar em outros ambientes mais simples. Em 1986, quase trinta anos depois, fui fazer um curso na Fundação Getúlio Vargas; fiquei hospedado em Copacabana. Qual não foi a minha surpresa, quando vi que o bairro continuava com aquela mesma importância dos tempos em que por morei. Não melhorou, nem piorou; continuou a Copacabana dos velhos tempos, com um comércio bastante ativo, com muita gente pelas suas ruas comerciais e com aquele povo meio metido a “besta”, porque mora num bairro relativamente chique e que pode se dar ao luxo de ser totalmente independente do restante da cidade. Nos seus cento e poucos anos, Copacabana é um dos orgulhos da Cidade Maravilhosa.

O CENTRO DA CIDADE
Já falei sobre diversos pontos da cidade e esqueci de comentar alguma coisa sobre a região central da mesma. De início, devo salientar, que não difere muito das demais, pois a sua arquitetura, o seu comércio, os seus transportes, tudo, afinal, é mais ou menos idêntico a diversos outros, com raríssimas exceções. Alguns prédios antigos, outros menos, já remodelados e reformados, para melhorar o visual e aquele movimento constante de pessoas, nas suas idas e vindas, formando aquele murmurinho de toda cidade grande. Muitas casas comerciais, escritórios, museus, teatros, cinemas, salas de exposições, clínicas, hospitais, bancos, repartições públicas e mais uma série infindável de outras coisas, necessárias ao funcionamento de uma cidade importante, como o é o Rio de Janeiro. Por aqui, vivi grande parte do meu tempo. Inicialmente, na rua da Alfândega; depois, na Praça 15, onde trabalhei no Banco Nacional de Minas Gerais, durante 6 anos. Acerca do primeiro emprego, falei anteriormente. Nada disse, ao respeito da vida como bancário. Falo-ei agora, para que se tenha uma ligeira idéia de como foram os meus dias, numa instituição bancária privada. Comecei a nova profissão no mês de março de 1963, após fazer um concurso para ingresso no Banco Nacional. Para evitar a burocracia de aviso prévio etc., aleguei que estava sendo obrigado a me desligar da firma, porque iria voltar para o Nordeste, pois o meu pai estava muito mal e precisava da minha ajuda Diante dessa (falsa) justificativa, fui liberado sem maiores problemas de Spiler Comércio e Indústria S/A, onde trabalhava desde 1957. Usei esse expediente, logo que recebi o telegrama que me convidava a comparecer ao novo emprego. No começo, foi muito difícil. Escalaram-me para trabalhar no setor de contas-correntes, que era o “bicho papão” da época. O sistema era mecânico, com aquelas máquinas grandes, barulhentas e quebradiças. Foi um verdadeiro “sufoco” Mas, o salário era melhor, além me inserir num “status” social mais elevado A vaidade humana, às vezes bota a gente em cada “fria” Nos dois primeiros meses como bancário, havia expediente aos sábados; fui trabalhar, portanto, durante alguns dias desses. Depois, o sindicato conseguiu o cancelamento do expediente sabatino e ficamos operando de segunda a sexta-feira, no horário de 8 da manhã, às 18. Eram 10 horas de trabalho por dia. Contudo, o meu setor só tinha hora para começar: 8 horas da manhã. A saída, só Deus sabia qual seria Enquanto não se “fechava” o movimento do dia, o pessoal da conta corrente não podia encerrar os trabalhos. Muitas vezes, saí da agência há 1 ou 2 horas da madrugada. A partir desse horário, nós preferíamos dormir sobre os bancos e cadeiras da própria agência e éramos acordados pela turma da manhã, que chegava para o novo expediente Essa vida de “cão” durou até a chegada do computador, em meados de 1967. Com a implantação da informática, às 18h30, já tínhamos terminado o expediente. Nós nem acreditávamos Saímos, às vezes, ainda com sol aberto. No verão, o astro rei demora mais a se esconder, lá para aqueles lados. Estávamos tão acostumados com aquele horário maluco, que nem acreditávamos que pudesse estar acontecendo uma coisa daquelas As esposas dos colegas casados ficavam contentíssimas Com Igara, não poderia ser diferente Veja que, algumas vezes, não consegui dormir em casa, terminava os trabalhos altas horas da madrugada Seria uma temeridade, naquele horário, ir pegar qualquer condução Por conta disso, no ano de 1965, antes do computador, consegui com Haroldo, contador da agência, à época, sair no máximo à meia noite, horário em que partia o último ônibus da Praça Tiradentes, com destino a Água Santa, bairro onde morei por alguns meses. Foi um Deus nos acuda, porque o meu serviço, teria que ser terminado pelo próprio chefe do setor, já que, só ele conhecia os detalhes do meu trabalho. O tal chefe criou mil empecilhos, para não me liberar um pouco antes da meia noite, mesmo assim, o gerente de serviço entendeu o meu ponto de vista e liberou, “na marra” Desde essa liberação, fiquei mais tranqüilo, pois estava garantida a minha saída do expediente, faltando 10 minutos para as 12 horas da noite, a fim de poder pegar o ônibus: Tirandentes-Água Santa, na sua última viagem Permaneci neste setor até meados de 1967, quando foi definitivamente implantado o sistema por computador; nessa ocasião, o pessoal do setor de conta corrente foi aproveitado para trabalhar como caixa executivo. Aumentava a responsabilidade, mas tínhamos um horário bem melhor e uma gratificação de quebra de caixa, que representava um acréscimo de 30% do salário. Nessa nova função, fiquei até a minha transferência para a cidade de Natal, no princípio de 1969. Disse há pouco, que os centros das cidades são, mais ou menos, parecidos uns com os outros. Aqui não poderia ser diferente. No caso particular do Rio de Janeiro, era onde se localizavam as sedes regionais dos grandes bancos, das grandes redes comerciais e a parte intelectual da cidade, por causa do grande número de museus, bibliotecas, teatros etc. Bem próximo, estava o cais do porto, distante uns 500 metros da conhecida Igreja da Candelária, que está situada no início da Av. Presidente Vargas, bem no coração do Rio. O começo do porto do Rio de Janeiro era na Praça Mauá e se prolongava por alguns quilômetros. Nesta praça, se concentravam os marujos dos navios estrangeiros, atracados no ancoradouro. O ponto de encontro desses tripulantes era no “Florida Bar”. Era uma espécie de Babel, onde se falavam várias línguas, com gente de diversas partes do mundo. Algumas vezes estive por aqui, quando ia aos programas de auditório da Rádio Nacional, localizado no 21o. andar do edifício “A Noite”. Havia um programa aos sábados, a partir do meio dia, comandado pelo apresentador César de Alencar. Era um desfile de grandes astros da música popular daquela época. Por cause disso, valia a pena passar uma tarde assistindo o tal programa, ainda mais, que o apresentador era fantástico Conhecidíssimo em todo Brasil, pela sua maneira toda especial de conduzir um programa de auditório de rádio. Na Revolução de 64, por ter “dedurado” alguns colegas, esse fabuloso locutor e apresentador foi posto no ostracismo pelos colegas de profissão e não mais conseguiu voltar ao apogeu que desfrutou, no período anterior à Revolução. Foi uma pena. O rádio brasileiro perdeu muito, com a sua ausência dos meios radiofônicos Ainda nas proximidades do Centro, estão a estação central da Estrada de Ferro Central do Brasil e o Campo de Santana. Duas palavrinhas sobre cada um, para mostrar o ambiente em que vivi por muitos anos, enquanto morei no Rio de Janeiro. A Central do Brasil, (Estação D. Pedro II), todos conhecem ou já ouviram falar ao seu respeito; ou porque viajaram nos seus trens ou por meio de cartões postais. É um prédio de 22 andares, encimado por um relógio que ocupa 4 desses mesmos andares. Sobre este assunto, já falei um pouco atrás. No andar térreo, um vão enorme, capaz de abrigar alguns milhares de passageiros, que por ele transitam, com destino às plataformas de embarque. Dezenas de bares e lanchonetes, agência bancária, telegráfica, cabinas telefônicas e mais uma série de outras coisas, com a finalidade de bem servir, quem esteja por ali. Bem em frente à Estação D.Pedro II, está o Campo de Santana. É uma área de uns 4000 m2., bem arborizado, com alguns lagos e pequenas pontes, alguns bancos, onde se pode sentar para apreciar a beleza do local, algumas aves aquáticas e pequenos animais, na sua maioria, cotias e gatos. Quando namorava Igara, algumas vezes fomos até lá, às tardes dos domingos, para fugirmos um pouco do calor que dominava a cidade. Por ter muitas árvores, conseqüentemente, havia bastante sombra no local. Existiam algumas famílias que faziam pequenos piqueniques no local. Quando morava no bairro de Santo Cristo e trabalhava na rua da Alfândega, diariamente, atravessava o Campo de Santana, no sentido Central do Brasil, Igreja de São Jorge, que fica ao lado desse logradouro. Para quem gosta de História do Brasil, aqui, no Campo de Santana, foi onde o Marechal Deodoro da Fonseca concentrou as suas tropas, no dia 15 de novembro de 1889 e proclamou a República, num golpe militar, que culminou com o banimento da Família Imperial Brasileira. O Campo de Santana não é uma praça qualquer, mas, o símbolo de um marco divisório na história pátria. Outros detalhes do Centro, não os comentarei, por serem comuns às demais cidades. PETRÓPOLIS Voltando ao tema sobre os meus passeios, não poderia esquecer um dos mais importantes, de todos os que fiz, enquanto residia na Cidade Maravilhosa. Petrópolis, ou cidade de Pedro, situada na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, dista poucos quilômetros, percorridos, aproximadamente, em menos de 1 hora de automóvel. Cidade fantástica Possuidora de um clima extraordinário Não sei qual seja a sua temperatura média, mas, não deve passar dos 25 graus. É uma gostosura Havia chegado há pouco tempo de Natal e o Rio estava num calor infernal Creio, que na faixa dos 40o. Apesar de ter vindo do Nordeste, sentia-me mal, nos primeiros tempos, como carioca Na ânsia por encontrar um lugar mais ameno, indicaram-me uma viagem a Petrópolis. Não perdi tempo. No próximo fim de semana, me larguei com destino àquela cidade. Foi uma ótima opção. Tanto é que, por várias vezes, passei os domingos na Cidade Imperial. Fiquei surpreso com o traçado da estrada. Tem muitas curvas e uma inclinação bastante acentuada, já que, a cidade está situada a cerca de 800 metros de altura, acima do nível do