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História

"A família dá a base, o resto sugamos do mundo"

História de: Érica Ferreira da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Érica conta sobre sua infância, quando morava com os avós em uma casa no Jabaquara. Conta sobre o jardim com frutas e flores e sobre uma época onde o bonde ainda era meio de transporte. Fala sobre algumas dificuldades enfrentadas pela família, sobre a importância da educação e sobre melhorar de vida. Apaixonada por comer e pela área artística, conta um pouco sobre os dois mundos, já que trabalhou com produção artística e é proprietária de um restaurante. 

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História completa

P/1 – A gente começa com você dizendo o seu nome completo, sua data e local de nascimento.

 

R – Meu nome completo é Érica Ferreira da Costa, eu nasci no dia 24 de setembro de 1957, em São Paulo, capital. Urbana.

 

P/1 – Seus pais, qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Henrique da Costa, ele nasceu em Juquiá, que é no Vale do Ribeira. Ele completou oitenta anos este ano, nasceu em 1932. A minha mãe é portuguesa, nasceu em 1934, Leiria, e foi criada em Lisboa, e aos dezenove, vinte anos veio para o Brasil com a mãe, a irmã e o pai. Os meus avós e a minha tia.

 

P/1 – Você se lembra dos seus avós?

 

R – Lembro, eu fui criada pela minha avó. Eu sou a filha mais velha, só tinha minha mãe e a minha tia, então eu fui criada pela minha avó. Fui a primeira, a queridinha, aquela coisa, e logo depois, a diferença com a minha irmã é de um ano e com meu irmão é três anos. Mas eu morei com a minha avó durante uns anos, era perto da minha mãe, do meu pai, mas eu morei com a minha avó. Minha avó morreu quando eu tinha dezoito anos e meu avô morreu no ano 2000. Ele tinha uns oitenta, oitenta e pouquinhos. É uma família que tem longa vida.

 

P/1 – Você disse que morou com a sua avó. Foi a sua primeira infância?

 

R – Foi... Quando é mesmo que começa a primeira infância? Bom, morei com a minha avó até os dezoito anos, quando ela morreu. Assim, dos nove aos dezoito eu morei com ela, na mesma casa que ela, mas antes eu sempre ficava muito com ela. Eu sempre tive uma relação muito especial com a minha avó. Minha avó que me ensinou a costurar, essas coisas domésticas, minha avó que me estimulou a ler. A minha avó não sabia ler, ela foi aprender a ler com cinquenta e cinco anos, sessenta anos, quando meu irmão entrou na escola foi quando ela aprendeu a ler. Então ela estimulava a gente a ler. E ela me ensinou a cozinhar, minha avó era uma exímia cozinheira. E gostar de comer e cozinhar eu aprendi com a minha avó e aí meu pai também gosta, meu pai cozinha até hoje. Agora menos, que tá idoso, mas meu pai e minha avó eles sempre foram bons cozinheiros. E meu pai chegou a ser cozinheiro num hotel lá em Santos, mas avó... Foi a primeira infância. Fiquei com ela até dezoito anos. Quando ela morreu aí eu voltei pra casa dos meus pais.

 

P/1 – Onde era essa casa?

 

R – Lá no Jabaquara. Era uma casa grande, imensa, tinha um quarteirão. Depois que ela morreu a família resolveu vender, construíram quatro sobrados. E era uma casa de esquina, então a gente tinha abacateiro, caramanchão de chuchu, que escondia os ovos de Páscoa, tinha figueira, tinha couve, cenoura, todas essas ervinhas de temperos, a minha avó tinha no fundo. Na frente - a gente não tinha carro - aí tinha era papoulas. Eu adorava aquelas papoulas vermelhas que dava uma vez por ano, as papoulas. Aí claro, quando a família começou a comprar carro aí meu avô arrancou, tirou o jardim da frente e aí viraram duas garagens, aí depois a terceira garagem. E aí só tinha um único coqueiro que ele plantou, que ficou, que eu acho que eu não sei se existe até hoje, mas a casa ficava no meio do terreno. Então, no lado que não batia sol, minha avó plantava violetas. Na minha memória é sempre assim um terreno muito lilás, muito baixo, lilás, porque ali elas floriam maravilhosas. Ali tinha umidade, claridade e sombra e no fundo da casa, aí sim, aí tinha o abacateiro, tinha figueira, que a gente fazia doce de figo, couve, que ela plantava, tinha galinha, coelho. Antigo, né? A rua não era asfaltada e a gente não tinha – isso tudo em São Paulo - a gente não tinha água encanada, água encanada chegou eu devia ter uns sete, oito anos de idade, tinha poço e aí chegou a água. Tinha mamonas, que eu gostava de brincar com estilingue. Quando chegou a água, a gente inviabilizou o poço e o poço virou adega, como um bom português, todo mundo gosta de vinho, né? E um dia a minha avó me pegou, eu tentando colocar meu irmãozinho dentro do balde pra ele descer, pra ver quanto tempo dava pra ele chegar lá embaixo na água, aí foi o dia que eles fecharam o poço. Eu apanhei nesse dia (risos). Mas eu não tinha uma noção de que aquilo era perigoso, eu só queria que meu irmão... Ele era o menor, ele era o único que cabia dentro do balde, era simples assim pra mim. Mas aí fecharam, aí cimentaram, fecharam o poço e aí fizeram uma casinha que essa casinha meio que virou adega, punha uns vinhos lá que eles traziam. Tinha mais alguma coisa... Ah, umas bugigangas do meu avô e aí depois uma parede lá virou a... Ele gostava de pedreiro, marceneiro, ele tinha habilidades manuais, então virou uma parede de materiais. Parecia um museuzinho das coisinhas, com as ferramentas dele, na qual eu mexia sempre, na qual eu apanhava algumas vezes, porque eu tirava do lugar.

 

P/1 – E quais eram as brincadeiras nessa época? 

 

R – Eu não tinha brincadeira de menina, eu nunca gostei de boneca, eu nunca tive muito essa coisa de casinha. Eu tive assim um carrinho e uma bonequinha que eu até gostava assim, mas aí eu já era um pouco mais velha. Mas eu gostava de carrinho de rolimã, de brincar de mamona. Aí, para mim brincar com estilingue era demais, tentar acertar as pessoas, de bicicleta, brincar na rua. Aí fui crescendo, aí minha avó dizia que isso não era comportamento de mocinha. Que as mocinhas tinham que ter... Foi quando ela me ensinou a bordar, me ensinou a costurar, a fazer tricô. Eu lembro que uma vez assim... A gente só viajava no final do ano, no meio do ano ficava os três filhos. Ela ensinou, fazia frio e ela ensinou fazer um tapete de tricô. O meu começou desse tamanho, terminou desse, e eu descobri nessa época que eu não gostava de tricô, mas eu tinha que fazer alguma coisa. Ela era absolutamente disciplinadora, então você tinha horário pras coisas, eu teria que fazer alguma coisa, então eu optei em ler. Foi quando eu descobri que eu gostava de ler e o fato de gostar de ler, eu acho que mudou o meu mundo. Isso eu tinha nove anos, muito influenciada pela minha avó, que não sabia ler. Quando ela começou a ler eu vi o esforço que ela fazia para juntar as palavras, pra tentar compreender. E aí foi quando eu entendi como foi que ela fazia compra, como ela fazia conta, não sabendo ler. Mas sabia fazer contas, não sabia escrever. Eu achava engraçado, eu não conseguia entender. Para mim as duas coisas estavam juntas, saber ler, escrever certo, mas saber fazer contas, você tinha que fazer junto. Foi quando eu entendi que ela – e que ela era uma pessoa especial - ela era boa comerciante, que às vezes eu acho que eu não herdei isso, mas ela era boa comerciante. Ela vendia... A cidade era um lugar longe, não existia metrô. A gente morava a uns seis quarteirões, oito quarteirões do que seria um ponto final para pegar um ônibus que te levava até o bonde, e o bonde te levava até a cidade. O bonde era um lugar chamado primeira sessão, que hoje é a estação Praça da Árvore do metrô. Ele chamava primeira sessão porque dali começavam as sessões, e aí ela me levava e a gente pegava o bonde. Eu adorava andar de bonde, eu lembro, eu tenho direitinho na minha cabeça, o bonde tirou eu tinha uns seis anos, porque eu já sabia ler. Eu aprendi a ler com seis anos. Aí os bondes foram asfaltando. Então a cidade era uma coisa longe. Daí a feira ser no bairro, a gente... Ir à cidade era um “happening”. Ah, esqueci porque eu comecei a falar da cidade. Bom, de qualquer maneira, o bairro era afastado, não tinha essa coisa de hoje. Jabaquara hoje é uma coisa muito mais dentro da cidade, antes era uma coisa afastada. Ah, as ruas não eram asfaltadas. Eu morei lá, eu tinha uns dez anos quando a rua começou a ser asfaltada, antes foram colocados água e esgoto, também não tinha, como eu já disse. Então sair, passear, ir até o centro, a Praça da Sé para mim era uma coisa, levava horas dentro do ônibus, horas pegando o bonde. Eu gostava desse assunto e não era todo dia, era como se fosse um brinde. Ir para Moema não, a casa eles compraram e todo mês tinha que pagar a prestação da casa em Moema, e não tinha essa coisa de você ir lá no banco e pagar. A minha avó pegava o dinheiro, punha na bolsa e a gente pegava o bonde e ia até Moema de bonde, e aí pagava a prestação e aí voltava de bonde. Às vezes voltava pelo centro e ela comprava um doce, porque só podia comer um doce na Dulca, na Doceria Dulca, e às vezes a gente passava no Mappin. Eu adorava! Embaixo do Viaduto do Chá tinha um grupo de teatro de fantoches que as crianças ficavam enquanto os pais faziam compras. Eu não sei se a gente ficava muito tempo, eu não tenho isso na minha memória, mas eu lembro que a gente ficava ali vendo.

 

P/1 – Sozinhos?

 

R – Só os três. Nesse dia ficávamos os três, sem adultos. Tinha supervisores, mas minha mãe e minha avó largava a gente lá pra fazer compras no Mappin. Ou revezavam, levava uma, voltava, porque ia comprar roupa, então não levava os três. A gente devia deixar elas meio loucas, acho que era por isso. Preciso perguntar para minha mãe por que que ela revezava. Às vezes ela não lembra, mas eu lembro direito, eu e os meus irmãos lembramos direito.

 

P/1 – Você disse que a sua avó era boa com comércio. Ela era dona de quê?

