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História

A estrada Ferro Vitória-Minas e além

História de: Walter Faria
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/03/2020

Sinopse

Aqui, Walter Faria nos conta da sua absoluta certeza de infância: terminar a vida na Vale. Começou aos 12 anos ajudando o pai ferroviário em seus relatórios. Era de se estranhar quem não tinha familiares pela companhia.  Em 1943 estava na contadoria da receita da Vale e assim fez história na empresa. Aqui nos conta, especialmente, a relação da Vale, enquanto estatal, com os aposentados, digna de orgulho.

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História completa

P/1 – A primeira pergunta que a gente vai fazer é pedir pro senhor se apresentar: nome completo, data de nascimento e local de nascimento.

R – Bom, meu nome completo é Walter Faria, nasci em 24 de outubro de 1925 e nasci na cidade do distrito de Argolas do município de Vila Velha no Espírito Santo.

P/1 – Nome dos pais do senhor?

R – Meu pai é Francisco Faria Filho, e Maria Viscovi Faria. Meu pai nascido em São Matheus no Espírito Santo e minha mãe no distrito de Pendanga no município de Ibirassú.

P/1 – O senhor conhece um pouco a origem da família do senhor? Da onde ela vem?

R – Bem, a minha família por parte de pai eu não tenho muitas informações, porque meu pai era um homem muito fechado com relação a isso. Mas a família Faria era muito conhecida em São Mateus, uma família tradicional. Por muitos e muitos anos eles viveram ali naquela cidade e os filhos foram nascendo, crescendo e foram embora. Então não tiveram retorno por lá. Já sobretudo por dificuldade naquela época de transporte da pessoa. Porque São Mateus fica no norte do Espírito Santo, e o meu pai veio para Vitória e com isso ele se afastou um pouco da família. Já da família da minha mãe, não. A família da minha mãe, a gente está sempre muito agarrado à mãe, né? Então eu tinha um contato permanente com meus tios e parentes ali em Ibirassú e Pendanga. E ultimamente eu tive até o contato com uns parentes que nós descobrimos na Itália. Os descendentes do meu avô, o velho Viscovi Giuseppi.

P/1 – Giuseppi.

R – É. Fizemos um contato com a família lá e encontramos lá uns primos da minha mãe e até hoje nós mantemos um relacionamento de correspondência nas épocas festivas a gente se cumprimenta, essas coisas.

P/1 – E a atividade do seu pai, da sua mãe?

R – Meu pai, bom, minha mãe foi do lar. Sempre foi do lar, né, não teve nenhuma atividade porque naquele tempo era difícil você ter uma mulher trabalhando, né? Ela tomava conta de casa, dos filhos e da casa. Meu pai não. Meu pai era ferroviário. Ele começou na Estrada de Ferro Leopoldina, depois logo em seguida ele passou pra Estrada de Ferro Vitória-Minas, que hoje, posteriormente ela veio a se tornar em Companhia Vale do Rio Doce, né? E meu pai começou como auxiliar de estação. Depois ele foi agente de estação em Aimorés, em Pendanga, Aimorés e por fim em Pedro Nolasco. Porque antigamente a Vitória, a estação chamava-se Pedro Nolasco. Depois ele passou pro escritório onde ele foi trabalhar com o Dr. João Crisóstomo Beleza. Uma figura tradicional da Companhia Vale do Rio Doce. Pena que ele tenha morrido, se não ele tinha muita história pra contar pra vocês. Uma figura muito doce, muito boa. Foi trabalhar com o Dr. Beleza, aí ele se aposentou em 1946 como inspetor de estações. E nesse interregno, antes dele cumulativamente com o inspetor de estações, ele foi chefe tráfego rodoviário. Porque na época da guerra, havia muita dificuldade em trazer, transportar daquela zona do norte do Espírito Santo para a estrada de ferro transportal, né? Café, milho, assim, havia muita dificuldade. Então a Companhia resolveu criar um serviço, chamava-se serviço rodoviário. Esse serviço rodoviário fazia a interligação de Afonso Cláudio, Itapina, Itaguassú... Não, Itapina não. Afonso Cláudio, Itaguassú, Lagoa, com a estação de Ita, que era estação de ferro. Então esses caminhões que tinha facilidade de importar, porque era esforço de guerra, ela trouxe. Então eles faziam, transportavam café para a estação de Itapina, pra então seguir na estrada de ferro pros centros consumidores.

P/1 – O pai do senhor trabalhou na estrada de...

R – Trabalhou.

P/1 – Vitória-Minas antes do nascimento da Vale do Rio Doce, inclusive?

R – Não, da Vale do Rio Doce, ele ainda pegou um pedaço sim. Porque ele se aposentou em 46 e a Vale é de 42. Ele ainda trabalhou um pouco na Vale do Rio Doce, como inspetor de estação e chefe, ele foi chefe do tráfego também. Não efetivo, ele substituía o Dr. Beleza que era o chefe do tráfego nessa época, quando ele saía de férias ou se afastava por qualquer motivo. Não era efetivamente, ele era inspetor de estação.

P/2 – O senhor teve quantos irmãos?

R – Eu tive... Meu pai casou duas vezes. No primeiro matrimônio, nós somos seis, que eu sou o mais novo. E no segundo matrimonio são quatro.

P/2 – E como é que foi a convivência?

R – Foi muito boa. Nós sempre, eu sempre tive muito sentido de família, né? Meu pai, isso ele incutiu em todos nós um sentido, tanto que até hoje mantenho com meus irmãos, meus sobrinhos uma ligação muito íntima, né? Muito íntima mesmo. E meu pão quando trabalhava na Vale do Rio Doce, é um fato pitoresco talvez que a gente tenha que contar é que ele como inspetor de estação, ele tinha um escritoriozinho em casa, porque ele trazia todas as... fazer os relatórios. E ele apanhava eu e meus dois irmãos – Zé Vicente e Silvino, pra ajuda-lo naquelas tarefa. Então eu com 12, 13 anos já conhecia, já vivenciava a estrada de Ferro Vitória-Minas e posteriormente e Vale do Rio Doce. Então a gente já vivenciava. Agora uma coisa interessante que vocês devem, eu queria registrar, o sentido familiar que tinha a Estrada de Ferro Vitória-Minas. Difícil era um empregado da Estrada de Ferro Vitória-Minas que não tivesse um irmão, um primo, um parente na Vale. Era uma coisa impressionante. Tinha gente que tinha quatro, os Boneses deviam ter uns quatro ou cinco, né? Então era muito comum isso, você trabalhar na, eu por exemplo tinha meu pai, eu e meu irmão Zé Vicente, já falecido. Chegou, foi tesoureiro geral da Vale. Chegou como tesoureiro geral da Vale aqui no Rio. Então esse sentido familiar na Estrada de Ferro Vitória Minas, que depois se... com a incorporação da Estrada de Ferro à Vale do Rio Doce, é aquele espírito por muitos anos persistiu. Era difícil você ter um funcionário da Vale do Rio Doce, ou da Estrada de Ferro Vitória-Minas que não tivesse um parente, um irmão, um primo, um sobrinho, um pai. Tinham, mas era impressionante isso. Você chegava, encontrava principalmente no Espírito Santo na zona da estrada de ferro servida pelo Espírito Santo. Mas nas outras também tinha. Mas eu acho que mais incidência no Espírito Santo.

P/1 – Por que, isso, o senhor...

R – Não sei. A história porquê não sei. Talvez pela dificuldade de, a estrada de ferro passava numa zona que não era uma zona muito desenvolvida. O único lugar ali, você vindo de, entrando, saindo de Aimorés em Minas e entrando da estrada de ferro em Baixo Guandu que é no Espírito Santo. Ali recomeçava a ser, começava a sentir as dificuldades, né? Colatina ainda era um pólo de desenvolvimento porque pegava mais a zona norte do Espírito Santo onde a estrada de ferro não penetrava. Depois vinha aquelas cidadezinhas que muito mal tinham estação e duas ou três casas na frente. Então o irmão quando ele conseguia entrar na estrada de ferro, ele por certo levava um parente mais tarde e colocava lá.

P/2 – E o senhor na infância achava que algum dia podia vir a trabalhar na...

