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História

A Farmácia da Terra

História de: Terezinha de Jesus Soares dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2009

História completa



P - Terezinha, bom dia.



R - Bom dia.

P - Terezinha, só pra registro, nós gostaríamos que você falasse o seu nome completo, a cidade e o local de nascimento?



R - O meu nome é Terezinha de Jesus Soares dos Santos, eu nasci em Macapá mesmo, no estado do Amapá. Na época não era estado, era território.

P - E a data de nascimento?



R - Três de outubro de 1965.

P - Você vai fazer aniversário agora então?



R - Hum, hum.

P - Ah, legal. Terezinha o nome dos seus pais?



R - O nome do meu pai é Pedro da Silva Santos e o da minha mãe é Maria Pinheiro Soares.

P - A atividade profissional deles?



R - Meu pai ele é aposentado hoje numa profissão que hoje não existe mais que antes se chamava de inspetor de policia, que é ligada a polícia civil, o meio de policial civil assim mais e a minha mãe sempre foi dona de casa assim, sempre, na verdade ela tinha um...

P - Vamos lá? Terezinha você estava falando da atividade profissional do seu pai.



R - Pois é, o meu pai foi inspetor de policia, e a minha mãe, na verdade, era dona de casa, não era bem dona de casa, ela foi muito tempo lavadeira.Por mais de 15 anos a minha mãe foi lavadeira de roupa mesmo assim pra outras pessoas assim.

P - E Terezinha assim eles sempre foram de Macapá ou não, eram do interior do estado?



R - Eles são na verdade do interior da Ilha de Marajó todo os dois.O meu pai foi da principal cidade da Ilha de Marajó que chama Soure, que hoje a gente chama de capital da Ilha lá e, por sinal, hoje ele voltou a morar lá inclusive e a minha mãe era de uma cidade chamada perto de Afuá que é uma parte da ilha que dá de frente pra cidade de Marabá. Então eles foram e daí foram morar em Marabá já por mais de 70 anos.

P - Mas eles se casaram lá na Ilha de Marajó?



R - Não, casaram em Macapá.

P - Macapá mesmo. E assim, você teve irmãos?



R - Eu tenho.

P - Você tem quantos?



R - Nós somos no total de 11 irmãos, fomos hoje eu tenho uma irmã que faleceu e hoje nós somos em 10 irmãos.

P - Você gostaria de registrar o nome deles?



R - Pode ser?

P - Pode, pode falar.



R - Então, o meu pai acho que tinha umas manias assim que eu acredito, de botar nomes de filho com a mesma letra.Só quem fugiu da regra na verdade fui eu e uma outra irmã minha. Na verdade a minha mãe tem um filho que não foi que não é o meu irmão por parte de pai. Então o filho mais velho da minha mãe, apesar que o meu pai depois registrou ele e tal porque a minha mãe ficou viúva, teve esse filho e daí noivou e casou com o meu pai. Então o filho mais velho da minha mãe chama-se José Maria. Daí os filhos do papai começaram a se chamar Rodolfo, Regina, Roberto. Rodolfo, Regina, Roberto, tenho que lembrar. Rosângela, Rosilene e daí veio, a minha irmã chamam-se Maria do Socorro porque a minha mãe foi muito ligada à igreja, muito católica, e a minha irmã tipo nasceu de seis meses, sete meses de nascida e daí como promessa ela botou o nome da minha irmã de Maria do Socorro, daí fugiu um pouco da regra, acho que foi a única que foi que a minha mãe botou o nome assim porque o resto...Daí o papai continuou, na regra dos “R” e depois da Socorro, que a minha irmã chama Ronaldo, depois vem Reginaldo, depois veio eu, porque nasci na época de dia da Santa Terezinha, também foi outro pedido da minha mãe.

P - Outra homenagem.



R - fugiu um pouco. E depois de mim tem mais um irmão que chama-se Rogério. Aí a gente fugiu um pouco.

P - Totalizando quantos?



R - Onze.

P - Onze.

P - Agora Terezinha como é que era a infância com toda essa meninada em casa lá em Macapá. Como que era a infância assim? Como você passou a sua infância?



R - A minha infância eu achei muito boa, muito legal assim porque uma das coisas que, por exemplo, Macapá era uma cidade que hoje ela se equipara muito com algumas cidades ainda do interior do estado assim.Então super, na época pra gente era uma coisa normal, mas assim super primitivo em certos aspectos assim. Então a gente não tinha televisão, por exemplo. A gente a nossa maior diversão assim de noticiário era rádio então rádio de rádios assim bem, não de Macapá porque Macapá também não tinha rádio própria. Depois de alguns anos que o próprio governo do estado instalou uma rádio, mas era assim muito legal porque o meu pai também é músico, ele sempre foi o mastro da banda de música da polícia militar, por exemplo, do estado então a gente sempre tinha contato com música e ele também tinha uma banda e a gente sempre estava assim indo com ele. Era praticamente a única banda da cidade que animava as festas então era uma coisa assim, a gente brincava na rua muito porque a cidade não tinha, tipo, pavimentação, a cidade era muito pequena, era pouco assim, não tinha muita influência mesmo. A gente vivia ainda costumávamos ainda a brincar nossas brincadeiras era ir tomar banho de rio ainda porque o rio passa ali na frente assim e eu morava muito perto dali do Rio Amazonas então olhe lá. Então a gente tomava muito banho de rio, a gente ia muito brincava muito na rua de tudo o que pudesse brincar com terra a gente brincava bastante. E aí as diversões eram exatamente essas festas que o meu pai de vez em quando ia tocar e daí a gente ia junto ou então a escola também era uma nossa diversão assim bem legal até que o estado foi começando a crescer, na verdade ainda território ainda. Assim começaram a mudar, as concepções assim e a cidade começou a se expandir bastante, e nós éramos muitos irmãos então a gente sempre viveu muito assim muito juntos mesmo de estar assim todo mundo. Mas era muito assim a gente viveu uma série de dificuldades porque quem sustentava a família toda era só o meu pai praticamente. A minha dava uma força assim, mas era muitos filhos, então...

P - Muitos meninos.



R - É verdade. E aí era assim as coisas começavam a ficar assim. Então algumas vezes assim era super frustrante de não ter o brinquedo que a gente queria algumas vezes, tal. Mas no mais assim foi muito legal porque a gente teve oportunidade de conhecer, por exemplo, muitas coisas que hoje em dia as crianças hoje não conseguem. Tipo, eu conheço muito nome de fruta assim da região, não só por ver não, mas por comer, inclusive, porque a gente tinha no quintal praticamente. Então o Cupuaçu era fruta que nós tem no quintal, tinham outras frutas lá que a gente tinha bastante assim. Era bem à vontade, entendeu? E poder pescar, algumas vezes e o banho era sagrado da gente tomar banho no rio e hoje já mudou a estrutura física da cidade mudou então já não tem mais aquela a gente não fica mais tanto à vontade como a gente vivia assim. Não acho ruim, mas assim, afastou muito mais assim. Então quando eu até falei, por exemplo, a minha vontade de voltar para o interior é porque eu gosto muito disso, eu gosto muito da água do rio assim. Então a minha vontade era poder morar na beira do rio ainda, porque a gente tinha muito esse contato.

P - Agora Terezinha e a escola? Como que era na época assim?



R - As escolas lá no estado elas eram consideradas bem boas assim porque o estado, na verdade não era estado, então todos os profissionais que trabalhavam na área de educação, principalmente, eram funcionários públicos federais. Então professor lá era uma profissão de excelência assim praticamente. As pessoas que conseguiam ser contratadas pelo governo pra ser professores eram professores assim realmente tiveram muitos professores muito bons. Eu realmente não me queixo da minha formação, tanto que me ajudou bastante pra chegar aonde eu cheguei. As escolas eram boas, grandes, bastante grandes assim, a gente tinha espaço pra muita coisa e uma formação praticamente completa. Eu lembro que na época eu fazia bastante esporte na escola, essas coisas todas, e também o estimulo. na época existiam muitos cursos técnicos lá, do governo. Tinha oportunidade, tanto que eu fiz na época o meu primeiro grau e fui fazer depois todo o meu segundo grau , o meu curso técnico aqui de enfermagem que era parceria do governo com o hospital da Ordem dos Arminianos e um hospital muito bom ainda tem o hospital é um hospital de excelência lá e na época a gente fazia estudava no hospital ou no curso técnico. Então pra mim foi muito bom porque depois que eu comecei a estudar eu já comecei a trabalhar na área da enfermagem também, e foi assim uma formação muito boa porque foi assim que eu comecei a ter um contato, inclusive, com algumas pessoas porque iam muitos estagiários, iam muitos estagiários, principalmente, muitos estagiários de Minas Gerais, eu lembro bem, sabe? Iam médicos, outros enfermeiros que inclusive ajudavam na nossa formação assim. Nós tivemos uma formação na área do curso técnico muito bom mesmo e que me estimulou, inclusive, pra eu poder sair porque na época o curso técnico que eu fiz era o curso de excelência pra quem quisesse ficar em Macapá, por exemplo, pra arrumar emprego porque praticamente a gente formava em curso técnico e era empregada logo em seguida. E pra mim, na verdade, ficou faltando muita coisa porque exatamente o estímulo que eu tive na formação técnica eu não queria ficar em Macapá porque na época Macapá não tinha mesmo faculdade ainda. Se quisesse algum tipo de formação a gente tinha que sair mesmo. E os meus pais na época que eu estava terminando eles estavam separando então já foi descartado de cara que eu não ia ser mandada pra estudar em canto nenhum. E outra: os meus irmãos nenhum tiveram oportunidade e eu também não teria como, entendeu? E daí eu tive que optar mesmo em ficar trabalhando um tempo e estudar por conta própria.

P - Por que o curso de Enfermagem? Técnico de Enfermagem?