mar. É uma viagem bastante interessante, principalmente, para quem nunca fez esse percurso. Enquanto subimos, vemos pontos da estrada, onde passamos alguns minutos antes, lá embaixo, há 100 metros, ou mais Para quem tenha a fobia de altura, deve ser um problema, a não ser que, não se olhe os enormes despenhadeiros, que surgem durante quase toda a viagem. A visão é muito bonita, para quem tem coragem de apreciar a paisagem. Na minha primeira viagem, cheguei ao seu final, com aquele incômodo nos ouvidos, que sentem as pessoas que viajam de avião. Felizmente, logo, recuperei e não tive mais problemas. Posso dizer que foi um passeio diferente dos demais, especialmente, porque tive oportunidade de conhecer muita coisa referente à História do Brasil. A minha primeira observação foi com relação às pessoas. As crianças, principalmente, tinham um rosto rosado, parecendo que haviam recebido uma certa maquiagem Causou-me uma surpresa bastante agradável Creio que o fenômeno, deve-se àquele clima maravilhoso da cidade. Notei que havia sol, muita claridade, mas, a temperatura era amena, em relação ao calor sufocante, que sentíamos no Rio de Janeiro. Petrópolis é um lugar realmente diferente de todos os que eu havia conhecido, até então. E essa diferença, era para melhor, e mais gostosa. Foi amor à primeira vista, como se diz, vulgarmente Após uma primeira visão das ruas, das praças, do movimento em geral, fui atrás do ponto principal da minha ida até lá. Queria conhecer o Museu Imperial. Fui vê-lo. Achei interessante, quando à porta de entrada, tive de calçar uma espécie de chinelo, de um material tipo lã, que era colocado sobre o sapato, cuja finalidade seria não arranhar o piso de tábuas do Museu. Foi uma novidade para mim. Não sabia desse artifício, usado para conservação e brilho do assoalho, já que, enquanto a pessoa está caminhando, automaticamente, vai “encerando” o chão. Gostei da idéia Logo à entrada, uma sala muito bem decorada, à moda da época, tendo ao centro uma espécie de redoma, feita de vidro à prova de bala, tendo no seu interior a peça mais rara do Museu, a coroa que pertenceu ao Imperador D.Pedro II. É uma jóia, de valor inestimável. Não tenho exatamente, de memória, os dados relativos a essa peça. Lembro que é de ouro maciço, pesa cerca de 1800 gramas, e, à sua volta, mais próximo da cabeça, de onde saem quatro hastes curvas, que se juntam na parte mais alta da coroa, estão encravados 630 brilhantes de muitos quilates; na parte mais alta da referida jóia, onde se encontram as hastes de que falei, existe um globo, com a inscrição P. II, uma cruz e uma pedra preciosa, de cor vermelha, não sei se rubi, ou outro tipo de pedra. Ainda, em volta da base da citada coroa, estão 77 pérolas cultivadas, de altíssimo valor A peça fica girando dentro da redoma, com luzes sobre ela, criando um visual lindíssimo Para a confecção dessa jóia, foi necessário usar alguma coisa da coroa que pertenceu a D.Pedro I. Não me recorda o que seja. Naquelas anotações que perdi, das quais, falei em capítulo anterior, eu tinha todos os dados escritos. Este ornamento, símbolo do poder, foi usado pela primeira vez, por ocasião da coroação de D.Pedro II, no ano de 1841. Em uma outra sala, está exposto o manto, usado pelo Imperador nas grandes solenidades. Trata-se de uma outra peça de raríssima beleza É confeccionada de um material tipo veludo, de cor verde escura, tendo à altura dos ombros, uma espécie de sobretudo, feito de penas amarelas, da plumagem de pelicano. Descrever objetos tão valiosos, sem ter uma fonte de informação, é deveras muito difícil. Felizmente, consegui guardar alguns detalhes na memória; parece, até, que depois, eu precisaria desses dados Continuemos a nossa visita ao Museu Imperial de Petrópolis. Adentramos, agora, em um outro compartimento do prédio, onde estão dispostos alguns móveis, formados por uma mesa grande, do tipo usual para reuniões, algumas cadeiras em volta da mesma, de espaldar bastante alto, todos com aquele símbolo, formado de um globo terrestre, e a inscrição P. II e uma cruz, encimando este ornamento. Todas as peças, feitas de jacarandá-da-bahia. Madeira de lei, de cor escura e muito resistente. Bem em frente a uma das cabeceiras da citada mesa, existe um trono, belíssimo, de onde, S. Majestade Imperial, D. Pedro II dirigia os trabalhos das reuniões do Conselho do Império. Enquanto eu olhava aqueles móveis históricos, parecia-me estar vendo aquela sessão, composta por figuras ilustres da nossa monarquia É um momento para reflexão, sem dúvida Em um outro aposento, algumas estantes, cheias de relógios de algibeira, quase todos, com a imagem do Imperador gravada no seu mostrador, também, com a inscrição: P. II. Creio que foram presentes doados a S. Majestade, por ocasião de comemorações importantes do Império. Em uma nova sala, algumas lembranças de D. Pedro I, inclusive, a sua coroa imperial, já descaracterizada, por ter cedido algumas peças, para a confecção do novo ornamento a ser usado por D Pedro II. Entre as diversas recordações, está uma espada que pertenceu ao nosso primeiro Imperador, toda em ouro, feita para comemorar uma das batalhas vencidas por aquele Monarca, durante o 1o. Império. Continuando a minha visita, chego aos aposentos que pertenceram à Princesa Isabel. Aqui, não há muita sofisticação. São móveis simples, todos de jacarandá-da-bahia, com as mesmas insígnias faladas anteriormente. Compõem o ambiente: uma cama de solteiro, uma cômoda, uma escrivaninha, uma cadeira de balanço e algumas estantes completas de leques, usados por S. Alteza Imperial. Lembro que além dos presentes, muitos daqueles utensílios foram feitos pela própria Princesa Isabel, conforme consta das anotações que lá estão expostas. Após ter visto o quarto de repouso da signatária da Lei Áurea, datada de 13 de maio de 1888, concluí, que para suportar o calor sufocante da Corte (Rio de Janeiro), ainda mais, com aquelas roupas longas e quentes da época, só mesmo, usando leques, já que, não havia ventiladores e muito menos, aparelhos de ar condicionado Conclusão: a Princesa não era boba não Continuando a minha caminhada pelo interior do Museu, fui ver os ambientes das pessoas ligadas à Família Imperial. Numa determinada sala, alguns objetos que pertenceram ao Duque de Caxias. São fardas de gala, espadas e outras peças usadas pelo bravo militar. Tudo muito bonito e de um grande valor histórico. Em outras dependências, existem carruagens e vários petrechos relacionados aos meios de transporte da Casa Imperial. Fardamento de guardas do Imperador, armas e outros objetos da época. Assim, as minhas visitas ao Museu Imperial de Petrópolis, foram sempre feitas, com a finalidade de aprender um pouco ao respeito dos nossos ilustres antepassados. Tenho muita admiração e respeito, pelo que representaram, na formação da nossa Pátria. Após ter visto cautelosamente o Museu Imperial, como aquele dia era para visitar esse tipo de instituição, fui em busca de uma outra. Desta feita, o escolhido foi o Museu de Santos Dumont. Sabia de antemão, que não se tratava de local onde encontraria peças tão valiosas, como no anterior, mesmo assim, deveria ter alguma coisa interessante, para ser vista. Não me decepcionei. O pequeno prédio, construído sobre um rochedo, é de estilo bem diferente dos demais. Tem a aparência de uma casa européia, daquelas de telhado bastante inclinado. Nesse museu, vi um detalhe que me chamou a atenção. Para se chegar à soleira da porta de entrada, sobe-se por uma escada, bem diferente das convencionais. A curiosidade é que em cada degrau da referida escada, só existe a metade do mesmo, de tal forma que, a pessoa começa a subida com o pé direito e chega ao último dos degraus, exatamente, com o pé esquerdo, forçando o visitante a entrar na casa, sempre, com o pé direito. Nunca se pode alterar esta ordem, a não ser, que suba cruzando as pernas; o que seria bastante difícil e complicado Cada degrau, tem, apenas, o correspondente ao apoio de um único pé. Trocando em miúdos, quem vai ao Museu Santos Dumont, obrigatoriamente, pisa no primeiro degrau com o pé direito e no último, com o esquerdo, para entrar na casa, também, com o direito O nosso Alberto Santos Dumont nasceu na Fazenda Cabangu, na paróquia de Palmira, MG, no ano de 1873 e sofrendo de constantes crises de depressão, veio a falecer na bela praia de Guarujá/SP, no ano de 1932. No ano de 1931, recusou-se a tomar posse na Academia Brasileira de Letras, para onde fora eleito, por ter escrito as obras: A Conquista do Ar (1901), Dans l’Air (1904) e O Que Eu Vi, o que Nós Veremos (1918). No ano de 1971, foi proclamado patrono da Força Aérea Brasileira. O interior do museu é bastante simples. Vê-se, pelas peças que estão expostas, que o Pai da Aviação tinha uma dosagem de genialidade bem acentuada. Comecei a notar essa qualidade, antes mesmo de entrar, quando observei a construção da escadaria; na parte interna do prédio, vi uma coisa que também me chamou a atenção. O nosso herói não gostava de tomar “ banho de cuia”; para o seu asseio diário, prendeu a um dos caibros da casa um regador de jardim, com uma corda amarrada à parte do chuveirinho, a qual, ao ser puxada, para baixo, fazia as vezes de um chuveiro, dos que usamos nos dias atuais Não sei, se a Lorenzetti copiou do grande inventor a idéia, mas, é provável Além do dirigível “14 BIS”, o primeiro avião que se tem conhecimento, Santos Dumont foi o criador da pulseira para relógio. Naquela época, todos os relógios eram de algibeira, o que lhe dificultava, na consulta das horas, quando estava nas oficinas, trabalhando na construção dos seus aeroplanos. Para não sujar a roupa com graxas e óleos, imaginou que seria bem mais prático, adaptar o pequeno objeto ao pulso, como usamos até hoje. Uma estante no centro da sala, em forma de balcão, expõe uma infinidade de fotografias, onde o nosso herói aparece, recebendo comemorações de muitos Chefes de Estado e algumas delas, retratando as suas experiências aéreas. No mesmo móvel, estão diversas correspondências trocadas entre Santos Dumont e altas personalidades da sua época. Vale a pena ser visitado esse museu, pela importância que o mesmo representa, em mostrando lembranças diversas, daquele que foi um dos nossos maiores inventores. Começara a visitar os