 

R – Ah, é verdade! Então, era por isso que eu lembrei da cidade. Ela era boa de comércio, a gente ia até o centro, às vezes na 25 de Março, comprávamos roupas ou tecidos e ela trazia e vendia para a vizinhança. Você não comprava roupa pronta, você comprava uma blusa de lã, mas saias, vestidos, a costureira do bairro fazia. Então ela trazia tecidos, uma espécie de mascate, ela trazia tecidos, vendia, revendia os tecidos, e as costureiras do bairro faziam, faziam os modelos. Aí as costureiras foram caindo em desuso, mas aí ela começou a vender roupa da Ilha da Madeira, roupa de cama, mesa e banho, da Ilha da Madeira. Mas aí a gente já não ia, ia perto, mas ia na Rangel Pestana, era um... Depois que eu fui aprender, na verdade, ele era um grego chamado Constantino, anos depois, assim, o senhor Constantino que importava – não sei qual método, importava esse material, roupa de cama, mesa e banho. Minha mãe tem até hoje toalhas de mesa que são da Ilha da Madeira, que era  famosa por aqueles desenhos, por aqueles bordados, pela cambraia ou pelo tecido. E aí ela revendia esse material e ela sempre... ela era uma pessoa, revendia, às vezes eu brinco, falava que a Avon se inspirou – eu não me lembro de ter essa coisa do Avon, depois é que veio essa coisa de você bater de porta em porta. Ela tinha umas clientes fixas, ela vendia lingerie, vendia meias, vendia cama, mesa e banho, tecidos...

 

P/1 – Você a acompanhava?

 

R – Acompanhava em tudo. Eu era a netinha querida. Eu sofri muito quando ela morreu, mas eu acompanhava em tudo. E eu adorava, adorava o cheiro das coisas, em brincar, dobrar, mostrar, sabe? Eram peças... Eu gostava disso, gostava dessa coisa dela, de ela saber vender. Ficava olhando, eu achava engraçado. Eu não sou boa vendedora, mas ela era uma boa vendedora.

 

P/1 – Você disse que começou a ler aos seis anos. Quando você entrou na escola? E que escola era essa?

 

R – Ah, eu entrei numa escola do bairro, numa escola pública, em 64, era o ano... foi a revolução. Revolução não, foi a ditadura, né, foi a ditadura. Eu lembro dos cavalos, eu lembro direitinho de ver os cavalos. Meu pai era gráfico na época, então ele ficou...  Ele não gosta de falar, porque teve uma noite que ele ficou preso, porque na gráfica caiu muito o trabalho, ele tinha os filhos, mulher, não sei o que, então eles faziam folhetos pros comunistas, escondidos do patrão, e um dia deu a polícia. Mas eu entrei em 64, era uma escola municipal da Vila Babilônia, Escola Municipal da Vila Babilônia. Ainda era uma escola de madeira. Eu separei até esse material, eu tenho uma foto minha sentadinha, com a faixinha, o mapa do Brasil atrás, aqueles retratinhos e eu sentadinha com um lápis, uma coisa, um caderninho assim, e tá escrito isso. E do lado, do outro lado, a foto da escola, que era uma escola de madeira, mas foi o último ano. No ano seguinte a escola já foi pra uma de alvenaria, muito maior, com infraestrutura, tudo, mas eu tenho na memória isso, da escola de madeira lembro direitinho. Lembro do meu primeiro dia de aula e lembro exatamente o que significou quando eu entendi que juntava as palavras. Eu lia tudo. Em seguida eu comecei a ter problemas, foi ler mais, levou ainda uns quatro anos pra eu descobrir que eu precisava usar óculos. Eu lia tudo, tudo. Cerzideira foi a palavra mais difícil que eu li na minha vida. Cerzideira! Ficava na Domingos de Morais, perto do Mcdonalds que tem hoje. Uma cerzideira. Isso eu precisei ir e voltar pra cidade várias vezes pra conseguir ler a palavra inteira. Cerzideira, mas eu li e ler foi a grande mudança da minha vida. Sabe, eu lembro uma vez, meu pai que me ensinou que era “bítous”, que não era “beatles”, porque ele lia, recebia o jornal e... Não recebia jornal, não me lembro, não tinha acho essa coisa de entregar jornal, sei lá, mas eu lembro da Revista Realidade e lembro de abrir a Realidade, estar assim uma página dupla e assim: “Bêatles”. “Pai o que é ‘beatles’?”, eu já sabia da música, mas não sabia o que era os Beatles, aí foi quando eu comecei a entender essa, sabe, que você ouve, que você vê. Eu achei o máximo! Nunca consegui entender gente que não sabe ler, eu sempre sinto uma certa tristeza, porque a vida é outra. E uma vez voltando, eu ia comprar pão e o jornal – isso, meu pai não assinava, fui comprar o jornal, e eu abri o jornal assim, aí passaram dois meninos por mim: “Ah baixinha, não finge que sabe ler”, aí virei um corisco! “Eu sei ler sim, vem ver como eu sei ler!”, fiquei reclamando, mas tudo que caía na mão eu lia, tudo! Até livros que na época você não podia. Tinha uma literatura assim meio que de segunda linha, mas eu peguei uns livros, não tinha ainda noção de sexo, mas eu peguei uns livros. A gente fazia um... sei lá, não sei como aquele livro foi parar nos livros. É uma mulher que escreve literatura... Ela é conhecida até hoje assim, vamos dizer, Anaïs Nin, brasileira, mas ela escrevia uma literatura erótica, que era considerada pornográfica, não me lembro como veio cair nas minhas mãos, mas eu achava tudo interessante.

 

P/1 – Você já era jovenzinha? 

 

R – Ah, eu já tinha uns dez, onze anos quando isso caiu na minha mão. Já tinha uns interesses, sabe, já olhava os meninos, os seios, os peitinhos nascendo, já empinava o corpinho, sabe, já queria… 

 

P/1 – E como foi o primeiro namorado?

 

R – Eu lembro do primeiro beijo, que eu acho que eu tinha uns treze anos, que eu achei nojento. Tem coisa mais nojenta que alguém enfiar a língua na tua boca? Eu não sabia que era isso, minha mãe não tinha me dito. Eu lembro que achei totalmente nojento aquilo. Levei uns dois anos pra repetir de novo. E o primeiro namorado mesmo, aí eu tive um outro namoradinho, que eu nem me lembro do nome, mas ele era muito grande e eu não gostava de ir com ele nos bailinhos, porque ela era muito alto e eu muito baixinha, eu achava ridícula a composição.  Eu não gostava, só ficava sentada, não podia levantar, mas eu não me lembro do nome dele. Mas lembro que ele tinha uma coisa preconceituosa quando ele falou que o Johnny Mathis era gay. Primeiro porque eu não sabia nem… Pra mim isso não era importante e segundo que “Não, porque essa coisa de…”, sabe, era bicha. Eu achei aquilo muito estranho, mas o namoro não foi muito para frente, nem me lembro sei lá quanto tempo foi. Mas aí eu tive um grande namorado, que foi quase meu marido, que é meu amigo até hoje. Ele foi o meu primeiro namorado, primeiro homem, sabe, foi um romance… Aí já tava no colegial, porque na época era ginásio e colégio, né? Nós nos conhecemos, eu tinha dez anos e ele nove. Estudamos juntos na mesma escola, depois no mesmo ginásio, depois no mesmo colegial. E aí ele era romântico, e eu, libriana, tudo achava lindo. Foram nove anos de namoro. Entre namoro, noivado, quase casamento – a gente ia casar, a gente ganhou uma casa, ia casar, mas eu não queria, já queria morar junto. Aí meu pai começou a infernizar “Filha minha não vai morar”. Um mês antes do casamento ele desistiu. Eu fiquei arrasada, mas peguei tudo que era nosso, vendi tudo e fui viajar e não dei nada pra ele. (risos) Essa foi minha grande vingança. A casa, os objetos, distribuí objetos: geladeira pra mãe, a minha irmã que ia casar no ano seguinte... já estava casada, minha irmã acho que já tava casada, coisas pra minha irmã, coisas pra ex-sogra, a moto, a casa, os móveis, não sei o quê, passei tudo nos cobres. Dei um monte de coisa, passei nos cobres, fui viajar, certo? Fui pro Uruguai, fui pra Argentina, fiquei aqui na América Latina. Fui passear, fiquei acho que uns dois meses passeando. Acabou o dinheiro e eu voltei (risos), e fui morar de novo na casa dos meus pais.  Pois é, mas fiquei.

 

P/1 – E essa casa era no Jabaquara?

 

R – Jabaquara, essa casa era no Jabaquara. Essa casa era alugada, minha avó já tinha morrido, né, aí eles compraram um apartamento e deixaram a casa. Quando eles compraram o apartamento eu já tinha aí uns vinte e nove anos de idade. Aí eu falei: “Eu não quero, eu vou ficar aqui”, e aí foi quando eu realmente fui morar sozinha. Eles foram embora, levaram quase… porque né, apartamento novo, compraram um monte de coisa, mas deixaram umas coisas, e aí eu fiquei na casinha, na qual três meses depois eu descobri que o Jabaquara era muito longe, mesmo já tendo o metrô, e que eu queria vir pro lado da civilização, mais perto de cinemas, perto de teatro... Eu estudava no Morumbi, então eu queria ficar mais perto. Aí eu tinha uma amiga, baiana, que morava… Eu já fazia produção, né, de cinema, aí ela mudou, a outra baiana mudou e ficou uma vaga no apartamento. Então eu fui morar na Brigadeiro Luis Antonio, quase esquina com a Alameda Santos. Então eu brincava assim: “Diretamente do subúrbio para o Jardim Paulistano, e fui trabalhar na Editora Abril uma época, e a Editora Abril colocou assim na minha fichinha que eu preenchi, colocou assim: “Ah, mora na Brigadeiro Luis Antonio”, - não me lembro o número - “Ah, Bela Vista?”, falei “Não, querida, pode apagar. Morei no Jabaquara trinta anos da minha vida, agora é Jardim Paulistano”, como se fizesse muita diferença, mas era só pra… postar, guardar.

 

P/1 – Voltando um pouco, seu primeiro trabalho foi…

 

R – Ah, meu primeiro trabalho, na verdade eu gostava de música, sempre gostei, e queria comprar compacto simples, que era assim, juntava os dinheirinhos. Aí então meu primeiro trabalho mesmo, eu fiz uma sociedade com os meus irmãos, juntamos os dinheirinhos, compramos papel e fizemos pipas e quem ia vender era eu, na feira. Mas só tinha feira duas vezes por semana, então a gente só vendia duas vezes por semana. A sociedade durou uns dois meses e aí brigamos, certo? Porque brigamos na hora de comprar, juntamos o dinheiro e na hora que a gente entrou na loja pra comprar o disco, aí não houve um acordo. Meu irmão queria uma coisa, a minha irmã queria outra e eu queria uma terceira. E o dinheiro só dava pra comprar um, então a sociedade terminou ali, naquele dia da discussão. Bom, aí anos depois eu fui trabalhar, quando eu tinha dezoito anos, eu fui trabalhar… A minha mãe ela era enfermeira, ela já aposentou, então ela arrumou um médico psiquiatra que tinha um consultório na Rua das Rosas, na Praça da Árvore. Então eu estudava de manhã no colégio e a tarde ficava nesse consultório como uma secretariazinha, atendendo telefone. Não tinha paciente, tinha dois pacientes na semana inteira, não tinha nada. Eu ficava ali lendo, aí lia os livros que ele tinha. Eu trabalhei uns oito meses no consultório dele. Eu só reclamava porque ele fumava muito e isso me incomodava, mas o resto dos dias eu ficava lá só para atender telefone e marcar consulta. E aí eu lia os livros, tinha Freud, eu lembro, era uma coisa assim… Eu tinha uns dezessete anos, dezesseis pra dezessete anos, porque foi um pouco antes da minha avó morrer, porque o primeiro salário minha avó me fez comprar uma camisa branca nova do colégio. Nunca esqueci, eu fui lá e comprei a minha camisa branca do colégio. Depois eu passei, fiz outras coisas, fui fazendo, eu pingava aqui, aí estudava de noite, passava de manhã. Eu não conseguia me acertar, eu não gostava de nada. Terminei a faculdade acreditando que eu ia ser educadora, porque por todo esse histórico de achar que é importante ler, importante é a educação, eu queria ser educadora.