R - Eu sempre gostei muito dessa área da saúde, e na época pra mim era uma coisa que eu gostava muito, do campo do hospital essa parte da ajuda assim. Não sei se eu incorporava mais a Madre Teresa de Calcutá. Porque eu trabalhava muito assim também porque a gente tinha muito contato com as pessoas, eu sempre gostei muito desse contato com as pessoas. e trabalhar em Macapá era como se a gente fizesse o trabalho que eu faço hoje no profissional. Trabalhar nas comunidades porque não tinham muitas comunidades formadas no interior como tem agora depois dos assentamentos, essas coisas todas. Mas mesmo assim, por exemplo, as pessoas iam muito à Macapá assim. Então a gente via muitos casos assim das pessoas do interior começando a ter contato com esse tipo de coisa. Fora as pessoas mesmo de Macapá, que procuravam os hospitais. E pra mim aquilo era o máximo, eu gostava muito de participar disso de poder a minha formação como técnica foi muito boa porque eu tive, inclusive, me permitiram, fazer partos, essas coisas, poder trabalhar com isso assim. Durante a nossa formação a gente tinha que estar participando disso, tinha que fazer, pelo menos, um parto e tal então foi muito legal assim, sabe? E isso me estimulou muito a querer continuar os meus estudos, mas pra mim era muito difícil porque eu tinha que sair da Macapá, e sair de Macapá não era só pensar numa estrutura, por exemplo, de só fazer faculdade porque a Universidade Federal, eu tinha que estudar numa universidade federal, porque o meu pai também não tinha condição de bancar uma particular, na época em Belém já tinha. E onde era mais perto? Belém. E mesmo sendo perto era muita dificuldade porque ainda hoje pra tu sair de Belém ou tu sai de avião ou tu sai de barco, e aí, por exemplo, uma viagem de barco naquela época ainda também hoje ainda dura 24 horas, entendeu? E mesmo assim era muita, dependia muito de quando o barco fosse sair porque também não saía todo dia e de avião nem pensar, porque era muito caro, ainda é caro. E aí ficou muito difícil e aí eu comecei a bom; aí eu botei na minha cabeça que eu precisava fazer uma faculdade, e lá em Macapá cursinhos também assim preparatórios nem pensar e daí comecei a, por influência de amigos que tinham ido pra Belém, aí mandei pedir material pra estudar, esse tipo de coisa, pra poder tentar sair porque era um modo inclusive de convencer a minha mãe que eu tinha que sair dali, que inclusive ela ia ter que me ajudar, porque eu tinha dito pra ela o acordo que a gente tinha feito na época porque o argumento sempre foi que os meus outros irmãos não tiveram oportunidade então...

P - Você também não podia.



R - Não tinha privilégio e não podia ter nenhum privilégio. Aí eu digo, “mas se eu estudar e passar no vestibular lá; bom, aí é outra coisa” E aí foi o que eu fiz, passei. E aí eu trabalhava, como sempre trabalhei como técnica em enfermagem, trabalhava, inclusive, como enfermeira particular no horário de uma senhora lá de uma... E trabalhava também na parte; engraçado porque eu fui enfermeira particular dessa senhora, que me ajudou bastante pra juntar grana pra ir pra Belém e mais a minha área sempre foi pediatria assim, sempre trabalhei muito com criança, em berçário, essas coisas todas, e daí quando eu passei em 86 no vestibular daí foi quando a minha mãe disse, não ia ter jeito, ela ia ter que me ajudar porque não podia perder a vaga.Aí fiz o vestibular, dei um jeito d ir pra Belém porque e aí naquela época ainda não tinha nada em Macapá. Não tinha nenhuma possibilidade de tentar um curso superior em Macapá porque não tinha mesmo.

P - E qual o curso que você fez, Enfermagem?



R - Farmácia.

P - Farmácia.



R - Eu estava assim e fiz farmácia por pura probabilidade, era um curso assim que quando todas as estatísticas diziam que era o menos concorrido da área da saúde, daí eu digo: “bom; fazer esse porque eu preciso ter uma chance” E daí fui, mas eu até podia passar em qualquer outro curso porque eu lembro que eu estudei tanto que eu passei bem.

P - Nossa, legal.



R - Daí depois que eu me mudei pra Belém assim as coisas começaram a mudar de figura porque as pessoas que eu conhecia ainda no São Camilo, que é o hospital, sempre diziam: “olha, tu vai ter muitos amigos mineiros, inclusive médicos assim que a gente acabava que iam estagiar pra lá e tal”, sair daqui. Porque a idéia, porque eu sempre dizia pra ele, “o meu problema maior”, quer dizer, o que seria a minha solução, “era sair de Macapá pra tentar uma formação”.Porque pra mim ia ser muito ruim se eu ficasse lá eu acho que estava sendo muito frustrante pra mim porque eu já estava formada da enfermagem já há dois anos e aí as coisas pareciam que não estavam...Eu terminei Técnico em Enfermagem em 83 e 85 eu estava assim meio que pirando, doida pra sair e as coisas parecia que nada acontecia.

P - E como foi lá a sua chegada em Belém assim. Como foi essa experiência de sair de Macapá e ir pra Belém assim?



R - Eu nunca tinha ido à Belém mesmo. Era pra mim, apesar de estar ali do lado, mas eu nunca tinha visitado Belém e aí pra mim foram dois choques: primeiro a separação da família, segundo de ver aquela cidade, porque foi uma coisa assim pra mim que eu fiquei assim um tempão pra eu me acostumar. Primeiro tinha as historias de que eu chorava bastante de saudades, nos primeiros dias, nos primeiros meses mesmo.

P - E você foi morar onde?



R - Eu morei fui morar numa república de estudantes lá, porque muita gente vai de Macapá, porque tinha que estudar lá. então eu me juntei a algum grupo de macapaenses e daí nós éramos um grupo de 10 e que alugamos uma casa, era um pouco meio que no centro de Belém então uma coisa assim bem legal, mas ao mesmo tempo sentir falta muito da minha mãe na verdade. Até que uma amiga minha disse “não; ou tu te orienta ou tu volta, que tu não vão poder continuar assim não”. aí eu comecei realmente a tomar consciência de que eu estava a minha vida estava mudando a partir dali.E que tinha uma coisa boa também o fato de a gente não ter nenhuma faculdade o governo do estado na época oferecia para os estudantes uma bolsa. Era assim uma coisa super irrisória, mas que dava uma força pra gente, e que me ajudava bastante no aluguel, essas coisas toda.

P - E você estava na Federal do Pará?



R - Foi. Passei na Federal do Pará.

P - Mas você não começou trabalhar como Técnica nessa época?



R - Lá em Belém não. Eu já estava trabalhando só em Macapá.

P - Aí você ficou só estudando?



R - Aí fiquei só estudando. O primeiro ano foi só os estudos, nós chegar em Belém estudo, me acostumar, essa coisa toda.

P - A universidade como que era assim? Essa experiência da universidade?



R - A universidade parecia que eu estava assim, eu fiquei eu me sentia muito realizada.A universidade pra mim parecia um templo assim, porque eu realmente eu fiquei muito apaixonada pela universidade assim, sabe? Eu achava que não era tudo aquilo, mas pra mim era tudo aquilo. Era uma coisa assim que eu estava saindo de Macapá e o pessoal falava muito em universidade e universidade e era a primeira da família toda, e daí os meus irmãos a maioria estava trabalhando e daí pedia ajuda de irmãos, essa coisa toda, mas a maioria dos meus irmãos já tinham constituído família, já tinham casado então já estava assim muito difícil, mas mesmo assim alguns ainda me ajudaram bastante. Então quando eu cheguei lá assim eu fiquei o primeiro ano foi totalmente adaptação assim, tanto no curso porque eu não tinha certeza de que eu queria fazer Farmácia porque na verdade eu fiz Farmácia pra entrar na universidade, mas o primeiro ano me fez ver que realmente era o curso que eu precisava. Eu comecei a trabalhar para a parte de medicamentos pra mim aí eu comecei me apaixonei pelo curso e tanto que foi uma coisa que eu me fez entrar no movimento estudantil, eu comecei a entrar no movimento estudantil.

P - Conta essa história pra gente do movimento estudantil. Você estava 86 você entrou na universidade?



R - Foi.

P - Como que era, era o que? Já era nova república, como que era essa experiência de estar na universidade, ter saído da sua cidade, estar num lugar diferente e estar no movimento estudantil, como que era isso?



R - A república que eu morava era só eu que era da área da saúde.Os outros eram sempre o pessoal que foi estudar, tinham muitas outras áreas.

P - Quais?



R - Principalmente tinha amigos que faziam Matemática, Economia, sabe? Então da minha área... E pra mim era muito porque eu convivia muito ali com eles ali e tinha poucos amigos na faculdade. Eu estava chegando assim. Porque uma das coisas, por exemplo, das universidades que eu via na época é que tinham muitos amigos de cursinho.As pessoas entravam na universidade e já se conheciam praticamente e eu não conhecia ninguém nem na faculdade, eu tinha os meus amigos da república, mas na hora da faculdade lá cada um ia para o seu canto porque o campus era muito grande e daí comecei aí tinham algumas coisas assim. Eu não tinha noção de que que era um centro Acadêmico. Então essas coisas começaram a me chamar atenção, porque na época que eu fazia, por exemplo, a Enfermagem o nosso curso era muito puxado assim no sentido de que a gente estudava e ao mesmo tempo tinha que trabalhar. Então eu saía dos estudos e já ia para as clínicas estudar. Então não tinha tempo de participar, não sabia como é que era. Negócio de Grêmio, por exemplo, nunca participei. Daí lá na universidade eu comecei a prestar atenção nisso, o que que era aquele povo que ficava falando ali na frente pra gente que são estudantes também.Então um ano todinho eu ficava prestando atenção naquilo e o mais engraçado é que eles começaram a me ver também porque todas às vezes quando era assembléia eu estava lá, porque eu queria saber o que que era eu queria saber o que que era aquilo, o que que é aquilo, aquelas coisas toda e comecei. Como no ano de 86 eu estava só por conta da minha mãe e lá em casa as coisas sempre foram muito difíceis assim, ela reclamava um bucado. Mandava, mas reclamava um bucado. E daí em 87 eu digo “não; eu vou dar um jeito de arrumar um trabalho assim” e daí comecei a trabalhar como garçonete, arrumei a trabalhar como garçonete nos finais de semanas assim e que rendia uma grana razoável.Então eu trabalhava sexta e sábado, numa boate mesmo que eles contratavam universitários mesmo, e daí foi uma amiga minha até que me levou lá do curso de Farmácia que era do centro acadêmico inclusive e disse: “olha, vou te levar lá” e daí foi super legal, foi. E aí eu tinha sexta e sábado eu trabalhava, e nos finais de semana e comecei a me entrosar com ele, por conta disso das pessoas me verem e sempre me convidar, comecei a participar das reuniões, tal e os quatro anos que eu fiz faculdade, cinco anos que eu fiz o último, eu fiquei praticamente no movimento estudantil daí fui presidente do centro acadêmico já, dali há dois anos já era presidente do C.A. (Centro Acadêmico).E o ano seguinte, por exemplo, em 90 eu fui presidente da Executiva Nacional dos Estudantes de Farmácia, e aí eu comecei a ter uma experiência nacional porque a gente realizou um encontro dos estudantes nacional em Belém mesmo a gente puxou eu estava bem na frente mesmo na época e comecei. Bom; aquilo abriu bastante os horizontes, eu já sabia, por exemplo, que eu precisava fazer uma pós-graduação, por exemplo, e que eu precisava eu nunca desisti, por exemplo, do fato de eu teria que voltar pra Macapá. Isso pra mim sempre foi um fato concreto, eu precisava me formar e voltar pra Macapá. Mas, assim, eu não queria voltar pra Macapá só como farmacêutica, e aí o mais. Porque, na verdade, na área da Farmácia, isso é muito engraçado, porque as pessoas geralmente entram pra trabalhar nas análises clínicas, porque o farmacêutico acaba sendo formado bioquímico, pra trabalhar em laboratórios de análises clínicas e eu odiava, eu gostava do medicamento. Aí quando eu comecei a trabalhar como garçonete então me gerava aquilo então eu comecei a ficar mais tranqüila porque eu comecei já algumas vezes a minha mãe não precisava mandar pra mim porque eu tinha a bolsa também, o governo me manteve assim com a bolsa e era uma bolsa razoável assim equivalente, por exemplo, hoje em dia a 150 reais, mas que ajudava bastante. Então isso, por exemplo, me ajudou muito que aí eu comecei mesmo a poder participar das formações, aí eu vi ser bolsista de Iniciação Científica mesmo dentro da universidade e daí fui também bolsista numa OnG lá em Belém chamada República do Pequeno Vendedor, que abriu uma vaga lá para as pessoas que eles trabalhavam muito com plantas medicinais, ainda trabalham assim com meninos de rua, meninos carentes na verdade. E dentro dessa OnG tem um trabalho todo com as crianças de fazer recuperação, tem o dia que ele sai nas casas pra recolher material pra recuperar, tipo, moveis usados e essas coisas todas, e aí tinha um braço dessa OnG chamada Cidade de Emaús onde tinha uma escola formal e lá dentro da escola os alunos estagiavam dentro eles montaram uma espécie de mini-laboratório de produção e abria vaga pra estagiário lá.