museus ainda cedo, da manhã. Ao terminar a visita a esse último, as horas iam pelas cinco da tarde. Achei que estava no momento de voltar. Com a cabeça repleta de novidades e informações, me dirijo à rodoviária, a fim de comprar a minha passagem de volta ao calor do Rio de Janeiro. Uma surpresa desagradável me esperava Todos os ônibus que desceriam para o Rio, já estavam lotados, com exceção do 3o. veículo da meia noite, que ainda dispunha de duas vagas. Tentei, mas, de nada adiantaram os meus argumentos. Ou adquiria uma daquelas vagas, ou teria que dormir em Petrópolis. Esta segunda opção era inviável; logo cedo, do dia seguinte, precisava trabalhar. Fui forçado, então, a ficar com a última passagem, do último ônibus com destino ao Rio. Passavam poucos minutos das 5 horas da tarde e ter que esperar até meia noite, seria um problema enorme. Mas, mal sem remédio, remediado está, diz o dito popular Saí da rodoviária em busca de algum lugar, onde pudesse me aquecer. O sol fora embora e a cidade começava a esfriar. Eu não estava preparado para aquela situação. Viera com roupas de verão; não sabia do problema da passagem. Na própria rodoviária, a pessoa do guichê, me informou que a volta, se compra, logo que chega à cidade; não se pode deixar para depois, para não correr o risco de até, nem encontrar bilhete disponível para vender Aprendi a lição e sempre que voltei a Petrópolis, ao descer do transporte, já adquiria o bilhete da volta. Como dizia, saí meio sem destino. Poucas pessoas na rua. O frio já começava a incomodar Encontrei um parque de diversões, com umas poucas pessoas ; todas, porém, muito bem agasalhadas. Postei-me junto ao motor da roda gigante, para ver se conseguia esquentar um pouco O encarregado notou que eu estava “morrendo” de frio e me deixou ficar, até o encerramento, o que durou umas 3 horas. Quando desligou tudo, “entrei em parafuso” Onde iria arranjar algum lugarzinho “quente”, para ficar? Os bares quase todos fechados, eram quase 10 da noite. Descobri por acaso a estação ferroviária. Pensei que deveria ter alguma locomotiva a vapor ligada. Não era a vapor e sim, a óleo, mas saía um calor dos bons. Fiquei pertinho da máquina e a temperatura bastante quente, me “quebrou um galho” danado de bom Quase à meia noite, voltei à rodoviária e embarquei no último ônibus daquele domingo. Nunca mais esqueci aquele “sofrimento” Enfrentar a noite fria de Petrópolis, sem estar devidamente agasalhado, “é dose pra leão” e daqueles “brabos” Assim, após um dia maravilhoso, passei uma parte daquela noite num sufoco dos diabos Mas, foi apenas essa vez; nas demais, fiz tudo direitinho, como manda o figurino Algum tempo depois, me deu vontade de ver outra vez a Cidade Imperial. Na primeira visita, o tempo foi pouco para ver os museus Agora, desejava apreciar a cidade e ir, também, ao famoso Hotel Quitandinha, bem próximo a Petrópolis. Ao chegar, andei por várias ruas. Vi casas muito bonitas, algumas, sem moradores; pertencem a ricaços do Rio de Janeiro, que têm esses verdadeiros palacetes, apenas, para morar no período do verão. Aliás, o Museu Imperial, de que falei há pouco, era a residência de verão da Família Imperial. Quando a Corte (Rio de Janeiro) estava sob um calor sufocante, D. Pedro II subia a serra e ia usufruir a maravilha daquele clima petropolitano. Os nossos “barões” atuais, não podiam ser diferentes, copiaram na íntegra os costumes oriundos do Império Voltando à cidade, devo registrar que se trata de uma urbe que agrada, logo, à primeira vista. A começar pela sua população, que tem um comportamento meio aristocrático, influenciado, talvez, por uma parcela burguesa, que lá habita. Petrópolis é gostosa de se ver e de morar. O clima de montanha que existe no lugar, a torna muito especial Situada a cerca de 800 metros acima do nível do mar, não poderia ser diferente. Nessa segunda viagem, fui mais uma vez ao Museu Imperial. Precisava rever aquela maravilha. Desta feita, não me demorei muito, porque desejava conhecer o Quitandinha. Para quem não o conheceu, devo dar alguns informes a respeito do mesmo, a fim de que se fique melhor situado na história. Trata-se de um prédio construído na década de quarenta, no período da ditadura Vargas, com a finalidade de ser um grande cassino. Assim funcionou, durante alguns anos. O estilo da construção é muito bonito; lembra o modelo europeu. O prédio tem uns 5 andares e ocupa uma área enorme, ainda mais, por causa de um grande lago à frente. Cercado de muito verde, onde se encontram diversas espécies de orquídeas, formando, então, ao seu derredor uma paisagem linda. Adentrei o prédio, vi os seus salões maravilhosos, onde inclusive, se realizaram alguns concursos de beleza, como o “Miss Brasil”, na década de cinqüenta. Em um dos seus grandes compartimentos, tem uma piscina, onde tive a oportunidade de tomar um banho gostosíssimo. Na oportunidade em que o visitei, não era, nem cassino, nem mais, hotel. Pertencia à Santa Paula Melhoramentos e não sei qual foi o destino que deram ao Quitandinha. Percorri quase todo o prédio, mas, fiquei encantado com as orquídeas, que nascem do mato, nas proximidades. Há uma grande variedade dessas plantas na região. Talvez, por esse motivo, Petrópolis seja conhecida, também, por Cidade das Orquídeas Como a finalidade seria conhecer o antigo cassino, após dar um passeio, em barcos movidos a pedalinhos, achei que tinha cumprido a tarefa e, com muita saudade, desci a serra e voltei para o Rio. FESTAS DE FIM DE ANO Uma outra coisa que muito me marcou, nos tempos em que morei na Cidade Maravilhosa, foram as festas de fim de ano; Natal e Ano Novo. O povo carioca leva muito a sério essas duas datas. Vê-se, bem nitidamente, como ele vive esses acontecimentos. Em todos os setores, há comemorações relativas à época. Ninguém pode deixar de sentir a emoção que domina aquela gente, naquele período. Achei muito interessante, já que, por aqui, a vibração era bem menor, do que lá. Com bastante antecedência, programava-se tudo, para que no tempo das festas, nada desse errado. É bonito o espírito festivo dos habitantes do Rio, naquelas ocasiões. Quanto a mim, sentia muita tristeza, por me encontrar bem longe do meu povo. Isso era bem pior, contudo, antes de estar casado. Participava das festas dos outros, às vezes, sem grandes afinidades, o que sem dúvida, criava um clima não muito agradável, ainda mais, que se tratava de uma festa da família. Os meios de comunicação exploram muito o lado sentimental das pessoas e isso, vem às vezes, mexer um pouco com as nossas emoções. Para enfrentar o problema, uma das opções é beber um pouco do vinho da festa, para que artificialmente, nos sintamos dentro do contexto. Essa, foi a minha experiência; não sei, se com outros, o fato se repete A verdade é que a cidade se engalana, principalmente, para as comemorações natalinas. As lojas, os prédios, as casas, os escritórios, as instituições, praticamente tudo, assimila o momento e isso, se multiplica, num efeito cascata, chegando a atingir todo mundo Uma semana após o Natal, vem uma nova comemoração, também, muito festejada por aquele povo:o Ano Novo. Nesta, são entregues os últimos presentes, de quem não teve oportunidade de entregá-los no período natalino. Contudo, aquela idéia de ano novo, vida nova, muda um pouco de comportamento. Antes, era a caridade, a compreensão, o espírito de fraternidade; agora é muita alegria, muitos desejos de felicidades, para o ano que vai entrar e muito carnaval Como da vez anterior, para esta festa, existe, tanta, ou mais preparação, do que antes. Esta, inclusive, necessita de um maior aporte financeiro, especialmente, para aqueles que vão para reveillon. Este, é uma criação consagrada há dezenas, ou centenas de anos. Não sei precisar, por não ser um fã incondicional da idéia. Mas, para quem gosta, acredito que seja uma ótima opção, para se comemorar uma passagem de ano. Lembro, quando no final de 1957, fui para a casa de Diderot, um amigo de trabalho, que me convidou, talvez, por pena, já que eu morava só e não tinha parentes no Rio Após as formalidades convencionais, de abraços, jantar e troca de felicidades, o meu amigo me chama para irmos à praia. Como ele morava em Ramos, bairro do subúrbio da Leopoldina, optamos pela do próprio bairro. Por sinal, uma praia que deixava muito a desejar. Era pequena, suja e de poucas ondas. Diferia, em muito, de Copacabana, Ipanema, Leblon, Ilha do Governador, Icaraí e outras, que já eram minhas conhecidas, de outras oportunidades. Chegamos à praia. Estranhei o visual Quase todo mundo vestindo branco. Milhares de velas acesas em toda a extensão da areia. Eram pessoas de diversos centros espíritas, que ali estavam, para homenagear Iemanjá, a deusa das águas, segundo as mesmas. Para mim, foi uma grande surpresa. Em Natal, não conhecia esse tipo de manifestação; hoje, já existe um pouco, mas naquela época, não tenho lembrança de ter presenciado aquela demonstração de crendice. Conversava com o amigo de quem falei e de repente, aparece à minha frente uma senhora, vestida a caráter, com um enorme charuto na boca, dá uma baforada no meu rosto e quase eu caia, do susto que levei Confesso que nunca tinha visto tamanha “marmota” na minha frente. Foi um verdadeiro vexame A figura estava “manifestada”, na linguagem deles e eu não tinha noção do ritual. Foi um susto, dos maiores que eu tive na vida. Nem o tradicional “passe”, que é uma espécie de cumprimento, onde os ombros se encontram, um contra o outro, em sentido cruzado, me foi possível fazer; eu não conhecia nada da cerimônia Se é que aquilo pode se chamar de cerimônia Após o vexame, Diderot me deu uma aula sobre macumba, já que era um assunto totalmente desconhecido, para mim e não para ele. Diga-se de passagem, o carioca, em grande parte, é um tanto ou quanto, afeito a esse tipo de coisa Creio que seja herança dos negros africanos, que para lá foram, na época do tráfico de escravos e dos navios negreiros Não só a praia de Ramos, mas todas as do Rio, tinham esses rituais de umbanda, nas solenidades de entrada de ano novo; é uma marca registrada, para os lados de lá Assim, em rápidas pinceladas, dei uma pequena amostra das festas de final de ano, que tive a oportunidade de presenciar, nos bons, ou maus tempos, em que vivi no Rio de Janeiro.