 

P/1 – Você fez faculdade do quê?

 

R – Eu fiz Educação Artística e depois eu fiz Teatro e Educação. São técnicas de teatro que você usa pra educação. Então eu achava que ia ser educadora e esse namorado começou a trabalhar com produtora. Eu não sabia nem o que era isso e aí eu fui ver um comercial de televisão um dia, num sábado que eu não tinha aula, eu dei aula no Liceu Pasteur um ano, e claro que, recém formada, cabelão, fiscal de praia. Praia, ficava lá o dia inteiro, não sei o quê, e aí cheia de ideias na cabeça, cheia…Imagina, achando… Você sempre acha que vai revolucionar o mundo, né? Eu gritava “Diretas já!”. E aí a escola nada mais é do que assim, queria que os alunos fizessem um teatrinho de final de ano para a apresentação pros pais. Aí me deu uma “Não é isso que eu quero”. Eu vim tentar na Escola Sagarana, eu queria trabalhar na Sagarana, que eu nem sei se existe ainda, mas a Sagarana era uma escola modelo na época, eu acho que existe... é, era uma escola modelo. Eu to te falando uma coisa de trinta anos atrás, era uma escola modelo. Eu fiz, preenchi ficha, tudo, nunca me chamaram. Um ano depois, antes disso, eu fui ver um comercial de televisão e aí eu me encantei, Falei: “É isso que eu quero fazer”. Eu ainda dei aula mais seis meses e no final do ano eu pedi demissão. Dona Francisca, a diretora do Colégio, “Mas como? Por quê?”, uma senhorinha gordinha, atarracadinha, baixinha, do meu tamanho. Eu sempre pensava que eu não queria ficar velha e gordinha daquele jeito, sempre imaginei. Porque ela parecia, andava numa rodinha, eu achava, dentro daqueles corredores daquele colégio. E eu, sem querer, quando eu cheguei no colégio, eu tava tão assustada quanto aquele bando de criancinhas de cinco anos, de quatro anos. E umas senhoras pomposas, de sobrenome e sobrenome, quatrocentonas que davam aulas, chiquérrimas. E eu lá com o cabelão arrepiado, com as saias compridas. E no primeiro dia de aula eu peguei as crianças e dei um passeio pelo colégio, porque eu também não conhecia o colégio, e aí me chamaram atenção: “O que você tá fazendo?”, falei “Ué, vamos conhecer o colégio!”, eu e meus trinta e quatro alunos. Um absurdo, né, você largar trinta e quatro crianças para você formar ou dar as primeiras… Tinha criança que já era Pré II, então elas já tinham passado pelo Pré I, mas eu não tava preparada pra isso. Mas ninguém sabe, né, muito menos os pais, nem eu sabia, mas eu fui junto com elas e aí foi quando eu descobri que a gente tem sim aluno preferido, tem sim. Eu tinha uma japonesinha que chamava Helena, eu nunca esqueci, ela era menorzinha, e tinha um capetinha, chamado Fernando, e uma que chamava Priscila, ruivinha. São os três nomes que ficaram. A Helena, eu ficava com ela no colo o dia inteiro, não podia, mas eu ficava. Ai, porque ela parecia um passarinho, tão pequenininha... O Fernando era um capeta, que me deixava louca, e a Priscila era uma teimosa que um dia falou assim: “É, eu vou embora”, Falei: “Pode ir, pode ir”, aí olho pela janela, a menina tá lá no portão. Tive que descer as escadas feito uma louca, correndo, porque a criança tinha ido embora. Eu mandei embora, ela foi. (risos). Menina do céu, falei “Ih!”. E esse Fernando me deixava louca. E eu fazia igual a eles, de vez em quando eu gritava. Que Psicologia, essa coisa... Elas falavam todas chiques, eu não, eu gritava junto com eles, eu caía no chão junto com eles, eu gostava disso. Mas quanto à filmagem, fiquei louca quando eu vi aquele set de filmagem, que eu nem sabia o que era, eu fiquei cinco horas debaixo de um praticável, que eu nem sabia que era um praticável, que eu chamava de mesinha e era uma cena de um sapato. Era um filme de Vulcabrás, tinham feito e cenografia de uma calçada bem vagabunda, tipo, você vai aprendendo que elas ficam vagabundas, você pode fazer melhor, e passava uma água e era um sapato no chão. Era isso o filme, a parte que eu vi, não sei se ela tinha mais coisa. Jânio Quadros anunciava esse sapato. Vulcabrás, Passo Doble, uma coisa, 241 [752], não sei, acho que tinha um número, não sei, mas era o Jânio Quadros. Mas o dia que filmaram com o Jânio Quadros eu não tava, eu só vi cena de produto, que depois eu fui entender que eles estavam fazendo cena de produto. Tinha um dublê, com uma calça, mostrando o sapato na água, o sapato na calçada. Eu fiquei encantada. Seis meses depois eu ainda fui fazer um estágio na TV Cultura, não me identifiquei assim com a cenografia, com televisão, achava tudo legal, ficava “ah!”, eu achava o máximo, mas eu não era uma criadora, era uma pessoa que executava. Não sou brilhante pra criar, eu sou uma pessoa boa pra executar. E aí eu arrumei um trabalho numa produtora, que eu fiquei um ano. Aí fui trabalhar com desenho animado, que eu fiquei mais um ano e aí finalmente eu fui trabalhar com um cara que tinha uma produtora chamada Faton Filmes, que era uma produtora assim meio chique pra época, de renome, e lá eu fiquei, depois eu passei pra Chroma Filmes, e quando você vê, vinte anos passam, e vinte e nove anos se passaram. As coisas foram mudando, as técnicas foram mudando, certo, a moviola, deixou de existir moviola, o digital apareceu, mas um produtor sempre foi necessário, né, então eu fui fazendo até chegar há dois anos atrás, que foi nessa história de montar o restaurante, que foi uma mudança também, outra mudança, foi meio que voltar às origens, porque eu gosto de comer. Eu não sou gordinha, eu gosto de comer, eu não sou gordinha grátis, eu sou gordinha porque eu como mesmo, eu gosto de comer. Tenho prazer em sentir, gosto do cheiro da comida, gosto de preparar comida, gosto de ficar olhando as coisas dourando, as coisas se modificando, eu não tenho pressa. Claro, num restaurante não é a mesma coisa, mas em casa eu não tenho pressa. Sempre gostei de olhar o forno, de sentir os odores, que lembra a infância, que lembra…

 

P/1 – Sua avó?

 

R – Me lembro muito, as ceias de Natal, os dias… Porque a gente foi, as crianças comiam na copa, não comiam com os adultos. Você só ia comer com os adultos em dias especiais. Dia do seu aniversário, dia de Natal... e minha avó era uma católica fervorosa. Quando chovia tampava os espelhos da casa com lençóis. Dia de Finados não podia ligar rádio nem ver TV, tinha umas coisas assim, que eu tenho, que aos poucos foram, a gente foi estudando, foi crescendo, as coisas... Mas na primeira assim, cinco, seis, enquanto ela podia mandar, tinha que obedecer, era Dia de Finados, Sexta feira santa... Eu entrei num grupo de teatro no ginásio, sempre gostei, apresentava os festivais do colégio. Eu não era boa aluna, mas eu era super conhecida, então o castigo era, se eu não estudasse eu não poderia participar dos grupos extracurriculares. Teve uma Sexta Feira Santa que tinha um ensaio de uma peça - era o Leão Lobo que dirigia, eu estudei com o Leão Lobo, ele tava à frente - eu tava no ginásio, ele já no colegial e a minha avó não deixou eu ir no ensaio. “Não! Sexta Feira Santa não se sai de casa. Não, imagina!”. Eu lembro uma vez que eu saí, anos depois, minha avó já tinha morrido, sei lá, até esqueci da Sexta Feira Santa, fui namorar, aí depois fiquei pensando: “Ai meu Deus, será que Deus vai castigar? Porque eu fui namorar na Sexta Feira Santa. Ai que pecado!” (risos). E aí você vai descobrindo quanto mais você… Que tem os dois lados. Você pode ler, ler, ler muito, você pode pegar os maiores historiadores e pesquisadores, o que for, mas vai ter sempre alguém que vai dizer assim: “É pecado sim!”. Aí vai depender de você, né? 

 

P/1 – Como era esse colégio? O colégio não era no Jabaquara?

 

R – O colégio era o que hoje chama estação Conceição do metrô. Era da época dos militares. Era Geisel, não Figueiredo… Geisel o presidente. Ernesto Geisel, e era um colégio que na época chamava de pluricurricular. A ideia deles – pra ser um colégio público, era um colégio ótimo... A gente tinha aula de Filosofia, tinha OSPB [Organização Social e Política do Brasil], mas também tinha aula de Filosofia. A gente tinha os professores de Literatura, de Matemática, de Química, tinha Desenho, tinha Desenho Industrial, era… Eu fico impressionada. Hoje eu li que três por cento, se é que eu tenho isso certo na memória, dos universitários são semianalfabetos. Lá não tinha isso e tinha uma certa rigidez mesmo. Eu lembro que eu estudava com dois irmãos que eram gêmeos, e tinha um que tinha mania de ficar assim na cadeira, sabe, camisa aberta. Imagina! O professor de Geografia, que eu não me lembro do nome dele, entrava, chamava os alunos de senhores e senhoras, e pedia postura. Hoje quando eu vejo que professor apanha de aluno, aluno fuma dentro do colégio… Não tinha isso! Jabaquara era periferia, mas tinha uma disciplina que eu não me arrependo não, não tenho o menor trauma, não fui... eu não era uma aluna brilhante, mas eu não era a pior, eu era conhecida, mas eu obedecia. Não tinha nada assim que… A única coisa quando eles começaram a reclamar das nossas saias, teve um dia que eu fiz um movimento que eu abaixei as barras das saias de todas as minhas amiguinhas, chegamos com as saias aqui em baixo, que nem evangélicas, que hoje não existe isso, naquela época não existia. Chegamos com a saias assim, aí fomos chamadas à diretora, que deu uma dura e aí eu tinha um professor de Química chamado Oswaldo, que dizia que eu era líder do levante. Mas é que a meninada… Estudava muito japonês naquele colégio, o bairro do Jabaquara ali, tem muita colônia japonesa, ainda tem. Eu não vou muito, mas tem gente que eu conheço que mora no Aeroporto, sei lá, tem uns cinco anos que eu passei na porta da minha antiga casa, talvez mais até, mas não tinha essa de levante, nada. Eu só tinha coisa que eu achava um pouco ridícula demais aí queria ir lá dar o meu sinal de protesto, mas não era... nunca fui articulada, nunca me envolvi. Entrei no Centro Acadêmico porque eu gostava – era Centro Acadêmico?, não, tinha outro nome, Centro Acadêmico é faculdade, sei lá - Eu gostava mesmo era de ficar conversando e gostava de organizar os desfiles, tinha desfile sei lá do que, tinha festival de música, festival de teatro, jogos. Eu gostava dessa parte de organizar, de fazer parte da turma do colégio nesse sentido. 

