Busca avançada



Criar

História

A faculdade da gente foi a Rede Ferroviária

História de: Sebastião Marinho de Barros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Sebastião Marinho de Barros conta a sua história dentro da Rede Ferroviária do Nordeste. De família humilde, desde criança dividia seu tempo entre estudar e trabalhar ensacando pés de banana. Com 14 anos, à convite de seu cunhado, começou a praticar telegrafia na estação de Florestal, dois anos depois já estava trabalhando. Somando 41 anos de trabalho na Rede, chegou a se tornar inspetor de tráfego e de pessoal das estações de Pernambuco, administrando 73 estações ao mesmo tempo. Sua história é uma viagem no tempo das ferrovias, recheada de curiosidades e fatos sobre o modo de funcionar das estações de trem de Pernambuco, cuja tarefa Sebastião dominou sem nunca perder o companheirismo com seus colegas.

Projeto Um Trem de Histórias

Registro e Disseminação dos Saberes e Ofícios da Rede Ferroviária do Nordeste

Módulo Pernambuco

Entrevista de Sebastião Marinho de Barros

Entrevistado por Cláudia Fonseca e Fernanda Prado

Recife, 13/04/2010

Realização Museu da Pessoa

Entrevista Nº MRFP_HV013

Transcrito por Maria da Conceição Amaral da Silva

Revisado por Gustavo Kazuo

 

P/1 – Seu Sebastião, bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Muito obrigada por ter vindo.

 

R – Não há de quê.

 

P/1 – Queria começar a entrevista com o senhor dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Sebastião Marinho de Barros. Eu resido em Prazeres. Nasci no dia 6 de dezembro de 1934.

 

P/1 – O senhor nasceu lá mesmo em Prazeres?

 

R – Eu nasci em Maraial, interior de Maraial.

 

P/1 – Maraial é?

 

R – É depois de Palmares, Pernambuco.

 

P/1 – E o nome dos seus pais, seu Sebastião?

 

R – Jerônimo Marinho de Barros e Maria de Araújo Barros.

 

P/1 – Eles eram lá de Maraial também?

 

R – Também, Maraial.

 

P/1 – Maraial. E o que é que eles faziam, seu Sebastião?

 

R – Meu pai era comerciante.

 

P/1 – Comerciante de quê?

 

R – Mercearia no caso. Porque naquela época era mercearia.

 

P/1 – Aquela que vendia de tudo?

 

R – De tudo, é. De tudo.

 

P/1 – E a sua mãe, dona de casa?

 

R – Dona de casa.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho oito.

 

P/1 – O senhor é qual nessa ordem?

 

R – Na ordem eu sou...

 

P/1 – Ali no meio ou mais para a ponta?

 

R – Mais para a ponta.

 

P/1 – Meninos, meninas?

 

R – São oito homens.

 

P/1 – Oito homens?

 

R – E oito mulheres.

 

P/1 – Então, são dezesseis?

 

R – São dezesseis, é.

 

P/1 – Nossa, bastante gente.

 

R – É, muita gente.

 

P/1 – Então, era uma bagunça na sua casa, né?

 

R – Era.

 

P/1 – E os seus avós o senhor conheceu?

 

R – Não cheguei a conhecer não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não me lembro não.

 

P/1 – O senhor passou a sua infância lá onde o senhor nasceu?

 

R – Eu passei a minha infância lá, exatamente.

 

P/1 – E como é que foi a sua infância?

 

R – Aliás, a cidade é Maraial, mas eu morava além de Maraial, no interior, Florestal. Foi onde eu comecei a praticar na estação da Rede Ferroviária, Florestal.

 

P/1 – Mas isso, quando o senhor já era mais velho um pouquinho.

 

R – Exato.

 

P/1 – Quando o senhor era criança, o senhor estava lá em Maraial?

 

R – Em Maraial. Agora, com catorze anos, eu estava em Florestal.

 

P/1 – Mas então até catorze anos o senhor estava lá.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – E como é que era a cidade, como é que foi a sua infância?

 

R – Uma cidade pequena. Cidade muito pequena. A minha infância foi, como se diz, de sacrifício, né? Eu ensacava bananas para a Fábrica Peixe aqui no Recife. Eu e meu irmão Gilvan. A gente ensacava banana até duas, três horas da manhã. Eu aproveitava e, durante o dia, eu praticava na estação da Rede Ferroviária.

 

P/1 – O senhor ia até Florestal para praticar?

 

R – Para praticar. Isso foi...

 

P/1 – Maraial não tinha estação?

 

R – Tinha estação, mas, nessas alturas, eu já estava em Florestal.

 

P/1 – Mas até catorze anos o senhor estava lá, quer dizer, o senhor ensacava banana...

 

R – Em Florestal. Aí passei a morar lá em Florestal.

 

P/1 – Mas um pouquinho antes disso, quando o senhor era um pouquinho menorzinho, mais criança, eu queria que o senhor contasse como é que era, por exemplo, a sua casa, com dezesseis crianças. Como é que era essa...?

 

R – Minha casa era aquela vida mesmo de pobreza. Estudava.

 

P/1 – Tinha escola lá?

 

R – Tinha escola. Aquelas de interior mesmo, para aprender, entendeu?

 

P/1 – Era uma escolinha da Prefeitura, do estado?

 

R – Não, de lá mesmo, do engenho.

 

P/1 – Do engenho. Então, era uma escolinha rural?

 

R – Uma escolinha rural, exatamente.

 

P/1 – Tinha uma professora?

 

R – Tinha uma professora, é.

 

P/1 – O senhor lembra o nome dela?

 

R – Zezita.

 

P/1 – Dona Zezita.

 

R – Zezita Esteves.

 

P/1 – Ela que ensinou o senhor a ler e escrever?

 

R – Foi, exatamente.

 

P/1 – E todo mundo ia para essa escolinha, era a única que tinha?

 

R – Todo mundo ia.

 

P/1 – E andava muito para chegar lá, seu Sebastião?

 

R – Andava muito.

 

P/1 – Era cedinho que o senhor ia?

 

R – Ia, era pior no inverno, que a gente tinha que andar muito por dentro da lama, muita chuva, muita água. Mas no verão andava...

 

P/1 – Mas o pai e a mãe faziam ir para a escola? Eles faziam questão?

 

R – Faziam. Naquela época, era bom porque era muita disciplina. Aí, eu comecei a praticar, né?

 

P/1 – Sei. Mas o senhor quando voltava da escola o senhor brincava ou não tinha tempo?

 

R – Não, eu ia praticar.

 

P/1 – Ia sempre praticar?

 

R – Ia praticar, para aprender o aparelho Morse, né?

 

P/1 – Mas como é que o senhor teve vontade de praticar?

 

R – Porque o chefe da estação me chamou. Disse: “Sebastião, não quer praticar não?” “Quero.” Aí eu, aquele aparelho Morse, que é telegrafista, né? Eu procurei aprender, e quando eu pensei que não, eu tinha catorze anos, com dezesseis anos, ele disse: “Sebastião, vamos para Palmares tirar todos os seus documentos, que você já está pronto.” Aí, eu disse: “Eu não quero trabalhar não.” Ele disse: “Não? Mas por que rapaz? Você já sabe tudo.” Foi quando ele me levou para Palmares, tirou todos os meus documentos. Eu fiz exame de saúde. Com dezesseis anos, eu já comecei a trabalhar.

 

P/1 – Mas o senhor quando estava lá em Florestal praticando o senhor também tinha esse trabalho de ensacar bananas?

 

R – Tinha também, tinha.

 

P/1 – Como é que era? Era porque tinha muita plantação de banana lá em Florestal?

 

R – Tinha muita plantação.

 

P/1 – Como era, seu Sebastião?

 

R – Tinha muita plantação de banana. A gente ensacava banana para a Fábrica Peixe aqui do Recife.

 

P/1 – E vocês ensacavam à noite, que o senhor estava dizendo?

 

R – À noite.

 

P/1 – E era tudo criança que fazia isso, molecadinha?

 

R – É, exato. Exatamente, era.

 

P/1 – Ganhava um dinheirinho bom?

 

R – O saco era naquela época de três tostões, na época de três tostões por saco. Aí, pronto, quebrava o galho, né? (riso)

 

P/1 – Quebrava o galho? Vocês davam o dinheiro para a mãe ou ficava para vocês?

 

R – Ficava para a gente.

 

P/1 – O que vocês faziam com o dinheiro?

 

R – A gente comprava tamanco, comprava macacão.

 

P/1 – Vocês estavam morando lá em Florestal?

 

R – Morando lá.

 

P/1 – Mas só o senhor e o seu irmão ou a família toda?

 

R – Não, a família toda.

 

P/1 – A família toda foi para lá. Era melhor lá para trabalhar?

 

R – Era melhor.

 

P/1 – Para o seu pai, era?

 

R – Era melhor. Foi quando eu comecei a praticar.

 

P/1 – E o senhor conhecia o chefe da estação para ele poder lhe chamar?

 

R – Eu conhecia. O chefe da estação era casado com minha irmã. A minha irmã tinha doze anos quando ele se casou com ela, doze anos. (riso)

 

P/1 – Então, ele era seu cunhado.

 

R – É, meu cunhado, era. Ele disse: “Menininho...” Ele me chamava Menininho: “Menininho, venha praticar.” Aí, eu fui praticar, pronto, e eu me dei bem.

 

P/1 – Foi ele mesmo quem lhe ensinou?

 

R – Ele mesmo.

 

P/1 – Qual é o nome dele?

 

R – João Esteves de Azevedo.

 

P/1 – Ele tinha paciência?

 

R – Ele era o chefe da estação, mas tinha também o telegrafista que era o Geraldo de Aguiar.

 

P/1 – Ele também lhe ajudou?

 

R – Muito, ajudou muito.

 

P/1 – O senhor aprendeu fácil?

 

R – Fácil, aprendi fácil. Também, eu me dedicava muito, me dedicava muito. Aprendi fácil.

 

P/1 – Então, o senhor ia para a escola, depois praticava um pouquinho e depois ia pegar banana.

 

R – Praticava, exatamente, e, à noite, ia ensacar banana. Não parava não. Foi uma vida de sacrifício.

 

P/1 – O senhor, com dezesseis anos, foi para Palmares?

 

R – Com dezesseis anos, eu fui para Palmares para tirar meus documentos. O João Esteves foi quem me levou. Tirou meus documentos, fiz exame de saúde e passei a ser praticante oficial. Com poucos meses, eu comecei a trabalhar, em 1950.

 

P/1 – E o senhor como é que o senhor foi de Florestal para...

 

R – De trem.

Tags

História completa

P/1 – Seu Sebastião, bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Muito obrigada por ter vindo.

 

R – Não há de quê.

 

P/1 – Queria começar a entrevista com o senhor dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Sebastião Marinho de Barros. Eu resido em Prazeres. Nasci no dia 6 de dezembro de 1934.

 

P/1 – O senhor nasceu lá mesmo em Prazeres?

 

R – Eu nasci em Maraial, interior de Maraial.

 

P/1 – Maraial é?

 

R – É depois de Palmares, Pernambuco.

 

P/1 – E o nome dos seus pais, seu Sebastião?

 

R – Jerônimo Marinho de Barros e Maria de Araújo Barros.

 

P/1 – Eles eram lá de Maraial também?

 

R – Também, Maraial.

 

P/1 – Maraial. E o que é que eles faziam, seu Sebastião?

 

R – Meu pai era comerciante.

 

P/1 – Comerciante de quê?

 

R – Mercearia no caso. Porque naquela época era mercearia.

 

P/1 – Aquela que vendia de tudo?

 

R – De tudo, é. De tudo.

 

P/1 – E a sua mãe, dona de casa?

 

R – Dona de casa.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho oito.

 

P/1 – O senhor é qual nessa ordem?

 

R – Na ordem eu sou...

 

P/1 – Ali no meio ou mais para a ponta?

 

R – Mais para a ponta.

 

P/1 – Meninos, meninas?

 

R – São oito homens.

 

P/1 – Oito homens?

 

R – E oito mulheres.

 

P/1 – Então, são dezesseis?

 

R – São dezesseis, é.

 

P/1 – Nossa, bastante gente.

 

R – É, muita gente.

 

P/1 – Então, era uma bagunça na sua casa, né?

 

R – Era.

 

P/1 – E os seus avós o senhor conheceu?

 

R – Não cheguei a conhecer não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não me lembro não.

 

P/1 – O senhor passou a sua infância lá onde o senhor nasceu?

 

R – Eu passei a minha infância lá, exatamente.

 

P/1 – E como é que foi a sua infância?