NO BANCO
Até agora, tenho falado muito em passeios, visitas a museus, parques etc. Muito lazer, acima de tudo. Devo tratar agora de um tema menos atraente, porém, de muita importância. Vamos, então, dar uma passada pela vida profissional. De fevereiro de 1957 a meados de março de 1963, trabalhei naquela firma de alemães, da Rua da Alfândega. A partir de agora, na minha Carteira de Trabalho, está anotado um novo endereço e um novo tipo de atividade. Como contei antes, fui chamado para o Banco Nacional de Minas Gerais S/A . Fui lotado na agência Praça 15, situada no logradouro do mesmo nome. Era uma das maiores, das 51agências desse banco, no Rio de Janeiro. Éramos vizinhos da Bolsa de Valores e muitos dos seus corretores, tinham conta conosco, o que representava um volume muito grande de recursos. Fui escolhido para trabalhar na carteira de conta corrente, o setor mais difícil e chato de uma agência bancária, naquela época. Tinha acabado de noivar com Igara e estava começando vida nova, agora, como bancário. Não posso dizer que foi um tempo perdido, porque ali, aprendi muita coisa que me foi útil, pela vida a fora. O início não foi fácil, mas com o passar do tempo, me adaptei ao trabalho e cumpri satisfatoriamente as minhas obrigações. Um problema que perturbou, especialmente, nos primeiros anos, foi o horário de saída, geralmente, tarde da noite; depois, ficou tudo muito bem, com a chegada da informática. Já falei desse tema em capítulo anterior. Não devo voltar, para não incorrer no erro da repetição e não me tornar mais chato ainda Vou lembrar um fato que ocorreu comigo, por conta daquelas saídas do banco tarde da noite. Morava no Bairro do Santo Cristo, mais precisamente, na Rua da América. Saindo da agência, como disse, depois de meia noite, normalmente, eu precisava vir de bonde. Os ônibus paravam mais cedo. Ficavam no plantão, apenas, uns poucos. Por isso, demoravam demais, a passar. A melhor opção era a dos bondes, que apesar de em número menor, do que durante o dia, mas tinha uma quantidade bem maior, do que dos ônibus. Numa determinada noite, saíra bem tarde, peguei o bonde na Praça 15 e saltei, como de costume, na Praça 11. A famosa Praça 11, do samba de Herivelto Martins. Era lá mesmo Vou caminhando pela Rua Marquês de Sapucaí, na parte oposta ao atual Sambódromo e subo os diversos degraus, que dão acesso a uma espécie de pontilhão sobre os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Desse pontilhão, até onde eu morava, com um medo danado, mais ou menos, pela metade do tal mesmo, é quando escuto que um daqueles freqüentadores noturnos, vem correndo em minha direção. Não precisou que mandasse parar Quando vi, estanquei e fiquei gelado Veio um calafrio, perdi a voz e estático, eu parecia mais uma estátua O desgraçado não notou que eu estava incolor, por causa da má iluminação da ponte. Ainda bem Frente a mim, com os olhos cobertos pela pala do boné, me dirige a palavra, nos seguintes termos: “oh meu Me atravessa um crivo aí “ Graças a Deus, a essa altura, eu já conhecia um pouco de gíria e entendi que o “cidadão” estava, apenas, pedindo um cigarro O meu era da Souza Cruz, o dele, era “Cannabis Sativa”, mais conhecida como maconha O cara quis mudar Ponho a mão no bolso, puxo um maço de cigarro, ainda devia ter uns 8 ou 10 e entrego ao meu interlocutor. O mesmo ficou “brabo” e me deu uma bronca, dizendo que tinha pedido só 1 (um) cigarro e não vários Nesse momento, eu já não estava gelado e sim congelado Rezei, porque tinha quase certeza, que havia chegado o meu fim. Pensei na família distante, dei uma panorâmica na vida, entreguei a alma a Deus e esperei o pior No momento de riscar o isqueiro, eu tremia, como se estivesse a 200 graus abaixo de zero, vestido, apenas, com uma sunga O danado do isqueiro quase cai da minha mão, de tanta tremedeira Era daqueles antigos, pesados, que naquele momento, representava, mais ou menos uns 100 quilos Finalmente, acendi o cigarro do indivíduo, enquanto ele voltada para o meio da sua “tchurma” À guisa de curiosidade, de quando em vez, esse pessoal assaltava, nesse mesmo local e jogava a vítima lá em baixo, que geralmente, era morte certa, porque batia com a cabeça sobre os trilhos, empurrado de uns 12 metros de altura. Eu próprio, vi alguns mortos, nesse mesmo local. Eu nem sou tão medroso, mas, conhecendo, como eu conhecia, aquele pedaço, não era para menos Quase me sujei

AS BODAS
Por várias vezes, falei na minha namorada, durante estas páginas. Agora vou comentar sobre o noivado e o casamento. Foi tudo muito diferente do convencional. Por ocasião do noivado, por exemplo, eu estava no Rio e Igara em Natal. Não me foi possível estar presente na cerimônia, porque estava trabalhando há 4 meses, apenas, no Banco Nacional e, por conseguinte, seria impossível me ausentar do trabalho, já que era novato no emprego. Mas, o que valia e contava era o entrosamento que havia entre nós ambos. Igara precisou viajar do Rio para Natal e não havia como “segurá-la” na Cidade Maravilhosa. Deixou-me, exatamente, no dia de uma grande concentração popular, promovida pela Igreja Católica do Rio de Janeiro, denominada de: “A Marcha da Família Pela Liberdade”. Era já um início do movimento que eclodiria em 31 de março de 64. A igreja não aprovava a política de tendência esquerdista que se espalhava pelo Brasil; e, com base nisso, começou um movimento contrário às idéias que se disseminavam rapidamente. Num domingo qualquer, do mês de dezembro de 1962, Igara viajou num “Constellation” da Panair do Brasil com destino à Capital Potiguar. Fiquei só. A sua imagem e a sua lembrança ficaram comigo e o amor só tendeu a aumentar, apesar da distância. Os nossos contatos eram por cartas. Diariamente, à noite, quando de volta do banco, sempre encontrava um tempinho para lhe escrever e contar as novidades do dia. As cartas foram tantas, que precisamos numerá-las, a fim de não confundirmos os assuntos. Se até ali, não sabíamos escrever, a partir desse momento, adquirimos uma prática enorme. Tanto isso é verdade, que ainda hoje, sei, perfeitamente, escrever uma missiva, desde que não seja muito grande Assim, apenas por correspondência, ficamos de dezembro/62, até o dia 26 de julho de 1963. Foram 7 meses de muita ansiedade, muita saudade e vontade de que o tempo passasse o mais rápido possível A solidão estava me maltratando muito, com aquela ausência indesejável, porém, forçada pelas contingências. Aquele quase um ano que ficamos juntos no Rio de Janeiro, marcaram muito a nossa união e o nosso entrosamento. Aos seis dias do mês de janeiro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, de 1963, oficializamos o nosso noivado, de conformidade com documento que remeti à minha sogra, Da. Laura Saraiva Maia, expresso através de mais uma carta, (esta, solene), onde eu esternava o meu desejo de contrair núpcias com a sua filha, Igara Violeta Maia. Todos os passos que demos, do namoro até o casamento, fugiram aos padrões normais e costumeiros. Com exceção do início do namoro, o restante teve um cunho meio monarquista, já que foi tudo efetuado sem o convívio pessoal dos dois interessados Até onde conheço, usavam esse sistema de procuração os reis e imperadores. Conheciam as futuras esposas, através de informações de auxiliares diretos, que antes do próprio noivo, já mantinham os primeiros contatos com a eleita do monarca. A diferença de um rei para mim, é que eu tive a ventura de conhecer antes a minha eleita; alguns meses depois, é que perdi o contato pessoal, ficando, apenas, via cartas. Nestas estavam registradas tantas juras de amor, que 2 anos depois, por consenso de nós ambos, resolvemos dar fim às mesmas. Assim agimos, porque elas já estavam superadas, no tempo e no amor E, desta forma, os meses em que Igara ficou em Natal, passavam com tanto vagar, que parecia que iam a passo de tartaruga, quando, já estávamos na era dos foguetes e naves espaciais Mas não teve problema, aquela demora não prejudicou em nada o nosso relacionamento e marcamos o nosso casamento, que, também, à moda real, ou imperial, ficou determinado para o dia 26 de julho de 1963. Não se faz necessário frisar, que também, foi efetuado por procuração. Representou-me na cerimônia nupcial um primo da noiva. No mesmo dia 26, Igara viajou de volta ao Rio e nos encontramos, agora, já casados, de conformidade com a lei. Fui ao aeroporto Santos Dumont, na noite do mesmo dia 26, para esperá-la. Chegou cheia de novidades e mais bonita do que nunca. Estava no fulgor dos seus 24 anos, dois a menos do que eu, e trazia muitas idéias, para começarmos bem a nova vida conjugal, que ali, tivera o seu marco inicial. De início, fomos residir no Bairro do Catete, como narrei anteriormente. Quase dois anos ficamos por aqui. Foi um princípio um tanto ou quanto difícil, provocado, inclusive, pela conjuntura nacional, especialmente, por uma inflação que já corroia os salários dos trabalhadores. Felizmente, nessa ocasião, tive uma ajuda substancial da própria Igara, que conseguiu um emprego no casarão onde morávamos. Aqui, havia um escritório de uma firma que trabalhava com sinteco, produto bastante usado, na época, como verniz, para dar brilho e conservação aos assoalhos. Quase dois anos ficamos pelo Catete. No período que rebentou a Revolução Redentora dos militares, residíamos nesse bairro. Apesar da humildade da casa onde morávamos, gostávamos, porque estávamos muito bem servidos de casas comerciais de todos os tipos, instituições públicas, bancos etc. Em fevereiro de 1965, nos pediram o pequeno apartamento. Dentro das nossas possibilidades financeiras, encontramos uma casinha no Bairro da Água Santa, próximo à estação do Engenho de Dentro. Era nova, agradável, mas, o ambiente era muito aquém daquilo que pretendíamos e merecíamos. Ainda era no tempo em que eu saía tarde do banco. Para chegar a casa era um “sufoco” O ambiente meio “pesado” nos causava muita preocupação; mas, não havia outra maneira de solucionar o problema, ao menos, a curto prazo. Lembro, que ainda cedo da manhã, lá pelas 5 horas, eu e Igara descíamos a colina, para comprar leite e pão. Ou se chegava a essa hora, ou não se encontrava mais o leite. Falei em colina, não era um morro, mas um lugar meio elevado, onde morávamos. O calçamento não ia até a nossa casa; caminhávamos por uma trilha estreita, e nos dias chuvosos, precisávamos ter muito cuidado, para não escorregarmos; ainda mais, que estávamos armados os dois, eu com uma chave de fenda e Igara com uma tesoura, para nos defendermos, caso fossemos abordados no percurso, por algum bandido matutino Por aí, se tem uma idéia do ambiente onde fomos morar Como disse, a casa era um palacete, em relação à que residíamos no Catete, mas o local era uma “droga” Igara ficava só. Quando eu chegava do banco, lá para meia noite, ou mais, era uma ladainha de reclamações Apesar de termos feito até promessa para conseguir a casa, agora, estávamos fazendo para sair de lá Estava insuportável a situação Até que, surgiu uma luz no fim do túnel, como se diz normalmente Uma amiga comum, ganhara um apartamento muito bom, em Niterói. Conhecendo o nosso drama, ofereceu-nos. De pronto, nem pensamos duas vezes Aceitamos e agradecemos a oferta. Poucos meses antes, havia caído um temporal muito forte sobre o Grande Rio e muita gente perdeu as suas casas. Fátima, essa nossa amiga, se candidatou e conseguiu receber esse apartamento no edifício do bancários, na então Capital Fluminense. Junto com ela, fomos ver o imóvel. Foi amor à primeira vista Só mesmo na base da amizade, tínhamos condição de morar tão bem O prédio ficava situado à rua São Sebastião, 78, no Bairro do Ingá, bem pertinho das Barcas que fazem o percurso Rio-Niterói. Tratamos de entregar a residência onde estávamos morando, lá na Água Santa. O proprietário exigiu os três meses da caução que fizéramos na Caixa Econômica. Não tivemos outra alternativa. Rezava no contrato essa exigência. Apesar de humilhante, preciso dizer que o dinheiro da tal caução, foi levantado através de empréstimo em banco. Perdê-lo-ia, caso desistisse do imóvel; e essa, era a nossa intenção. Um outro problema é que tivemos de fazer algum investimento, para morarmos mais tranqüilos na Água Santa. Para amenizar o medo de Igara, eu tinha comprado um revólver Taurus, calibre 38, o qual, ela punha ao seu lado, no sofá, enquanto via a novela “O Direito de Nascer”, na TV Rio. Porém, aqui merece uma explicação. Deitava, colocava a arma ao alcance da mão, com um detalhe, sem uma bala Pergunta-se, como ela poderia se defender, quando o revólver se encontrava sem munição? Assim, ficava até eu chegar Todo dia o mesmo problema, reclamação e mais reclamação; eu já não agüentava mais Graças a Deus, Fátima trouxe a solução. Começamos a nos preparar para uma nova mudança. Desta feita, para um ótimo apartamento, bem perto do Centro de Niterói. A caução que eu não queria perder, fui obrigado a ficar sem ela; contudo, era melhor do que estar naquele inferno Tínhamos alugado a casa por um ano; ficamos, apenas, 8 meses E foi demais E pensar, que fizemos até promessa para ficarmos naquela casa, sem termos analisado com mais profundidade todo um conjunto que envolvia a nossa decisão? Às vezes, forçamos uma certa situação, sem pensarmos detalhadamente nos prós e nos contras, que poderão advir daquela tomada de posição e por isso, nos arrependemos, depois, profundamente São determinados momentos da vida; esqueçamo-los e tiremos deles bons ensinamentos