 

P/1 – No colégio vocês saiam, iam pra onde?

 

R – Ibirapuera.

 

P/1 – Quais eram os programas?

 

R – Os programas? Ibirapuera. A maioria das vezes a gente ia pro Parque do Ibirapuera. Primeiro ele é imenso, depois ele vai ficando menor conforme você vai crescendo, né? A gente ia pro Parque do Ibirapuera, isso com os amigos. Programas que a escola nos levava, aí a gente ia pra museus, assim, Museu do Ipiranga. A gente ia muito no Museu do Ipiranga, que eu lembro. Aí Museu da Arte Sacra, que eles levavam a gente, teatro... a escola proporcionava, levava, pagava o ônibus. Pelo menos uma vez a cada quinze dias a gente tinha uma atividade extra-colégio. Foi um bom colégio, não sei ainda hoje como é que é, mas na época foi um bom colégio. Eu tive assim uns professores que marcaram a minha vida.

 

P/2 – Deixa eu voltar um pouquinho. Por que você foi morar com sua avó?

 

R – Porque eu não conseguia me entender com meu pai. É engraçado, né, depois que você fica velha você começa a perceber que…

 

P/2 – Quantos anos você tinha?

 

R – Tinha dezoito... Não, eu fui morar com a minha avó eu tinha uns dez, onze e voltei a morar com meus pais depois que ela morreu. Aí, na verdade, meu pai é um alcoólatra irrecuperável. Ele não é mais porque tá velho, mas meu pai era alcoólatra. Isso eu tinha uma dificuldade muito grande de digerir.

 

P/2 – Mas é por isso que você foi pra lá com dez anos?

 

R – Basicamente foi e foi a psicóloga do colégio que sugeriu, porque eu comecei muito mal na escola e eu levei anos. Eu comecei a fazer terapia com dezoito anos. A primeira vez eu parei acho que eu tinha uns vinte e oito, trinta anos. Eu fiz direto dez anos de terapia, até entender, começar… Hoje sou super amiga do meu pai.

 

P/2 – Mas como é que foi a decisão? A psicóloga da escola falou?

 

R – Chamou minha avó e minha mãe, e aí minha mãe e minha avó acharam melhor. Não era longe, era na mesma rua que morávamos, mas aí pra eu ficar lá com eles.

 

P/2 – E como é que sua mãe lidava com o alcoolismo dele? 

 

R – Chorava, e aí quando ela começou a trabalhar ela ficou mais independente, mas antes ela chorava. Eles tinham brigas, eles brigavam muito e isso me incomodava. Sempre me incomodou gente que briga muito, sabe? O meu avô e minha avó não brigavam, tinham lá as discussões deles, mas não tinham uma coisa… certo? Aí quando eu fiz dezoito anos, eles fizeram uma festa pra mim, meu pai tava internado, e aí depois eu descobri, sei lá, a festa foi num sábado e meu pai ficou com alta na sexta ou na quinta, mas minha mãe preferiu não trazer, porque tinha bebida alcoólica no meu aniversário. E aí foi um mix pra mim, de sentimento, “Pô, meu pai poderia ter participado”. Meu pai não tá em foto nenhuma minha quando eu fiz dezoito anos de idade, porque ele não tava lá. Tá toda a família, menos o meu pai. E aí eu me sentia culpada, porque tinha hora que eu tinha vergonha dele. Então isso foram anos de você lidar com isso. Eu, primeira vez que eu comemorei alguma coisa, eu tinha quase trinta anos, porque eu também não bebia.

 

P/2 – E seus irmãos, como é que ficavam nessa história? Só você foi pra sua avó?

 

R – Só eu fui pra minha avó. Sabe que eu não lembro direito, assim, como que a minha irmã e o meu irmão se comportavam? Talvez… O Éder era uma pessoa, até hoje o Éder é uma pessoa mais reticente, ele não gosta muito de falar do passado, ele tem uma coisa assim com a minha avó. A minha avó veio de uma aldeia, gente, Imagina isso, nasceu em 1914, meu avô nasceu em 1912, então ela tinha muita coisa dessas de falta de informação, da ignorância, e eles tinham muito medo que os netos – a gente não tinha o menor acesso a drogas - mas eles tinham muito medo desse aspecto. Minha mãe sempre deixou muito claro, inclusive fumar. Eu não fumo, eu não suporto cigarro, nem eu nem minha irmã. Meu irmão já fumou, mas parou. A Edna, você sabe que eu acho que a Edna é que mais digeriu melhor esse assunto? Ela tinha um mundo tão particular dela, ela sempre gostou de desenhar, que Edna nunca fez terapia. Eu é que fiquei mais incomodada, sempre muito mais incomodada. E acho que meu irmão também, mas como a minha avó tinha essa coisa da ignorância, então homem não beija… Ela não deixava meu irmão ser carinhoso com minha mãe, por exemplo, e meu irmão é muito grudado com a minha mãe, sempre foi, sabe?  O filho dele é muito grudado com a mãe dele, que é a minha cunhada... sabe essa coisa? Os homens da minha família assim sempre foram um pouco bunda moles, as mulheres é que mandavam. Sempre foram um pouco meio uns frouxos, sabe? O meu irmão é um bobão. Eu adoro, eu amo o meu irmão, mas ele é um chato de galocha. Ex-policial aposentado, vocês acham que…? É um chato, agora a Edna não. A minha melhor relação é com a minha irmã mesmo. Minha irmã mora em Ribeirão, tem filhos, tem netos, vai salvar o planeta, trabalha com políticas ambientais, socioeconômicas, sabe, a Edna tava na Rio+20. A Edna, para mim, eu adoro a minha irmã, eu adoro. Mas esse período, eu acho que eu tava tão preocupada comigo mesma que eu não me lembro direito da relação dos meus irmãos, mas eles ficaram e não sei se isso fez alguma coisa diferente pra minha irmã ou não, eu nunca perguntei se isso mudou. É como se eu fosse um pouco a protegida, né?

 

P/2 – Mas quem que exercia autoridade na casa?

 

R – Avó.

 

P/2 – Era sua avó. Nem seu pai nem sua mãe?

 

R – Avó, e minha avó exercia autoridade não só na casa dela como na casa da minha mãe. E aí meu pai, quando tomava as… Enquanto ele tinha dinheiro ele bebia uísque. Depois o dinheiro foi diminuindo, ele começou beber cachaça boa, depois já bebia cachaça vagabunda, mas aí quando ele bebia era quando ele falava. Claro, ele precisava dessa – você vai entender isso depois, né?, ele precisava dessa necessidade pra beber, pra quebrar essa barreira dele, dele falar que não queria que ela mandasse, que ela mandava na casa dela, não na dele. Sabe essas? Tanto é que quando ele comprou o apartamento, pra ele foi muito importante. Eu sentia, eu já era adulta, lógico, então eu senti a importância disso, dele precisar mostrar que ele também é o homem, sabe, o homem. E aí engraçado que a gente também, o que magoa, passa uns anos você já deixa. Eu não tenho a menor mágoa por ele, pelo contrário, eu tenho um carinho por ele e eu gosto de escutar as histórias dele, eu gosto de ver ele falar.

 

P/2 – O que ele gostava de fazer?

 

R – Dançar e ouvir música, ler jornal, passear com a gente. Imagine, o que a gente passeava no zoológico. Eu achei fotos da gente, porque o que a gente ia naquele zoológico era impressionante. Claro, era no Jabaquara, era fácil de ir. O Instituto Botânico, ele sempre gostou de plantas, ele me mostrava as plantas, a ida era sempre maravilhosa. A volta, que ele já voltava, já parava num botequim e aí ele comprava a gente. Então sei lá, domingo, o almoço tá pronto, “Érica, vai buscar seu pai”, tava no botequim da rua jogando um bilharzinho, tomando uma cervejinha já há umas quatro horas lá dentro, quando chegava já chegava alegre. Aí minha mãe já brigava e a gente gostava porque quando ia lá ele dava doce. Claro, ele comprava a gente.

 

P/1 – E a sua mãe? A reação?

 

R – A mãe, ela... a mãe era uma pessoa muito nervosa. Eu sempre digo que tem um inferno especial pras mães. A minha mãe, olha, com o passar dos anos ela foi melhorando, e quando ela começou trabalhar ela melhorou. A minha mãe era uma histérica.

 

P/1 – Ela trabalhava com que?

 

R – Ela era enfermeira. Ela foi estudar, ela sempre quis ser enfermeira.

 

P/1 – Ah, você falou.