R – Não. Achava não. Eu tinha certeza. Absoluta certeza que eu ia terminar a minha vida na Companhia Vale do Rio Doce. Porque eu comecei na Vale em 03 de fevereiro de 1943. Fui trabalhar porque nós tínhamos naquela época na estrada de ferro ainda 43, na Vale do Rio Doce, tinha os departamentos. O departamento das minas, o departamento da estrada que era a antiga Estrada de Ferro Vitória-Minas. E eu fui trabalhar na contadoria da receita. Tinha a contadoria da receita e tinha a contadoria da despesa. E uma coisa interessante é que nessa época, 42, estava a Vale remodelando todo sua linha. Refazendo todo o traçado da linha. Então aquilo era um movimento infernal, né? Um movimento louco. Era muita gente trabalhando, se dedicando. Porque a empreiteira era uma firma americana chamada Borison Knudsen. Ela é que fez o... restabeleceu o leito da estrada de ferro. E em 43 então nós tínhamos, um fato interessante: é que a Vale do Rio Doce, nessa oportunidade, 42, 43 tirou parte do escritório da estrada de ferro que tinha aqui no Rio. Funcionava aqui no Rio, acho que, se não me engano na Rua Teófilo Otoni. Levou esse pessoal pra Vitória. Então juntou o pessoal da estrada de ferro do coisa com o pessoal de... Eu fui trabalhar exatamente junto com esse pessoal, que tinha vindo do Rio. Então as histórias são muitas, que às vezes eu não quero nem contar porque... mas tem figuras muito interessantes naquela época, né? Tínhamos o nosso colega Durval Caldas, foi pra lá o Dr. Petra de Barros. Petra de Barros. Dr. Jaime Ramos Pinto, foi do controle e... deixa eu ver se eu me lembro mais de muita gente, já foi tantos anos. E inúmeros colegas que foram para lá. E eu fui trabalhar juntamente com esse pessoal na contadoria da receita. E lá eu fui até 1946. Quando cheguei em 1946 eu saí da Vale do Rio Doce e fui trabalhar na Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Empregados da Vale do Rio Doce. Onde agregava o pessoal da Vale do Rio Doce era contribuinte dessa caixa de aposentadoria e pensões. Então a minha vivencia foi muito maior, né? Porque eu como já vinha de lá os problemas que eles tinham eles me procuravam eu procurava resolver, ajudar. Então eu passei a conviver muito. Eu dizer que eu me afastei da Vale nessa época? Não. Afastei não fisicamente porque eu vivia lá com o pessoal trabalhando. É porque a Caixa era muito ligada à essas atividades da Vale do Rio Doce, né? Depois é que vieram os institutos e que aquilo cresceu e despersonalizou as coisas. Então a Vale do Rio Doce tinha a sua caixa de aposentadoria e pensões. E eu então não me afastei disso. Quando chegou em 65, na da caixa aí veio a fusão das caixas, né, que foi 1954 com a fusão das caixas. Eu aí, em Vitória ficou só a Caixa da Vale e pouca coisa da Estrada de Ferro Leopoldina. Muito pouca coisa. E dos Aeroviários também. Muito pouca coisa. Telecomunicações também, muito pouco. Insipidamente porque só tinha um representante. O que dominava mesmo era a...  Aí eu vim então para o Rio de Janeiro transferido, eu vim ser, eu era o, eu faixa depois passei a, com a fusão, eu passei a ser delegado do Instituto em Vitória, depois eu vim pro rio ser o contador geral da Caixa. E em 1965 eu desiludi um pouco com a fusão, né, das caixas, instituto e a (inaudível). E eu tinha muito trabalho. Eu resolvi, a convite de uns amigos de retornar à Vale. E voltei pra Vale então em 1965. e fui trabalhar em 1965 na divisão do controle. Fui trabalhar dom o doutor Zé Pitella Junior. Comecei como contador, passei logo em seguida para auditor. Depois eu vim para trabalhar no gabinete do doutor Pitella como adjunto de estudos econômicos. Fiquei aí uma temporada como adjunto de estudos econômicos depois eu fui aí saiu o Pitella entrou o doutor França Pereira. Luís França Pereira. Com o França Pereira eu então fui pra divisão administrativa a convite do doutor Arildo Zorzaneli, fui trabalhar com ele na divisão administrativa. Bom, aí é que acho que a minha atuação na Vale do Rio Doce mais se pontificou, tá? Porque Arildo me deu certos encargos muito importantes da vida dos funcionários da Vale do Rio Doce. Dos empregados da Vale do Rio Doce. Eu então tive oportunidade de desenvolver dois projetos que hoje ainda... um ainda está em coisa. O primeiro projeto foi: havia na Vale uma porção de apólices de seguro de vida dos funcionários. E nós sabíamos e tomamos conhecimento de que havia muita negociata com isso. A pobre da pensionista quando ia receber, o coiso o corretor enrolava, pagava metade pra ela, e dizia que era. Então nós resolvemos enfrentar o poder das companhias seguradoras e resolvemos fazer uma apólice só, como estipulante a Companhia Vale do Rio Doce. Bom, aí foi uma briga de foice, né? Foi uma briga muito grande, porque feriu muitos interesses. Até amigos pessoais meus ficaram, se afastaram um pouco de mim. Porque eu tinha ordem pra fazer e era pra fazer mesmo. E foi feito. Então nós acabamos com aquelas apólices todas e ficou uma apólice só como estipulante. Quando morri, ia um representante da Companhia fazer o pagamento junto com o corretor pra fiscalizar se ele estava pagando tudo bem certo. Essa foi a primeira coisa que eu acho a minha vida foi muito importante. A segunda coisa foi que eu desenvolvi aqui no Rio de Janeiro como um plano piloto, foi a assistência médica de livre escolha. Porque eu sempre defendi. Porque o relacionamento entre paciente e médico tem que ser muito pessoal. Então a Vale resolveu implantar esse plano aqui. Depois ela estendeu pra Companhia. Mas a par disso ela criou um sistema também de credenciamento, mas eu não... nesse credenciamento eu já não estava mais na Companhia, que eu me aposentei em 77. Mas esse plano de assistência médica subvencionada que nós criamos, o empregado escolhia o médico que ele queria escolher, o hospital que ele queria escolher, laboratório que ele queria escolher, da confiança dele. Trazia os recibos e a Companhia reembolsava uma parte. Dentista, tudo isso ele reembolsava uma parte, né? No grande, que a gente chamava, no grande risco que era as internações hospitalares, a Companhia contribuía com 80% e o empregado 20%. E do pequeno risco, que a gente chamava consultas em laboratório, ela, se não me falha a memória, ela contribuía com 60% ou 40%, eu não... ou 50... Um percentual entre 40 e 60%.  Isso criou um bom ambiente na Companhia, porque a Vale sempre foi uma empresa voltada mas muito bem para os empregado. Bem estar do empregado. Ela, o empregado entrava na Vale ele já sabia que ia morrer ali ou se aposentar ali. Dificilmente ele pensava em sair da Companhia Vale do Rio Doce. Dificilmente. Porque ela sempre teve muito essa parte social, ela teve muito voltado pra isso. Aí vem o Projeto da Fundação Vale do Rio Doce de Seguridade Social. Aí foi que eu fui designado pela divisão administrativa. Fui eu, o Luis Costa e Silva, o Marechal Lindemberg que era o vice-presidente da Companhia e o professor Rio Nogueira. Esses constituíram, então, um grupo de pessoas que fizeram os estudos sobre a Fundação Vale do Rio Doce. Esses estudos levaram um ano, um ano e meio mais ou menos pra se concretizar. A Vale implantar isso. E aí vem o grande problema que era de você difundir na Companhia Vale do Rio Doce, você contar a história da... Porque é que a Vale estava voltando? Naquela época, foi em 1973, já, as grandes estatais no Brasil: Petrobrás, Embratel, todas elas estavam já iniciando, a Petrobrás já foi a pioneira, né? A Petrobrás foi onde ela fundou a Petrus. A Vale veio, se não me engano, deve ter sido a segunda, a terceira ou a quarta por aí a implantar. E nesse período a Vale teve esse trabalho. Teve prestígio do Marechal José Lindemberg e do doutor Mascarenhas que era o presidente da Companhia naquela oportunidade e mais do Ministro Dias Leite. Essas três figuras nos prestigiaram, a esse grupo de trabalho para organizar. Aí vem a divulgação. Eu levei de março, a assembléia geral aprovou o plano em março de 73. Dali até setembro de 73 eu passei a divulgar em toda, eu fui em cada uma das oficinas da Vale. Em cada escritório da Vale. Em cada lugar onde tinha um empregado da Vale eu comparecia para explicar o plano. Como é que ele funcionava e como é que, por que é que a Vale tinha feito aquilo. E a Vale fez aquilo por um sentido, uma coisa muito importante. Anteriormente, por volta de 1960, 61, 62 por aí. No tempo em que Eliezer assumiu a Vale do Rio Doce. Porque eu divido a Vale do Rio Doce em dois períodos: o antes de Eliezer, depois de Eliezer. Eu divido a Vale nesse tipo de coisa. Não que os outros não tenha feito. Fez muito. Doutor Oscar Oliveira, doutor Lima, todos eles trabalharam muito. Mas o Eliezer foi o homem que abriu mais a... os horizontes da Companhia, né? E eu considero isso. O Porto de Tubarão foi outra coisa importante. A Vale deslanchou depois. Então 62 o Eliezer era presidente, 63, 64. Foi um período de crescimento da Vale, de adaptação da Vale. De renegociar os contratos da Vale. Foi muito importante. Mas nesse período de 60, a Vale criou um sistema que ela chamava de prêmio de aposentadoria. Vivíamos aquela época num início de uma inflação, né? Então o empregado recebia aquele dinheiro e dentro de quatro, cinco, seis meses, um ano, ele, coitado, aquilo já tinha... Porque ele vivia só da aposentadoria do INPS que era uma aposentadoria extremamente limitada. Ele ganhava x na Vale, e se aposentou com x-y. Ele começou a apanhar esse dinheiro pra compor o seu orçamento doméstico, né? E isso ocasionava uma insatisfação muito grande. Com muita razão o funcionário voltava, pedia auxílio, pedia pra voltar. Quer dizer, havia uma reivindicação. Então o que é que resolveu a Companhia? Resolveu mudar isso. Em vez dela dar esse prêmio de aposentadoria ela resolveu criar a Fundação Vale do Rio Doce de Seguridade Social, aonde ela complementava a aposentadoria dele no Instituto com um x mensal igual para completar aquilo que ele vingava na atividade. E mais ainda: ele recebia 25, 20% do abono de permanência em serviço que ele recebia do instituto. Porque quando o empregado fazia 35 anos e não se aposentava no instituto, o instituto lhe dava um abono de permanência em serviço de 20 ou 25%. Então quando ele se aposentou a Vale incorporou também isso ao salário dele. Por quê? Porque, evidentemente, tem porque o orçamento doméstico dele já aquilo já contava com aquele valor, né? Então aquilo passou a ser um valor, uma suplementação ao invés dela pagar um x de uma vez só, ele resolveu, ela resolveu fazer uma fundação de seguridade onde havia complementação mensal da aposentadoria do empregado. Uma contribuição inicial da Vale, então nós levantamos naquela oportunidade qual seria o ônus disso, né? E o ônus então, que nós chamávamos de, dos riscos iminentes. Tínhamos os riscos iminentes e os riscos pré-iminentes. Os riscos iminentes eram aqueles que já tinham os 35 anos de serviço e saía da Fundação, no outro dia eles estavam querendo sair da Companhia. E os riscos pré-iminentes é aqueles que faltava ainda de cinco, seis, sete anos para se aposentar, então era um risco pré-iminente. Daqui um cadinho ele já estava se aposentando pra isso. E ela criou dentro do estatuto, porque nós sentíamos que a Vale estava com seus quadros de empregados um pouco envelhecidos exatamente por isso. Porque ninguém saía pra se aposentar do INPS, pra ganhar uma miçanga. Receber um dinheiro, numa inflação galopante que se vivia. Quatro, cinco, seis meses, um ano depois ele estava... Deus sabe como. Vivendo de favor de parente, de filhos ou outras pessoas. Então ela criou, dentro do estatuto, ela criou um instrumento que ela chamava uma compulsória. Quem fizesse a sua condição de aposentadoria ele teria 120 dias para requerer a aposentadoria. Se ele não se aposentasse, porque ele não ia perder nada, estava recebendo tudo que ele tinha direito. Ele então começava a decrescer o valor da aposentadoria dele. Todo mês ele tinha um decréscimozinho. Sendo que dentro de dois anos ele estava perdido. Então houve nessa época, 73, 74, então se não me falha a memória eu era o diretor superintendente, naquela época, fui o primeiro diretor superintendente da Vale, em 73, por aí assim umas 800 pessoas se aposentaram de imediato. Com isso você, outra intenção da Companhia era rejuvenescer sues quadros e abrir baga em para os que estivessem lá tivessem acesso aos cargos mais elevados na Companhia. E em 1977 então eu me aposentei por força da compulsória, né? Eu completei os 35 anos então eu tinha que me afastar e me aposentei. Me aposentei aí fui trabalhar, fui requisitado pelo doutor Marcos Viana, fui trabalhar no BNDS. Aliás, minto, antes de me aposentar, foi, eu tive que, eu deixei a Vale por decisão do então presidente Roquete Reis, que achou que o bem que eu devia sair e colocar uma pessoa da confiança dele lá. Nesse interregno, antes de eu completar os 35, então o Marcos Viana me levou pro BNDS onde eu fui trabalhar como requisitado da Vale, eu fui trabalhar na Caraíba Metais. Fiquei lá como diretor na Caraíba Metais de 74 a 80. mas chegou em 77 eu então mesmo como diretor da Caraíba Metais, porque eu era funcionário requisitado. Então eu contei todo o meu tempo que eu estava na Caraíba Metais eu contei meu tempo na Vale do Rio Doce. Porque eu recebia pela Vale do Rio Doce, não recebia pelo BNDS. O BNDS é que indenizava a Vale do meu salário, mas eu, a minha relação de emprego continuou a mesma. Não foi interrompida. E aí em 77 eu me aposentei e continuei na Caraíba Metais até 1980. Quando chegou em 1980 eu então vim embora da Caraíba Metais, que fui transferido para a Bahia mas não me adaptei lá, fiquei seis meses lá. Não tive uma boa lembrança de lá, uma boa passagem lá pela Bahia. Problemas íntimos meus, pessoais. Então eu vim embora por Rio mais ou menos em junho. Resolvi, disse: “Bom, agora eu vou parar de trabalhar.” Quando chegou em três meses depois eu recebo um convite da Companhia Internacional de Engenharia e fui trabalhar na Companhia Internacional de Engenharia onde fiquei 10 anos mais. Fiquei 10 anos e saí de lá como diretor também da Internacional de Engenharia da área administrativa. Fiquei 10 anos lá. Terminado isso, eu crente que ia parar de trabalhar, encontro com um amigo na rua, ele: “Você vai me ajudar.” E pra mim ajudar, eu estou com ele há nove anos. E hoje eu sou agente de viagem (risos).

P/1, P/2 – (Risos).

R – Você vê como eu diversifiquei a minha vida, né? (Risos) e esta tem sido a minha trajetória.

P/2 - Eu queria voltar um pouquinho.

R – Pode voltar.

P/2 – Um pouquinho não, bastante (risos).

R – Pode voltar bastante (risos). Eu fiz um relato corrido da coisa, pra que vocês possam ter coisas pra perguntar.

P/2 – É, o senhor falou que seu pai é uma pessoa muito rígida.

R – Muito rígida.