APARTAMENTO 1 9 1 5
Deixamos para trás a casa bonitinha da Água Santa. Ficaram, também, o meu vizinho, filho do dono do prédio onde morávamos, sua esposa Maria, a filhinha do casal Ana Cláudia e a cadela Laika. Este nome estava em grande evidência, porque os Soviéticos tinham mandado para o espaço uma cachorrinha que tinha esse nome. Ficamos com saudades daquele casal, especialmente, por conta das muitas piadas e aventuras contadas pelo Luarlindo. Esse era o nome do vizinho de quem falei. O prenome com que batizaram o garoto, deixou-lhe um trauma enorme Ele próprio, fazia “gozação” com o seu nome De princípio achei meio estranho, porém, depois, nos acostumamos e ficamos pensando que todo luar é lindo Na casa da Água Santa, recebi uma visita ilustre. Foi aqui, que tive a oportunidade de conhecer a minha sogra, Da. Laura Saraiva Maia. Aproveitando a viagem de uma das suas filhas ao Rio, resolveu ficar conosco. Pena é que o lugar não era dos melhores. Fizemos o possível para recebê-la bem, a fim de que trouxesse de volta para Natal as melhores impressões possíveis. Finalmente, chegou a hora de deixarmos aquele subúrbio distante, para virmos morar em Niterói, bem mais perto do banco e em um ambiente muito superior ao que estávamos. Corria o mês de agosto de 1966. O clima estava agradável, pois era período de inverno. Igara já ia pelos três meses de gravidez. Taciana vinha a caminho. Deu um certo trabalho à mãe, enquanto não veio à luz. Para que a criança viesse saudável, foi feito um pré-natal dentro das recomendações médicas, com um acompanhamento adequado, nos moldes exigidos pelos especialistas da época. Foi nesse estado de euforia, pela vinda da primeira filha, que nos mudamos para o apartamento 1915, do edifício dos bancários, na rua S. Sebastião, no. 78, no bairro do Ingá, em Niterói, Capital do Estado do Rio de Janeiro, naquela ocasião. Como se diz vulgarmente, foi uma mudança da água para o vinho. O apartamento era grande, o maior que tínhamos morado, até então. O prédio fora construído pelo I. A .P.B. para bancários, na sua maioria, do Banco do Brasil. Só para se ter uma idéia, havia 6 elevadores no edifício de 23 andares. Em termos de hoje, seria um verdadeiro exagero De início, não conhecíamos ninguém. Foi a própria Fátima, dona do apartamento, quem nos apresentou a uma família que lá residia e de quem nos tornamos grandes amigos. O Sr. Djalma, sua esposa, Da. Nair e as filhas do casal, se entrosaram tão bem conosco, que mais parecia uma parentela só Em relação aos demais moradores, eram pessoas de muita classe e bem educada. Ganhamos bastante na mudança Sintetizando, posso dizer que estávamos muito bem instalados na nova moradia. Para não ser totalmente perfeito, havia um problema de água no prédio. Os moradores antigos não sentiam a falta do líquido, porque possuíam caixas próprias no apartamento e dessa forma, não lhes faltava. Quanto a nós, era diferente. Logo cedo precisávamos encher os tambores e a banheira e dava se resolver satisfatoriamente a falta do precioso líquido. Mas, isso não afetou a nossa satisfação em morar ali O restante das vantagens compensava essa pequena falha. Com o passar do tempo, a gravidez de Igara ia ficando mais acentuada e conseqüentemente os cuidados iam acompanhando o processo. Os dias iam passando e o Sr. Djalma e Da. Nair, a cada vez, mais ligados a nós. Fizeram o papel de parentes e dos bons; porque existem deles, com os quais não podemos contar para nada. São imprestáveis, principalmente, nas horas em que mais deles necessitamos. Estávamos nos aproximando do dia do nascimento de Taciana; o carnaval de 1967 estava às portas. Respirava-se o clima momesco por todos os lados. A ligação do niteroiense ao carnaval, é semelhante à do carioca. Eles vivem o tríduo de Momo. Aquilo é uma coisa sagrada para eles. Sacrificam-se durante todo o ano, para se “soltarem” no carnaval Na ocasião, a minha folia foi o nascimento de Taciana. Graças a Deus, a criança veio bastante saudável, apenas, muito “chorona” Mas, cada nenê tem um comportamento diferente. Compete aos pais o entenderem, para que as coisas aconteçam normalmente, de forma a não interferirem negativamente na criação e futura vida adulta. O nosso quarto de casal era bastante grande e podemos instalar os petrechos da recém-nascida no mesmo local. Isso facilitou muito, pois estávamos próximos da criança, para lhe dar assistência no momento que necessitasse. Acredito que tenhamos dado todo o carinho e tivemos o cuidado, no sentido de que a nossa filha fosse muito bem assistida, nos momentos em que ela mais precisou do nosso apoio. ·apartamento 1915 nos trouxe muita sorte. Para começar, foi ali, que ganhamos a nossa filha; e lá, também, foi gerado o nosso 2o. filho.

A VISTA
Para completar a nossa felicidade, tínhamos, ainda, uma vista muito bonita, especialmente, em se olhando dos fundos do nosso apartamento. Desse ponto, víamos quase toda a orla marítima da Cidade Maravilhosa. Era uma paisagem linda. Do 19o. andar onde morávamos, conseguíamos ver o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, algumas praias da Baía da Guanabara, o cais do porto, o aeroporto Santos Dumont, a Praça 15 e grande parte do centro da cidade. Pela frente, tínhamos uma visão do centro de Niterói, da estação das barcas, do bairro do Ingá e do Morro do Estado, que ficava bem em frente ao nosso prédio. Dessa forma, a vista, desde os fundos do apartamento, era bem mais bonita, pois só retratava cartões postais conhecidos no mundo inteiro. Foi diante dessas paisagens, que iniciamos a nossa passagem pela terra fluminense. Até o trabalho no banco tinha mudado. Agora, estávamos operando por computador; ainda cedo da noite, já estava em casa, para poder ajudar Igara, nas ocupações com a criança; a minha obrigação maior era passar a ferro as fraldas da nenê, como contarei mais à frente. Como o nosso tema nesse momento é a visão que se descortinava ante os nossos olhos, tecerei alguns comentários leves ao respeito, para que se tenha uma idéia, ao menos aproximada, daquilo que podíamos ver, a partir do apartamento 1915. Volto a repetir que, em se olhando da parte de trás da nossa residência, víamos os pontos turísticos mais importantes do Rio de Janeiro. Um dos que mais se salientou foi a visão da Baía da Guanabara. Na época, a ponte Rio-Niterói ainda não tinha sido construída, o que aconteceu, logo após a nossa saída da cidade. O tráfego intenso das mais diversas embarcações, chamava a atenção de quem se dispunha a observar o movimento da baía. Tive oportunidade de ver e apreciar navios fantásticos, como alguns porta-aviões americanos que por lá passaram. Alguns deles, ainda me lembra os nomes: Ranger, Entreprise e América. São naves de guerra que chamam a atenção, especialmente, da imprensa, que normalmente, se referem a dados estatísticos. Recordo que li em certa oportunidade, que uma dessas belonaves tinha 5.000 tripulantes a bordo. Era um contingente maior do que muitas cidades do interior Para entretenimento dos seus marinheiros, o porta-aviões possuía 4 canais de televisão, além de salões de festas, bandas de música, teatros, campos de futebol, de vôlei, basquete e mais uma infinidade de outros divertimentos. Para se manter uma tripulação desse tamanho, sem que haja quaisquer movimentos que firam a hierarquia militar, há uma necessidade muito grande de ocupar esses homens, que passam às vezes, até meses, sem pisar em terra firme. É um desafio que eles enfrentam, mas, tem dado certo até o presente. Além desses gigantes dos mares, outras embarcações bem menores cruzam as águas (já poluídas na época) da Baía da Guanabara, tais como: navios cargueiros, transatlânticos, barcos pesqueiros e outros, sem contar o movimento das barcas que fazem a todo o instante a travessia Rio-Niterói. Para quem não conhece, devo salientar que essas barcas transportam cerca de 2.500 passageiros, em cada viagem, cuja duração demora uns 10 minutos aproximadamente. Na minha opinião, esse é o mais confortável, seguro e menos poluído meio de transporte, entre as duas cidades citadas. Fiz essa travessia centenas de vezes; não lembro qualquer coisa que venha em seu desabono; pelo contrário, era bastante gostoso, após um dia estressante, pegar uma barca e sentir aquele ventinho gostoso, que vinha do oceano Um fato pitoresco me vem à memória, ainda, nessas viagens de pequeno curso, que eu fazia diariamente, para ir trabalhar na Praça 15; um determinado cidadão, segundo diziam, perdeu toda a sua família no incêndio do “Gran Circo Americano”, por ocasião da sua apresentação em Niterói. A tragédia lhe fez muito mal, o que é compreensível. Daí, mudou completamente o seu sistema de vida; passou a pregar uma doutrina e o fazia nas ruas e especialmente, nas barcas. Vestia-se à moda “hippie”, ( não sei se é escrito assim), portava um papelão (tipo cartolina) com diversas frases sem nexo, uma cruz, algumas fitas coloridas amarradas na tal cruz e começava a pregar o seu pensamento filósofo-teológico, que se resumia à palavra “Gentileza”. Como os demais passageiros, eu voltava cansado e não prestava atenção ao que dizia, alto e bom som, aquele “pregador” da palavra, não sei de quem, acho que dele mesmo O pobre homem ficou conhecido pela alcunha de “Gentileza”. Uns vinte anos depois, eu o vi em Natal, com as mesmas características, “pregando”, na parada de ônibus do centro da cidade. Lembro que me dirigi ao mesmo, perguntei-lhe se era o original, e, com palavras sem nexo, disse-me alguma coisa, a qual não entendi, e, saiu, transmitindo a sua “mensagem” Não só cartões postais eu vi, quando fui morar em Niterói Tragédias humanas, como essa do “Gentileza”, também pude observar Há criaturas por esse mundo de Deus, que inspiram muita pena

O GRANDE PRESENTE