 

R – Mas o meu avô não deixava. Aí depois que ela casou, ela foi estudar. Quando eu entrei, eu tinha dez anos, quando eu entrei no ginásio a minha mãe foi estudar, voltou pra escola e foi quando a minha avó aprendeu a ler. Então as mulheres, e os homens não. O meu avô continuava, mas a minha mãe era um pouco histérica. Ela casou muito jovem, ela amava o meu pai, mas também pra se liberar do meu avô, porque se minha avó já trazia ali no cortado, a minha mãe, nossa! O meu avô não deixava. Essas coisas que a gente vê no Gabriela hoje, olha, eu já liguei pra minha mãe, ela dormindo, falei: “Mãe, é igual o vô fazia com você”, sabe, essa coisa de ficar no portão, de não poder beijar, de não poder testar, sabe, não existia isso. E aí um pouco pra se livrar dessa garra do meu avô, essa coisa, essa mão, que meu avô tinha um domínio sobre ela, queria saber tudo, tanto quando a minha avó morre, eu já comecei a namorar com o Edson depois, que foi esse grande amor. E aí um dia meu avô tá em casa, eu to na casa dos meus pais e meu avô sentado à mesa, fala: “Ninguém vai me apresentar…” – sotaque português, né? “Ninguém vai me apresentar esse rapaz?”, ele dizia. E eu gostava de perturbá-lo perguntando assim: “Ô vô, quantos anos o senhor tá aqui no Brasil?”, “Já cá estou há cinquenta e quatro anos e perdi todo o sotaque”, Adorava ouvir isso (risos), “Já cá estou há cinquenta e cinco anos, mas não tenho sotaque nenhum”. E então a mãe casou, mas no começo ela era meio histérica, sabe? Eu brinco, falo que tem um inferno especial pras mães, porque elas são meio loucas, elas amam intensamente, elas sofrem. Ai, é um sofrimento, mas a mãe estuda, passa, e começa a trabalhar em hospital. Aí a vida dela dá uma… Mas antes disso ela sofre muito, ela tem gastrite, ela opera gastrite, porque ela, claro, né, não conseguia digerir, não conseguia essa coisa, essa aflição do pai, essa pressão, essa coisa. Mas aí quando ela começou a trabalhar, minha mãe dirige, minha mãe me leva no Makro até hoje. Ela me leva no Makro, eu não deixo ela pegar… é uma senhora de setenta e seis anos, mas toda… Claro que eu peguei outro dia a mãe dirigindo assim: Ela, o volante, entre o que tem aqui na frente do carro e o coisa do volante, ela olhava por ali. Ai falei: “Mãe, como é isso?”, “Ah, é mais fácil”, falei: “Mãe, pelo amor de Deus!” (risos), ela tava olhando, sabe, entre o volante e aqui assim. Disse que era mais fácil, né, mas ela… E a minha tia, que era uma mulher tão evoluída pra época, namorou com homem divorciado, não sei o que, hoje ela, sabe, como se tivesse uma regressão. A mãe foi e a minha tia… Sei lá, eu sinto uma regressão, ela vai fazer aniversário semana que vem. Ela é minha madrinha, mas eu sinto uma regressão na pessoa, na própria. Ela sempre foi uma mulher vaidosa. Então tá aposentada há anos, sozinha, mas disse que gosta de ficar sozinha, aí o cachorro morreu, eu arrumei mais dez cachorros, ela não quis, zero de vaidade que achava esquisito. Engraçado, eu lembro, a minha tia tinha chapéu. Eu gosto de chapéu até hoje. A família teve uma importância muito forte na minha vida, e eu acho que a família é uma estrutura. A minha família era complicada, mas não era desestruturada como muitas que você vê por aí. Mas então tinha essas coisas que ficaram maravilhosas assim. A organização do guarda-roupa, o fato de ela separar a roupas de inverno, de verão, eu adorava.

 

P/1 – A tia?

 

R – A minha tia. As caixas... que ela tinha diversos chapéus.

 

P/1 – Onde morava a tia?

 

R – Com a minha avó. Ela era solteira.

 

P/1 – Com você!

 

R – Eu dormia no mesmo quarto que ela. Eu adorava as bolsas, sapatos... Ela saía e eu ficava vestindo as peças dela, mas ela foi perdendo, tanto que ela me doou um monte de lenços que ela tinha, que ela não usa mais, mas ela, não sei o que que acontece, preciso saber quando tiver setenta e oito anos, saber o que que acontece que você vai perdendo esse encanto, essa… Eu vejo vários senhores e senhoras, hoje cruzei com um lá na Vila Madalena, ele tem oitenta e dois anos, é de uma elegância! Não é porque ele é… Me cumprimentou, cumprimentou minha amiga, que eu tava conversando, mora no mesmo prédio que ela, e ele assim – nós três estávamos de chapéu, e ele assim: “Eu to usando pra cobrir minha careca que tá frio”, ele dizia mas não é. Então a tia foi perdendo um pouco, fica vendo uns programas de televisão da TV aberta, “Ai porque todo mundo mata todo mundo”, sabe essas coisas? Sei lá, que espreme e sai sangue, lembra? Tinha uma época tinha um jornal que a gente dizia isso, espreme e sai sangue. Então não sei por que se regride, não sei dizer, não sei. Também trabalho bastante, mas fico pensando... Eu penso muito nisso, pessoas que foram importantíssimas na minha infância, que mudaram a minha forma de ver a vida ou me mostraram uma outra forma.

 

P/1 – Teve algum homem que fez você mudar ou que teve alguma importância na sua vida?

 

R – O Edson. O Edson me trouxe uma cultura que eu não tinha. O Edson sim, ele, nossa, ele abriu meu universo. A gente ia no cinema quase todos os dias. O Edson me mostrou esse trabalho de produção, e esse trabalho de produção me trouxe uma coisa, um refinamento, um aprendizado de refinamento cultural, alimentar. Porque a base a família deu, o restante você tem que ir sugando do mundo, mas o Edson me deu isso sim. Me apresentou esse outro universo e que eu fui, ele abriu a porta e eu fui lá, porque a minha ânsia de querer aprender era tão grande, e é até hoje, e ele me mostrou. Culturalmente ele me apresentou livros, atores, filmes, diretores. Teatro eu já tinha isso, porque eu queria ser atriz de teatro, eu já gostava, então eu já conhecia as peças. O básico de teatro eu já conhecia, mas ele que veio me mostrar o cinema, não o cinema publicitário, mas esse… Eu lembro que quando o Chaplin morreu, a gente ficou onde não existe mais, na Brigadeiro Luis Antonio, que acho que agora é uma igreja evangélica, tinha um cinema numa galeria lá no fundo, quase esquina com a Paulista. Tem um posto de gasolina que agora, se eu não me engano, é um Banco Itaú, e tinha uma coisa lá no fundo que tinha até a igreja do Tim Maia, que várias vezes eu cruzei com o Tim Maia ali, que era uma igreja que só usavam branco, uma coisa, uma seita do Tim Maia, e lá no fundo tinha um cinema. Naquele cinema, quando o Chaplin morreu, eles fizeram a retrospectiva completa das obras de Chaplin. Eu lembro que todos os dias eu fui ao cinema.

 

P/1 – Com o Edson?

 

R – Com o Edson. Todos os dias a gente foi ao cinema assistir assim os filmes do Chaplin, todos. Antes de ser o Chaplin, né, porque tem um período que ele vivia, todos, tudo que eu não tinha visto. O Edson, por exemplo, me apresentou Buster Keaton, que era um antecessor do Chaplin, que eu não conhecia, então me apresentou a Literatura. O Machado de Assis, que é meu escritor preferido até hoje, não foi ele, foi meu professor de Português, mas ele sempre me estimulou, me deu vários livros.

 

P/1 – Ele é mais velho?

 

R – Ele é mais novo que eu um ano. Mas ele sempre desenhou muito bem, uma coisa que eu não sei fazer. Eu não tenho num papel o tridimensional. Mas me mostrou escultura. Eu diria que ele me deu uma carga cultural, pelo fato de ele ser muito tímido, eu acredito que ele sempre foi voltado... Ele é muito, até hoje ele é muito tímido e eu brinco e falo assim: “Vem pra Terra!”. Imagina, se eu acho que ele vem pra Terra, imagine eu, né? Imagine onde ele deve tá. Aí ele que colocou, ele que me mostrou esse outro universo, e aí trabalhando com as outras pessoas... O mundo da Publicidade, quando eu comecei, era um mundo farto, tinha muito dinheiro, não é que nem é hoje. Tinha muito dinheiro assim, você ia no Santa Luzia, um mercado que eu nunca tinha conhecido, e comprava foie gras pra servir pro cliente. Eu gostava de comer, mas eu tinha um conhecimento da cozinha regional, da cozinha simples, da cozinha do dia a dia, da cozinha de casa. A cozinha, o deslumbramento do que seria uma grande cozinha, do que era os melhores restaurantes, isso foi a Publicidade que me trouxe. E aí claro, por exemplo, conhecer o Tatini, conhecer o Don Curro, to falando de restaurantes que tem trinta anos de história hoje, mas que na época, sabe? Sentir o prazer de outras comidas... O Edson, eu já gostava, mas o Edson e a Publicidade foram pessoas que... foram situações, momentos, coisas que se abriram e que eu pude aproveitar, e que eu me entreguei totalmente. E no começo você tem que tomar muito cuidado, né, porque eu me deixei envolver, eu fui, eu me deixei levar. Então você já começa a valorizar outras coisas, já começa a valorizar um figurino melhor, um tênis melhor, umas joias. Você já começa a ter outras necessidades que eu não tinha. Mas eu, nos meus primeiros três anos de produção, nossa, eu fiquei, eu era um poço de… Eu devia ser uma pentelha, eu fiquei absolutamente deslumbrada, “Nossa!”. Eu comecei a trocar os móveis da casa dos meus pais, eu comecei a trocar a comida na casa dos meus pais, mas eu comecei a ganhar mais que meu pai. Aí um dia meu pai apareceu na produtora, porque meu pai ficou na dúvida. Não se falava em garota de programa, mas meu pai falou: “Claro, essa menina tá ficando puta, porque não é possível. De onde ela arruma tanto dinheiro?” Claro, eu trabalhava que nem uma idiota, sete dias na semana, mas ganhava dinheiro. E olha que eu comecei a ganhar mais dinheiro que todos ali naquela casa, naquele momento. Mas aí ela foi lá, conheceu, minha mãe foi, viu como é que era e esse auge, isso foi logo nos primeiros dez anos de trabalho. Depois esse auge, sabe, essa coisa de você ir comprar comida - tinha um restaurante de peixe ali na Treze de Maio, que ainda existe, eu lembro que eu… Não existia uma limitação de set. Hoje existe pessoas especializadas que trazem os pratos, os talheres, as comidas, que fica quentinha, não sei o que, a produção é que fazia. Tinha um restaurante de peixe na Treze de Maio, que eu esqueci o nome, e eu lembro que uma vez eu servi um almoço pra equipe à base de salmão, quando não era moda. Porque depois tem uma época que vira moda que de custar cem reais o quilo, passa a custar vinte, aí fica mais… Mas não era moda. Servi e tudo. Imagina, Champagne, bebida, esses outros. Aí quando veio Sarney, que abre as portas, que pode importar tudo, que em cada esquina você acha tudo importado, aí eu afogava de comer e beber.

 

P/1 – E como é que era a relação com os seus pais diante dessa diferença assim?