P/2 – Queria que o senhor falasse um pouco da educação que o senhor recebeu.

R – Olha, eu recebi uma educação, por ele ser uma pessoa rígida, eu recebi uma educação muito boa. Porque a minha mãe, eu tinha 10 anos quando a minha mãe faleceu. Então me pai como inspetor de estação ele não parava em casa. Ele viajava quase que o mês todo. Então eu e os meus irmãos, nós fomos cada um morar com uma irmã que já estivesse casada. Então eu fui morar com uma irmã chamada Zulmira, casada com Antonio Dias Varejão. Uma pessoa que se eu beijar, beijasse o chão que ele pisasse eu não pagava o que ele fez por mim na vida. Então eu fui criado, praticamente, por essa irmã e por esse cunhado. Então eu tinha um exemplo familiar muito bom dentro de casa, tá? Então, e o exemplo do meu pai, agora depois meu pai aposentou casou outra vez. Nós aí não voltamos mais pro convívio dele, né? Ficamos convivendo com as minhas irmãs. Dois irmãos foram morar com o cunhado e outra irmã e eu fui morar com essa irmã.

P/2 – E a sua irmã Zulmira, com o seu cunhado, eles também, na escola, no grupo escolar, também, como é que era isso? O senhor na escola, dentro da sala de aula, como é que era?

R – Não, eu sempre fui uma pessoa muito calma. Eu nunca fui muito de bagunça dentro da colégio não, tá? E minha irmã era muito rígida. Olha eu hoje não fumo, não bebo e não jogo, tá? Porque eu não podia nem pensar em fazer uma dessas coisas perto da minha irmã (risos).

P/1, P/2 - (Risos).

R – Ela não admitia, de jeito nenhum. Então ela me criou num regime muito severo, né? Mas eu sou muito grato a ela, por isso. Sou muito grato. E acho que eu ainda tenho um pouquinho desse ranço com meus filhos, ainda, né? Eu me comunico com meus filhos, eu tenho quatro morando em Vitória e uma morando aqui no Rio. Que eu tenho cinco filhos. Um aqui no Rio. Eu... eu não digo diariamente porque aí eu vou exagerar, mas um dia sim, um dia não eu me comunico com meus filhos. Ou eu ligo pra eles ou eles ligam pra mim. E a minha mulher acha que eu cobro muito dos meus filhos. Porque eu cobro deles. Eu cobro porque eu acho que eu sou o pai deles, eles têm obrigação de estar se comunicando, sabendo, dando notícias. E eu também como pai, tenho obrigação de saber deles como eles estão. Como é... Então eu tenho um sentido de família muito arraigado. Muito forte. Eu não posso nem imaginar se desfazer disso. Não tenho nem condições.

P/1 – O senhor nasceu em Angolas, né?

R – Argolas.

P/1 – Argolas.

R – É um distrito. Era o seguinte: a estação de, você conhece a estação de Pedro Nolasco?

P/1 – A que é o atual museu, é isso?

R – Exatamente. Meu pai trabalhava ali. Argola é aquele morro que tem ali na frente. Do lado. Tem ali do lado. Ali que todo ferroviário morava ali porque descia, estava na estrada para trabalhar. Não tinha problema de condução, não tinha nada disso.

P/1 – E o senhor passou a infância toda aí, nessa região?

R – Não, não. Aí quando meu pai passou a ser inspetor de estação, ele aí deixou de ser um agente da estação. Ele aí mudou-se pra cidade, pra Vitória. Aí eu fui morar num bairro chamado Jucutuquara, antes da praia. Morei ali muitos anos. A minha infância foi toda ali. Ali foi minha escola de grupo escolar, né? Depois quando minha mãe adoeceu eu fui morar em Campinho de Santa Isabel, que a minha mãe morreu, naquela época era doença comum, a tuberculose, né? E eu fui morar, ela foi pra uma estação de, um lugar próprio pra viver essas pessoas atingidas. Porque aquele tempo medicação era muito pequena não havia esse (inaudível), era mais clima. Então eu fui pra esta estação de clima e lá ela faleceu, que aí eu voltei, com 10 anos, pra morar com a minha irmã em Vitória. Ali eu cursei o curso de contador na Academia de Comércio de Vitória e entrei, aí fui pra Vale do Rio Doce em 43. Eu tinha 17, três de fevereiro, eu tinha 17 anos, não tinha os 18 completo ainda. Eu fui trabalhar na estrada como eu disse, mas eu fiquei entre ir pra estrada e ir pra divisão de construção. Que era a que tomava conta de... Mas meu pai preferiu que eu ficasse na estrada. Porque ele sabia que a divisão de construção cedo ou tarde ia acabar, né? Ia acabar. Então... E até tem um fato muito triste que aconteceu nessa divisão de construção que era em outro prédio da Vale. Armazenaram lá as espoletas, né, e aquilo houve uma explosão e morreu muita gente. Morreu. Corpo de pessoas jogado na rua. Em 1943 se não me falha a memória. E um fato triste. Eu graças à Deus não estava lá. Eu estava na estrada, né? Eu estava no outro prédio.

P/1 – Mas o senhor assistiu a explosão?

R – Ouvimos a explosão. A explosão foi ouvida, né? Morreu muita gente que trabalhava nessa divisão de construção. Foi um fato triste lá na estrada.

P/1 – Seu Walter que lembrança o senhor tem de infância, da ferrovia? Quer dizer, desse trabalho do seu pai? Quer dizer, como era esse contato?

R – Pois é, a ferrovia, é todo ano, como eu falei com você, por causa da minha mãe morava num distritozinho, num lugarejo chamado Pendanga. Ela é descendente de lá, e era uma estaca da estrada de ferro. E então as minhas férias eram lá. Pra casa dos meus avós maternos, a gente ia pra lá e viajava de trem. E o grande acontecimento diário desse lugar é a passagem do trem. O expresso subindo e o expresso descendo (risos). Então a gente se juntava ali na estação pra esperar o trem chegar passar, comprar jornal, essas coisas. E depois ficar na coisa de roça mesmo andar a cavalo, correr pelo campo sem maiores coisas porque o lugar não oferecia nada dessa coisa não. Essa foi a minha infância, e lembro de estrada de ferro é isso aí. Depois quando eu fui ser funcionário, aí sim, eu comecei a ter outra visão do que era uma estrada de ferro. Comecei a conviver, a viajar pela estrada de ferro, né?

P/1 – E a infância em Vitória mesmo, quando vocês mudaram pra praia já era, como é que foi? Que tipo de brincadeira se fazia, amigos de rua?

R – Amigos de ruas, eu vou te contar, eu tenho amigos de rua, tinham muitos. Porque eu fui morar na Rua Gama Rosa com minha irmã, né? Morava na rua Gama Rosa e tinha do lado um terreno baldio. E tinha o time de futebol. Porque naquele tempo cada rua tinha o seu time futebol. E eu jogava bem. Eu jogava bem. Eu era famoso ali no time da Gama Rosa. E a tente fazia aqueles, toda tarde ou duas, três vezes por semana, a gente fazia os jogos de, o time da rua x contra o time da rua y. E aquilo ali. Hoje eu tenho lembranças, poucos amigos daquela época, né? Quase que nenhum. Só tenho o quê? Tenho o... o Zé Maria Pacheco, o Willie Pacheco e Hélio. O Hélio é até general reformado do exército. Zé Maria mora em São Paulo, é gerente, foi gerente do banco, aposentou. E o Willie foi funcionário do Banco do Brasil. Bando do Brasil todos dois, também se aposentou. Então eu só os vejo quando eu vou a Vitória agora, ultimamente. Agora do colégio, não. Do colégio eu tenho boas lembranças, né? Do colégio, de vez em quando, eu me lembro dos meus amigos lá do colégio. Tenho... Lembro muito do Henrique Pretti, que foi presidente do Banco do Espírito Santo, foi vice-governador do estado. Me lembro do Arould Wilts uma inteligência privilegiada. Um filho de alemão inteligentíssimo, como poucas vezes eu já vi na minha vida. Foi gerente, foi funcionário do Banco do Brasil, gerente do Banco do Brasil e tantos outros que a gente não lembra mais. Mas é coisa de... cidade, Vitória era uma capital como se fosse uma roça, né? Aí todo mundo se conhecia, todo mundo se falava. Todo mundo, tanto que antigamente não tinha esses telefones que tem hoje, automáticos, né? Os telefones eram na manivela, né? Então uma pessoa queria ligar para um certo, determinada pessoa, né, para um médico, alguma coisa, rodava aí atendia a central. A central atendia e dizia: “Pronto!”, eu: “Você me liga pra casa...”, não dizia nem o número, “...pra casa do doutor Fulano de Tal.” Ela já dizia: “Ah, ele não está em casa não.”

P/2 – (Risos)

R – “Ele está no cinema, ou viajou ou está na casa de Fulano. Ele não está em casa não” (Risos). Era pra você ver como era Vitória. Era uma cidade pitoresca porque você conhecia todo mundo. Você se dava com todo mundo, né? Com todo mundo você se dava.

P/2 – Ouvir rádio também, tinha isso?

R – Ah, tinha. Rádio tinha. Bom o rádio chegou em Vitória por volta de 34. 33, 34. E só algumas famílias possuíam rádio.

P/2 – A sua?

R – A minha tinha. Na casa do meu cunhado tinha. Algumas famílias tinham rádio. Depois não. Depois difundiu, hoje todo mundo tem, né?

P/1 – Seu cunhado fazia o quê?

R – Ele trabalhava no IAPC. Ele era contador de (inaudível) depois ele ingressou no IAPC e se aposentou no IAPC. IAPC é o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários.

P/1 – O senhor quis fazer o curso técnico de contabilidade, por quê?

R - Olha, talvez por necessidade, porque naquele tempo Vitória não tinha faculdade. Tinha a Academia de Comércio de Vitória que você formava bacharel em Ciências Contábeis e Atuariais e a Faculdade de Direito, tá? A Faculdade de Direito me mostrava um campo pra eu levar mais tempo pra vencer na vida. Porque era muita gente que freqüentava. Então eu fui pra Academia de Comércio, porque eu sabia que terminando o meu curso eu tinha logo, ou antes disso, eu já tinha emprego garantido. E eu precisava trabalhar, né? eu precisava trabalhar. Eu precisava ajudar em casa porque não era justo eu viver nas costas do meu cunhado até ele morrer, né? (Risos). Que eu saí da casa dele casado, né? Ele só deixou eu sair de casa casado.

P/2 – Ah, é?

R – É. Saí da casa dele casado. Entrei com, morei com ele 16 anos. Cheguei com 10 anos, saí com 26 quando fui me casar.

P/2 – E o senhor namorou muito tempo?

R – Eu? Namorei?

P/2 – É.

R – Não fala em namoro não, porque isso depois minha mulher não vai ouvir.

P/2 – (Risos)

R – Não, naquele tempo, meu filho, você tinha o seguinte, Vitória resumia o seguinte: resumia em você ter três clubes, em Vitória tinha. Tinha o Álvares Cabral, o Saldanha da Gama e o Clube Vitória. Quando da, você era obrigado a ser sócio dos três se você quisesse ter alguma coisa pra fazer de noite (risos). Então quando um dava uma festa o outro não dava. O outro dava no outro dia de manhã. No sábado um dava uma festa, no outro dia um dava uma domingueira de manhã cedo, e o outro dava uma domingueira de noite. Então era a vida da gente era esta. Era de festa, de baile, de seresta, né? De ouvir seresta daquele pessoal que cantava muito. Porque ainda tinha muito, Vitória não tinha naquela época, não tinha edifício. Era tudo casinha baixa. E tinha os seresteiros costumais né? saíam fazendo seresta por ali, assim. Sobretudo depois das domingueiras que acabava meia noite em ponto. Fechava, acabava, não tinha mais nada. Aí saía o seresteiro cantando por ali, pela...

P/2 – O senhor participava disso?