 

R – Aliás, a cidade é Maraial, mas eu morava além de Maraial, no interior, Florestal. Foi onde eu comecei a praticar na estação da Rede Ferroviária, Florestal.

 

P/1 – Mas isso, quando o senhor já era mais velho um pouquinho.

 

R – Exato.

 

P/1 – Quando o senhor era criança, o senhor estava lá em Maraial?

 

R – Em Maraial. Agora, com catorze anos, eu estava em Florestal.

 

P/1 – Mas então até catorze anos o senhor estava lá.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – E como é que era a cidade, como é que foi a sua infância?

 

R – Uma cidade pequena. Cidade muito pequena. A minha infância foi, como se diz, de sacrifício, né? Eu ensacava bananas para a Fábrica Peixe aqui no Recife. Eu e meu irmão Gilvan. A gente ensacava banana até duas, três horas da manhã. Eu aproveitava e, durante o dia, eu praticava na estação da Rede Ferroviária.

 

P/1 – O senhor ia até Florestal para praticar?

 

R – Para praticar. Isso foi...

 

P/1 – Maraial não tinha estação?

 

R – Tinha estação, mas, nessas alturas, eu já estava em Florestal.

 

P/1 – Mas até catorze anos o senhor estava lá, quer dizer, o senhor ensacava banana...

 

R – Em Florestal. Aí passei a morar lá em Florestal.

 

P/1 – Mas um pouquinho antes disso, quando o senhor era um pouquinho menorzinho, mais criança, eu queria que o senhor contasse como é que era, por exemplo, a sua casa, com dezesseis crianças. Como é que era essa...?

 

R – Minha casa era aquela vida mesmo de pobreza. Estudava.

 

P/1 – Tinha escola lá?

 

R – Tinha escola. Aquelas de interior mesmo, para aprender, entendeu?

 

P/1 – Era uma escolinha da Prefeitura, do estado?

 

R – Não, de lá mesmo, do engenho.

 

P/1 – Do engenho. Então, era uma escolinha rural?

 

R – Uma escolinha rural, exatamente.

 

P/1 – Tinha uma professora?

 

R – Tinha uma professora, é.

 

P/1 – O senhor lembra o nome dela?

 

R – Zezita.

 

P/1 – Dona Zezita.

 

R – Zezita Esteves.

 

P/1 – Ela que ensinou o senhor a ler e escrever?

 

R – Foi, exatamente.

 

P/1 – E todo mundo ia para essa escolinha, era a única que tinha?

 

R – Todo mundo ia.

 

P/1 – E andava muito para chegar lá, seu Sebastião?

 

R – Andava muito.

 

P/1 – Era cedinho que o senhor ia?

 

R – Ia, era pior no inverno, que a gente tinha que andar muito por dentro da lama, muita chuva, muita água. Mas no verão andava...

 

P/1 – Mas o pai e a mãe faziam ir para a escola? Eles faziam questão?

 

R – Faziam. Naquela época, era bom porque era muita disciplina. Aí, eu comecei a praticar, né?

 

P/1 – Sei. Mas o senhor quando voltava da escola o senhor brincava ou não tinha tempo?

 

R – Não, eu ia praticar.

 

P/1 – Ia sempre praticar?

 

R – Ia praticar, para aprender o aparelho Morse, né?

 

P/1 – Mas como é que o senhor teve vontade de praticar?

 

R – Porque o chefe da estação me chamou. Disse: “Sebastião, não quer praticar não?” “Quero.” Aí eu, aquele aparelho Morse, que é telegrafista, né? Eu procurei aprender, e quando eu pensei que não, eu tinha catorze anos, com dezesseis anos, ele disse: “Sebastião, vamos para Palmares tirar todos os seus documentos, que você já está pronto.” Aí, eu disse: “Eu não quero trabalhar não.” Ele disse: “Não? Mas por que rapaz? Você já sabe tudo.” Foi quando ele me levou para Palmares, tirou todos os meus documentos. Eu fiz exame de saúde. Com dezesseis anos, eu já comecei a trabalhar.

 

P/1 – Mas o senhor quando estava lá em Florestal praticando o senhor também tinha esse trabalho de ensacar bananas?

 

R – Tinha também, tinha.

 

P/1 – Como é que era? Era porque tinha muita plantação de banana lá em Florestal?

 

R – Tinha muita plantação.

 

P/1 – Como era, seu Sebastião?

 

R – Tinha muita plantação de banana. A gente ensacava banana para a Fábrica Peixe aqui do Recife.

 

P/1 – E vocês ensacavam à noite, que o senhor estava dizendo?

 

R – À noite.

 

P/1 – E era tudo criança que fazia isso, molecadinha?

 

R – É, exato. Exatamente, era.

 

P/1 – Ganhava um dinheirinho bom?

 

R – O saco era naquela época de três tostões, na época de três tostões por saco. Aí, pronto, quebrava o galho, né? (riso)

 

P/1 – Quebrava o galho? Vocês davam o dinheiro para a mãe ou ficava para vocês?

 

R – Ficava para a gente.

 

P/1 – O que vocês faziam com o dinheiro?

 

R – A gente comprava tamanco, comprava macacão.

 

P/1 – Vocês estavam morando lá em Florestal?

 

R – Morando lá.

 

P/1 – Mas só o senhor e o seu irmão ou a família toda?

 

R – Não, a família toda.

 

P/1 – A família toda foi para lá. Era melhor lá para trabalhar?

 

R – Era melhor.

 

P/1 – Para o seu pai, era?

 

R – Era melhor. Foi quando eu comecei a praticar.

 

P/1 – E o senhor conhecia o chefe da estação para ele poder lhe chamar?

 

R – Eu conhecia. O chefe da estação era casado com minha irmã. A minha irmã tinha doze anos quando ele se casou com ela, doze anos. (riso)

 

P/1 – Então, ele era seu cunhado.

 

R – É, meu cunhado, era. Ele disse: “Menininho...” Ele me chamava Menininho: “Menininho, venha praticar.” Aí, eu fui praticar, pronto, e eu me dei bem.

 

P/1 – Foi ele mesmo quem lhe ensinou?

 

R – Ele mesmo.

 

P/1 – Qual é o nome dele?

 

R – João Esteves de Azevedo.

 

P/1 – Ele tinha paciência?

 

R – Ele era o chefe da estação, mas tinha também o telegrafista que era o Geraldo de Aguiar.

 

P/1 – Ele também lhe ajudou?

 

R – Muito, ajudou muito.

 

P/1 – O senhor aprendeu fácil?

 

R – Fácil, aprendi fácil. Também, eu me dedicava muito, me dedicava muito. Aprendi fácil.

 

P/1 – Então, o senhor ia para a escola, depois praticava um pouquinho e depois ia pegar banana.

 

R – Praticava, exatamente, e, à noite, ia ensacar banana. Não parava não. Foi uma vida de sacrifício.

 

P/1 – O senhor, com dezesseis anos, foi para Palmares?

 

R – Com dezesseis anos, eu fui para Palmares para tirar meus documentos. O João Esteves foi quem me levou. Tirou meus documentos, fiz exame de saúde e passei a ser praticante oficial. Com poucos meses, eu comecei a trabalhar, em 1950.

 

P/1 – E o senhor como é que o senhor foi de Florestal para...

 

R – De trem.

 

P/1 – O senhor costumava andar de trem?

 

R – Costumava.

 

P/1 – Para onde que ia, quando o senhor era mais jovem?

 

R – Não, para Maraial, para Palmares mesmo, né?

 

P/1 – Era barato o trem?

 

R – Naquela época, era barato.

 

P/1 – Era pouquinho?

 

R – Era pouquinho.

 

P/1 – Como é que era o trem? Era bom, era gostoso?

 

R – Era bom, viagem boa. Muito bom o trem.

 

P/1 – Era Maria Fumaça, né?

 

R – Era, era muito bom o trem.

 

P/1 – Como era essa coisa de fagulha na roupa, não tinha isso se ficasse na janela?

 

R – Não, não tinha não.

 

P/1 – Então, o senhor veio para Palmares, tirou os documentos e começou como praticante oficial.

 

R – Foi. Ele enviou meus documentos para o inspetor do tráfego, que estava no Recife, aí, mandou marcar me oficializando como praticante oficial.

 

P/1 – Ele era o chefe da estação de Florestal. Em Palmares, o senhor foi trabalhar?

 

R – Não, fui fazer os exames.

 

P/1 – Só os exames?

 

R – Médicos. Porque o médico era em Palmares.

 

P/1 – E o senhor voltou para Florestal?

 

R – Voltei, voltei. Aí, comecei a ser praticante oficial. Depois de me oficializar, comecei a trabalhar como telegrafista.

 

P/1 – Junto ainda com o senhor Geraldo?

 

R – Junto.

 

P/1 – Como é que era, o senhor fazia um turno, revezava com o senhor Geraldo ou como é que era, o senhor ficava do ladinho dele?

 

R – É o seguinte, na época de safra tinha que abrir a estação à noite. Passaram o Geraldo para a noite, que ele era maior de idade, e, como eu era menor, me passaram para o dia. E o chefe da estação só fiscalizando. Eu trabalhava durante o dia.

 

P/1 – De que horas a que horas o senhor lembra?

 

R – De 6 às 18. E o Geraldo pegava de 18 às 6 da manhã.

 

P/1 – Vocês conversavam sobre o que é que estava acontecendo?

 

R – É tranquilo, era tudo direitinho, sem problema nenhum.

 

P/1 – O senhor ficou fazendo isso quanto tempo, seu Sebastião?

 

R – Eu trabalhei a primeira safra, depois eu fui dispensado. Porque, quando terminava a safra, dispensava os funcionários novos. Mas, na segunda safra, eu já peguei direto.

 

P/1 – Essa safra do açúcar que o senhor se refere é em que período, mais ou menos, do ano, só para a gente entender?

 

R – A safra do açúcar começava em agosto e ia até o mês de fevereiro. Quando foi na segunda safra, o Geraldo foi demitido e eu fiquei no lugar dele. Foi uma coincidência, ele foi demitido.

 

P/1 – O senhor ficou de noite, não? Já era maior, né?

 

R – Eu fiquei durante o dia e, na próxima safra, já veio uma pessoa para lá para a noite.

 

P/1 – Era muito trabalho, seu Sebastião?

 

R – Era muito trabalho.

 

P/1 – Como é que era, conta um pouquinho para a gente?

 

R – Muito trabalho. Eu larguei muitos dias duas horas da manhã, três horas, para abrir a estação às seis horas. Porque o noturno só tinha durante a safra. Mas quando não era safra a gente trabalhava durante o dia. E, às vezes, os trens atrasavam e eu largava uma hora da manhã, duas, três horas, para seis horas já vir abrir a estação.

 

P/1 – Não parava a noite inteira então? Trem para lá e para cá?

 

R – Era muito trem, muito trem. Trem de cana, trem de passageiro, trem de gado, trem de terra. Muita coisa, tinha tudo.

 

P/1 – Quais eram as linhas que passavam por ali, o senhor lembra?

 

R – A linha que passava ali era a de Garanhuns e Alagoas.

 

P/1 – As composições eram grandes?

 

R – Eram grandes, eram grandes.

 

P/1 – Quantos vagões mais ou menos?

 

R – Grande, razoável, né? Trinta vagões. Mas tinha raia, digamos, trens de Cinco Pontas, tinha trem de Cinco Pontas que partia com cento e tantos vagões.

 

P/1 – Nossa, senhor Sebastião, caramba.

 

R – (riso) É, tinha. Que eu trabalhei em muitos lugares depois.

 

P/1 – É, o senhor vai me contar. Puxa vida, mas era bastante então.

 

R – Era muita coisa.

 

P/1 – Eu queria perguntar uma coisa, voltando um pouquinho, quando o senhor era menino, o senhor brincava na estação? O senhor ia lá olhar os trens, como é que era? Ou o senhor não se interessava pelos trens?

 

R – Não, eu me interessava. Eu ficava olhando ali os trens e tal. Eu sempre fui muito interessado, muito interessado mesmo.

 

P/1 – Dava para ir lá à estação brincar ou o pessoal ralhava com vocês?

 

R – Não, eu não ia brincar, eu ia praticar. Eu nunca gostei de brincar não. Tanto que eu trabalhei na Rede 41 anos, nunca fui suspenso. Sempre gostei muito de chegar no horário certinho, trabalhar certinho, e os agentes de estação gostavam muito de mim.

 

P/1 – Então, o senhor tinha um cunhado que trabalhava. Depois, o senhor teve outros irmãos que foram trabalhar na Rede, senhor Sebastião?