Finalmente, chegou o grande dia. Era um 24 de fevereiro de 1967. Para aumentar o número de membros da família, vem se integrar ao grupo TACIANA. Nasceu às 10 horas na Maternidade da Beneficência Portuguesa, Hospital Santa Cruz, em Niterói. Na véspera, cedinho da noite, fomos Igara, Da. Nair e eu, para aquele hospital, pois já surgiam os primeiros sinais de que a criança estava para chegar a qualquer momento. Como só podia ficar um acompanhante, a indicada foi Da. Nair, pela sua vasta experiência, já que tivera 23 partos. Fui para o apartamento e lá da janela, no 19o. andar, fiquei até tarde da noite rezando e pedindo a Deus para tudo dar muito certo, tanto com Igara, quanto com a herdeira, que estava prestes a vir à luz. Não dormi direito naquela noite de 23. A ansiedade normal de um pai, tirou-me o sono. Logo cedo do dia 24, fui correndo ao hospital, crente que a criança havia nascido. Encontrei Igara transtornada. Tive uma má impressão; Da. Nair foi me dar os detalhes do que aconteceu. O médico de plantão, apesar de ter sido chamado várias vezes, se limitava a mandar as enfermeiras examinarem a parturiente. No meu modo de ver o problema, acredito que houve um pouco de desrespeito, desumanidade e até negligência, por parte daquele profissional. A própria Da. Nair disse que “deu escândalo”, mas de nada adiantou. O médico não apareceu. Não sei o que teria feito, caso estivesse presente. Provavelmente, agiria de maneira mais grosseira, e, talvez conseguisse trazer o médico, de alguma forma. A verdade, é que ao assumir o plantão do dia 24, imediatamente procurei o plantonista - Dr. José Luiz - o qual foi muito atencioso e veio imediatamente ver Igara. Fez-me algumas perguntas a respeito da saúde da parturiente e me disse que não dava mais para esperar. Ordenou a enfermeira que iniciasse os preparativos para uma cesariana. Eu e Da. Nair ficamos meio preocupados, mas o obstetra era a autoridade máxima, naquele momento. Fazia um calor infernal. Os dois acompanhantes, ficamos nervosos, tensos e ansiosos, diante da situação que acontecia. Não era para menos, nunca tinha me envolvido em problema semelhante e a aparência de Igara, naquela manhã, me deixara perplexo. Cerca das 10 horas, já ligeiramente sedada, Igara vai para a sala de cirurgia. Não se faz necessário dizer o estado de preocupação, que se apossou de mim Da. Nair, baixinha, gordinha e gasguita já quase não falava Ficou agitada, como se fora o seu 24o. parto Enquanto esperava o resultado do procedimento cirúrgico, fumei quase uma carteira de cigarros hollywood A ansiedade ativa o vício de uma forma impressionante Comprovei isso, naquele momento. Eram 10:30h, quando lá no início do corredor, vem a enfermeira com o nenê ao colo e nos apresenta. Senti uma sensação única Não sei descrevê-la É muito complexa Também, muito gostosa A criança vinha toda envolta em lençóis, bem corada e, ainda suja, com restos de placenta, normal, após o parto. Dei uma olhada rápida e vi que fisicamente, era normal. Agradeci a Deus, enquanto recebia os parabéns de Da. Nair, que ao meu lado, todo o tempo, vibrava, como se fora a avó da recém-nascida Uns trinta minutos depois, Igara volta para o apartamento. Ainda drogada, pelo efeito da anestesia, levou umas duas horas, ou mais, até começar a se comunicar, por gestos. Parece-me que a dosagem anestésica foi meio forte Deixei Da. Nair com Igara e fui ao Rio passar um telegrama via “Western”, para Da. Laura, comunicando o nascimento da criança. Quando voltei, encontrei Neila, futura madrinha da criança, ao lado de Igara. Da. Nair havia ido para casa. Estava cansada e precisava se recuperar da tensão da noite anterior. Neste momento, quero fazer uma ressalva, para agradecer aquela gente maravilhosa. Não esquecerei, jamais, como participaram daqueles instantes, Da. Nair, suas filhas e o seu marido, o Sr. Djalma. Devo-lhes uma fortuna inestimável, impagável, até Em todas as horas, eles estavam presentes, participando, ajudando e nos confortando Com o passar do tempo e com a experiência que tenho hoje, posso até dizer, que aquela, é uma espécie de gente em extinção É pena, que não se fazem mais amigos, como antigamente Em nosso nome - Odilon, Igara e Taciana - queremos registrar nesta oportunidade a nossa mais profunda gratidão, pelo que nos fizeram Da. Nair, Sr. Djalma e suas filhas. Vocês foram “fora de série”, num momento em que não tínhamos nenhum parente, a quem recorrer. Deus lhes pague, pelo que representaram, no momento do nosso grande presente

A VOLTA PARA CASA
Após 5 dias na maternidade, voltamos para casa. Eu tinha entrado de férias do banco e estava preparado para ajudar em tudo que fosse possível, já que Igara estava cirurgiada. A criança saudável, apenas, chorava muito Porém, com a disposição que tinha na época, foi fácil atravessar os primeiros dias. Da. Nair, sempre ela, diariamente, nos procurava, para dar as suas orientações, com referência ao tratamento com a nenê. Foi dela, o direito de dar o primeiro banho e efetuar os curativos, antes da queda do umbigo. Disse que teria muita sorte na vida, a criança que teria o seu umbigo jogado ao mar Aceitei a sua opinião e após a queda, levei o umbiguinho de Taciana e joguei-o no meio da Baía da Guanabara. Espero que a crendice de Da. Nair seja verdadeira e proteja minha filha, por toda a sua vida Os primeiros dias foram de muito trabalho. Estávamos numa fase nova das nossas vidas e com muita responsabilidade pela frente Igara, a pouco e pouco se recuperava; quando não conseguia fazer os serviços domésticos, me dava instruções e eu os executava, ao meu modo Continuamos recebendo o apoio de Da. Nair e sua família até o momento da nossa despedida de Niterói, 2 anos depois, quando fomos transferidos para Natal. A vida foi se normalizando com o passar dos dias. Igara já recuperada, a criança no seu desenvolvimento normal e eu de volta ao banco, após as férias. Durante a manhã, as mães levavam os bebês para o banho de sol, na calçada do prédio. Como as demais, Igara conduzia a nossa filha para pegar um pouco de sol, enquanto, trocava experiências com outras que lá estavam. Modéstia à parte, a nossa era das crianças mais bonitas Muito clara, de olhos ligeiramente esverdeados, chamava a atenção Isso trazia um certo orgulho, que fazia muito bem ao nosso ego Uns cinco meses depois de nascida, começa o período em que aquela região começa a esfriar a temperatura. O clima fica bastante agradável. Tem início uma nova fase na vida dos pequeninos. Cada mãe traz o seu filho bastante agasalhado, para evitar gripes e outras doenças, próprias dessa época. Como morávamos muito alto, às vezes, a temperatura caía tanto, que eu acendia uma vela sob 1 pedaço de zinco, para aquecer o quarto Ainda mais, que nos primeiros meses de vida, Taciana só queria dormir durante o dia. À noite, dava muito trabalho e não tinha sono. Como o ambiente do quarto era bastante frio, eu usava aquele artifício do zinco, já que não dispunha de aquecedor no apartamento. A partir de uns 6 meses de idade, a criança acordava por volta da meia-noite e ficava duas horas querendo brincar. Era um sacrifício enorme para mim, já que, antes das 6, devia levantar e me aprontar, para ir trabalhar. Não podia contar com Igara, pois a essa altura, já sentia os primeiros enjôos do 2o. filho, que havia sido “encomendado” Por isso, a brincadeira da madrugada era de minha responsabilidade. Assim, levou muito tempo. Nem lembro, exatamente, quando tive chance de dormir a noite inteira A volta para casa foi sensacional, apesar do trabalho imenso, para criar a filha com todo o carinho que os filhos sempre merecem Disse certa vez o poeta que: “ser mãe é padecer no paraíso”; esqueceu, porém, que o pai também sofre, não sei se no paraíso

A NOVA VIDA DO CASAL
Com a chegada da criança, a nossa rotina mudou. Agora, a responsabilidade era bem maior. Em primeiro plano, sempre estava a nova inquilina, que exigia cuidados especiais. Digo, com certeza, que não nos faltou disposição e interesse, no sentido de que, tudo foi feito, para que déssemos o melhor de nós, em prol do benefício da recém-chegada. Não posso esquecer a dedicação prestimosa que Igara dedicou à nossa Taciana, desde os seus primeiros momentos de vida. Impressionava-me a atenção, o cuidado e o desvelo que sempre dedicou à pequenina Agora, vou puxar um pouco a brasa, também, para a minha sardinha Quanto a mim, acho que fui a sombra da dedicada mãe. Na medida do possível, eu estava sempre presente, colaborando Mas, nem tudo são flores nesses momentos Tivemos alguns atropelos, especialmente, em matéria de empregadas. Foram várias, as que se candidataram a ajudar. Poucas, porém, mereceram a nossa atenção. Aliás, esse problema é eterno e acontece em todos os lugares. Pela criança, Igara fazia questão de “marcar em cima”, não dando a menor chance a qualquer deslize, por parte dessas auxiliares. Assim, foi durante todo o tempo. Nunca nos descuidamos, ao ponto de deixar à mercê de uma “secretária”, quaisquer dos nossos dois filhos. Por serem indefesos, quando pequenos, a nossa atenção sempre foi redobrada, para que não fossem, jamais, molestados. Apenas para complementar, devo dizer que, até os dias atuais, tudo fizemos, em prol dos nossos filhos. Não nos arrependemos; pelo contrário, nos envaidecemos diante dessa nossa posição Os dias e os meses iam passando, sem que nos apercebêssemos deles Chegou o inverno, o frio apareceu, meio de leve, mas veio O número de fraldas, tanto para lavar, quanto para passar, aumentou numa proporção de uns 50%. Mais trabalho para Igara, que lavava, e, para mim, que à noite, quando chegava do banco, tinha que passá-las. Na época, não existiam as atuais fraldas descartáveis e se as houvesse, não sei, se teria condições de comprá-las. Acredito que, ao menos, nas vezes que saíssemos com a criança, daria para usar essa maneira prática dos tempos hodiernos Lembro um detalhe, que até hoje, não entendemos por que acontecia Igara grávida de uns 4 meses, com a barriga já “aparecendo”, Taciana criou um sistema novo de tomar as suas mamadeiras. Esse sistema consistia em que: para tomar a sua refeição, precisava que Igara a colocasse no colo; do contrário, chorava, se “esgoelava” e não havia quem a fizesse comer Descobrimos por acaso o mistério Era um domingo, eu estava em casa e na hora da sua alimentação, foi uma “guerra” Depois de muito lutar, sem nada conseguir, apesar de estar na hora, a menina não aceitava de forma alguma a comida. Cansada, suando às “bicas”, Igara desistiu de forçar a menina, atendendo a um pedido meu Disse-lhe, na ocasião, que quando estivesse com bastante fome, aceitaria a mamadeira. Sentada na cama, coloca a garrafinha do lado e levanta-se. A menina que chorava, copiosamente, calou-se, de repente, para nossa surpresa De pé, com a “revoltada” ao colo, apoiada sobre o futuro irmãozinho, Igara aproveita a calmaria e tenta dar mais uma vez a alimentação. Não deu outra A criança aceitou, sem o menor problema A partir desse momento, todas as vezes, a sua comida tinha que ser dessa forma Filho inventa cada uma O pior é que a mãe, ia ficando cada vez mais pesada, naturalmente Mesmo assim, a menina não desistiu da mordomia; só fazia as suas “refeições” passeando, para lá e para cá Por sermos “marinheiros de 1a. viagem”, seguíamos, rigorosamente, as orientações do Dr. Antônio Bittencourt, que era o “papa” da pediatria, em Niterói. Pelo menos, era o que pensávamos, por causa das fotografias expostas no seu consultório. Eram crianças lindas Fortes, risonhas, bonitas, mesmo Muito bem, a menina chega aos 4 meses e teria que começar a se alimentar com comidas mais sólidas: banana machucada, misturada com mel Karo. Acredito, até, que aquelas, dos retratos ampliados, colocadas estrategicamente na parede do consultório do pediatra, tivessem aceito esse tipo de alimentação Mas, com a nossa, a coisa foi diferente Não teve “reza” que fizesse a garota aceitar aquela mistura Basta dizer que, quando eu estava em casa, na hora da “confusão”, não suportava e descia para o “hall” do edifício, para não presenciar a verdadeira “batalha”, com Igara insistindo e a menina reagindo, contrariamente, para não querer o alimento. A coisa chegou a tal ponto que eu ficava contrariado com Igara. Fomos umas duas vezes àquele pediatra contar o problema. Ele continuava firme no seu ponto de vista, afirmando que toda criança gosta de “coisa” doce Puro engano, no nosso caso Como a criança não falava, reagia de todas as formas possíveis e imagináveis, para essas criaturinhas Chegamos a um consenso. Pela terceira vez, resolvemos levar a menina ao mesmo pediatra. Só que, eu fiz a seguinte proposta a ele: na hora da banana com mel Karo, levaríamos a criança e ele próprio daria a alimentação Não havia situação mais cômoda, já que continuava insistindo Notou que eu estava meio contrariado e mandou suspender aquela sua recomendação. Tempos depois, ficamos sabendo que Taciana nunca gostou de coisas doces; é um problema “in nato” e o médico não detectou Moral da história; trocamos de pediatra e não tivemos outros desacertos, como esse da banana com mel Karo Hoje, eu sei que, os pais devem ser bastante perspicazes, para sentirem as vontades e os gostos, que as criancinhas trazem consigo, desde tenra idade.