P - E quando você terminou a faculdade?



R - Aí eu fiquei assim entre bom; porque aí veio a cobrança, “vai voltar ou não vai? Afinal de contas está formada e tal.” E eu resisti muito, resistiu muito, tanto que eu não fui. Eu estava assim “bom, eu vou volto pra Macapá eu vou trabalhar.” Bom; lá ainda hoje a carência de profissional é muito grande também nessa área e eu sabia que eu poderia ser funcionária pública, eu ia virar funcionária pública certamente, porque é o que gera. Tanto é que muitas pessoas, muitos amigos meus, por incrível que pareça, que são lá de Belém nunca tinham ido pra Macapá ouviu falar muito “olha, abriu concurso em Macapá”, porque na verdade era concurso federal porque era o governo federal que abria as vagas. E aí eu... Tem muita gente que é lá de Belém que fizeram faculdade comigo que estão em Macapá agora porque foram pra lá por conta do concurso federal e eu digo “olha, gente eu vou ser comigo ao contrário.” Na época, como eu era do movimento estudantil, eu não sabia muito que esse movimento Farmácia no Brasil assim de farmacêutico estar presente nas farmácias, de assumir o papel de farmacêutico na parte de atenção farmacêutica, a gente já falava muito naquela época disso. Uma vez eu vim aqui, inclusive, pra Brasília pra um movimento ali que queria tirar o farmacêutico da farmácia. Eu lembro bem que eu cheguei um dia aqui de ônibus e fui fazer um movimento na frente do Congresso e voltei de noite assim,sabe, de ônibus pra Belém um dia e meio assim de ônibus e tal. A gente fazia porque eu era presidente da Executiva e daí ficava. E aí, “você quer saber de uma coisa?” O Paraná estava se destacando, estava contratando farmacêutico pra trabalhar na farmácia e tal e daí uma outra amiga que era farmacêutica e que morava em Belém, estava fazendo pós-graduação em Belém, desistiu da pós-graduação porque casou, tal e disse assim “olha, estou voltando para o Paraná”, ela era do Paraná, “tu não queres ir comigo, vamos lá tentar?” E eu não pensei duas vezes: “embora.” E daí no final de 98 eu me mandei assim. Noventa e oito, desculpe, 91. Não em 92 eu fui pra Umuarama. Aí cheguei em Umuarama já tinha um pré-contrato já, eu disse a minha mãe já assim, naquela época era quase não me perdoava, porque ela estava contando que eu fosse. Foi bem no período mesmo assim. Eu me lembro bem como se fosse ontem assim. Eu liguei pra ela e ela disse: “e aí, quando é que tu chega?” “Não chego, eu vou descer. Eu vou descer.” Daí ela disse ficou um tempo assim bem chateada mesmo. E aí eu fui morar em Umuarama, fiquei um tempo em Cascavel porque era a cidade da minha amiga e aí a gente fechou contrato em Umuarama. Aí eu fui mesmo pra ser farmacêutica de uma das farmácias lá e aí pintou uma vaga na faculdade, que tinha uma faculdade de farmácia lá e aí eu comecei a dar aula na faculdade de farmácia lá em Umuarama. Então eu era farmacêutica e dava aula na faculdade.

P - Qual disciplina que você dava?



R - Na época dava Deontologia que parte de legislação eu sabia tudo, me obrigava mesmo. A parte de deontologia farmacêutica e coordenava estágios também na área de Farmácia assim. E pra mim foi uma experiência maravilhosa assim porque foi que me deu esse ponta pé inclusive pra poder trabalhar.

P - E o choque cultural? Tu saiu do norte pra ir morar lá no Paraná. Alimentação, como é que você sentiu isso aí?



R - Primeiro assim foi muito ruim assim. Não foi legal não, não foi uma experiência legal não. em termos de a própria família da minha amiga, a principio assim. Foi muito engraçado. A gente pouco fala dessas questões dos preconceitos, mas a gente realmente assim é uma coisa assim bem gritante assim. Na época assim, mas isso eu nunca fui dada à barraqueira. Então eu sempre levei muita na...Na boa assim.

P - Mas que tipo de preconceitos Terezinha?



R - Era muito engraçado porque no dia que eu entrei na sala de aula, por exemplo, os alunos olhavam, muito engraçado, os alunos olhavam pa mim assim e ficaram um tempão. Aí eu disse “e aí? Vocês não vão sentar e tal.” Aí eles olharam assim: “nossa; a senhora que é a professora?” Assim, sabe? Então isso pra mim não é alguma coisa assim, de repente, de, sabe? Eu não posso também cobrar deles assim. “Vamos ter aula de Deontologia Farmacêutica, tal.” O sotaque era diferente, entendeu? Estava falando, eu não tenho... Então pra eles também foi assim. Mas assim, depois tudo uma maravilhava, a gente ficou depois. Mas tinha outras coisas, por exemplo, assim que a cidade assim eu tive muito problema na cidade de sentar em bares, por exemplo, assim, sabe, as pessoas. Recebi várias críticas assim porque eu tinha uma outra amiga que foi de São Paulo pra lá na mesma época. A gente também encontrou lá que ela também era farmacêutica lá e a gente costumava a sentar e esse tipo de hábito tinha.Então de sentar em bar pra tomar cerveja, por exemplo. E lá em Umuarama eu tive assim várias críticas das pessoas que viam a gente sentada, tipo, bebendo e fumando, eu não fumo, mas a outra fumava pra caramba. Então, é esse tipo de coisa assim. Isso assim eu não sei porque a gente era fadada aos discursos, então aquelas coisas assim a gente achava, porque essa minha amiga de São Paulo que foi morar lá em Umuarama pra trabalhar como farmacêutica também era também do movimento estudantil. A gente se encontrava, então a gente achava que a gente... E coisas assim que a gente, por exemplo, achava que não poderia acontecer com a gente porque a gente tinha assim conhecimento, sabia, algumas vezes, se expressar. Então isso pra mim foi um choque porque não é assim a coisa.Então realmente na época que eu fui, por exemplo, com essa minha amiga ela tinha uma filhinha e a idéia da mãe dela é que realmente eu tinha ido a princípio pra cuidar da filha da minha amiga. Então foi outro, pra mim também foi um choque porque “olha, eu não estou aqui para... A neném cuidamos nós duas”, a gente tinha combinado, que ela tinha largado o marido lá, essas coisas toda, mas aí era isso mesmo. Então, por isso, a gente vai sair da casa da mãe e tal. Então isso foi muito bom isso também, a gente tinha apoio uma da outra, tal. E o mais engraçado disso tudo é que foi muito legal essa experiência tanto pra mim quanto pra ela, porque, na verdade, ela tinha largado uma pós-graduação por conta dessa gravidez dela, do casamento, depois ela desfez o casamento, teve que voltar um tempo pra casa da mãe e aí durante uns dias a gente ficou um mês, praticamente dois meses na casa da mãe dela, nem ela agüentou e nem eu. Na casa da mãe dela era um monte. Então a gente já estava acostumada e tal e foi quando a gente foi morar em Umuarama pra trabalhar mesmo, então pra gente foi uma mudança bem radical mesmo. E pra mim não só os hábitos, por exemplo, nesse sentido assim, mas tudo, alimentação, o jeito. Imagina, lá em Belém a gente é muito engraçado porque, por exemplo, quem gosta da noite, eu gosto muito da noite, então assim a gente sai pra ir pra noite pra gente estar cedo, entendeu? Então lá se quisesse tinha que sair cedo então eu achava estranho, esse tipo de coisa assim é muito engraçado porque as pessoas saem muito tarde. Lá em Macapá também as pessoas saem muito tarde. Esses hábitos assim pra quem gosta. Mas assim, se a gente não soubesse mesmo fazer trabalhar a questão da amizade com os alunos, essas coisa toda, porque Umuarama era uma cidade que as pessoas iam estudar, e no final de semana só ficava eu a Cirlene que era essa minha amiga de São Paulo. E não tinha outra coisa pra fazer, então...

P - Pro bar.



R - Pro bar. Porque os alunos iam embora, todos, todos, a cidade era realmente...

P - E você ficou quanto tempo lá Terezinha?