 

R – Eu gostava de voltar pra minha casa, eu gostava. Sabe, eu gostava de deitar, eu sabia da… eu achava que era como um filme mesmo. Eu via aquilo, mas aquilo não me pertencia. Eu gostava, achava bonito ir na casa do meu chefe, adorava aquela elegância toda, mas no fundo, nem é tão no fundo, é bem no raso, eu gostava de voltar pra minha casa, de sentir o cheiro da minha casa, de sentir o cheiro da comida, sabe, da copa e da cozinha não terem muito espaço, mas eu gostava disso. E o deslumbramento era mais no figurino e no comer, do que no status de objetos. Sabe quando você descobre que existem outras marcas de tênis invés de só o Conga, que não era… O All Star e que você pode ficar mais confortável? Quando eu aprendi que eu poderia ter o que era de conforto, o que era confortável, e que era mais caro, mas era mais confortável e mais saudável pra mim, e eu poderia aplicar o dinheiro em outras coisas, foi quando eu comecei a comprar livros. Eu falei: “Eu quero livros. Livros eu quero” Eu comprei livros, livros, livros, tem livros meus na casa da minha mãe. Eu comprei livros, porque livro é uma coisa que eu gostava de folhear, então eu gostava do cheiro, gostava de sentir o pai e a mãe em casa, gostava… Era tudo menor, mas eu sentia um carinho, assim, e eu sentia… E eles começaram a me respeitar mais, eles, eu diria meu pai, e acho que no fundo eu comecei a entender essa relação do meu pai, comecei a conversar muito mais com ele, a terapia deve ter ajudado com certeza, muito. Aí quando eu parei a primeira vez, aí voltei anos depois. Eu lembro que eu parei quando o Woody Allen parou de fazer terapia, eu brinco e falo assim: “Ele parou, por que eu não vou parar? Chega, não vou pagar mais”

 

P/1 – E como se deu essa necessidade de procurar terapia?

 

R – A minha mãe trabalhava com médico psiquiatra. Foi ela que me encaminhou a primeira vez, que ela achava que eu andava muito triste, então ela que teve essa observação. Então eu comecei a fazer no consultório que ela trabalhava, ela trabalhava no Hospital Psiquiátrico e tinha os consultórios. Aí depois eu já quis outro caminho, aí fui me informar, fui saber o que que era, então eu acho que todo mundo devia fazer um pouco de terapia na vida. Eu sou super a favor. Aí quando eu vejo minhas amigas assim: “Ai Erica, ele vai crescer traumatizado!”, “Ai, tudo bem. Quando tiver dez anos manda fazer terapia. Tá tudo certo, imagina!”. Eu acho mesmo, a hora que você se enfrenta com seus demônios, com as suas dificuldades, porque era, imagina, uma menina vinda da periferia, de repente tá num deslumbramento de umas big casas no Morumbi, e aí às vezes eu percebia que o dono da big casa do Morumbi não sabia nem escrever, escrevia errado. Mas o primeiro ano você tá tão ali, né, “Ai, eu não quero mais morar no Jabaquara”, e eu nunca tive vergonha de dizer de onde eu morei. Não é que nem meu sobrinho que brinca: “Ai, um dia você foi pobre e já esqueceu”, “Ah rapaz, se liga mano, bobagem!” É o que você tem na sua cabeça, o que você carrega com você, é o que você consegue ter dentro da sua história. Eu brinco com ele, falo com ele, mas é o que eu acho mesmo, existem outros mundos. Existem mundos mais simples que o meu, muito mais chiques que o meu, mas não fez muita… Eu não tinha isso como objetivo, eu não resolvi ser traumatizada porque eu tenho um metro e meio e queria ser jogadora de basquete, sabe essas coisas? “Ai eu queria ser jogadora de basquete”, então você é traumatizada, claro, você tem um metro e meio, nunca vou ser jogadora de basquete, não tinha isso. Eu tinha umas tristezas, umas dificuldades de aceitar os comportamentos, uma dificuldade de me aceitar, uma dificuldade de dizer não, muito grande. A minha pior dificuldade era saber dizer não. Não conseguia dizer não, fazia coisas que eu não queria, mas porque não dizia. Era incapaz de dizer não.

 

P/1 – Como era sua relação amorosa? Essa coisa de…

 

R – Do Edson?

 

P/1 – É.

 

R – Nossa! Teve um ano assim, eu lembro, tem ali no final da Paulista, junto da Consolação, tem uma estátua que se não me engano, eu não me lembro, tem uma coisa, um cavaleiro, tem um presente de algum país Latino Americano, eu não me lembro. Não é mexicano, porque é Latino Americano. Eu não sei se é Colombiano, Venezuelano, enfim, só sei que tem uma estátua ali de um cavaleiro, um cavalo, não sei o que, junto mesmo no finalzinho da Paulista, junto da Consolação. Eu lembro direitinho, porque naquele dia teve inauguração dessa estátua. Uma coisa que eu acho engraçada, tinha tido um movimento, tava cheio de flores à volta e por que que marcou? Porque naquele dia eu percebi que eu tinha uma ligação praticamente uterina com o Edson, porque eu não conseguia fazer mais nada sem ele tá junto. E aquele dia eu falei assim: “Cara, eu preciso comprar calcinha e soutien, quero que o Edson venha comigo. Quê que é isso cara? Aonde que você tá indo? Que buraco é esse que você tá se enfiando, Érica?” Eu sentei ali, me encostei ali e vi a ação de inauguração da estátua. Já tinha acontecido, porque tinham flores, tinham restos de coisas e tal, estavam tirando o palanque. Eu fiquei ali sentada horas pensando sobre isso. Como era esse cordão que eu tinha que eu precisava que ele me acompanhasse pra comprar calcinha e soutien, pra comprar lingerie. Aí foi quando eu falei: “Ô, ô, ô”, eu absolutamente me entreguei totalmente. O fato dele ter me mostrado outras coisas, eu deixei o Edson decidir por mim situações, amigos, viagens, que roupa vestir. Eu tava recaindo sobre os mesmos erros que meu avô fazia com a minha avó. Aí falei: “Ah, não é isso que eu quero pra mim”, e aí foi quando eu falei assim: “O que que eu quero pra mim?” então até hoje eu uso a mesma coisa, uma folha de caderno, o que é sim e o que é não, o que é a favor, o que é contra, o que vale a pena, o que não vale a pena, dependendo da situação e aí é assim, aí eu escrevo, aí eu vejo quais são os itens pra poder tomar uma solução. Mas eu lembro direitinho disso, de tá sentada – isso tem anos, imagina, tá encostada ali – ainda levei umas flores pra casa (risos), catei umas flores do chão, mas foi quando eu decidi que eu não precisava do Edson. Se aos dez anos de idade já fazia minha matrícula da escola sozinha, porque minha mãe começou a trabalhar e eu sempre tive essa.. Eu faço as coisas sozinha, não preciso. Mas eu tava muito me entregando assim, eu tava encantada com essa vida, mas eu não conseguia… Tava… Não separou, né?  Sabe, era uma coisa só. E olha que eu sofri quando a gente separou, imagina se isso não tivesse acontecido antes. Mas foi o que eu falei: “Não, não, eu escolho meu sapato, eu escolho minha lingerie, eu escolho meu vestido, eu escolho…” Claro que quando você tem uma amiga, uma situação ou outra, você sempre vai pedir uma sugestão, mas eu escolho. Eu quero saber o que é melhor pra mim. Isso foi uma das coisas assim que me marcou com o Edson.

 

P/1 – Como é que foi esse rompimento?

 

R – Ele foi fazer um filme de Kolynos em Maceió, quarenta dias antes de a gente casar. Ficou lá dez dias, quando ele voltou eu já achei estranho, mas tudo bem. A gente foi pra casa da mãe dele e, aí sei lá, uns quatro, cinco dias depois, ele chegou pra mim, falou assim: “Olha, eu te amo, mas eu me apaixonei por outra mulher e eu queria viver essa emoção”, e eu sempre me pergunto como que eu faria com essa relação hoje, sabe? Na época eu não entendi, eu mandei ele catar coquinho, eu catei todas as coisas dele, tirei de casa, sofri, lógico, chorei muito. Trabalhávamos junto e aí eu chorava tanto, tanto, que a gerente chegou um dia pra mim e falou: “Érica, pelo amor de Deus, eu não aguento mais. Ou você ou ele”. Eu falei assim: “Olha, eu vou sair de férias, quando eu voltar você pode mandar ele embora”, e ele mandou, ele foi embora. Eu saí de férias, fiquei quarenta dias, só tinha trinta, mas fiquei quarenta, fui perdoada e quando eu cheguei ele foi demitido.

 

P/1 – E Érica, pra onde foi nesses quarenta dias?

 

R – Eu fui pro Uruguai, fui pra Argentina.

 

P/1 – Aí foi para essa viagem?

 

R – Fui. Aí a gente foi até o Chile, mas na primeira cidade do Chile...

 

P/1 – Foi só?

 

R – Fui só, mas encontrei amigos. Aí fui, cada hora encontrava um, sabe quando você vai? Nossa, me sentia a desbravadora, juro que eu me senti a desbravadora, mas fui sozinha. Ainda saía de Congonhas. Aí passava telegrama, né, porque não existia, aí passava telegrama pra avisar onde eu tava, pra saber se tava tudo bem. Que eu sempre tive essa coisa com a família. Eu falo com a minha mãe todo dia, todos os dias eu telefono e falo com a minha mãe. Tá velhinha, né, agora ficou doente, todo domingo eu vou visitar e, se eu não vou aos domingos – domingo passado eu fui pra catar as fotos, que as minhas coisas estão lá, né, guardei lá, fui lá pra catar as fotos, aí ficamos, sentamos, mostramos as fotos, brincamos. Fazia um frio, né, foi ótimo. Você sabe, eu não senti tristeza, foi tão legal. Sabe, você ter lembranças das pessoas que já passaram na sua vida, as que ainda estão, gente que passou e que você não lembra quem é. Tem gente que eu olho ali e falou: “Quem será que é?”.

 

P/1 – Me diga como é que foi essa mudança de trabalho, né, de produtora pra dona de restaurante, como se deu isso?