OS PADRINHOS
A nova fase que se nos apresentou foi a escolha dos padrinhos da criança. De início, pensamos em meu pai e em uma irmã de Igara. Isso, se por acaso, pudéssemos ir para Natal. Não nos foi possível realizar o intento, por uma série de problemas apresentados, especialmente, financeiros. Decidimos que a escolha deveria recair sobre alguém que estivesse mais próximo. Chegamos a um consenso que os padrinhos deveriam ser Ivan e Neila, por várias razões. A primeira delas, diz respeito à aproximação que os dois tinham conosco, àquela época. Ela, filha de Da. Nair e ele, seu namorado, naquela ocasião. Porém, o que mais pesou na escolha, foi a ajuda que os dois nos prestaram em colaborando nas tarefas da criança. Não podemos esquecer quanto ajudaram, em ficando com a nenê, passando fraldas, dando banhos, etc. Isso foi muito importante, especialmente, numa hora em que Igara mais precisava, já que, eu passava a maior parte do dia no banco, trabalhando e só chegava no começo da noite. Muitas vezes, cheguei a casa e Ivan estava passando uma pilha de fraldas, enquanto Neila ninava a criança. E o engraçado, é que Taciana gostava muito da futura madrinha Das diversas filhas de Da. Nair, esta, era a que tinha mais afinidade com a criança. Tanto é que, quando a mesma estava no meu, ou no colo de Igara, apenas Neila conseguia pegá-la Para as outras, ela não ia. Ainda meio sem jeito, o Ivan também, uma vez ou outra, segurava a pequerrucha, ao colo, além, de ajudar em passando as fraldas, como falei acima. Motivos como esses, foram os fatores determinantes na escolha dos futuros padrinhos de Taciana. Foi uma ótima opção. Tanto foi que, para o nosso 2o. filho, não tivemos dúvida e repetimos a escolha. Até os dias atuais, Ivan tem prestigiado os acontecimentos das vidas dos seus afilhados. Veio a Natal, tanto para a colação de grau em Serviço Social, de Taciana, quanto para a conclusão do curso de Medicina de Mano, (Odilon Filho). Nas duas solenidades, fez questão de presentear os formandos com os seus respectivos anéis de formatura. Jóias guardadas com carinho, pelo muito que representam, de uma fase importante das vidas de Taciana e Mano. Mais de 20 anos depois dos batizados, o destino havia separado os namorados daquela época e por essa razão, o meu compadre Ivan veio com a sua esposa Edna (Dininha). Para os afilhados e para nós, não precisa dizer da satisfação que nos proporcionaram em ocasiões como essas, haja vista o sacrifício que tiveram de fazer, em viagens tão longas, com o fito de homenagear e prestigiar os dois afilhados Para nós, os pais, é motivo de muita satisfação; já que, isso é uma prova cabal do nosso acerto, na escolha dos padrinhos dos nossos dois filhos Já que falamos dos batizados, devo informar que as cerimônias aconteceram na Igreja do Ingá, próximo à praia de Icaraí, na cidade de Niterói, Estado do Rio de Janeiro.

E A VIDA CONTINUA
A criança ia crescendo e se desenvolvendo naturalmente. A nossa vida continua sem grandes novidades, a não ser, as que vinham de parte da filhinha. Eu continuava trabalhando na agência do Nacional, na Praça 15 e Igara, na sua labuta de mãe bastante dedicada. No prédio onde residíamos, a mesma rotina. Da. Nair, Neila, as vizinhas e as mães “corujas”, com os seus filhos, pegando um pouco de sol, pela manhã, numa área própria, que lá existia. Quanto a mim, quase não “curtia” a criança Passava o dia todo fora, chegava ao cair da noite, jantava e ia fazer a tarefa de passar as fraldas, já que, os meus futuros compadres, nem todos os dias, podiam dar essa “mãozinha” Neila, estudava no “Plínio Leite” e às vezes, tinha que se preparar para provas e trabalhos de casa; Ivan, se preparava para vestibular de Medicina, portanto, nem sempre estaria disponível. Quando estávamos vivendo, ainda, as emoções da primeira filha, Igara engravida do segundo. Novos exames médicos, preocupações diversas e a preparação para a chegada do 2o. herdeiro. Desta vez, a atenção foi talvez menor, devido aos cuidados dispensados a Taciana, que a cada dia, iam aumentando. Não se faz necessário dizer que, tudo o que nos foi possível, fizemos, para que a criança crescesse e se desenvolvesse bem e saudável. Lembro que aos sábados e domingos à tarde, eu saia com a menina num carrinho e ia dar umas voltas pelo Centro de Niterói, passando pela praça, em frente à Igreja de S. João; outras vezes, fomos à Praça do Ingá, onde havia muitas árvores, alguns brinquedos para crianças e bastante sombra. Fazia esses passeios, para ver se a garotinha dormia e principalmente, com a finalidade de dar um pouco de descanso e repouso a Igara. Não esqueço que ficava, às vezes, orgulhoso, quando nessas saídas, as pessoas achavam a criança bonita De pele bem clarinha e de olhos claros, ligeiramente esverdeados, modéstia à parte, a nossa filha era uma criança linda, apesar de chorona e de estranhar as pessoas Não era fácil de se adaptar a quem não fazia parte do seu círculo de conhecimentos Mas, cada criaturinha dessas, tem as suas vontades próprias, os seus desejos e nós temos mesmo é que aceitá-los. As mais das vezes, torna-se um problema meio complexo, por causa da dificuldade de comunicação entre os dois, pai e filho. O problema se faz mais evidente, quando o filho não sabe usar as formas de expressão mais comuns: o gesto e a palavra. Enquanto nos dedicávamos de corpo e alma à boa criação da nossa filha, a natureza ia trabalhando na formação genética do novo rebento, que já vinha a caminho. Tínhamos, portanto, mais uma preocupação e muito séria Fazia-se necessário um acompanhamento do pré-natal, no mínimo, igual à primeira vez. Não medimos esforços, nesse sentido.

O 2º. GRANDE PRESENTE
Tudo caminhava de forma a dar muito certo, por ocasião da chegada do 2o. herdeiro. Algumas preocupações que foram bastante presentes na primeira vez, agora foram encaradas com mais naturalidade. Arranjamos uma empregadinha para tomar conta de Taciana, enquanto Igara iria para a maternidade ganhar o filho. Tudo fizemos, no sentido de que assim acontecesse. Porém, às vésperas do carnaval de 1968, a tal empregada “inventa” uma estória, muito mal contada, por sinal, de que teria morrido um seu sobrinho, lá na sua cidade, no Estado Espírito Santo. Essa estória caiu como uma bomba Como iríamos agir, já que a moça tinha sido “preparada” durante alguns meses, para ficar com Taciana, enquanto Igara estaria internada? Pensamos muito e chegamos à conclusão de que o melhor seria a criança nascer em Natal. Estaríamos no meio da família e sem dúvida, Igara teria a assistência da sua mãe e dos seus irmãos. Lamentavelmente, não aconteceu, exatamente, como o esperado. Nesses momentos, alguma coisa sempre falha Comecei a agir junto ao setor de pessoal do banco, para que coincidisse o meu período de férias, com o nascimento do filho. Concluímos que não daria certo ficar em Niterói; eu não teria condições de ficar com Taciana, agora, com apenas 1 aninho. A maior dificuldade seria com referência às mamadeiras; por um só dia, podia-se “ajeitar”, mas durante quase uma semana, ficaria impraticável. Pelas razões diversas, resolvemos viajar. Como foi uma decisão surpresa e sem que houvesse uma preparação anterior para o caso, não havia, sequer, suporte financeiro suficiente, para dar cobertura às despesas que adviriam. Tive a desagradável necessidade de recorrer a agiotas, para fazer frente aos gastos, especialmente, com passagens aéreas, que de forma nenhuma, haviam sido cogitadas, antes. Foi um “sufoco” Mas, graças a Deus, consegui o necessário para efetuar a viagem, apesar dos juros escorchantes praticados pelos “emprestadores” de dinheiro - agiotas. Juntamos as nossas parcas reservas financeiras, com aquelas conseguidas às pressas e voamos para a Capital Potiguar, onde nasceria Odilon Filho. Ainda no balcão da companhia aérea, o funcionário nos perguntou com quantos meses de gravidez estava Igara. Não sabíamos e dissemos que estava dentro do prazo do nascimento do nenê. Quis criar uma certa dificuldade, mas, devido as nossas insistência e explicação, atendeu, porém, nos orientou que, caso nos perguntassem, na hora do embarque, dissesse que era uma gestação de 6, para 7 meses. Informou-nos, que aos 9 meses, não costumam transportar as gestantes, para evitar que aconteça um nascimento a bordo da aeronave. Concordei com aquele ponto de vista, mas o nosso desespero era tão forte, que aquiesceu ao nosso desejo de viajar. Fomos para o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro e embarcamos a bordo de um Electra 2 da VARIG, com destino a Natal, onde chagamos à noite do dia 5 de março de 1968. Mais da metade do percurso, viajei em pé, com Taciana no colo. A menina não queria acordo e não aceitava sentar, de forma alguma. Fui lá para trás do avião, onde havia uma espécie de pequena sala e ali, atendi o seu desejo. Queria o colo de Igara, que a essa altura, não tinha a menor chance de pegá-la, pelo estado avançadíssimo de gravidez em que se encontrava Lá para as 9 da noite, daquele dia 5 de março, chegamos, finalmente, sãos e salvos a Natal. Fomos para o apartamento de Da. Laura, mãe de Igara. Aquelas conversas de praxe, entre pessoas que há muito não se viam e detalhes de como seriam as providências para o parto. No dia seguinte, Igara não está muito bem e tivemos que ir ao Dr. Williams Pinheiro, ginecologista de renome na cidade e muito amigo da família. Examinou Igara e os exames que trouxemos; conversou bastante conosco e nos deixou uma ótima impressão. Ao finalizar a consulta, mandou que fôssemos pegar as roupinhas da criança e seguíssemos para a Maternidade Januário Sicco, pois o menino estava prestes a nascer. Assim o fizemos. Seriam umas 9 horas da noite, quando chegamos à maternidade. Foi-nos reservado o apartamento “Vitória Régia”. Aqui nos instalamos e passamos a aguardar a chegada do médico. Uma irmã mais velha de Igara estava conosco. Já pensávamos, até, que o médico teria esquecido o compromisso, pelo longo tempo que se passou, até a