 

R – Tenho. Tem o Ivanildo, que é mais velho do que eu. O Ivanildo foi admitido em 1943 na Rede. Teve o Irineu e o Gilvan.

 

P/1 – O Ivanildo fazia o quê?

 

R – O Ivanildo trabalhava como telegrafista. Iniciou como telegrafista também. Depois, ele foi transferido para o controle em Recife, para o Movimento de Trens, que controlava os trens todos.

 

P/1 – O Gilvan fazia o quê?

 

R – O Gilvan também foi telegrafista, mas foi removido logo também para o Controle, em Recife. E o Irineu foi condutor de trens poucos meses e foi transferido para o Controle também.

 

P/1 – Todo mundo começou assim, que nem o senhor, praticando um pouquinho?

 

R – O Irineu não. Porque o Irineu foi ser condutor e foi praticar para ser condutor.

 

P/1 – Já na máquina, já foi direto?

 

R – Exatamente, direto.

 

P/1 – Era todo mundo assim jovem?

 

R – É, todo mundo igual, jovem.

 

P/1 – Entrava muito menino?

 

R – Entrava muito menino, entrava muita pessoa nova, muito nova.

 

P/1 – Então, o senhor estava lá na estação de Florestal como telegrafista. O senhor ficou quanto tempo, mais ou menos?

 

R – Em Florestal, eu comecei em 1950, em 1952, eu fui transferido para a estação do Cabo. Porque a minha família foi morar toda em Recife, aí, eu fiz permuta com o telegrafista do Cabo.

 

P/1 – Para fazer a transferência tinha que achar alguém que pudesse...

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Eu permutei com o telegrafista Ramiro Costa. Ele veio para Florestal, porque a família dele era de Maraial. Como a minha família foi para Recife, eu fui trabalhar em Cabo, eu permutei com ele.

 

P/1 – E Florestal e Maraial é pertinho?

 

R – É pertinho.

 

P/1 – Quantos quilômetros?

 

R – São uns seis quilômetros.

 

P/1 – Ah, bem pertinho.

 

R – É pertinho, Maraial e Florestal.

 

P/1 – Então, para ele também foi bom, né?

 

R – É, foi bom, foi ótimo. Eu vim para o Cabo. Trabalhei no Cabo seis meses, depois de seis meses, o telegrafista de Boa Viagem faleceu. Eu já desci para Boa Viagem, já fiquei mais perto da família em Recife.

 

P/1 – E lá no Cabo era bastante movimento também? Como é que era?

 

R – Muito movimento.

 

P/1 – Do que, mais assim?

 

R – Dos trens.

 

P/1 – Era misto também?

 

R – Porque o trem que partia de Cinco Pontas, meia-noite e vinte, chegava no Cabo com cento e vinte vagões. Aí, lá tinha que dividir porque do Cabo para Mauá é uma rampa. Parte um trem com sessenta vagões e o outro com sessenta, dividia no Cabo.

 

P/1 – Dividia em dois.

 

R – É, em dois.

 

P/1 – Punha uma outra máquina...

 

R – É, já tinha máquina esperando lá.

 

P/1 – Ele partia meia-noite e vinte e que horas que ele chegava no Cabo, mais ou menos?

 

R – Chegava no Cabo umas duas horas da manhã. Era o CS1. Esse saía do Cabo com o restante da composição é o CS19. Mas no Cabo é muito serviço, muito serviço mesmo. Lá, eu trabalhava no Cabo 24 horas. Era 24 por 24. Era eu e Edson Marques, nós trabalhávamos 24 por 24. Porque lá tinha bilheteiro e tinha o chefe. Agora, os telegrafistas revezavam 24 por 24, a gente trabalhava muito.

 

P/1 – Senhor Sebastião, o pessoal de estação todo mundo fazia um pouco de tudo?

 

R – Fazia de tudo.

 

P/1 – Todo mundo ajudava um pouquinho?

 

R – Ajudava, ajudava. Agora, só que nem todo mundo entendia muito de telegrafia, né? Muitos iam ser bilheteiro. Ser bilheteiro, fazer o despacho. Mas graças a Deus, eu sempre entendia de tudo.

 

P/1 – O despachante fazia o quê, senhor Sebastião?

 

R – Despachava.

 

P/1 – Despachava o quê? Carga?

 

R – Mercadoria, tudo, açúcar, toda mercadoria, bagagem, tudo.

 

P/1 – O senhor se lembra de alguma mercadoria que foi engraçada despachar?

 

R – Não, porque naquela época se despachava tudo, né?

 

P/1 – Tudo?

 

R – Era bode, era cachorro, era galinha. Tudinho era trem, tudo era trem. Animais.

 

P/1 – Os bichos não brigavam lá?

 

R – Não, não, eram comportados naquela época. (risos) Eram comportados. A gente despachava tudo.

 

P/1 – Quando o trem chegava na estação era uma farra ou era normal?

 

R – Não, era aquela alegria. Principalmente no interior, né? Aquela alegria, estação cheia, muita gente, aquela festa.

 

P/1 – Aí, quem tinha bode ia pegar o seu bode, quem tinha galinha pegava a sua galinha. Era assim que era?

 

R – Era, era, pegava, exatamente.

 

P/1 – E sempre foi uma festa no interior?

 

R – Sempre foi.

 

P/1 – O senhor trafegava para o interior também? O senhor ia passear de trem de vez em quando?

 

R – Mas vai chegar lá. É porque naquela época não existia banco. Toda a renda vinha pelo trem. Tinha aquele cofre de ferro. O cofre bem grande de ferro para colocar a renda.

 

P/1 – O salário do pessoal que estava...

 

R – Não, toda a renda da estação se enviava para Recife, tudinho. Tinha aquelas bolsas de couro, tinham que ir lacrada, colocar o carimbo. Era muito seguro. Porque não tinha banco, não tinha nada. E naquela época a gente tinha o trem pagador, né? De quinze em quinze dias, tinha o trem pagador, para pagar o pessoal.

 

P/1 – Para pagar, tinha algum, quando o trem pagador vinha tinha algum esquema especial, os telegrafistas tinham que fazer alguma coisa diferente ou era normal?

 

R – Não, normal.

 

P/1 – Ele era tratado como se fosse um outro trem?

 

R – Normal.

 

P/1 – Não tinha nada de abrir outras linhas diferentes?

 

R – Não, não tinha nada não, era normal.

 

P/1 – E era comum, né?

 

R – É, era normal.

 

P/1 – Todo mês tinha o trem pagador.

 

R – Só que é um trem que é aquela segurança, né? Todo fechado, muito cuidado. O pagador vinha pagando o pessoal, porque naquela época recebia de quinzena e fim de mês. Aí, tinha o abono naquela época que pagava na quinzena.

 

P/1 – Então, duas vezes por mês esse trem passava.

 

R – Duas vezes por mês.

 

P/1 – E ele ia percorrendo todas as estações?

 

R – É, todas as estações.

 

P/1 – E cada estação ele tinha aquele pacotinho...

 

R – Fazendo pagamento e também distribuindo materiais para as estações: blocos, lápis, caneta, tudinho. Os pedidos que a gente fazia vinham pelo trem pagador.

 

P/1 – O senhor passava também esses pedidos de...

 

R – Passava tudo.

 

P/1 – Tinha que passar, né?

 

R – Tinha que passar tudo.

 

P/1 – Tinha também os telegramas das pessoas?

 

R – Tinha telegrama. Serviço telegráfico era muita coisa. Principalmente época de política.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Era muita coisa.

 

P/1 – Me conta, como é que era? Os políticos ficavam passando telegrama?

 

R – É, passavam muitos, muitos, telegramas. Por isso que, naquela época, a gente tinha bons telegrafistas. Naquela época, a gente tinha que ter bom telegrafista, porque se não fosse, não podia exercer.

 

P/1 – O que é ser um bom telegrafista?

 

R – É transmitir bem e receber bem também. Tem que ter uma audição muito boa.

 

P/1 – Para ouvir aqueles...

 

R – Para aquela pancadinha, aquilo ali é muito...

 

P/1 – Aí como fazia? O senhor escrevia?

 

R – Escrevia tudinho.

 

P/1 – Tudinho à mão? Passava a limpo depois?

 

R – Não.

 

P/1 – Ou já fazia direto, bonitinho.

 

R – Não, já fazia certinho, eu não passava a limpo não. Agora tinha gente que passava, mas eu nunca passei não. Graças a Deus eu...

 

P/1 – Deve ter uma letra bonita então.

 

R – Eu procurava fazer a coisa certinha, né?

 

P/1 – Então, o senhor veio depois para Boa Viagem.

 

R – Vim para Boa Viagem.

 

P/1 – Ficou seis meses no Cabo...

 

R – Trabalhei em Boa Viagem quatro anos.

 

P/1 – Também como telegrafista?

 

R – Foi como telegrafista. Depois de Boa Viagem, eu vim para Cinco Pontas porque eu peguei uma pneumonia. Vim para Cinco Pontas porque ficava mais perto de casa. Trabalhei em Cinco Pontas só seis meses, depois retornei para Boa Viagem porque o chefe de Boa Viagem gostou muito de mim. De mim não, do meu trabalho, né? Pediu para eu retornar para lá.

 

P/1 – Boa Viagem também era agitado?

 

R – Era, muito serviço, era muita coisa.

 

P/1 – O trem passava em todas essas estações, é isso?

 

R – Passava, passava.

 

P/1 – Menos aquele que chegava lá em Cabo e dividia.

 

R – Não, passava em Boa Viagem também, passava tudo por ela.

 

P/1 – Aquele grandão.

 

R – É o CS1. Cento e tantos vagões.

 

P/1 – Quer dizer que o movimento era sempre o mesmo?

 

R – Era o mesmo, era o mesmo.

 

P/1 – Em Boa Viagem, também o senhor trabalhava 24 por 24?

 

R – 24 por 24. Era eu e Luis de França, já falecido já.

 

P/1 – E o senhor ficou um pouquinho em Cinco Pontas...

 

R – Seis meses, depois retornei para Boa Viagem. E, no ano de 1958, eu fui promovido. Eu fui promovido a chefe substituto. Agora, o que é chefe substituto? É conceder férias aos agentes, por merecimento, eu fui promovido a chefe substituto. Aí passei, em 1958, a conceder férias aos agentes. Fui para o quadro dos agentes substitutos, que era um quadro que tinha, né? Digamos, de oito agentes substitutos, aí, me botaram no quadro. Comecei a trabalhar em todas as estações. Eu trabalhava em todas as estações o ano todo, em dezembro eu saía de férias.

 

P/1 – Que era, justamente, trabalhava durante as férias do chefe da estação daquele lugar.

 

R – Do lugar. Eu ia, digamos, para Garanhuns, concedia férias lá, trinta dias. Quando terminava, ia para outra estação. Quando era em dezembro, eu saía de férias. Eu passei seis anos.

 

P/1 – Mas eu queria voltar uma coisinha: o senhor falou que o senhor foi promovido por merecimento. Isso era comum, a promoção por merecimento? A companhia fazia muitas dessas promoções por merecimento?

 

R – Fazia, fazia, fazia.

 

P/1 – O que é que era o merecimento? Funcionário que não faltava, que chegava no horário.

 

R – Exatamente, aliás, quando eu fui promovido, eu nem esperava, né? Não esperava não, porque realmente eu não faltava no trabalho, eu não chegava atrasado. Aí, sempre eles fazem muito pela pasta de cada funcionário. Eu fui escolhido para ser chefe substituto.

 

P/1 – O senhor ficou feliz?

 

R – Fiquei.

 

P/1 – De salário era muito maior o que o senhor ia ganhar?

 

R – Era maior.

 

P/1 – Bem maior? Quanto era assim, mais da metade, como é que era? Só para a gente ter uma ideia.

 

R – Não era mais da metade não.

 

P/1 – Mas era mais?

 

R – Mais ou menos cinquenta por cento.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – Viu, agora, eu passei seis anos.

 

P/1 – Fazendo isso. Mas não era ruim, senhor Sebastião, ficar cada hora num lugar? Não era muito sacrifício também ficar pulando de...

 

R – Não, mas se acostuma.

 

P/1 – Acostuma?

 

R – Eu achei foi bom. Passei seis anos. Eu só saí, em 1964, porque me casei. Aí tinha que sair.

 

P/1 – Tinha que sossegar.

 

R – Aí foi que eu peguei uma estação como efetivo.

 

P/1 – E conta para a gente como é que era essa vida para lá e para cá? As estações eram muito diferentes? Como é que o senhor era recebido pelas pessoas?