R – Não. Eu ouvia só, né? Eu ouvia mas não participava não.

P/1 – E o senhor lembra a primeira namorada lá em Vitória, como é que foi ou não?

R – Ih, rapaz. Primeira namorada? Quem foi minha primeira namorada? Não lembro.

P/1 – Não lembra?

R – Não lembro.

P/1 – Mas aquele tempo como é que era um pouco esse ritual?

R – Ah, era, você naquele tempo segurar na mão de uma menina já era um negócio de maluco, né? Já era um avanço demais. Demais. Porque era muito respeitoso, né? Todo namoro era muito respeitoso. Não se admitia o que hoje tem por aí.

P/2 – Hum, hum.

R – É o progresso, né? É o preço do progresso que nós estamos pagando: televisão, cinema, essas coisas.

P/2 – A sua esposa o senhor conheceu aonde?

R – Em Vitória mesmo.

P/2 – Sim.

R – É. Ela era, ela estudava na, ela fazia o curso de Educação Física. Ela formou-se no normal e fazia o curso de Educação. Mas a família dela é do interior. Ela morava na casa de uma tia onde ela fazia então o curso. Foi aí que nós nos conhecemos, em 1947. 13 de abril de 1947.

P/2 – O dia que conheceu?

R – É o dia que eu conheci. 13 de abril de 1957. Quer dizer, eu conheci. Quer dizer que eu comecei o namoro. Conhecer eu conhecia de vista, eu via ela passar, eu a via passar pra lá, pra cá e tal. Mas só em abril de 47 foi que eu... começamos a namorar. E estamos juntos até hoje, vamos fazer bodas de...

P/2 – Ouro.

R – De ouro, agora dia 6 de janeiro.

P/2 – Parabéns. E namoraram, quando é que vocês...

R – Eu casei em janeiro de 51. Três anos e pouco, quatro anos. Era o tempo que você tinha que se preparar, né, pra casar. Fazer casa, comprar casa.

P/2 – Enxoval.

R – Enxoval, essas coisas todas. Porque... 47, é... era o tempo que a gente levava pra casar mesmo. Três anos, anos e meio pra moça se preparar.

P/2 – O seu pai?

R – Ah, meu pai faleceu em 60.

P/2 – Mas ele tudo bem, ok?

R – Não, ele continuou, ele casou a segunda vez. Tinha a família dele, os filhos dele do segundo matrimonio com os quais nós mantemos, nossos irmãos e eu mantemos as melhores relação com a viúva dele que ainda é viva até hoje. Mas como eu disse desde o início, né, nós fomos morar numa casa com minha irmã e ele foi morar com a outra família dele que ele constituiu em outro lugar.

P/1 – Senhor Faria, qual foi o primeiro emprego do senhor, o primeiro trabalho, Vale do Rio Doce?

R – Foi esse.

P/1 – Na Vale do Rio Doce mesmo?

R – Vale do Rio Doce.

P/1 – E como é que surgiu a oportunidade de trabalhar ali?

R – É aquilo que eu te falei. Dificilmente era um empregado da Vale do Rio Doce que não colocava na Vale do Rio Doce um parente. Então meu pai era muito amigo do doutor Beleza, muito amigo do doutor Jaime Ramos Pinto. Pediu, o dia que tivesse uma vaga pra eu ir trabalhar. Um dia ele chegou em casa e disse: “Você se apresenta lá pra trabalhar.” Eu aí fui, dia 3 de fevereiro, apresentei lá, enchi os documentos, né, pá, pá, pá. Fui trabalhar na contadoria da receita. Meu primeiro chefe foi... Koski, Adolfo Koski. Depois ele saiu ficou Antonio Caetano, todos já falecidos. Depois do Caetano, todos já falecidos. Depois do Caetano, aí que eu saí como eu contei e fui pra Caixa, né? E lá o presidente era doutor Henrique, Henrique... não me lembro mais o segundo nome dele não. Doutor Henrique... Cerqueira Lima. Doutor Henrique Cerqueira Lima. Era o presidente da Caixa. E depois eu voltei pra Vale, o meu chefe aqui no Rio, meu primeiro chefe aqui no Rio foi o contador geral. Eu me esqueço o nome dele agora. Ele era descendente de sírio, até. Me esqueço, mas ainda me lembro. Aí fui trabalhar, passado uns seis meses, eu fui transferido pra auditoria trabalhar com Haroldo Moreira.

P/2 – Quando o senhor entrou na Vale, pode-se dizer que já, esse desejo o senhor já tinha cumprido de entrar na Vale.

R – Ah, já.

P/2 – Depois de ter entrado?

R – Não, mas o desejo de voltar era muito grande. Muito embora eu tenha no Instituto galgado os maiores postos do Instituto, né? Eu era naquela época o contador geral do Instituto, que era no Brasil inteiro, né? Ele tinha muito poder dentro do instituo, então... Mas o meu desejo era voltar pra Vale. E acelerou mais esse episódio, acelerou mais a minha volta pra Vale, aí eu já voltei pela mão do meu irmão, José Vicente que era o tesoureiro geral, tá? Pelo seguinte: eu certa feita, uma manhã no Instituto como contador geral, eu recebo a visita de um colega e que diz o seguinte: “Tem um desfalque aqui no Rio de Janeiro na delegacia x.” Eu disse: “Tem desfalque?” Ele disse: “Tem. Pode mandar ver na tesouraria. Mas você não vai dizer que fui que falei”, eu disse: “Não”. Cinco minutos depois, eu apanhei três funcionários auditores, e mandei pra tesouraria. Eles entraram, fecharam a tesouraria e apuraram. Em meia hora eles apuraram o desfalque. Era um servidor antigo muito conceituado no Instituto que tinha, se arranjou, se encantou por uma mulher, que era funcionária dele, e essa mulher explorou ele. Então ele tirava o dinheiro, ele recebia o dinheiro pra pagar as guias, ele segurava aquela guia, dava entrada da do mês anterior e jogava a outra pra frente. E o pior é que na véspera de acontecer isso três rapazes, três contadores tinham feito uma auditoria na tesouraria. Como confiavam muito nesse cara, assinaram. O cara fez, eles assinaram. Nem foram lá. Eu então, aqui me deu uma depressão, me deu um problema que eu disse: “Meu Deus do céu!”. Decretamos logo a prisão administrativa desse tesoureiro e o presidente então do Instituto, naquela época, me nomeia presidente da comissão de inquérito pra apurar esse desfalque. Eu fui ouvi-lo aí na Frei Caneca. Eu saí dali dizendo: “Não fico mais aqui.” Era pessoas que eu tinha que incriminar todo mundo. Mas nunca deixei de incriminar, não. Eu fiz o inquérito, acabei o inquérito. Incriminei todo mundo que tinha que ser incriminado. Tirei seis meses de licença prêmio. Aí sim, voltei pra Vale do Rio Doce, fiz concurso. Voltei fiz um concurso. Passei no concurso. Fui trabalhar na contadoria. Eu era... no Instituto eu tinha secretárias, gabinetes e o diabo. “N” funcionários. Vivia... Fui ser funcionário de mesa simples. Tanto que eu recebia visitas dos meus amigos do Instituto ou do Ministério do Trabalho, da Previdência daquela época, eu os recebia no hall. Hall do elevador, porque eu não tinha lugar pra receber. Pra conversar com eles. Aí fui para auditoria e de auditoria eu refiz a minha caminhada na Vale do Rio Doce e terminei como primeiro superintendente da Fundação Vale do Rio Doce de Seguridade Social. Aí foi o fecho da minha vida.

P/2 – Mas quando o senhor entrou na Vale? Qual era a meta seguinte: “Ah, já entrei na Vale. Agora eu gostaria de ser...”

R – Fazer carreira. Fazer carreira. Isso eu sempre fiz. Sempre fui um empregado muito dedicado. Eu tinha muito senso de responsabilidade. E eu tinha muitas atribuições. Coisas interessantíssimas que aconteceu lá que eu posso, não sei se eu devo contar.

P/2 – Deve.

R – Nós tínhamos um colega que ele chamava-se Wilson Correa da Silva, Wilson não sei de quê. Mas o vulgo nome dele era Wilson Cuíca. E o Wilson Cuíca, naquele tempo eu já estava chefiando uma sessão. Fazia uns dois, três anos eu já estava chefiando uma sessão na contadoria da receita. E esse Wilson trabalhava comigo. E ele então tirou férias e antigamente o telégrafo, as mensagens, telegramas, né, ao longo da estrada era feito pela Estrada de Ferro Vitória-Minas. O correio recebia, passava pra (inaudível) e passava no Morse pra coisa. E lá o agente recebia aquela coisa e passava pro destinatário.  Então havia um chamado tráfego mutuo. Entre o correio e a Vale. O correio fazia os relatórios daquilo que ele mandou pra Vale e a Vale conferia, mandava pro correio conferido e o correio à Vale o trabalho da Vale. O serviço do Wilson era exatamente esse de conferir, cotejar os telegramas com o que vinha nas relações do coisa. E eles saiu de férias e eu pedi ao Darci Apine pra que ele fizesse o obséquio de ir lá na mesa do Wilson e fazer aquele (inaudível) porque precisava entrar dinheiro, né? (Risos). O Darci foi... isso passou quatro ou cinco dias: “Walter, não consigo fechar não.” “Mas como é que não consegue?” “Não consigo. Falta uma porção de telegrama nessa relação. Uma hora falta na relação telegrama que está aqui, não dá pra conferir.” Eu disse: “Mas não é possível rapaz, você está muito mole. Eu vou fechar isso.” Sentei lá e três dias depois eu arriei as armas, né?  Não consegui (risos).  Saímos nós dois então uma noite da Companhia e encontramos o Wilson na rua. “Ô, Wilson! Puxa... Quando é, você está de licença, como é que é? Nós não conseguimos fechar aquele serviço de tráfego mutuo, rapaz? Você fechava aquilo todo dia, certinho. Não havia diferença. Tudo certinho.” Aí ele disse: “Como é que é a diferença?” Eu digo: “Ah! Lá tem muito mais telegrama do que o que está na relação.” Aí ele disse: “Ah, mas isso acontece todo mês.” “Pô, e como é que você fechava?” “Eu rasgava.” (risos).

P/1, P/2 – (Risos)

R – (Risos) “Eu rasgava” (Risos). A Companhia tem, eu gosto muito. Eu tenho muita história da Companhia, né? Tenho outra só pra...

P/1 – Claro, claro. É ótimo.

R – Tem outra do, tem uma estação na Vale do Rio Doce chamava, na Estrada de Ferro, chamava Tumiritinga, perto de Governador Valadares. Era uma estação no meio de uma mata. Abriram uma clareira, fizeram uma estação ali. Chamava estação de Tumiritinga. E dava muito, muito impaludismo ali, né?

P/2 – Hum.

R - E certa feita, estava lá o agente. Tinha o agente e o guarda-chaves. E normalmente por obrigação, o guarda-chave tinha que saber bater Morse. Tocar Morse. E o agente, coitado, pegou uma febre violenta de impaludismo e morreu. Acontece que o agente pra transferir a chefia da estação pra outra qualquer pessoa ele tinha que pedir licença à Vitória. Ele passava um telegrama pedindo licença para passar a chefia da estação por guarda-chave, porque ele ia fazer uma viagem ou estava doente. Mas ele morreu. Que é que o guarda-chaves ia fazer, coitado? Chegou e disse: “Meu Deus, o que é que eu vou fazer?”. Ele aí foi pro Morse e bateu o seguinte telegrama: “Acabei de morrer. Peço autorização passar a chefia da estação pro guarda-chaves Fulano de Tal”. E botou o nome dele (risos).

P/1, P/2 – (Risos).

P/2 – Defunto passando Morse.

R – (Risos) Ele tinha que dar uma saída (risos). Ele tinha que dar uma saída, né? A saída dele foi essa. A saída dele foi essa. Essas coisas aconteciam muito.