R - Eu fiquei um semestre só.

P - Um semestre?



R - Fiquei um semestre e mais um quase dois semestres porque eu saí na metade do outro semestre.

P - E por que você saiu? Pra onde você foi?



R - então. Essa minha amiga reatou um antigo namoro, sabe? Ela tinha namorado um período lá com um professor na verdade lá da Universidade Federal Fluminense, e aí ela volitou, reatou o namoro com ele e aí ela ia sempre lá pro Rio e ela acabou conhecendo ele. Na verdade ela tinha conhecido ele em Belém. Ele tinha ido lá uma vez fazer um trabalho em Belém e ela conheceu lá. Aí ela reatou esse o namoro com ele e daí a gente morava eu e ela junta e ela ia lá de vez em quando. E aí como ele morava no Rio, bom, aí ele pediu ela me casamento também. E aí eu já tinha decido que eu não ia porque eu queria terminar o ano, mas aí foi também um choque, porque aí eu fiquei sozinha porque ao mesmo tempo em que essa minha amiga Zuleica, Zuleica o nome dela, foi embora pro Rio a outra, a Cirlene, também foi embora pra São Paulo também. E todas. A Zuleica voltou pra estudar, casou, o marido levou pra casar e eu, de repente, estava sozinha. Não estava achando ruim lá em Umuarama, financeiramente estava bom, porque eu estava trabalhando na farmácia e estava mandando até grana pra mamãe naquela época que a mamãe felicíssima pra ajudar lá a velha, lá.Então pra mim estava bom e aí eu, putz, mas aí imagina, já não tinha nem mais a Cirlene pra fazer companhia e daí eu não ia mais pra canto nenhum.

P - Nem para o bar mais.



R - Nem bar mais. E daí a gente foi, aí eu digo “não, quer?” Aí ele o professor, o marido da minha amiga lá de Umuarama que casou depois que... Na época era namorado, e disse “olha, se tu quiseres, vamos lá para o Rio. Tu vem trabalhar comigo, vamos trabalhar com as consultorias.” Ele trabalha muito com a parte de meio ambiente, ele trabalhava muito com essa parte de degradação ambiental, recuperação de áreas degradadas, era totalmente diferente da minha área, eu assim totalmente ligada aos medicamentos e trabalhei muito tempo com planta, adorava isso tudo e o meu sonho era poder trabalhar nessa área. Então eu já estava tentando assim porque foi muito engraçado porque uma vez eu vendo os catálogos de cursos, e na época do movimento estudantil eu lembro que eu fui no Rio de Janeiro uma vez e daí vi a Fiocruz, e aí eu vi os catálogos e eu sempre desde a da época que estava no movimento e comecei trabalhar nessa parte trabalhando na Emaús eu sabia o que eu queria fazer saúde pública.mas pra eu fazer saúde pública eu precisava ir para o Rio de janeiro porque eu queria fazer na Escola Nacional de Saúde Pública. Pra mim aquilo ali estava... Porque eu pesquisei muito sobre ela assim, sabe, nessa parte. E aí eu estava botando aquilo na cabeça. Então a idéia era arrumar uma grana e tentar fazer uma pós-graduação lá.E daí quando ele veio com a proposta assim eu não pensei duas vezes assim, “pô, vai ser uma oportunidade”

P - Você foi para o Rio então?



R - Daí eu fui. Depois que eles foram eu fui depois, com eles, tal. Eles me deram todo o apoio, foi muito legal assim ele principalmente porque eu realmente. Só que aí eu mudei, eu tinha que trabalhar com ele.Mas foi uma experiência maravilhosa, porque ele fazia trabalho inclusive em Macapá, a gente trabalhava com áreas de recuperação de garimpos contaminados por mercúrio, por exemplo, então foi uma coisa que eu tive que estudar tudo, mas o mais importante é que a gente estava trabalhando na área por que Macapá, Macapá não, na verdade o estado tinha muitos garimpos lá.

P - Mas o que você fazia, você fazia laudo?Analisava?



R - Eu ajudava analisar os laudos e, principalmente, também fazia a parte da digitação, essas coisas toda.

P - de tudo um pouquinho assim?



R - Ahã.

P - Aí você ficou quanto tempo lá?



R - Aí fiquei trabalhando lá com ele e assim aí eu fui pra lá também e daí comecei a fazer uma especialização em Toxicologia Ambiental, sabe, lá na faculdade dele, lá na UFF (Universidade Federal Fluminense) só que era na Faculdade de Farmácia.Ele era da parte da área da Geologia e aí ele me disse “não; tem uma especialização da Faculdade de Farmácia que me interessa ele falou pra ti porque está na Faculdade de Farmácia Toxicologia Ambiental e tem a ver com a parte de Saúde” E daí assim casou. Eu tive bem sorte. E em 93, na metade de 93, é que eu entrei nesse...

P - Isso lá no campus de Niterói?



R - Lá no campus de Niterói.

P - Em Gravatá?



R - Hum, hum. Daí, fiquei trabalhando com ele um tempo e morando um tempo com eles ainda, porque ela casou , mas aí eles casados, um casal e eu tinha meio receio assim, mas acabou sendo muito bom mesmo assim. Acabou que eu fiquei um ano, quase dois anos com eles assim, na boa assim. Então eu até precisava trabalhando com ele. E aí fiquei trabalhando.

P - Terezinha você estava falando da sua experiência lá no Rio, Niterói fazendo o curso de especialização morando com a sua amiga.



R - Pois é. Daí a idéia de fazer Fiocruz não saía da cabeça.Aí eu fiquei trabalhando. Então a experiência mais legal é porque a gente fazia na época ele estava fazendo exatamente uma consultoria para o governo do Amapá. Então isso pra mim foi... Porque aí era muito engraçado porque apesar não tinha muito mais contato. Eu já estava há uns seis anos fora de Macapá assim, sabe? Não tinha muito contato e comecei a ter o contato de novo das coisas que estavam acontecendo. Porque quando eu saí de lá não tinha essa história de garimpo não ainda, estava a única coisa que estava degradando lá ainda que era o máximo para o povo, que era uma coisa que fazia render era o dinheiro que explorava os minérios lá o manganês, que era a grande, fora do governo, o pessoal que era vinculado às pessoas assim achavam o máximo porque ganhavam bem.Tanto que ainda hoje as pessoas dão muito valor. O pessoal que trabalhou, por exemplo, era o pessoal que tinha um salário melhor, algumas vezes, porque não era da área do governo na época, tal. E aí comecei a começar a entender, porque na área ambiental começar a entender essas coisas o que que é isso, como é que era isso, tal. E aí, mas eu estava assim eu sentia muito fora da área da Farmácia. E aí, pô, comecei a visitar de novo os meus amigos, eu estava no Rio de Janeiro e tinha muita gente que veio de Belém e que já estavam morando no Rio fazendo pós-graduação, dar aula e aí comecei a ter contato de novo com o pessoal e trabalhando e daí “quer fazer Fiocruz vai lá e vai ver o que que e, tal.” Daí em 95 eu comecei, aí foi na Fiocruz, me escrevi num curso de especialização. No outro curso, tinha até terminado o curso de Toxicologia Ambiental, fiz o trabalho lá, inclusive de Macapá com peixes, essas coisas todas, mercúrio em peixe, que era ligado um pouco, e fazendo uma avaliação mesmo das pessoas que comiam, o peixe. Lá todo mundo come peixe o tempo todo “mamãe a senhora está comendo um monte de peixe contaminado”.

P - Com mercúrio?



R - Mercúrio, tal e aí aquelas coisas todas, daí fui fazer e daí fui e me escrevi num curso de especialização na Fiocruz porque eu tentei em 95 o curso de mestrado na parte pra saúde pública tentei a área de Toxicologia Ambiental mesmo, que tem uma sub-área lá dentro da Saúde Pública. Só que na época eu não tinha muita experiência em inglês, por exemplo, eu fui reprovada na prova de inglês lá do mestrado da Fiocruz apesar de ter tido uma boa nota nas outras provas.E daí mais frustrada ainda, porque imagina, eu ia começar o mestrado em 95 e tal. E aí foi, a minha orientadora “vai tentar outra especialização”. E daí Saúde do Trabalhador eu digo “bom, eu vou fazer porque já vai começar a me reaproximar de novo na questão da saúde pública”, é uma coisa que eu gosto tinha muita na parte da área da Toxicologia, mas também tinha Toxicologia com plantas e eu estava doida pra voltar pra essa área. Daí eu conversei com ele eu digo “olha, vou fazer tal” e continuei trabalhando com ele, porque eu tinha, claro, era uma grana. E daí saí da casa dele fui morar já na Ilha do Governador fui dividir com uma outra amiga de Belém que estava fazendo pós- graduação, tal, a gente sempre ficou assim, mas muito em contato e tal. Aí quando eu fiz a especialização em Saúde do Trabalhado me preparando pra tentar de novo a prova do mestrado.Que agora eu passei 95 todo fazendo inglês.

P - Dar o troco.



R - E aí foi o que aconteceu mesmo. E no final de 95 eu fiz a prova e daí passei para o mestrado em 96.

P - Na Fiocruz?



R - Na Fiocruz lá onde eu queria, eu estava realizando um grande sonho. E aí como eu estava muito tempo eu fiquei uns dois anos estudando e fiz o trabalho ainda lá em Macapá, o meu trabalho foi com umas plantas, toxicologia de plantas, não mais em peixes, mas em plantas, fiz também umas associações com os peixes também e da população que consumia, que usava essas plantas. E como eu ia muito em Macapá eu comecei a ter contato com um pessoal do IEPA (Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá) que é o instituto de pesquisa lá, que é onde eu estou trabalhando agora e fazia muito trabalho lá, eu chegava lá e começava a trabalhar com o pessoal já desde 96 que eu comecei. Porque aí em 96 eu comecei a voltar de novo em Macapá nas férias por conta do trabalho, do mestrado e daí eu já ia até 96. Eu tinha bolsa, eu conseguia a bolsa da CAPES, para o mestrado aí fui uma vez por ano, não dava pra ir sempre, daí quando terminei o mestrado vai pro doutorado, pra enganchar logo aí eu digo “não, não, eu ainda tenho que ir até pra ver se esse meu mestrado serve pra alguma coisa porque eu já estou muito tempo estudando, muito tempo fora, já tinha feito isso, trabalhando nisso, quero ver se serve pra lá.” Eu nunca tinha assim desistido do fato que eu iria voltar pra lá.