sua chegada, por volta das 23:30h. Já deveria ter dado instruções ao pessoal de apoio, tanto é que, conversou um pouco, se justificou pelo atraso e ordenou que levassem a paciente para a sala de cirurgia. Sem muita intimidade com a cunhada, fiquei meio solitário, enquanto aguardava a chegada do recém-nascido. Estávamos nos primeiros minutos do dia 7 de março do ano de 1968, quando a enfermeira surge no elevador com o nenê. Disse-nos que a criança nascera, quando faltavam 5 minutos para a meia noite do dia 6 de março. Para efeito de consulta, do tipo horóscopo, vai aqui toda a informação necessária sobre o nascimento do meu herdeiro - Odilon Alves da Rocha Filho: nasceu às 23:55h, do dia 06.03.68, na Maternidade Escola Januário Cicco, na Cidade do Natal/RN, vindo à luz por um parto cesariana, efetuado pelo Dr. William Pinheiro, Prof. da U.F.R.N. Nasceu com 55cm, distribuídos por 4.500g de peso. Graças a Deus, mais uma vez, fomos premiados com uma criança sadia Não nos deu o trabalho da primeira filha Era mais calmo e pareceu entender o ambiente que nos cercava naqueles dias. Veja-se que estávamos muito longe da nossa casa e isso, talvez, tenha provocado uma certa insegurança, tanto a mim, quanto a Igara. Neste ínterim, Taciana havia ficado em casa da minha sogra, sendo cuidada pela saudosa cunhada Irnê. Quero aqui dar o meu testemunho da ajuda que Irnê nos proporcionou, enquanto Igara estava na Maternidade. Por ter o porte físico da irmã, vestia as suas roupas, para que a menina não a estranhasse Reconheço a sua boa vontade naquele momento. Onde você se encontrar neste instante, receba o meu muito obrigado, dado de coração Cinco dias após o parto, Igara volta para o apartamento, trazendo ao colo o novo filho. Talvez por causa da medicação, Igara teve uns pequenos problemas pós-operatórios, mas, logo se recuperou. Mais uma vez, Irnê e agora, também, Sebastião, foram de uma dedicação que eu não esqueço jamais Este, às vezes tarde da noite, chegava a fazer lanches para Igara e até lavar fraldas da criança Laurinha também deu uma pequena ajuda, em ficando com Taciana, nos seus horários de folga da Telern, onde trabalhava. Como se vê, quando menos se espera, aparece alguém para ajudar numa hora difícil Com 19 dias de nascido, tivemos que fazer a viagem de volta para Niterói, levando, conosco a criança. Pensava em deixar Igara em Natal, por uns 3 meses, mas não foi possível, voltamos quase imediatamente. No meu aniversário, 24.03.68, estávamos de regresso à terra de Araribóia. Por humilde que seja, não existe palácio que nos traga mais segurança e satisfação, do que a nossa própria casa Aqui, nós somos os reis A viagem não foi das melhores para Igara, que chegou ao Rio com muita febre, acredito que, por causa do ar-condicionado, muito frio, do avião. Não se pode esquecer que ela havia passado por uma cirurgia de cesariana há 18 dias e estava, ainda, em plena recuperação pós-operatória. As duas crianças chegaram bem, graças a Deus. Quanto a mim, não tinha a mínima chance de pensar em adoecer Seria o caos Ao chegarmos, tivemos, mais uma vez, todo o apoio e conforto de Da. Nair e toda a sua família. Aqueles 19 dias que nos separaram, pareciam uma eternidade E, quando pisamos em terras fluminenses, nos sentimos mais fortes, mais seguros e mais tranqüilos Igara foi medicada adequadamente e logo foi se recuperando da má fase que enfrentamos O caçula se desenvolvia naturalmente, sem problemas de saúde aparentes, pelo menos, até os 2 meses de idade, quando começaram a surgir os primeiros sintomas de dores de ouvido. A criança sofreu muito nessa época; tivemos que levá-la várias vezes ao médico. Pelo menos, em 11 oportunidades, houve a necessidade de perfurar o ouvido, para que se aliviasse o sofrimento. Isso nos deixou bastante estressados Eram dias e noites de sofrimentos, da criança e nosso, também, que não podíamos resolver o problema. O Dr. Costa Júnior, especialista em otorrinolaringologia, com clínica muito conceituada em Niterói, chegou a nos dizer que o motivo principal de se ter chegado àquela situação, foi exatamente, a viagem apressada, causada pela pressurização, altitude e friagem, no ambiente do avião. Segundo ele, a criança ainda estava muito indefesa, para mudanças tão bruscas, nos seus primeiros dias de vida. Foi um caso bastante sério, que só veio amenizar com o correr dos anos, e, após a operação de adenóide, aos 8 anos de idade, quando já morávamos em Natal. Essa cirurgia foi efetuada pelo Dr. Gley Gurjão, na Casa de Saúde São Lucas. Um fato que devo lembrar nesta oportunidade, é que Odilon Filho (ou Mano), como é mais conhecido, guardou de memória todo o centro cirúrgico, onde foi operado. Na sua convalescência, “desenhou”, com riqueza de detalhes, os móveis e instrumentos cirúrgicos que estavam no centro. Chegamos a pensar que seria um futuro arquiteto Além dessa primeira “aquarela”, vários outros desenhos complementaram a sua fase infantil de artista plástico. Igara ainda guarda, com muito carinho, algumas dessas “obras primas” dos tempos áureos do pseudo - pintor Voltemos um pouco no tempo. Estamos, novamente, em Niterói. Apesar da doença que castigou o garoto, algumas vezes, não posso esquecer a dedicação da sua mãe, sempre voltada para o bem-estar dos dois filhos. As crianças eram lindas e muito bem cuidadas Sempre nos orgulhávamos delas As pessoas que as viam, admiravam-nas Não precisa dizer que isso nos “enchia” de uma vaidade, muito comum, nos pais “corujas” Eu e Igara, fazíamos parte dessa clã Pelo menos isso, nos alegrava e bastante Agora, de volta ao nosso mundo, passamos a ter mais uma vez a assistência de Da. Nair e família. Oh Gente boa Para se classificar aquele pessoal, precisaria de uns mil adjetivos, caso contrário, não teria condição de qualificá-los adequadamente Nunca esqueceremos aquelas criaturas fantásticas, que nos deram as mãos, em momentos que tanto necessitávamos Não me canso de tecer elogios a eles todos Lamento, imensamente, não podermos ter mantido a nossa amizade, no grau em que a tínhamos, naqueles distantes anos, entre 1967 e 1969, quando residíamos no apartamento 1915, do edifício S. Sebastião e eles, os vizinhos do 1413, do mesmo prédio. A distância nos separou fisicamente, Da. Nair, mas a memória continua bem viva e todos vocês permanecem intocáveis em as nossas lembranças. Muito obrigado, pelo que foram e pelo que representaram em nossas vidas, há trinta anos atrás

OS ÚLTIMOS MESES EM NITERÓI
Desde que começamos a cogitar a possibilidade da volta, os nossos pensamentos estavam sempre direcionados nesse sentido. A nossa vida corria normalmente. As crianças, a cada dia, mais sabidas e mais desenvolvidas. Nós é que estávamos com a idéia fixa de partir e não víamos a hora, para que isso acontecesse Dissemos aos que nos eram mais chegados e todos se admiraram da nossa atitude; queriam que ficássemos. Em Niterói as chances seriam maiores, na opinião de todos. Não pensávamos assim. O principal seria o emprego e este eu o traria comigo. Nesse ponto, não haveria qualquer prejuízo para mim, já que teria em Natal, o mesmo salário que recebia no Rio. Pensamos muito e concluímos pela volta a qualquer preço. Analisamos, inclusive, a situação dos filhos, quando estivessem em idade escolar. Os perigos da cidade grande, para nós e para eles Tudo isso foi analisado detalhadamente, até firmarmos o veredicto final e definitivo. Não havia mais o que fazer. Todos os detalhes tinham sido estudados e muito bem, tanto por mim, quanto por Igara. Taciana ia caminhando para os 2 anos de idade, enquanto o caçula vinha atrás, marchando para completar o seu 1o. aninho de vida. Aliás, esta comemoração foi feita ainda em Niterói; quando viemos, Mano estava com cerca de 1 ano e 2 meses. Estava começando a dar os seus primeiros passos. Taciana já parecia u’a mocinha Falava tudo e era bem educada Lembro que, quando chegamos a Natal, o seu comportamento social, apesar da idade, chamava a atenção das pessoas que nos conheciam. Um exemplo, para ilustrar o que acabo de dizer: se estivesse num grupo, com outras pessoas, antes de falar qualquer coisa, ela pedia licença para entrar na conversa Costumes que aprendeu na sua terra Afinal, ela é fluminense da gema, como se diz vulgarmente Esse é um ponto que eu devo destacar. Nos diversos anos em que morei no Rio e em Niterói, pude observar que aquele povo, em matéria de educação doméstica, está um passo à nossa frente Os princípios basilares que devem ser aprendidos no lar, naquela região, é assimilado naturalmente e por todos, ricos e pobres. Confesso que foi um dos grandes ensinamentos que me foi possível constatar e que, pela sua retidão, sempre procurei passar para os meus filhos. Espero que tenham aproveitado ao máximo o que lhes transmitimos, no decorrer das suas vidas. Muito embora respirássemos mudança, de um certo tempo em diante, Taciana e Mano, não entendiam o que se passava em nossas cabeças. Continuavam as suas vidinhas de brincadeiras, peraltices, um razoável trabalho e aquelas situações engraçadas, que todas as crianças sempre criam. Estávamos prestes a partir. Confesso que a nossa decisão veio mexer um pouco conosco. Afinal, já nos habituáramos às maneiras, costumes e modos de viver daquela gente Seria, portanto, uma decisão muito séria em nossas vidas. Mas, em determinados momentos, a pessoa tem que agir, não só com o cérebro, mas, com o coração, também. Os nossos corações apontavam para o Nordeste, mais precisamente, para Natal; e seguimos o que eles determinavam. Despedímo-nos de todos os conhecidos; fizemos aquelas promessas que sempre se fazem, nessas horas, do tipo: muito obrigado por tudo, desculpe alguma coisa, ficarei sempre escrevendo, nunca esqueceremos vocês, etc. Corriam os primeiros dias do mês de abril do ano de 1969, quando, mais uma vez, a bordo de um Electra II da VARIG, todos os quatro membros da família embarcaram com destino a Natal, a nova Terra Prometida

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