P/2 – Acontecia muito trocadilho com função de informação? Aquela...

R – Ah, havia muita, né? Tinha que ter, né? Tinha muito porque era... primeiro a estrada de ferro tinha empregados muito dedicados, mas quase todos eles de formação cultural muito relativa, né? Muito relativa. Então acontecia coisas, coisas incríveis, né? Como aquela do sujeito que foi, ele chegou na estação de... tinha um encarregado chamava conferente. Chegavam os trens de carga, ele apanhava os romaneios, aqueles despachos e ia conferir todas as mercadorias que chegavam no trem, chamava conferente. E certa feita o conferente deu a falta de um pacote de capim. Feno, né? Faltou e tal. E apura daqui, apura dali, ele não teve jeito. Ele botou no processo, porque aquele tempo aí o sujeito tinha que fazer um processo, desaparecido. Ele aí escreveu o seguinte, que nesses terreno tinha uns cabrito, uns bode, né, ele aí escreveu que o despacho tal, comeu o despacho número tal.

P/2 – (Risos)

R – (Risos) Despacho tal comeu... (risos) Ele não tinha outra saída, né? Ele não tinha outra saída. (Risos) Nós tinha um colega lá, muito querido. O último nome dele era Leão Dionísio de Souza.  Mas quando ele foi ingressar na Companhia, ele foi trabalhar no almoxarifado com um senhor chamado seu Eufrásio. Esse seu Eufrásio era uma figura muito rígida, né, naquele tempo. Um óculos aqui assim, né? Trabalhando na mesa. E chegou o Leão, e ele era fanho. Um pouco fanho. Ele chegou e disse: “Dá licença.”seu Eufrásio não levantou nem... levantou só a vista assim: “Que é que você quer mesmo? “Eu vim aqui com a carta para trabalhar aqui no almoxarifado.” Ele disse: “Trabalhar aqui? Quem mandou?” “Foi lá da superintendência.” “Hum, da superintendência. E como é que é seu nome?” Ele está escrevendo e está perguntando. “Como é que é seu nome?” “Meu nome é Luis Lobo José da Onça.” Aí ele disse: “Como é menino?” “Luis Lobo José da Onça”, “Vai embora. Troca de nome porque aqui não tem jaula pra tanto bicho!”.

P/1, P/2 – (Risos).

R – Risos) e ele trocou o nome pra Leão Dionísio de Souza. Ele foi ao cartório, um cartório ali em Argolas, onde eu nasci do Cid de Soni conseguiu do Cid de Soni, tirou uma nova certidão com o nome dele, que ele morreu agora há poucos anos com o nome dele.

P/2 – Tirou o Lobo e colocou o Leão (Risos).

R – É.

P/1 – O Onça e o Leão.

R – Luis Lobo José da Onça.

P/1 – Ficou um bicho só.

R – Trocou o nome. Ali ele trocou o nome, pra Leão Dionísio de Souza. Era Leão Lobo José da Onça.

P/2 – Leão Lobo.

R – Ficou só Leão Dionísio de Souza. O Leão ele não tirou não.

P/2 – (Risos).

R – Mas essa Companhia... Então você vê que tinha coisas, era um grupo. Eram pessoas que se davam, que brincavam. Era um ambiente muito sadio. Tinha, evidentemente que tinha, suas diferenças entre eles, né? Em algumas vezes. Mas tinha muita coisa. Essas coisas pitorescas de Vale do Rio Doce. E da certa feita, nós chegamos na Vale, José Carlos da Silva, na época do PIP, começou a levantar nos arquivos essas coisas interessantes, essas piadas. Essas coisas interessantes. Mas eu não sei se eles conseguiram terminar aquilo não. Onde tinha coisa, eu sei pouca, sei algumas, né, as mais importantes. Mas ali tem piadas as mais... Outro dia eu fui até, nós fundamos a Associação dos Aposentados dos Associados Assistidos da Valia, chama-se Aposvale. Quer dizer, após Vale. Os aposentados, após terminou e aposentado vale. Então e até abril desse ano eu era o presidente do Conselho de Representante. Fui quatro anos reeleito. E então nos intervalos, e quase todos são velhos empregados da Vale do Rio Doce, todos eles cada um tinha uma história pra contar. E contava a história, lembrava: “Você lembra de Fulano?”. E cada um tinha uma história pra contar. Mas era um lugar muito sadio pra você trabalhar. Muito bom.

P/1 – A maior parte das histórias vinham da ferrovia?

R – Vinha da ferrovia.

P/1 – Vinha da ferrovia.

R – Bom é porque a minha convivência maior era com a ferrovia, né? Era com a ferrovia. Mas tem história lá na mina, tem muita história também. O dia que você for ouvir alguém da mina, você procura perguntar eles contam as histórias de lá. Lá tinha muita história.

P/21 – História de acidentes na ferrovia?

R – Ah, acidente tinha muito. Na estrada de ferro tinha muito, né? em 1943 eu entrei. Em 1944 eu fui à Itabira. E você sabe que uma das coisas que – naquela época Itabira era muito frio mesmo, no é o que é hoje – uma das coisa que mais me impressionou era o seguinte: era o Pico do Cauê lá em cima, ainda começando a ser desbastado. Eles fizeram um caminho, você só subia. Pra você voltar você tinha que ir lá em cima fazer, o que eles chamavam... eu me esqueço o nome que eles davam àquilo. Você tinha que fazer uma volta pra descer. Porque não tinha, não tinha, só dava...

P/2 – Espaço.

R – Você não tinha como manobrar. Pra fazer isso, pra fazer, pra voltar. Você tinha lá no viradouro, você tinha que ir lá em cima no viradouro, voltar e vir no cantinho era sua mão. E então o que eu observei era a condição de trabalho em 1943. Por que a Vale foi em 42, foi a Itabira Iron, né, que era dos ingleses e a Estrada de Ferro Vitória-Minas, o governo fundiu aquilo tudo na Companhia Vale do Rio Doce. Era a condição de trabalho. Era a marreta, uma marreta. Tirando minério na marreta ou tirando na pá. Condição de frio louco lá em cima. Trabalhando com calça e camisa rasgada porque não tinham condição de vida. A Vale criou então, mudou todo esse espetáculo. Tudo isso era deprimente, ela criou, foi criando. Mecanizando e trazendo gente. Criando serviço médico, quer dizer alimentação, a moradia. Então ela criou um trabalho social espetacular. Hoje você vai em Itabira é uma cidade. Cresceu e tal. Mas naquela época tinha meia dúzia de casa e o pessoal trabalhava naquelas condições. Tinha lugar pra dormir, não tinha lugar pra nada. Era uma situação difícil. Então esse trabalho que a Vale fez lá em Itabira, já Vitória não, porque Vitória já era uma capital de estado, não tinha muito investimento social. Mas o investimento social em Itabira foi muito grande. Aquele pessoal de lá. Hoje Pico do Cauê não existe mais hoje, acabou. Tem duas ou três minas e eu não sei qual é o fim de Itabira daqui mais uns anos. Mas como eu ia falando, nós fundamos essa associação, né? Hoje, nós começamos com 60 pessoas, 60 associados que criaram essa associação, e que são sócios fundadores. Hoje ela está com mais de 10 mil associados.

P/2 – Nossa.

R – Mais de 10 mil associados. Tem Itabira, Vitória... Tem sede própria aqui no Rio, na Rua Santa Luzia. Tem sede própria em Itabira, tem sede própria em Governador Valadares. Tem sede própria em Belo Horizonte, tem sede própria em Vitória.

P/1 – No norte ainda não?

R – No norte ainda não porque é a tal coisa: Carajás ainda não está gerando aposentado, né? Porque Carajás é de 64 pra cá, né? De 63, 64, 62 pra cá. Então ela ainda não está gerando. Mas daqui um, mas esse ano já se pensa em criar alguma coisa pra lá também, né? Agora o trabalho feito com aposentado é de assistência social. Você vai à Itabira você, é, coro de aposentados, né? Curso de teatro, curso de todo tipo de atividade. Porque Itabira se você, aqui no Rio não, porque aqui no Rio é difícil. Você tem uma sede excelente, sala de jogos, mas a freqüência é pequena. É pequena por quê? Porque o pessoal daqui não vai. Dificilmente vai lá. Um ou outro às quartas-feiras que aparecem vão jogar bilhar. Você tem que estar promovendo concurso de bilhar pra aparecer meia dúzia.  Mas Itabira e Vitória não. E Belo Horizonte e Governador. Belo Horizonte até me surpreende porque também é uma cidade grande. Mas tem uma freqüência maior do que aqui, mas muito menor que Itabira e Vitória, né? Itabira é a primeira delas, porque a freqüência é muito grande. Porque então lá eles tem uma, então houve uma continuidade, entendeu? Até isso a Vale contribuiu, e ela contribui porque a Valia, que é a Fundação Vale do Rio Doce ela contribui junto com a Associação pra desenvolver esses projetos de assistência ao aposentado. Você vê que mesmo depois da pessoa desligada, mesmo da pessoa ter rompido o seu laço empregatício ela continua presente na vida de todos nós. É impressionante. Eu acho que não existe no mundo uma Companhia com tanta afinidade entre seus empregados. Com tanto orgulho. Quer dizer, você conversa com uma pessoa da Vale, ele tem orgulho em falar da Vale do Rio Doce. Porque viu nascer e crescer. Justamente por isso que eu disse a você no início. Houve um sentido muito familiar na Vale do Rio Doce. Difícil era o empregado que não tinha um parente, um irmão. Então isso foi se transmitindo de pai para filho e assim foi para diante. Hoje já está diferente. Depois da privatização. Evidentemente, que a ótica é outra mas mesmo assim, mesmo assim ainda há muita colaboração da Vale com os aposentados. Com as pessoas que deixaram a Vale. Eu falo mais disso porque eu me aposentei em 77. Então são 23 anos que eu me desliguei. Depois da privatização então eu raramente vou a Vale do Rio Doce, só quando tem um interesse. Mesmo porque eu já não conheço mais ninguém. Todos já se aposentaram ou saíram da Companhia, né?

P/1 – Como que a Aposvale aborda o aposentado? Quer dizer, acaba de se aposentar, o aposentado é que vai procurar a Aposvale, ou a Aposvale...?

R – Não, quando ele se aposenta a própria Vale, a própria Valia, encaminha ele pra coisa, mas se ele sabe que tem a Aposvale, ele mesmo procura. Vai lá, ele se associa, ele paga um valor correspondente lá. Agora é dois reais, já foi 50 centavos, 40 centavos. E hoje você vê com essa arrecadação ela tem um patrimônio – só onde fica o prédio daqui vale mais de 500 mil reais. Tem a de Itabira, tem a de Belo Horizonte, tem a de Governador Valadares. Então a Vale nunca deixou de estar presente na vida do aposentado, do empregado. Mesmo depois que ele aposentou. Tinha antigamente, agora ultimamente não tem mais, antigamente fazia aqui no fim do ano, em toda a Vale do Rio Doce fazia-se a festa do aposentado, do funcionário. Onde ia pra lá os filhos, a mulher, o marido, os filhos, os netos. Ganhavam presentes. Recebiam presentes, era um show! Era uma festa muito bonita. Ultimamente não tem sido feito mais. Não sei porque, mas isso nós fazemos na Aposvale para os aposentados, né? Todo ano tem a festa de fim de ano. Em todo, tem em Itabira, tem em Vitória, tem em Valadares, tem aqui no Rio. Então aqui se congrega, a gente aluga, normalmente se aluga um grande clube aí, né, grande clube. Aí dá 400, 500, 600 pessoas na festa. É uma festa muito bonita de fim de ano. Muito bonita mesmo. Então, você vê, é o espírito de congregação. Nós, aposentados, nós não nos divorciamos. Nós continuamos firmes com aquele princípio, com aquele vontade da Companhia Vale do Rio Doce. Não foi um pra cada lado não.  Quando se encontra, você vê a festa ali. Que a gente se encontra, embora longe, né? Quando a gente se encontra, mostra, essas coisas. E isso a Vale contribuiu muito. E ainda contribui. Evidentemente que depois da privatização que a ótica é outra, né? No tempo da estatal a Vale tinha uma ótica de, com relação a empregado. Hoje como uma empresa privada ela tem outra ótica. É normal. É natural. Mas mesmo assim os que vão se aposentando vão chegando os antigos, vão chegando.