P - Então você volta?



R - Voltei. Aí eu voltei. Assim, não quis tentar logo um doutorado, e assim as pessoas assim, eu gostava muito do Rio de Janeiro, não tem como, assim, mas eu digo, “eu preciso trabalhar.” Eu tinha uma idéia fixa mesmo, “eu preciso trabalhar, eu preciso ver se serve isso pra lá de para o povo”. Eu já tinha essa concepção de que eu precisava voltar pra lá para o estado pra ver se eu conseguia. Eu sentia necessidade de dar uma resposta, não só para a minha família e tal que estava esperando um pouco, a minha mãe então estava esperando um tempão, mas o povo de lá, eu achava assim que eu tinha que dar um, um pouco de retorno disso. Na verdade eu tinha uma bolsa de lá um tempão.Aí quando eu voltei em 98, assim sem muita perspectiva, mas eu dei a maior sorte porque eu cheguei o governo do estado, apesar de não ter feito nenhum tipo de concurso público, porque aí eu ia parar de novo na área pública, não tinha jeito.

P - Mas já era estar.



R - Mas já era estar. Já era estar, exatamente. E aí bom, eu estava com o mestrado, agora eu vou chegar, mestrado talvez eu tenha uma outra oportunidade melhor agora, e aí pintou um contato pelo governo do estado na Secretaria de Saúde para trabalhar no IEPA.O IEPA estava começando assim...

P - Logo quando você chegou?



R - Logo quando eu cheguei, muita sorte mesmo, foi bem na hora que eu cheguei. Estava procurando farmacêutica eu não fui contratada logo pelo mestrado contratada como farmacêutica mesmo pela Secretaria de Saúde para trabalhar no IEPA que estava começando esse trabalho. Já tinha o início do trabalho com plantas medicinais e eu comecei a achar o máximo que eu ia voltar realmente naquilo que eu já tinha feito muito na faculdade. Tinha fugido dessa parte todinha, inclusive no mestrado, apesar de ter contato não era exclusivamente com isso que eu tinha trabalhado, mas sempre tive contato assim lá no Rio por conta da universidade mesmo assim. As pessoas da universidade eu tenho muito contato com as pessoas que trabalham com isso.

P - Pra registrar, o que que é o IEPA?



R - Então. O IEPA, o nome IEPA, porque antes era o Instituto de Estudos e Pesquisas do Amapá.Foi fundado em 91 mesmo com esse intuito de trabalhar pesquisa lá no estado.Aí em 96 o governo achou que o nome podia dar um status maior, ele mudou pra Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, mas manteve-se a sigla.E o IEPA trabalha com essa parte de produção de fitoterápicos, a partir das plantas de lá e tal. E aí quando eu cheguei lá eles estavam realmente contratando os farmacêuticos pra trabalhar lá. E eles trabalhavam assim muito na parte das atenções lá mesmo, de alguns grupos de atendimento das pessoas que tomavam alguns remédios à base de plantas e tal e aí ele decidiu, o governo decidiu investir em comprar alguns maquinários pra produzir alguns medicamentos mais e foi bem na época que eu cheguei, inclusive quem montou lá eu e a outra farmacêutica que montamos e botamos pra funcionar inclusive, a parte da coisa. E era muito engraçado porque assim a precariedade não é só da questão da formação, mas assim da tecnologia mínima que seja. As pessoas lá, por exemplo, faziam a tintura de um remédio lá e tinham que fazer o rótulo na mão porque as pessoas não sabiam lidar com o computador, por exemplo, entendeu? Então a primeira mudança foi isso. Eu já comecei a fazer os rótulos no computador pra mudar um pouquinho assim e tal porque antes era na mão mesmo. As pessoas escreviam na mão. Depois pra avançar um pouquinho na tecnologia eu fazia no computador a gente tinha que cortar com a tesoura e entregar. Aí vamos crescer mais um pouco, o que que é: bolamos um rótulo simples, onde se pudesse depois botar no computador, mas que já viesse com cola, então não tinha mais... Adesivo, foi, foi e daí a gente foi avançando assim e botamos os maquinários pra funcionar então aumentamos um pouco a produção e o IEPA trabalhava muito nessa parte de produção mesmo, de tinturas e com o grupo de pessoas que começam a ir lá e se consultar. Nós tínhamos médicos, enfermeiros, que foi contratado, nutricionistas e nós as farmacêuticas. Era eu a mais outra, era eu e mais duas na verdade. Uma era a chefe de lá assim que ficava mais responsável pela parte administrativa mesmo, e aí quando eu cheguei lá em 98 que teve essa produção e a parte de atendimento o medico que atendia as pessoas e começou também a fazer algum controle, controlar diabético, remédio de planta, algumas outras doenças, por exemplo, reumatismo, essas coisas assim, sabe? Porque tem muitas plantas lá que o pessoal usa assim direto popularmente. Tradicionalmente as pessoas usam muito pra controlar esse tipo de doença lá. A gente começou a fazer esse tipo de remédio e o médico começou a receitar, fazer esse acompanhamento das pessoas usarem esse remédio. Em alguns muito certo mesmo, as pessoas controlando mesmo assim e com todo acompanhamento de enfermeiro, a parte nutricional.



R - Terezinha só pra entender assim um pouquinho esse processo assim. O Instituto O IEPA ele tinha médicos, ele estava também trabalhando com pesquisa, na área de plantas medicinais e também estava fazendo atendimento pra população?



R - Sim. Tem essa parte. Não fazia muito a parte da pesquisa. A parte da pesquisa básica tinha muito mais uma base feita. Inclusive foi a pessoa que começou esse trabalho lá em Macapá que chama-se Valdomiro Gomes que era muito engraçado porque esse pesquisador ele foi de Belém pra Macapá para trabalhar essa parte quando praticamente e aí como começou a se instalar lá que começou a explorar o minério de manganês mandaram ele fazer uma outra prospecção lá de outros minérios e ele era biólogo e começou a fazer também uma prospecção de plantas, entendeu? Então ele fez muitos levantamentos de plantas, mas ele não trabalhava assim com essa parte de produção nem nada, mas ele começou a me instigar pra isso. E aí em 91, quando o governo resolveu criar que antes era um museu, tanto que o local era um museu de produtos naturais que chamava assim. Não; como é que era o museu? Tinha um museu arqueológico que até hoje ainda tem mais o museu era o Museu de Plantas Medicinais, era exatamente isso que ele começou a catalogar essas plantas do estado, sabe?

P - Da região.



R - Da região. Aí em 91 que o governador da época resolveu transformar, juntar os dois museus e transformar num instituto de pesquisa porque daí começou a se fazer mesmo sistematizar, a coisa. Aí criou-se um herbário, pra depois se fazer todos os depósitos das coleções, que inclusive já não era mais só ele o Valdomiro. O Valdomiro já tinha um outro biólogo que inclusive que é o presidente do IEPA hoje que fez coletas assim de muitas espécies pra depositar no herbário, fazer a identificação toda dessa parte e começaram também os trabalhos em cima das outras áreas. O IEPA tem coleção, por exemplo, de insetos, começou a trabalhar com a parte de outras coleções: mamíferos, pássaros e aí começou a fazer um trabalho geral. Mas o de plantas era o que ficou de excelência assim. Que ele começou a se destacar nessa parte de plantas por conta dessa catalogação e da ida de um médico pra lá que começou fazer esse atendimento ainda em 91, 92 na época. Isso aí as pessoas começaram a receitar o chá daquela planta, a partir daquelas informações tradicionais. Quando eu fui pra lá em 98 que eu já conhecia o trabalho assim porque eu ia nas férias eu sempre... Em 98 quando eu fui contratada pra lá a gente já estava bem avançado o trabalho nesse sentido porque daí já foi um trabalho que a gente começou a fazer um processo de produção mesmo dos fitoterápicos a partir dessas plantas, entendeu?

P - A sua experiência como técnica de enfermagem lá atrás te ajuda, de alguma maneira, a lidar com as pessoas nesse ambiente ou você não tem o contato direto com o paciente?



R - Bastante porque como a gente faz lá, por exemplo, na produção e as pessoas iam buscar esses remédios na farmácia a gente tem toda a parte de orientação lá na farmácia. Eu agora, por exemplo, aí quando a gente ficou trabalhando em 98 quando foi no mesmo 98, a gente viu a necessidade, por exemplo, que a gente só atendia o pessoal da cidade.E daí a gente “bom; vamos pensar como é que a gente pode trabalhar isso com as comunidades também” Foi aí que surgiu a Farmácia da Terra. Que mesmo assim, “bom; a gente está atendendo só o povo da cidade” porque só que ia lá mesmo era o povo da cidade, da capital e não tem divulgação assim para o povo do interior ir pra lá porque ele não pertence à área da saúde. Só eu praticamente pertencia à área da saúde porque eu era contratada pela Secretaria de Saúde e estava cedida pra lá. e daí a gente elaboramos um projeto.Eu e mais um outro colega também farmacêutico só que ele também era da administração, sabe? Aí a gente bolou um projeto pra começar a trabalhar porque já se pensava fazer isso. A outra colega minha na verdade queria começar a trabalhar nos postos de saúde. E aí eu digo: “pô, legal isso, então vamos ver como é que a gente conseguiu.”

P - E como foi o projeto assim a idéia de expandir pro interior?