 

R – Não, eu era recebido muito bem. Só que as pessoas não gostavam muito porque eu era muito exigente em horário, em tudo.

 

P/1 – O senhor era bravo?

 

R – Não, eu não, eu sempre fui calmo. Teve, quando eu fui dar as férias do chefe de Gameleira, o telegrafista insistiu muito para eu ir num aniversário na casa dele, insistiu muito, o José de Souza. Eu fui pela insistência. Ele era um rapaz que bebia muito, eu fui. Fui para a casa dele, tudo. No dia seguinte, ao invés dele chegar às seis horas da manhã chegou às oito. Eu, quando ele chegou, disse: “Não, pode voltar que eu já botei uma pessoa no seu lugar.” Eu não trocava a festa pelo serviço, entendeu? O meu ritmo de trabalho é um ritmo certinho, né? Eu não brigava com ninguém. Eu sempre trabalhei certo, no horário.

 

P/1 – Com muita disciplina.

 

R – Muita disciplina. Porque, naquela época, o chefe de estação era muito disciplinado, era muito disciplinado mesmo.

 

P/1 – Era muita responsabilidade, né?

 

R – Era muita responsabilidade.

 

P/1 – O que fazia um chefe de estação, senhor Sebastião?

 

R – O chefe de estação era mais supervisional. Conferir todo o serviço, é muita coisa para conferir tudo direitinho.

 

P/1 – A parte do telegrafista, do despachante.

 

R – É, despachante, do bilheteiro. Tinha as taxas de telegrama também que é muita coisa. A estação é muita responsabilidade.

 

P/1 – E o senhor fazia reunião todo dia ou não? O senhor só ia como chefe, o senhor só ia passando e olhando os serviços ou reunia todos os...

 

R – Não, a gente reunia também.

 

P/1 – Reunia?

 

R – Reunia.

 

P/1 – Fazia como isso, uma vez por semana, todo dia?

 

R – Não, todo mês.

 

P/1 – Reunia todo mundo, conversava...

 

R – Sempre reunia, sempre reunia.

 

P/1 – Sei. Tinha uma estação que o senhor gostava mais?

 

R – Tinha.

 

P/1 – É, qual?

 

R – Não tinha, porque eu pegava muitas estações quando eu era substituto, que não tinha hotel, né? Aí, tinha que cozinhar, passava o mês todinho cozinhando. Quando pegava uma cidade era melhor, né? Como Gameleira.

 

P/1 – Que aí ficava no hotel.

 

R – Angelim... Porque aí tinha hotel, tudo. Eu passei numa chamada Linda Flor, no ramal de Cortejo. Quatro meses, não tinha nada. Cozinhei, passei, quatro meses. Foi até bom porque eu aprendi! Aprendi a cozinhar e tudo. Foi bom.

 

P/1 – Pedia socorro para a mãe para ensinar ou não?

 

R – Não, não. Eu aprendia mesmo. Tanto que em casa hoje eu cozinho melhor do que a mulher. (risos)

 

P/1 – E o senhor morava aonde? Porque o chefe da estação mesmo de férias ele tinha a casa dele, não é isso?

 

R – Mas, eu como substituto, a minha residência era em Recife. Porque eu era solteiro, né?

 

P/1 – Sim, mas quando o senhor chegava numa estação, o senhor ia morar onde?

 

R – Na estação.

 

P/1 – Na própria estação?

 

R – É que eu andava com uma mala, uma cama e uma rede. Eu já andava pronto. Andava prontinho.

 

P/1 – O senhor andava com uma cama? Como assim?

 

R – Com fogareiro e tudo, porque a estação que não tinha hotel eu tinha que cozinhar. Eu já andava pronto.

 

P/1 – Sei, então ficava na estação mesmo?

 

R – Na estação, no armazém da estação.

 

P/1 – Ah, mas era ruim, não era, seu Sebastião?

 

R – Era bom.

 

P/1 – Era bom?

 

R – Era bom. Tanto que, às vezes, eu tenho saudade daquela época. Eu fui inspetor do tráfego, mas não tenho saudade não porque era muito quebra-cabeça, mas daquela época eu tenho. Porque era um mês cada lugar, aí se tornava aquela vida boa.

 

P/1 – E aí tinha um cantinho no armazém que o senhor ficava?

 

R – Tinha, tinha.

 

P/1 – Então, o senhor levava a rede, agora cama não era cama de verdade?

 

R – Não, eu levava cama, minha cama era minha cama patente, minha rede, uma mala com tudo, roupa tudo. Andava pronto já. Com medicamento, com tudo, andava pronto. Era solteiro, né? Aí pronto. E era uma vida boa.

 

P/1 – É? Por que é que era boa?

 

R – Porque a gente namorava muito, e tudo. A gente chegava era aquela vida bacana. Passava um mês num lugar. Quando terminava, já ia para outro lugar. Era uma vida boa, eu gostei muito.

 

P/1 – Era mesmo.

 

R – Era muita... (riso)

 

P/1 – E aí namorava muito, é isso?

 

R – Namorava muito. Aí, era novo também, né?

 

P/1 – Era bacana ser chefe da estação, não era? As meninas gostavam?

 

R – Gostavam.

 

P/1 – Nesse período que o senhor namorava fazia o quê? Ia na cidade, no cinema, na pracinha? Como que era esse namoro?

 

R – Eu ia na cidade, na cidade, eu não era muito de cinema não.

 

P/1 – E ficava passeando?

 

R – Passeando, era de passear somente.

 

P/1 – Tomava um sorvete, como é que era, senhor Sebastião?

 

R – É, exatamente. Tomava um sorvete, um guaraná, entendeu? Minha vida sempre foi assim. Depois, foi que eu me casei, fui transferido para o Movimento de Trens, em Recife. A coisa melhorou para mim porque quando eu fui transferido para o Movimento de Trens já tinha o meu irmão Gilvan, que tinha mais de vinte anos lá, o Irineu tinha mais de vinte anos também. O Ivanildo era chefão lá. Aí, eu cheguei lá e passei à frente dos dois. Eu fui chefe de turma, fui encarregado e dei férias ao inspetor do movimento, dei férias ao inspetor do departamento. Agora, tudo isso porque era disciplina. Cheguei e o pessoal disse para Ivanildo: “O seu irmão é muito...” Daí Ivanildo: “Não, ele é assim mesmo.” Eu gostava de tudo certinho, né? Foi de lá que deu a vaga em Cinco Pontas de inspetor do tráfego e tinha muitos candidatos. Eu nem sabia. Eu estava até indicando também. O doutor Gilvan de Carvalho disse para meu irmão: “Eu vou querer Sebastião como inspetor, porque Sebastião é muito exigente.” Em 1972, eu fui promovido para inspetor do tráfego. Ficaram as estações de Pernambuco todas comigo: 73 estações ficaram todinhas comigo. Eu fui promovido, 1972. Tinha também a Inspetoria de Pessoal de Trem. Quando foi em 1974, o doutor Milton Dantas mandou me chamar. Foi até uma surpresa: “Sebastião, a partir do dia primeiro, eu vou passar a Inspetoria do Pessoal de Trem para você também, porque seu serviço é muito bom.” Aí tirou o inspetor, o Benedito Vieira saiu e eu acumulei duas inspetorias por dezenove anos.

 

P/1 – Nossa, seu Sebastião, caramba, bastante, né?

 

R – (riso) Foi. Dezenove anos.

 

P/1 – Queria lhe perguntar o seguinte, o senhor casou em 1964. Como é que foi? O senhor pediu então para ficar, para vir para Recife. O senhor estava naquela coisa de chefe...

 

R – Eu não pedi.

 

P/1 – Não pediu?

 

R – Eu não pedi. Quando eu me casei, fui para a estação de Frei Caneca, efetivo, né? Casado, eu fiquei lá. De lá, eu fui transferido para Timbó-Açu. De Timbó-Açu eu fui transferido para a estação de Mercês. Aí, Mercês fechou, fecharam Mercês. Como Mercês fechou, me ofereceram o Movimento de Trem e eu fui para lá, entendeu?

 

P/1 – E a sua esposa, o senhor a conheceu como?

 

R – No interior, Palmares. Eu me casei em Palmares.

 

P/1 – Foi lá na estação também, um dia ela apareceu?

 

R – Na cidade mesmo.

 

P/1 – É? Como é que foi isso? O senhor olhou para ela, gostou?

 

R – Foi, gostei, pronto. Aí me casei.

 

P/1 – Ela também gostou do senhor?

 

R – Exatamente, exato, é.

 

P/1 – Namoraram bastante tempo?

 

R – Foram dois anos.

 

P/1 – Ela ficou andando com o senhor quando o senhor ficou nessas estações que o senhor citou agora pouco, ela acompanhou?

 

R – Na época que eu era solteiro não. De Frei Caneca, Timbó-Açu, aí ela foi. Porque eu já era titular. Ela acompanhou.

 

P/1 – E o senhor tinha uma casa quando chegava nessas estações?

 

R – Tinha a casa do chefe.

 

P/1 – Eram casas boas, senhor Sebastião?

 

R – Eram casas boas.

 

P/1 – Eram grandes?

 

R – Eram grandes, boas. A casa era boa. Foi quando eu fui promovido a inspetor, foi muita batalha, muito serviço, muita coisa.

 

P/1 – No Movimento de Trens, o que é que faz alguém nessa função?

 

R – Não, lá é controlar os trens, porque a gente vai para lá como controlador de trens, controla os trens. Daí, de acordo com a capacidade de cada um, vai ser chefe de turma, vai chefiar uma turma, que eram cinco, e assim vai. Depois, vai ser encarregado do movimento, vai ser inspetor do movimento e assim vai, de acordo com o merecimento de cada um.

 

P/1 – Como é que controlava, eram mapas? Como é que fazia esse controle do movimento de trens?

 

R – É uma ficha, tem as fichas.

 

P/1 – Cada máquina?

 

R – Cada ficha é um trem.

 

P/1 – E ali tinha o quê? O tipo da máquina, o número de vagões?

 

R – É tudinho, máquina, os vagões tudo.

 

P/1 – O percurso?

 

R – Tudinho, tudinho, tinha os horários, tinha tudo. A gente trabalhava com os horários todos certinhos.

 

P/1 – Os trens costumavam atrasar?

 

R – Atrasava muito, tinha muito acidente também.

 

P/1 – Que tipo de acidente, senhor Sebastião?

 

R – Às vezes, é carreira, né? A máquina corria muito. Às vezes, era grampo na linha, acontecia muito isso.

 

P/1 – Grampo na linha é o quê?

 

R – O pessoal coloca cabo, grampo na linha, né? Às vezes, descarrilhava. Sempre acontecia muito isso.

 

P/1 – Mas o pessoal punha de maldade isso?

 

R – De maldade.

 

P/1 – O que é que é? Um ferro?

 

R – É um grampozinho, é um ferrozinho. Às vezes, era carreira também, constatado que era carreira. Às vezes, era uma peça do vagão que caía no momento que o trem ia trafegando aí descarrilhava o trem. Tinham vários motivos.

 

P/1 – Nessa época que a gente está falando, era mais ou menos anos 1960, 1970, então, tinha bastante esses acidentes.

 

R – É, tinha.

 

P/1 – Teve algum que foi grave, senhor Sebastião?

 

R – Tinham muitos, tinham muitos.

 

P/1 – Morreu gente?

 

R – Morreu. Quando eu estava em Boa Viagem mesmo, o CS1 descarrilhou nas agulhas e o condutor do trem, o condutor Jorge, morreu. E foi em 1956.

 

P/1 – Que pena. Descarrilhar na agulha o que é que seria? É um...

 

R – Não, porque o guarda-chave não foi para agulha. O trem partiu de Cinco Pontas, em vez de ir para as agulhas, ficou no meio do caminho. Aí, sem entrar na agulha, o trem virou, o CS1. Ficou quase uma semana, a linha toda impedida, aquela confusão medonha.

 

P/1 – Morreu o condutor e mais alguém, não?

 

R – Não.

 

P/1 – Era trem de carga?

 

R – Trem de carga. Houve acidente, mas o condutor morreu.

 

P/1 – Então, o senhor que controlava com essas fichas, tinha que saber tudo direitinho por onde eles estavam passando.

 

R – É tudo, é.

 

P/2 – Tinha algum trecho mais difícil?

 

R – Tinha. Tinha o trecho difícil que era o Ramal de Barreiro, que era muito difícil. De lá descarrilhava muito trem, mas lá era problema da linha mesmo. A linha mesmo, porque a linha...

 

P/1 – Ela tinha um defeito?