P/1 – Essa coisa do espírito da Vale, que o senhor falou, essa coisa familiar, esse espírito familiar. Em relação a ser estatal, isso tinha alguma coisa a ver?

R – Olha, eu não sei. Porque a gente quando entrava na Vale, a gente entrava com isso que eu falei pra ele: a gente entrava com essa idéia de fazer carreira e se aposentar. Jamais passava na cabeça de um ou outro, de, evidentemente tinha exceções, de deixar a Vale na metade do caminho pra ir fazer outra coisa. Raramente acontecia isso. E quando a Vale sentia que isso podia acontecer ela criou a Fundação que é para trazer mais ainda, amparar mais ainda o empregado, ele se sentir mais seguro ainda no resto de sua vida. Porque bem ou mal, uns reclamam que podiam ganhar mais, podiam ganhar menos... Mas a vida está difícil pra todo mundo. Está, a vida está difícil. Mas ai de nós, ai de nós se não tivesse a Valia, como é que a gente ia viver com 1200 reais, ou 800, ou 500, ou 600 ou 151 reais do INSS, né? Isso aí, só isso aí você já vê que é um sentido muito, a preocupação que tinham os dirigentes de Vale do Rio Doce. E outra coisa: entrava presidente, saía presidente isso não mudava. Não mudava por quê? Porque o segundo e terceiro escalão não mudava. Eram sempre as mesmas pessoas. Dificilmente você trocava uma pessoa ou outra. Era muito difícil. Então a gente já entrava na Vale fazendo essa idéia de que ia fazer carreira. E esse espírito ele mantém até hoje. Mantém até hoje. Vitória tem a Desportiva Ferroviária. De quem é a Desportiva Ferroviária? Os ferroviários da Vale do Rio Doce. Em Itabira tem o Valério. De que é o Valério?

P/2 – É o time, né?

R – É o time de futebol. Disputa lá os campeonatos. Da Vale do Rio Doce. E a Vale subven..., agora não, mas antigamente subvencionava esses times. Eles recebiam uma subvenção da Vale. Pra cada empregado que fosse sócio a Vale dava x. então eles podiam ter bons times, boas festas, boas coisas, tudo isso. Agora não, agora cada um se vira por si só. Colégio, a Vale mantinha colégio pros empregados. No estádio da Desportiva em Vitória embaixo do estádio era, era porque fecharam, era um ginásio. Era um ginásio! Todo lugar tinha escola. Escola primária, escola... assistência médica, hospitais. Então a Vale tinha esse espírito. Então a gente se sentia muito seguro na Vale. Não pensava em sair. Porque é que eu vou sair? O que eu vou fazer lá? Vou perder tudo isso?

P/2 – E o senhor pra seus filhos, também desejava que eles entrassem na Vale?

R – Olha, eu vou dizer não. Pelo seguinte: porque meu filho, um primeiro, você veja como eles escolhem os campos e os campos de atividade deles fugiu um pouco da Vale do Rio Doce. Veja só: o meu mais velho é arquiteto.

P/2 – Na.

R – O meu segundo é médico. A minha terceira é química. A outra, a quarta é contadora. Essa podia. Mas essa foi que fez concurso pra Caixa Econômica, trabalha na Caixa Econômica, não saiu. E a última é psicóloga. Então, nunca tive, quer dizer, a escolha livre deles, eles escolheram atividades que eu não via muito caminho à eles ali na Vale não, por essas circunstâncias. E eu também me aposentei em 77, né? Saí em 77.  Em 77 foi quando meus filhos, o primeiro começou a se formar, né, aí voltou pra Vitória todo mundo voltou pra Vitória. Só tem uma aqui.

P/1 – Esses benefícios que o senhor comentou e essa relação um pouco com a escola, hospital, com o funcionário. Isso já nasce na Vale. Quer dizer, quando o senhor 43, 44...

R – Já tinha.

P/1 – Isso já existia?

R – Já existia. Isso vem desde a estrada, vem, olha, isso vem desde o tempo... que a estrada é o seguinte: era a Estrada de Ferro Vitória-Minas, tá? Que era a família do doutor Pedro Nolasco que era o dono da Estrada de Ferro Vitória-Minas. Depois ele vendeu ficou Companhia Brasileira de Mineração. E depois então voltou a ser Estrada de Ferro Vitória-Minas e a Vale. Então, mas isso vem desde o tempo... desde o tempo do meu pai. Esse espírito de coisa já existia na Vale do Rio Doce. É como a gente dizia: vestia a camisa. Nós sempre vestimos a camisa da Vale. Primeiro lugar os interesses da Vale, depois os nossos. Pessoas que passavam, às vezes tombava um trem, descarrilava um trem o sujeito ficava três, quatro noites sem dormir, virando ali. Cochilando pra tirar o trem porque tinha os programas de transporte de minério, de 43 pra cá. Tinha que alcançar. Todo ano era um desafio. Tinha que vencer o desafio do ano, o número de exportação, transporte e exportação do ano passado. Então aquilo era uma loucura, né? Todo mundo era ter, cento e tantos vagões de carro, de minério. Cento e tantos vagões de minério puxando aquilo. Então era um desafio. Os orçamentos eram feitos com as metas. A gente sabia que tinha que... e não e, a meta orçamentária tinha que ser batida, não era... Se batesse aquela que estava lá não servia não. Tinha que ser mais. Então esse espírito sempre existiu na Vale.

P/1 – O senhor saiu a primeira vez, por que é que exatamente que o senhor saiu? Foi pra trabalhar no Instituto?

R – Eu fui trabalhar no Instituto, porque eu... problema de salário. Você pra ter 50 mil réis de salário, mas eu fui pra uma atividade ligada à Vale. Era extremamente ligada à Vale. Aí, veja só, naquela época você pra ganhar um aumento de 50 mil réis quando a Vale deu em 1943, em princípios de 43, 50 mil réis de aumento foi uma festa em Vitória, louca. Foguete e o diabo. Veja só, e eu estava entrando na Vale. Ganhando 350 mil réis naquele tempo. 350 cruzeiros. Cruzeiro? 43 era cruzeiro?

P/2 – (Risos)

P/1 – Não sei.

R – Ou mil réis, ou uma coisa assim...

P/1 – Era um bom salário?

R – Era um bom salário. Bom, eu saí da Vale, já tinha um certo nome ali. Fui pra Caixa ganhando 1950. Bom, eu disse: “Bom, pra ganhar 1950, continuar na Vale praticamente na mesma coisa. Com os mesmos amigos. As mesmas pessoas. Vivendo as mesmas pessoas. Atendendo as pessoas, as pensionistas que vinham para aqui. Os colegas que aposentavam que iam para lá. Então eu: “Não vou perder essa, né?” Aí eu fui. Mas sempre com o pensamento de voltar. Em 65 eu voltei. Aí saí em 77 aposentado.

P/1 – O problema dos aposentados naquele período era... os problemas que eles levavam pra vocês era muito diferente do...

R – É, era muito diferente. Muito diferente. Muito diferente. Que os de hoje?

P/1 – Hum...

R – Você tem aposentado antes da Valia e depois da Valia. Antes de 73 e depois de 73. Os de antes de 73, coitados, eu até que a gente tentou por várias formas estudar uma maneira de traze-los para dentro da Valia. Criar uma coisa. Mas como o contingente era muito grande e o encargo financeira para a Vale era muito alto. Só pra pegar os que já estavam naquela época foram 51 milhões de cruzeiros. Encargos dos riscos iminentes e pré-iminentes. 51 milhões naquela época. A Vale deu 16 milhões num cheque, que eu recebi, e a diferença ela pagava 1% sobre a folha de salário. Pra nós um grande negócio. 1% da folha de salário, é muito mais do que eu aplicar o dinheiro naquela época, né? E eu era o diretor, eu fui o primeiro, recebi esse cheque: 16 milhões de cruzeiros. Se você trouxesse aquele contingente de antes de 73, aqueles que não receberam nada da Companhia quando se aposentaram e aqueles que receberam prêmio num período x que não me lembro qual seja, mais as pensionistas, o encargo era extremamente grande. Você inviabilizava qualquer plano. Porque você já tinha os riscos iminentes. Você já tinha que pagar no outro dia. No outro você tinha que pagar eles, né, que eles já estavam aposentados. Então foi muito, era, a gente tentou, estudou. Eu e o Costa procuramos com o professor Rio Nogueira – que era o atuário contra tudo, né? – o Marechal Zé Lindemberg, mas infelizmente, desgraçadamente nós não pudemos contemplar eles. Mas eles, aquilo que eu falei: a inflação comia deles. Ele recebia o prêmio, ele ganhava na Companhia 2.000 reais, 2.000 cruzeiro naquela época. Se aposentava com 10 salários mínimos. Naquela época devia ser 800, 700... O que é que ele tinha? Ele tinha um padrão de vida pra 2.000, pra receber 800? O que é que ele ia fazer? Esse prêmio ele ia suprindo todo mês. Até aonde? Até acabar. Com a maior rapidez acabava.

P/1 – Essa foi uma determinação da diretoria, o surgimento da Valia? Quer dizer a previdência da empresa?

R – Foi, foi. É uma reivindicação antiga. Os empregados revindicavam isso muito tempo. E o primeiro, faça-se justiça, a primeira pessoa que resolveu pegar a coisa, num trabalho que ele fez muito simples, mas um trabalho – pelo menos foi o início – foi o doutor Costa Braga. Ele era superintendente da administração. E foi sucedido por Arildo Zorzaneli. Esses dois então, com o Marechal e com o doutor Raimundo Mascarenhas foram ao Ministro, conversaram com o Ministro e o Ministro topou a idéia. Porque senão a Vale ia ficar com um quadro extremamente envelhecido. Porque ninguém ia se aposentar pra ganhar o que o INPS pagava. Mesmo que você desse um abono a ele, um prêmio, mas não resolvia nada porque ele sabia que a inflação ia comer aquilo no menor prazo possível. E a suplementação não, ele tinha a suplementação e essa suplementação toda vez que o INPS altera o salário, o benefício, a Valia também altera o benefício na mesma proporção. Se o INPS der 10% ela dá 10. Se der cinco ela dá cinco. Então você tinha, naquela época, o INPS dava 50 você tinha uma autorização. Então se tinha uma inflação você estava pouco se incomodando, você tinha a reposição dela. Então isso foi um grande passo. Na área que eu atuei mais, né? Eu sempre fui mais voltado pra essa área de recursos humanos, de assistência ao empregado eu sempre gostei muito disso. Eu sempre fui um brigador pra isso. Nessas coisas eu sempre estou na frente. Em associação nossa eu sempre estou na frente. Eu sempre procuro estar na frente porque eu acho que é a minha obrigação de fazer, né? Não vou me acomodar, tal. Vou lutar, até enquanto eu viver eu vou lutando. Até o dia que eu morrer, acabou. Vem outro fazer a mesma coisa que eu faço.

P/1 – Nesse processo de consolidação da Valia, de formação, né, da Valia, o funcionário, como é que ele recebia a idéia originalmente? Havia desconfiança? Como que foi isso?

R – Não, pra você ter idéia. Pra você ter idéia. Eu comecei em março a divulgar a Valia, em setembro ela foi instituída oficialmente. Adesão: 97%.

P/1 – 97%.

R – 97% de adesão.

P/1 – Houve então um trabalho de divulgação?