R - Foi pela própria necessidade na verdade dos prefeitos mesmo. Eles começaram a procurar muito a gente assim. Então a gente já sabia a gente não sabia como é que a gente podia trabalhar isso com eles assim porque primeiro a gente não era da área da saúde então não podia fazer uma ligação entre as Secretarias, de Saúde. O IEPA ele pertence à Secretaria de Ciência e Tecnologia. E aí vamos fazer um trabalho vamos elaborar um projeto de extensão, vamos ver se a gente consegue um recurso pra gente trabalhar essa expansão do projeto. E a necessidade maior desses locais exatamente isso é que tem muitas pessoas, tem muita planta. Lá as pessoas vivem no meio da mata mesmo praticamente. Sabem, mas não sabem, muitas das vezes, não sabe como porque é muito interessante isso lá que o fato, por exemplo, de chegar esses medicamentos prontos eles começam a perder assim muito a tradição, sabe? Então as curandeiras, os curandeiros, as parteiras, principalmente, elas são muito; elas só fazem mesmo quando as pessoas pedem pra ela porque ela se sente, sabe...Hoje que eu sinto, na verdade é uma coisa que eu sinto, é que, por exemplo, que elas precisam ser mais acionadas.Então as pessoas, por exemplo, acabam ainda é muito fácil chegar, por exemplo, nos postos de saúde muitos remédios alopáticos.Os índios, por exemplo, lá é incrível assim. A gente tem um pacto muito grande assim quando a gente foi visitar os índios porque eles realmente não têm assim a tradição de que os índios usam plantas; não usam, entendeu? Eles usam muito se der pra ele também o remédio da planta pronto.Então como começou muito o trabalho na época da ainda era a FUNAI, mas levavam muitos medicamentos assim prontos, principalmente pra malária, e aí eles acharam que era muito fácil então levaram outros medicamentos. qualquer dor de cabeça, diclofenaco pra ele lá parece que é bala, sabe? Deu dor de cabeça, popularmente conhecida como Cataflan. Eles tomam pra tudo, eu achei aquilo incrível assim, sabe? E a gente começou e eles a necessidade. Eles sabem que eles não podem ficar usando isso. Sabem que eles têm as plantas, tal. E é tanto que os curandeiros também parece as parteiras precisam ser acionados e as pessoas quase não vão mais assim, sabe? As parteiras ainda vão dar trabalho bastante, porque as mulheres do interior ainda são assistidas por parteiras, mas assim da parte só que tem ainda... A minha mãe, por exemplo, os meus sobrinhos todos têm que passar por benzedeiras, essas coisas todas.Lá assim as benzedeiras são pouco acionadas eu diria assim. Que as pessoas querem mais é vir para a cidade, senão sentirem bem vão para o posto de saúde, dão remédio, embora. Daí quando a gente começou a fazer o trabalho de pensar exatamente nisso foi exatamente pra dar essa orientação para as pessoas como é que elas poderiam fazer esse remédio em casa, éter essas plantas, o que que elas podiam trabalhar com essas plantas inclusive. E foi assim era um sucesso porque no primeiro dia as pessoas ficavam assim e quando viam que realmente podiam fazer as coisas assim a gente as oficinas que a gente dava a gente começou a alimentar as pessoas porque as pessoas começaram a ir muito.E assim e o mais engraçado é que realmente as pessoas sabem, mas ficam super tímidas porque tem medo de não ser e realmente têm algumas plantas que são muito parecidas e a gente começou a dar essa orientação. O projeto é exatamente isso.

P - As orientações nos postos de saúde?



R - Nos postos e aí depois nas comunidades.

P - Vocês auxiliam também no plantio, no cultivo dessas plantas?



R - Sim, desde o cultivo.

P - Então a comunidade tem o cultivo e aprende a manipular, seria isso?



R - Exatamente. Desde a parte do cultivo. São cultivadas, e também a gente também orienta na parte das que são retiradas da floresta.Então dá orientação de como é que pode ser utilizada uma casca, que eles usam muita casca também de plantas. Quais são as cascas possíveis de serem usadas, remédios. Então a gente assim tem algumas doenças que eles usavam muitos remédios que eles vinham buscar muito na cidade, principalmente em casos de algumas diarréias específicas, principalmente, aquelas provenientes de contaminação, por exemplo, ameba lá é assim...

P - Básico.



R - Básica. E aí a gente começou lá então tem uma planta lá que a gente já tem. E aí a gente não perdeu esse trabalho das pesquisas.Eu, por exemplo, trabalho, além de fazer esse trabalho com as comunidades eu tenho a parte do controle de qualidade dessa matéria-prima. Então a gente tem já alguns resultados até que a gente teve que fazer os levantamentos na literatura, essas coisas todas. Uma planta chama assim o nome popular dela, que dá em todo estado e que tradicionalmente até a minha mãe eu tomava muito desse chá exatamente pra dor de barriga, que as pessoas realmente sabiam, mas ficavam assim porque iam na cidade tomavam muito remédio, pílula pra diarréia. Lá hoje no IEPA é campeão de vendas, assim pra ameba assim pras coisas, porque as águas de lá não tem como confiar nessa parte. E daí eles começaram a então a voltar usar, eles começaram a voltaram usar bastante. Usar muitos os óleos, a tradição de produção de óleos lá das mulheres é incrível assim, elas sabem. E aí também começou a ficar muito elas começaram a diminuir muito a produção exatamente por conta disso porque começava a se vender na farmácia e aí elas “ah, minha filha”, a resposta, “a gente faz e não consegue vender”, porque vendiam muito nas feiras, tem que dar um jeito e tal. O projeto quando a gente pensou a principio foi pra trabalhar nessa parte das plantas mesmo, dar orientação desse uso das plantas. Então quando a gente fez no final de 98 e a gente submeteu a um edital e daí foi aprovado pra gente foi assim muito legal. Como o resultado só saiu praticamente no final de 99 a gente já tinha escrito e começamos a executar o projeto já desde 98. Então começamos lá pelo Instituto mesmo. Começamos a fazer algumas viagens para o interior pra fazer exatamente quais são as doenças. As doenças praticamente são as mesmas, principalmente essas de vinculação hídrica por conta da falta de saneamento, que não tem. A capital não tem cinco por cento de saneamento imagine o interior.E daí a gente começou a ver exatamente essas plantas muita parte de doenças respiratórias assim por conta assim algumas é muito mais em função das crianças ainda do interior ainda terem o hábito de tomarem banho, sabe, assim, muito mais nos casos de resfriados e doença de pele também que é terrível assim, sabe? Porque, principalmente por conta do contato, os animais fazem parte da família lá, no interior então, tem muito, muito problema de doença de pele assim. E o outro são as doenças tropicais, que a gente não tinham assim como dar uma resposta imediata pra com plantas, malária, por exemplo, e dengue tem em todas as áreas, e aí, mas a gente podia dar alguma orientação das plantas que a gente trabalha. Então a principio foi isso, a gente começou a fazer as oficinas, começamos a implantar as hortas nos locais porque então tem muitas áreas, por exemplo, que são de alagados, que tem muita várzea lá então temos comunidades que seis meses moram no alagado e seis meses a água baixa, então não dá pra fazer os canteiros no chão. Precisava suspender. Então tem que fazer os canteiros suspensos daí o gasto é um pouquinho mais porque tem que comprar uma madeira boa para o cupim não atacar, tal. Levanta-se os canteiros com passarela tudinho então a gente fez isso nessas áreas e onde puder se plantar no chão planta-se no chão. E aí trabalhar mostrar mesmo como é que se pode trabalhar as árvores porque uma das coisas era isso assim não cair, por exemplo, na cultura de que eles poderiam tirar a casca de qualquer jeito.E a gente perdeu muitas árvores assim por conta disso porque eles realmente iam lá e arrancavam de qualquer jeito. E a gente começou a trabalhar isso e isso começou a se popularizar de uma forma que a gente já não tinha mais jeito, porque todo mundo de uma comunidade sabia “a gente quer também” e a gente começou a fazer isso. Começamos primeiro com as prefeituras e a gente começamos com a prefeitura do Oiapoque principalmente, que foi uma das primeiras que acionou a gente pra trabalhar assim. Principalmente, nas questões das áreas indígenas, por isso que a gente foi lá direto, sabe? Porque as áreas indígenas estavam tendo muito problema disso e os índios estavam muito ligados a esses medicamentos (alopáticos?), e aí fomos visitar e é engraçado, porque lá na região do Oiapoque, que fica bem no extremo lá com a Guiana, eles têm ele não sabe que cultura. Tem uns índios que se confundem na cultura. Então alguns, por exemplo, que os índios são os únicos que tem transito livre, que podem atravessar pra Guiana sem pedir passaporte, e aí de vez em quando a gente vem de lá eles não sabiam se usavam alguns remédios que eles traziam de lá ou se usavam os alopáticos daqui. Quando a gente foi pra lá que a gente fez um trabalho com eles, nós estamos falando dos índios que estão mais contato, chama-se Cumarumã. Eles ficavam assim super indecisos até que a gente começava a conversar com eles pra fazer de novo. E tinha uma outra, uma outra área que são os índios que tiveram contato assim com os humanos muito pouco assim em menos de eu acho que tem menos de 30 anos, sabe? Tanto que ainda tem a língua, são poucos que falam português, tal. Então essa assim foi mais difícil até eu diria porque eles realmente recebiam, não falam o dialeto da outra aldeia que misturou o francês com a língua deles e não entende nenhuma coisa. Eles falam, chama-se, oh, meu Deus, esqueci o nome da coisa que é até a língua deles...

P - Yanomamis?



R - Não. Esses são os Garibis esses da fronteira e esses outros são os; bom, vou lembrar depois. E eles têm uma língua própria, sabe? Então ta até mais difícil se comunicar com eles. E mas nesses dias lá foi muito engraçado porque eles pediram pra reunir com a gente e não tem energia. A energia deles era reservada pra primeira noite a gente se reuniu assim à luz de velas com um monte das autoridades, cacique, alguns levaram as mulheres e tal. Eles estavam realmente querendo dar uma força, tal, que eles tem o pajé que eles chamam lá deles, só que é muito mais específico assim. Mistura inclusive a parte religiosa deles. No nosso caso não. É mais prático ter a planta pra poder eles cultivar. Eles queriam e querem isso, eles queriam na época a gente fez. E aí nessa noite morreu um índio lá, foi muito engraçado, morreu um índio e aí o combustível era pra manter a luz a noite toda, sabe? Na outra noite acesa para os rituais. Eu disse assim “não tem problema de botar...” Não, tinha que ficar claro, sabe, era muito engraçado porque era só para o velório do índio. E aí eles disseram que eles estavam recebendo muitos remédios, mas que estava trazendo alguns problemas que aqui alguns índios sentiam dor de cabeça e eles já queriam tomar o Cataflan e aí era muito complicado.

P - Agora Terezinha, e a história da Fundação quando você tomou conhecimento da Fundação? Você chegou também a conhecer a Fundação através de alguns projetos?