 

R – Não, a linha mesmo que era no barro, depois foi que colocaram pedra, mas a linha de Barreiro descarrilava muito trem, muito trem mesmo.

 

P/1 – E quando descarrilhava o que é que fazia? Levava o trem até a oficina?

 

R – Não, mandava socorro.

 

P/1 – Mandava o socorro, depois?

 

R – Mandava o trem de socorro para recarrilhar.

 

P/1 – De vez em quando precisava tirar o...

 

R – De vez em quando, virava, aí mandava guindaste.

 

P/1 – Esse guindaste ele ia pelo próprio trilho ou ele ia de...

 

R – Pelo trilho, pelo trilho.

 

P/1 – Então, o senhor estava controlando...

 

R – E quando havia descarrilhamento, digamos, com trem de açúcar, né? Quebrava vagão de açúcar, a gente tinha que mandar o socorro, o guindaste, tinha que baldear também, né? A gente tinha que mandar o vagão vazio para o trecho para baldear.

 

P/1 – Para tirar o açúcar.

 

R – Para tirar o açúcar de um vagão para o outro.

 

P/1 – Mas vocês tinham uma estrutura que resolvia isso rápido, senhor Sebastião?

 

R – A gente tinha.

 

P/1 – Já sabia, já...

 

R – Resolvia, é.

 

P/1 – Como é que vocês ficavam sabendo do acidente? Como é que se comunicavam, pelo telégrafo, né?

 

R – É. Porque se o trem virava num trecho, o maquinista comunicava para o Movimento, porque ele tinha telefone na máquina.

 

P/1 – Ah!

 

R – É, tinha telefone na máquina: “O trem virou aqui no plano tal, tal.” Pronto, a gente tomava todas as providências.

 

P/1 – O senhor falou que o senhor estava aqui no Movimento de Recife, então, teoricamente, era o senhor que recebia essa ligação.

 

R – É, o pessoal daqui, não era eu só porque tinham vários, né? A gente que recebia tudo isso aí.

 

P/1 – Vários porque eram, cuidavam de vários trechos ou porque tinha...

 

R – Não, porque cada linha tinha um controlador. Digamos a Linha Tronco Sul, um controlador; a Linha Tronco Norte, um controlador. A Linha de Salgueiro, um controlador. O Subúrbio, que era muito trem de subúrbio, tinha controlador. Cada um tinha a sua linha para controlar os trens. A gente trabalhava seis horas.

 

P/1 – Era mais tranquilo, né? Um pouquinho mais tranquilo.

 

R – É, a gente só trabalhava mais quando a gente trabalhava à noite. Porque pegava das 21h30 às 7h da manhã. Aí, era um horário muito puxado.

 

P/1 – E tinha movimento também?

 

R – Tinha, muito movimento e era muita responsabilidade também, né? Para a gente era muita responsabilidade.

 

P/1 – Porque tinha que controlar qual linha abria, fechava.

 

R – Exatamente, tudo direitinho. Era muita responsabilidade.

 

P/1 – Então o senhor ficou um tempinho, depois o senhor foi promovido a inspetor.

 

R – Foi inspetor de tráfego.

 

P/1 – O senhor foi para algum lugar ou continuou em Recife.

 

R – Não, Recife, eu fui para Cinco Pontas. Cinco Pontas, que é Recife mesmo.

 

P/1 – Porque o inspetor é por estação ou... Não, o senhor disse que o senhor ficou com todas, foi isso?

 

R – Setenta e três estações. Que a senhora vê o Metrô de Recife hoje, cada inspetor tem duas estações, duas. Porque eu tenho dois filhos que trabalham no Metrô.

 

P/1 – Uma turminha que continuou então.

 

R – Quer dizer, cada inspetor tem duas estações. Eu tinha setenta e três. Meu filho hoje se admira. Ele conta tudinho lá: “Meu pai chefiou, rapaz, setenta estações, aqui é só duas?” (riso) A coisa mudou muito, né?

 

P/1 – Mas a sede então da Inspetoria era em Cinco Pontas.

 

R – Era em Cinco Pontas.

 

P/1 – Aí cuidava de tudo.

 

R – Quando, em 1974, passaram a Inspetoria de Trem para mim também, eu dava dois expedientes. Dava o expediente em Cinco Pontas de manhã e, à tarde, na Central, na Inspetoria de Trem. Depois foi que juntou. Aí, eu passei dezenove anos com mil e poucos funcionários. Era muita coisa.

 

P/1 – Que é que fazia um inspetor de tráfego?

 

R – Muita coisa. Era muita. Eu trabalhava de domingo a domingo. Eu peguei uma estafa que passei dezoito dias em cima da cama. É muita coisa. Não é brincadeira não. O inspetor de tráfego faz tudo. Brincadeira, setenta e três estações. A gente tem que cuidar de tudo, é fardamento de pessoal, é disciplina, é tudo, né? Comunicação demais. Só o meu escritório tinha trinta pessoas. Porque cada um tinha sua tarefa. Cada um tinha sua tarefinha. Tinham as coisas de fardamento, tinham as coisas de licença médica e as coisas de punição, que punição era muita coisa. Cada um tinha sua tarefa.

 

P/1 – Punição de que tipo, senhor Sebastião?

 

R – Se o camarada errava, tinha que punir. O camarada chegou atrasado, o inspetor passava e via o funcionário sem fardamento ou com fardamento incompleto, comunicava. Aí, tinha que o quê? Suspender, né? Tinha muita coisa.

 

P/1 – Tinha muitos funcionários, né, setenta e três...?

 

R – Tinha muito, setenta e três estações, muitos funcionários.

 

P/1 – Porque o inspetor ele está acima do chefe da estação na hierarquia?

 

R – Está acima.

 

P/1 – Ele também fiscaliza o chefe da estação.

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Mas esse trabalho era só meio período?

 

R – Meio período, como assim?

 

P/1 – Esse trabalho era de seis horas, do inspetor?

 

R – Não, não, não. Um dia todo e à noite toda. Às vezes, a gente estava em casa o telefone era direto. Era direto.

 

P/1 – O senhor estava me dizendo que era muito trabalho, que o senhor trabalhava à noite também. Como é que era esse cotidiano? O senhor acordava, ia para a estação, aliás, para a Inspetoria e ficava até?

 

R – Nós largávamos às seis horas quando estava tudo normal. Às vezes, quando tinha acidente na linha, o inspetor do tráfego não podia sair assim, né? Muitas vezes, eu ia para casa e, de madrugada, o telefone chamava para resolver o problema, falta de pessoal e tudo.

 

P/1 – Tinha uma linha direta para a sua casa?

 

R – Tinha, da Rede. Uma linha direta já para isso já.

 

P/1 – Não era um telefone comum. Era uma linha que ele comunicava diretamente com o senhor.

 

R – É, exatamente.

 

P/2 – Eu queria saber como é que era o fardamento. O senhor falou que tinha um setor que só cuidava de olhar...

 

R – Não, na Inspetoria tinha um setor só de fardamento de pessoal para as estações. Porque nas estações não usava fardamento? Tinha um setor só para cuidar de fardamento.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Porque tinha um prazo. A farda era cáqui. Cada telegrafista ou cada chefe de estação recebia três fardamentos. Agora, tinha aquele prazo, né? Aí o setor de Fardamento tinha que ficar atento para quando chegasse aquele prazo, digamos, um ano ou dois aí já pra cobrar. Se a pessoa precisava, entendeu?

 

P/1 – Como é que era? Era calça, camisa, como é que era?

 

R – Era calça cáqui, paletó cáqui, camisa branca e gravata preta.

 

P/1 – Tinha o quepezinho, né?

 

R – E o quepe, exatamente.

 

P/1 – Todo mundo usava quepe ou só alguns?

 

R – Todo mundo usava quepe. Na estação, todo mundo usava quepe.

 

P/1 – Sim, o telegrafista, o despachante, todo mundo.

 

R – Tudo, tudo, tudinho.

 

P/1 – E tinha uma identificação no quepe, senhor Sebastião, ou não? Não tinha uma plaquinha que dizia?

 

R – Tinha, tinha uma plaquinha.

 

P/1 – Que dizia a função?

 

R – No caso, digamos, o inspetor passava, se visse um telegrafista, ou um despachante, ou um chefe sem quepe, comunicava. Mandava para a Inspetoria e pronto, era suspenso.

 

P/1 – Mas mesmo dentro do prédio tinha que usar o quepe?

 

R – Tinha que usar. Uma vez um chefe de estação foi suspenso porque o inspetor passou lá e ele estava sem um botão do paletó. Ele comunicou, foi Neldo Silva, foi suspenso. Era muita coisa. A gente tinha que andar direitinho.

 

P/1 – Isso tanto na época da Great Western of Brazil Railway, como na época da Rede, senhor Sebastião?

 

R – A Great Western foi até 1949, né? Que passou para o governo, para a Rede Ferroviária, em 1950. Mas só que o sistema se alastrou, né? Quer dizer, seguiu o sistema. Porque na Great Western era muita caxiagem, muita caxiagem. Só que quando passou para o governo em 1950, mas seguiu o regime, não foi parado isso não, seguiu o regime ainda. Foi uns oito anos ou mais. Porque a turma, né? A coisa ainda naquela época era muito caxias, era demais, muito caxias mesmo. E a gente que trabalhava com eles ia pegando a caxiagem também, né? Aí pronto. A pessoa só era promovida também se tivesse aquele regime do chefe, de ser caxias, exigente, tudinho.

 

P/1 – Onde comprava essas fardas, senhor Sebastião, vinha...?

 

R – No bazar.

 

P/1 – Num bazar?

 

R – Aqui em Recife, ia daqui tudinho. A estação fazia o pedido, o chefe fazia os pedidos já com a medida tudo direitinho, aí já ia daqui.

 

P/1 – Mas era igual em toda essa extensão, é isso?

 

R – É.

 

P/1 – E aqui em Recife o bazar fornecia para todo mundo?

 

R – É, fornecia tudinho.

 

P/1 – Ah, que bom, era mais fácil, senhor Sebastião?

 

R – É, exatamente, era mais fácil.

 

P/1 – E se a pessoa quisesse ir lá e comprar, por exemplo, o moço que estava sem um botão, se ele quisesse comprar por conta própria, vendia também?

 

R – Vendia.

 

P/1 – Ou só pela Rede?

 

R – Não, vendia. Meus fardamentos eu não pedia à Rede não, eu fazia. Porque ficava mais, né? Porque o da Rede vinha meio... Eu mandava fazer o meu fardamento.

 

P/1 – Ah, porque o senhor fazia sob medida?

 

R – É, fazia sob medida direitinho, ficava mais tranquilo.

 

P/1 – Ficava mais elegante, né?

 

R – É. Porque, naquela época, a gente usava fardamento, podia ser o fardamento cáqui, podia ser o fardamento branco e podia ser o fardamento azul. No domingo, a gente podia se apresentar de azul, todo de azul ou todo de branco, né? Um domingo, um feriado, para não usar só caqui. Tinha esse fardamento como se fosse fardamento de gala, né? Aí, boné branco, roupa branca, fica tudo...

 

P/1 – Ai, que bonito.

 

R – Porque tem aquele que gostava de ser mais jeitoso. Aquele que não gostava, vestia caqui mesmo o tempo todo.

 

P/1 – Por que aí também é a calça, o paletó, a camisa branca...

 

R – A mesma coisa.

 

P/1 – E aí, a gravata e...

 

R – E os botões dourados, né? Eu mesmo usava os botões dourados. Não era todo mundo.

 

P/1 – E a gravata do fardamento azul era que cor?

 

R – Era preta. E do branco, era preta também.

 

P/1 – Ah, que bonito ficava.

 

R – Era.

 

P/1 – O senhor tinha as três fardas?

 

R – Eu tinha as três. Porque tinha dia de domingo, tinha os feriados todos aí, a gente se apresentava melhor.

 

P/1 – Quer dizer que quando a Rede comprava era aquela numeração...

 

R – Aí vinha aquela, o pessoal dava de qualquer jeito.

 

P/1 – E usava sapato, senhor Sebastião, ou era bota?

 

R – Sapato preto.

 

P/1 – Meia preta, tudo direitinho?

 

R – É.

 

P/1 – Gostei dessa coisa de farda diferente, fica bonito.

 

R – Realmente é diferente, fica bonito.

 

P/1 – E sob medida, eu concordo, o senhor Sebastião é um homem elegante, muito bem.

 

R – Eu mandava fazer meus fardamentos, eu andava certinho. Tanto que uma vez o inspetor Alfredo Fernandes, eu estava chefiando Mercês. Ele disse: “Sebastião, quem se traja melhor é o senhor.” Ah, isso é bom, né? “O senhor se traja muito bem.”