R – É como eu disse, né? Eu fiz o trabalho de divulgação – eu deixei com aquela menina, a Débora, eu deixei um livreto que depois vocês me devolvam por que aquilo é (inaudível), em que nós distribuímos pra todos os empregados aquela, aquele livreto. A par de fazer essa coisa, nós escolhemos em cada local de trabalho, em cada oficina, em cada escritório, em cada aglomerado de empregado nós criamos, escolhemos um que a gente sabia que tinha uma certa liderança. Que tinha uma certo quedo de convencimento. Então, uma queda de convencimento. Um cara mais um pouco instruído. Então nós escolhemos. Eu reuni esse pessoal, todos eles em Guarapari. Em um hotel em Guarapari. E fiz durante uma semana uma explanação do que era a Valia a todos eles. Eles aí voltaram para os seus local, e deram, anunciaram. Aí eles, passado um tempo, eles receberam esse livreto que eu deixei com a Débora, tá, você vai ver como é que foi divulgado. Foi feito um vídeo, um áudio. Foi feito um áudio. Onde se divulgava o que era a Vale, tá, tá, tá. E foi feito, pedido então os requerimentos de adesão que eram então enviados pra essa pessoa. Essa pessoa entregava a cada um dos seus colegas de serviço. E eu saí então, terminado isso, antes disso, eu saí e fui a cada oficina. Eu começava, pra você ter idéia, eu pegava uma turma meia-noite em Itabira, por exemplo, a turma que largava a meia-noite, eu entrava, ficava com eles até duas e pouco da manhã. Ia no hotel tirava um cochilo pegava a turma que entrava as seis horas da manhã. E assim eu fiz na estrada, na mina, tá? Em Belo Horizonte, aí o escritório no quilômetro 14. Todos os lugares que tinha eu fiz palestra sobre a Valia. Com isso a divulgação foi feita toda. Sobretudo eu acho que o grande sucesso não foi as minhas palestras – eu acho que eu contribuí com alguma coisa – mas pra mim o grande sucesso foram esses líderes que foram escolhidos que estavam ali permanentemente. Então hoje, desses 3% que... de vez em quando aparece um arrependido porque não fez.

P/1 – Dos 3% que não...?

R – Que não fizeram. De vez em quando aparece um arrependido que não fez. Ou ele, ou a mulher ou... Então ele quer. Agora não. Aí também tinha uma condição: se ele não fizesse ali dentro dos 90 dias que foi aberto o prazo, ele quando entrasse ele ia pagar uma jóia pra entrar. Porque o quê? A jóia foi paga pela Companhia naqueles 16 milhões que ela deu. Dali em diante ela se desobrigava, o cara tinha que pagar a jóia. Aí ficou caro, né?

P/1 – E financeira ela estava... nasceu sólida, digamos assim?

R – Ah, ela ainda é sólida. Ela é sólida. Olha, eu nunca fui no INSS, porque a primeira que nós fizemos foi fazer um acordo com o INSS. Nós fazia, recebia o requerimento de aposentadoria, fazia todos os cálculos levava no INPS, homologava. A Valia paga em nome do INSS, depois vai no INSS e se reembolsa. Então eu nunca recebi nada do INPS. Eu nunca recebi um dia atrasado. Sempre o penúltimo dia útil do mês está lá o meu dinheiro. Então isso deu muita segurança. Agora isso tudo foi fruto de quê? Daquela mentalidade. Da gente ter vestido a camisa da luta. Do interesse do empregado. Do aspecto, que pouca gente se deu conta, do aspecto familiar que sempre foi a Estrada de Ferro Vitória-Minas. Lá em Itabira. Todo lugar. Tem um irmão, é um tio, é um primo e aquilo fazia mais uma congregação familiar. E isso incutiu muito na Companhia. Essa é a história da Vale.

P/1 – E a escolha do senhor para primeiro diretor superintendente, foi meio que natural nesse processo? Não?

R – (inaudível) pra mim, mandaram me chamar e me disseram: “Você começou, termine agora.” Aí eu tive que implantar, né? Desde o impresso do memorando até os impressos mais... Eu fiz. Aí eu escolhi três auxiliares bons que foram comigo, me auxiliaram, me ajudaram. Fiz, implantei. Depois aí, com o Roquete Reis eu saí e fui pro BNDS. Fiquei lá com o Arildo e com o Marcos Viana.

P/1 – Mas o senhor saiu por aposentadoria mesmo? Pelo processo de aposentadoria por 35 anos?

R – Não, aí eu não voltei mais à Vale.

P/1 – Mas o senhor saiu em 77 porque venceu os 35 anos?

R – Porque venceu os 35 anos. Senão eu caía naquela compulsória, nos 120 dias, né? Começava a diminuir, né?

P/2 – (Risos).

R – Agora a Vale é o que eu disse a vocês: o grande impulso da Vale começou com Juraci Magalhães. Pelo seguinte: o preço que a Vale recebia pelo minério exportado era ínfimo, muito pequeno. Muito pequeno. Muito pequeno também porque a Vale naquele tempo, você pra carregar um navio, era na pá. Você carregava o navio, botava o guindaste, o trem vinha jogava aquele minério no chão, o cara na pá, botava, suspendia o guindaste e botava lá dentro do navio, né? E então o Coronel Juraci Magalhães que era presidente naquela época, ele conseguiu um bom aumento de preço. Depois veio o Eliezer mais tarde e conseguiu melhor ainda. Planejou. Porque o Eliezer era um homem de visão, né? O Eliezer era um homem de visão. E ele sempre dizia que a gente tinha que administrar não com o farol baixo. Você tem que administrar com o farol alto, sempre olhando lá na frente não o que está aqui embaixo. Desliga aí que eu vou contar uma de Eliezer que esta eu não posso deixar.

P/2 – (Risos)

R – Dá pra desligar?

P/2 – Dá.

P/1 – Dá uma pausa.

P/2 – Está ligado.

R – Não, pode deixar. Então o Porto de Tubarão foi o doutor Oscar de Oliveira que terminou. O Eliezer começou e o Oscar de Oliveira... já foi o Castelo Branco que inaugurou, essas coisas. O Porto de Tubarão deu um impulso à Vale extraordinário, né? Porque aí começou o problema de mecanizações. A Vale começou a se mecanizar, começou a se modernizar. Começou a ir gente pro Japão, gente pra Europa pra se... é, é, é... estudar, né? E tudo isso trouxe pra Vale um desempenho espetacular. E a Vale hoje a gente lamenta que ela tenha sido vendido pelo preço que foi vendido. Porque ela valia 10 vezes mais do que estava lá. Só a mística da Vale, né, valia o que pagou lá.

P/1 – O senhor estava na Aposvale na época da privatização, ou não?

R – Estava.

P/1 – como é que a Aposvale se colocou ou como que...

R – Ora, você sabe que era um processo... o aposentado ele é relativo a atuação dele. Então os empregados não quiseram e tal, mas é a tal coisa, né? O sujeito pensa um pouco. E nós aposentados, é o seguinte: havia um déficit atuarial – porque a Vale no interregno, no final dos últimos anos dela como estatal ela mandou que a Aposvale fizesse muita coisa, que a Valia fizesse muita coisa que não estava no estatuto pra ela poder rejuvenescer seus quadros. Já não estava mais satisfazendo àquela gente receber o que eles estavam ganhando na atividade. Por quê? Porque também, evidentemente que, os índices do INPS já eram mais baixos. Então ele criou umas outras DDE’s por aí, umas gratificações. E então isso ocasionou um déficit atuarial na Valia de cerca de 400 milhões de reais. Aí é que vem a atuação do aposentado. Quando, na véspera, nas vésperas da coisa, a Aposvale entrou com ação em juízo citando do INPS, para que do edital de privatização constasse esse fato: que quem adquirisse assumia o déficit atuarial de ta, ta, ta, ta. E fez na mesma hora. Fez e (inaudível). Agora a Vale mudou o plano, evidentemente que o mundo mudou. Quando nós fizemos o plano fizemos a 25 anos atrás, 27 anos atrás. Hoje a 27 anos atrás mudou, ela mudou o plano. Ela mudou a configuração do plano. E, o famoso déficit vai ser pago agora à Valia. A Valia vai receber esse valor que os aposentados fizeram constar lá do (inaudível). Quer dizer, foi uma vitória dos aposentados. Foi uma luta nossa, que nós conseguimos imediatamente, isso aí. Isso é uma coisa que tem que ser creditada à Aposvale. Senão ficava... não estava no edital eu não sou obrigada a pagar, né? Mas consta do edital.

P/1 – Os aposentados associados da Aposvale, quer dizer, eles levantavam, levavam opiniões sobre privatização...

R – Mas eles ainda levam. Ah, levavam. Ainda lutam muito. Ainda levam. Ainda levam. Ainda levam muita coisa. Mas muitos já.... Eu acho que o processo é irreversível. Eu acho que o processo da privatização dessas estatais todas é irreversível. Pode vir outro governo: seja ele PT, ou PMDB ou qualquer outro, tornou-se irreversível. O mundo mudou, né? O mundo mudou, a Vale também entrou nisso. Muito embora ela tenha sido uma estatal que nunca precisou de dinheiro do Governo. Dizia o, esse senador... ele agora é deputado, senador, esse Roberto Campos que a Vale não dava dividendo ao Governo. Só que ele esquecia de um fato: que a disponibilidade financeira da Vale era aplicado pelo Banco Central que ficava com o resultado da disponibilidade (risos) que era muito mais do que os dividendos, né? Ele esquecia. Ele esquecia não, ele tirava isso, ele não dizia isso porque ele tinha que servir a outros senhores. Está dado o recado.

P/1, P/2 – Hum.

(Pausa).

R – Deixa eu ver quanto tempo eu já estou falando, né, rapaz, eu estou ficando...

P/1 – Duas horas, já.

R – Agora já falei tudo, né? Ou tem mais alguma coisa pra falar?

P/2 – Não...

R – Não sei se foi muito valioso mas...

P/1 – Está ótimo, ótimo!

R  - Contribui com aquilo que eu sei, com aquilo que eu senti...

P/1 – E sobre a presença política na Vale do Rio Doce, o senhor sentia alguma coisa?

R – Não.

P/1 – Uma interferência? O fato de ser estatal...

R – Não havia influência política. É aquilo que eu disse a vocês no início: mudava o presidente, mudava alguns diretores, mas o segundo time que era de superintendentes e o terceiro time de gerentes não mudava. Então ele era neutralizado lá em cima. Não havia. Não havia. Podia haver uma ou outra concessão mas como norma, como coisa, a Vale sempre foi muito arredia a esse tipo de política. Mesmo a participação de empregados na política havia, mas dentro da Companhia não. Fazia fora, mas na Companhia não.

P/1 –Esse período que o senhor, da Valia e tal o senhor veio morar no Rio? O senhor passou a morar aqui?

R – Não, eu vim morar no Rio quando eu estava no Instituto, quando eu vim pra ser o contador geral. Porque as caixas foram fundidas, as caixas todas e eu vim pro Rio em 62. Em 65 eu voltei pra Vale.

P/1 – Como é que foi essa mudança de Vitória para o Rio para o senhor, pessoalmente?

R – Olha, não foi muito fácil não, né? Você vive a sua, quarenta e tantos anos, cinqüenta anos. (Inaudível) 62 eu tinha 37 anos. Vivendo 37 anos num lugar você mudar, vem pra uma cidade grande diferente... eu vivia (inaudível) eu era da caixa depois vim ser, era delegado, quer dizer problema restrito ao Espírito Santo eu passar a viver um problema do Brasil inteiro, né? O Instituto, as caixas viviam dificuldades financeiras e ter que pagar aposentado. Aí sim eu tive que comprar brigas violentas, né? Comprei brigas violentas. Comprei briga com Governo, comprei briga com Ministério. Briguei briga com uma porção de gente, mas eu sempre mantive na minha conduta de, eu consegui ao deixar a contadoria do Instituto, nós conseguimos naquela época que em todo lugar do Brasil as aposentadorias e pensões estavam sendo pagas em dia. Quando vivia com três, quatro meses de atraso. A luta foi grande.quer dizer mudou muito, a minha visão da vida mudou muito, né? Eu saí de uma visão muito restrita de local, de Vale do Rio Doce e Vitória, IAPFESP e Espírito Santo, pra viver uma realidade nacional, né? Aí eu passei... E no fim eu ter essa decepção que eu contei pra vocês dos amigos. Ter que puni-los e fazer isso. Isso por muito que você seja muito rigoroso, muito cioso da sua obrigação, machuca um pouco a gente. Machuca sim.