 

R – Então, aí foram passando os anos, eu fui ficando cansada, não que eu não gostasse, o que eu mais gostava era o set de filmagem, sempre gostei do set de filmagem. Adorava o set de filmagem, sempre gostei e gosto até hoje de um set de filmagem. O dinheiro foi ficando difícil, a responsabilidade... O produtor ficou mero... Sabe, o diretor que vem, ah meu Deus... “Ah, o filme é da minha vida?”, “É da sua vida, não é da minha. Não é da minha! Não me põe essa responsabilidade”. Aí o filme que ele imagina e o filme que ele pode realizar, porque o que ele quer é um caviar e vai lhe sobrar uma sardinha decoradinha bem bonitinha, mas não… sabe? Então isso foi me cansando, e aí eu tenho essa grande amiga que é a Bia, que tem uma produtora, e que eu fazia muito trabalho pra ela e aí um dia ela falou assim: “Ah, Baixa”, ela me chama de Baixa, “To aqui com uns pensamentos”. Eu falei: “O que foi?”, “Ah, vamos conversar”. Aí sei lá, dois dias depois sentamos: “Ah, o que que você acha se a gente montasse um restaurante?”, eu já tinha pensado isso em outras situações, tinha pensado em montar uma floricultura. No dia que ela falou isso, eu falei ”Vamos comemorar!”. Aí tomamos um champagne que a gente adorava, enfim, que a gente adora até hoje. “Vamos pensar melhor”. Aí na mesma semana, dias depois, eu entrei no Sebrae. Foi a minha primeira tomada de atitude, foi entrar no Sebrae e daí a coisa foi num caminhar. Eu fui pro Sebrae, fui fazer alguns cursos lá, e continuando com a produção, né, de gerir a sua própria empresa. Fiz dois cursos lá, aí você faz online também, aí imprime todo o material, também imprimi, li. Então começamos assim: o que a gente precisava? As informações, a cartilha deles, a gente foi seguindo à risca. Aí foram uma série de coisas. Eu que tava de saco cheio de fazer produção, a Camila, que é sobrinha dele e minha afilhada, tinha acabado de terminar o curso de Gastronomia e já tinha feito... Como chama quem cuida de... Ela fez Gastronomia depois, ela fez primeiro Nutrição e aí depois fez Gastronomia. E a Bia tinha uma cozinheira de quatrocentos anos que trabalhava com ela. E eu passeei, então definiu o bairro, chamou essas pessoas, e eu comecei assim, muito devagar, procurar casa, um imóvel. Aí a gente... eu achei esse imóvel na Rua Rodésia. Uma casinha lindinha, uma gracinha e o movimento começou a tomar forma. A gente tinha a fiadora que é a Lelê, a Alexandra que é uma amiga nossa que inclusive faleceu o ano passado, que foi um grande baque pra gente e aí gente, a coisa foi tomando forma, sabe? Então chama as pessoas, chama a Camila, faz levantamento, entra com os documentos pra alugar a casa, eu entro pra estudar mais a fundo, até hoje eu estudo. Tudo o que eu sabia era empírico, era de ver minha avó fazer. Mas fazer comida pra vocês três, quatro ou cinco pessoas é uma coisa, fazer comida para cento e cinquenta é outra. E aí a gente meteu um pouco as caras e reformamos a casa, que já foi nosso primeiro erro. O primeiro erro foi alugar um imóvel muito caro, que a Vila Madalena é cara. Então hoje a gente faria diferente, mas já que a gente tá lá, então a gente batalha pelo que a gente tem. Mas a gente alugou o imóvel, contratamos as meninas. Outro erro. Eu não contrato mais empregada doméstica, tem que ser pessoas que têm experiência, ponto, acabou. Porque é muito estranho, empregada doméstica tem um vício doméstico e lá é um restaurante, não e um vício doméstico, e o profissional da área já vem com vários vícios, que você tem que ir limando, você tem que ir cortando. E aí, dez meses depois da reforma, que não acabava aquela reforma, um dia eu cheguei lá, expulsei os pedreiros, tirei todo mundo, “Chega, acabou, acabou!”, eu dei por encerrada a reforma. Dois dias eu trabalhei que nem uma louca, chamei os amigos, sabe assim, que eu não aguentava de dor no corpo porque de limpar, de organizar, de terminar mesmo o trabalho que os caras não fizeram. Chamei os caras pra colocar a luz, em dois dias eu falei assim: “Chega! Me deu”. A gente tava gastando muito dinheiro e não tava entrando dinheiro, e a própria reforma já tava virando piada na rua.

 

P/1 – Você já tinha saído da produtora?

 

R – Já. Meu último trabalho... Então se eu abri em Outubro, o último trabalho foi em Julho, em Minas Gerais. Encerrei um trabalho, um documentário sobre café, pros gringos da Noruega. Foi o último trabalho que eu fiz, e foi tão cansativo que eu não tive assim nenhum momento assim de ai... Que eu choro por tudo, né? Não tive nenhum momento assim: “Ai, meu último trabalho”. Não, eu falei assim “Chega, acabou, eu preciso ir pro restaurante”, sabe, eu já tava com o pensamento em outra coisa, o foco já tá em outra coisa. Eu não tive essa tristeza. Mas muita gente, muitos amigos vão lá comer. Equipes que vão visitar set de filmagem, que aparecem lá. Aí outro dia me jogaram dentro da van, me deram uma volta no quarteirão. A turma que vai com as câmaras de vídeo, né, porque hoje é tudo... Não tem a rédea de uma... Acabou com a graça de uma 35, de latas de negativo. Tinha um charme aquilo, né? A moviola já tinha um charme, a coladeira. Aí a gente... eu não tinha um sofrimento maior, eu tinha uma grande ansiedade, mas eu brinco, eu troquei seis por meia dúzia. Meu serviço não acaba, gente, meu serviço não acaba. E aí na semana passada recebi minha primeira intimação. A menina saiu de licença porque teve um bebê, mas ela tinha que voltar. Ela falou: “Ah me manda embora?”, eu falei: “Eu não vou te mandar embora”, “Ah, porque a gente entra...”, “Não vou te mandar embora, você tem que voltar”, “Ah, porque é um direito meu”. Fui lá e perguntei, tudo eu pergunto pro contador e pro advogado, tudo. “Eu tenho que mandar?”, “Não, você não tem, ela tem que voltar a trabalhar”, eu falei: “Eu não to te mandando embora”. Ela foi lá no Ministério do Trabalho e disse: “Ah, ela me mandou embora”. Então eu vou pagar um pau e meio pro advogado pra dizer... E é assim, ela não tem testemunha, porque eu já perguntei. Aí vai, então dia vinte e dois lá to eu sentada, de novo, porque já teve da outra vez, mas ela não apareceu, eles adiaram e passaram agora pro dia vinte e dois. Então dia vinte e dois sento lá, vinte e dois não, vinte e dois acho que é sábado, vinte, vinte e um, vinte e dois, vinte e três, segunda-feira. Mas eu brinco, o serviço não termina, não. Eu digo a mesma coisa há dois anos. Então tem essas coisas assim. Eu outro dia peguei o chão da cozinha, no degrauzinho que vai pro quintal, ela afiando a faca. Sabe essa coisa? “Da onde que vocês tiram isso? Pelo amor de Deus! Senhor amado.” E ninguém sabe usar, porque você tem que tá no ângulo certo, aí eu fui lá estudar. Essa é a melhor parte. Estudar sobre as facas, estudar sobre como você faz um arroz, como você faz a comida básica. Tem dias que elas são maravilhosas. É muita mulher, é hormônio, então tem dia que a comida sai esplendorosa. Hoje, por exemplo, tava muito boa, que eu experimento de tudo, mas tem dia que falo: “Pelo amor de Deus, o que que aconteceu com esse arroz?”, “Ah, não sei!”. Tem um quinto elemento lá dentro que é o “não sei”, o “não fui eu”, o “não vi”. Esses três andam de mãos dadas, “eu não vi”, “não fui eu”, “não sei”. Falo assim: “Eu sei por que. Porque queimou a cebola, amarela o arroz branco”, “Quem disse?”, falei: “Ah, Senhor amado! Vamos fazer um teste?”, “É, você tem razão”. 

 

P/1 – Voltando um pouquinho, você disse que você fez Pedagogia, mas não disse a faculdade. Eu queria que você contasse um pouquinho mais desse período, que você falou pouco da faculdade.

 

R – Ah, eu não fiz Pedagogia, eu fiz Teatro Educação, depois eu fiz Educação Artística.

 

P/1 – Ah, Educação Artística. Desculpa.

 

R – Eu fui aluna do Serroni, da Bárbara Heliodora...

 

P/1 – Em qual instituição?

 

R – Eu comecei com uma faculdade, chamava FIAM, Faculdades Integradas Alcântara Machado e a FMU comprou. Então meu diploma é FMU, que fica ali no Morumbi, na Praça Três Corações, assim na Avenida Morumbi, ali atrás da Avenida Morumbi, Euzébio Matoso, Francisco Morato ali, mas é na Avenida Morumbi mesmo, Avenida Morumbi, mil, não sei, não me lembro mais. Ah, foi o período mais legal, como eu gostei! Sabe, por isso que eu fui fazer estágio na TV Cultura, foi o Serroni que me levou para lá. Primeiro que eu adorei ter entrado… O que aconteceu? Eu queria ser atriz, então eu prestei a EAD, Escola de Arte Dramática, que agora tá na USP, antes não era na USP. Aí fui lá, aí prestei, aí passei, mas eu passei na faculdade também. Eu não passei na USP, mas passei neste vestibular. Aí fiquei naquela dúvida: “Eu faço o curso técnico, vou ser atriz, depois vou morrer de...”, aí eu fiquei assim “Mas eu vou trabalhar com quê? Mas curso superior”. E meu pai, que nessa época então eu já morava com meus pais, meu pai ele ficou de um orgulho, porque eu e minha irmã entramos na faculdade, ele ficou tão orgulhoso, porque é uma geração que eles, os irmãos dele, ninguém teve curso superior. Os filhos dessa geração já tiveram, os meus primos, certo, mas eles não. E eu sou a mais velha dessa primaiada que teve. Não, eu tive primos mais velhos, mais que eram casados, ou são senhoras, mas eu fui a primeira a entrar. Em seguida, no mesmo ano, entrou minha irmã, mas o meu resultado veio primeiro, então eu fui a primeira a entrar. E aí eu queria viver o que era ser um universitário, eu queria saber, eu queria passar por essa experiência e aí eu larguei, eu não fui, eu não me matriculei na EAD. Nesse momento eu deixei, eu não fui mais ser atriz. Eu queria e aí eu fui ter História de Teatro. Eu fui aluna do Diogo Pacheco, era o primeiro ou segundo ano dessa faculdade, eu até achava que eles não tinham autorização lá do Ministério da Cultura. Eram professores fortes. Eu fui aluna do Diogo Pacheco, de música, que ele foi horrível comigo, ele falou que eu não podia cantar no coral, mas eu passei por causa da história da música. Eu não sou boa de cantar, mas eu tive aula com a Bárbara Heliodora, tudo o que eu aprendi de Shakespeare, imagina, ela é especialista de Shakespeare, ela é maravilhosa! O Serroni era, além de lindo, de um menino lindo, o José Carlos Serroni era cenógrafo da TV Cultura e fazia peças de teatro. Eu tinha também aulas de Psicologia, que é a mãe do Gabriel Nunes Braga. Como é o nome dessa atriz? Eu tinha aula de Psicologia do Teatro com ela, Regina Braga, eu fui aluna da Regina Braga. Tenho um livro até hoje que ela me deu. Eu nunca me arrependi de ter trocado o curso da EAD pela faculdade. Foram os... todos eu digo que foram os meus melhores anos, mas foram os melhores anos. Eu estudava muito. Eu tinha que ler muito, eu morava no Jabaquara, eu dava... Eu não dava aula, mentira, porque eu só fui dar aula depois. Eu morava no Jabaquara, eu arrumava uns empreguinhos, porque eu estudava de manhã, depois eu passei pra noite, depois eu voltei pra manhã. No final do curso eu voltei pra manhã. Eu fiz os três primeiros anos, que é Educação Artística, o primeiro ano ainda foi em São Judas, onde ficava a faculdade, aí a FMU comprou e aí eu fui pro Morumbi, pro segundo e o terceiro ano. Quando eu entrei no quarto ano aí eu passei pra manhã, então eu fazia umas coisas pra ter uns empreguinhos aqui , umas coisas acolá, pra ter uns dinheiros, porque eu queria comprar os livros, e aí eu arrumei esse estágio na TV Cultura, que eles me davam um dinheirinho, que foi o meu professor que arrumou, o Serroni que me arrumou. Então eu saía do Jabaquara, ia pro Morumbi, do Morumbi eu ia pra [Rua] Cenno Sbrighi e depois voltava pro Jabaquara. Então eu passava o dia andando de ônibus, mas eu amava, como amava os primeiros seis meses naquele Liceu Pasteur, eu levava – todas tinham carro, eu nunca tive e não sei dirigir - eu levava um carrinho de feira, onde eu enfiava todas coisas que as crianças faziam, as pastinhas, os caderninhos, os azinhos, que você tinha que fazer lá “A” em todos os trinta e seis caderninhos, os carimbinhos dos trinta e seis caderninhos. Então eu punha tudo dentro de um carrinho de feira e levava o carrinho de feira, eu levava o carrinho de feira que eu tinha customizado. Não era um simples carrinho de feira! Eu até procurei foto do carrinho de feira e não achei, mas eu customizei o carrinho de feira, eu dei uma personalidade, todos os ferrinhos eu passei um tecido em volta, eu dei uma caprichada pra ele não ficar um mísero carrinho de feira. Mas eu levava as coisas pra cima e pra baixo, dos alunos e da faculdade também, porque vai aumentando, aumentando. Então eu ficava assim, a Bárbara Heliodora foi a pessoa que me impressionou. Ela lia... Nós éramos em poucos alunos, eu terminei o curso eu e mais três. Começamos em vinte, foi enxugando, e o João Paulo Martins foi um diretor. No último ano eu fui bolsista e devo isso ao João Carlos Martins e aí eu lembro dela falar poemas em alemão, ela é demais! Ela falava poemas em alemão, ela recitava Shakespeare num inglês medieval e as pessoas todas deviam estudar, as pessoas deviam ir pra escola.