 

P/1 – Quer dizer que se viesse alguma visita, por exemplo, importante, podia usar a farda...

 

R – É, exato, podia.

 

P/1 – Teve alguma que o senhor lembra, senhor Sebastião, que veio assim, algum governador, algum político?

 

R – Tiveram várias.

 

P/1 – Conta uma para mim, que o senhor lembra.

 

R – Em Boa Viagem mesmo, chegaram aqueles militares mesmo, eles diziam: “Mas o chefe daí anda muito bem, todo alinhado.” Eu sempre gostei de andar certinho, é de mim mesmo, entendeu? Tanto que eu tenho setenta e cinco anos, a turma pensa que eu tenho cinquenta, né? (riso) Mas eu tenho setenta e cinco, que eu estou caprichado.

 

P/1 – Está ótimo mesmo, não parece.

 

R – Eu falo: “Eu vou caprichar.” Não é bom? Porque tem aposentado aí com cinquenta anos está todo desmantelado, não está? (riso) Eu tenho que caprichar, andar direitinho, né?

 

P/1 – Está certo.

 

R – Tem que andar direito.

 

P/1 – Então, o senhor tinha trinta pessoas trabalhando com o senhor, era superintendente?

 

R – No escritório.

 

P/1 – No escritório. Então o senhor falou de farda, falou de punição...

 

R – Serviço de apontamento. O apontamento era todo feito lá, que hoje é tudo computador, mas tinha apontamento todo manual. Era, tudo lá. Passe também, tinha somente um funcionário para extrair passe.

 

P/1 – Cuidava também do dinheiro que arrecadava nas estações?

 

R – Não, lá não entrava não. O dinheiro era outro setor já. Correspondência, pessoal para máquina, para redigir também. Era muita coisa. Tinha o escritório todo...

 

P/1 – O senhor teve bons chefes trabalhando junto com o senhor?

 

R – Tive, tive, Graças a Deus tive. Aprendi muita coisa com bons chefes. Os chefes todos caxias, aprendi muita coisa. E, Graças a Deus, eu sou uma pessoa que ainda sigo o mesmo ritmo.

 

P/1 – Todo mundo era caxias e todo mundo se dava bem?

 

R – Todo mundo. A senhora viu quando a gente desceu ali aquele rapaz? O pessoal é doidinho que eu vá para a Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN). Eu não quero. A eleição vai ser em abril. Se eu entrasse ganhava tranquilo. Porque todo mundo quer: “Poxa, Sebastião, vem para cá, vem para cá.” Mas não quero não. Porque eu não gosto dessas coisas cheias de política, eu não gosto não.

 

P/1 – Quando foi que eles resolveram juntar, o senhor disse que era Inspetoria...

 

R – Juntou as duas Inspetorias para mim o doutor Milton Dantas: “Sebastião, eu vou juntar porque você é uma pessoa muito disciplinada.” Quando foi em 1987, não sei se foi 1987, 1988. Aí, me promoveram a supervisor geral de transporte. Tinham três candidatos, três. Um de Mossoró, o meu irmão, o Ivanildo, e eu. Aí me promoveram para supervisor geral de transporte.

 

P/1 – E isso é fazer o quê? Significa que tipo de atividade?

 

R – Supervisor geral de transporte já ficava responsável por Pernambuco, João Pessoa, Natal e Alagoas subordinados que a gente ficava supervisionando. Tanto que na época teve muito engenheiro que ficou com ciúme. Reclamaram: “Rapaz, promoveu um nível médio como supervisor geral?” “Mas ele merece, rapaz.” Foi.

 

P/1 – Eu ia perguntar isso para o senhor. O senhor não fez faculdade?

 

R – Não fiz não, minha faculdade foi a Rede. Eu aprendi tudo na Rede.

 

P/1 – Nem tinha tempo, né?

 

R – Eu me aposentei em 1991. O engenheiro doutor Romildo Cavalcante me chamou umas cinco vezes no gabinete dele para eu não me aposentar: “Sebastião, você é uma pessoa muito disciplinada, rapaz, deixa o pessoal sair, você fica.” “Mas, doutor, eu estou com quarenta e um anos de serviço, vou sair.” Saí. Realmente eu gostava, eu gosto das coisas certas.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho. Uma era a Inspetoria de Tráfego e a outra como é que era o nome mesmo?

 

R – Inspetoria de Trem, de Pessoal de Trem. Porque o que é a Inspetoria de Trens? É guarda-freio, condutor. É uma Inspetoria separada. Aí botaram pra mim. Agora Inspetoria de Tráfego é o quê? Telegrafista, estações, tudinho.

 

P/1 – Quer dizer que esse pessoal de trem é aquelas turmas de trabalho, aqueles engenheiros?

 

R – É, condutores de trem, guarda-freio, aquele pessoal que corta bilhete de trem, tudinho. É esse pessoal aí.

 

P/1 – No fundo, era a mesma coisa, quer dizer, o senhor também tinha uma outra equipe que cuidava de fardamento, das coisas todas?

 

R – Exato. Porque não era a mesma coisa porque a Inspetoria de Trem dava muito trabalho porque todo dia a gente tinha que fazer a escala deles, né? Porque eles viajavam para todo canto. Trem de carga, trem de passageiro, tudinho tinha a escala. Que ali era muita coisa, muita coisa.

 

P/1 – Eram mil e poucos, que o senhor falou?

 

R – O total das duas Inspetorias era mil e poucos funcionários. Eu trabalhava muito porque eu gostava de trabalhar para trazer tudo certinho.

 

P/1 – E esse pessoal tinha uma farda diferente, seu Sebastião?

 

R – Não, mesma coisa.

 

P/1 – Mesma coisa, roupa cáqui...

 

R – Mesma coisa.

 

P/1 – Mas os operários tinham macacões, ou não?

 

R – Aí é diferente. Operário, oficina era diferente, é macacão. Aí só é mesmo o pessoal de tráfego, de trem. Mas operário não, de oficina.

 

P/1 – Esses o senhor não cuidava, o pessoal de oficina?

 

R – Não, oficina não. Era outra chefia já, outra chefia.

 

P/1 – Então o senhor ficou como supervisor...

 

R – Geral de Transportes. Aí promoveram uma pessoa para meu lugar como inspetor de tráfego, eu assumi a supervisão geral.

 

P/1 – Desses estados todos?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Tinha bastante linha, senhor Sebastião?

 

R – Muita coisa.

 

P/1 – Muita?

 

R – Muita coisa.

 

P/1 – Porque se aqui eram setenta e poucas, o total devia de ser o quê?

 

R – Setenta e três estações quando eu fui inspetor do tráfego.

 

P/1 – Então era bastante, aumentou muito o trabalho.

 

R – A gente tinha que viajar. Eu assumi a Inspetoria do Tráfego em 1972. Quer dizer, eu fui mandado para lá com carta branca. Por quê? Porque estavam todas as férias atrasadas. O pessoal com folga atrasada. Tinha funcionário que tinha três férias atrasadas. Aí, me mandaram para lá. Teve muita gente que disse: “Sebastião, não vá não. Não vá não porque é muita coisa, rapaz.” Eu disse: “Rapaz, eu não pedi, me designaram. Se eu ver que não devo ficar, eu volto.” Mas olha, eu fui, o chefe do departamento me chamou: “Sebastião, tem muita coisa. Eu vou dar um ano para você botar essas férias todas em dia, e folga e tudo.” Eu programei uma viagem para Paquevira, que é essa linha de Palmares. Outra viajei para Salgueiro, viajei para a Linha Norte até Timbaúba. E, nessa viagem, eu transferi para Recife quase vinte e cinco pessoas. Tudo sobrando. O inspetor não ligava nada. Ele me deu um ano para botar em dia, né? Com seis meses eu botei tudo em dia.

 

P/1 – Muito bom.

 

R – Eu digo: “Doutor Mário Negrão, está tudo em ordem.” “Mas o quê?” “Tudo em ordem.” Botei tudo em dia, graças a Deus, eu fui muito bem sucedido. Prova tanto que botaram outra Inspetoria para mim, né? Se não fosse não botava. (riso) Não é isso?

 

P/1 – O senhor chegava então, como é que o senhor fazia...

 

R – Eu sabia tratar muito bem, ajudei muita gente também, né? Eu ajudei muita gente.

 

P/1 – Mas como é que o senhor via os problemas? O senhor chegava e conversava com as pessoas ou...?

 

R – Eu conversava, conversava. Eu não me precipitava não. Eu procurava dar uma de psicólogo. Conversava, problema de família. Uma vez, o doutor Milton Dantas me chamou: “Sebastião, está vindo um telegrafista de Sousa, estação de Sousa, na Paraíba, vem para cá para você demití-lo, porque ele bebe muito.” Ele quis matar o chefe da estação. O doutor Milton disse a mim: “Manda ele para cá.” Ele realmente bebia muito. Bebia muito e tal, e eu suspendia. Aí eu usei a cabeça: “Oh, Paulo, venha cá. Você quer parar de beber?” “Quero.” “Eu vou levar você para o Alcoólicos Anônimos (AA).” Foi uma bênção. Esse rapaz deixou de beber até hoje. Recuperou a vida. Tinha dez filhos. Ele disse: “Sebastião, você é uma bênção.” A gente tem que usar a cabeça, não é só dar paulada, paulada não. Esse rapaz foi uma bênção. Até hoje, ele, quando me encontra, é aquela festa.

 

P/1 – Que bom. Mas o senhor já é o segundo caso que o senhor fala de uma pessoa que bebe muito. O pessoal bebia muito?

 

R – Bebia muito, bebia. O pessoal da corrida bebia demais, bebia muito.

 

P/1 – O pessoal da corrida é o pessoal?

 

R – Agora, era muita punição também. Eu demitia muita gente. Para a senhora ver que eu demitia, ele vinha para a Inspetoria: “Sebastião, o senhor me tolerou muito. Muito obrigado.” Agradecia, né? (riso)

 

P/1 – Quando era demitido? (riso)

 

R – É. Porque eu chamava o camarada, conversava: “Rapaz, você tem família. A família é sua, não é minha. Tenha cuidado.” O cabra abusava, abusava, abusava, pronto. Quer dizer que eu demitia o cara, o cara ainda dizia: “Sebastião, muito obrigado. Você teve muita paciência comigo.” Porque é difícil, administrar é difícil. É dificílimo. Já o inspetor, que eu fui para o lugar dele, o pessoal de trem deu uma facada nele. Meteram a faca. Benedito Vieira.

 

P/1 – É? Como é que foi? Conta para gente, senhor Sebastião.

 

R – Porque ele pegou perseguindo. Que ele bebia muito, mas não queria que ninguém bebesse. Quando foi de manhãzinha, que ele foi para a Inspetoria, tinha um guarda-freio o esperando. Aí, meteu a faca. Só não mataram porque o tabelista vinha chegando. Foi. Aí foi que resolveram passar a Inspetoria dele pra mim. Aí juntou. Porque tem que ter muita cautela. Administrar é uma coisa séria, não é assim não.

 

P/1 – É, porque lidava com muita gente, né?

 

R – Administrar não vem de faculdade não, não vem não. Tem que ter muita paciência, tem que saber conversar. É muita coisa. Aí em 1991, encerrei minha carreira e pronto.

 

P/1 – Que ano foi mesmo senhor Sebastião, desculpa, que o senhor foi para essa Supervisão?

 

R – Supervisão, parece que foi em 1987.

 

P/1 – Foi bastante tempo também, né, senhor Sebastião, que o senhor ficou?

 

R – Foi 1987 ou 1988, alguma coisa assim. Mas eu passei na Supervisão.

 

P/1 – O senhor já disse que o senhor chegou numa determinada estação que tinha problema, o senhor mandou o pessoal... Teve algum problema que o senhor perdeu o sono por causa dele? O senhor parece ser tranquilo, mas teve algum que foi pior de resolver?

 

R – Não, por não, porque é o seguinte: o pessoal me respeitava muito. Uma vez, uma madrugada, o encarregado do movimento telefonou lá para casa, Pimentel. Telefonou para minha casa, ele já tinha afastado sete guarda-freios porque não queriam a viagem. E tinha um guarda-freio em Coqueiral. Eu fiz a ligação da minha casa para Coqueiral para falar com o guarda-freio. Quer dizer que ele não usou a cabeça. Quando o guarda-freio falou comigo: “Eu só vou por causa do seu Sebastião.” Quando ele ligou, botou o guarda-freio para mim, ele disse: “Seu Sebastião, seu Pimentel quer mandar ir à viagem para Itabaiana sem diária.” Eu digo: “Não pode não, rapaz. Você viaja e eu vou autorizar o agente de São Lourenço lhe dar a diária.” Ele disse: “Agora eu vou.” Pronto. No dia seguinte, o encarregado ficou chocado comigo. Foi, ele foi chamado. Aí, o chefe de departamento falou: “Rapaz, o Sebastião resolve a coisa fácil e você complicou.” Quer dizer, ele afastou sete homens que resolviam a coisa, né?