P/1 – Depois que o senhor se aposentou da Vale, o senhor trabalhou no BNDS né, o senhor comentou?

R – É, fiquei na Caraíba Metais até 80.

P/1 – Até 80?

R – Até 80. Eu tinha entrado em 74 e fiquei até 80. Depois fui pra Internacional de Engenharia, fiquei mais 10 anos lá.

P/1 – Na Internacional de Engenharia a atividade do senhor?

R – É, sociedade privada, tinha....

P/2 – Qual era a função do senhor lá?

R – Eu fui diretor de administração. Era aqui no largo do... aqui no Cosme... aqui no... esse prédio grande que tem ali no... aqui nas laranjeiras, subindo a Rua das Laranjeiras. Fizeram agora uma praça ali em frente. Aquele prédio lá em cima `esquerda.

P/1 – Era o do... o Zorzaneli? trabalhava lá também, não era?

R – O Zorzaneli? Não.

P/1 – Não?

R – O Zorzaneli é Caraíba Metais.

P/1 – Caraíba Metais.

R – Eu estou falando Internacional de Engenharia.

P/1 – Tá.

R – A Caraíba era na cidade, no boquel...

P/1 – Mas o senhor foi pra Bahia? O senhor chegou a morar na Bahia?

R – Fui. Fui em dezembro de 79, voltei em junho de 80. Passei seis meses lá. Passei seis meses lá. Lá sim. Lá é que a política é muito forte. É muito forte. Se você, eu como não era político, não me amoldava à essas coisas, eu tive que tirar meu time de campo e vim me embora.

P/1 – E atualmente atividade do senhor, qual que é?

R – Ah, minha atividade hoje é um aposentado fazendo controle numa agência de viagem.  Chego lá de manhã, quando dá três horas, três e pouco, quatro horas eu venho, aí vou pra Aposvale.

P/2 – (Risos).

R – Fico lá até as cinco e meia, seis horas, e vou pra casa. Só pra encher o tempo. Porque eu não quero parar de trab... Porque eu acho que se eu parar de trabalhar eu vou entrar num processo de depressão. Vou ter que fazer alguma coisa. Nem que for pra jogar dama na praia eu vou ter que... (Risos) vou ter que fazer.

P/1 - Seu Faria, como é que era o convívio dos colegas da Vale, quer dizer, fora da Vale? Que tipo de convívio se tinha?

R – Olha, era um conv... Havia grupos, tá? Não era geral não. Tinha um grupo que tinha um certo grupo de amizade. Outro tinha outro grupo de amizade, mas eles não se digladiavam não. Eles se davam todos muito bem. Mas eram grupos de pessoas, né? Mas todos se davam muito bem. Essa, foi por que eu disse aquela festa de confraternização de fim de ano é pena ter terminado. Ali era mulher, era filho, era neto, era empregado. Todos se confraternizavam. Desde o contínuo ao presidente da Companhia, né? Então havia uma... Agora não era assim de todo mundo não. Era grupos, né? Um grupo tinha uns... de amigos, outro grupo tinha outro, outro grupo tinha outros.

P/1 – E atualmente o senhor mora com?

R – Atualmente eu não posso dizer mais nada.

P/1 – Não, mas atualmente o senhor mora com?

P/2 – Mora com quem?

P/1 – Mora com quem? A esposa?

R – Com a minha mulher.

P/1 – Sua mulher?

R – Só minha mulher.

P/1 – Hum.

R – Os filhos já foram embora.

P/1 – Tem neto já?

R – Tenho seis. Tenho dois em Vitória... tem quatro em Vitória e dois aqui. Os daqui são gêmeos.

P/2 – Esse sentido de arraigo à família, ainda continua com seus filhos?

R – Ah, eu faço questão absoluta. Ainda ontem eu comentava isso com a minha mulher. Eu liguei, o meu filho me ligou e disse: “Ô pai, como é que vai?” – aquela conversa de filho, né, e – “eu estou esperando Fulano, Fulano, Fulana...” os irmãos, “...que vêm lanchar aqui comigo hoje. Porque domingo nós lanchamos na casa...” Eles sempre lancham um na casa do outro. Isso é uma... E eu faço questão absoluta que eles mantenham isso, sobretudo. E muito que eles continuem sendo, visitando, conversando, procurando saber da vida dos tios e dos primos. E sem família o que é que você vai fazer? Sem família você não vai fazer nada. Agora, sou homem de poucos amigos. Sou homem de poucos amigos. Não tenho muitos amigos. Amigos como a gente diz amigos talvez eu conte no dedo da mão. Conhecidos a gente tem muitos, né, amigos a gente tem pouco.

P/2 – E as festas familiares: dia dos pais, Natal, acontecem, as grandes reuniões os filhos vêm pra cá?

R – Natal.

P/2 – Ou vocês vão pra lá?

R – Natal, todos vêm pra cá. Passa a festa de Natal é aqui. 31 cada um faz, uns ficam aqui, outros vão pra casa da sogra, outros vão... mas Natal é na minha casa. Agora mesmo nós vamos fazer a festa de Bodas de Ouro, e eles é que estão organizando. Eu não sei de nada.

P/2 – (Risos).

R – Não estou gastando dinheiro, nem estou sabendo de nada.

P/1 – Vai ser lá em Vitória? Ou também não sabe?

R – Vai ser em Vitória.

P/1 – Vai ser em Vitória?

R – Vai ser em Vitória, porque meus irmãos, meus sobrinhos, minha família toda mora lá, né? Trazê-los de lá pra cá, é... Então é mais fácil eu ir e minha mulher, minha filha e meus netos. São quatro, quatro pessoas, seis, cinco pessoas ir pra lá do que vim pra cá 50 ou 60.

P/2 – Vai ter novo casamento?

R – É, é, novo casamento. Vai ter novo casamento. 50 anos. Eu digo pra minha mulher, pra terminar, 50 anos não são 50 dias que você suporta o filho do seu Faria (Risos).

P/2 – (Risos).

P/1 – (Risos) E lazer seu Faria? O que é que o senhor faz da vida?

R – Eu sou extremamente sedentário (Risos).

P/1 – Ahn... (Risos).

P/2 – (Risos).

R – Eu, andar, eu vou ao médico, o médico diz pra mim: “Mas o senhor tem que andar.” Eu digo: “Doutor, se eu gostasse de andar eu ia sentar praça na polícia” (risos).

P/1, P/2 – (Risos)

R – Porque andaria pra chuchu, né? Eu tenho verdadeiro pavor de andar. Sobretudo no sol. Eu não gosto de sol. Não gosto de sol.se você mandar eu andar numa alameda toda arborizada, eu ainda vou. Mas sol? Eu moro em Copacabana. Aquele calçadão da Avenida Atlântica me causa uma repulsa.

P/1, P/2 – (Risos)

R – E a minha mulher me faz ir, quer que eu vá agora: “Você tem que ir.” “Eu estou pensando.” Ah, eu sou extremamente (inaudível). Eu saio de manhã as oito horas, vou pra agência. Fico lá no down town, almoço lá. Pego três e meia, quatro, pego o carro vou na cidade encosto no estacionamento. Vou na Aposvale converso com os amigos. Vou pra casa, mudo de roupa vou ver a televisão. Nove e meia procuro lugar pra dormir, vou dormir. Cinco, seis horas eu estou acordado. Extremamente sedentário. Domingo. Sábado e domingo. Ontem a minha mulher conseguiu me levar no cinema! Eu não vou. Muito sedentário. Eu reconheço que eu estou fazendo um grande mal pra mim mesmo. Mas o que é que eu vou fazer? É da minha índole, né?

P/2 – Caseiro.

R – Lazer eu não tenho nenhum. Só ver futebol na, ver meu Fluminense na televisão. Aliás nem isso eu estou vendo, hein? Eu vejo dos outros times, do Fluminense eu desligo.

P/2 – O Fluminense está melhorando!

R – Está melhorando mas ainda falta muita coisa para ser Fluminense.

P/2 – (Risos).

R – Que era do meu tempo.

P/1 – Seu Faria, o senhor, a sua trajetória de vida, se o senhor pudesse, se tivesse que começar de novo: o senhor mudaria alguma coisa nela? Não faria alguma coisa que o senhor tenha feito?

R – Se eu tivesse que mudar a vida... Bom, eu vou te devolver uma pergunta, tá? Você quer uma resposta se eu vivesse hoje como eu vivia naquele tempo, ou resposta que deu hoje com a vida de hoje? Como é que você quer a resposta?

P/1 – (Risos) O senhor pode responder da forma que o senhor quiser.

R – Se hoje fosse como era antigamente, eu ia viver exatamente o que eu fiz, tá? Se for a vida de hoje, se eu começasse a vida hoje, que nem um rapaz, minha vida seria totalmente diferente, não seria nada disso. A minha vida seria outro rumo, outras coisas. Não seria o que eu fiz na minha vida. Mas fiz com muita satisfação, com gosto. Porque está na minha... hoje a gente muda muito, né? Hoje tudo é difícil, né? Muito difícil a vida hoje. Eu fico vendo essa mocidade aí. Vocês começando a vida agora, né? Tem uma estrada grande, viu? A gente naquele tempo sabia o que era o futuro. A gente sabia o que é que ia acontecer. Hoje você não sabe nem o que vai acontecer o mês que vem. Por isso que Eliezer dizia: “Administra não com farol baixo. Com farol alto.” Porque você tinha noção do que é o futuro. Do que é que ia acontecer. Hoje você pode projetar pra daqui a um ano. Duvido que você acerte, né, as coisas mudam muito. Não sei se a minha resposta te satisfaz.

P/2 – Hum, hum.

P/1 – E sonhos seu Faria? O senhor tem sonhos, projetos?

R – Não, já passei desse tempo. Não tenho mais sonhos.

P/1 – Hum, hum.

R – Não. Meu sonho é viver ainda mais uns tempos com minha família e ver meus netos crescer. Se possível casar. Eu vou fazer 75 anos o mês que vem. Dia 24 de outubro. Já paguei. Já estou vivendo dos créditos da vida.

P/1 – Seu Faria, tem alguma história que o senhor queira contar? Alguma coisa que queira contar?

R – Não, as histórias eu já contei. Já contei. Não tenho mais nada pra contar. Agora vou me tornar repetitivo e enfadonho.

P/1 – (Risos) Então eu vou fazer uma última pergunta pro senhor.

R – Pois não.

P/1 – O que é que o senhor achou e acha de participar de um projeto de memória sobre a Vale do Rio Doce?

R – Olha eu me senti muito honrado com isso. Eu me senti, foi uma satisfação não pra mim só como pra minha família de eu ter sido distinguido pela Companhia. Quer dizer que eu deixei alguma coisa lá, né? Eu não passei em branco na Companhia. Isso pra gente que está em fim de vida é uma satisfação muito grande. Pra família, pros filhos, netos, deve ter trazido pra eles algum orgulho. Muito possa parecer a pouca gente: “Isso é bobagem, isso não é nada.” Mas pra mim e pra minha família representou muito, né? Que eu não fui uma Carolina na vida. Que o tempo passou e eu não fiz nada. Quer dizer, eu fiz alguma coisa, fui lembrado e isso me tornou muito orgulhoso e muito satisfeito. Foi um presente de fim de vida.

P/2 – Legal, legal. Agradeço.

P/1 – Então eu agradeço demias.

R – Obrigado.

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