 

P/1 – Conta o que vocês faziam pra se divertir na época da faculdade.

 

R – Eu não bebia, então eu não tinha muito tempo, mas eu ia ao cinema nos sábados e domingos com e Edson, o que já pra mim era o máximo. Namorar fazia parte da diversão também e tinha as festinhas assim, com os amigos. Eu não era muito chegada em botequins, eu até acompanhava uma vez ou outra, mas eu não bebia, não era... eu achava que eu tava perdendo tempo. Então eu tinha coisa mais interessante pra fazer. Eu não era nerd, não existia essa expressão, mas eu era meio CDF na época, era CDF. (risos) Eu, CDF? Eu achava tão engraçado. Desde quando eu sou CDF gente? Eu fui a aluna mais relapsa. eu só gostei de estudar a partir do terceiro colegial. Eu lembro disso, assim. Nossa, eu estudei francês que eu era obrigada a fazer aquele francês, mas depois só do terceiro colegial em diante eu comecei a entender. Essa professora Lia, de Psicologia, que mostrou pra gente como é que era. As aulas de Sociologia que você tinha uma sensação de OSPB, mas a coisa era mais fundamentada, os professores te tratavam como adultos e ou você pegava o bonde da história ou você ficava pra trás. E como eu morava num bairro muito simples, eu tinha como exemplo pessoas que tinham ficado pra trás, certo? A minha amiguinha de dezesseis anos que engravidou e então parou de estudar, o outro que resolveu fumar maconha e foi preso com dezessete anos e vai, não tinha FEBEM, tinha outra coisa, não me lembro se era FEBEM também. E eu lembro que eu não sabia o que eu queria pra mim, mas eu sabia que aquilo eu não queria. Sabia que eu queria mais, eu e minha irmã. Sabe, a gente, eu não queria, a minha irmã casou jovem, parou de estudar, depois voltou, mas quando as filhas entraram na escola ela voltou pra universidade, já em Ribeiro Preto, que ela mora lá. Mas não era aquilo que eu queria pra mim. Eu não sabia direito, eu não me sentia situada, eu não sabia responder, mas não era aquilo. Eu não queria ter filhos, muito menos solteira. Eu não tinha essa preocupação “Ah, porque eu vou decepcionar meu pai e minha mãe”, não, era por mim, era pra mim. Sempre pensei: “Meu Deus, se me trancarem num lugar eu vou me matar. Eu não vou conseguir ficar trancada”, sempre pensei nessa coisa da cadeia, da liberdade. Com o passar dos anos você começa a perceber que a liberdade pode ser outra, né, você pode ter sua liberdade aqui, então eu não queria aquilo pra mim. Não sabia ainda o que eu queria, mas aquilo eu não queria. Não era esse caminho que eu queria seguir.

 

P/1 – Você chegou a pensar em ter filhos?

 

R – Quando eu tinha uns dezoito, dezenove, eu decidi que eu não queria ter filhos. O Edson também segurou a onda assim comigo. Ele não tem filhos até hoje, casou já de novo, mais duas vezes, mas não teve filhos, mas eu decidi que eu não queria ter filhos, tinha sobrinhos. Não que eu não gostasse de criança, mas eu nunca senti essa necessidade maternal que as mulheres “Ah, meu relógio biológico”. Não tenho relógio biológico, eu acho. Tenho, claro que tenho, mas eu não tive essa necessidade. Eu amo meus sobrinhos, amo. O Rafael inclusive é um dos... Eu tenho, meu irmão ajudou muito na humanidade, porque ele casou cinco vezes com cinco mulheres diferentes, então ele tem um caçula de dez anos, é doze anos, que eu vejo que é o mais bonitinho de todos, certo? Mais a minha irmã, que teve os três, que eu sou muito próxima e muito próxima do mais velho do meu irmão, que é esse, o Rafael, que tem vinte e nove, que é assistente de câmara e quer virar diretor de fotografia, que veio pra esse mundo, que é o primeiro, que fala assim: “Ah, você não vai gostar de voltar. Continua no restaurante”, porque outro dia eu falei assim: “Ai gente, to tão cansada dessa restaurante, eu acho que vou voltar a fazer produção. Vou passar o restaurante pra frente”. “Você não faça isso! Você não vai gostar de fazer, você não vai se adaptar de novo”, falo assim: “Mas eu continuo usando tênis!” – você sabe, eu uso tênis por causa do conforto mesmo, de ficar em pé dentro da cozinha, gente.

 

P/1 – Me diga uma coisa. Você, se tivesse que voltar, você faria alguma coisa diferente?

 

R – Ah faria. Acho que faria menos escândalos, assim, por exemplo com o Edson, gastaria menos energia com algumas coisas que não valeram a pena. Talvez estudasse mais, acho que eu não ia reclamar das aulas de francês e estudasse mais, e não teria perdido tanto tempo achando que meu pai não era a melhor pessoa do mundo, não teria perdido esse tempo. É o jeito dele. Você começa a perceber que cada pessoa é de um jeito e você aceita as pessoas. Talvez não tivesse perdido tanto tempo com isso. Mas no geral, é a minha história, eu acho que é o que eu sou, resultado de tudo isso, né, mas perder tempo é uma coisa que você não tem como recuperar, né, você já perdeu. Aí talvez tivesse mais atividade física, que eu vivo prometendo pra mim mesma (risos), talvez se eu tivesse me acostumado mais cedo não ia reclamar hoje, mas talvez tivesse dito pra algumas pessoas que eu não disse que gostava delas e talvez eu tivesse perdido menos tempo chorando, porque eu sou chorona, eu ainda sou, sabe? Choro, fico triste. Claro que eu descobri que são os hormônios também, mas acho que basicamente eu teria estudado mais e teria perdido menos tempo com bobagem, que hoje eu vejo que é mais bobagem, teria estudado muito mais. Teria conversado mais com os professores, teria, mas tem alguns que ficaram mesmo. Nem sei se eu marquei da maneira que eles marcaram pra mim, isso aí nunca vou saber, mas tem pessoas que foram muito marcantes na minha vida?

 

P/1 – Érica, você tem um sonho?

 

R – Tenho. sonho eu tenho. É assim, ontem mesmo eu li, como é mesmo que ele se chama? O colunista da Folha, o psiquiatra que todo mundo fala dele agora? Mas eu fui ver o filme do Walter Salles, o Na Estrada. Às vezes eu penso assim: “Eu tenho assim uma vontade de ir embora”, fora o sonho de conhecer um pouco aí metade do mundo, mas você sabe, uma coisa de “Ai, vou embora”. Ter esse desprendimento de largar tudo e ir embora, ir pra estrada mesmo, que eu gosto mesmo é de viajar. Tem uns países aí do mundo que eu ainda vou conhecer. Meu sonho é viajar e viajar mais, muito mais. E comer, né?

 

P/1 – Como foi dar entrevista aqui no Museu da Pessoa? Como você está se sentindo?

 

R – É engraçado você ficar falando de você mesma e poder imaginar que isso pode ter alguma importância pras outras pessoas. E a partir disso eu fiquei com vontade de ouvir o que as outras pessoas têm a dizer. Eu não sei o que eu posso ter dito de tão interessante que alguém vai querer ouvir, mas mais do que isso, eu quero ouvir o que as outras pessoas têm pra dizer. Achei tão legal isso, achei tão diferente. Eu jamais podia imaginar que pudesse ter um..., assim, você guardar imagens, guardar opiniões, guardar informações de pessoas, que depois eu passo lá pra ouvir, certo? Que nem eu te falei, fiquei impressionada com a senhora da Copa do Mundo. Foi a única que eu vi, mas achei tão interessante. Eu não sabia que isso existia, tá vendo? Eu gosto disso, de descobrir coisas. Não sabia que existia um Museu da Pessoa, e eu já fiquei falando pra um monte de gente, né? “Mas o que faz?”, “Ué, arquivam as pessoas”

 

P/1 – Histórias de vida.

 

R – Histórias das pessoas. “Mas as pessoas?”, “Não gente, as histórias das pessoas, né?”. E eu lembro essa mesma professora, dizia assim, que a gente “Cada um tem as sua própria história e que as suas histórias podem caber onde você quiser”, aí eu pensava assim: na época meu avô usava uma capanga, não sei se vocês lembram, uma pochete, de bolso, uma coisa meio masculina. Aí eu ficava assim, um dia eu falei: “Bom, a minha não deve nem caber numa capanga, nem numa 007.  Disse: “Bom, agora acho que agora até que tem alguma coisa pra contar, né? Por causa disso eu nunca esqueci disso, da Lia, 76.

 

P/1 – Ai que pena.

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