R - Eu conheci a Fundação através de um outro projeto que ela financiou lá para o IEPA, mas assim pelo prêmio, sabe? Que foi um financiamento de projeto que teve antes. Era de pesquisa mesmo que era manter, como é que era o nome do projeto? Era...Era conservação da poupa do cupuaçu, se me lembro bem. Conservação da poupa do cupuaçu em ambiente assim de fazer um processo por meio de pasteurização, não sei, sabe? Pra manter porque era um dos problemas, por exemplo, do cupuaçu desses interiores é isso: se tu não tem um local refrigerado estraga. Aí quando pintou o prêmio aí mandaram pra gente.“Olha, tem um prêmio, tal.” E aí o diretor disse assim: “Por que tu não escreve o projeto” A gente já estava trabalhando já há quatro anos nesse projeto. “Por que que tu não escreve?” “Tá, tudo bem escrever. Muito legal poder participar, vamos ver se a gente tem chance.” Eu acho que tem muitos trabalhos bem legais assim. Só que assim tinha uma coisa do projeto que a gente já estava modificando dessa parte das plantas pra gente começar a estimular esse povo.Porque é aquilo que eu te falei: tem muitas plantas. Tem muitas espécies assim que eles não sabem como trabalhar com elas. Então não é só na parte de plantas medicinais, mas, por exemplo, parte de corantes, por exemplo, tem muita possibilidade. As próprias plantas medicinais, trabalham as plantas aromáticas. Então a gente começou a montar uma cooperativa de mulheres lá isso elas cultivar as plantas aromáticas. Elas começaram a produzir travesseiros aromáticos, bonequinhas aromáticas, saches aromáticos, tal. E depois disso a gente começou a trabalhar também a gente já esta num outro grupo de mulheres também da Ribeirinha lá trabalhando, por exemplo, muito a produção de buriti, elas estão trabalhando com a fibra, óleo de buriti, essas coisas toda.

P - Doce. Tem doce que é muito gostoso.



R - Doce. E a gente está começando a trabalhar com elas agora, mas tudo começou com a Farmácia da Terra.

P - E como que foi assim. Quando você recebeu, você teve conhecimento lá pelo seu colega do prêmio da Fundação vocês já tinham consciência de que o que vocês já estavam fazendo há quatro anos era uma tecnologia social?



R - Não.

P - Como é que foi essa descoberta?



R - Quando a gente ganhou o prêmio.

P - Legal. Legal, legal.



R - Porque a gente realmente de uma coisa assim. Porque até pra mim que trabalhava com isso passei nunca considerei assim pessoalmente se poderia ser realmente uma tecnologia social. e eu mandei em função do contato que eu poderia escrever e tudo mais, mas depois que eu comecei a tomar consciência realmente eu digo, “pô”, foi uma coisa assim que pra mim foi impar.Porque na verdade a gente realmente não esperava porque a gente viu que tinha outros projetos lá assim, mas a gente já estava feliz pela classificação, isso assim já foi... Inclusive a noticia da cidade, a gente foi classificado, consegui classificar o projeto então pra gente a gente já tinha já era. Se a gente ficasse ali já era o suficiente, porque realmente é muito difícil a gente conseguir desenvolver um trabalho assim nesse nível que pudesse chegar, inclusive, a poder concorrer um prêmio.

P - E aí você vai a São Paulo na surpresa? Porque é surpresa.



R - É surpresa foi.

P - E aí você foi a São Paulo?



R - Aí eu fui sim.

P - Conta essa história pra gente?



R - Então: aí quando a gente foi selecionado pra ir pra São Paulo e aí o diretor do instituto foi junto, e aí, mas assim, a gente estava ali também achando que realmente...Porque quando foi apresentado todos, primeiro que uma das coisas assim bem legais pra gente é que a gente sempre trabalhou, a gente nunca teve dinheiro, por exemplo, pra fazer um vídeo, por exemplo como foi feito. A nossa fotografia, até mostro depois pra vocês verem assim, as nossas máquinas eram super simples. Eram máquinas, aquela coisa que a gente tirava das oficinas, a gente vai mostrar depois assim. a gente nunca teve oportunidade de...

P - Registrar.



R - De registrar assim.A gente o projeto quando foi financiado pela FINEP era muita mais pra a gente, por exemplo, uma das coisas importantes que a gente conseguiu pelo projeto da FINEP foi conseguir um carro para o projeto e isso ajudou bastante. Porque quando a gente começou a gente até não trouxe, eu acho que eu tenho ali no computador, assim, a gente ficou no prego, entendeu, na estrada, os carros eram muito velhos, era terrível. E chegar de barco nos locais assim também, e a gente tinha que também se disponibilizar muito para as coisas assim então e ter coragem algumas vezes, porque essas comunidades que eu falei onde é suspensos os canteiros a gente tinha que chegar de barco então... E depende muito de maré, por exemplo, então assim aquilo tudo veio na minha cabeça, porque como é que é que poderia considerar. Por exemplo, pra eu chegar numa comunidade que a gente instalou um projeto chamado Limão do (Curuá?), por exemplo, a gente tinha que esperar a maré subir pra ir e sair de lá quando a maré também estivesse em cima. Então a gente tinha que, obrigatoriamente, mesmo que eu fosse fazer só uma visita eu tinha que ficar 12 horas, 18 horas porque tem que esperar a maré subir e descer, sabe? Então esse tipo de coisa pra gente e várias vezes o barco quase vira, essas coisas toda assim. Então pra mim... E os carros pregados no meio da estrada assim. Não é só o medo de animal, é o medo de mosquito mesmo. a gente parava às vezes tem horas assim que “onde é que nós estamos?” “Nós estamos aqui em tal local.” Porque dá malária. Sabe? E a gente sabia que a gente estava correndo assim. Foi muito gratificante. Essa viagem, por exemplo, de ir lá para os índios, lá para a aldeia dos índios, foi assim uma das mais aventureiras possíveis. Quando a água está no período baixo a gente chama nos primeiros meses, ela fica alta, as cheias, o período das cheias, e mas não tem, por exemplo, muito. Pode andar em alguns locais assim super livres, com voadeiras, aqueles barquinhos. Não tem risco de bater em pedras, essas coisas todas, mas quando elas baixam não tem só o risco das pedras, por exemplo, lá na aldeia dos índios tem o risco dos jacarés que é proibido caçar jacarés, então jacaré cada monstro assim e a gente várias vezes atropelava os jacarés e numa hora dessas o barco quase vira perto do jacaré. Olha, eu nunca tive tanto medo Porque das outras vezes se bater em pedra, de repente, eu acho que não teria tanto. Mas eu acho que num jacaré eu estava assim apavorada. E era muito porque em alguns locais eram estreitos e os bichos estavam lá a gente via assim eles atravessando, sabe? E aí nessa assim tinha que atravessar mesmo.

P - E Terezinha nesse contexto aí de toda essa dificuldade, de locomoção, tal e vocês estarem reestruturando o Farmácia da Terra e ter a noticia que vocês vão participar do evento, da premiação, como que foi isso assim o momento?



R - Ah, foi ótimo. Rendeu uns bons bares.

P - Conta pra gente?



R - Em comemoração lá, porque na verdade, por exemplo, não só para o presidente do Instituto, que na verdade tinha mudado na época, mas para o próprio governo assim. Porque a gente também lá por ser um estado a gente sempre tem essa varia, essa mudança de governo e tinha mudado o governo. a gente tinha realizado no governo anterior que é esse que está agora, que está passando pela reeleição ou não, não sei, e a gente tinha realizado o projeto e estava continuando no outro e assim ele assim disse que ia continuar dando todo o apoio para o projeto, tal e foi bem no inicio do governo do outro assim e a gente não sabia direito como que ia ser , mesmo que ele falasse, a gente não sabia como era. Como era do governo anterior que tinha sido realizado o maior tempo e o governo anterior deu muito apoio e foi uma coisa que...E a gente não sabia como é que ia ser nesse outro.

P - Essa reação.



R - A reação dele. Então pra gente foi super importante isso. E ele pra ele mais ainda, porque ele viu tanto que ele divulgou mais, a gente ficou assim...

P - Depois que vocês foram premiados?



R - Não. Desde a finalíssima quando falaram que a gente era finalista para o projeto assim mais ainda, a gente ficou assim. E não só pela emoção, eu nunca tinha ganho um prêmio assim, mas, principalmente, do fato do próprio projeto estar representando pra mim aquilo assim porque tudo aquilo que eu falei antes da minha história que eu precisava voltar pra Macapá que eu achava que eu não tinha vindo nesse mundo a passeio e que eu precisava dar uma resposta inclusive para o meu estado, eu não achava, por exemplo, eu nunca achei que eu ia fazer alguma coisa em outro estado. Eu sempre achei que eu ia fazer que eu queria e poderia fazer alguma coisa lá pelo estado do Amapá.E pra mim assim foi uma graça, porque isso me estimulou muito, estimulou muito inclusive a repensar muitas coisas da vida porque, tipo assim, ficar um tempo, de repente pensar outra coisa, porque eu tive experiências de viver em outras cidades que tinham muito mais estrutura.

P - Terezinha depois da premiação assim o que que mudou a Farmácia da Terra, como que vocês começaram até a enxergar o projeto ter sido premiado. O que aconteceu depois da premiação?



R - Porque só pra, antes eu estava falando, por exemplo, que a gente não deixou um registro legal da coisa, então na época para o prêmio tinha que fazer um vídeo, essas coisas todas, e a gente nunca tinha um depoimento assim das pessoas que participaram, o depoimento das pessoas que gravaram com o vídeo então aquilo ficou muito mais registrado pra gente aquilo ali foi muito importante. E aí depois agora da premiação mais ainda, porque, inclusive, possibilitou da gente melhorar a cartilha do projeto, a gente que foi aquilo que eu trouxe já com o próprio dinheiro da premiação. A gente é muito mais procurado hoje inclusive. As pessoas estão pedindo mais até porque sabem que a coisa deu certo muito nas outras, por conta disso e que, por exemplo, existe esse apoio importantíssimo o apoio da Fundação pra gente assim foi muito, muito legal porque a gente não só o contato que a gente teve com a Fundação, inclusive dando a idéia, eu vou mostrar a cartilha de como ela era e como ela está agora, entendeu? As figuras que foram mudadas com própria sugestão inclusive do Fumio lá da Fundação. “Vocês trabalham só com pessoas alfabetizadas?” “Não, não é, muito pelo contrário.” “Então vamos trabalhar as figuras.” E já começa a ter essa concepção.

P - Então houve uma parceria da Fundação?



R - Bastante.

P - Depois?

P - Você tem contato com esses funcionários da Fundação?



R - Tenho.

P - Você poderia falar um pouco de quais você teve contato?