 

P/1 – Era só fazer certinho, né?

 

R – É, certinho. Porque o camarada não ia viajar sem dinheiro. Eu autorizei o agente de São Lourenço fornecer uma diária para ele viajar.

 

P/1 – Ele era um guarda-freio?

 

R – Guarda-freio.

 

P/1 – Isso era comum de um guarda-freio ir para outro lugar?

 

R – É, porque falta, porque, às vezes, a pessoa estava escalada, mas a pessoa por causa de doença ou uma coisa faltou. Aí, já tinha ali uma prontidão, né? Mas essa prontidão para viajar, tem que ter o quê? O dinheiro, né?

 

P/1 – Então, tinha já esse dinheirinho da diária. Sempre a pessoa tinha direito.

 

R – Exatamente. Mas o encarregado do movimento botou: “Não, você vai sem diária.” Quer dizer, é excesso de autoridade, né? Que prejudica. Mas graças a Deus eu fui muito bem sucedido.

 

P/1 – O senhor viajava muito e sua mulher não achava ruim?

 

R – Não achava não. Porque eu viajava muito a serviço. Eu gostava de ver tudo em ordem as estações. Viajava muito, fiscalizava muito.

 

P/1 – Sempre de trem, senhor Sebastião?

 

R – Não, eu viajava de auto de linha e viajava de automóvel. Uma vez, eu procurei falar com o chefe de Maraial. Segunda-feira e ele nunca atendia. Sempre estava o ajudante. Aí, eu fiquei cismado, mandei chamar o ajudante na Inspetoria, ele veio. Antonio Lucena. Ele disse: “Senhor Sebastião, já que senhor me chamou, aí, segunda-feira, o chefe está vindo para Recife.” Sem avisar, né? Eu disse: “Oh, você fique calado.” Ele disse: “Ele viaja no sábado e só volta segunda-feira à tarde.” Eu disse: “Olha, isso vai ficar aqui mesmo.” O que foi que eu fiz? Requisitei um carro, um automóvel na chefia e, no sábado de manhãzinha, viajei para Maraial. Quando cheguei lá: “Cadê o chefe?” “Não está.” Nivaldo. Não deu outra. Fiz todas as anotações, deixei o ajudante no lugar dele e o botei como ajudante. Pronto. Só isso.

 

P/1 – E eles não brigaram depois, seu Sebastião?

 

R – Não brigaram não, não brigaram não. Conversei com ele direitinho: “Olha, Nivaldo, você não pode, você está vindo no sábado, volta na segunda-feira.” Aí enrolou. Depois, eu o transferi para Gameleira. Porque é uma coisa que a gente tem que fazer com muita cautela, né? E muita paz e saber conversar também. E o camarada vendo que está realmente errado, aí, ele aceitou.

 

P/1 – E eram só homens, senhor Sebastião? Ou tinha mulheres também?

 

R – Não, só homens.

 

P/1 – Só homens em todas as funções?

 

R – Mulheres tinham na época da Great West. Tinha mulher que era telegrafista, tinha mulher despachante.

 

P/1 – Mas o senhor não chegou a conhecer, porque o senhor era menino, né? Ou conheceu?

 

R – Não, conheci ainda.

 

P/1 – Conheceu quando o senhor praticava?

 

R – Conhecia, conhecia. O nome da mulher era até Alcides, trabalhava em Palmares. Ela tinha até nome de homem, né? Alcides.

 

P/1 – Ela era uma boa telegrafista?

 

R – Era boa. Despachante também muito boa, caligrafia muito bonita.

 

P/1 – Mas, depois, quando ficou a Rede do governo, já não tinham mais mulheres?

 

R – Não, tinha ainda. Tinha. Em Campina Grande tinha uma, em Itabaiana também tinha uma. Aí, começaram a colocar, mas era pouco. Era minoria.

 

P/1 – Mas era nessa função de telegrafista?

 

R – Telegrafista. De Itabaiana tinha, Campina Grande, eram muito poucas, mas tinha.

 

P/1 – Mas elas eram boas?

 

R – Eram boas, eram boas.

 

P/1 – Agora, no escritório aqui não tinha mulher também.

 

R – Tinha.

 

P/1 – O que é que elas faziam?

 

R – Elas faziam todos os trabalhos. Agora, só quando eu cheguei na Inspetoria tinham sete mulheres. Eu tirei seis, só fiquei com uma. Porque queriam bagunçar, né? Aí me informaram logo, eu tirei seis só fiquei com uma. Eu fiquei com a melhor. Aí tirei tudinho. Tanto que dá trabalho.

 

P/1 – Pelo que o senhor está contando, os homens também bem que lhe deram bem trabalho, não?

 

R – Deram também.

 

P/1 – Porque brigavam, bebiam?

 

R – Não, mas deram. Porque bebiam muito. Eu tirei muita gente, homem mesmo, tirei.

 

P/1 – E brigavam bastante, não? Pelo jeito que o senhor contou.

 

R – Brigavam também, exato.

 

P/1 – Mas resolvia?

 

R – Resolvia, resolvia.

 

P/1 – O senhor contou alguns casos, né? Teve algum que foi engraçado, senhor Sebastião, um causo desses que aconteceu que o senhor deu risada depois?

 

R – Não, não, foi não. Porque, naquela época, o esquema da Rede era mais disciplina, né? Mais disciplina assim e eu gostava das coisas realmente certas. Não olhava assim nem pra...

 

P/1 – Um acidente mais grave que o senhor tenha lembrado só foi esse que morreu lá o maquinista?

 

R – Não, mas tiveram muitos acidentes graves lá.

 

P/1 – Tem mais algum que o senhor lembra?

 

R – Florestal. Uma vez o trem de passageiros virou. Houve morte, houve tudo. Acidentes tudo. Acidente tinha muito. Tinha muito acidente.

 

P/1 – Senhor Sebastião, quando o senhor casou lá em Palmares, não lembro se a gente perguntou, eu acho que eu não perguntei, o nome da sua esposa.

 

R – Sueli.

 

P/1 – Sueli. Quando o senhor casou com a Sueli lá em Palmares, vocês foram passar a lua-de-mel em algum lugar, foram passear de trem?

 

R – Não, não foi não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não foi não. A gente ficou lá mesmo na época. Foi em 1964.

 

P/1 – O senhor falou que tem dois meninos no metrô. O senhor tem quantos filhos?

 

R – Eu tenho quatro filhos dela. Que eu sou divorciado. Divorciado. Dela eu tenho quatro filhos. No metrô eu tenho dois, tenho uma filha minha que é psicóloga, bem casada, por acaso. E tenho outro que está em Caruaru. Esse do metrô é Sebastião, ele chegou até a ser superintendente. Foi o tempo que o Lula assumiu, né? Aí do Partido dos Trabalhadores, ele não é da corrente do PT, saiu...

 

P/1 – Mas eles de certa forma seguem, né? Porque o metrô, com quem trabalhava no trem, de certa forma era parecido com o que o senhor fazia, né?

 

R – Exato, é, exato.

 

P/1 – Vocês conversam bastante sobre isso?

 

R – Conversa, conversa muito. Ele conversa no metrô também muito sobre a minha pessoa. Sobre a minha maneira de trabalhar e tudo, eles conversam muito. “Papai é assim, assim, assim, muito exigente e tal.”

 

P/1 – Vocês falam da...

 

R – E o Sebastião puxou muito a mim.

 

P/1 – É?

 

R – Ele é muito exigente.

 

P/1 – E o outro filho?

 

R – É o Sérgio Murilo. Esse é gerente. Esse trabalhou muito, muito trabalhador também.

 

P/1 – Mas vocês comparam como é que era antigamente como é no metrô?

 

R – Ah, compara demais, compara demais.

 

P/1 – Só se fala de trilho na sua família?

 

R – Só de trilho. Especialmente, como eu disse, eu chefiei setenta e três estações, né? E no metrô um inspetor chefia duas. Duas estações para cada inspetor.

 

P/1 – E o trabalho é muito parecido?

 

R – É muito parecido.

 

P/1 – Pelo que vocês conversam?

 

R – É bilheteria, tudo é parecido. Só não tem telegrafia, né? Porque antigamente tinha muita telegrafia, que a única comunicação era issa aí, telegrafia. Não tinha computador, não tinha telex, nada. Era só o telégrafo, o aparelho Morse.

 

P/1 – E aí, o senhor resolveu se aposentar?

 

R – Foi, em 1991, eu me aposentei.

 

P/1 – Por que é que o senhor quis se aposentar, seu Sebastião, o senhor estava cansado?

 

R – Não, porque eu já trabalhei quarenta e um anos, porque eu trabalhei, eu ainda hoje tenho vontade de trabalhar ainda. Eu tenho.

 

P/1 – Porque o senhor era muito jovem, né, ainda?

 

R – Porque trabalho demais cansa também, né? Quarenta e um anos a gente trabalhando, muita responsabilidade, quebrando cabeça com o pessoal, chegava na Inspetoria muito cedo... Uma coisa que eu gostava era tratar o pessoal bem. O pessoal me elogiava muito por isso. Porque, às vezes, a pessoa vinha de Salgueiro, Serra Talhada, Afogado da Ingazeira, Palmares, a gente tinha que receber muito bem, não era? Disse que o outro inspetor não fazia isso... Eu gostava de tratar muito bem. Tinha muita gente que se enganava comigo, e falavam para o chefe do escritório: “Rapaz, eu pensava que ele era tão bravo. A cara dele meia dura assim.” Ele disse: “Não, o Sebastião é gente boa.” Eu gostava de atender bem, a pessoa sair satisfeitíssima.

 

P/1 – O senhor atendia todo mundo?

 

R – Todo mundo, atendia todo mundo.

 

P/1 – Qualquer um que quisesse falar com o senhor?

 

R – Todo mundo.

 

P/1 – Não tinha diferenças.

 

R – Todo mundo. Às vezes, eu deixava até o meu serviço atrasar um pouco para atender. Atendia todo mundo bem, graças a Deus.

 

P/1 – Eles pediam coisas para o senhor, é isso?

 

R – Pediam.

 

P/1 – O que é que eles pediam?

 

R – Às vezes, pediam transferência. Quando eu assumi a Inspetoria tinha muitos agentes querendo transferência, o inspetor, o que eu fui para o lugar dele, não dava. Aí, eu resolvi tudinho. Problema de doença de família, eu resolvi tudo. Transferi direitinho. Fiz tudo certinho. Eles acharam muito bom.

 

P/1 – Só de resolver todo esse problema de férias e de folga, né, senhor Sebastião?

 

R – Era muita coisa. Só para controlar férias era muita coisa.

 

P/1 – Senhor Sebastião, o senhor era da Associação dos Ferroviários Aposentados?

 

R – Sou sócio, ainda sou sócio, graças a Deus sou sócio.

 

P/1 – O senhor vai lá sempre?

 

R – Eu vou lá sempre, vou sempre.

 

P/1 – Me fala um pouquinho da Associação, é bom o trabalho que eles fazem?

 

R – É bom. Principalmente Eldo Souza da Costa Almeida, Marcos Antonio de Souza Reis, eles são muito bons. Está muito organizada hoje, direitinho. Se o time está jogando bem, não adianta mexer. Todo mundo quer que eu vá para lá, né? Mas não quero, não adianta. Se está jogando bem, não adianta. Olho grande para quê, né? Não está tão bem?

 

P/1 – E aí o senhor vai para lá todo dia, fica batendo papo, como é que é?

 

R – Não, todo mês eu vou lá pagar. Eu vou pagar, todo mês eu vou pagar.

 

P/1 – Mas encontra os amigos?

 

R – Eu encontro o pessoal, a gente conversa muito lá, tudo.

 

P/1 – E é só isso que o senhor faz? O senhor não tem nenhuma atividade que o senhor participe lá com eles?

 

R – Não, não tem não. Eu só vou lá mesmo fazer pagamento todo mês, e pronto.

 

P/1 – Senhor Sebastião, da época que o senhor começou, que foi em 1950...

 

R – 1950.

 

P/1 – Até 1991...

 

R – 1991.

 

P/1 – Quando o senhor se aposentou, nesses quarenta e um anos, que é que mudou mais no seu trabalho, além das funções, evidentemente?