R - Assim na época quem foi bastante lá com a gente foi o Rogério, a gente tem muito contato com ele. Eu mesmo de vez em quando mando me comunico por e-mail com ele. Depois foi a Mércia e agora a Terezinha, que até eu já...Mas o Fumio foi muito ele realmente foi um dos caras que eu adorei, as críticas dele assim de mostrar “olha, por que que não melhora aqui? Está precisando.” Foi quando ele disse: “vocês não trabalham só com alfabetizados.” A cartilha realmente, sabe? Tanto que a cartilha agora tem os desenhos e tal. E a gente sempre tem muito contato com ele, então até pra entrar pra rede de tecnologias sociais (RTS). Ele “olha, vocês precisam entrar pra rede de tecnologia social e tal.” Então o projeto hoje está lá como uma tecnologia social mesmo, e a gente está bem assim empolgado com isso. De certo modo super empolgado, eu estou assim super empolgada e acredito que isso pode gerar muito mais, porque depois disso já propuseram dar mais força pra gente e a gente está sempre disposta mesmo, tem algumas coisas que já foram lá inclusive poder trabalhar com outras tecnologias, premiadas possíveis de serem implantadas lá que a gente sabe que precisa disso. Eles já se propuseram inclusive a levar pra lá. Esse prêmio agora a gente conseguiu divulgar em bastante local. Outros trabalhos lá infelizmente não foram classificados nenhum, mas assim, a gente está bem divulgando lá essa parte agora, que a Fundação possa ter realmente mais inserção lá que a gente acredita que o apoio que nós tivemos eu acho que pode ser dado a outros, e eu acredito realmente que agora nesse próximo prêmio...Eu, pelo menos, já vou em conseqüência do Farmácia da Terra que a gente está trabalhando com algumas comunidades que eu acho que é possível da gente trabalhar, como até conseqüência da tecnologia agora não mais através de mim, mas através dessas outras organizações que estão trabalhando, que os parceiros do Farmácia da Terra vai trabalhar, como tecnologia social. E eu acredito, eu acredito não e eu sei, se a gente não tivesse essas parcerias, principalmente no instituto como o IEPA mesmo sendo de pesquisa é uma coisinha perto dos outros. Isso mesmo que foi um fortalecimento pra gente, se a gente não tivesse ganho esse prêmio eu acho que a gente não poderia ter conseguido outras coisas também assim. Isso não só aumentou o respeito da população em relação ao trabalho do instituto, que o hoje o povo lá pode-se dizer assim que não tem o que falar, dos trabalhos, isso pra gente foi muito bom porque depois da premiação a gente ficou um pouco famoso.

P - Legal.



R - Das pessoas assim perguntarem mesmo. O mais engraçado disso tudo é que teve inclusive outros programas que foram, que registram, essa parte assim que teve a gente pôde falar inclusive num programa nacional, a gente falou no Globo Repórter, por exemplo, sobre o projeto, tal, foi super legal assim. Então esse tipo de coisa assim é que gratifica bastante a gente.Principalmente a mim que até agora não consigo pensar em doutorado, não consigo.

P - É isso que acontece.Mas Terezinha assim como que você avalia o trabalho da Fundação para o país. Você que veio assim sempre batalhou veio lá saiu lá de Macapá teve que buscar universidade fora do estado e teve que ganhar experiência em outras cidades também pensar na sua formação, pensar no país porque você foi envolvida com o movimento estudantil também.



R - Hum, hum.

P - Como que você avalia o trabalho da Fundação no país?



R - Eu acho que, sinceramente, que poderiam ter outras iguais assim pra poder dar essa força pra gente.Porque aquilo que eu falei ainda agora, o trabalho da Fundação não só ajuda nessa parte de fortalecer o trabalho local, mas, por exemplo, pra levar outros tipos de trabalho, principalmente, pra gente que precisa. A Fundação mostrou pra gente com a premiação que existe outros trabalhos que vai solucionar outros problemas nossos lá inclusive, sabe? Que se não fosse através dela não saberia, sabe? Que poderia nós ter uns trabalhos bens legais assim que poderia trabalhar a parte de saneamento rural, por exemplo, entendeu? Por mais que eu fique pesquisando internet isso não é uma coisa que, por exemplo, que me é tão esclarecido como é pelo trabalho da Fundação, principalmente nesse trabalho da premiação que foi mostrado que é possível inclusive ser reimplantado lá no local mesmo que esteja no outro local. A gente mesmo já veio aqui trabalhar a gente já veio fazer uma palestra com o pessoal aqui uma vez que a gente veio aqui começar a trabalhar com um assentamento chamado Cristalina aqui e aqui a gente foi chamado trabalhar e isso pra gente é super importante, porque senão a gente não vai conseguir, por exemplo, nem dar uma solução pra essa parte que precisa mais, e a gente sabe que se não tivesse uma instituição que nem a Fundação a gente não só o governo, por exemplo, já demonstrou que não é possível, o governo do estado, principalmente. Isso não só veio a fortalecer, por exemplo, esses trabalhos, mas também esses movimentos que fazem essas organizações das OnG’s isso. Mas o mais importante pra gente em nível de Amapá é que a gente tem agora uma possibilidade, por exemplo, de dar fazer umas mudanças aplicando algumas tecnologias.È aquilo que eu falei pra ti. A gente já conversou com eles pra poder levar algumas tecnologias que são possíveis de ser reaplicadas lá, principalmente nessa parte de saneamento rural que são possíveis de trabalhar na própria cidade assim e que a gente espera estar implantando isso muito em breve, e que foi pela Fundação porque se não fosse por isso a gente não teria conhecimento, sabe? Lá é muito difícil chegar o esclarecimento para o pessoal da cidade mesmo para o pessoal que tem acesso à internet esse tipo de comunicação. Imagine mais o pessoal do interior que não tem esse tipo de coisa.Então a gente já consegui chegar até eles. O próprio Rogério fez visitas em alguns locais assim e ele mesmo constatou na época a Mércia então pra gente isso é bem importante mesmo, sabe?

P - O que que você aprendeu com a Fundação Banco do Brasil?



R - Que a gente tem que batalhar. Que principalmente que a gente precisa, por exemplo, estar disponível. E que uma das coisas que eu acredito é que realmente a gente não tem que se achar dono de algumas coisas e que essa parte da rentabilidade, que é um dos objetivos do prêmio pra mim é super importante que não só o fato de eu ter o projeto lá em Macapá como ele é possível de ser trabalhado em outros locais, sabe? Eu acho que isso pra mim. Porque até então a gente não conseguia ter essa visão assim de fora, sabe? Então o fato de eu ter vindo hoje aqui dar uma palestra para o pessoal de Cristalina pra fazer um trabalho parecido mesmo que seja uma realidade diferente, sabe, pra mim isso é importante porque a gente não é só importante pra abrir esse leque, mas também pra gente pensar nessa história da globalização. Essa coisa toda de que...Inclusive o teu trabalho pode ser um trabalho que pode ser colocado à disposição de outras pessoas. isso também é bem legal pra mim e outro fato é que, por exemplo, a Fundação ela tem possibilitado não só na parte financeira estimular, dar um estímulo a esse trabalho. Então eu posso, de repente, estimular um trabalho assim e pensar na Fundação como uma possível parceira no futuro. É aquilo que eu acabei falando pra vocês: a gente está trabalhando agora com esse grupo de mulheres então aqui eu pensar no futuro que elas estão desenvolvendo um trabalho lá que está sendo muito legal trabalhar com as fibras, essas coisas todas, e que, de repente, a Fundação pode ser uma super parceira pra isso assim, sabe? E eu acho que ela se mostra assim bem assim. A disponibilidade dela assim pra mim...

P - Legal. Terezinha você pode traduzir a Fundação em algumas palavras?



R - Eu falo pra caramba. Algumas palavras eu acho parceira, sem dúvida nenhuma. Eu tenho muitas palavras, se eu botar aqui eu vou fazer um discurso, mas, principalmente, parceira nessa nossa empreitada eu diria, porque a gente está pra gente a gente faz bem isso; empreitada no sentido de botar a mão na massa. Então, ela realmente ajudou. Bom, eu posso considerar. Ela ajudou muito nesse trabalho mesmo. Então é a nossa parceira e amigo eu posso considerar porque facilitou muito as coisas, no meu trabalho inclusive lá a possibilidade de só o fato de eu ter republicado a cartilha, e dar essa oportunidade porque uma das coisas que as pessoas consideram assim eu tiro pelo meu estado que quem trabalha, por exemplo, com a comunidade não leva muito em consideração mostrar para as pessoas mais carentes a qualidade dos serviços. Então hoje ali tem uma cartilha super bonita, sabe? O público alvo são as pessoas carentes da comunidade. Eu acho que por conta disso se eu não tivesse essa parceria teria até essa amizade mesmo eu nunca tinha conseguido isso. Ia ser muito difícil porque é caro, é um produto caro e eu acho que as comunidades têm todo o direito, não ter todos os direitos, mas também ter esse privilégio também que não só o povo da cidade tem.

P - Terezinha o que que você acha desse trabalho de registro da memória da Fundação de seus 20 anos?



R - Maravilhoso Agora também inclusive eu vou ter alguma coisa pra mostrar para os meus possíveis, eu não sei se eu vou ter neto, eu não tenho filho biológico, eu crio. Eu tenho filhos adotivos então eu vou mostrar para os meus futuros netos, que é através desse trabalho que a gente pode registrar, que se dependesse de mim, por exemplo, eu não tenho registro de infância, por exemplo, em fotografia, mas aí é possível poderia mostrar assim mesmo. Assim não, esse trabalho não. assim como todos os trabalhos de todos os museus que mudam as concepções. Eu acho assim muito importante assim o texto fazer esses registros porque eu, de repente, não posso dizer: “olha, está vendo aqui, não estou mentindo, estou mostrando aqui.” Mesmo que as minhas fotografias se destruam está aqui. Eu sei que isso vai ser um trabalho que vai ser pra vida toda.Minha vida toda pra vida de um monte de gente.

P - E o que que você achou de ter participado dessa entrevista?



R - Emocionante.

P - Ah, legal.



R - Emocionante. Eu nunca tinha participado de uma coisa dessas. Eu acho que a única vez que eu falei assim de frente foi dessa vez que o rapaz foi fazer o vídeo lá para a premiação acho que foi a única vez que eu tive que falar assim...

P - Pra câmera.

P - Cara a cara.



R - Cara a cara.

P - Bom Terezinha a entrevista foi muito bacana e a gente em nome do Museu da Pessoa e também em nome da Fundação Banco do Brasil a gente agradece pela sua participação.



R - Ah, eu agradeço pelo convite e pela oportunidade também de estar aqui.

P - Ah, legal.

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