 

R – Depois que eu me aposentei em 1991, em 1996 eu fui convidado para gerenciar uma firma em Piedade. Foi até a esposa de um engenheiro da Rede. Aí, ele falou comigo: “Sebastião, a minha esposa está lá muito aperreada, ela com uma firma e o gerente estava roubando muito. Silvia está aperreada da vida. Tu não podia quebrar o galho lá não?” Eu disse: “Doutor Adalberto, eu conheço bem de ferrovia, o senhor sabe, né?” Eu fui lá um negócio muito misturado. A esposa dele disse: “Sebastião, vê se quebra um galho aqui, passa um dia por aqui. Adalberto disse que você é muito bom e tal.” Eu disse: “Não, aqui não dá para mim não.” “Mas passa aqui um mês com a gente.” Aí eu fui. Mas o negócio estava muito bagunçado, demais. O rapaz estava roubando mesmo. Eu assumi lá, fui passar lá uns seis meses, passei seis anos. Agora, botei nos eixos, botei nos eixos. Graças a Deus botei nos eixos.

 

P/1 – Mas eu digo assim, no trabalho na Rede, o que é que mudou que o senhor percebeu?

 

R – Mudou o seguinte, o problema é que eu gosto muito de trabalhar, né? Eu gosto, eu gosto. E em casa eu não paro, não paro não. Eu gosto muito de trabalhar, entendeu? Agora eu sou evangélico. Na igreja que eu estou, eu trabalho muito, os pastores gostam muito de mim. Eu sou muito assíduo à obra. Todos os dias eu me acordo cinco e pouco da manhã para ir à igreja, todos os dias. Vou à igreja cinco horas da manhã que é o culto das seis horas. À noite, todo dia, eu vou à igreja. Eu sou obreiro da igreja que eu frequento.

 

P/1 – Quando o senhor ficou sabendo da privatização, o que é que o senhor pensou na época? Porque o senhor já não estava mais, né? Mas o que é que o senhor leu, como é que o senhor ficou sabendo?

 

R – Realmente, o problema da Rede é que a gente que foi criado como eu, fui vendo tudo, a gente fica assim muito magoado. E até se a gente for viajar na Rede hoje, no caso, dá até desgosto que acabaram com a Rede. Eu quando eu entrei na Rede, em 1950, eu penso que tinha uns cinco engenheiros somente, somente cinco, já pensou? Eu me aposentei e tinha mais de quinhentos. Quer dizer, infelizmente é coisa que a gente não pode, né?

 

P/1 – O senhor acha que isso foi um fator ruim?

 

R – Foi, muito ruim, muito ruim. Naquela época, tinham cinco engenheiros, eu me aposentei tinha mais de quinhentos. Isso também acabou com a Rede. A verdade é essa.

 

P/1 – O senhor ficou triste quando privatizou?

 

R – Fiquei muito triste. Fiquei triste porque eu me criei ali, me criei na Rede. Ter que ver a Rede hoje toda acabada, toda, né? Fiquei triste.

 

P/1 – O senhor nunca mais andou de trem?

 

R – Não, não andei mais não.

 

P/1 – Se tivesse que melhorar esse sistema o que é que o senhor acha que precisava ser feito, senhor Sebastião? No sistema ferroviário aqui, principalmente no Nordeste?

 

R – Olha, o problema é o seguinte, daquela época para essa, é muito diferente, não é não? O estilo de trabalho naquela época era trabalho, disciplina, tudo. Quer dizer, para melhorar o trabalho aqui no Nordeste precisa muita coisa, muita coisa. Primeiro, a linha está aí toda acabada. Estações todas acabadas. Quer dizer, para melhorar o serviço do Nordeste, tinha que gastar muito e muito mesmo. E colocar pessoas que realmente quisessem trabalhar, né? Inclusive pegar essas pessoas antigas, que tivessem, que é pessoa disciplinada para ensinar aqueles que não querem nada, porque isso é importante. Porque, às vezes, tem tanto aposentado aí encostado que quer trabalhar ainda, porque para mim é ensinar, mostrar realmente a ferrovia o que é, não é isso?

 

P/1 – É interessante.

 

R – Mostrar o que é a ferrovia?

 

P/1 – Mas um pouquinho antes do senhor sair, também a Rede já tinha alguns problemas, não tinha, senhor Sebastião? Lá pelos anos de 1980 já, ou não, era tudo igual?

 

R – Não, não havia não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não.

 

P/1 – O senhor acha que é legal ensinar, então? O que é que o senhor diria para um jovem hoje, digamos que tivesse aqui uma pessoa que quisesse trabalhar no meio ferroviário, o que é que o senhor diria hoje para ele?

 

R – É o que eu estou dizendo, porque tem jovem responsável, realmente tem. E esse jovem que é responsável, a gente tem que dar a mão a ele. E aquele também que fosse irresponsável, a gente teria que quebrar mais a cabeça um pouco, para ele chegar realmente naquela disciplina de trabalho. Porque o trabalho da gente não é esse não. Porque muita gente pensa que o trabalho é só ganhar dinheiro. Eu penso diferente. O trabalho não é ganhar dinheiro, é a gente trabalhar, ter amor, amor pelo trabalho. Porque eu sempre tive amor pelo trabalho.

 

P/1 – Esse seria o conselho que o senhor daria?

 

R – Exato. Eu sempre, todo dia que eu ia trabalhar na Rede para mim era o primeiro dia. Eu ia por amor.

 

P/1 – O senhor ia contente.

 

R – É, contente, animado, fazia aquilo de coração, parece que aquilo era meu. Na igreja hoje, o pessoal pensa que o dono da igreja sou eu. Porque eu vou naquilo por amor, de coração, abraçar, orar. É o que eu fazia na Rede. Ia por amor. Porque todo dia que eu ia trabalhar, para mim, era o primeiro dia, primeiro dia.

 

P/1 – Senhor Sebastião, teve uma coisa que o senhor ficou muito contente, muito alegre além das suas promoções, evidentemente? Um fato que o senhor falou que foi a sua maior alegria no seu período na Rede, nos quarenta e um anos?

 

R – Minha maior alegria na Rede foi a seguinte, por ser uma alegria, uma emoção: quando houve essa vaga de inspetor do tráfego tinha tantos candidatos que até eu estava apontando: “Deve ser Fulano, deve ser Beltrano.” Foi um negócio bem de surpresa. Eu estava em casa, cinco horas da tarde, aí meu irmão passou, o Ivanildo, e disse: “Sebastião, sabe quem vai ser o inspetor do trafego?” “Quem é? É Fulano?” “Não, é você.” Foi. Eu quase caí. “Porque o doutor Gilvan de Carvalho disse que você é muito bom e vai mandá-lo para Cinco Pontas com carta branca.” Para mim, ele estava brincando. E ele tinha mais nove horas. “Doutor Gilvan só quer mesmo saber se você quer ou não.” Foi. Quando, no dia seguinte, eu fui, foi uma reunião, uma mesa grande daqui a não sei aonde, só com a engenharia todinha. Aí o doutor Gilvan disse: “Sebastião, eu só quero ouvir a sua palavra: sim ou não? Você quer ser inspetor de Cinco Pontas? Porque meu candidato é você. E você vai com carta branca.” Eu disse: “Quero.” Pronto. Emoção, né? Porque foi uma alegria realmente, né?

 

P/1 – Foi, né? Ficou bem emocionado.

 

R – Emocionado. Eu fiquei, realmente, fiquei emocionado.

 

P/1 – Tem alguma coisa que o senhor queria comentar mais que eu não tenha perguntado que o senhor gostaria de falar?

 

P/2 – Talvez, falar como é que era o relacionamento com os irmãos, se vocês chegaram a trabalhar juntos?

 

R – Era bom, era. O relacionamento da gente sempre é bom. Porque cada um tinha a sua função. Tinha a sua função diferente. Eu era inspetor do tráfego, o Ivanildo era inspetor do movimento. O Irineu era distribuidor de vagões. O Gilvan também controlava trem. Quer dizer, cada um tinha o seu setor diferente e cada um procurava se ajudar, entendeu? Tanto que quando a gente se aposentou eu tenho certeza que a Rede sofreu um abalo muito grande. Porque a gente realmente mexia com tudo. A gente mexia, tem muita gente que diz aí: “Rapaz, a família Marinho se aposentou.” Tenho certeza que a Rede sentiu, sentiu. Porque a maneira da gente trabalhar com amor à Rede, com aquela disciplina. E já veio aquele pessoal mais assim. Quando eu me aposentei na Supervisão Geral, ficou um engenheiro. Não botaram nível médio não, botaram engenheiro. Disseram logo: “Sebastião vai se aposentar, nós vamos botar no lugar dele um engenheiro.” Deram-me o trabalho por quê? Realmente, pela capacidade que eu tinha, modéstia a parte.

 

P/1 – Nenhum dos seus irmãos também estudou, fez faculdade?

 

R – Não, nenhum, nenhum.

 

P/1 – Todo mundo aprendeu...?

 

R – Foi a Rede. A faculdade da gente foi a Rede.

 

P/1 – Eu adorei essa frase: “A faculdade da gente foi a Rede.”

 

R – A faculdade da gente foi a Rede. A gente aprendeu muita coisa na Rede, muita coisa, graças a Deus. Aprendi muita coisa na Rede.

 

P/1 – Mais alguma coisinha, seu Sebastião?

 

R – Não, só isso mesmo.

 

P/1 – Então, eu queria também perguntar para o senhor, o que é que o senhor acha de um trabalho como esse que nós estamos fazendo? De ouvir vocês que dedicaram as suas vidas?

 

R – Não, eu acho muito bom, eu acho muito bom. Eu achei muito bom. Pelo menos vocês estão valorizando os coitados dos aposentados, (risos) não é não?

 

P/1 – Imagina, vocês se autovalorizam, têm histórias bonitas. E, o que é que o senhor achou de dar entrevista para a gente? Gostou de dar a entrevista?

 

R – Gostei. Muito bom, muito bom mesmo. Foi bom relembrar a velha ferrovia. O passado todo foi bom, foi muito bom.

 

P/1 – Que é que tem nessa sua pasta?

 

R – Tem muita coisa.

 

P/1 – Só para a gente saber, isso é uma coisa que o senhor guardou?

 

R – Quando, olha aqui o Projeto Sigo. Quem deu esse treinamento do preenchimento do Sigo foi todinho eu. Eu dei aqui em Pernambuco e o doutor Milton na Paraíba, João Pessoa, Alagoas.

 

P/1 – Treinamento?

 

R – Do preenchimento do Sigo, quando veio o computador para a Rede.

 

P/1 – O senhor foi aprender primeiro?

 

R – Fui aprender e depois fui dar treinamento para todo o pessoal.

 

P/1 – E onde o senhor foi aprender a mexer com computador?

 

R – Eu fui dar treinamento no preenchimento dos formulários. Só preencher os formulários.

 

P/1 – Mas em que lugar que o senhor foi, seu Sebastião?

 

R – Foi aqui mesmo.

 

P/1 – Recife mesmo?

 

R – Veio uma pessoa, aí ensinou tudinho. Aí doutor Milton foi, tem muita coisa da Rede mesmo. Aqui tem os códigos de acidente tudo, entendeu?

 

P/1 – E o senhor guardou isso ao longo desses anos todos, seu Sebastião?

 

R – Guardei, é a minha pasta, minha pasta aqui. O pessoal do Movimento todinho na época tem tudinho aqui, na época aqui: “Supervisor Geral de Transportes, Sebastião; Supervisor de Movimento de Trens, José Gilvan.” Que é o Gilvan.

 

P/1 – Seu irmão?

 

R – É, meu irmão. Os encarregados estão aqui todinhos, os encarregados.

 

P/1 – Legal, seu Sebastião, então o senhor lá fora vai me mostrar essa pasta, né? Porque o senhor está carregando com tanto carinho que eu queria registrar.

 

R – Isso aqui eu sempre guardei isso aqui.

 

P/1 – Seus documentos.

 

R – Eu ainda tenho em casa o meu Regulamento Geral de Transportes, Regulamento Geral de Operação. Eu tenho tudinho comigo.

 

P/1 – Isso é que é carinho.

 

R – É carinho, exatamente.

 

P/1 – Seu Sebastião, muito obrigada pela sua entrevista.

 

R – Nada.

 

P/1 – Foi um prazer poder entrevistar o senhor.

 

R – Eu estou ao seu dispor, quando precisar, eu estou aqui à disposição da senhora. Pode estar tranquila.

 

P/1 – Muito obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+